quarta-feira, maio 25, 2022

Pausa de uma semana na edição da Infohabitar

 Caros leitores da Infohabitar,

Esta semana mantemos em primeira linha editorial o último artigo sobre habitação integeracional cooperativa, que saiu nas últimas duas semanas, tratando a temática da atratividade, identidade e integração nos espaços habitacionais e urbanos realizados tendo em conta irem servir um número significativo de pessoas idosas e fragilizadas, mas, sempre, desejavelmente, num natura contexto internacional, participado e bem adaptável.

Como entenderão a edição destes artigos segue, com pouca distância temporal, a sua respetiva elaboração e mesmo considerando que se estão  a editar "versões de trabalho" dos mesmos, temos por vezes de contar com um pouco mais de tempo de trabalho.

Com amizade e desejos de muita saúde, 

António Baptista Coelho 

Editor 

quarta-feira, maio 18, 2022

Atratividade, identidade e integração na habitação para idosos – Parte II (versão de trabalho) – Infohabitar # 816

Ligação direta (clicar) para:  listagem interactiva de 800 Artigos, edição revista em janeiro de 2022- 38 temas e mais de 100 autores

 

Atratividade, identidade e integração na habitação para idosos – Parte II

 (versão de trabalho) –  Infohabitar # 816

Infohabitar, Ano XVIII, n.º 816

Edição: quarta-feira, 18 de maio de 2022

Artigo VI da série editorial da Infohabitar “PHAI3C – Programa de Habitação Adaptável e Intergeracional através de uma Cooperativa a Custo Controlado”


Caros leitores da Infohabitar,

Com o presente artigo continuamos a série editorial da Infohabitar especificamente dedicada a uma abordagem dos amplos, sensíveis e urgentes aspetos associados às necessidades, aos gostos e às potencialidades sociais e urbanas de uma reflexão prática sobre os espaços residenciais dedicados a pessoas idosas e fragilizadas, desejável e naturalmente integrados em quadros intergeracionais, dinamizados e convivializados pelas cooperativas que estão, desde há dezenas de anos, dedicadas à promoção de habitação de interesse social com expressiva qualidade e frequentemente associada a um amplo leque de variadas e vitais atividades vicinais e urbanas.

Devido à extensão do artigo este foi dividido em duas partes, editadas nesta e na última semanas.

Lembra-se, como sempre, que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas sobre os artigos aqui editados e propostas de artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com).

Despeço-me, até à próxima semana, enviando saudações calorosas e desejos de força e de boa saúde para todos os caros leitores,    

 

Lisboa, em 18 de maio de 2022

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

 

Nota introdutória à temática do Programa de Habitação Adaptável Intergeracional – Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C)

Considerando-se o atual quadro demográfico e habitacional muito crítico, no que se refere ao crescimento do número das pessoas idosas e muito idosas, a viverem sozinhas e com frequentes necessidades de apoio, a actual diversificação dos modos de vida e dos desejos habitacionais, e a quase-ausência de oferta habitacional e urbana adequada a tais necessidades e desejos, foi ponderada o que se julga ser a oportunidade do estudo e da caracterização de um Programa de Habitação Adaptável Intergeracional (PHAI), adequado a tais necessidades e a uma proposta residencial naturalmente convivial, eficazmente gerida e participada e financeiramente sustentável, resultando daqui a proposta de uma Cooperativa a Custos Controlados (3C).

O PHAI3C visa o estudo e a proposta de soluções urbanas e residenciais vocacionadas para a convivência intergeracional, adaptáveis a diversos modos de vida, adequadas para pessoas com eventuais fragilidade físicas e mentais, mas sem qualquer tipo de estigma institucional e de idadismo, funcionalmente mistas e com presença urbana estimulante. O PHAI3C irá procurar identificar e caracterizar tipos de soluções adequadas e sensíveis a uma integração habitacional e intergeracional dos mais frágeis num quadro urbano claramente positivo e em soluções edificadas que possam dar resposta, também, a outras novas e urgentes necessidades habitacionais (ex., jovens e pessoas sós), num quadro residencial marcado por uma gestão participada e eficaz, pela convivialidade espontânea e social e financeiramente sustentável.

