quarta-feira, outubro 20, 2021

A EXPANSÃO DO TRAÇADO DA CAPITAL PARAIBANA ATÉ MEADOS DO SÉCULO XIX - infohabitar # 794

Ligação direta (clicar) para:  760 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada em janeiro de 2021- 38 temas e mais de 100 autores

atenção: a infohabitar passa a ser editada à quarta-feira 


A EXPANSÃO DO TRAÇADO DA CAPITAL PARAIBANA ATÉ MEADOS DO SÉCULO XIX – infohabitar # 794

Infohabitar, Ano XVII, n.º 794

Edição: quarta-feira, 20 de outubro de 2021

 


Caros leitores da Infohabitar,

Tal como já aconteceu já algumas vezes, aqui na Infohabitar, acolhemos com muita satisfação a divulgação de mais um livro  do nosso autor (Infohabitar) Alberto Sousa.

Esta edição da nossa revista é, assim, dedicada à divulgação de mais esta obra de Alberto de Sousa ao qual aqui endereçamos os nossos parabéns por mais uma iniciativa editorial.

Alberto José de Sousa é arquiteto graduado pela Universidade Federal de Pernambuco (Recife, 1969-73), é mestre pela Universidade de Edimburgo (1979), doutorado pela Universidade de Paris I (1990) e pósdoutorado pela Universidade Nova de Lisboa (2001), foi professor da Universidade Federal da Paraíba entre 1983 e 2013.; e é, como sabemos, autor de um número muito significativo de livros e e-livros, que edita regularmente.


Lisboa, em 20 de outubro de 2021

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar


Para todos os que o queiram consultar o presente livro e/ou fazer o respetivo download, por gentileza do autor, ele está disponível a partir do seguinte link:

https://www.researchgate.net/publication/355348492





A EXPANSÃO DO TRAÇADO DA CAPITAL PARAIBANA ATÉ MEADOS DO SÉCULO XIX


O livro discute a expansão do traçado da capital paraibana – que durante a maior parte de sua existência foi chamada cidade da Parahyba – entre a época de sua fundação e fins dos anos 1850. A discussão é ilustrada por várias plantas esquemáticas criadas pelo autor e nela as principais características do processo de expansão são evidenciadas. 

Alberto de Sousa



Notas editoriais gerais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

A EXPANSÃO DO TRAÇADO DA CAPITAL PARAIBANA ATÉ MEADOS DO SÉCULO XIX – infohabitar # 794

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).



quarta-feira, outubro 13, 2021

Arquitectura urbana e atractividade residencial na Figueira da Foz, Gala, com o atelier de Duarte Nuno Simões - Infohabitar # 793

Ligação direta (clicar) para:  760 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada em janeiro de 2021- 38 temas e mais de 100 autores


atenção: a infohabitar passa a ser editada à quarta-feira 

Arquitectura urbana e atractividade residencial, na Figueira da Foz, Gala, com o atelier de Duarte Nuno Simões – infohabitar # 793

Infohabitar, Ano XVII, n.º 793

Edição: quarta-feira, 13 de outubro de 2021

 

 

Estimados leitores da Infohabitar,

Depois de um período marcado por algumas ausências editoriais da edição semanal da nossa revista, voltamos ao nosso ritmo habitual, embora com a divulgação do artigo semanal à quarta-feira (meio da semana), condição esta que iremos manter, pelo menos, até ao final de 2021.

E tal como foi previamente divulgado iremos ter aqui, na Infohabitar, esta semana, um artigo de análise arquitectónico-habitacional sobre uma obra habitacional premiada e desenvolvida pelo atelier do Arq.º Duarte Nuno Simões, atualmente coordenado pelo Arq.º Nuno Simões, o conjunto na Figueira da Foz, Gala, ao qual foi atribuído o Prémio INH de promoção privada de habitação de interesse social em 2006 (quando da 18.ª.ediçºao do Prémio INH).

Tal como foi já aqui referido, mas nunca é excessivo sublinhar, aponta-se o que se julga ser a muito oportuna e mesmo didáctica divulgação deste tipo de análises teórico-práticas de habitação de interesse social, procurando avançar sistematizações de uma essencial, embora sempre pouco concretizável ou dificilmente abordável qualidade arquitectónica, positivamente ambivalente em termos da qualidade do desenho e de uma assinalável satisfação dos respetivos moradores, textos estes que se julga assumirem um especial valor quando desenvolvidas por Arquitectos, mas sendo as referidas análises elaboradas com o objectivo de uma adequada legibilidade global.

Lembra-se, novamente, que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas sobre os artigos aqui editados e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com , ao meu cuidado).

