quarta-feira, julho 06, 2022

Habitação intergeracional: da adaptabilidade à participação num adequado quadro arquitetónico I – versão de trabalho e base bibliográfica – infohabitar # 822

Ligação direta (clicar no link seguinte) para aceder à listagem interativa de 800 Artigos editados na Infohabitar – edição de janeiro de 2022 com links revistos em junho de 2022 (38 temas e mais de 100 autores):

https://drive.google.com/file/d/10pE2v330_tyapyPw4vUVZFCQ15RYUqF4/view?usp=sharing 


Habitação intergeracional: da adaptabilidade à participação num adequado quadro arquitetónico I – versão de trabalho e base bibliográfica – infohabitar # 822

Infohabitar, Ano XVIII, n.º 822

Edição: quarta-feira, 6 de julho de 2022


Tt

Artigo XIII da série editorial da Infohabitar “PHAI3C – Programa de Habitação Adaptável e Intergeracional através de uma Cooperativa a Custo Controlado”



Caros leitores da Infohabitar,


Com o presente artigo damos continuidade à série editorial da Infohabitar especificamente dedicada a uma abordagem global e bibliográfica dos amplos, sensíveis e urgentes aspetos associados às necessidades, aos gostos e às potencialidades sociais e urbanas de uma reflexão prática sobre os espaços residenciais dedicados a pessoas idosas e fragilizadas, desejavelmente integrados em quadros intergeracionais, ativamente urbanos e dinamizados e convivializados pelas cooperativas que estão, desde há dezenas de anos, dedicadas à promoção de habitação de interesse social com expressiva qualidade e frequentemente associada a um amplo leque de variadas e vitais atividades vicinais e urbanas – as Cooperativas associadas à Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).

Lembra-se, como sempre, que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas sobre os artigos aqui editados e propostas de artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com).

Tendo-se em conta a extensão do presente artigo ele foi dividido em duas partes a editar esta semana e a próxima.

Despeço-me, até à próxima semana, enviando saudações calorosas e desejos de força e de boa saúde para todos os caros leitores,     


Lisboa, em 6 de julho de 2022

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar


Nota introdutória à temática do Programa de Habitação Adaptável Intergeracional – Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C)

Considerando-se o atual quadro demográfico e habitacional muito crítico, no que se refere ao crescimento do número das pessoas idosas e muito idosas, a viverem sozinhas e com frequentes necessidades de apoio, a actual diversificação dos modos de vida e dos desejos habitacionais, e a quase-ausência de oferta habitacional e urbana adequada a tais necessidades e desejos, foi ponderada o que se julga ser a oportunidade do estudo e da caracterização de um Programa de Habitação Adaptável Intergeracional (PHAI), adequado a tais necessidades e a uma proposta residencial naturalmente convivial, eficazmente gerida e participada e financeiramente sustentável, resultando daqui a proposta de uma Cooperativa a Custos Controlados (3C).

O PHAI3C visa o estudo e a proposta de soluções urbanas e residenciais vocacionadas para a convivência intergeracional, adaptáveis a diversos modos de vida, adequadas para pessoas com eventuais fragilidade físicas e mentais, mas sem qualquer tipo de estigma institucional e de idadismo, funcionalmente mistas e com presença urbana estimulante. O PHAI3C irá procurar identificar e caracterizar tipos de soluções adequadas e sensíveis a uma integração habitacional e intergeracional dos mais frágeis num quadro urbano claramente positivo e em soluções edificadas que possam dar resposta, também, a outras novas e urgentes necessidades habitacionais (ex., jovens e pessoas sós), num quadro residencial marcado por uma gestão participada e eficaz, pela convivialidade espontânea e social e financeiramente sustentável.

