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domingo, março 13, 2016

573 - Problemas, apropriação e caraterização do exteriores privado – Infohabitar n.º 573

Problemas, apropriação e caraterização do exteriores privado – Infohabitar n.º 573

António Baptista Coelho
Artigo XC da Série habitar e viver melhor

Problemas correntes no exterior privado

Os problemas mais correntes em espaços exteriores privados ligam-se a aspectos de desconforto ambiental, insegurança no uso por crianças, apropriação indevida desses espaços com marquises envidraçadas e criação de problemas de falta de privacidade relativamente a vizinhos.

Sobre os aspectos de desconforto por negativa exposição solar e reduzida protecção relativamente aos ventos dominantes já se falou acima.

Relativamente à insegurança no uso por crianças e tal como se apontou no estudo do LNEC que tem sido citado, frequentemente (ITA 2), nunca é demais chamar a atenção para o espaço livre mínimo que deve ser previsto nos orifícios ou faixas livres nas guardas dos espaços exteriores privados e elevados (varandas, "loggias" e terraços), para a altura do seus parapeitos, para a inexistência de elementos horizontais nas guardas (facilitando a subida) e para o perigo que representam as guardas opacas, excitando a natural curiosidade das crianças; para não falar já do absurdo obstáculo que constituem às vistas exteriores a partir de posições sentadas, tanto nestes espaços como nos espaços interiores contíguos. E também nunca é demais salientar que tais condições devem ser igualmente cumpridas em todos os vãos exteriores e elevados das habitações.

Nestes aspectos associados ao conforto ambiental e à segurança no uso Dreyfuss e Tribel referem que há que ter em conta que as varandas/balcões (1): diminuem a iluminação natural dos compartimentos contíguos, o que implica a previsão de amplos vãos envidraçados; e podem provocar sensações de vertigem muito negativas, a compensar não só pela altura dos parapeitos e pelo desenho das guardas, mas também por espessuras, recuos e elementos intermédios (ex., floreiras largas). Portanto prever baterias verticais de varandas/balcões implica um cuidado acrescido no desenho dos compartimentos que lhes são contíguos.

É extremamente importante a questão das quedas de altura (ex., de crianças, idosos) devido ao deficiente desenho de guardas de varandas e outros espaços exteriores privados elevados, deve ser devidamente considerado, evitando-se, designadamente, guardas baixas e que as crianças possam usar estas guardas e outros elementos construídos (ex., foreiras) para subir (escalar), ou possam passar entre elementos das mesmas guardas; não faz qualquer sentido que o desenho destes elementos não seja devidamente considerado tendo em conta estes aspetos.



Fig. 01:  é essencial que o exterior privado seja tão agradável como seguro, estimulando-se, assim um seu uso intenso e prolongado como verdadeira extensão do interior doméstico  - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Kim Dalgaard, Tue Traerup Madsen.

Questões de apropriação e de uso do exterior privado

No que se refere à apropriação indevida destes espaços com marquises envidraçadas, considera-se que ou esta ocupação está devidamente programada e prevista em projecto, ou deve ter “tolerância zero”, e há aliás regulamentação específica, pois não faz qualquer sentido o verdadeiro assassínio que se faz de excelentes fachadas com o caos inestético da intervenção livre de cada um nas suas varandas e outros espaços exteriores privativos.

No que toca aos potenciais problemas de privacidade estes são, naturalmente, essenciais para o uso intenso do exterior privado, assim como a matéria associada à regulação e clarificação do seu uso, por exemplo para diversas atividades, como criação de animais e outras atividades com caráter mais rural.

Considera-se que há pormenorizações que tornam mais difíceis tais encerramentos caóticos de varandas e balcões com marquises envidraçadas, assim como há soluções que os facilitam e sublinha-se que com esta tomada de posição não se está a negar o interesse das marquises envidraçadas, mas apenas a sublinhar que elas devem ter uma previsão específica, seja através de uma execução prévia, como elementos activos nos diversos espaços da habitação e, por exemplo, com papel positivo no aproveitamento passivo da energia solar, seja através de um projecto-tipo, obrigatoriamente respeitado por todos aqueles que pretendam encerrar um dos balcões ou varandas do edifício, e sempre que o efeito final de uma tal acção esteja devidamente acautelado.

Naturalmente que esta forma de actuar tem de ter aplicação em todos os tipos de espaços exteriores privativos, não se limitando aqueles mais evidentes a partir dos espaços públicos; tem de haver sempre projectos-tipo que harmonizem as intervenções de ocupação parcial e de apropriação desses espaços exteriores e tem de haver uma estratégia de contínua visibilidade mútua e de vigilância “oficial” periódica mas activa capaz de garantir ordem e civismo na ocupação destes espaços; e frequentemente a razão para não se desenvolverem espaços deste tipo é que eles depois são anarquicamente ocupados, mas, também frequentemente, pouco se faz para garantir ordenamento nessa ocupação.