Considerando a recente evolução da pandemia, e a, cada vez mais provada, grande capacidade de contágio da mais recente variante do vírus, mesmos entre vacinados, continuamos a reforçar a importância de se cumprirem com rigor os protocolos de vacina (n.º de doses e períodos temporais posteriores às mesmas) e de continuarmos com os cuidados de proteção próprios e dos outros, designadamente, em termos de limpeza de mãos, uso de máscara e distância social.

Despeço-me, até à próxima semana, enviando saudações calorosas e desejos de força e de boa saúde para todos os caros leitores e seus familiares, relembrando que a Infohabitar irá ser editada, à mesma, semanalmente, mas agora à quarta-feira (meio da semana).

 

Lisboa, 13 de outubro de 2021

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar


Arquitectura urbana e atractividade residencial, na Figueira da Foz, Gala, com o atelier de Duarte Nuno Simões – infohabitar # 793

António Baptista Coelho

(texto e fotografias)


Fig. 01

Resumo

Neste artigo faz-se uma apresentação e análise comentada do conjunto de habitação de interesse social na Figueira da Foz, Gala, concluído em 2005 com projecto de Arquitectura do atelier de Duarte Nuno Simões e que foi Prémio INH de promoção privada em 2006.

Em primeiro lugar desenvolve-se o enquadramento do conjunto da Gala no âmbito da promoção habitacional de interesse social, que tem sido implementada em Portugal, passando-se, em seguida, para uma pequena discussão sobre o interesse que se julga ter uma nova habitação de interesse social estrategicamente programada em pequenas intervenções faseadas.

Depois e incidindo sobre o referido conjunto da Gala desenvolvem-se análises na temática da Arquitectura residencial e apontam-se alguns comentários relativos, sequencialmente: (i) à Arquitectura urbana e à apropriação pelos habitantes; (ii) à Arquitectura dos edifícios e a aspectos construtivos considerados mais relevantes; e (iii) à Arquitectura dos espaços domésticos; concluindo-se o artigo com algumas breves notas finais sobre a intervenção na Gala. 

(nota prévia: as 12 imagens apresentadas como figuras no artigo e sem legendas, seguem a sequência com que foram obtidas na visita, procurando-se ilustrar o texto, mas não prejudicar a sua leitura)


1. Enquadramento do conjunto da Gala no âmbito da promoção de habitação de interesse social 

O Prémio INH 2006 de Promoção Privada foi atribuído ao empreendimento de 81 fogos de habitação de interesse social em Gala, Figueira da Foz, Portugal, promovido em 2005, em regime de Contrato de Desenvolvimento de Habitação (CDH), pela empresa Efimóveis Imobiliária, SA, e construído pela empresa Ferreira Construções, SA, com o projecto de Arquitectura coordenado pelos arquitectos Duarte Nuno Simões, Nuno Simões e Joana Barbosa e Engenharia civil (Estruturas e aspectos de especialidade da construção) pelo Eng.º Artur Pinto Martins.

Regista-se que os CDH correspondem a uma das três vertentes ou modalidades de promoção de Habitação de Interesse Social – designada Habitação a Custos Controlados (HCC) – que são desenvolvidas em Portugal, com apoio do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) – anteriormente Instituto Nacional da Habitação (INH), correspondendo neste caso à modalidade de promoção privada de HCC, que é, frequentemente, promovida através de associações com os respetivos municípios; sendo as duas outras modalidades possíveis, em Portugal, a promoção cooperativa de HCC –realizada com a activa participação das cooperativas da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) e a promoção municipal de HCC, na qual são os próprios municípios a promoverem diretamente conjuntos habitacionais de HCC.



Fig. 02


Refere-se também que os Prémios do Instituto Nacional da Habitação (Prémios INH) e, sequencialmente, os Prémios do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (Prémios IHRU), actualmente designados Prémios Nuno Teotónio Pereira, são prémios honoríficos anuais e com três níveis de destaque possíveis – Prémio, Menção Honrosa e Menção do Júri: , que foram atribuídos durante cerca de um quarto de século, a uma ampla selecção de conjuntos habitacionais, e sendo, sempre, premiados os respetivos arquitectos coordenadores, os respetivos promotores e os respetivos construtores.

Não sendo aqui “o sítio” para se desenvolver o tema do que se julga ser o interesse deste Prémio como verdadeira ferramenta  de promoção da qualidade da mais recente habitação de interesse social portuguesa (Habitação a Custos Controlados, HCC) não se pode deixar de lembrar que o Prémio INH/IHRU se constituiu como uma verdadeira “escola” e/ou fórum anual de discussão e de promoção teórico-prática dessa qualidade, com natural destaque para a vertente de uma ampla qualidade arquitectónica, mediante muitas centenas de visitas aos conjuntos habitacionais recém-acabados, integradas por reuniões, “no local”, entre os amplos e multidisciplinares júris do Prémio e os respetivos projectistas, promotores e construtores desses mesmos conjuntos; e talvez, aqui, na Infohabitar possamos fazer reviver, sinteticamente, em futuros artigos, algumas dessas visitas consideradas mais significativas por diversas ordens de razões.