Trata-se, tal como se aponta no título do artigo, de uma “versão de trabalho e base bibliográfica” e, portanto, de um artigo cujos conteúdos serão, ainda, substancialmente revistos até se atingir uma versão estabilizada da temática referida no título; no entanto, em virtude da metodologia usada, que se considera bastante sólida, marcada pelo recurso a abundantes referências de fontes, devidamente apontadas e sistematicamente comentadas no sentido da respetiva aplicação ao PHAI3C, e tendo-se em conta a utilidade de se poder colocar à discussão os muitos aspetos registados no sentido da sua possível aplicação prática no PHAI3C, considerou-se ser interessante a divulgação desta temática/problemática nesta fase de “versão de trabalho”, que, no entanto, foi já razoavelmente clarificada – como exemplo do posterior tratamento para passagem a uma versão mais estável teremos, provavelmente, referências bibliográficas mais reduzidas e boa parte delas em português, assim como comentários mais desenvolvidos; mas mesmo este desenvolvimento irá sendo influenciado pelo(s) caminho(s) concreto(s) tomado(s) pelos diversos temas e artigos que integram, desde já, a estrutura pensada para o designado documento-base do PHAI3C, que surgirá, em boa parte, da ligação razoavelmente sequencial entre os diversos temas abordados em variados artigos.

Ainda um outro aspeto que se sublinha marcar, desde o início, o teor do referido documento-base do PHAI3C (a partir do qual serão gerados vários documentos específicos: mais de enquadramento e mais práticos) é o sentido teórico-prático que privilegia uma abordagem mais integrada e exemplificada da temática global da habitação intergeracional adaptável e cooperativa, apontando-se exemplos e ideias concretas logo desde as partes mais de enquadramento da abordagem da temática como as que se desenvolvem neste artigo.


Notas introdutórias ao novo e presente conjunto de artigos sobre habitação integeracional

O presente artigo inclui-se numa série editorial dedicada a uma reflexão temática exploratória, que integra a fase preliminar “de trabalho e de base bibliográfica”, dedicada à preparação e estruturação de um amplo processo de investigação teórico-prático, intitulado Programa de Habitação Aadaptável Intergeracional Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C); programa/estudo este que está a ser desenvolvido, pelo autor destes artigos, no Departamento de Edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), e que integra o Programa de Investigação e Inovação (P2I) do LNEC, sublinhando-se que as opiniões expressas nestes artigos são, apenas, dos seus autores – o autor dos artigos e promotor do PHAI3C e os numerosos autores citados no texto.

Neste sentido salienta-se o papel visado para o presente artigo e para aqueles que o precederam e os que lhe darão continuidade, no sentido de se proporcionar uma divulgação que possa resultar numa desejável e construtiva discussão alargada sobre as muito urgentes e exigentes matérias da habitação mais adequada para idosos e pessoas fragilizadas, visando-se, não apenas as suas necessidades e gostos específicos, mas também o papel e a valia que têm numa sociedade ativa e integrada.

Nesta perspetiva e tendo-se em conta a fase preliminar e de trabalho da referida investigação, salienta-se que a forma e a extensão do texto que é apresentado no artigo reflete uma assumida apresentação comentada, minimamente estruturada, de opiniões e resultados de múltiplas pesquisas, de muitos autores, escolhidos pela sua perspetiva temática focada e por corresponderem a estudos razoavelmente recentes; forma esta que fica patente no significativo número de citações – salientadas em itálico –, algumas delas longas e incluídas na língua original.

Julga-se que não se poderia atuar de forma diversa quando se pretende, como é o caso, chegar, cuidadosamente, a resultados teórico-práticos funcionais e aplicáveis na prática, e não apenas a uma reflexão pessoal sobre uma matéria bem complexa como é a habitação intergeracional adaptável desenvolvida por uma cooperativa a custos controlados e em parte dedicada a pessoas fragilizadas.

Solicita-se a compreensão dos leitores para eventuais lapsos e problemas de edição que, sem dúvida, acontecem no texto que se segue, mas a opção era prolongar, excessivamente, o período de elaboração de um texto que, afinal, se pretende seja essencialmente prático; próximas edições do mesmo texto serão complementarmente revistas e melhoradas.


Habitação intergeracional: da adaptabilidade à participação num adequado quadro arquitetónico I – versão de trabalho e base bibliográfica – infohabitar # 822

António Baptista Coelho

(com base nos textos, ideias e opiniões dos autores referidos ao longo do artigo)


Resumo

(a negrito no resumo a matéria editada esta semana ; em seguida a segunda parte do artigo a editar na próxima semana)

No artigo aborda-se, em primeiro lugar, a importância da adaptabilidade nas novas soluções de habitar, em geral e especificamente em habitação intergeracional.

