terça-feira, abril 27, 2021

A propósito dos edifícios de Habitação de Interesse Social – infohabitar # 774

Ligação direta (clicar) para:  760 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada em janeiro de 2021- 38 temas e mais de 100 autores

 

A propósito dos edifícios de Habitação de Interesse Social – infohabitar # 774

 

Infohabitar, Ano XVII, n.º 774

Edição: terça-feira, 27 de abril de 2021

 

Caros leitores da Infohabitar,

Na sequência natural dos oito artigos que aqui foram publicados e dedicados ao desejável desenvolvimento da qualidade arquitectónica e da satisfação residencial no que ainda falta fazer em termos de nova Habitação de Interesse Social Portuguesa (HISP),

Na semana passada, esta semana e na próxima continuamos uma “discussão” sobre o referido tema em três edições muito ilustradas e comentadas no âmbito de casos de referência de HISP realizados, preferencialmente, nas últimas dezenas de anos.

Os três artigos editados e a editar serão dedicados sequencialmente: à vizinhança próxima residencial; ao edifício habitacional (presente artigo); e à habitação.

Lembra-se, ainda e novamente, que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas sobre os artigos aqui editados e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com, ao meu cuidado).

Considerando-se que o combate à pandemia está, agora, a desenvolver-se numa fase tão sensível como importante, continua a sublinhar-se a vital importância do máximo confinamento, do distanciamento social, do teletrabalho e do respeito por todas as medidas de higiene e proteção amplamente divulgadas.

Despeço-me, até à próxima semana, enviando saudações calorosas e desejos de força e de boa saúde para todos os caros leitores e seus familiares,    

 

Lisboa, Encarnação, em 26 de abril de 2021 

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar 

 

A propósito dos edifícios de Habitação de Interesse Social – infohabitar # 774

António Baptista Coelho

(texto e fotografias)

 

Resumo

Depois de uma introdução sintética sobre o que se considera serem as mais desejáveis opções de intervenção em termos de edifícios residenciais, passa-se a uma abordagem de vários aspetos a sublinhar em termos de intervenção nesse edificado em textos que são, quase exclusivamente, desenvolvidos “a propósito” de intervenções e imagens de intervenções de Habitação de Interesse Social realizadas nas últimas dezenas de aos em Portugal.

Neste sentido abordam-se aspetos de: escala intimista e tratamento com grande dignidade, prolongados pelos espaços comuns interiores; desenvolvimento exterior de um sentido doméstico que marca também naturalmente o interior; inovação na definição de vizinhanças bem associadas a estimulantes tipologias edificadas; afirmada convivência entre tipologias de edifícios volumetricamente bem diversas; aplicação de uma única tipologia unifamiliar com variações estratégicas; reconversão arquitectónica residencial com evidente presença urbana; soluções tipológicas edificadas que sirvam, simultaneamente, modos de vida específicos e a manutenção de uma imagem urbana digna e atraente; ligação entre raízes tradicionais, alegria da imagem urbana, apropriação e identidade; continuidade e equilibrada diversidade urbana; escala humana e adequada experimentação tipológica do edificado; diversas tipologias de ocupação em “perfeitas” continuidades de ruas e pracetas; máximo aproveitamento das situações singulares do edificado;   “pontos altos” da atratividade nas entradas dos edifícios; forte relação com a escala e o uso humanos; inovação tipológica; tipologia de transição uni/multifamiliar; e protagonismo no o espaço comum.

 

1. Sobre os edifícios de Habitação de Interesse Social

A questão do projecto do edifício habitacional acaba por se recolocar quando investimos numa reforçada qualidade arquitectónica, em termos de “desenho” e de satisfação dos moradores, no âmbito das vizinhanças residenciais e urbanas.

Por outras palavras, depois de ultrapassarmos, como hoje se julga dever ser um facto assumido, situações de falta de qualidade arquitectónica, quando não mesmo de simples arranjo mínimo, em termos dos espaços de vizinhança e de uso público que integram as intervenções de habitação de interesse social – situações essas que foram numerosas, designadamente, nos tempos imediatamente anteriores e posteriores à Revolução dos Cravos e frequentemente associadas à promoção pelo FFH – revisitamos, obrigatoriamente, os objetivos principais que devem marcar a concepção do edifício residencial, assumindo-o, simultaneamente, como elemento integrante da composição global construída pelos espaços de uso público e por todos os edifícios da intervenção, e como elemento por si próprio positivamente qualificado em termos de uma qualidade arquitectónica marcante, designadamente, em termos de dignidade, funcionalidade, atratividade, durabilidade e, porque não, em termos de algum sentido de pertença e de sentido equilibradamente doméstico e urbano.

Entenda-se que esta reflexão nos poderia e mesmo deveria levar longe, pois, não esquecendo a fundamental importância do fazer bem/melhor as vizinhanças exteriores residenciais, levando o habitar e o convívio natural à rua, à praceta e ao pequeno jardim público, quando “chegamos” à concepção do edifício e, designadamente, quando desenhamos multifamiliares e unifamiliares densificados estamos realmente a tentar fazer conjuntos de espaços domésticos que mais do que satisfazerem muitas famílias e habitantes possam, mesmo, entusiasmá-los e propiciarem vidas domésticas mais funcionais, mais agradáveis e mais felizes; sendo que os espaços serão sensivelmente os mesmos, mas os desejos e os modos de vida são sempre bem distintos; e sendo que a “dimensão do edifício” integra em si, para além da dimensão dos espaços privados das habitações, uma dimensão de espaços comuns e a importante dimensão da sua imagem pública que pode até, eventualmente, transcender a sua presença na respetiva vizinhança.

O edifício pode e deve ser, assim, um pequeno mundo de contiguidades e visibilidades, pode e deve ter uma imagem bem positiva e sobriamente marcante e, assim, integrar positivamente a respetiva vizinhança de uso público, assim como constituir elemento naturalmente aglutinador dos respetivos espaços domésticos e comuns, habilitando-os para a melhor vida em comum ou, pelo menos, em grande proximidade. 

E tudo isto nos leva a encarar o edifício habitacional com uma exigência e um respeito bem distintos dos aplicados a uma “estrutura funcional de alojamento”, algo semelhante, em termos genéricos, a um elemento de arrumação de bens variados num grande armazém; o edifício habitacional tem muito mais a considerar para lá dos seus “simples” aspetos funcionais e sendo multifamiliar junta-se à “equação” um elemento multifacetado e crucial de adaptabilidade, sentido gregário  e papel representativo comum.

Tudo isto se aplica à habitação urbana em geral, mas no entanto deverá merecer atenções especiais, gerais e de pormenor, de integração, de configuração e de múltiplos aspetos de funcionalidade, quando se trate de habitação de interesse social e, designadamente, quando em presença de grupos socioculturais sensíveis.

Salienta-se, ainda, que embora as seguintes anotações, desenvolvidas a propósito dos conjuntos ilustrados nas imagens e, por vezes, de aspetos particulares das imagens, se apliquem, evidentemente, a qualquer tipologia de promoção habitacional, quase todos os casos ilustrados nas figuras são de intervenções de Habitação de Interesse Social/Habitação a Custos Controlados realizadas nos últimos decénios.

 

2. A propósito de alguns exemplos de edifícios de referência

Regista-se que os bons exemplos/casos de referência apresentados em seguida são, isso mesmo, exemplos, referidos a intervenções relativamente recentes, para além de ilustrarem, quase sempre, situações e aspetos particularizados; neste sentido salienta-se que existem, felizmente, muitos outros bons exemplos/casos de referência de edifícios de Habitação de Interesse Social Portuguesa a considerar, assim como há, natural e infelizmente, alguns maus exemplos que nunca mais deveriam ser replicados.

 

(Fig. 1)

A propósito do conjunto: de 32 fogos, em Matosinhos, Senhora da Hora, Carrriçal, projecto do arquitecto Jorge Teixeira de Sousa, promovido pela Cooperativa de Habitação Económica As Sete Bicas (1989).

