terça-feira, janeiro 29, 2019

672 - Os usos pedonais devem estruturar uma cidade bem habitada - Infohabitar 672

Infohabitar, Ano XV, n.º 672
Os usos pedonais podem e devem estruturar uma cidade bem habitada - Infohabitar 672
por António Baptista Coelho (texto e imagem)


Poder viver um espaço urbano com vagar 

Assim como na nossa vida pessoal a calma e a ponderação são essenciais para podermos ir vivendo em harmonia com os outros e de acordo com os nossos projectos de vida, bem ao contrário de um percurso pessoal marcado pela “correria” e apenas por objectivos de curto prazo e tantas vezes insignificantes, assim como um simples almoço pausado e bem acompanhado nos dá alento e nos enriquece a meio da nossa jornada diária, bem ao contrário de um lanche apressado, em pé e solitário, que apenas nos fornece a energia física para essa jornada, esquecendo as outras energias que são, pelo menos, igualmente importantes; a vivência de um espaço urbano com vagar e atenção proporciona tudo mais para além da simples experiência funcional de uma deslocação entre dois quaisquer sítios da cidade.
Globalmente, a diferença está entre experiências simplesmente funcionais, superficiais e até quase “maquinais” e vivências verdadeiramente humanas, calorosas, eventualmente compartilhadas e sempre enriquecedoras em termos do que nos é dado ver, viver e experimentar no âmbito de sensações, memórias e renovadas e estimulantes informações. E o homem não, realmente, uma máquina, é um ser humano que, para além de se alimentar em termos de aspectos associados à sua sobrevivência física estrita, desde há muito – talvez desde há cerca de 1000.000 anos – se “alimenta” de convivência e partilha, histórias e conversas, ambientes estimulantes e arte, e, consequentemente, no espaço urbano, se “alimenta” de muito mais do que os simples – embora tantas vezes mal previstos – aspectos funcionais.
E para que tal condição se possa cumprir, o homem urbano – e atente-se aqui nesta expressão – precisa de poder usar e gozar os seus espaços urbanos com vagar, devendo, naturalmente, poder também poder usar a cidade de modo funcional, ninguém o nega, evidentemente; mas usar a cidade deve ser possível, simultaneamente, com pressa e com vagar, “correndo” apressado entre duas paragens de transportes públicos ou flanando lentamente pelos passeios bordejados de montras de lojas; e mesmo na opção apressada é bem possível e desejável que o homem urbano possa gozar de essenciais momentos de acalmia e relativo sossego – por exemplo, em transportes públicos confortáveis e onde até pode haver uma agradável música de ambiente (e tudo existe aqui em Portugal, embora muito pontualmente).

Fig. 01: a possibilidade de viver a cidade com vagar está intimamente ligada aos usos pedonais

A possibilidade de viver a cidade com vagar está intimamente ligada aos usos pedonais

Esta oportunidade de se usar a cidade com vagar deve marcar todo o espaço urbano, desde as suas vizinhanças residenciais aos seus centros mais animados, naturalmente, através de sequências de percursos bem estruturados e equipados e mediante soluções em cada caso adequadas e estimulantes, seja marcadas por ambientes residenciais mais intimistas e mesmo quase domésticos, seja por continuidades de espaços públicos bem animados, polarizadores e representativos.
Esta possibilidade de viver a cidade com vagar está intimamente ligada aos usos pedonais, ao homem a pé, mais ou menos apressado, parando momentaneamente para se orientar, trocando algumas palavras casuais, apreciando um dado enquadramento urbano, sentando-se alguns minutos para descansar um pouco ou apreciar uma dada vista, circulando entre montras, motivado pelo simples e excelente prazer de ir vendo as novidades e que motiva o uso dos fundamentais espaços de transição entre interior e exterior também tão caracterizadores do espaço urbano (pisos térreos fortemente marcados por montras, entradas amplas de lojas, espaços côncavos e protegidos que desmultiplicam montras, esplanadas protegidas, etc.).
E os usos pedonais, garantes desse rico e vital potencial do uso da cidade com vagar, não podem ser considerados como um “dado adquirido”, como algo que sempre aconteceu e acontecerá, mesmo sem condições adequadas para tal: têm de ser devidamente apoiados, motivados e mesmo defendidos relativamente a outros tráfegos, com natural destaque para os motorizados “clássicos” (automóveis e motorizadas), mas considerando, também, os novos tráfegos alternativos, referidos, aqui, essencialmente à circulação de bicicletas e, bem recentemente, de trotinetas.