Em seguida e muito ligado às matérias da adaptabilidade residencial desenvolve-se o papel da participação dos habitantes na promoção do seu bem-estar, numa dinâmica intergeracional convivial que beneficia a saúde e o respetivo meio social ; e neste sentido abordam-se as matérias do idadismo e do atual hiato intergeracional, seguindo-se uma reflexão sobre os comportamentos positivos para o bem-estar e a saúde e sobre a promoção efetiva de relações intergeracionais.

Finalmente centramo-nos na relação entre idosos, habitação e Arquitetura, com uma atenção específica nas questões do desenho universal e especificamente amigo do envelhecimento e sua aplicação em termos de domesticidade e inovação tipológica.


(i) Sobre a importância da adaptabilidade nas novas soluções de habitar, em geral e especificamente em habitação intergeracional

Se a adaptabilidade é essencial em termos de versatilidade e capacidade de apropriação da habitação, em geral, a diversos modos de vida e gostos de habitar ; o que dizer quando estamos num quadro de habitação intergeracional, que cative desde pessoas muito idosas a jovens adultos, portanto, num quadro de exigências e mesmo sonhos residenciais potencialmente muito diversificados e que incluem o novelo sensível de necessidades e gostos dos mais idosos, e ainda, e cumulativamente, quando estamos em presença de um habitar que também se estende, potencialmente e por vontade dos residentes, para um conjunto razoavelmente amplo de espaços e serviços comuns – situação esta ela própria dinamizadora de novas soluções de habitar, mais ou menos conviviais e mais ou menos comunitárias.

Ainda a título de comentários gerais nesta temática, considerados com importância para a estruturação do PHAI3C, juntam-se e comentam-se, brevemente, em seguida, excertos do documento, coordenado por Felix Bohn, que aborda os standards suiços de áreas habitacionais para idosos, intitulado Habitat pour personnes âgées Directives. (1) (negrito nosso) 

La conception de logements sans obstacles et adaptables répondra à deux exigences. Premièrement, elle doit permettre, conformément à un standard minimum, de construire si possible partout et sans incidence sur les coûts, des logements dépourvus d’obstacles évitables (marches isolées, passages trop étroits, espaces de manoeuvre insuffisants, etc.). Deuxièmement, les zones et les éléments primordiaux doivent être conçus de façon à pouvoir être adaptés, le cas échéant, aux besoins individuels des occupants sans pour autant engendrer des travaux majeurs. (pg. 8)

Les exigences concernant les logements adaptés aux personnes âgées sont en partie plus strictes que celles pour les constructions adaptables et celles respectant la norme SIA 500 «Constructions sans obstacles ». Ces exigences accrues doivent être appliquées dès le départ à toutes les constructions appelées à accueillir une majorité de personnes âgées. Cette règle s’applique à tous les projets de logements pour personnes âgées ou pour l’habitat intergénérationnel. Elle a pour but d’assurer aux habitants un maximum de sécurité et d’autonomie, celles-ci dépendant plus fortement de l’environnement bâti que l’on ne pense. (pg. 11)

Salienta-se, naturalmente, a grande exigência que deve ser aplicada nos aspetos de adaptação e de facilitação dos espaços habitacionais relativamente à vida doméstica de pessoas idosas e fragilizadas e a referência, que se considera estruturante do PHAI3C, relativamente à real e muito siginificativa importância que tem o ambiente construído doméstico nos aspetos de segurança e de autonomia dos seus habitantes ; e podemos dizer não só nos aspetos concretos de segurança e de autonomia e à-vontade nos usos domésticos, como num verdadeiro e essencial sentimento de segurança e autonomia domésticas.

Salienta-se no entanto que tais aspetos de adaptabilidade ao bem-estar e ao bom-uso doméstico dos idosos e fragilizados não devem ser fisicamente evidenciados, porque seriam, assim, estigmatizantes ; devem ser, sim, bem embebidos e integrados/camuflados nos diversos ambientes e pormenores domésticos, assim como deverão ser faseados na sua instalação, que só deverá acontecer quando necessária, estando os espaços e as instalações devida e previamente preparadas.