Desenvolve-se uma ideia de “recuperação” do edifício nas suas imagens tradicionais, procurando-se uma afirmada e atraente dignidade, que equilibra a racionalidade, simplicidade e, naturalmente, economia da forma geral da banda edificada.

Caminhos pedonais ajardinados ligam o conjunto às zonas urbanas envolventes. O acesso em automóvel é distinto dessa rede pedonal e termina numa zona de estacionamento e nas baterias de garagens/arrumações privativas (solução racional para um piso sempre muito devassado, quando rodeado de espaço público).

Os edifícios que integram a banda possuem acessibilidade alternativa, vitalizadora da envolvente, e as suas entradas caracterizam-se por uma escala intimista e por um tratamento com grande dignidade, qualidades que se prolongam pelos espaços comuns interiores.

 

(Fig. 2)

A propósito do conjunto: de 23 fogos em Idanha-a-Nova, projecto do arquitecto Luís Marçal Grilo, promovido pela Câmara Municipal de Idanha-a-Nova (1990).

No centro de Idanha-a-Nova este pequeno quarteirão residencial tem uma imagem unificada e “aldeã”, baseada em elementos tradicionais e vernáculos.

Destaques para a estrutura pedonal contínua, que separa do tráfego rodoviário e para a salvaguarda dos afloramentos rochosos e das velhas árvores preexistentes, enriquecendo uma natural integração topográfica.

Imagem urbana animada por distintos tratamentos nas fachadas e topos das bandas, marcada pela verdade dos materiais e pela escala humana das varandas alpendradas, do alto soco e dos domésticos muretes e cancelas dos quintais.

Recupera-se um partido arquitectónico que usa imagens simplesmente bem radicadas na Arquitectura Popular e isto é feito de modo afirmadamente sóbrio; num gesto de projecto que reafirmou esta “renovada” possibilidade, bem antes de a paisagem do interior se começar a povoar de caixas habitacionais mais ou menos coloridas, mais ou menos cinzentas e mais ou menos “contentoriais”.

Assume-se exterior e publicamente um sentido doméstico que marca também naturalmente o interior das “casas”, muito funcional, que aproveita ao máximo o espaço habitável e que é estrategicamente concenttado em velhos temas de domesticidade com um destaque especial para a lareira em associação com a escada privativa, marcando agradavelmente um espaço que assim acaba por ser mais desafogado.

 


 
(Fig. 3)

A propósito do conjunto: de 102 fogos  em Matosinhos, Senhora da Hora, Seixo, projecto dos arquitectos Jorge Canto Moniz e José Figueiredo (1991), promovido pela Cooperativa de Habitação Económica A Telha.

Blocos edificados baixos e longos, pontuados pelas torres de acesso, marcados pela escala humana e entremeados por abrigadas zonas exteriores bem ajardinadas (cuidadosamente, também num sentido “horizontal”), ligadas entre si através de pisos térreos vazados de estacionamento automóvel. Para a integração paisagística contribuiu o revestimento cerâmico verde seco claro dos edifícios e a manutenção de grandes árvores preexistentes .

A dimensão dos grupos de vizinhança interessados nas mesmas zonas exteriores (cerca de 40 fogos), proporciona o uso equilibrado do espaço entre edifícios, sempre vitalizado por acessos habitacionais.

É forte, em cada fogo, a individualidade proporcionada pela envolvência natural que predomina sobre as alongadas bandas edificadas e pela acessibilidade através de uma caixa de escada translúcida e de uma curta e larga “galeria/varanda”, que apenas serve 3 fogos.

As habitações são funcionais, destacando-se o aproveitamento marginal da zona de refeições como entrada e espaço de circulação doméstica e a apropriação, pelos habitantes, com vasos com plantas, desde as galerias até aos peitoris das janelas; de certa forma prolongando, naturalmente, o verde urbano.

Aqui se harmonizou, com grande perfeição, a necessidade de projectar contando os centímetros, para se respeitarem as áreas definidas para a Habitação a Custos Controlados – tal como nos foi referido, por outras palavras, por um dos projectistas – com uma relativa inovação na definição de vizinhanças, na invenção de estimulantes tipologias edificadas (até evolutivas, pois podem integrar a junção posterior de ascensores) e na reinvenção de excelentes soluções de fogos.

Aqui se prova, como em muitos outros caso, ser possível fazer bem e justificadamente diferente do “edifício tipo médio” para o “habitante médio” cada vez mais inexistente.

 

(Fig. 4)

A propósito do conjunto: de 324 fogos  em Matosinhos , Senhora da Hora, Barranha, projecto do arquitecto Jorge Teixeira de Sousa (1988), promovido pela Cooperativa de Habitação Económica As Sete Bicas.

Continuamos, neste caso, na referida perspectiva de inovar a sério, justificada e atraentemente enquanto se faz habitação com controlo de custos e excelente nível de qualidade; trata-se de um excelente núcleo urbano residencial, que alia características de um espaço habitacional protegido (até do ruído do tráfego envolvente por um edifício-barreira) e positivamente caracterizado com pólos urbanos equipados e dinamizados, que servem a vizinhança, em primeira linha, mas também a cidade.

Há uma afirmada convivência entre tipologias de edifícios volumetricamente bem diversas: bandas de grandes multifamiliares com acessos comuns por galerias exteriores e bandas cerradas de pequenos unifamiliares.

Destaca-se o positivo carácter comum que é proporcionado por um desenho idêntico e harmonizado, mas também por motivadoras sequências carregadas de referências à escala humana: em pequenas ruas tradicionais e pedonalizadas, definidas pelas moradias; e em amplos espaços de transição exterior/interior, que ligam os grandes edifícios às ruas contíguas.

Esta rara e estimulante integração entre tipologias edificadas volumetricamente tão distintas prolonga-se para a também excelente integração edificada entre habitação e equipamentos colectivos.

Arquitectura residencial urbana no seu melhor e extrema e positivamente impactante em termos visuais ao nível do edificado e das suas estimulantes mas bem sóbrias variações em termos de conteúdos funcionais.

 

(Fig. 5)

A propósito do conjunto: de 20 fogos em S. Pedro de Rates, promoção da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, projecto do arquitecto J. J. Silva Garcia (2000).

Este conjunto integra cerca de metade de fogos para realojamento e metade para venda. Aqui se aplicou o objectivo de realojar “no sítio” e servir, equilibradamente, em termos de imagem e tipologia de habitação apoiada, a realidade física e social (mais urbana ou mais rural) de cada freguesia.

O conjunto caracteriza-se por aspectos significativos na matéria do bem fazer espaços de habitar, salientando-se os seguintes:

§  é exemplo de caracterização local e de integração de um coeso núcleo residencial num atraente meio rural (percebeu-se e valorizou-se o sítio);

§  uma concepção que alia edifícios, espaço exterior público e paisagem numa excelente unidade de projecto;

§  o evitar de uma apropriação menos controlável, virando entradas para dentro do terreno e fazendo frente cerrada de garagens e acessos secundários para fora;

§  uma solução de fogo muito funcional (ex. há um quarto térreo), minimizadora de circulações, marcada por telhados que seguem a topografia do terreno, cuidadosamente pormenorizada (ex. marcação dos vãos domésticos interiores e amplos vãos exteriores) e associando espaços interiores e exteriores, ao serviço de um leque de modos de vida (mais urbanos ou mais rurais);

§  uma textura/cor geral que se liga à terra e à paisagem, e que evidencia aspectos de durabilidade – nas palavras de um colega do Júri do Prémio INH “aqui os materiais constróem o espaço com um claro sentido táctil e de intimidade residencial”;

§  e um projecto que estuda e aplica, pormenorizadamente, uma única tipologia unifamiliar, fazendo variar o edifício entre a banda cerrada unifamiliar e o edifício multifuncional em que a banda “unifamiliar” fica elevada, enquanto por baixo há espaço para equipamentos sociais paisagística e edificadamente integrados por uma bela galeria.

E há ainda que salientar o carácter orgânico global integrado na natureza contígua; nada se impõe, nem edifícios nem exterior, apenas a escala humana da altura e do esmerado desenho das pequenas fachadas que prolongam e se prolongam nos pequenos pátios/jardins fronteiros.

