quinta-feira, agosto 09, 2007

Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 152

  - Infohabitar 152

Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007



Depois de se ter editado, aqui no Infohabitar, há poucas semanas, a acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, em cerimónia própria que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, inicia-se, hoje, nesta nossa revista, um percurso um pouco mais pormenorizado sobre o mesmo conjunto de soluções urbanas e residenciais.

Sublinham-se, desde já, três aspectos estruturantes nesta pequena sequência de artigos semanais que agora se inicia:

. Trata-se de uma perspectiva de análise pessoal e “de trabalho”, desenvolvida pelo autor destas linhas no âmbito da sua participação no Júri do Prémio como representante do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; e portanto uma perspectiva que não se tem de articular, plenamente, com a análise do Júri.

. Na sequência do que acabou de ser referido, optou-se por não referir quaisquer aspectos associados ao respectivo destaque no Prémio; e sublinha-se que a designação (ficha técnica), limita-se a repetir, quase na íntegra, a já divulgada na referida Acta do Júri e no respectivo Catálogo do Prémio.

. E, finalmente, aproveitou-se esta oportunidade para falar, apenas um pouco, sobre temas que se julga estarem na ordem do dia em termos de procura de boas soluções de habitar a casa e a cidade; e é sob o título dessas temáticas que se agrupam os conjuntos apresentados.




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Fig. 01: a nova Bouça.

Desde já se aponta que nas próximas semanas e na sequência deste artigo serão editados textos sobre outras temáticas, e designadamente sobre:

(i) a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana;

(ii) a importância da integração urbana e paisagística;

(iii) e sobre o interesse do desenvolvimento de vizinhanças e mundos domésticos bem pormenorizados.

Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007


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Fig. 2: a Ponte da Pedra, o primeiro conjunto cooperativo de habitação sustentável em Portugal.

No que se refere à promoção cooperativa no âmbito do Estatuto Fiscal Cooperativo, e porque se considera não ser possível ou desejável comparar uma complexa e exemplar acção de reabilitação urbana e da edificação de um conjunto com provado interesse cultural, urbano e residencial, com uma acção bem qualificada, também complexa e pioneira de associação ao habitar de tecnologias ligadas ao hoje fundamental objectivo de sustentabilidade ambiental; repete-se, porque se considera praticamente impossível tal comparação e porque em qualquer dos casos o resultado urbano, habitacional, construtivo e arquitectónico, é muito claramente positivo e de referência para próximas promoções, julga-se ser de total justiça o destaque de dois conjuntos que se salientaram, exactamente, nestes aspectos de reabilitação urbana e habitacional e de sustentabilidade ambiental.


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Fig. 3: o conjunto da Chevis em Abraveses, uma excelente vizinhança de proximidade.

Num natural e fundamental alargamento do âmbito de uma adequada sustentabilidade também se faz um destaque especial a uma solução de vizinhança urbana e residencial que alia características de soluções multi e unifamiliares num desenho forte e positivamente marcado pela escala humana, De certa forma entramos aqui um pouco no que também deve ser um objectivo sempre presente, e que está de facto e desde sempre muito presente na promoção cooperativa, que se pode designar como “sustentabilidade social”.

E desde já se sublinha que um tal relevo dado à reabilitação e à sustentabilidade ambiental e social também evidencia o que poderá vir a resultar da ampliação das competências do actual IHRU - Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana –, relativamente às atribuições e aos excelentes caminhos seguidos pelo seu directo antecessor o INH.


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Fig. 4: a Bouça.

Bairro da Bouça, Porto


72 fogos promovidos pela cooperativa Águas Férreas, C.R.L., construídos pela empresa FDO – Construções, S.A., com o projecto e a coordenação do arquitecto Álvaro Siza Vieira e do arquitecto António Madureira.

O futuro das cidades está em acções onde, como neste caso, se faz a reabilitação e a completação de pequenas partes da cidade, que assim são devolvidas à estima pública e à reforçada estima dos próprios habitantes.