Fig. 02: a "velha" e extremamente crítica questão da "marquisação" deveria ter respostas perfeitamente claras e "obrigatórias" de modo a salvaguardar-se a dignidade e a qualidade da imagem urbana dos edifícios, por exemplo, através de soluções perfeitamente definidas (pré-definidas)  e bem harmonizadas com os respetivos projetos (realizadas pelos projetistas dos edifícios) - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Johan Nyrén.

Opções essenciais no exterior urbano privado

E ainda sobre esta matéria há que sublinhar que entre rodear edifícios de verdadeiras “manchas de óleo” de espaços públicos quase impermeáveis e desvitalizados – pois é impossível trabalhar para uma vitalização global de uma tal quantidade de espaços públicos – e optar-se por uma ocupação térrea significativamente marcada por quintais e pátios privativos, que concentra o espaço público em continuidades muito mais reduzidas, controláveis, equipáveis e vitalizáveis ( e portanto com um arranjo e uma manutenção mais económicos) e que atribui às habitações do rés-do-chão uma outra dimensão vivencial e de leque de actividades possíveis – desde a horticultura e floricultura ao convívio com animais domésticos.

Esta escolha parece lógica e há formas de controlar e harmonizar a intervenção apropriadora dos habitantes, seja tapando parte da vista pública e privatizando, agradavelmente, tais espaços de pátio ou quintal, seja obrigando à referida disciplina dos projectos-tipo de quaisquer equipamentos e anexos a introduzir, seja dinamizando o arranjo de tais espaços que tenham vista pública, por exemplo, através da participação pública nesse arranjo, e mediante concursos que dinamizem a estima privada e pública de cada rua, de cada praceta e de cada quintal. E sublinha-se o interesse que todas estas medidas acrescentam ao motivo principal desta série que é fazer uma habitação mais apropriável, mais satisfatória e mais estimulante.


Fig. 03: os espaços exteriores privados não podem caracterizar-se por quaisquer características de “residualidade”, têm de ser verdadeiros elementos protagonistas do conjunto integrado dos respectivos espaços domésticos e das suas influências públicas, em termos de uma adequada e rica caraterização da imagem urbana local  - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Henrik Haremst.

Caraterização do exterior urbano privado

Segundo Alexander, os terraços, pátios e jardins contíguos e privativos dos pisos térreos habitacionais devem caracterizar-se sem ambiguidades, por uma clara abertura ao exterior público ou por um forte bloqueio da comunicação visual com esse exterior (2) (mas respeitando a comunicabilidade do interior privado sobre o exterior).

Mas é perfeitamente possível associar uma tal abertura, em zonas frontais, a um recato mais marcado em zonas de traseiras, uma variação que só enriquecerá as respectivas imagens urbanas.

A permanência no exterior privativo pode ser motivada ou pode ser desmotivada e tudo tem a ver com a localização, o dimensionamento e pormenorização de cada espaço exterior privativo. Preverem-se espaços exteriores privativos apenas porque “ficam bem” numa determinada fachada de um dado edifício, não faz qualquer sentido, sendo, provavelmente, muito preferível a opção por janelas de sacada ou mesmo por mínimas varandas de assomar, soluções estas que irão permitir aquela liberdade “mínima” de se poder “sair”, facilmente, do espaço privado doméstico, por exemplo, para fumar um cigarro ou simplesmente para se apreciar o ar exterior, o que é sem dúvida importante como liberdade fundamental no uso de um espaço doméstico.

Mas ao optar-se por se fazer um espaço exterior privativo elevado ou térreo, então há que o projectar com um máximo de atenção e de cuidado, considerando os aspectos que foram aqui apontados e tendo presente que estes espaços não podem caracterizar-se por quaisquer características de “residualidade”, têm de ser verdadeiros elementos protagonistas do conjunto integrado dos respectivos espaços domésticos e das eventuais influências públicas que estes espaços tenham; e acredite-se que havendo aspectos de residualidade e de menor atenção a estes espaços o resultado será a sua transformação em verdadeiros espaços residuais, mal usados e abandonados.

Notas
(1) D. Dreyfuss; J. Tribel, "La Cellule-Logement", p. 29.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 590 e 591.

·         Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XII, n.º 573
Artigo XC da Série habitar e viver melhor

Problemas, apropriação e caraterização do exteriores privado – Infohabitar n.º 573


Editor: António Baptista Coelho – abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



sábado, março 05, 2016

572 - Motivar o uso dos espaços exteriores privados – Infohabitar n.º 572


Infohabitar n.º 572 - Ano XII

Motivar o uso dos espaços exteriores privados – Infohabitar n.º 572

Artigo LXXXIX da Série habitar e viver melhor
António Baptista Coelho

Hábitos interessantes no exterior privado

Alexander refere (1) que o jardim, o terraço e o pátio domésticos foram, ao longo da história, espaços realmente habitados, privados e aprazíveis, ainda que pequenos eram verdadeiros “compartimentos” da casa, embora sem tecto construído, constituindo verdadeiras salas de estar e saletas ao ar livre. Uma virtualidade doméstica que estava, naturalmente, associada aos grupos sociais mais favorecidos – lembremos Roma e a disparidade das condições domésticas entre quem vivia em Villas ou em Insula - , mas que hoje em dia pode ser “reciclada” para um uso muito mais universal e vulgarizado, até porque espaços sem janelas e quase sem instalações são espaços baratos de construir.