Um bom manejar do “edifício/fogo” construindo faces mais urbanas e mais rurais, consoante é mais adequado, e enriquecendo o caráter do local, enquanto se propiciam excelentes mundos domésticos.

 

(Fig. 6)

A propósito do conjunto: de oito (8) fogos do tipo T0 integrados na reconversão de uma antiga moradia bem situada no casco antigo do Funchal, no Caminho da Penteada, dirigidos para um pequeno conjunto habitacional para pessoas idosas, uma promoção da Câmara Municipal do Funchal, com projecto da arquitecta Susana Fernandes (2001).

Uma exemplar operação de reconversão de uma grande e velha moradia, bem integrada no casco antigo do Funchal, num edifício que agrega um pequeno conjunto de pequenos fogos (tipologias T0 e T1) para pessoas idosas e que vivem sozinhas.

Sublinha-se o cuidado com que foi desenvolvida esta operação, respeitando-se ao máximo as características arquitectónicas do edifício preexistente (ex. manutenção da imagem geral e da altura interior entre pisos), mas apoiando-se, ao máximo, a mobilidade e a funcionalidade domésticas de pessoas, que, por vezes, estão já bastante condicionadas na sua mobilidade e no seu potencial de manuseamento (ex. criação de pequeno “torreão” com elevador e desenvolvimento de bancadas de cozinha inferiormente vazadas e em “U”).

Salienta-se que as unidades domésticas, embora pequenas, continuam a ser fogos com total autonomia funcional.

Trata-se de uma solução de reconversão arquitectónica residencial com evidente presença urbana, e dirigida para uma solução residencial para pessoas sós; sublinhando-se serem estas duas áreas que têm de começar a ser visadas objectiva e urgentemente em termos de programas urbanos e habitacionais e que foram aqui avançadas em 2000/2001.

 

(Fig. 7)

A propósito do conjunto: de seis (6) fogos para realojamento de famílias de etnia cigana em Salir, uma promoção da Câmara Municipal de Loulé, projecto do arquitecto Marcelo Santos (2005).

Unifamiliares em banda cerrada promovidos para realojar uma pequena comunidade cigana, tendo em conta os seus modos de vida específicos.

O interesse desta solução é o desenvolvimento de um projecto racional e simplificado, muito contido em termos formais e que evidencia interessantes raízes locais (cores gerais e pedra nos muros), e que joga, essencialmente, no complementar dos espaços interiores dos fogos com pequenos espaços exteriores de escala doméstica, pequenos pátios privatizados, acolhedores e íntimos, que propiciam o viver ao ar livre e que, simultaneamente, criam um filtro tradicional (pátio murado) entre o novo edificado e a vizinhança urbana.

Os pátios privados murados funcionam, assim, seja como verdadeiras expansões das casas no caso dos pátios posteriores, seja como zonas de transição com a envolvente urbana, no caso dos pequenos pátios frontais, propiciando o tradicional estar de porta aberta sem haver intrusões mútuas, seja na privacidade doméstica, seja na vivência do espaço público contíguo. E sublinha-se que esta solução de pátios com continuidade propicia uma boa capacidade de integração na continuidade urbana, o que tem sempre muito interesse.

Outro aspecto interessante foi a previsão de um pequeno fogo térreo para um ancião, num edifício perfeitamente integrado na continuidade da banda.

Sublinha-se, finalmente, o grande interesse que tem a continuidade de experiências deste tipo, em que se tenta, na prática, o desenvolvimento de soluções tipológicas edificadas que sirvam, simultaneamente, modos de vida específicos e a manutenção de uma imagem urbana digna e atraente; e anota-se a importância que terá o acompanhamento da ocupação destas casas de forma a ajuizar da sua adequação.

O principal protagonista desta intervenção é mesmo a tipologia edificada, tanto na sua globalidade de banda agradavelmente orgânica, como na estruturação de cada elemento/fogo da referida banda em termos de um espaço edificado ladeado por dois pátios privados e murados.

 

(Fig. 8)

A propósito do conjunto: de 224 fogos da Cooperativa COOPHECAVE em Castro Verde, com projecto de Nuno Portas, Manuela Fazenda e da saudosa amiga Isabel Plácido (1991).

Este conjunto urbano cooperativo é, em poucas palavras, a prova construída que é possível fazer uma agradável malha urbana vitalizada recorrendo a edifícios unifamiliares muito densificados (bandas com imagens frontais contínuas e com quintais/pátios privados encostados a tardoz) caracterizados por soluções-tipo bastante repetidas e que, neste caso, desenvolvem a sua desejável variabilidade através: (i) de uma dinâmica edificada evolutiva; (ii) e de aspetos importantes de apropriação nos pequenos espaços exteriores privados frontais.

Outro ensinamento que se retira desta intervenção é que formas de arquitectura urbana e edificada simples e afirmadas, para além dos seus naturais e sempre significativos aspetos de economia construtiva, têm a força suficiente para integrarem apropriações muito variadas, sem se perder o fundamental sentido de unidade e mesmo uma forte e própria caracterização ao nível da arquitectura urbana.

Naturalmente que todos estes aspectos terão sido, com certeza, essenciais na concepção deste conjunto e que para a sua atual força e contenção de imagem pública terão também contribuído ações específicas ligadas ao controlo e harmonização da imagem urbana realizadas, sem dúvida, por uma eficiente estrutura de gestão de proximidade cooperativa.

Talvez que nesta solução edificada o que mais conte seja o resultado atual, que parece ser excelente na ligação conseguida entre raízes tradicionais, alegria da imagem urbana, apropriação e identidade de cada fogo e força da estrutura urbana global proposta; realmente ao visitarmos o conjunto fica marcada, simultaneamente, a imagem global de grande dignidade e atratividade, mas também a significativa capacidade de apropriação de cada edifício/fogo.

Outro aspecto interessante tem a ver com a imagem e funcionalidade dos pátios frontais, que apoiam inúmeras atividades e proporcionam o desenvolvimento de uma presença forte e diversificada de pequenas árvores, arbustos, sebes e flores, desenvolvendo-se, assim, um verde privado que substitui, em grande parte, e com múltiplas vantagens o verde público.

Os edifícios correspondem a soluções de fogo em “L”, caracterizadas por aspectos evolutivos e que se ligam quer ao já referido pequeno pátio frontal, quer ao quintal posterior mais amplo, sendo muito interessante a ligação que se estabelece entre estes dois espaços exteriores privados.

Regista-se, finalmente, que a esta solução de arquitectura urbana foi atribuído o primeiro prémio de um concurso sobre habitação evolutiva, que foi promovido pelo INH em 1987 , destacando-se a grande versatilidade evolutiva do fogo – é possível fazê-lo evoluir desde o T0 ao T4 – e a belíssima resposta a esta capacidade, que hoje é evidente ao nível da imagem urbana una e variada e da equilibrada mas forte apropriação que fica, assim, aparente em cada fogo.

 

(Fig. 9)

A propósito do conjunto: de 330 fogos no Alto da Loba em Paço de Arcos numa promoção da Câmara Municipal de Oeiras, com projecto de Pedro Botelho e Nuno Teotónio Pereira (1993).

Uma mistura equilibrada e tendencialmente integradora, em termos sociais, de fogos para venda e para realojamento (total de 440 fogos) com estrutura urbana baseada em ruas e pracetas residenciais diversificadas, em termos de configuração e de elementos de verde urbano, e submetidas à escala humana e a uma evidenciada caracterização de ambiente residencial.

Aqui, peões, habitação e verde urbano são elementos que têm sempre preponderância relativamente a vias e estacionamentos para veículos.

E nesta situação tem grande importância o desenho muito “doméstico” das tipologias de edifícios que têm dimensões, cores e relações com o solo bem marcadas pela escala humana, predominando os pequenos edifícios multifamiliares – em grande parte tetrafamiliares –, e com um apurado desenho dos respetivos acessos comuns.