E neste sentido avança-se para esta pequena “visita comentada” ao conjunto/CDH de 81 fogos de habitação de interesse social em Gala, Figueira da Foz, Portugal, concluído em 2005, com projecto de Arquitectura do atelier de Duarte Nuno Simões.

Fig. 03

Salienta-se que se trata de um Contrato de Desenvolvimento e Habitação que contou com a colaboração do respectivo município da Figueira da Foz e que, muito positivamente, foi realizado em diversas fases, cada uma delas com algumas dezenas de fogos/habitações, de modo a se apoiar e promover uma integração gradual dos novos habitantes no novo espaço habitacional e também dos habitantes de “acolhimento” relativamente aos novos vizinhos.


2. Nova habitação de interesse social estrategicamente programada em pequenas intervenções faseadas 

Neste sentido realça-se que já no ano 2000, portanto cerca de 5 anos antes, tinha sido concluído um conjunto habitacional idêntico, neste caso com 60 fogos/habitações, que na altura mereceu também destaque na edição de 2001 do Prémio INH, que lhe atribuiu uma Menção do Júri, então muito direccionada para o interesse e inovação da respetiva solução de Arquitectura.

Entre as duas soluções “irmãs” e devidamente faseadas há que registar, com muito agrado, a sensível mas estruturante evolução dos principais conceitos e objectivos que integram os principais aspectos deste projecto, mantendo-se aqueles que já eram muito interessantes e avançando-se, com coragem e fundamentação, nos aspectos que mereciam melhor, ou outro, partido/desenvolvimento.

E neste sentido parece ser bem oportuno sublinhar o interesse social e estratégico desta “fórmula” de faseamento e repartição, de intervenções habitacionais de interesse social com dimensão significativa, em pequenas fases de conjuntos “apenas” com algumas dezenas de fogos, intervaladas por alguns anos, proporcionando-se, assim, nas acções de realojamento a desenvolver numa dada localização, condições adequadas para o seu melhor acompanhamento, controlo e, até, aperfeiçoamento:

.       tanto em termos dos vitais aspetos ligados à dinamização de uma gestão local eficaz e interessantemente participada pelos próprios moradores;

.    como em termos de avaliação da satisfação dos habitantes com as soluções arquitectónicas propostas, que elas próprias poderão ir evoluindo, sendo pormenorizadamente afeiçoadas.


 Fig. 04

E esta “política” de fazer pequenos conjuntos de habitação de interesse social, estrategicamente bem disseminados pelas zonas a servir e repartidos em quantidades razoáveis de fogos realizados simultaneamente e razoavelmente faseados quando era necessário desenvolver conjuntos de maior dimensão, foi continuamente defendida pelo próprio INH/IHRU ao longo de muitos anos e repetidamente validada por uma sequência de estudos teórico-práticos de avaliação retrospectiva e multidisciplinar ou de pós-ocupação, realizados pelo Departamento de Edifícios do LNEC com apoio do INH/IHRU.

E já agora se aponta, porque se julga oportuno, que esta “política” de fazer pequenos conjuntos de habitação de interesse social o mais possível integrados física e socialmente nas respetivas zonas de implantação e paisagens urbanas específicas tem uma interessante continuidade numa estratégia, que também se privilegiou, de fazer, sempre que possível, edifícios mais baixos,  mais humanizados e potencialmente mais apropriáveis pelos seus moradores; condição esta que se julga ficar evidente no conjunto urbano e habitacional que aqui se comenta.


 
Fig. 05

3. Comentários relativos à Arquitectura urbana e à apropriação pelos habitantes 

Em primeiro lugar e numa análise “arquitectónico-habitacional” deste conjunto de habitação de interesse social realça-se o equilíbrio entre um desenho de arquitectura sóbrio e depurado e uma imagem atraente e apropriável pelos seus habitantes, aspectos estes que levam a que este conjunto de habitação de interesse social, tenha uma presença claramente positiva e com influência regeneradora na zona urbana envolvente, marcando um verdadeiro espírito do lugar, muito humanizado e numa íntima relação com a natureza. Sublinha-se a cuidadosa e estimulante utilização de uma tipologia de galerias exteriores (tantas vezes considerada menos adequada), mas que surge com uma imagem associada seja ao unifamiliar seja à tradicional e apropriável varanda corrida.