Naturalmente que para se conseguirem bons resultados na criação de verdadeiro espaços domésticos de estar, de convívio e de refeições no exterior privativo há, como já se apontou atrás, que os orientar e proteger bem relativamente às condições de insolação e de ventos dominantes, e que os pormenorizar e caracterizar como suficientemente encerrados ou com configurações fortemente afirmadas, nomeadamente, nos cantos, e com amplas zonas cobertas ou bem protegidas por toldos e pérgulas; e estes ambientes deverão ser expressivamente recatados em relação ao exterior público e claramente revelados e exibidos no interior doméstico, nomeadamente, através de janelas panorâmicas, que propiciem uma estratégica e sempre estimulante fusão de amplos espaços interiores e exteriores.



Fig. 01:  pequenos pátios privados no terraço de multifamiliares, mas com todo o caráter de exteriores "térreos" - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Ralph Erskine.
 .

Motivar o uso do exterior privado

Como características desejáveis nos espaços para permanência no exterior privado, além de terem uma adequada insolação e estarem protegidos do vento e proporcionarem vistas exteriores agradáveis e úteis, salienta-se a respectiva capacidade para aceitarem conjuntos de mobiliário de exterior e equipamentos para lazer e tempos livres, capazes de motivarem o estar no exterior de pessoas, isoladamente ou em grupo.

Como condições mínimas, por exemplo, uma varanda deve disponibilizar espaço para um pequeno grupo de pessoas sentadas em torno de uma mesa ou para duas cadeiras de repouso lado a lado, enquanto um quintal privado deve proporcionar uma zona pavimentada para se realizarem pequenas festas e convívios domésticos.

Segundo Alexander, os espaços exteriores elevados mais usados são aqueles com dimensões mínimas de cerca de 1.80m (outro patamar ainda mais reduzido é definido pela dimensão mínima de 1.20m), total ou parcialmente reentrantes nos volumes edificados, ou "amparados" em saliências desses mesmos volumes, porque são sentidos como mais privados (relativamente a vizinhos), abrigados e seguros. (2)

Utilizando elementos de um estudo que realizei para o LNEC em 2000 (ITA 2, “Do bairro e da vizinhança à habitação”), e em termos de conforto ambiental no exterior é essencial que os espaços exteriores privativos estejam resguardados dos ventos e tenham agradável exposição ao Sol, essencialmente, de manhã e ao fim da tarde.

Por exemplo, o uso das "loggias", sendo mais satisfatório do que o uso de varandas com idênticas configurações, é também mais sensível à escolha das melhores orientações, relativamente ao Sol, aos ventos dominantes, à proximidade dos ângulos dos edifícios e à altura ao solo (o vento aumenta próximo desses ângulos e com a referida altura) e aos ruídos exteriores; e sobre esta temática Lamure é da opinião que não se podendo desenvolver "loggias" com excelentes condições de conforto ambiental mais vale atribuir esses espaços ao interior dos respectivos fogos (3), o que parece ser uma excelente opção e uma opção que faz evidenciar a questão do encerramento anárquico de marquises.

Fig. 02: exemplo do que pode ser a grande diversidade de espaços exteriores privados   - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Greger Dahlström.

Opções no exterior privado

Nesta matéria julga-se importante destacar três opções de actuação: uma primeira que passa pela previsão inicial de um encerramento de determinados espaços por marquises; uma segunda opção que passa pela oferta de espaços abertos mas cujo encerramento seja opcional, embora esteja perfeitamente clarificado em termos das suas soluções e imagens pormenorizadas; e uma terceira opção referida à tolerância zero relativamente a qualquer encerramento por marquises que não esteja convenientemente previsto e que, portanto, resultará sempre na grave deterioração da imagem do respectivo edifício.

Um aspecto fundamental em tudo isto e que pode mesmo anular toda a potencialidade de uso do exterior privativo, caso não seja adequadamente considerado, refere-se à necessidade de serem disponibilizadas perfeitas condições de segurança nesses espaços para o recreio de crianças; condições estas ligadas, essencialmente, à anulação ou redução dos riscos de queda das crianças para o exterior do respectivo espaço e de intrusão facilitada a partir do exterior.



Fig. 03:  exemplo de uma marquise que alia uma excelente vista paisagística a uma excelente imagem urbana da sua própria aparência (uma solução de verdadeira transparência no encerramento de uma varanda) - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Johan Nyrén.