Trata-se, tal como se aponta no título do artigo, de uma “versão de trabalho” e, portanto, a um artigo cujos conteúdos poderão ainda ser substancialmente revistos até se atingir uma versão estabilizada da temática referida no título; no entanto, em virtude da metodologia usada, que se considera bastante sólida, marcada pelo recurso a abundantes referências de fontes, devidamente apontadas e sistematicamente comentadas no sentido da respetiva aplicação ao PHAI3C, e tendo-se em conta a utilidade de se poder colocar à discussão os muitos aspetos registados no sentido da sua possível aplicação prática no PHAI3C, considerou-se ser interessante a divulgação desta temática/problemática nesta fase de “versão de trabalho”, que, no entanto, foi já razoavelmente clarificada – como exemplo do posterior tratamento para passagem a uma versão mais estável teremos, provavelmente, referências bibliográficas mais reduzidas e boa parte delas em português, assim como comentários mais desenvolvidos; mas mesmo este desenvolvimento irá sendo influenciado pelo(s) caminho(s) concreto(s) tomado(s) pelos diversos temas e artigos que integram, desde já, a estrutura pensada para o designado documento-base do PHAI3C, que surgirá, em boa parte, da ligação razoavelmente sequencial entre os diversos temas abordados em variados artigos.

Ainda um outro aspeto que se sublinha marcar, desde o início, o teor do referido documento-base do PHAI3C (a partir do qual serão gerados vários documentos específicos: mais de enquadramento e mais práticos) é o sentido teórico-prático que privilegia uma abordagem mais integrada e exemplificada da temática global da habitação intergeracional adaptável e cooperativa, apontando-se exemplos e ideias concretas logo desde as partes mais de enquadramento da abordagem da temática como as que se desenvolvem neste artigo.

Notas introdutórias ao novo e presente conjunto de artigos sobre habitação integeracional

O presente artigo inclui-se numa série editorial dedicada a uma reflexão temática exploratória, que integra a fase preliminar e “de trabalho”, dedicada à preparação e estruturação de um amplo processo de investigação teórico-prático, intitulado Programa de Habitação Aadaptável Intergeracional Cooperativa a Custos Controlados (PHAI3C); programa/estudo este que está a ser desenvolvido, pelo autor destes artigos, no Departamento de Edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), e que integra o Programa de Investigação e Inovação (P2I) do LNEC, sublinhando-se que as opiniões expressas nestes artigos são, apenas, dos seus autores – o autor dos artigos e promotor do PHAI3C e os numerosos autores citados no texto.

Neste sentido salienta-se o papel visado para o presente artigo e para aqueles que o precederam e os que lhe darão continuidade, no sentido de se proporcionar uma divulgação que possa resultar numa desejável e construtiva discussão alargada sobre as muito urgentes e exigentes matérias da habitação mais adequada para idosos e pessoas fragilizadas, visando-se, não apenas as suas necessidades e gostos específicos, mas também o papel e a valia que têm numa sociedade ativa e integrada.

Nesta perspetiva e tendo-se em conta a fase preliminar e de trabalho da referida investigação, salienta-se que a forma e a extensão do texto que é apresentado no artigo reflete uma assumida apresentação comentada, minimamente estruturada, de opiniões e resultados de múltiplas pesquisas, de muitos autores, escolhidos pela sua perspetiva temática focada e por corresponderem a estudos razoavelmente recentes; forma esta que fica patente no significativo número de citações – salientadas em itálico –, algumas delas longas e incluídas na língua original.

Julga-se que não se poderia atuar de forma diversa quando se pretende, como é o caso, chegar, cuidadosamente, a resultados teórico-práticos funcionais e aplicáveis na prática, e não apenas a uma reflexão pessoal sobre uma matéria bem complexa como é a habitação intergeracional adaptável desenvolvida por uma cooperativa a custos controlados e em parte dedicada a pessoas fragilizadas.