Destaque especial para a utilização sistemática de quintais privativos (exemplificados na imagem)  enriquecendo de imagens e usos boa parte do espaço público e proporcionando a boa ocupação de grande parte do exterior disponível, anulando-se espaços residuais. Outros espaços exteriores servem a integração de equipamentos nos próprios edifícios residenciais, numa opção muito mais urbana e vitalizadora do que a sua instalação isolada, e que, frequentemente, gera descontinuidades.

O Alto da Loba é um conjunto urbano que merece uma visita cuidada, no decurso da qual ficam evidentes as suas exemplares qualidades em termos de continuidade e equilibrada diversidade urbana, bem como de escala humana e de adequada experimentação tipológica do edificado; e lá existem equipamentos colectivos verdadeiramente “embebidos” na continuidade da edificação habitacional, e pequenas ruas e estacionamentos agradavelmente arborizados e pavimentados, e “escadinhas” e enfiamentos com imagens urbanas culturalmente bem conhecidas de quem gosta de percorrer a cidade tradicional, e, globalmente, há uma fortíssima escala humana, que é também urbana e que usa uma linguagem arquitectónica contemporânea e bem radicada na nossa tradição de arquitectura urbana.

 

(Fig. 10)

A propósito do conjunto: na Av. Salgado Zenha, Guifões, Matosinhos, promovido pela Cooperativa As Sete Bicas (2008), com 40 fogos e uma residência/lar de terceira idade com 30 quartos, projeto dos arquitectos Fernando Rocha e Celestino Machado.

O conjunto urbano e residencial integra numa afirmada continuidade urbana e de imagens de pormenor: (i) 40 fogos de variadas tipologias (T1, T2 e T3) – em quatro pisos (rés do chão + 3), mais um piso subterrâneo com 60 lugares de garagem e arrumos – (ii) e uma residência/lar dirigido para idosos com 30 quartos com casas de banho próprias – 15 individuais e os outros duplos ou de casal.

Em termos arquitectónicos globais aplicados ao edificado salienta-se o desenho integrado de arquitetura urbana fortemente caracterizado por um agradável sentido residencial que integra, totalmente, as duas vertentes habitacionais (blocos habitacionais mais correntes e unidade para a terceira idade) e explora, designadamente, as situações singulares de embasamento e de remate superior em pisos recuados (na imagem);  uma situação que é formal, mas também funcional, com interessantes ganhos em áreas exteriores privativas, sob a forma de pequenos pátios e terraços que prolongam agradavelmente as habitações térreas e as mais elevadas.

Este é um exemplo do que deve ser o presente e deverá ser o futuro da promoção habitacional e urbana, conjugando-se diversas tipologias de ocupação em “perfeitas” continuidades de ruas e pracetas e manejando-se a solução edificada no sentido do máximo aproveitamento das situações singulares em termos formais, funcionais e de apropriação.

Todo o conjunto edificado (habitacional mais corrente e de apoio à terceira idade) respeita os princípios de construção sustentável, ao nível da gestão energética, de resíduos, de água, conforto ambiental e acessibilidades, destacando-se aspetos de recuperação de águas de origem pluvial, aproveitamento solar para a produção de água quente sanitária colectiva, instalação de equipamentos para redução dos consumos de água e de eletricidade, um apurado isolamento horizontal e vertical do ruído, uma boa ventilação permanente dos espaços interiores e a instalação de equipamentos de elevada eficiência.

Nota: alguns dos elementos apontados foram recolhidos nos sites do IHRU e da Cooperativa As Sete Bicas.

 

(Fig. 11)

A propósito do conjunto: de 53 fogos promovido pela Câmara Municipal do Porto, no Monte de São João, Paranhos, promovido pela Câmara Municipal do Porto, com projecto dos arquitectos Rui Almeida e Filipe Oliveira Dias (2003).

Trata-se de uma solução urbana convivial, na sua vizinhança de proximidade e muito bem integrada na cidade; condições bem ligadas entre si pois convívio vicinal e vida citadina são faces da mesma moeda; é ainda fundamental sublinhar a pequena dimensão física e social deste conjunto, que lhe proporciona uma boa capacidade de positiva “absorção” no tecido urbano preexistente.

Salienta-se a cuidada mistura de soluções funcionais, seja entre equipamentos e habitação, mutuamente vitalizados, seja entre tipologias de acesso aos fogos (escadas e pequenas galerias exteriores); e salienta-se, também, a grande dignidade e atratividade do edificado, uma qualidade que tem “pontos altos” nas entradas dos edifícios – e será que fazer deste modo é mais caro do que fazer mal, ou mesmo não fazer, porque não ligando aos acessos comuns e/ou tratando-os com expressiva pobreza de imagem geral e de pormenores, quando não com o que parece ser uma tristeza evidenciada de acabamentos e cores, ou, por vezes, e em sentido oposto, com exagerados contrastes cromáticos pouco ligados a uma sua pormenorização específica.

 

 

(Fig. 12)

A propósito do conjunto: no Vale Formoso de Cima em Lisboa (2006), projecto urbano coordenado pelos Arquitectos António Piano e Eduardo Campelo, atelier que também desenhou alguns dos quarteirões, sendo outros projetados por outros arquitectos; a promoção coube a um amplo conjunto de cooperativas da FENACHE da zona de Lisboa, associadas numa cooperativa específica ligada a este empreendimento e decorreu de um protocolo entre a mesma Federação e a Câmara Municipal de Lisboa.

A imagem de pormenor, que é acima apresentada, do maior conjunto cooperativo lisboeta e que permaneceu ativo através da crise de 2008, e que merece e merecerá um artigo específico, apenas se “limita” a um grande pormenor que marca toda a estrutura urbana global do novo Vale Formoso, que se prolonga pelo desenho dos seus diversos quarteirões de vizinhança, que define as suas forma de relacionamento com as continuidades urbanas preexistentes e que, depois, tem uma assinalável presença no desenho de pormenor dos respetivos edifícios: e esse “pormenor” é a forte relação com a escala e o uso humanos que está impressa em cada um desses níveis físicos.

 

(Fig. 13)

A propósito de duas imagens: e especialmente a propósito de uma delas – a do lado esquerdo – referida ao conjunto de realojamento da CM de Matosinhos, projectado pela arquitecta Paula Petiz no Monte Espinho, Leça da Palmeira (2005).

Vários aspectos podem e devem ser evidenciados na Arquitetura urbana e edificada aplicada neste conjunto no Monte Espinho, muito marcada pela inovação tipológica:

.    Ao nível urbano a capacidade que tem este conjunto e os seus edifícios de atuarem como elementos de requalificação, em termos de imagens e de coesão urbanas, de uma zona de edificação unifamiliar um pouco caótica (edifícios “clandestinos”).

.    Ao nível da estrutura urbana proposta há que salientar paralelismos de leitura e vivenciais, designadamente, por elementos fortes e estruturantes  - ruas formalmente dinâmicas e praça pedonal representativa, mas amigável -, por outros elementos de “miolo” igualmente estruturantes mas muito ligados às habitações - é o caso das sequências de pequenos quintais/pátios privativos e designadamente do principal eixo de quintais –, e pelo próprio modelo de integração dos equipamentos, que fazem rua e/ou preenchem e vitalizam interiores de pequenos quarteirões.

.     Ao nível do edificado temos uma solução engenhosa de edifícios bifamiliares com fogos sobrepostos e sempre com acesso directo ao exterior, que se agrupam, por regra, dois a dois, criando unidades tetrafamiliares que, mercê da sua grande proximidade mútua, acabam por gerar uma imagem de banda contínua ritmada pelas referidas separações, onde se situam os acessos aos fogos, e que têm uma motivadora leitura de “vielas” muito vitalizadas e “controladas” pelos referidos acessos.

.     Na relação entre o edificado e o fogo o que mais vale a pena sublinhar é a grande relação que se favorece entre espaços domésticos interiores e exteriores, desenvolvendo-se nestes últimos uma reforçada imagem inicial de forma a tentar anular apropriações posteriores.