(ii) O papel da participação dos habitantes na promoção do seu bem-estar, numa dinâmica intergeracional convivial que beneficia a saúde e o respetivo meio social

Para além da referida adaptabilidade doméstica e residencial ou acompanhando-a a par e passo, importa ter em conta e facilitar, sempre que possível, a participação dos habitantes na promoção do seu próprio bem-estar residencial, pois assim se apoia uma dinâmica que influencia positivamente a sua saúde e longevidade.

E voltamos, assim, novamente, à influência ambiental no bem-estar residencial e neste caso numa perspetiva que inclui a participação dos habitantes na formatação do seu dia-a-dia e do seu programa de vida ; uma participação que deve ser considerada o mais cedo possível, no âmbito, da respetiva operação habitacional, que deve ser profissionalmente enquadrada no sentido de poder ser o mais efetiva possível e eficaz no desenvolvimento da operação, e que pode e deve ser, sempre, acompanhada por uma perspetiva de dinamização natural e positiva da convivilidade local – no condomínio respetivo e na sua vizinhança urbana –, que esteja bem harmonizada com a maximização da privacidade no uso das unidades residenciais e dos seus principais acessos comuns ; e não é difícil entender, assim, a ligação umbilical que este tipo de iniciativas habitacionais intergeracionais e adaptáveis pode e deve ter com a promoção habitacional cooperativa mais ligada ao habitar de baixo custo e a processos habitacionais participados, como é o caso das cooperativas da FENACHE. 

Esta temática da participação dos habitantes na promoção do seu próprio bem-estar residencial integra, especificamente, um estudo de Nick Karvounis (2), em que este autor defende que “a diferença entre viver muito ou viver pouco por causa da influência da genética não é muita. É maior a influência ambiental” e social, acrescenta-se.

E acrescenta-se porque é ainda o mesmo Nick Karvounis que afirma que «não são os genes que as faz viver mais tempo; é que estão a agrupar-se entre si” ; ou seja, que as pessoas do mesmo extrato social tendem a juntar-se com pessoas da mesma condição e que é isto que as faz viver mais do que outras.

O que daqui se pode retirar é que novas soluções habitacionais com um enfoque amplo e estratégico numa dinamização cuidadosa, mas efetiva, da participação dos habitantes e da interação social nos respetivos espaços comuns, poderão influenciar positivamente a qualidade da fase final da vida das pessoas, melhorando-a e prolongando-a ; e julga-se importante considerar este duplo aspeto participativo e convivial, pois é bem diferente quando as oportunidades de convívio decorrem, também, da iniciativa de quem quer conviver e não apenas de condições ambientais e de gestão específicas – e aliás o próprio potencial de participação também depende, em parte, de determinadas e estratégicas condições espaciai, que o podem estimular.

Se os referidos conjuntos residenciais serão, ou não, especialmente homogéneos em termos socioculturais é algo que nos parece ser impossível de prever, designadamente, quando se estuda um programa residencial intergeracional, como o PHAI3C, que se deseja possa ter uma aplicação o mais possível intensa e generalizada ; e nesta matéria talvez que a utilização das estruturas cooperativas da FENACHE já muito « rodadas » na promoção e gestão de muitas dezenas de milhares de fogos a custos controlados , totalmente abertos à inscrição livre de qualquer pessoa ou família, de qualquer grupo sociocultural seja a melhor garantia de podermos ter uma desejada integração social e tendo-a o mais cedo possível no respetivo processo de promoção.

A única limitação ao que acabou de ser apontado é, naturalmente, a existência de um rendimento « mínimo » que viabilize a participação no programa, o que acaba, é certo, por o dirigir para uma faixa, ainda que ampla, de pessoas da designada « classe média baixa » para cima e sem limites de rendimentos ; mas mesmo esta limitação pode e deve ser suavizada pela integração de pessoas e famílias com menores rendimentos e especificamente apoiadas neste processo pelo Estado, por exemplo, no âmbito de contrapartidas, bem definidas, e associadas à obtenção dos terrenos para desenvolvimento do respetivo programa residencial intergeracional – processo hoje já bem rotinado entre as cooperativas da FENACHE e vários municípios no sentido da construção e gestão de um número importante de habitações de interesse social.