Solicita-se a compreensão dos leitores para lapsos e problemas de edição que, sem dúvida, acontecem no texto que se segue, mas a opção era prolongar, excessivamente, o período de elaboração de um texto que, afinal, se pretende seja essencialmente prático; as próximas edições serão complementarmente revistas e melhoradas.


Atratividade, identidade e integração na habitação para idosos – Parte II (versão de trabalho) –  Infohabitar # 816

António Baptista Coelho

(texto e fotografia)

Resumo

Neste artigo, dedicado à temática de uma habitação especialmente adequada para idosos e pessoas fragilizadas, mas num essencial quadro intergeracional, participativo e bem integrado em termos sociais, urbanos e arquitetónicos, abordam-se, em primeiro lugar, matérias associadas à caraterização em termos de atratividade e de ausência de estigmas que se considera deverem marcar essa habitação, passando-se, em seguida, para a temática da na habitação para a temática da criação de ambientes especialmente agradáveis nessas novas intervenções residenciais.

Numa segunda parte do artigo (editada no presente número da Infohabitar) desenvolvem-se reflexões sobre o que poderá levar os seniores a uma mudança residencial e à escolha de soluções específicas urbanas e habitacionais, concluindo-se com a referência à residência às condições de apropriação, identidade e sentido do lugar habitacional, que se considera deverem caraterizar essas intervenções.

Subtemáticas do presente item, marcando-se a negrito os temas editados na presente semana:

(i) Atratividade e ausência de estigmas na habitação para idosos

(ii) Criação de ambientes especialmente agradáveis

(iii) Os seniores, as mudanças e a escolha residencial

(iv) Apropriação, identidade e sentido do lugar habitacional

No presente item aborda-se um leque de tópicos que, tal como fica evidente, são ou deveriam ser muito caros a toda a conceção arquitetónica residencial e especificamente em situações de adequação residencial e urbana mais sensível e complexa, porque ligada a habitantes mais sensíveis, isto porque é evidente a grande importância que tem um sentimento de atração relativamente ao sítio e aos espaços que habitamos, numa atratividade bem complementada e qualificada por aspetos de adequada integração e de promoção da identidade local.

Por isso « só », este item nos levaria muito longe, mas iremos tentar sintetizar e direcionar citações e comentários especificamente para intervenções habitacionais adequadas para idosos e pessoas fragilizadas, que, desde já, se considera tenderão a ser, provavelmente, muito afetadas pela existência ou ausência evidenciadas desta qualidade « chapéu » da atratividade ; uma qualidade que tem aspetos específicos (ex., formas impactantes, ausência de elementos com aspeto triste ou estigmatizante, ausência evidenciada de manutenção ou durabilidade), mas que também é naturalmente portadora de aspetos qualitativos com presença própria (ex., relação com a natureza, cromatismo, dignidade, caráter local e próprio).

 

3. Os seniores, as transições de estilo de vida e a possibilidade de escolha residencial

Continuando na temática geral do desenvolvimento da atratividade, da identidade e da integração numa habitação adequada para idosos e tendo abordado já os aspetos mais particulares da atratividade e ausência de estigmas e da criação de ambientes especialmente agradáveis e mesmo « desafiadores », passamos, agora, para a referência à fundamental existência de uma real possibilidade de escolha e de adequada informação, apoiando a possibilidade da mudança de habitação numa fase de vida mais adiantada.

Nesta matéria importa salientar e recomendar a consulta do incontornável e recente estudo  da Calouste Gulbenkian Foundation UK Branch (FCC-UK); Centre for Public Impact (CPI), intitulado Transitions in Later Life. (6)

Este estudo da FCG-UK regista, entre muitooutros úteis aspetos, uma importante indicação de potenciais parceiros nestas matérias, sendo também também muito importante o próprio perfil do estudo ligado a aspetos de comunicação e informação, que se julgam estratégicos no âmbito do serviço a uma população fragilizada e frequentemente pouco informada relativamente ao que poderia pedir/exigir em termos de um habitar mais adequado e mais amigável; sublinha-se, ainda, julgar-se que no sentido específico do PHAI3C a utilidade deste estudo é direta.