Vistas nos exteriores privados

Uma outra matéria determinante no uso dos espaços exteriores privativos refere-se às vistas que eles devem propiciar, que devem ser interessantes sobre a rua e a paisagem envolvente, e à inexistência de quebras de intimidade doméstica, seja do exterior sobre estes espaços, seja a partir destes espaços sobre idênticos espaços privativos contíguos ou da vizinhança em grande proximidade. E nesta matéria o comentário que há que fazer é da ausência de sentido que tem qualquer varanda, ou outro espaço exterior privativo, cujo uso prejudique a intimidade e o conforto de outros espaços privados contíguos ou próximos.

Notas
(1)  Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 672 e 673.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 687 e 688.
(3) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 210.

·         Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XII, n.º 572
Artigo LXXXIX da Série habitar e viver melhor

Motivar o uso dos espaços exteriores privados – Infohabitar n.º 572


Editor: António Baptista Coelho –abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

terça-feira, setembro 04, 2012

406 - Viver intensamente, também o exterior (artigo); e notícias do 2.º CIHEL - Infohabitar 406


Infohabitar N.º 406

Notícias do 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono – 2.º CIHEL.

As duas Chamadas de Comunicações decorreram com grande êxito até 1 julho de 2012, tendo sido submetidos um significativo total de 225 resumos de comunicações (182 na 1.ª Chamada e 43 na 2.ª).
A entrega de propostas de resumos/comunicações está, portanto, encerrada, aproximando-se a data de envio das comunicações completas, EXCLUSIVAMENTE, para o seguinte endereço eletrónico, Email: comunicacoes2cihel@lnec.pt

. Comunicação da análise/aceitação das propostas da 2.ª Chamada a partir de 14 de setembro de 2012 - será tentada a possível antecipação a esta data.
. Abertura das inscrições: data a definir em breve.
. Envio do texto das comunicações, resumo alargado e dados complementares até 22 de outubro de 2012.
. Selecção final e eventual solicitação de revisões das comunicações até 30 novembro de 2012.
. Entrega da revisão final (quando aplicável): até 15 dezembro de 2012.

Na presente edição do Infohabitar continua-se a publicação corrente da série habitar e viver melhor.

ARTIGO DA SEMANA - ARTIGO DA SEMANA - ARTIGO DA SEMANA

VIVER INTENSAMENTE, TAMBÉM O EXTERIOR
Artigo XVII, da série “habitar e viver melhor”

António Baptista Coelho

Segundo Ken Kern, "o processo de planificação da casa e do lugar deve ser conjunto, havendo a mesma consideração no desenho de cada metro quadrado de espaço interior e exterior", e o autor sintetiza esta ideia de uma forma magistral quando nos diz que"ajuda pensar na habitação e no local como um grupo coordenado de compartimentos interiores e exteriores" (1).

E é bem nesta perspectiva que Gordon Cullen lança a muito estimulante noção de "paisagem interior e compartimento exterior" (2), e parece estar aqui bem lançada a ideia de uma caracterização residencial desejavelmente interior e exterior; de certa forma uma ideia de um pequeno mundo residencial de cada um em sua casa e de pequenos mundos residenciais comuns.

É interessante pensar nesta matéria do viver intensamente, também o exterior, como uma extensão, natural, da ideia que, há alguns anos, incidiu sobre o exterior urbano, recomendando que ele fosse pormenorizado e equipado com todo o cuidado; uma ideia que esteve frequentemente associada aos muitos casos de inacabamento crítico de conjuntos urbanos e habitacionais de interesse social que aconteceram (e ainda acontecem) em Portugal, onde apenas se proporcionava “alojamento” em edifícios, esquecendo-se a componente verdadeiramente urbana do habitar, mas uma ideia que, na prática e realmente, deveria marcar todas as intervenções urbanas, associando-lhes uma componente de projecto “do negativo”, ou “do espaço entre” edifícios, que tem de ter a sua aprendizagem específica e fundamental na oferta urgente de espaços urbanos agradáveis para serem vividos – numa referência directa ao título e tema de um excelente livro que, sobre esta matéria, foi realizado por Michel de Sablet e que merece ser relido e redescoberto (3).



Fig.01: ruas de Alvalade, Lisboa; urbanismo de Faria da Costa.

E, julga-se a propósito, temos de considerar que mesmo esse objectivo “central/estratégico”de vivência plena e intensa do exterior está, entre nós, em Portugal, por regra, longe de ser atingido, quer por haver ainda muitos casos de conjuntos urbanos em que o espaço público tem o seu acabamento ou “arranjo” sistematicamente adiado, pelas mais diversas “razões”, quer por haver grandes confusões, para não dizer até ignorâncias, sobre as técnicas básicas e as soluções funcionais e formais realmente adequadas para um exterior público que tem de ser, obrigatoriamente, muito mais do que um elemento de enquadramento visual dos respectivos edifícios e/ou um espaço fundamentalmente rodoviário; e que só o sendo poderá transformar-se num exterior com claro potencial de uso.

E não é possível deixar aqui de apontar que provavelmente o principal fio condutor desse repensar urgente da importância e do papel do espaço urbano público e de uso público é a sua essencial continuidade física ao serviço dos peões, intimamente ligada à sua agradabilidade e vitalidade no uso e à sua atractividade e “imagibilidade”.