Em tudo isto é importante ter em conta que as tipologias habitacionais existentes, muito marcadas por uma funcionalização datada e ligada a uma forma de viver e a modos de habitar excessivamente uniformizados, não irão servir adequadamente esta perspetiva de um habitar intergeracional participado, adaptável a diversos modos e gostos de habitar e tendencialmente convivial, noção esta que se julga ser ainda mais « crítica »quando necessariamente ligada a aspetos específicos de apoio a pessoas idosas e fragilizadas, que para além destes aspetos sensíveis têm, ainda, um intenso e muito diversificado historial de vida e de modos de uso da habitação a ter em conta ; e, portanto, há, assim, que investir em soluções de habitar adequadamente adaptáveis e inovadoras, tal como aponta Marie Gaffet no estudo Vieillissement de la population et hábitat. (3) (negrito nosso)

Parallèlement, ces dernières années on a vu apparaître de nouvelles solutions de logement, parfois innovantes, du type petits collectifs offrant des services, destinées spécifiquement à un public âgé ou visant à mixer les générations.

Mal connues du grand public et encore peu développées, ces initiatives représentent pourtant une alternative entre le domicile personnel devenu contraignant (non accessible, trop grand, coûteux en entretien, vecteur d’isolement…), et l’accueil en hébergement institutionnel qui, quant à lui ne fait pas toujours l’unanimité et où les places sont rares et onéreuses…

L’objectif est la tenue d’une journée séminaire et échanges d’expériences fin 2019. Celui-ci sera axé sur les conditions de développement de ces différentes solutions tant sous l’angle de la nature du bâti, du modèle économique que de l’intensité de l’accompagnement adapté des personnes.


a) O idadismo prejudica a saúde 

Acabou-se de abordar, sumariamente, o papel da participação dos habitantes na promoção do seu bem-estar e numa dinâmica de interação social que parece influenciar positivamente o seu bem-estar, a sua saúde e, consequentemente, a sua longevidade .

Mas uma tal participação só será verdadeira e efetiva num quadro social e mesmo de opinião pública onde comecemos a anular, decididamente, os preconceitos etários (idadismo) para com os idosos e fragilizados, proporcionando-lhes uma nova presença 

De certa forma poderemos considerar, aqui, como que um movimento de « dentro para fora » onde as novas comunidades intergeracionais possam ter uma dinâmica participativa forte e bem presente na sociedade e um enquadramento, um pouco « de fora para dentro », marcado por uma correção da atual atitude geral para com os idosos e fragilizados, que é ainda muito marcada pore estigmas diversos, até assistencialistas e negativamente funcionalizados, entre os quais a ideia de que depois de habitarmos naturalmente durante quase toda a vida há uma altura onde « obrigatoriamente » temos de ser institucionalizados, deixando de « habitar » realmente para apenas estarmos « alojados » e funcionalmente cuidados.

E tudo isto põe em evidência a noção, que se julga bem real, de que as atitudes para com o envelhecimento afetam a saúde e o bem estar dos idosos, tal como é sublinhado no muito interessante estudo da  Royal Society for Public Health e do UK branch da Fundação Calouste Gulbenkian, intitulado That Age Old Question. (4) 

São, em seguida, registados e minimamente comentados alguns aspetos constantes do referido estudo (negrito nosso), salientando-se ser este tão importante como recente (2018) e participado por um número muito significativo de entidades e investigadores e técnicos da área, referidos em nota de pé de página. (5) 

... ageist attitudes solidify as we grow older, into a set of stereotypes about older people and the ageing process which can be hard to unseat.

• Ageist attitudes harm older people as they lead to direct age-based discrimination – which can promote social exclusion, impact on mental health, and affect wider determinants of health like employment.

• Ageist attitudes also harm individuals who, as they grow older, begin to apply negative age stereotypes to themselves. Previous research has shown that those with more negative attitudes to ageing live on average 7.5 years less than those with more positive attitudes to ageing.