A título de comentários gerais com importância para a estruturação do PHAI3C juntam-se e comentam-se, em seguida, breves excertos do referido estudo/documento. (negrito nosso)

People in mid-life are often encouraged to plan financially for their later years. However there’s little resource or knowledge on how to plan emotionally and psychologically for this time.

Transitions such as retirement, moving out of the family home or a deterioration in health are often difficult. They can for example, lead to loneliness and isolation which impacts on mental and physical health.

Our ambition is to ‘future-proof’ chronic health and social issues in later life. We believe we will help to bring about major social change if people in mid and later life are supported to develop the coping skills they need to manage transitions as they age.

We’ll know we have succeeded when there are:

. Better flows of information, to help people plan for their psychological and emotional wellbeing through retirement and beyond

. Greater awareness among employers, demonstrated by more effective support for employees around and in advance of retirement

. A bank of tested ideas that can be implemented within existing models of provision

. Cross-sector partnerships that enable greater investment in this field.

The Calouste Gulbenkian Foundation (UK Branch) has partnered with the Centre for Public Impact (CPI) to conduct a review of international policies that focus on easing the transition to retirement and later life…

The report features 15 international initiatives, covering ten different countries, providers (government, third and private sector) and delivery models…. 

Of the 15 case studies, four different types of intervention were identified, as well as four common motivations for change

 



Fig. 02 : uma vista caraterizadora da imagem ubana do programa intitulado « Vila dos Idosos », em São Paulo, Brasil ; uma intervenção do programa Morar no Centro da Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (COHAB), que integra 145 unidades para pessoas idosas, realizado em 2003-2007, com projeto de Arquitetura de VIGLIECCA&ASSOC – Arq.º Hector Vigliecca e Associados. Mais imagens deste conjunto acompanharão os próximos artigos desta série, tendo sido recolhidas no âmbito do 3.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono (3.º CIHEL) promovido pelas FAU- Mack, FAU-USP e IAU-USP.

 

4. Apropriação, identidade e sentido do lugar residencial

Continuando na temática geral do desenvolvimento da atratividade, da identidade e da integração numa habitação adequada para idosos e fragilizados e tendo abordado já os aspetos mais particulares da atratividade e ausência de estigmas, da criação de ambientes especialmente agradáveis e mesmo « desafiadores » e de existência de informação adequada e de uma real possibilidade de escolha, apoiando a possibilidade da mudança de habitação numa fase de vida mais adiantada, vamos agora focar alguns aspetos específicos de apropriação e identidade residencial, incluindo a existência de referências de domesticidade e de ligações com o passado pessoal e familiar, e a criação e desenvolvimento de um agradável sentido do lugar.

(i)          Aspetos gerais sobre apropriação e identidade residencial

No sentido de uma brevíssima referência à importante matéria da apropriação e da identidade residencial, visando-se, muito especialmente, a sua aplicação, como ferramenta de atratividade, em intervenções habitacionais intergeracionais refere-se e comenta-se, em seguida, o estudo de Anne Buttimer, [tradução Letícia Pádua] intitulado «  Lar, horizontes de alcance e o sentido de lugar (Home, reach, and the sense of place) ». (7) (negrito nosso)

O lugar é construído, significado, recomposto e criado pelas pessoas que nele vivem. Mas é impossível desconsiderar a ação de agentes externos, sobretudo no que concerne as ações de planejamento, frequentemente liderada por agente públicos que obedecem normas e critérios universais, ignorando o conhecimento e as especificidades que só as pessoas do lugar podem conhecer. Assim, a partir de sua experiência pessoal, Anne Buttimer traça um vibrante e intricado relato que nos esclarece questões conceituais centrais sobre nossas relações com o lugar e com a comunidade. A autora explora um dos mais fortes paradoxos da relação homem-lugar, demonstrando o conforto e as limitações do lugar e, ao mesmo tempo, a busca pelo desafio e pelas potencialidades dos horizontes de alcance, que projetam nossos desejos e anseios ao nos lançarmos no mundo. (pg. 4)

