terça-feira, janeiro 22, 2019

Os muitos sítios de uma boa habitação II, sobre os corredores - Infohabitar 671

Infohabitar, Ano XV, n.º 671Os muitos sítios de uma boa habitação II,  sobre os corredores - Infohabitar 671Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

por António Baptista Coelho (texto e imagem)

(texto introdutório)
Sobre uma habitação feita mais por sítios específicos do que por espaços ditos de/para actividades e funções domésticas.
Aproveitando para lembrar, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e é tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas e dinâmicas.
Sobre a previsão destes tipo de “cantos”, “recantos” e “sítios”  domésticos, que são, em boa parte, os grandes responsáveis pela criação de um grande mundo pessoal e familiar, destacam-se alguns aspectos muito variados e, designadamente, de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade, de funcionalidade com sentido lato e de adequada, rica e apropriável pormenorização arquitectónica, que, em seguida, muito brevemente se apontam – não exaustivamente (trata-se de um texto naturalmente dinâmico).

Fig. 01: valorizar os corredores domésticos

Sobre os corredores domésticos: uma reflexão de enquadramento

No presente artigo abordam-se, global e particularmente, os corredores domésticos, aqueles espaços tantas vezes desprezados e remetidos a uma mera função de ligação e circulação entre os outros espaços domésticos, naturalmente, mais protagonistas.
Há que recordar que os corredores foram, em boa parte e no maior número de situações, uma tardia invenção no mundo doméstico, pois, por regra, ou não existiam, porque os espaços de vida da família eram muito restritos, frequentemente, a um ou dois compartimentos multifuncionais, ou, em casas abastadas, por regra, a circulação fazia-se, frequentemente, de forma directa entre compartimentos contíguos, criando-se verdadeiras sequências de espaços/compartimentos, que iriam sendo ligados ou separados (pelo abrir e fechar de portas), consoante as necessidades e os objectivos domésticos mais privados ou mais conviviais.
Naturalmente que neste último caso, por vezes, os corredores já existiam, com uma função, talvez, essencialmente, de serviço e de apoio às principais actividades que decorriam nessas sequências de compartimentos contíguos e interligados.
Depois, talvez possamos considerar que, com o funcionalismo e a necessidade de se proporcionarem adequadas condições de sanidade na habitação, os corredores domésticos acabam por se tornar as ferramentas físicas da ligação entre as diversas funções e actividades domésticas, assumindo-se, assim, basicamente como espaços de circulação, separação e mesmo de hierarquização nas bem conhecidas e “funcionais” zonas de privacidade doméstica, que foram marcando, cada vez mais rigidamente as habitações  do Século XX.
E aqui importa considerar, ainda, dois outros aspectos: sendo o primeiro que as “obrigações” funcionais (de estruturação e hierarquização) domésticas exigidas em “letra de lei” pelos regulamentos da edificação que então surgiram (com os tais objectivos de melhor sanidade e habitabilidade), se foram, tornando, com o tempo, verdadeiros espartilhos na concepção doméstica, designadamente, quando assumidos por projectistas sem capacidade imaginativa e base cultural e bem recebidos pela própria indústria da construção ; e sendo o segundo aspecto, que tais “espartilhos” funcionais, de espaciosidade e de inter-relação espacial, quando reinterpretados por grandes projectistas “funcionalistas” resultaram, frequentemente, em excelentes soluções domésticas, mas como este foi sempre um caso excepcional, no caso corrente as soluções domésticas que nos foram sendo oferecidas, caracterizaram-se, por regra, por uma triste monotonia e pobreza espacial e funcional.
E nesta pobreza os monótonos e tantas vezes monofuncionais corredores foram, frequentemente, protagonistas de tais soluções, tornando a circulação como que talvez a função doméstica mais evidenciada, muitas vezes até com alargamentos estratégicos em “halls” de entrada e de zonas íntimas, cujo interesse doméstico se resumia, muitas vezes à circulação e à amostragem de algumas peças de mobiliário e decorativas.
E lembremos que uma tal situação, muito aplicada especificamente aos corredores domésticos se prende, não só com a referida estruturação hierarquicamente rígida dos diversos espaços, mas também com um dimensionamento próprio e regulamentar “mínimo”, que ao ser assumido pela indústria da construção e por muitos projectistas como regra, vai produzir corredores que, de facto, apenas têm espaço disponível para a circulação e não para esta função e para outras, como a disposição de mobiliário funcional e mesmo para o estar casual ou para actividades pontuais de estudo e trabalho não doméstico na habitação.