• There is now a growing body of research evidencing the real-life consequences that negative attitudes to ageing have on individual health outcomes such as memory loss, physical function, and ability to recover from illness. This provides a compelling case for apublic health campaign and policy interventions aimed at deconstructing societal driversof ageism. (pg. 10 e 11)

Portanto avançar para boas condições de vida e integração e para relações intergeracionais frequentes e naturalmente disseminadas pela cidade é essencial é urgente, relevando-se, assim, mais uma vez, o interesse e a oportunidade do PHAI3C.


b) "O hiato geracional: segregação versus integração” (The generation gap: segregation vs integration) e a promoção da amizade  como solução a visar

Acabou-se de abordar, sumariamente, a noção de que os conceitos ligados ao idadismo prejudicam não só a saúde das pessoas mais idosas como o bem-estar e o essencial sentido solidário da própria sociedade, passando-se, agora, e com apoio no mesmo excelente estudo da  Royal Society for Public Health e do UK branch da Fundação Calouste Gulbenkian, para a defesa da intergeracionalidade como fator muito positivo num natural combate a esse idadismo. (negrito nosso)

There is now an emerging and convincing evidence base speaking to the positive power of intergenerational contact. A 2017 review 18 of 31 intergenerational contact programmes and 48 studies found that intergenerational contact successfully reduces ageism towards older adults, ... Everyday contact between “young” and “old” helps temper the ageist attitudes held by young people. It is strongly linked with reducing ageist behaviours (a direct consequence of ageist attitudes), and also works to reduce young people’s anxiety about their own ageing. The most important and consistent finding in the literature is that friendships are the most effective and reliable form of contact for reducing ageism. A holistic framework for addressing ageism in society has to look at how we can build settings that foster friendships across the generations. (pg. 12)

However, it is clear from existing research that bringing generations together will not automatically achieve the desired goals of reducing attitudinal and behavioural ageism. If delivered without proper thought, they can sometimes embed ageist attitudes instead. A review of intergenerational contact programmes indicated that, if integration of the generations is to be successful at reducing ageism, there needs to be:

• frequent contact between younger and older people;

• a neutral environment for interaction to take place;

• a setting which promotes an equal status between the groups, including non-patronising communication.  (pg. 15)

Temos, assim, a necessidade de um contato intergeracional frequente, realizado num ambiente qualificado como « neutral », no sentido de poder suscitar o convívio, mas apenas de uma forma natural, não estando associado a nenhum grupo etário em particular e promovendo um equilíbrio de presença e protagonismo entre os diversos grupos ; condições estas que deverão ser bem acolhidas nos espaços do PHAI3C.

Por isso se defende uma expressiva integração geracional, que encontre no espaço residencial um lugar de eleição, talvez porque é aqui que estamos, habitual e frequentemente mais à vontade e mais receptivos a variados estímulos ; tratando-se, portanto, de um espaço privilegiado para reduzir e mesmo anular o idadismo e também para esbater velhas fronteiras entre famigerados equipamentos coletivos funcionalmente e artificialmente espartilhados.

Continuando com a mesma fonte bibliográfica (negrito e sublinhado nossos):

There is much evidence pointing to the capacity of positive intergenerational contact to drive down ageism – especially when this occurs in settings that foster genuine friendships across generations

… local authorities, voluntary care providers, and private care providers should look to move towards co-locating nursery services and older person care. The concept of intergenerational care has existed for more than 40 years, …

The most important and consistent finding in the literature is that friendships are the most effective and reliable form of contact, and so this should be the central aim of a multi-generation home, and indeed any other intergenerational contact programmes. Although we acknowledge that only a small proportion of older adults live in a care home (15% of adults aged 85+), it should be remembered that this recommendation also stands to benefit the younger people involved, both through positive sharing of experience, and healthier attitudes to ageing. In the context of multi-generational care homes, it is vital that older individuals are not cast as beneficiaries in the relationship, and also that programmes cater for the needs of those individuals who do not want or benefit from forced interaction with young children every day. (pg. 30)

Numa tradução direta teremos que as amizades constituem a mais efeitiva e segura forma de contato e, portanto, deveriam ser o principal objetivo de uma residência intergeracional ; temos, portanto, aqui, o caminho aberto a um PHAI cooperativo.


c) Promoção de comportamentos e atitudes saudáveis

Para além dos referidos aspetos ligados a uma promoção cuidadosamente natural das relações de amizade em intervenções residenciais ligadas a pessoas idosas e fragilizadas – condição esta que é sempre fator de entreajuda, companhia e saúde global – é muito importante que também aqui se privilegiem e motivem comportamentos, atitudes e modos de estar e viver saudáveis e vitalizados, designadamente, em termos de saúde mental e de positivas condições de recobro após problemas de saúde graves, tal como também se aponta no estudo da  Royal Society for Public Health e do UK branch da Fundação Calouste Gulbenkian, que tem sido citado. (negrito nosso)