Circulação pedonal e outros tipos de circulação (novos e velhos tráfegos)

Que ninguém aqui veja uma posição contra qualquer tipo de “novo tráfego”, inovador em termos da flexibilidade (e velocidade) permitida nas deslocações unipessoais e naturalmente amigo do ambiente; pois bem-vindos eles são e serão, por essas razões e pela diversidade de alternativas de circulação assim proporcionadas, pois esta posição refere-se, apenas, a:
- Uma defesa da tal essencial possibilidade do uso da cidade (espaço urbano e peri-urbano) com vagar e portanto a pé, uma possibilidade que deveria ser expressiva e objectivamente apoiada, designadamente, por medidas concretas de melhoria das respectivas condições de acessibilidade, agradabilidade e segurança ampla nos percursos, continuidade dos percursos e respectivas articulações com os transportes públicos, tratamento paisagístico global e pormenorizado dos percursos, muito adequada e estratégica integração de equipamentos de apoio à circulação e à estadia nos cenários diurno e nocturno e expressiva divulgação dos recursos e dos percursos pedonais funcionais e temáticos que vão sendo adequadamente estruturados e melhorados; medidas estas que deveriam merecer, pelo menos, tanto cuidado, tanta importância e tanta divulgação como acontece com as actualmente tão mediáticas vias para ciclistas.
E há que sublinhar que não é realmente um dado adquirido que os generalizados “passeios” funcionem bem e em continuidade, sendo que é, frequentemente, um facto que para uma boa activação de adequados e estimulantes percursos pedonais (longos, “cadenciados”, apoiados, paisagisticamente ricos, etc.) nem serão necessários grandes investimentos, é, sim, necessário, uma extrema sensibilidade no levantamento das condições existentes, estratégica intervenção “curativa” na resolução das descontinuidades inseguras e infuncionais e uma adequada acção de divulgação destes percursos.  
- E a uma, hoje bem oportuna, defesa de uma movimentação pedonal urbana diversificada, estimulante e livre, face aos tráfegos tradicionalmente inimigos do peão, mas também, actualmente, face aos novos tráfegos alternativos e ambientalmente positivos de ciclistas e utentes de trotinetas, pois não parece fazer muito sentido que o peão (urbano e peri-urbano), que não teve, ainda, direito a planos efectivos e continuados de melhoria das suas condições de uso funcional e com vagar da cidade – tal como acabou de ser apontado e defendido – tenha agora de conviver no que era o seu “santuário” protector das zonas de passeio, com esses novos tráfegos e, designadamente, com o seu exercício pouco ou nada regulado, que o deveria ser, julga-se, quando tais tráfegos, estando claramente integrados nos passeios, deveriam estar submetidos a prioridade pedonal; e assistindo-se, até, a complexas e, julga-se, discutíveis situações de passagens pedonais subsequentes – uma de “passadeira” através vias de circulação automóvel e logo seguida de outra a atravessar uma faixa para bicicletas.

Os usos pedonais podem e devem estruturar para uma cidade bem habitada

Aqui chegados, nesta opinião/reflexão sobre a importância de se poder ter uma adequada e estimulante circulação pedonal urbana, importa sublinhar que é, neste sentido, que se julga que os usos pedonais podem e devem estruturar uma cidade bem habitada, desde as suas vizinhanças mais residenciais aos seus pólos mais animados, e que não faz qualquer sentido continuarmos a quase esquecer esta importância, até porque, muito provavelmente, haverá sempre ganhos numa adequada e continuada integração de tráfegos (“clássicos” e “novos”).
E termina-se esta reflexão, que poderá ter continuidade em outros artigos sobre esta temática, com a ideia de que a  as actividades associadas à movimentação e à permanência pedonal, nas suas vertentes mais funcionais e fluidas ou mais de lazer e marcadas pelo vagar e pelo deambular, podem e  devem caracterizar muito positivamente uma expressiva continuidade urbana, ao serviço dos seus habitantes e visitantes, desempenhando, ainda, uma função quase de acalmia e de bálsamo na vivência diária e eventual desses espaços; proporcionando opções expressivamente funcionais e de circulação, mas também outras expressivamente de lazer e de permanência, retirando-se, assim, uma forte mais-valia dos nossos espaços urbanos.
Falta, no entanto, fazer aqui uma referência destacada e oportuna à necessidade e oportunidade, já concretizada em outros países da Europa, de se avançar, nestas matérias, de forma integrada, também através de um novo “Código da Rua”, que venha, finalmente, acompanhar o velho “Código da Estrada”. 

Notas editoriais:
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Infohabitar, Ano XV, n.º 672
- Infohabitar 672

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
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Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar,– Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

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