Fig. 06 

Esta intervenção é global e fielmente sintetizada nos seus principais aspectos caracterizadores lembrando-se e citando-se os seguintes e respetivos registos do Júri do PINH 2006 sobre este conjunto urbano e habitacional:

  “Azuis e cinza dos edifícios contrapõem-se com o verde  dos generosos espaços exteriores pedonais e recreativos ajudando a criar um ambiente geral marcado pela dignidade, mas também pela alegria e por uma equilibrada diversidade;

  “Solução geral do edifício proporciona uma positiva associação entre imagens e usos das tipologias uni e multifamiliares;

  “Habitações oferecem organizações diversificadas, com uma relação espaço / luz muito interessante.”

Fig. 07

Estamos então em presença, aqui na Gala/Figueira da Foz, de   pequenos quarteirões baixos e alongados, produzindo-se uma imagem urbana local marcada pela aliança entre a efectiva presença vertical dos edifícios e um tratamento paisagístico sóbrio e integrador.

E a arquitectura preparou esta aliança, desde a escala humanizada às tonalidades dos edifícios contrastantes com o verde e em ligação com um projecto específico de arquitectura paisagista.

As tonalidades dos edifícios contrapõem-se, então, com o verde dos generosos espaços exteriores pedonais e recreativos ajudando a criar um ambiente geral marcado pela dignidade, mas também pela alegria e por uma equilibrada diversidade.

Fig. 08


4. Comentários relativos à Arquitectura dos edifícios e a aspectos construtivos 

Passando, agora, para uma abordagem mais específica ao edificado estamos em presença de uma solução geral de edifício que parece proporcionar uma positiva associação entre imagens e usos das tipologias uni e multifamiliares.

Parece certo que a intenção que moveu os projectistas, quando referiram “procurar dar a cada família um fogo que, embora integrado num edifício (multifamiliar), seja tão parecido quanto possível, naquelas circunstâncias, a uma habitação isolada”, foi uma intenção plenamente conseguida e que, por si só, merece especial atenção pois é condição para:

  a humanização global da intervenção;

  e para a sua melhor integração numa envolvente marcada pela baixa densidade de construção.

Esta ponte forte com o unifamiliar resulta, entre outros aspectos, de um tratamento bastante identificador de cada módulo habitacional e, por extensão, de cada habitação, mas também do acentuar das relações directas entre cada habitação e o exterior, bem marcadas em cada habitação simplex térrea, mas também muito evidenciada pelas transparentes e sóbrias galerias exteriores de acesso aos fogos duplex, construindo-se como que um evidenciado agregado de fogos/habitações sobrepostos e em banda cerrada e densa, mas onde não se perde a individualidade de cada habitação.

Fig. 09

Considera-se que esta matéria da imagem suavizada e humanizada dos multifamiliares é um tema chave e urgente, que importa apontar com um mínimo de desenvolvimento, nas suas duas facetas essenciais e mutuamente articuladas: no que se refere aos, cada vez mais fundamentais, aspectos de necessidade de apropriação por quem habita e de identificação com o sítio que se marca/habita; e no que se liga a uma perspectiva urbanística, actualmente crítica, de se realizarem conjuntos residenciais realmente integrados, pela sua escala, pela sua imagem e mesmo pelo seu carácter, nas respectivas envolventes urbanas e naturais, tantas vezes, entre nós, marcadas pela baixa densidade de construção e por tipologias com reduzidos números de fogos.

A “peça” edificada assegura, entre outras, duas importantes condições.

.    Um agradável carácter de urbanismo residencial, que resulta da positiva conjugação entre a serenidade racional do desenho geral e a sóbria, mas ainda assim afirmada, expressão de alguns elementos da arquitectura com raiz na nossa tradição urbana e doméstica (telhados, sacadas, chaminés, fortes socos e mesmo varandas/galerias), que valem indirectamente pelas respectivas memórias, e directamente pela escala humana que induzem.

.    Uma boa adequação aos modos de vida dos habitantes, através do contacto directo com o exterior, feito por pequenos quintais abertos mas apropriáveis ou através de pequenas galerias comuns que têm a agradável imagem de varandas, servindo poucos fogos.

Fig. 10

Para além destes aspetos mais globais a solução arquitectónica do edifício é marcada:

    pela racionalidade e contemporaneidade do desenho;

.     pelo, já referido, privilegiar do contacto com o exterior, também justificado em termos de adequação da solução aos frequentes modos e desejos de habitar das famílias aqui realojadas;

  atributos estes realçados por uma coloração apelativa que faz destacar, positivamente, o novo conjunto na sua envolvente urbana.