A study involving nearly 5,000 older people found that positive, culturally acquired age beliefs are associated with a lower risk of developing dementia. This was true even for individuals in the study who carried high-risk genetic factors for dementia, among whom those with positive age beliefs were around half as likely to develop dementia as those with negative age beliefs. (pg. 16)

For older adults recovering from conditions of poor health, negative attitudes to ageing can impair recovery to good health. A 2006 study found that, among adults aged 50 to 96, physical recovery after an acute cardiovascular event is linked to the presence of positive age stereotypes, even after controlling for other potentially relevant health factors. Other research involving adults who have become newly disabled in old age has shown that those with positive attitudes to ageing are more likely to recover from this disability than those with negative attitudes.

Physical decline is often considered a natural consequence of ageing, although a person’s psychological state also has a part to play. Walking speed is an indicator of physical function in the ageing population, ... (pg. 24)

De certa forma poderemos considerar que se existe esta relação entre o mal estar físico e o andar mais devagar, situação que é frequentemente referida (até ultimamente num artigo de jornal em que o andar mais devagar na rua se liga a eventuais inícios de demências), talvez que um ambiente de vizinhança e residencial que suscite o andar a pé e mesmo a movimentação geral, com facilidade e segurança, em espaços agradáveis e motivadores (ex., desde percursos pedonais estimulantes, a pequenas hortas e mesmo a escadas bem desenhadas e equipadas) possa apoiar e impulsionar o bem-estar físico e mental dos respetivos residentes ; e provavelmente se tal acontecer num quadro intergeracional bem desenvolvido, que evidencie a « atmosfera » residencial e nunca faixas específicas de residentes, então, provavelmente, o resultado final ficará reforçado.

d) A importância socioeconómica cumulativa da intergeracionalidade

E rematando, por agora, as referências ao incontornável estudo da Royal Society for Public Health e do UK branch da Fundação Calouste Gulbenkian, que tem sido citado e que se intitula That Age Old Question (« essa questão do envelhecimento » ou essa velha questão do envelhecimento), salienta-se a clara importância socioeconómica da intergerecionalidade, que terá vantagens variadas e profundas, não só para os residentes envolvidos (ex., combate à solidão, bem-estar convivial etc.), mas também para os promotores e gestores das respetivas intervenções, em termos de uma eficácia acrescida dos programas integrados, desenvolvendo-se a integração nas comunidades, rentabilizando-se a disponibilização de cuidados pessoais e fazendo-se poupanças financeiras e aumentando-se a eficácia através da integração de diversos tipos de cuidados (ex., residenciais, sociais, de saúde). (negrito e sublinhado nossos)

Intergenerational contact and care offer offers huge benefits for the groups involved, but also to the facilities operators. For local authorities, they would offer great opportunities to improve integration within the community, combat loneliness among older residents, address the shortfall in nursery provision, and ultimately save costs through consolidating provision. For private care home operators, there is an opportunity to diversify their product to include nursery care which could maximise profitability through increased efficiency, as well as offering genuine wellbeing benefits to “young” and “old” customers alike. (pg. 33)


(o artigo conclui na próxima semana)

Notas bibliográficas

(1) Felix Bohn - Conception architecturale habitat pour personnes âgées Directives. Centre Suisse pour la construction adaptée aux handicaps, Kernstrasse 57, CH-8004 Zurich, 044 299 97 97, www.construction-adaptee.ch

(2) Nick Karvounis / unsplash - https://zap.aeiou.pt/segredo-viver-maos-genes-2341

(3) Marie Gaffet (coord) - Vieillissement de la population et hábitat.  PUCA, Cerema - travail de repérage et d’inventaire des initiatives innovantes très variées.2019 

(4) Royal Society for Public Health; Calouste Gulbenkian Foundation (UK branch) – How attitudes to ageing affect our health and wellbeing. RSPH, 2018, © RSPH 2018 Charity Registration Number 1125949, Londres. Contatos: at ageing@gulbenkian.org.uk, Twitter: @CGF_UK, Toby Green at tgreen@rsph.org.uk