 

(Fig. 14)

A propósito do conjunto: de 52 fogos no Outeiro da Forca, Portalegre, uma promoção da C.M. de Portalegre com projecto do arquitecto Carlos Gonçalves (2007).

Cuidados com a luz natural no interior dos fogos e objetivos específicos de integração e de humanização cromática do edificado jogando conjuntamente ao nível do pormenor.

 

(Fig. 15)

A propósito do conjunto: de promoção privada em CDH de 68 fogos da empresa Efimóveis, em Gulpilhares, V. N. de Gaia  (2006), projecto dos arquitectos J. Bragança e Manuel Marques.

Sublinha-se nesta intervenção a muito equilibrada solução que harmoniza, pelas suas características gerais de desenho urbano e de Arquitectura do edificado, uma agradável e bem caracterizada frente urbana, de bandas densificadas, mas agradavelmente repartidas e com escala fortemente humanizada, características estas que muito apoiam a integração do conjunto na agradável paisagem rural envolvente.

Trata-se de uma simples e bem oportuna inovação tipológica, marcada por uma tipologia de transição uni/multifamiliar, que pode agregar vantagens de tipologias multi e unifamiliares e juntar-lhes vantagens económicas e de racionalidade e, portanto, durabilidade construtiva.

 

(Fig. 16)

A propósito do conjunto: residencial e urbano em Hamburgo, Aufbruch in Hamm-Süd, com projecto dos Arq. Czerner und Czerner (2000) – Czerner Göttsch Architekten | Architekturbüro für Wohnungsbau in Hamburg.

Conclui-se esta reflexão ilustrada sobre o edificado com imagens do único exemplo não português, um caso de edifícios de habitação de interesse social em Hamburgo onde se transforma o espaço comum num muito amplo “hall” comum multifuncional e cheio de luz natural; um tipo de solução que obrigaria a fortes adaptações para os nossos climas mais sulistas, mas que coloca, julga-se, uma excelente “nova” perspetiva de reflexão sobre o multifamiliar onde, de certa forma, o protagonismo passa para o espaço comum, mas um espaço comum com usos e imagens efetivos; mas atenção especialmente para o que é uma excelente qualidade de Arquitectura que vai bem a todos os pormenores, tão atraentes e sóbrios quanto duráveis, e que fica também evidenciada numa excelente e também pouco ortodoxa solução doméstica.


3. Breves notas finais ao artigo e ao tema do edifício habitacional

Julga-se que seria bem interessante e adequado “dar mesmo uma nova oportunidade” ao edifício multifamiliar, repensando-o na sua totalidade e designadamente em termos dos seguintes aspetos; (i) a questão da assunção de variadas misturas tpológicas, funcionais e dimensionais, com destaque para a proposta de variadas tipologias intermediárias e/ou mistas entre uni e multifamiliar e de integração entre “serviço” habitacional e outras facetas de serviços e de quipamentos (de apoio doméstico, de apoio ao trabalho profissional e de apoio ao lazer); (ii) a questão de uma verdadeira integração e desejável reinterpretação, em termos de espaços para-domésticos, das atuais diversas exigências regulamentares – e nesta matéria considera-se que estas exigências poderiam e deveriam ser sujeitas a uma revisão crítica tão prática e simplificadora, como respeitadora de um assumido sentido doméstico muito mais amplo do que o essencialmente funcional; e (iii) a questão de uma sua verdadeira (re)habilitação em termos das suas estreitas ligações, quer com as vivências comuns e mesmo publicas (essencialmente embebidas nos espaços e ambientes comuns e de acesso), quer com as múltiplas vivências privadas dos “mundos” domésticos.

E naturalmente que a consideração específica da habitação de interesse social tendo-se em conta, designadamente, os seus naturais constrangimentos em termos de espaciosidade, custos e exigências qualitativas terá, sempre, um lugar particular nesse rumo de investigação aplicada.

Em futuros artigos a infohabitar irá procurar avançar cuidadosa, mas afirmadamente, nestes “novos” caminhos de reflexão teórico-prática e, mais uma vez, se desafiam, amigavelmente, os leitores a e enviarem comentários, textos e imagens com este objetivo.

 

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVII, n.º 774

A propósito dos edifícios de Habitação de Interesse Social – infohabitar # 774

 

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt 


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, abril 20, 2021

(773) A propósito das vizinhanças de Habitação de Interesse Social – infohabitar # 773

Ligação direta (clicar) para:  760 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada em janeiro de 2021- 38 temas e mais de 100 autores

 

A propósito das vizinhanças de Habitação de Interesse Social – infohabitar # 773

Infohabitar, Ano XVII, n.º 773

Edição: terça-feira, 20 de abril de 2021 

 

Caros leitores da Infohabitar,

Na sequência natural dos oito artigos que acabaram de ser publicados e dedicados ao desejável desenvolvimento da qualidade arquitectónica e da satisfação residencial no que ainda falta fazer em termos de nova Habitação de Interesse Social Portuguesa (HISP),

esta semana e nas duas semanas que se seguemm próximas semanas voltamos a uma “discussão” sobre o referido tema em três edições muito ilustradas e comentadas no âmbito de casos de referência de HISP realizados, preferencialmente, nas últimas dezenas de anos.

Os três artigos a editar serão dedicados sequencialmente: à vizinhança próxima residencial (o presente artigo); ao edifício habitacional; e à habitação.

Lembra-se, ainda e novamente, que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas sobre os artigos aqui editados e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com, ao meu cuidado).

Considerando-se que o combate à pandemia está, agora, a desenvolver-se numa fase tão sensível como importante, continua a sublinhar-se a vital importância do máximo confinamento, do distanciamento social, do teletrabalho e do respeito por todas as medidas de higiene e proteção amplamente divulgadas.

Despeço-me, até à próxima semana, enviando saudações calorosas e desejos de força e de boa saúde para todos os caros leitores e seus familiares,    

 

Lisboa, Encarnação, em 19 de abril de 2021 

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

 

A propósito das vizinhanças de Habitação de Interesse Social – infohabitar # 773

António Baptista Coelho

(texto e fotografias)

 

Resumo

Depois de uma introdução sintética sobre o que se considera serem as mais desejáveis opções de intervenção em termos de vizinhanças residenciais, passa-se a uma abordagem de vários aspetos a sublinhar em termos de intervenção na vizinhança de proximidade em textos que são desenvolvidos “a propósito” de intervenções e imagens de intervenções de Habitação de Interesse Social realizadas nas últimas dezenas de aos em Portugal.

Neste sentido abordam-se aspetos de: integração do novo no antigo e preexistente; vizinhanças polarizadoras; vizinhanças expressivamente urbanas; equipamentos vitalizadores; requalificação urbana e arquitectónica da vizinhança; unidade do projecto de edifícios e de exterior residencial; o sentido e a importância da vizinhança de proximidade; o interesse da assinalável continuidade da arquitectura urbana e da escala humana; a concentração da vizinhança nas ruas; o sentido lúdico da vizinhança; a singularidade da vizinhança; e o seu enriquecimento pela arte urbana.

 

1. Sobre as vizinhanças de Habitação de Interesse Social

Ao intervir com nova habitação a respetiva vizinhança urbana e paisagística, existindo como é sempre desejável, deve ser respeitada e vitalizada, melhorando-se a paisagem local e acrescentando-se novas valências e novos habitantes aos preexistentes e, designadamente, procurando-se colmatar aspetos em falta ou carentes de determinadas intervenções; se a vizinhança de proximidade não existe ou está sensivelmente “enfraquecida” ou incompleta, merece uma cuidadosa atenção em termos de (re)configuração e (re)qualificação gerais e pormenorizadas e no que se refere ao respetivo conteúdo funcional e imagético com destaque para os essenciais aspetos de apoio ao convívio natural, construído pela construção de ocasiões de vistas mútuas e de vistas de atividades e de ocasiões de estadia agradável e de observação natural.

Em tudo isto merece uma atenção especial a matéria das acessibilidades, que devem ser claramente vitalizadoras e visualmente estratégicas e naturalmente securizadoras da vizinhança, mas não sendo intrusivas e geradoras de variados desconfortos (desde a falta de privacidade ao ruído ou excesso de atividade numa zona essencialmente residencial).