Talvez a ideologia aplicada nos limites comerciais de estudos de territorialidade tenha ofuscado os assuntos mais profundos. Norberg-Shulz (1971), em seu lúcido livro sobre arquitetura, destaca o que está envolvido no fazer do espaço arquitetônico um reflexo do espaço existencial. Eu sou, é claro, incrédula de que todos os aspectos significativos da existência possam ser prontamente traduzidos no lugar em termos arquitetônicos, mas isso realmente não parece ser o ponto mais importante. O problema filosófico e pragmático crucial está em qual papel potencial é permitido aos moradores terem qualquer palpite criativo no desenho dos lugares.(pg. 13)

Tal como já se considerou, neste estudo, a apropriação residencial, sendo uma ferramenta potente e sensível, tem de ser usada com efetividade, mas com grandes cuidados, designadamente, no que se refere ao « recheio » dos espaços comuns residenciais, onde importa haver evidente consenso, e mesmo no que se refere aos espaços privados residenciais, onde há que informar e apoiar no sentido de se poderem criar efeitos finais verdadeiramente estimulantes, respeitando-se a individualidade e o gosto de cada um, mas disponibilizando o conhecimento profissional com o objetivo de se recriarem « grandes » espaços domésticos em habitações tipologicamente pequenas.

(ii) Referências visuais domésticas

Nestas matérias de estímulo a uma adequada apropriação e atratividade uma ferramenta habitual da construção de um agradável sentido de lugar habitado consiste no uso e integração de referências visuais domésticas e de aspetos associados à domesticidade, tal como foi tratado pelo incontornável arquitecto e teórico Witold Rybczynski, e é, aqui, lembrado por Sabine Gillner, Anja M. Weiß e Hanspeter A. Mallot no estudo intitulado Visual homing in the absence of feature-based landmark information. (8) (negrito nosso)

In summary, our results indicate that humans are able to approach to and recognize places based on raw image information void of localized cues, landmarks, or objects.

This performance is similar to visual homing behaviour described for various insects. As has been shown in a large number of robotic studies, image-based homing is a powerful strategy in real-world navigation. Our findings do not rule out other forms of landmark usage such as localization with respect to local wall-distance or recognized objects, which may be used additionally in richer environments. (pg. 122)

Julga-se que o desenvolvimento do que podemos designar de uma especial domesticidade residencial se refere a uma qualidade que marca, sistematicamente, embora diversamente, os melhores espaços de habitação, e de uma forma muito independente dos respetivos aspetos funcionais e mesmo, em alguns aspetos, dimensionais ; mas trata-se de matéria sensível, e sempre um pouco discutível para muitos autores.

No entanto depois de passearmos visualmente por muitas excelentes habitações de grandes arquitectos e de « grandes habitantes », como são os escritores famosos, não parece haver muitas dúvidas sobre a importância da domesticidade habitacional na criação de uma experiência residencial intensa e estimulante, capaz de marcar espaços e ambientes como muito atraentes e acolhedores e portanto sempre dignos de serem reabitados, porque sempre agradável e sensivelmente renovados nas experiências e sentimentos que nos proporcionam.

E neste sentido julga-se que existe aqui um tema essencial a abordar quando se criam « novos » ambientes residenciais para velhos e sensíveis habitantes.

(iii) Lugares-pontes para o passado

Naturalmente que uma outra ferramenta habitual da construção de um agradável sentido de lugar habitado consiste na integração de referências com o passado, criando-se, no limite, verdadeiros « lugares-pontes » para o passado, e neste sentido faz-se, em seguida, uma referência a um estudo editado por John Eyles e Allison Williams, intitulado Sense of place, health and quality of life. (9) (negrito nosso)

People’s experiences of places remain with them over time, either through memories of places from their past, or through repeated use of the same places over time.