Considerando-se, assim, que o caminho não está percorrido, mas até já está traçado, é importante avançar aqui, um pouco mais, nesta matéria do viver intensamente, também o exterior, e recordemos que imediatamente antes desta matéria – em outros artigos desta série - pensámos, um pouco, nos jogos das entradas e no jogo urbano, assim como num certo jogo, no sentido lúdico e de satisfação directa, que o verde urbano traz, sem dúvida, a estes jogos, seja por mérito próprio, seja por um mérito de grande capacidade associativa com os outros elementos do jogo.



Fig.02: conjunto de realojamento na Travessa do Sargento Abílio, CM de Lisboa; projecto de Paulo Tormenta Pinto.

E pensando em tudo isto, e lembrando pequenos pedaços de cidade habitada que nos parecem felizes, pois são sítios onde o passeante errante se imagina a morar com agrado, a ideia principal que se destaca é que estamos a imaginar habitar aqueles espaços públicos específicos; e é assim que, mais do que “entrar” nas habitações que os rodeiam, imaginamo-nos a circular e a viver aqueles passeios, aquelas pracetas, aquelas esquinas e passagens e, finalmente, aquelas entradas e aquelas janelas, sempre numa relação forte e directa com aqueles espaços públicos onde existem, ainda que deficientemente, tais tipos de relações.

E esta reflexão só poderá parecer um lugar-comum, no sentido desta procura de se identificarem as principais matérias constituintes de um habitar mais adequado ou mesmo mais feliz, ou a quem não tenha, infelizmente, a sensibilidade para se imaginar viver ali, naquele agradável pedaço de bairro, naquela sossegada margem de cidade, naquela ilha de alguma paz, “perdida” no bulício urbano; ou então a quem não queira fazer um exercício simples que é imaginar a diferença que separa uma dessas situações, que nos atraem no sentido de nos levar, naturalmente, a imaginarmos poder ali viver, de tantas outras situações cujos cenários urbanos nos afastam e mesmo repugnam, ou pelos quais não sentimos qualquer tipo de simpatia ou empatia.



Fig. 03: Residencial Alexandre Mackenzie, para realojamento de parte da favela Nova Jaguaré, Prefeitura da Cidade de São Paulo / Secretaria Municipal de Habitação / Superintendência de Habitação Popular; projecto de Boldarini Arquitetura e Urbanismo - Marcos Boldarini e Sergio Faraulo (autores); paisagismo de Marcos Boldarini, Melissa Matsunaga e Simone Ikeda (autores).

E não tenhamos dúvida de que o que estamos, realmente, a apreciar e a visualizar é a perspectiva de como poderíamos viver aqueles espaços públicos, nas suas características específicas e nos seus relacionamentos, sempre “duplos”, com os caminhos ligados aos acessos às habitações e com aqueles que privilegiam as relações com a cidade mais central/viva.

Sendo assim, ficará, portanto, em evidência a importância que tem, para o nosso objectivo de sermos mais felizes com determinadas condições habitacionais, a possibilidade que podemos ter, ou que pensamos poder ter, de viver intensa e agradavelmente cada conjunto de espaços exteriores públicos que serve e integra cada agregado de habitações; e pensando assim somos quase levados a inverter prioridades em termos do investimento no habitar, o que evidentemente não é aconselhável; mas esta é, muito provavelmente, a razão que baseia o enorme impacto positivo que sempre têm acções de requalificação exterior, mesmo quando a Arquitectura da edificação tem claro sinal negativo, seja como pré-existência, seja como realidade não intervencionada.

Para concluir esta matéria da importância de se viver intensamente o exterior urbano, importa sublinhar dois aspectos: o primeiro é que este objectivo tem de incidir sobre toda a estratégia de melhor fazer o habitar e a cidade, não sendo assunto que se possa tratar num dado ítem conceptual mais específico ou confinado, pois liga-se a todo o processo de concepção urbana; e o segundo decorre disto mesmo e tem a ver com a urgente necessidade de uma renovada produção tipológica (i) do edificado (escala micro-urbana) e (ii) do espaço urbano a uma escala macro, que tem, obrigatoriamente, de dar uma nova e muito afirmada importância ao como é possível e extremamente oportuno e desejável estimular uma vida mais intensa do exterior urbano, ou dos espaços públicos e de uso público das nossas cidades e povoações – uma possibilidade que não convive com alianças fingidas entre velhas e negativas tipologias edificadas e reconversões “cegas” de espaços públicos, exigindo-se projectos realmente integrados e tipologicamente reinterpretados.

E lembrando-nos que vivemos o século das cidades e das mega-cidades, assim como o século das cidades informais, potencialmente tão marcadas por este tipo de intervenções, os referidos objectivos de vivência intensa e agradável do espaço urbano, recolhem, ainda, uma oportunidade e urgência muito acrescidas e que merecem posterior desenvolvimento.