A vizinhança residencial afinal deve habilitar um dado espaço, simultaneamente, para ser agradavelmente habitado e estimulantemente urbano.

Tudo isto se aplica à habitação urbana em geral, mas no entanto deverá merecer atenções especiais, gerais e de pormenor, de integração, de configuração e de funcionalidade, quando se trate de habitação de interesse social e, designadamente, quando em presença de grupos socioculturais sensíveis.

Salienta-se, ainda, que embora as seguintes anotações, desenvolvidas a propósito dos conjuntos ilustrados nas imagens e, por vezes, de aspetos particulares das imagens, se apliquem, evidentemente, a qualquer tipologia de promoção habitacional, praticamente todos os casos ilustrados nas figuras são de intervenções de Habitação de Interesse Social/Habitação a Custos Controlados realizadas nos últimos decénios.

 

2. A propósito de alguns exemplos de vizinhanças de referência

Regista-se que os bons exemplos/casos de referência apresentados em seguida são, isso mesmo, exemplos, referidos a intervenções relativamente recentes, para além de ilustrarem, quase sempre, situações e aspetos particularizados; neste sentido salienta-se que existem, felizmente, muitos outros bons exemplos/casos de referência de vizinhanças de Habitação de Interesse Social Portuguesa a considerar, assim como há, natural e infelizmente, alguns maus exemplos que nunca mais deveriam ser replicados.

 

(Fig. 1)

A propósito da intervenção: introdução de pequeno edifício de habitação de interesse social no Conde Barão, Lisboa, projeto de Eugénio Castro Caldas e Nuno Távora (2005).

Sobre as vitais questões da integração na vizinhança, palavras para quê? Uma excelente e sóbria integração do novo no antigo e preexistente, o reafirmar de uma continuidade de edificado e de vizinhança, numa marcação de “tempos” passados e novos, sem imitações com muito pouco sentido e o trazer de novos habitantes exatamente para o miolo da cidade velha.

O bem oportuno conceito do “construir no construído”, desenvolvido num importante livro do arquitecto Francisco de Gracia, intitulado "Construir en lo Construido, La arquitectura como modificacion" (1992); que aqui poderíamos explorar um pocupo no sentido do reavizinhar na vizinhança física e social preexistente, e um “reavizinhar” que pode até ter um sentido de reconstrução de vizinhanças já rarefeitas e pouco efetivas e uma arquitectura tomada como modificação suave e habilitadora de renovadas possibilidades urbanas e habitacionais.

E ficará sempre para discutir, agora mesmo no âmago do “desenho de Arquitectura” o partido aqui claramente tomado de um novo, mas expressivamente sóbrio e depurado edifício; mas estamos já a passar para aspetos por um lado mais pormenorizados, porque do edificado e, por outro, mais de enquadramento global das novas intervenções em zonas históricas.

 

(Fig. 2)

A propósito do conjunto: promoção privada de Habitação a Custos Controlados/HISP no Contrato de Desenvolvimento de Habitação (CDH) da Betofer, na Vidigueira, com apoio da Câmara Municipal da Vidigueira, integrando 20 fogos, diversos equipamentos comerciais e conjuntos de pequenos quintais privados (no tardoz dos edifícios), projecto do arquitecto Jorge Filipe da Cruz Pinto, 1996.

Passamos de uma integração, de certa forma, mimética numa vizinhança histórica de um grande centro urbano para uma nova intervenção que cria vizinhança de proximidade e também vizinhança urbana num renovado e pequeno pólo urbano de uma vila do interior.

E destaca-se a ideia fundamental e ainda infelizmente pouco aplicada como regra de uma intervenção de habitação de interesse social  que é, simultaneamente, uma intervenção de revitalização e reconfiguração urbana pormenorizada.

Recria-se verdadeiramente vizinhança, recompondo-se e cerzindo-se o respetivo tecido urbano, nas duas faces da moeda: seja na sua face mais representativa/formal, através de uma agradável praceta equipada e arborizada, seja na sua face mais informal e orgânica dos caminhos pedonais e alamedas que ligam quintais e pequenas ruas.

Trata-se de um caso de habitação de interesse social que, verdadeiramente, ajuda a recriar “cidade”, através de adequadas condições de configuração do espaço urbano de vizinhança, seja pelo seu adequado equipamento convivial, seja, novamente, pelo “construir no construído”, agora numa escala mais ampla, embora igualmente marcada pela dimensão e pelos usos humanos.

Trata-se de uma tipologia de edifícios de transição uni/multifamiliar com expressiva escala humana – são em alguns casos tetrafamiliares – todos com pequenos quintais privativos, ligando ao “miolo” urbano e em continuidade com serventias a velhos quintais e pequenas azinhagas preexistentes.

E é importante a reintrodução das árvores de arruamento no retomar d e um íntimo diálogo entre edifícios baixos e contínuos e árvores com dimensões bem integradas.

(Fig. 3)

A propósito do conjunto: grande vizinhança formalmente bem afirmada de 271 fogos em cuja continuidade edificada se integra um amplo leque de equipamentos, no Amparo, Funchal, um CDH Imopro com apoio dos Investimentos Habitacionais da Madeira (IHM), arquitetos Carla Baptista e Freddy Ferreira César (2006).

Estamos aqui em presença de uma intervenção expressivamente citadina e urbanisticamente polarizadora, configurada num expressiva grande quarteirão semi-aberto, que é muito vitalizado por uma intensa relação entre: (i) um elevado número de habitações, com presença bem visível e quase encenada através de acessos por galerias exteriores com um tratamento de fachada evidenciado; e (ii) os designáveis “outros espaços habitacionais” dos equipamentos coletivos conviviais, estrategicamente sequenciados em “tradicionais” galerias cobertas e abertas à vizinhança, também positivamente “encenados” designadamente através de espressos pilares e atravessamentos que proporcionam excelentes vistas estáticas e estimulantes sequências de vistas, e sempre numa fortissimo relação com a escala humana.

E para além destes dois elementos, da habitação e dos equipamentos – atente-se: expressivamente conviviais, através de uma forte densidade de unidades de restauração: o terceiro elemento protagonista é o verde urbano, numa expressiva relação com a natureza  que marca exuberantemente o jardim/verde local, ele próprio em excelente contraste com os cinzas dominantes no edificado.

E a prova de que é possível fazer “grande” em termos de intervenções de habitação de interesse social, mas, sem dúvida, com uma excelente arquitectura e apurados cuidados de vitalização, visualidade mútua e grande dignidade e atratividade de imagens.

 

(Fig. 4)

A propósito do conjunto: 53 fogos da Câmara Municipal da Guarda, no Bairro do Pinheiro na Guarda, projecto do arquitecto Aires Gomes Almeida, GAT da Guarda,1995.

Estamos em presença de um pequeno e agradavelmente “pacífico” quarteirão semi-aberto, desenvolvido em torno de um  equipamento exterior infantil e alguns outros elementos de estadia no exterior.

Este quarteirão, com miolo pedonal e com  fluxos rodoviários claramente marginais, pretende assumir alguma polaridade urbana (também através de equipamento comercial) numa zona que estava ainda pouco sedimentada na altura do seu acabamento.

Trata-se de um espaço público bem fundamentado num humanizado e viável grupo de convívio de cerca de 50 fogos, um pequeno quarteirão urbano protagonista e alegre com um interior animado e estimulantemente marcado pelos acessos directos, entre esse miolo de espaços exteriores de vizinhança e os fogos térreos.

Salienta-se o desenvolvimento de uma agradável dualidade de imagens nas faces exterior e interior do quarteirão: uma exterior marcante unificada e sóbria e outra interior ligada aos percursos de acessibilidade e que se polariza na referida praceta pública pedonal equipada para o recreio infantil e o lazer pedonal, virada ao Sol e bem envolvida/protegida, animada e tornada segura pela grande proximidade dos equipamentos locais e das portas de acesso a fogos.