É também muito interessante ter em conta, em termos de inovação e eventual adequação a soluções construtivas mais simplificadas e económicas, que tudo o que foi acima apontado, em termos de “desenho amplo” da Arquitectura foi desenvolvido no âmbito de uma premeditada concepção conjunta da arquitectura e do projecto de estabilidade, aplicando-se soluções de alvenaria resistente de tijolo confinada com vigas, montantes e cintas de travamento, visando-se uma construção rigorosa e de imagem clara , mas também económica e adequada a uma prática construtiva talvez menos complexa. E quando estamos habituados à “facilidade” do cálculo à base do betão armado, esta opção, tão adequada à referida escala humana destes edifícios, é também a prova cabal dos bons resultados conseguidos com uma boa integração entre disciplinas, neste caso arquitectura e engenharia.

Fig. 11


5. Comentários relativos à Arquitectura dos espaços domésticos 

Passando, agora, ao espaço doméstico importa referir que, globalmente, as habitações oferecem organizações diversificadas, com uma relação espaço / luz muito interessante; e podemos considerar que há, aqui, uma aceitação plena, pela Arquitectura, da vital importância da luz natural no projecto doméstico e do seu relevo muito específico quando este projecto se desenvolve no âmbito das áreas e custos controlados; pois de certa forma mais e melhor luz natural acaba, por vezes, por poder favorecer uma noção de mais espaço interior e de maior abertura e continuidade entre interior e exterior, condições estas muito benéficas quando o espaço interior é significativamente delimitado.

O espaço doméstico foi, aqui, desenvolvido de uma forma que tanto serve uma apropriação intensiva e muito cuidada com mobiliário (naturalmente com peças não muito grandes) e cuidados complementares de personalização das diversas zonas funcionais e ambientais, como serve, igualmente bem, uma escassa ocupação com mobiliário, ligada a evidentes e frequentes problemas económicos; e considera-se que este é um aspecto com grande importância pela capacidade de apropriação e de “diálogo” espacial oferecida pelo espaço doméstico assim concebido.

Mas para além disto ou, melhor, integradamente com o que parece ter sido este objectivo de projecto, desenvolveu-se, também, aqui:

.    quer uma ponderada atribuição de áreas interiores pelos diversos compartimentos e espaços domésticos, o que resultou na ausência de espaços sensivelmente “apertados”;

.    quer uma estratégia de adequados relacionamentos entre diversos tipos de espaços e compartimentos, procurando-se a máxima redução de circulações mas com um mínimo de prejuízos funcionais e “ambientais” e revertendo as áreas assim “ganhas” para pequenos mas estratégicos acréscimos nas zonas domésticas mais “sociais” e para também estratégicas proximidades entre alguns quartos e essas mesmas zonas mais sociais;

.    quer a proposta de algumas “inovações” funcionais/ambientais entre as quais destacamos a proposta de cozinhas funcionalmente muito estruturadas de modo a conseguir-se a máxima “rentabilização” da sua área;

.    quer o desenvolvimento de um espaço doméstico que flexibilize a respetiva ocupação com mobiliário, condição esta que é essencial na adequação a diversas exigências e gostos habitacionais e na essencial apropriação da habitação.


Fig. 12

6. Breves notas finais sobre a intervenção na Gala, Figueira da Foz 

E para rematar esta síntese de apresentação e apreciação da intervenção de habitação de interesse social em Gala, Figueira da Foz, Portugal, concluída em 2005, com projecto de Arquitectura do atelier de Duarte Nuno Simões transcreve-se, em seguida, parte da respectiva apreciação pelo Júri do Prémio INH 2006:

“Realça-se o equilíbrio entre um desenho de arquitectura sóbrio e depurado e uma imagem atraente e apropriável pelos seus habitantes, aspectos estes que levam a que este conjunto de habitação de interesse social, tenha uma presença claramente positiva e com influência regeneradora na zona urbana envolvente, marcando um verdadeiro espírito do lugar, muito humanizado e numa íntima relação com a natureza.

[e] “Sublinha-se a cuidadosa e estimulante utilização de uma tipologia de galerias exteriores (tantas vezes considerada menos adequada), mas que surge com uma imagem associada seja ao unifamiliar seja à tradicional e apropriável varanda corrida.


Notas editoriais gerais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

Arquitectura urbana e atractividade residencial, na Figueira da Foz, Gala, com o atelier de Duarte Nuno Simões – infohabitar # 793

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).

 

 

terça-feira, outubro 12, 2021

Caros leitores da Infohabitar, com as nossas desculpas, temos de comunicar um atraso na edição desta semana, que se deve neste caso a problemas de hardware.