(5) E importa aqui referir o amplo leque de instituições e pessoas às quais a Royal Society for Public Health e a FCG agradeceram as contribuições para este estudo:

Guy Robertson (Positive Ageing Associates)

Dr Hannah Swift (University of Kent)

Jill Turner (University of the Third Age, RSPH trustee)

Lucien Paul Stanfield (The Claremont Project)

Professor Anthea Tinker CBE (Kings College London)

Calouste Gulbenkian Foundation:

Esther Goodwin Brown

Bridget Gourlay

Calouste Gulbenkian Transitions in Later Life Learning Community:

Ciarán McKinney Age & Opportunity

Lynne Wealleans Beth Johnson Foundation

Dave Martin Centre for Policy on Ageing

Hannah McDowall Centre for Policy on Ageing

Allyson Whisker Citizens Advice

Joanne Cormack Cheshire and Wirral Partnership NHS Trust

Ruth Rosselson Manchester Mind

Jen Kelly Tavistock Relationships

Margot Henderson Workers’ Educational Association Highlands

Centre for Ageing Better

Jonathan Collie (The Age of No Retirement)

Dr Sarah Hotham (University of Kent)

Anne Bell (PSHE Association)

Professor Sian Griffiths (public health physician, RSPH trustee)


(6) Paz Martín Rodríguez (coord) - Envejezando

https://www.fundc.com/envejezando.html, 2018. Investigação realizada entre 2015 e 2017, seguindo-se exposição itinerante  ‘envejezANDO. Diseño para Todos: Arquitectura y Tercera Edad en España’ que visitou já varias ciudades espanholas. Exposição resultou da pesquisa de Paz Martín Rodríguez -

 Proyecto realizado con la Beca Leonardo a Investigadores y Creadores Culturales 2015, Fundación BBVA.

En la actualidad, envejezANDO es una plataforma de investigación, difusión, proposición creativa continua de proyectos para la innovación arquitectónica intergeneracional con el campo del envejecimiento de la población como foco.

Iinvestigadores: Paz Martín, César García Guerra, Lucía Corral Partearroyo, María Ramos, Waldo de Keersmaecker, Bobby Kepman

Textos: Ángeles Caballero Martín

http://www.envejezando.com/ 

https://issuu.com/envejezando/docs/intergeneracionales_01lr

 info@envejezando.com

www.envejezANDO.com

http://www.fundc.com/mota/index.html

http://www.envejezando.com/index.html

www.envejezANDO.com

#envejezANDO

https://www.youtube.com/watch?v=kTZ5bCWhf6I

(7) JANUARY 2017 David Finch - Demographic trends and their implications for living standards. Resolution Foundation, Intergenerational Commission, 2017.

(8) Dan Buettner - The Island Where People Forget to Die. Outubro,24, 201 2. The New Yor Times Magazine https://nyti.ms/RxhGh4. A version of this article appears in print on October 28, 2012, on Page MM36 of the Sunday Magazine with the headline: The Enchanted Island Of Centenarians.

(9) Susan Braedley;  Gillian Martel - Dreams of Home: Policy Implications for Care of Older Adults - Studies in Political Economy 95 SPRING 2015.

(0) Plan urbanisme construction et architecture (PUCA) - L’habitat  et  la  gérontologie  :  deux  cultures  en  voie  de  rapprochement  ? PUCA 2008, Programme  de  Recherche  «  Vieillissement  de  la  population  et  habitat» , Enquête  auprès  des  nouvelles  formules  d’habitat  pour  personnes âgées, Rapport Final Out 2008.



Notas editoriais gerais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações. 

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Habitação intergeracional: da adaptabilidade à participação num adequado quadro arquitetónico I – versão de trabalho e base bibliográfica – infohabitar # 822

Infohabitar, Ano XVIII, n.º 822

Edição: quarta-feira, 6 de julho de 2022


Artigo XIII da série editorial da Infohabitar “PHAI3C – Programa de Habitação Adaptável e Intergeracional através de uma Cooperativa a Custo Controlado”


Infohabitar – a revista da GHabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa


abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt


Revista da GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).