E o verde urbano também lá está, crescendo e gradualmente marcando, cada vez mais expressivamente, a escala humana e a presença da natureza neste pólo de vizinhança.

 

(Fig. 5)

A propósito do conjunto: Vila Nova de Gaia, Oliveira do Douro, Quinta do Guarda-Livros, 139 fogos promovidos pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, 2001, com projeto do Arq.º Paulo Alzamora.

Esta solução corresponde, provavelmente, a um dos primeiros casos de integração entre promoção de HCC/HIS e intervenções de requalificação urbana, arquitectónica e residencial.

Considera-se, portanto, que é um exemplo excelente de avanço numa área de intervenção urbana e residencial, que está, hoje em dia, numa primeira linha de ação, associando-se intervenções de HCC e de requalificação urbana e optando-se por uma radical mudança de uma imagem urbana, por vezes, pouco qualificada, para uma renovada e atraente e marcante/apropriável nova imagem arquitectónica urbana e  residencial.

Transforma-se positivamente uma anterior imagem urbana, arquitectónica e residencial, aproveitando-se para se dinamizar uma fundamental opção de usos pedonais.

Desenvolve-se uma renovação da imagem dos edifícios, mantendo-se a opção original por galerias exteriores – consideradas vitalizadoras do espaço público.

Assume-se uma clara opção de pedonalização de um espaço público que constitui, verdadeiramente, a espinha dorsal do conjunto.

A reconfiguração da vizinhança é, assim, proposta em torno de um miolo pedonal equipado, essencialmente, para o recreio infantil e a estadia informal dos habitantes, sendo que a acessibilidade rodoviária se faz bilateralmente pelas margens “exteriores” que de certa forma envolvem o conjunto; uma opção interessante que exige, em termos de futuro, uma adequada gestão de proximidade das referidas amplas zonas pedonais.

 

(Fig. 6)

A propósito do conjunto: Contrato de Desenvolvimento de Habitação (CDH) da Empresa Sedengil, em Milheirós, Maia (48 fogos), projecto do arquitecto João Carlos Santos (2002).

Neste conjunto sublinha-se a muito forte unidade do projecto de edifícios e de exterior residencial, uma unidade que joga com a expressiva racionalidade e mesmo alguma depuração do edificado, que é “equilibrada” pela respetiva e apurada pormenorização, que ao nível da vizinhança de proximidade acaba por ter grande visualidade; e uma pormenorização também muito cuidada ao nível de um exterior quase minimalista, que se espera possa ter tido adequada continuidade em termos de tratamento e manutenção; isto porque quando o arranjo se joga neste tipo de grandes pormenores (ex., relvado muito regular entre bandas edificadas) é essencial a sua adequada preservação e mesmo o interessante desenvolvimento da sua imagem – neste caso conseguido através do crescimento das árvores aí plantadas.

Esta intervenção foi interessantemente marcada por aspetos pormenorizados de qualidade de projeto de Arquitectura e de construção previamente definidos entre o CDH e o respetivo município e que chegaram a aspetos muito específicos, por exemplo, de Arquitectura paisagista com pormenorizado detalhe, por exemplo, no que se refere ao tamanho das árvores a plantar, de modo a proporcionar logo uma imagem minimamente desenvolvida quando da ocupação; e um cuidado com o arranjo do exterior extremamente exigente de modo a proporcionar um arranjo completo de vizinhança coesa e acabada de edifícios e exteriores quando da ocupação.

Neste conjunto é evidente o interesse básico de se desenvolver integradamente com o espaço de habitação um espaço de vizinhança e uma tipologia edificada que consiga fazer bem a ligação entre aqueles dois níveis físicos; e tudo jogando-se em termos de uma qualidade arquitectónica integrada e completa que vai da unidade de vizinhança aos mais pequenos pormenores do edificado e do exterior.

 

(Fig. 7)

A propósito de um conjunto: em Vila do Conde (conjuntos “tipo” com menos de 20 fogos cada, visualmente muito diversificados e integrados em diversas freguesias e localizações específicas) com projecto do arquitecto Miguel Leal (2003), promovido pela Câmara Municipal de Vila do Conde.

O sentido e a importância da vizinhança de proximidade na promoção habitacional é mesmo a regra de base deste conjunto e de bastantes conjuntos  irmãos que firam distribuídos por diversas freguesias e localizações do município de Vila do Conde.

Salienta-se o interesse e a força do conceito que baseia o conjunto destas intervenções, bem como outras intervenções de realojamento realizadas por este promotor municipal; procura-se desenvolver uma tipologia habitacional optimizada, e, também, uma tipologia optimizada de pequeno multifamiliar com carácter de unifamiliar e, paralelamente,  desenvolve-se uma adaptação de cada intervenção/pequena vizinhança  (com menos de 20 fogos cada) a cada sítio, não se limitando esta adequação a aspectos de pormenor, mas sim procurando-se captar, em cada local o seu carácter/identidade e aí fazer evoluir um determinado partido ou solução específica.

Provavelmente tudo o que interessa, verdadeiramente, no âmbito da promoção de novos conjuntos habitacionais se inscreve dentro dessas fronteiras de cuidadosas integração local, humanização e desenvolvimento do seu carácter/identidade individual; e assim por aqui se vão criando pequenas pracetas multifuncionais e bandas de grandes quintais alongados e pequenos pátios privados mais urbanos.

O interesse referencial desta intervenção está em ela jogar, quer com uma excelente solução doméstica, muito bem desenvolvida e pormenorizada, quer um extenso leque de variações dessa mesma solução aplicadas em vizinhanças muito distintas umas das outras em termos formais gerais e em termos de elementos de exteriores polarizadores (ex., pequeno jardim público, ptaceta, pequenos quintais privados, etc.).

Há uma relativa repetição de uma solução doméstica, que é devidamente optimizada, e há oferta de variadas vizinhanças, todas elas com evidente identidade local, forte escala humana e importante capacidade de integração local; “oferecem-se”, assim, boas casas e boas vizinhanças.

Quanto à solução edificada tipificada ela faz uma excelente ponte entre as vantagens do unifamiliar e do pequeno multifamiliar, possuindo grande versatilidade local e um elevado potencial de apropriação e mesclando, sempre, os usos do exterior contíguo de uso público e de uso privado.

 

(Fig. 8)

A propósito do conjunto: Unidade Residencial João Barbeiro, Beja, 48 fogos, projeto dos arquitectos Raúl Hestnes Ferreira e Manuel Miranda (1984) Promotor, promovido pelo Fundo de Fomento da Habitação (FFH) e IGAPHE / INH.

Este conjunto residencial é sempre uma revelação muito positiva, quando visitado, trata-se de uma vizinhança de proximidade exemplar, seja em número de fogos vizinhos, seja na estupenda escala humana que define no seu miolo pedonal.

O pequeno quarteirão tem grande sobriedade externa, dialogando com a envolvente que serve com algumas lojas bem integradas no seu volume global e essencialmente marcado na fronteira exterior do quarteirão.

Interiormente revela alguma alegria residencial, utiliza de forma inovadora elementos com raiz tradicional, como é o caso das grandes grelhagens, usa a cor também no serviço à atractividade e apropriação da vizinhança e faz viver um pequeno espaço urbano (praceta) tanto em íntima ligação com os fogos envolventes, como na natural continuidade dos percursos “citadinos exteriores”. Quanto aos aspectos tipológicos do edificado salienta-se o grande interesse que tem a consideração das pequenas e largas galerias comuns de acesso a dois fogos (cada uma) como se fossem varandas comuns com funções conviviais e de relação com a praceta de vizinhança.

É uma vizinhança de proximidade que equilibra uma imagem extremamente afirmada e quase “reservada” numa das suas extremidades (visível na fotografia), com uma outra imagem de grande abertura pública e mesmo de “boas-vindas” a quem passa na outra extremidade; e são estas mais algumas variações formais e funcionais entre tantas que são possíveis e desejáveis nas vizinhanças.