Both past places and past experiences in currently used places were integral components of the equation of people, places, experiences and feelings that made up participants’ lives. It is through places that people can make connections between a whole collection of feelings and experiences in the present and the past…

An important part of participants’ relationships to places stemmed from issues regarding safety and threat. Here, we see how identity influences one’s sense of safety and the places where one finds safety. In particular, participants from socially marginalized groups, i.e. people of color, women, gays, and in one case, an excon, told powerful stories about places in which experiences of safety and threat had a critical impact on their relationships to places, and their sense of self. (pg. 78)

É interessante e considera-se ser talvez de explorar, posteriormente, esta relação entre um sentido confortável e, de certa maneira, « envolvente », de segurança e relações das pessoas com os sítios ; e focando tal relação em aspetos de memória dos sítios.

In contrast to popular beliefs about the nature and meaning of home, almost all participants (90%) mentioned some negative aspect of either their current or a past residence. When asked specifically about their feelings about their current residence, some participants (23%) said they did not feel connected to their residence at all. (pg. 79)

Nesta perspetiva talvez importe considerar, também, o eventual e relativamente afirmado « corte » com passados residenciais desagradáveis e inadequados ; matéria esta que importará aprofundar.

Ainda sobre aspetos básicos da relação com o passado na construção de novos ambientes para velhos e sensíveis residentes, e tendo-se em conta os frequentes problemas de saúde que afetam a memória dos idosos, regista-se, com poucos comentários, a solução que está a ser empregue de construção de « ambientes de época » onde idosos com problemas mentais graves parecem sentir-se mais à vontade, pois fazem-lhes reviver memórias e referências de juventude.

Referiu-se não se fazerem grandes comentários a soluções deste tipo, mas importará, pelo menos, registar a questão das escolhas pormenorizadas e preferenciais no sentido dos ambientes a criar, por exemplo, nos espaços comuns de uma intervenção onde se espere um número significativo de idosos : uma opção desse tipo, recriando-se ambientes de há algumas dezenas de anos ; uma opção contemporânea ainda que sóbria ; uma opção marcada essencialmente por uma intemporalidade expressivamente confortável e envolvente ; ou outras opções ?  

(iv)       Lugares sentidso (sentido do lugar), saúde e identidade

Os mesmos John Eyles e Allison Williams, no estudo intitulado Sense of place, health and quality of life abordam alguns aspetos interessantes no que se refere ao lugar sentido e/ou ao sentido do lugar, que parecem ser úteis no desenvolvimento das caraterísticas do PHAI3C ; aspetos estes que são, em seguida, citados com muito poucos comentários. (negrito nosso)

A significant body of theoretical and empirical studies describes 'sense of place' as an outcome of interconnected psychological, social and environmental processes in relation to physical place(s). Sense of place has been examined, particularly in human geography, in terms of both the character intrinsic to a place as a localized, bounded and material entity, and the sentiments of attachment/detachment that humans experience and express in relation to specific places.

 Scholars in a wide range of disciplines are increasingly exploring the relationship between place and health, and recently, the field of public health has been encouraged to recognize sense of place as a potential contributing factor to well-being.(pg. 67)

I. General place questions

1. Tell me about some places that are especially important and meaningful to you.a

2. Are there certain places where you feel especially relaxed and comfortable?

3. Are there places that you like to go to be alone, to think or daydream?

4. Are there any places that you go to be around other people?

5. Are there places from your past that are important to you, which you haven’t been to lately but would like to go to again?

6. Have you ever lost a place that was special to you in some way?

7. Are there any places that you still go to that were once special but have lost their meaning for you?

8. What does the phrase being at home mean to you?

II. Experience of the residence

9. How do you feel about the place where you live now?

10. What do you like/dislike about it?

11. Howmany times have you moved since you first left your parents’ or guardian’s residence?

12. What was the best place you ever lived?

13. What was the worst place you’ve ever lived?

III. Past environmental experiences

14. Are there particular places that evoke strong memories for you?

15. When you think back to your childhood, what was the first place that was very important to you?

All questions included probes to explore the nature of participants’ experiences in each place mentioned, the qualities of those places, and the process of meaning making, i.e. how that place came to hold its particular meaning, what happened there, and what aspects of the place contributed to those experiences and meanings…