Introdução a algumas ideias sobre os corredores domésticos

A reflexão que acabou de ser feita abrirá, então, espaço a possíveis propostas domésticas distintas daquelas a que fizemos referência – marcadas por rígidas hierarquias funcionais e/ou até “roubadas” em parte do seu espaço habitável por longos corredores quase apenas de circulação.
E apontam-se então, aqui, em seguida, algumas ideias de relacionamento mais directo entre diversos espaços domésticos, eles próprios com uma margem razoável de multifuncionalidade, e ideias de um maior protagonismo estruturante e multifuncional dos próprios corredores domésticos, através, designadamente, do recurso a diversificadas soluções, como aquelas que em seguida se apontam e comentam com brevidade.  

Corredores mais úteis e agradáveis

Um aspecto a ter em conta, talvez em primeira linha de preocupações, nesta matéria é que os corredores domésticos sejam, tendencialmente, o mais curtos possível – condição esta óbvia mas que não estará na mente de quem por vezes projecta verdadeiros meandros domésticos, extremamente perdulários em termos de área habitacional – sendo, simultaneamente, o mais úteis possível – condição esta que poderá ter variadas respostas, sendo a mais óbvia o proporcionar acesso funcional a adequadas e extensas arrumações domésticas.
Outro aspecto bem importante é que os corredores não sejam aquele “espaço escuro”, por vezes, até difícil de usar por crianças pequenas, e para tal e não sendo fácil proporcionar-lhes vãos directos sobre o exterior, poderemos prever instalações/soluções que façam infiltrar luz natural, ainda que pontual ou, de preferência, ritmicamente; e uma solução tradicional e ainda excelente é a existência de portas envidraçadas, transparentes ou translúcidas, e/ou de bandeiras transparentes sobre as portas interiores – bandeiras estas que poderão também permitir condições constantes de ventilação natural (aos corredores e à própria habitação, em termos de ventilação cruzada).  

Fig. 02: corredores mobilados e corredores-galerias

Corredores mobilados e corredores-galerias

Os corredores mobilados e os corredores-galerias (de arte), podem ser elementos estruturantes e agradavelmente caracterizadores na organização da habitação e na sua essencial apropriação pelos respectivos moradores.
Esta opção por corredores mobilados e/ou por corredores-galerias, leva a que estes espaços  deixem de ser zonas "escuras" e "inúteis" para passarem a ser aspectos verdadeiramente caracterizadores da habitação, estimulando mesmo a sua vida interna e a identidade e amor próprio dos respectivos habitantes, pois trata-se de espaços intensamente marcados pela apropriação do seu espaço doméstico e pelas escolhas e gostos próprios em termos de elementos de decoração aí integrados e/ou "expostos".
Naturalmente que há que cuidar de um adequado dimensionamento da largura dos corredores e das peças de mobília aí integradas, de modo a que a circulação possa continuar a desenvolver-se de forma adequada, embora talvez mais naturalmente a um ritmo mais cadenciado e doméstico, o que parece ser positivo; e este tipo de solução pode. naturalmente, evoluir, havendo “pontualmente” espaço para a recriação de pequenos subespaços espaços domésticos atribuíveis a variadas actividades.
Importa ainda referir que ao apontarmos a ideia da recriação de corredores domésticos como pequenas “galerias de arte”, estamos a visar, de forma mais geral, um gradual preenchimento das respectivas paredes com módulos de arte diversificados e/ou com cartazes ou outros tipos de elementos de design de comunicação, pouco ou nada dispendiosos.