Teremos a nova edição online amanhã, quarta-feira, 13 de Outubro.

Com os melhores cumprimentos,

António Baptista Coelho 

Editor

terça-feira, outubro 05, 2021

Caros leitores da Infohabitar,

Esta semana a edição da nossa revista tem um pequeno período de férias.

Na próxima semana retomaremos as habituais edições semanais,

Saudações calorosas e desejos de muita saúde,


António Baptista Coelho

Editor


terça-feira, setembro 21, 2021

O conjunto de habitações sociais do Monte de São João, um texto de análise de Duarte Nuno Simões – infohabitar # 792

 Ligação direta (clicar) para:  760 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada em janeiro de 2021- 38 temas e mais de 100 autores

 O conjunto de habitações sociais do Monte de São João, um texto de análise de Duarte Nuno Simões – infohabitar # 792

 

Infohabitar, Ano XVII, n.º 792

Edição: terça-feira, 21 de setembro de 2021

  

Estimados leitores,

Chegou a altura de escrever, com tristeza, mais algumas daquelas palavras que ninguém, nunca terá vontade de escrever, mas que importa serem escritas e ficarem registadas;

e quem vai acompanhando os nossos artigos semanais, que têm sido divulgados já há mais de 17 anos, na nossa Infohabitar, aqui encontra uma secção temática intitulada de “registo e memória”, onde vão surgindo pequenas e informais memórias sobre amigos e colegas que já partiram; e quando, por variadas razões, revejo esses pequenos textos, confesso que o faço, sempre, com uma dupla emoção de natural tristeza e profunda saudade, mas também de uma quase “alegria” por poder estar a sentir, naqueles momentos, intensamente, a memória bem viva daqueles amigos.

E as palavras tristes que aqui se escrevem registam o falecimento de um dos fundadores da GHabitar APPQH – “antigo” Grupo Habitar – associação que baseia o nosso blog/revista:

o Arquitecto Duarte Nuno Simões (1930-2021) faleceu;

À família enlutada a GHabitar, os seus corpos sociais, os seus associados e a Infohabitar registam, aqui, os seus sinceros sentimentos; mas o Duarte Nuno estará, sempre, connosco e quem com ele teve o privilégio de conviver sabe que o Grupo Habitar e a Infohabitar sem ele teriam tido muito menos sentido.

O Duarte Nuno Simões foi um meu velho amigo, no sentido de ter tido a honra de o conhecer há cerca de um quarto de século, havendo uma significativa diferença de idades entre nós os dois; mas isso não prejudicou, de nenhuma forma, a nossa amizade.

Devo também referir que devo ao Duarte Nuno importantes aprendizagens, pois ele é/era alguém de grande humanidade, amplos conhecimentos e um muito agradável sentido de conversação, de bom-senso e de convívio; e foi com ele que comecei a interiorizar a real, profunda e diversificada importância da habitação no fazer de uma cidade verdadeiramente culta e civilizada.

Quanto à sua afirmada qualidade como Arquitecto Projectista, os diversos e numerosos prémios obtidos pelo seu atelier –  desde há alguns anos coordenado pelo seu filho Nuno Simões – e, mais do que isso a “simples” visita às suas obras falam por si: pela qualidade apurada do desenho, pela sensibilidade das propostas, pela sua amigável e ampla escala humana e pelo seu sóbrio e digno protagonismo urbano; e quem quiser ter uma ideia sobre este excelente percurso profissional e cidadão poderá consultar a referência editada, sobre o Duarte Nuno Simões, pelo Centro Nacional de Cultura:

https://www.cnc.pt/duarte-nuno-simoes-1930-2021/

Para se concluir este registo a Infohabitar irá reeditar, em seguida, depois de um pequeno enquadramento, um artigo do Arquitecto Duarte Nuno Simões, divulgado no n.º 129 da Infohabitar em março de 2007 já numa versão ilustrada de uma outra edição de 6 de setembro de 2004.



Uma imagem de tantas e tantas possíveis e de grande memória: o amigo e colega Duarte Nuno Simões, no centro da imagem, falando em representação da Ordem dos Arquitectos no grande Prémio INH/IHRU; onde na sequência de sistemáticas visitas a conjuntos de habitação de interesse social recém-acabados,  se faziam únicas sessões de debate “público” entre os membros multidisciplinares do Júri e os representantes dos respetivos projectistas, promotores, construtores e mesmo, por vezes, habitantes.