Results

The meaning and importance of places findings demonstrate the richness and complexity of people’s relationships to a whole range of places, both residential and nonresidential, revealing that these relationships are a fundamental part of their lives. (pg. 73)

Such accounts indicate that it is not simply the places themselves that are significant, but rather what can be called ‘‘experience-in-place’’ that creates meaning…

significant places reflect people’s evolving identity; provide opportunities for privacy, introspection and reflection; serve as transitional markers as well as bridges to the past; and reflect the salience of safety, threat and belonging which are fundamentally connected to socially constructed identities, thus reflecting the political underpinnings of our relationships to places … (pg. 74)

Privacy, introspection and reflection Findings suggest that certain places become meaningful specifically because they afford people the opportunity for privacy, introspection and self-reflection.

… I like the trip itself. I especially like bus trips. It is a way of being alone, even though I am not literally alone. I have my own things around me, I have my books. And I am seeing things go by, neighborhoods pass behind the glass. I find I am very reflective when I take these rides. These results confirm the importance of natural places for solitude, yet they reveal that a variety of settings and experiences support privacy and introspection.

For some, important places provide opportunities for reflection through solitude. For others, important places offered the stimulation they desired to facilitate a reflective process—the changing scenery of a bus ride, or quiet jazz in a cafe. The importance of introspection and reflection reinforce the notion that significant experiences in places are those that reflect one’s personal journey in the world.

Places as markers in life’s journey

Many participants (43%) described how important places were those in which events occurred that marked their particular life journey in new or unique ways. This seemed to happen in two general ways: (1) significant experiences or what I call ‘‘milestone moments;’’ or (2) experiences of change and transition. (pg. 76)

Não parece assim poder haver dúvidas sobre a importância de se fazerem, mesmo, « lugares » quando se faz habitação, sendo tanto mais importante tal criação quanto mais potencialmente sensíveis forem os respetivos habitantes ; e fazer lugares, dentroi de lugares, dentro de lugares, ligados por transições que são, elas próprias, outros lugares ; mas para tal há que fazer uma excelente Arquitectura.

(v) Identidade e lugar e sobre o desenvolvimento do caráter do lugar

Ainda com John Eyles e Allison Williams, no estudo intitulado Sense of place, health and quality of life, avançamos em alguns aspetos considerados significativos e relativos ao desenvolvimento do caráter do lugar ; não se julgando necessários comentários específicos. (negrito nosso)

It is evident, for example, that many places become meaningful through the steady accretion of experiences in them, such as Tuan (1974) hypothesized years ago. Repeated use of places enables participants to engage in a variety of experiences in places.

This added many facets and layers of meaning to those places, as people ‘‘collected’’ experiences in them. People developed multi-faceted relationships with places that sometimes transcended physical boundaries and coalesced around personal, emotional experiences. (pg. 81)

Relationships to places reflect people’s psychological landscapes, their personal issues and their particular journey in the world (Jager, 1974).

Findings reveal that there are other qualities to the dynamics between identity and place that warrant further attention, in particular the ways that our socially constructed identities influence our relationships to place.

. Dynamics of people– place relationships

Relationships to places are a life-long phenomenon. They develop and transform over time, so that past experiences in places influence our current relationships to places.

. Creative use of space

Findings indicate that there is a fluid boundary, if any boundary at all, between the public and the private in terms of meaning and use of space. For example, people sought out public locations such as parks, bookstores and cafes to become lost in their thoughts and to reflect on their problems and interpersonal relationships and have what most consider very private moments. (pg. 83)

. The importance of loss and negative experiences

Participants’ discussions about meaningful places in their lives made it clear that identity develops from more than self-affirming experiences. That is, people’s everchanging sense of self was influenced by difficult, sometimes unpleasant experiences in places (Fried, 1963).

 In some cases, people avoided places that reminded them of aspects of themselves that they would rather forget, or which were reminders of painful experiences. In other cases, people chose not to go to places where they felt unable to be themselves.

