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segunda-feira, março 05, 2018

Cantos e recantos domésticos: bases de mundos pessoais - Infohabitar 633

Infohabitar, Ano XIV, n.º 633

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CVI

Cantos e recantos domésticos: bases de mundos pessoais

por António Baptista Coelho


A nossa “casca de caracol”

Um dos aspectos que podem transformar as nossas casas em sítios únicos, onde, tendencialmente, nos poderemos sentir muito bem e verdadeiramente “em nossa casa”, a tal “casca de caracol”, referida uma vez por Amália Rodriques, que é tão identitária e apropriável como agradável e envolvente.
E esta “casca de caracol” bem habitável e que acaba, também, por nos habitar, tem a ver, não só com a capacidade de recheio/povoamento da “casa” pelos mais diversos elementos de mobiliário/arquitectura de interiores e de recheio pessoal e recordação (ex., livros, quadros, memórias de viagens, ofertas de família/amigos, fotografias, etc.), mas também com a constituição e repartição da “casa” em inúmeros pequenos espaços e recantos apetecíveis para desenvolver as mais diversas actividades mais ou menos úteis, mas sempre fundamentais, como é, por exemplo, o sentar ali no canto, junto à janela, ou o tirar um livro da estante e pousá-lo numa pequena mesa para o desfolhar, ou arrumar a colecção no final do corredor naquelas prateleiras que foram feitas à medida, ou sentar, por alguns minutos, para repousar num sofá-cama arrumado num qualquer canto de um compartimento; e, depois, “a casa” vai-se tornando, naturalmente, “a nossa casa”.
Os recantos vários que são responsáveis pela base de identidade e pelos mundos pessoais domésticos constituem naturais sequências ou malhas de agradável e diversificada perambulação pela nossa casa, sentindo que nos podemos ir detendo, ao longo dela, em muitos espaços ou “possibilidades espaciais”, com um mínimo ou, idealmente, com um máximo de condições de conforto e de propostas de actividades e subactividades ou microfunções.
Esta possibilidade de uso prolongado, intenso, “sincopado” e disseminado da nossa casa tem, naturalmente, muito  a ver com as opções de mobiliário e equipamento, mas tem também muito a ver com a capacidade microfuncional e a adaptabilidade de recepção de mobiliário e de outros elementos de Arquitectura de interiores, que é proporcionada pelos diversos espaços domésticos e pelas suas respectivas margens de uso e de adaptabilidade, consideradas muito para além dos respectivos perfis funcionais básicos.
Importa salientar que a condição contrária a uma tal desejável possibilidade doméstica, marcada pela identidade, adaptabilidade e agradabilidade, pode ser sintetizada pelo recurso ao, infelizmente frequente, “mau exemplo” de habitações onde a sequência de circulação/actividades é praticamente “única”, monótona e rigidamente hierarquizada, e onde dificilmente conseguimos arranjar um sítio de permanência agradável, assim como sítios a que possamos chamar “mais nossos”.
E estas, últimas, negativas condições, tal como as positivas, não têm apenas a ver com aspectos de eventual constrangimento por excesso de mobiliário (ele próprio, por vezes, também absurdamente sobredimensionado), e/ou apenas por condições dimensionais muito mínimas, pois há, até, condições mínimas domésticas “habitacionais” com múltiplos espaços para uma agradável permanência como por exemplo acontece em caravanas e iates; tem a ver, portanto, essencialmente com a disponibilização, muito natural, quer de “folgas” dimensionais e de capacidade de apropriação, quer de alternativas de usos e de multiplicidades adaptativas, que são todas elas condições que muito dependem de uma ampla qualidade do projecto geral e pormenorizado de Arquitectura.



Associações e hábitos interessantes sobre recantos domésticos

Os recantos vários, identificadores e apropriáveis/apropriadores, constituem, eles próprios, a principal razão de ser das associações entre diversas funções e entre diversas actividades da habitação.
São, também, os recantos e espaços do pormenor os elementos que caracterizam e dão coesão a uma habitação funcional e ambientalmente consistente.
E, de certa forma, ao proporcionarem a inovação na mistura funcional e de actividades e ao atribuírem afirmada caracterização geral e particularizada, os vários recantos e espaços do pormenor doméstico, acabam por se tornar na própria razão de ser de habitações bem adequadas a determinadas formas de habitar e a determinadas utilizações.
Poderá ficar, assim, naturalmente, um pouco de fora o perfil “médio” ou “tipificado” de uso e apropriação da habitação, mas podemos até continuar a disponibilizá-lo a quem não queira uma casa razoavelmente “à medida”, ou então e melhor, poderemos disponibilizar uma base habitacional adaptável e, simultaneamente, o apoio “especializado” do arquitecto no sentido de a afeiçoar, nos seus microespaços e nas suas sequências de uso aos modos e desejos habitacionais de um dado habitante e/ou família. 
Mas podemos/devemos procurar servir uma enorme diversidade de pequenos hábitos de uso da casa, e são muitos, pois cada família e cada habitante tem os seus, mas há perfis de “microactividades” que podem ser seguidos, como, por exemplo, o espaço para a acumulação de jornais, os sítios mais propícios para os vasos de plantas, os locais das chaves, etc. etc. De certo modo ensaiando-se uma muito ampla e não fechada rede de “microactividades” domésticas, globalmente suportadas pela capacidade de adaptação da solução e, naturalmente, pelos nossos próprios micro-hábitos de vivência doméstica.