Corredores-saletas

Os corredores-saletas são espaços do interior/âmago doméstico que "crescem" da opção limitada função de circulação mais integração/exposição de mobiliário e elementos de decoração e apropriação espacial, para zonas com eventuais funções estruturadoras da vida da habitação e de evidenciação da identidade e dos gostos e formas de vida dos seus habitantes.
Estão neste caso compartimentos, habitualmente, alongados que, além de serem espaços de circulação, servem, por exemplo, como zonas de trabalho e estudo, espaço de biblioteca e videoteca, espaço de aquariofilia, e local de estruturação e exibição de variados tipos de colecções.
Estes corredores-saletas ganharão muito, naturalmente, com um mínimo de condições de conforto ambiental, em termos de luz e ventilação naturais, e com um máximo de adequada pormenorização, marcada pela sobriedade de modo a não colidir em termos visuais (ex., contraste excessivo) e funcionais (ex, espaço habitual e aparentemente desarrumado) com os referidos usos.
De certa forma este corredores-saletas podem definir-se como não corredores, sendo compartimentos entre compartimentos e que proporcionam o acesso directo entre eles.

Dos corredores estruturantes à quase ausência de corredores

Conclui-se, para já, esta reflexão comentada sobre os corredores e, naturalmente, sobre a circulação doméstica, com algumas, poucas, observações sobre duas situações-limite, que podem marcar (positiva ou negativamente) habitações: pela existência de um corredor estruturante da vida doméstica; ou pela quase inexistência de corredores na habitação.
Um corredor estruturante pode marcar muito positivamente toda a estrutura, visualidade e capacidade de uso de uma habitação, habitualmente, por uma sua posição próxima de um eixo de simetria que atravessa boa parte do fogo, por um seu adequado dimensionamento e utilidade (tal como acima se apontou) e por cuidados específicos com as suas condições de conforto ambiental, com relevo para a luz natural (também como foi acima apontado). Desta forma e habitualmente a habitação assim estruturada poderá ganhar, entre outros aspectos, um apreciável potencial de adaptabilidade e de versatilidade na afectação dos compartimentos servidos por este tipo de corredor, assim como ganha numa sua afirmada caracterização.
Nos antípodas das soluções domésticas, uma habitação pode ser caracterizada pela quase inexistência de corredores, definindo-se um espaço vivencial que tende a ser expressivamente caracterizado pela adaptabilidade de afectações funcionais e pela convivialidade doméstica, sendo essencial nesta situação, entre outros cuidados, que os espaços designados de “circulação obrigatória” nos compartimentos não atravessem e, em boa parte, inutilizem zonas funcionais, criando (conformando), portanto, esses percursos de circulação, espaços e “cantos” úteis, versáteis e agradáveis. E muito mais haverá a dizer sobre este tipo de soluções, que foram bastante utilizadas por grandes arquitectos do século XX, produzindo espaços domésticos expressivamente unificados, que muito ganham com cuidadosas condições de conforto ambiental, arquitectonicamente utilizadas e valorizadas (ex., janelas junto ao tecto) e com uma afirmada e estratégica relação com um exterior estimulante.
Não sendo, talvez, essencial referi-lo, porque parece ser óbvio, mas porque se trata de matéria muito sensível na organização e caracterização de boas soluções domésticas, estas soluções que acabaram de ser referidas – marcadas por corredores estruturantes ou pela sua ausência – só estão, verdadeiramente, ao alcance de excelentes processos de concepção arquitectónica, resultando, habitualmente, muito mal quando aplicados de forma pouco cuidada, pouco fundamentada e mal imaginada.


Notas editoriais:
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Infohabitar, Ano XV, n.º 671
Os muitos sítios de uma boa habitação II,  sobre os corredores - Infohabitar 671
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar,– Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

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