Acções estas às quais, como é o caso, podem ser associadas melhorias profundas em termos do conforto ambiental preexistente (ex., conforto térmico), em termos de funcionalidade global (ex., estacionamento colectivo) e mesmo na melhoria estruturante dos espaços exteriores do conjunto relativamente ao papel que para eles se deseja, e que é realmente, duplo, ao serviço das diversas vizinhanças locais e ao serviço de todos aqueles que ao usarem a cidade usam também os caminhos e as pracetas deste pequeno bairro. Só assim se faz realmente cidade com habitação.
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Fig. 5: Bouça.

É difícil resumir o que se pensa sobre esta intervenção em poucas palavras, mas registam-se sinteticamente algumas ideias:
(i) garantia de eficácia de uma acção de reabilitação e de preenchimento urbano com elevada complexidade e com as pessoas a morarem no local; harmonização de situações sociais preexistentes muito diversas, e muitas delas com elevada sensibilidade;
(ii) assumir e levar a bom termo a reabilitação e o acabamento de um bem conhecido projecto habitacional e urbano, considerado de elevada qualidade arquitectónica e verdadeiro testemunho de um período marcante da nossa história da habitação dita social;
(iii) associar a esta acção algumas novas valências específicas do pequeno bairro e outras que decorrem da sua proximidade a novas infraestruturas da cidade; não esquecer importantes aspectos de humanização como as árvores de arruamento e os grandes enfiamentos de sardinheiras que marcam as fachadas;
(iv) e fazer tudo isto com os moradores que lá estavam, para além da introdução de novas famílias, durante um período de obra racionalizado e no respeito dos custos da habitação com apoio do Estado.
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Fig. 6: Bouça.

Para concluir é ainda necessário registar um outro aspecto de grande valia neste conjunto, que é ser ele exemplo construído e vivo do que tem de ser a regra no fazer e refazer a cidade de hoje, que é o construir no construído, em pequenos complementos, bem integrados, atraentes e apropriáveis, onde se disponibilizem tipologias diversificadas, que permitam às pessoas a escolha de como viver.
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Fig. 7: Bouça.

E é de grande importância esta disponibilização de formas diversas de habitar a casa e a cidade, afastando-se o fantasma do modelo único de habitar e desenvolvendo-se tipologias que prolonguem o exterior público, mas também o exterior caracterizadamente comum e potencialmente convivial; tipologias criadoras de pequenas e orgânicas partes de cidade, bem acabadas e afectuosas (tema este a desenvolver) e tipologias verdadeiramente criadoras de verdadeiros pequenos mundos privados e domésticos (e também a este tema se voltará num próximo artigo); e para tudo isto é fundamental o bom desenho de arquitectura, aquele que pode, de facto, ajudar a dar mais felicidade às pessoas.
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Fig. 8: a Ponte da Pedra.

Ponte da Pedra, Matosinhos


101 fogos promovidos pela NORBICETA, U.C.H., construídos pela empresa J. Gomes, S.A., com projecto coordenado pelo arquitecto António Carlos de Oliveira Coelho.

O futuro das cidades está também em acções onde, como neste caso, se faz uma transformação profunda de partes de território que estavam, anteriormente, marcadas pela poluição física e visual e por serem verdadeiras barreiras à desejada continuidade do tecido urbano.

Aqui, na Ponte da Pedra, depois da demolição de uma grande indústria poluente, um conjunto de cooperativas de habitação (Nortecoop, Sete Bicas e Ceta) promoveu um concurso de ideias, que visou desenvolver nesta parcela de território uma intervenção com muitos dos aspectos que caracterizam uma cidade viva, designadamente:

(i) recompor e intensificar a continuidade urbana;
(ii) privilegiar a relação com a malha urbana preexistente;
(iii) definir e acentuar vizinhanças de proximidade bem configuradas;
(iv) integrar verde urbano protagonista e elementos de equipamento e de arte urbana protagonistas.
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Fig. 9: a Ponte da Pedra.