 Rather, they sought places where they could feel free to express themselves.

People’s emotional relationships to the places embrace an array of places, feelings and experiences.  (pg. 84)

 

Termina-se, para já, esta matéria específica focada na importância da apropriação, da « identidade com » e da envolvência doméstica de intervenções urbanas e residenciais intergeracionais com uma breve nota para as caraterísticas exatamente distintas das que acabam de ser referidas que caraterizam boa parte dos chamados equipamentos de apoio à « 3.ª idade » : inapropriáveis e sem referências de identificação porque institucionais e padronizados, desintegrados de uma envolvente e integradora urbanidade, marcados por uma fria funcionalidade, bem diferente, do desejado ambiente doméstico e sem qualquer caráter de lugar com muitos lugares nele integrados.

 

Notas :

(1) Erin G. Roth, MA, J. Kevin Eckert, PhD, and Leslie A. Morgan, PhD - Stigma and Discontinuity in Multilevel Senior Housing’s Continuum of Care. Department of Sociology and Anthropology, Center for Aging Studies, UMBC, Baltimore, Maryland. The Gerontologist, 2016, Vol. 56, No. 5.  © The Author 2015. Published by Oxford University Press on behalf of The Gerontological Society of America. All rights reserved.

Downloaded from https://academic.oup.com/gerontologist/article-abstract/56/5/868/2605327/Stigma-and-Discontinuity-in-Multilevel-Senior

(2) Margaret Edwards and Ed Harding - Building our Futures Meeting the housing needs of an an ageing population. Building Our Futures Steering Group Members. 2006. International Longevity Centre UK

(3) Griffero, Tonino – Quasi-Things: The Paradigm of Atmospheres. Environmental & Architectural Phenomenology Vol. 28, No. 2. Kansas State University. Architecture Department, New Prairie Press, 9-18-2017. Albany, NY: State Univ. of New York Press.

(4) Barzan, Robert – My Spirituality of Place. Environmental & Architectural Phenomenology Vol. 28, No. 2. Kansas State University. Architecture Department, New Prairie Press, 9-18-2017.

espiritualidade e lugar 9-18-2017

(5) Quillien, Jenny – Reflections from Bhutan. on the “-ness” in place-ness. Environmental & Architectural Phenomenology Vol. 28, No. 2. Kansas State University. Architecture Department, 2017 New Prairie Press, 9-18-2017.

(6) Calouste Gulbenkian Foundation UK Branch; Centre for Public Impact (CPI)  Transitions in Later Life. Londres: Calouste Gulbenkian Foundation UK Branch;, Centre for Public Impact (CPI), 2015.

(7) Buttimer, Anne [tradução Letícia Pádua] – Lar, horizontes de alcance e o sentido de lugar (Home, reach, and the sense of place). Geograficidade, v.5, n.1, Verão 2015 – Nova Iorque: St. Martin’s Press, coletânea “The Human Experience of Space and Place”, edi­tada por Anne Buttimer e David Seamon, 1980. p.166-187.

(8) Gillner, Sabine; Weiß, Anja M.; Mallot, Hanspeter A. – Visual homing in the absence of feature-based landmark information. Cognition 109, 2008. pp. 105–122 (Tübingen: University of Tübingen, Faculty of Biology, Department of Cognitive Neurobiology)

(9) Eyles, John; Williams, Allison (ed.) – Sense of place, health and quality of life. Routledge, Geographies of Health Series, 2008

 

Notas editoriais gerais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

Atratividade, identidade e integração na habitação para idosos – Parte II

 (versão de trabalho) –  Infohabitar # 816

Infohabitar, Ano XVIII, n.º 816

Edição: quarta-feira, 19 de maio de 2022

 

Artigo VI da série editorial da Infohabitar “PHAI3C – Programa de Habitação Adaptável e Intergeracional através de uma Cooperativa a Custo Controlado”

 

Infohabitar – a revista da GHabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa

 

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

 

Revista da GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).