Notas:
(1) Ken Kern, "La Casa Autoconstruida", p. 23.
(2) Gordon Cullen, "Paisagem Urbana", p. 30.
(3) Michel de Sablet, “Des espaces urbains agréables à vivre – Places, Rues, Squares et Jardins”, Editions du Moniteur, Paris, 1988.

Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Infohabitar, Ano VIII, n.º 406
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

domingo, janeiro 10, 2010

280 - Uma cidade de vizinhanças conviviais - Infohabitar 280

artigo de António Baptista Coelho
Infohabitar, Ano VI, n.º 280
Nota: a ilustração deste artigo foi circunscrita a alguns exemplos de habitação de interesse social portuguesa que se candidataram ao Prémio IHRU 2008 de construção e reabilitação.
Série habitar e viver melhor, VIII:
"Uma cidade de vizinhanças conviviais"


Kevin Lynch defende que "qualquer boa cidade é um tecido contínuo e não um tecido celular; e, sendo assim, é possível eleger os seus próprios amigos e serviços e mudar de residência livremente...".

Há que comentar que esta é provavelmente, uma fundamental vantagem da cidade, e o mesmo autor, consequentemente, considera ser pouco adequado organizar a cidade, por exemplo, em torno de escolas básicas, pois os citadinos, muito frequentemente, fazem as suas compras num sítio, usam as escolas de outro, vão ao café noutro, etc. (1).

Mas, neste caso, dá vontade de comentar que há um sentimento especial de paz e de identificação que nos é dada por uma organização urbana estruturada, por exemplo, nesses moldes, nos “velhos” moldes das unidade de vizinhança, em que a vida parece poder-se fazer, calmamente, em torno a determinados estabelecimentos de ensino básico, em torno a determinados jardins e outros espaços de vizinhança próxima, e isto sem obrigatoriedades, pois será sempre possível a quem não os queira usar, usar outros noutros sítios da cidade. E e em situação inversa, quando não há uma indicação de vizinhanças funcionais, sociais e de lazer, então é que mais dificilmente será possível construir positivas relações de vizinhança, pois afinal não há uma estrutura física afirmada de uma vizinhança desenvolvida em torno desse(s) equipamentos(s) locais, de proximidade e mesmo de potencial convívio, e/ou abrigada e conformada por uma dada configuração, frequentemente côncava, do respectivo conunto de edifícios integradores dessa vizinhança.

Como afirmei, há alguns anos, num estudo realizado e publicado no LNEC (2), pode ser que a nossa vontade seja habitar/pernoitar apenas, ou habitar sem marcar não nos ligando, afectivamente, ao desenvolvimento de uma qualquer unidade bem caracterizada e afirmada feita entre edifícios e espaços exteriores contíguos de “vizinhança próxima” ou de proximidade, e é, naturalmente, importante que a solução de arquitectura urbana responda bem a esse legítimo gosto de razoável anonimato, que não obriga a convivências obrigatórias e que não impõe, nem até sugere, um qualquer protagonismo urbano, marcado por um qualquer destaque pessoal basicamente indesejado. Mas esta vontade de anonimato urbano não parece ser regra, enquanto muitas pessoas se ressentem, exactamente, do contrário, da ausência de possibilidades de estar e actuar afirmadamente fora de casa, mas junto dela, fora do edifício, mas estrategicamente perto dele, em espaços não excessivamente públicos, bem identificáveis, abrigados e globalmente bem apropriados. E é perfeitamente possível conciliar a frequente vontade de ter tais espaços de vizinhança com o desejo de viver em habitações que, estando fisicamente integradas nessas proximidades activa e afectivas, proporcionam, no entanto, grande e estratégica autonomia no seu uso e mesmo na sua imagem exterior; e podemos até referir que tais misturas são extremamente urbanas na diversidade de usos e de imagens que produzem.

Mas há que sublinhar que, tal como se apontou no referido estudo, que na altura relançou o conceito de “vizinhança próxima” – que tinha, anteriormente, apurado em estudos de engenharia de tráfego –, muitos de nós ou quase todos nós sentimos realmente necessidade de um espaço de transição entre o espaço predominantemente comum e encerrado do edifício que habitamos, espaço este muito ligado ao espaço privado do nosso fogo, e o espaço urbano vincadamente público. Quase todos precisamos desse equilíbrio transitório, dessa gradação bem caracterizada, dessa relação tantas vezes compensatória de insatisfações urbanas ou domésticas.

E precisamos desse espaço de Vizinhança Próxima, não muito público nem muito comum e delimitado, de uma forma alternativa, natural e assumidamente voluntária, protegendo as vontades de autonomia e anonimato, enquanto se estimulam com idêntica força e intenção as vontades de convívio, participação e mesmo de comunidade.


Fig. 01: conjunto de 21 habitações nas Fontainhas, Porto, promovidas pela C. M. do Porto, com projectos dos arquitectos Helder Ribeiro e Amândio Cupido (2007).