Recantos domésticos: aspectos motivadores,  problemas correntes e questões levantadas (dimensionais e outras)

O que nos motiva num uso intenso e prolongado dos espaços e conteúdos domésticos é tudo aquilo que associa o desenvolvimento de hábitos próprios e de uso e aspectos de caracterização positiva dos sítios que habitamos, como se passa, por exemplo, com os espaços nos vãos de janela que é possível ocupar com algumas plantas e/ou elementos de decoração, proporcionando-se, assim, neste caso, para além da respectiva acção de apropriação e de identificação, a criação de uma estimulante sequência de planos de vista marcados pela proximidade e fundo de elementos naturais, ou pela “colagem” dos elementos de decoração a um fundo paisagístico distante – isto, naturalmente, quando as vistas exteriores são interessantes e são bem enquadradas pela própria pormenorização dos vãos exteriores (matéria esta que é de grande importância por si só e pela sua retroacção com esta temática da criação de microzonas domésticas).
Os principais e potenciais problemas, nesta renovada dinâmica de grande diversidade e adequação das micro-soluções domésticas, decorrem, naturalmente, de apropriações excessivas que coloquem em risco, quer a sanidade e a funcionalidade básicas do interior da habitação, quer a dignidade da imagem do respectivo edifício habitacional.
As questões que se levantam, nesta proposta de reflexão e concepção habitacional, referem-se, essencialmente, à muito frequente ausência deste tipo de microespaços em soluções habitacionais globalmente mal desenvolvidas, mal pormenorizadas e submetidas a uma perspectiva de unifuncionalidade global, marcada por uma hierarquia rígida e pouco ou nada adaptável, continuada por espaços/compartimentos, mal dimensionados e monofuncionais, como se em cada compartimento todos actuassem da mesma maneira e desempenhando, apenas, as actividades “primárias”; o que se poderia definir como uma verdadeira “máquina de habitar”, conceito este que parece ser, apenas, aceitável e mesmo assim altamente criticável, nas famosas “boxes” mínimas de alguns hotéis japoneses

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 633

Cantos e recantos domésticos: bases de mundos pessoais

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho

Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



quinta-feira, agosto 23, 2007

Notas sobre a integração urbana e paisagística – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 154

  - Infohabitar 154

A importância da integração urbana e paisagística: a propósito de alguns casos de promoção municipal destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007



Na sequência da edição, aqui no Infohabitar, da acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, em cerimónia que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, continua-se, hoje, nesta nossa revista, um percurso mais pormenorizado sobre o mesmo conjunto de soluções urbanas e residenciais.




Fig. 01: Vista do conjunto no Outeiro da Forca, Portalegre, 52 fogos promovidos pelo Município de Portalegre com o projecto do Atelier de Arquitectura Carlos Gonçalves.

Sublinham-se, desde já, três aspectos estruturantes nesta pequena sequência de artigos semanais a editar ao longo de Agosto de 2007:

.Trata-se de uma perspectiva de análise pessoal e “de trabalho”, desenvolvida pelo autor destas linhas no âmbito da sua participação no Júri do Prémio como representante do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; e portanto uma perspectiva que não se tem de articular, plenamente, com a análise do Júri.

. Na sequência do que acabou de ser referido, optou-se por não referir quaisquer aspectos associados ao respectivo destaque no Prémio; e sublinha-se que a designação (ficha técnica), limita-se a repetir, praticamente na íntegra, a já divulgada na referida Acta do Júri e no respectivo Catálogo do Prémio.

. E, finalmente, aproveitou-se esta oportunidade para falar, apenas um pouco, sobre temas que se julga estarem na ordem do dia em termos de procura de boas soluções de habitar a casa e a cidade; e é sob o título dessas temáticas que se agrupam os conjuntos apresentados nesta pequena sequência de artigos.


Fig. 02: Uma vista de um dos 12 fogos distribuídos por Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô promovidos pelo Município de Arcos de Valdevez, com projecto coordenado pelo arquitecto Carlos Machado.