 

Passa-se, então, a palavra ao bom amigo Duarte Nuno Simões, através da divulgação de um seu artigo, elaborado, há alguns anos, em forma de texto de análise, e referido ao conjunto habitacional promovido pela Câmara Municipal do Porto no Monte de São João, Paranhos, Porto, projectado pelo Atelier do saudoso Filipe Oliveira Dias, com projecto dos Arquitectos Rui Almeida e Filipe Oliveira Dias, conjunto este que foi Prémio do Instituto Nacional de Habitação de Promoção Municipal em 2004 (INH) – actual Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) –, prémio este que foi atribuído pelo júri anual, multi-institucional  e multitemático do Prémio INH, onde marcou presença, durante bastantes anos, como representante da Ordem do Arquitectos, o Arquitecto Duarte Nuno Simões.

Sublinha-se que a verdadeira leitura desta análise só ficará completa com a visita a este conjunto de realojamento, visita esta que vivamente se recomenda, no entanto o texto incide seja sobre vários aspectos da desejável “fusão” entre a qualidade arquitectónica e a qualidade residencial, seja sobre os modos que podem e devem ser seguidos para um melhor conhecimento das obras arquitectónicas e residenciais, seja também sobre importantes aspectos elementares do próprio desenho da arquitectura urbana; e sobre todos estes aspectos é muito rico o texto que se segue, com o os qual todos ganharemos a partir de uma leitura e reflexão cuidadas.

E não seria preciso, mas aponta-se, de qualquer forma, o que se julga ser a muito oportuna e mesmo didáctica divulgação deste tipo de análises teórico-práticas de habitação de interesse social, procurando avançar sistematizações de uma essencial, embora sempre pouco concretizável ou dificilmente abordável qualidade arquitectónica, positivamente ambivalente em termos da qualidade do desenho e de uma assinalável satisfação dos respetivos moradores, textos estes que se julga assumirem um muito especial valor quando desenvolvidas por Arquitectos projectistas muito qualificados e premiados, e que associem a esta muito importante faceta do “bom desenho” da Arquitectura, uma outra julgada também essencial faceta cultural e humanística, tal como sucede plenamente, no caso do colega Duarte Nuno Simões e que aqui fica bem evidenciada no texto que se segue.

Refere-se ainda que, provavelmente, em breve, iremos ter aqui, na Infohabitar, um ou mais artigos sobre obras habitacionais do atelier do Arq.º Duarte Nuno Simões, atualmente coordenado pelo Arq.º Nuno Simões.

Lisboa, Encarnação/Olivais Norte e Azambuja/Casais de Baixo, 21 de setembro de 2021
António Baptista Coelho


Fig. 01

O conjunto de habitações sociais do Monte de São João, um texto de análise de Duarte Nuno Simões – infohabitar # 792

O conjunto de habitações sociais do Monte de São João, ultrapassadas as primeiras impressões de claro agrado, revela uma grande coerência quanto aos objectivos que parece terem norteado os seus autores.

Como todas as obras de qualidade o conjunto não revela de imediato os seus “segredos”, antes apela ao nosso interesse em descobri-los, ou seja, de aceitar o jogo de desvendar o que, estando patente, não podemos de imediato, conscientemente, ver…


Fig. 02


Da arquitectura deste conjunto dir-se-á que recusa o auto-comprazimento pela forma como fim último e seu principal objectivo. Aqui a arquitectura assume a sua condição mais nobre de espaço da vida dos homens , onde o livre espraiar dos afectos e da solidariedade entre vizinhos será possível. Tal como foi concebido este conjunto não se fecha autisticamente sobre si próprio, antes estimula o encontro, a troca, a convivência dos moradores não podendo prescindir, também, do interesse pelos valores formais, aqui postos ao serviço de uma proposta que assume, deliberadamente, a construção do espaço dos homens, sua finalidade última e imprescindível.

Então a que valores formais me refiro?

Antes de mais à escala do conjunto, à clareza da imagem proposta, ao tratamento dado à praça interna, mas também à simplicidade dos elementos arquitecturais, independentemente da sua importância e à existência de funções complementares integradas no conjunto edificado.

A recusa do modelo do grande bloco em altura, parede intransponível, objecto-obstáculo no qual as pessoas, os moradores, tendem a isolar-se umas das outras, originou um conjunto cujos elementos se desmultiplicaram em vários volumes, articulados em “três blocos que parecem oito”, como dizem os seus autores. Estes ao desconstruirem o modelo do grande bloco, propõem-nos um conjunto à nossa escala, uma arquitectura surpreendentemente jovem e afável. “Três blocos que parecem oito” testemunha a consciência da importância e do empenhamento dos seus autores de resolverem o problema da escala do conjunto, tomado o homem como referência, assumindo também conscientemente a continuidade da memória da cidade feita de edifícios que, sucessivamente, se encostam a outros edifícios, dando origem a praças e ruas.