Nestas matérias é ainda fundamental evidenciar que certos grupos etários e socioculturais são extremamente sensíveis às potencialidades da “vizinhança próxima” ou da “vizinhança de proximidade”, tanto nos aspectos de grande autonomia como nos de forte convívio local e territorializado, basta lembrar as crianças e os jovens, por um lado, os idosos, por outro, e ainda todos aqueles que em casa encontram graves barreiras geracionais ou relacionadas com a diversidade das formações pessoais e culturais, problemas estes muitas vezes acentuados por condições espaciais e funcionais domésticas pouco desafogadas e adequadas.

E tal como tenho tido a possibilidade de sentir ao longo de mais de duas dezenas de anos de visitas a conjuntos habitacionais, é aqui, ao nível da “vizinhança de proximidade”, que mais se sente a presença ou a ausência de um exterior que também seja verdadeiramente espaço de habitar: um espaço exterior que possa ser habitável e que convide mesmo a ser habitado. E isto acontece, porque "à porta de casa" é possível fazer muita coisa, considerando-se desde as crianças mais pequenas aos mais idosos; e, globalmente, o nosso clima muito ajuda e estimula essa diversidade de actividades.

Importa ainda referir um outro novelo e aspectos nesta matéria, que se refere ao exterior de proximidade poder assegurar uma verdadeira ampliação do habitar doméstico sobre o exterior com uso público, com o natural enriquecimento global da qualidade do habitar que é assim proporcionada. E a importância de um tal enriquecimento não se circunscreve à disponibilização de mais espaços, de mais equipamentos, de mais alternativas funcionais e de mais possibilidades de convívio e mesmo de privacidade (pois é possível, desejável e excelente estar "sozinho no espaço público") e à natural "descompressão" que assim se proporciona, em termos funcionais e de privacidade. em habitações com áreas controladas.

Naturalmente que uma tal complementaridade de espaços habitacionais é extremamente valiosa, designadamente no caso de habitações espacialmente pouco folgadas, mas a oferta clara de uma rica dimensão de um exterior habitável ou de um rico habitar exterior á habitação e dela bem próximo - pensa-se aqui tanto nos exteriores como nos equipamentos de vizinhança - qualifica muito positivamente o sítio que se habita e de certa forma contribui, muito decisivamente, para a sua vitalização urbana e para a construção da sua identidade como sítio urbano onde se vive.

Nesta matéria há que ponderar que esta caracterização de vizinhança exterior bem identificada, viva e aliada das habitações e dos equipamentos de proximidade que nela se integram, também depende da existência de uma adequada continuidade urbana com o resto da cidade - continuidade directa/pedonal e através de transportes públicos pelo menos minimamente eficazes e confortáveis -, pois de outra forma a riqueza urbana das vizinhanças será sempre mais difícil de obter e de sustentar, obrigando a outros tipos de cálculos onde se entra com a possibilidade de se conseguir uma vida de vizinhança ou de bairro com alguma autonomia.
Na altura em que se desenvolveu o referido estudo (“Do bairro e da vizinhança à habitação”, ITA n.º 2, LNEC, 1998) em que proponho uma viagem comentada e sistemática no amplo “jogo da glória” diário que liga o nosso percurso entre o centro das cidades e os seus e nossos bairros e vizinhanças, um estudo em que se integram e divulgam opiniões técnicas de um muito amplo leque de estudiosos e projectistas, tinha acabado de realizar uma ampla viagem teórico-prática pela caracterização da qualidade arquitectónica residencial (“Qualidade arquitectónica residencial”, LNEC, ITA nº 8, 2000) e não tinha ainda desenvolvido o estudo das matérias ligadas à humanização do habitar. Actualmente, depois deste aprofundamento temático e de um número significativo de visitas a bairros e conjuntos habitacionais conseguimos ter uma noção mais real da grande importância de uma positiva qualificação das nossas “vizinhanças de proximidade”, os sítios que habitamos dentro e fora de casa; e, designadamente da importância que têm tais sítios e matérias para a criação de espaços urbanos e residenciais que contribuam, claramente, para uma nossa vida diária verdadeiramente mais funcional, agradável e estimulante.


Fig. 02: pormenor de uma das vizinhanças do Bairro da Boa Esperança, Beja, promovido pela empresa Hagen, com projecto do atelier de arquitectura Saraiva & Associados (2007).

Porque importa deixar, sempre, algumas pistas sobre a “fórmula mágica” que ajudará na criação de uma adequada vizinhança residencial de proximidade apontam-se, em seguida, diversas opiniões técnicas sobre o assunto, que tiveram por base a pesquisa que realizei para a elaboração do livro intitulado “Do bairro e da vizinhança à habitação” (ITA n.º 2, LNEC, 1998):
Chistopher Alexander indica que para as pessoas pertencerem a unidades espaciais identificáveis, baseadas no reconhecimento mútuo, na domesticidade/bom acolhimento ambiental, na segurança, no sossego e na identificação com o sítio (3), são necessárias vizinhanças com um máximo de cerca de 300m de largura/diâmetro e integrando não mais de 400/500 habitantes (4) (cerca de 100 fogos). Nestas vizinhanças Alexander defende que só deve existir tráfego local.