 

(Fig. 9)

A propósito do conjunto: 400 fogos e vários equipamentos em Laveiras, Caxias, promovido pela Câmara Municipal de Oeiras, com projecto dos arquitetos Nuno Teotónio Pereira e Pedro Botelho (1991).

A assinalável continuidade da arquitectura urbana e a escala geral deste pequeno bairro, de baixa altura e forte ocupação por quintais privados (cerca de metade dos fogos), proporcionou grande adequação a modos de vida muito relacionados com o exterior (1/3 dos fogos realojaram famílias que viviam em zonas degradadas) e a minimização da extensão do exterior público (acompanhada pela maximização do seu controlo a partir das habitações e equipamentos marginais).

O conjunto define-se, praticamente, por grandes espaços entre bandas edificadas que são repartidos em quintais privados que servem todos os fogos e que são separados dos caminhos pedonais contíguos por muros à altura humana, reservando-se, assim, as respetivas imagens e usos domésticos. Estrategicamente não há assim grandes zonas públicas a tratar e a manter, sendo boa parte do espaço exterior de uso e manutenção privadas, mas acabando por ser de usufruto público.

Deste modo e de forma muito urbana a vizinhança é assim “concentrada” ao longo das agradáveis pequenas ruas, muito caracterizadas pela forte escala humana dos edifícios e na rua/pólo comercial que constitui o centro mais animado do conjunto.

Os exteriores públicos são estrategicamente concentrados e vitalizados, claramente legíveis e apropriáveis, cheios de relações urbanas enraizadas na nossa tradição urbanística (tais como ruas arborizadas, escadinhas, passeios largos e mirantes), nunca pondo em risco a segurança dos peões ou a funcionalidade do próprio automóvel, que acaba por ser sempre marginal.

Nesta zona convivem variados grupos socioculturais (296 fogos de realojamento e 104 de venda a custo controlado). 

 

(Fig. 10)

A propósito do conjunto: 111 fogos da Cooperativa de Habitação Trinta de Junho, no Chinicato, Lagos,  projeto do arquitecto José Veloso (BLOCO), 1994 e anos anteriores.

Este conjunto residencial estimula localmente uma dimensão social e de convívio e privilegia o uso pedonal em agradáveis pequenas ruas, caracterizadas pela integração de “verde” urbano e rústico e por uma fortíssima escala humana; trata-se de um espaço de vizinhança predominantemente térreo, um agradável mundo à altura do passeante, quase convidado a entrar nas casas, e de um forte sentido de condomínio exterior sem barreiras, marcando, logo, a nossa entrada neste pequeno “bairro”.

Este sentido comunitário e de boas-vindas a quem chega é reforçado pela posição estratégica do café/centro de convívio e galeria de arte no principal “ponto” urbano de chegada e partida e pelas estimulantes continuidades das ruelas em escadinha ligadas à alameda arborizada, paisagisticamente perspectivadas, animadas pelo “ondulado” das habitações e por um alegre cromatismo.

“De vez em quando, apetece a gente tomar por uma dessas ruazinhas que não se sabe onde irão acabar, deixando correr o tempo ao sabor dos passos erradios.” – em “uma rua qualquer”, de Daniel Filipe, “discurso sobre a cidade”.

A vizinhança tem de ser também sempre isto: “ao sabor dos passos erradios”; e para tal tem até de ser lúdica, estimulante, atraente ...

 

 

(Fig. 11)

A propósito do conjunto: 101 fogos de HCC/HISP na Ponte da Pedra, Matosinhos, cooperativa NORBICETA (cooperativas Nortecoop, As Sete Bicas e Ceta),  projecto coordenado pelo Arq. Carlos Coelho; empreendimento que integrou o consórcio SHE (Sustainable Housing in Europe), que foi premiado com o Sustainable Energy Europe Awards 2007 (Prémio Europeu de Energia Sustentável 2007).

A imagem escolhida para abordar a vizinhança a propósito deste premiado conjunto na Ponte da Pedra, num sítio onde antes existia uma indústria poluidora, é premeditadamente “curiosa”, mostrando parte de um alongado espelho de água entre edifícios, numa perspetiva totalmente distinta dos bem conhecidos “caixotes” habitacionais dispostos como soldados numa parada árida.

O tema aqui brevemente apontado liga-se ao anterior, o “dos passos erradios”, o da habilitação de uma vizinhança urbana e residencial verdadeiramente estimulante do seu uso, e até lúdica quando percorrida, o mais possível única no seu carácter e nas suas sequências e enfiamentos visuais, marcada por uma identidade muito própria no seu conjunto e nos seus subconjuntos e estrategicamente bem marcada por situações e elementos verdadeiramente “singulares”, seja na relação entre espaços cheios e vazios, seja no seu povoamento por determinados elementos que sejam verdadeiros pequenos e sóbrios “acontecimentos”, seja nas sequências de percurso e/ou de visualização oferecidas e previsualizadas.

E em tudo isto a arte urbana não pode ser esquecida e desprezada como tem sido habitualmente;  mas aqui na Ponte da Pedra não o foi, existindo para além de elementos urbanos singulares, interessantes elementos de arte urbana sublinhando e enriquecendo locais singulares.

 

 

(Fig. 12)

E para concluir o artigo e a propósito do que acabou de ser referido para o conjunto de Habitação de Interesse Social (HIS) na Ponte da Pedra, uma imagem de integração de arte urbana – 69 figuras humanas, por Fabrice Hybert, em resina e aço inoxidável, integram uma instalação/fontanário – numa zona residencial do Parque das Nações, em Lisboa, num dos poucos casos de imagens não referidas a intervenções de HIS.

Realmente não faz sentido uma cidade de vizinhanças sem uma sua qualificação pontual por elementos de arte urbana.


3. Breves notas finais ao artigo e ao tema da vizinhança residencial

A questão da vizinhança e da sua importância residencial sempre foi naturalmente conjugada com a mais “simples” questão da existência de uma (ainda que pequena) dimensão de (um mínimo de) espaços exteriores agradáveis (confortáveis, equipados e atraentes) em cada intervençãoo habitacional.

É uma temática: (i) que se liga, muito aritmeticamente, ao número de fogos integrado em cada vizinhança e em cada intervenção, número este que pode ter variadas formalizações em termos de conjunto edificado e de vizinhança; (ii) que está associada à habilitação da respetiva vizinhança urbana e paisagística preexistentes para a integração da nova intervenção (tendo em conta de certa forma “o grão” da integração); (iii) que depende da tipologia e da eficácia da respetiva gestão local e de proximidade (que é vital/crucial); (iv) que depende da tipologia específica de espaços exteriores usada; e (v) que se liga, de forma determinante, ao potencial de convívio que deve ser naturalmente proporcionadop em cada vizinhança.

É uma temática intimamente associada a questões de (boa) vizinhança e de simples existência/ausência de espaços exteriores viáveis e habilitadores do seu uso e de uma procura da melhor vivência do respetivo conjunto habitacional e que têm uma aplicação geral à promoção habitacional, mas têm também uma aplicação muito específica e exigente quando se trata de operações de Habitação de Interesse Social ligadas a processos sensíveis e complexos de realojamento.

E liga-se, infelizmente, a uma falta de hábito que temos de considerar, verdadeiramente, o exterior residencial como espaço “habitável”, e termos da expansão de certos usos domésticos e tendo em conta o desenvolvimento de usos exteriores específicos; e neste sentido um “seminário” que apresente casos concretos com uma tal qualidade será sempre muito útil.

Naturalmente que a consideração específica da habitação de interesse social tendo-se em conta, designadamente, os seus naturais constrangimentos em termos de espaciosidade, custos e exigências qualitativas terá, sempre, um lugar particular nesse rumo de investigação aplicada.

Em futuros artigos a infohabitar irá procurar avançar cuidadosa, mas afirmadamente, nestes “novos” caminhos de reflexão teórico-prática e, mais uma vez, se desafiam, amigavelmente, os leitores a e enviarem comentários, textos e imagens com este objetivo.


Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVII, n.º 773

A propósito das vizinhanças de Habitação de Interesse Social – infohabitar # 773

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

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 Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).