Fig. 03


Refira-se também a clareza com que o conjunto se apresenta a quem desprevenidamente o veja: oito blocos que afinal não são senão três e que determinam e abraçam uma praça interna, organizada em dois níveis principais, tema originador de grande parte da riqueza espacial do conjunto, caracterizado por uma aparente e deliberada simplicidade dos elementos vários que o compõem.

Cada um dos três blocos é servido por uma escada e um elevador e tem, em cada piso, uma galeria coberta que dá acesso a quatro fogos. Ora, a opção pelo uso de galerias não é inocente: é que as galerias acrescentam à sua função imediata de acesso às habitações, aquela outra de se constituírem como elementos de animação, de sinal de vida do conjunto e também como espaços de transição entre os interiores das habitações, quadro da privacidade das famílias e a praça interna quadro possível das mais variadas formas de sociabilidade dos habitantes.

Fig. 04


Por isso, pelo discreto e imprevisível espectáculo que as galerias podem suscitar, as suas guardas não se constituíram como defesas opacas, antes protecções que assumem a transparência garantida pelos painéis de rede metálica.

A praça interna, evolução dos antigos logradouros privados dos quarteirões urbanos tornada aqui espaço comum, é um dos elementos que melhor caracterizam, conceptual e formalmente, o conjunto do Monte de São João. De facto, a praça tem todas as condições para estimular e servir de suporte a modos de conviviabilidade entre os habitantes e até entre estes e os habitantes das proximidades. Pense-se como as crianças poderão usar a praça em segurança para os seus jogos e nos contactos que elas induzirão entre os adultos seus familiares!

Fig. 05


Outra das características do conjunto corresponde à simplicidade do desenho dos seus elementos mais significantes como sejam as janelas, as guardas das galerias, os óculos que iluminam e assinalam as escadas, a elegância das entradas dos três blocos, a organização dos vários elementos que integram a praça interna e, ainda, o desenho das entradas de luz da garagem colectiva, sem esquecer o cuidado posto na pormenorização dos interiores dos 55 fogos e dos vários equipamentos que integram o conjunto: um ATL, a sede da associação de moradores e da administração do conjunto e três fracções comerciais.

Não gostaria, também, de deixar em claro dois aspectos que considero muito significativos da minúcia e cuidado com que este conjunto foi projectado e realizado. Um, as paredes de fundo das galerias, pintadas cada uma com sua cor pastel, criam uma referência facilmente apreensível sem prejuízo da unidade do conjunto. O outro, a ligeira inclinação, que as afasta de um aparente paralelismo, das paredes dos corpos avançados que rematam os dois blocos e que assinalam a articulação entre os níveis da praça interna: não sendo paralelas, como parecem, as referidas paredes reforçam a continuidade da praça, delimitada e definida pelas frentes que sobre ela abrem, sendo assim a unidade do conjunto salvaguardada e reforçada.

Fig. 06


Tudo aqui transmite-nos uma sensação tão evidente de agrado que um esforço de análise mais apurado do que o que tentei pode parecer inútil ou mesmo fastidioso. No fundo ele não vai acrescentar grande coisa ao prazer sentido: tenho presente a reacção de pessoas tão diferentes de formação e, até, de geração como a dos elementos do Júri do Prémio INH 2004 que não se eximiram a espontaneamente manifestar o seu agrado pelas características observadas deste conjunto de habitações sociais.

Fig. 07


Toda a verdadeira arquitectura – a verdadeira, aquela que não só parece, mas que é – é um labirinto, convite não só à curiosidade mas à necessidade da descoberta. E o visitante, qual novo Teseu a quem Ariana deu outra vez o prudente fio, poderá encontrar o caminho da saída, daquilo que, escondido, se encontra bem à vista: o caminho de um maior entendimento.

Fig. 08


A arquitectura não pode prescindir da sensibilidade nem da inteligência de quem a imagina. Mas uma e outra têm que ser acrescentadas pelo talento. Só assim se garantirá a passagem de um nível honesto mas banal para o desejável grau superior da verdadeira arquitectura assumindo-se então a sua vocação de obra de arte, de contribuição cultural, de marca significante do tempo em que vivemos. Todas essas qualidades o conjunto do Monte de São João no-las revelou.


Lisboa, 06 de Setembro de 2004
Arq. Duarte Nuno Simões


Texto ilustrado e revisto para reedição em 2007-03-07 e agora novamente reeditado, com uma introdução específica, em 2021-09-21; fotografias de António Baptista Coelho

 


Notas editoriais gerais:

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O conjunto de habitações sociais do Monte de São João, um texto de análise de Duarte Nuno Simões – infohabitar # 792

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

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Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).