Kevin Lynch defende que as verdadeiras vizinhanças devem construir-se por grupos de fogos que encorajem as pessoa a serem mutuamente amigáveis, em parte porque vivem próximas; tais vizinhanças, defende este autor, devem ser muito mais da escala dos 10 aos 40 fogos do que as convencionais "unidades" na casa dos milhares.

Kevin Lynch defende, ainda, que os arranjos físicos podem ajudar na formação da vizinhança, especialmente se a população for socialmente homogénea, mas salienta que os factores de personalidade e de pertença a um dado grupo sociocultural são os mais influentes; e Lynch considera que as verdadeiras comunidades só existem quando os residentes compartilham interesses comuns e vitais de trabalho, crença ou comunidade familiar e/ou étnica: então, tal como indica este autor, a expressão física da comunidade tem sentido e a unidade espacial deve ser muito mais profundamente integrada do que numa vizinhança convencional (5).

Segundo Chirtopher Alexander, a análise estatística prova que são necessárias 54 crianças para que qualquer uma delas tenha grandes possibilidades (cerca de 95%) de contactar com outras cinco, que possam ser potenciais companheiros de brincadeiras (idades semelhantes e grupo desejável de "companheiros"); 54x4=216 habitantes : 3.4 habitantes/fogo = 64 fogos (número mínimo). Este número pode corresponder a unidades de vizinhança ou grupos de edifícios, que podem estar ligados, entre si, por terrenos comuns, caminhos e jardins e que, por sua vez, se componham de subgrupos residenciais mais íntimos (ex., 10 a 12 fogos), conjugados em torno de bolsas de terreno de jogos, livres do tráfego de veículos (6).


Fig. 03: conjunto de 64 habitações no Areal, Santa Maria da Feira, promovidas pela empresa Efimóveis em cooperação com a C.M. de S.M. da Feira, e com projecto do arquitecto J. J. Silva Garcia (2007).

Segundo Claude Lamure, "ao nível do edifício colectivo ou do conjunto de edifícios unifamiliares poderíamos ao menos reter as unidades de 10 a 20 famílias. A capacidade do homem para se localizar/reconhecer em grupos de 10 a 15 pessoas é citada pelos etologistas como geneticamente determinada ..., o homem caçador pré-histórico é também o jogador de futebol ou de rugby. Observámos realmente que nos imóveis com 10 a 20 alojamentos as relações de vizinhança são mais frequentes do que nas grandes torres. No entanto estes conjuntos de relações dentro de um grupo podem depender também da posição do sub-grupo num conjunto mais vasto" (7).

Com algumas opiniões do Eng.º Matos Cardoso (8) remata-se, agora, este conjunto de indicações, num sentido contrário, partindo da célula familiar como base e visando o desenvolvimento de contactos sociais entre as famílias, este especialista considera 3 grupos residenciais distintos: o pequeno agrupamento de habitações, 10 a 20 no máximo, onde as famílias constituintes devem ter interesses e níveis sociais e económicos semelhantes, que deverá possuir o seu espaço livre comum e situar-se preferencialmente numa rua de pequena extensão ou num recinto aconchegado; o grupo intermédio de 40 a 100 habitações, que ainda não admite misturas sociais, e que é o elemento básico de promoção da homogeneidade social, mediante a promoção de contactos frequentes, nomeadamente, em zonas comuns de reunião e convívio; é ainda de referir que este grupo deve caracterizar-se por um aspecto exterior uniforme; e o terceiro grupo constitui-se por integração dos anteriores e dá forma ao bairro composto por 400 a 500 famílias, admitindo, já, alguma heterogeneidade social e económica e é a base da unidade de vizinhança.
Naturalmente, que não se trata de aplicar quaisquer “fórmulas mágicas” que assegurem vizinhanças de proximidade verdadeiramente consistentes e motivadoras em termos sociais e individuais, mas o assunto tem tal importância para a criação de soluções residenciais mais satisfatórias, que importa ter em conta opiniões que, como estas, resultam de vidas dedicadas ao estudo destas matérias.
Nota editorial: embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Notas
(1) Kevin Lynch, "La Buena Forma de la Ciudad", p. 278.
(2) “Do bairro e da vizinhança à habitação”, ITA n.º 2, LNEC, 1998.
(3) Alexander refere o comentário de um habitante: "A vida da rua não se mete em casa...só entra a alegria da rua...tenho a sensação que a minha casa se estende a todo o quarteirão".
(4) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 95 a 98.
(5) Kevin Lynch, "Site Planning", p. 321.
(6) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 317 a 321.
(7) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 74.
(8) Matos Cardoso, in "Colóquio sobre Urbanismo", Ministério das Obras Públicas, Direcção Geral dos Serviços de Urbanização, pp. 91 e 92.
Infohabitar, Ano VI, n.º 280
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 9 de Janeiro de 2010