Estes aspectos de sustentabilidade urbana marcam a globalidade das duas fases desta intervenção na Ponte da Pedra, mas na sua segunda e última fase esta promoção introduziu também aspectos de sustentabilidade ambiental, no âmbito do projecto internacional da Comissão Europeia intitulado Sustainable Housing in Europe (SHE), que se integra no 5º Programa Quadro “Investigação e Desenvolvimento”, no programa "Energia, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável”.

O Projecto SHE apoia a demonstração da viabilidade da produção de habitação sustentável na promoção residencial corrente, bem como a sua associação à participação dos habitantes ao longo do desenvolvimento do processo, condição esta que, como bem sabemos, está bem ligada à promoção cooperativa.

Na Ponte da Pedra aplicaram-se inovações, designadamente, nas seguintes matérias:
(i) construção mais amiga do ambiente no que se refere à gestão dos resíduos produzidos e à escolha dos materiais;
(ii) conforto térmico acrescido e claramente acima do exigido em termos regulamentares;
(iii) reformulação do ciclo de água e poupança de água potável; aquecimento de água com painéis solares;
(iv) melhoria das condições de conforto acústico; e melhoria das condições de ventilação doméstica.

E refere-se estar em curso a monitorização das potenciais poupanças obtidas com estas novas soluções.
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Fig. 10: a Ponte da Pedra.

No exterior urbano é evidente uma ampla preocupação seja com a integração do verde urbano, seja com a presença física da água, que é excelente factor de amenização ambiental, seja com a introdução de arte urbana, numa excelente reaplicação da velha aliança entre arquitectura e arte citadina.

Finalmente há que sublinhar que tudo isto se fez , durante um período de obra racionalizado – a Norbiceta foi o primeiro conjunto acabado no âmbito do Projecto SHE – e dentro de custos que estão dentro dos limites da habitação com apoio do Estado.
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Fig. 11: Abraveses.

Abraveses, Viseu


12 fogos promovidos pela cooperativa Chevis, C.R.L., construídos pela empresa Abrantina, S.A., com o projecto coordenado pelo arquitecto Francisco Simões.

A cidade também se faz e cada vez mais se deverá fazer de pequenos conjuntos como este, em que se evidenciam aspectos de boa integração urbana, escala humana, desenho racionalizado e atraente, associação entre as vantagens de uma reforçada agregação de fogos e a satisfação do desejo da vida numa tipologia unifamiliar, e capacidade de apropriação pelos moradores.

Tal como foi referido na visita do Júri tratou-se de criar na horizontal uma afirmada associação de fogos, possibilitando-se que depois os moradores desenvolvam equipamentos e acabamentos específicos, em cada fogo.
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Fig. 12: Abraveses.

Sublinha-se ainda o interesse que tem a aqui bem aparente procura de diversificação tipológica, associada seja a uma forma urbana pública com presença sóbria mas estimulante, seja à agregação de um módulo habitacional simples e claro, mas que gera um conjunto agradavelmente orgânico, seja ao desenvolvimento de espaços exteriores comuns côncavos e potencialmente geradores de relações de vizinhança e de convívio.

Trata-se de uma solução de habitar que alia, verdadeiramente, um sentido urbano complementar, positivo e vitalizador, a uma imagem forte de escala humana, a uma perspectiva de adequado aproveitamento de um espaço urbano antes sobrante e a uma agradável, apropriável e espacialmente ampla solução de mundo doméstico.


Na semana que vem falaremos de escalas, de densidades e de imagens urbanas, também não esquecendo a escala humana.


Nota importante: as imagens da Bouça são do Arqº José Clemente Ricon.

Casais de Baixo, Azambuja, 8 de Agosto de 2007.
Editado por José Baptista Coelho, 9 de Agosto de 2007.

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