Salientam-se, em seguida, os temas tratados nas passadas semanas e no presente artigo (tema sublinhado):

(i) Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social.

(ii) Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados.

(iii) A importância da integração urbana e paisagística.

E, finalmente, aponta-se o tema a editar na próxima semana:

(iv) Sobre a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana.



A importância da integração urbana e paisagística: a propósito de alguns casos de promoção municipal destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007

Nota: as soluções aqui apresentadas mereceram diversos destaques no PRÉMIO INH/IHRU 2007.


Fig. 03: Um aspecto representativo da dignidade urbana que marca o conjunto no Outeiro da Forca, promoção da C. M. de Portalegre.

Outeiro da Forca, Portalegre, 52 fogos


Conjunto no Outeiro da Forca, Portalegre, 52 fogos promovidos pelo Município de Portalegre e construídos pela empresa José Coutinho, S.A., com o projecto do Atelier de Arquitectura Carlos Gonçalves, Lda.


O conjunto promovido pela CM de Portalegre caracteriza-se por uma dupla qualidade geral:

. uma qualidade urbana, através da criação de uma verdadeira e já vitalizada vizinhança de proximidade pedonal;

. e uma qualidade edificada, mediante a criação de uma solução de edifício em que seja nos espaços comuns, seja nos espaços domésticos, temos a oportunidade de percorrer e viver sequências estimulantes em termos de formas, cor e luz natural.


Fig. 04: O alongado, atraente e vitalizado miolo pedonal de vizinhança do conjunto no Outeiro da Forca, Portalegre.


O alongado miolo pedonal de vizinhança, que serve um muito equilibrado número de cerca de 50 fogos, encontra-se bem vitalizado, seja pelas entradas dos edifícios, seja por equipamentos bem abertos para o contínuo pedonal e já em pleno funcionamento.


Fig. 05: As entradas dos edifícios podendo observar-se os espaços vazios que proporcionam excelentes condições de luz natural nos patins comuns e nas cozinhas.


No edifício há que salientar as soluções positivamente imaginativas que caracterizam os pequenos espaços comuns como expressivamente domésticos, plenos de alegria, de capacidade de apropriação e de envolventes matizes de cor e de luz natural.

Finalmente no interior doméstico destaques para os corredores muito mobiláveis e para as cozinhas plenas de luz natural – janelas em duas paredes exteriores – , que são verdadeiras pequenas salas de família.


Fig. 06: Os corredores muito mobiláveis.


Fig. 07: As cozinhas plenas de luz natural, que são verdadeiras pequenas salas de família.

O que se destaca talvez mais nesta solução é a rara e muito positiva sequência que se cria entre um exterior de quarteirão assumidamente público, um interior de quarteirão protegido e pedonalizado, marcado pela vizinhança de proximidade e bem vitalizado por equipamentos já activos, um interior de edifício cujos acessos têm estimulantes sequências espaciais, que se prolongam por variações de formas, de cor e de luz natural, que assumidamente dão presença forte e agradável a este pequeno mundo comum, e , finalmente, um espaço doméstico confortável e funcional.


Fig. 8: Um dos pequenos núcleos de um total de 12 fogos distribuídos por Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô, promovidos pelo Município de Arcos de Valdevez.

Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô, Arcos de Valdevez



12 fogos distribuídos por Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô promovidos pelo Município de Arcos de Valdevez, construídos pela empresa Sociedade de Construções do Bico, Lda, sendo o projecto e a coordenação do arquitecto Carlos Machado.

Nestes pequenos núcleos de realojamento em Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô, promovidos pelo município de Arcos de Valdevez, destaca-se a sensibilidade de se ter desenvolvido uma acção de integração paisagística, naturalmente, associada a uma forte adequação tipológica ao modo de vida, essencialmente rural, das famílias para as quais foram feitas as habitações.


Fig. 9: Micro-núcleos de realojamento em Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô, promovidos pelo município de Arcos de Valdevez, numa sensível aproximação ao habitar rural, que também serve, naturalmente, a integração paisagística.

A ideia aqui cumprida é que sempre que assim é desejado se deve proporcionar que as famílias carentes de habitação possam habitar, em condições adequadas, os locais onde antes viviam em más condições. Um objectivo que é também de primeira linha relativamente à fundamental integração social dessas famílias.

Um outro aspecto também associado a estas importantes matérias da adequação tipológica tem a ver com uma solução de casa que joga numa forte complementaridade e continuidade entre espaços domésticos exteriores, interiores e de transição, o que fica bem evidenciado na sequência entre cozinha, alpendre de cozinha, quintal privado e telheiro de serviço neste mesmo quintal.


Fig. 10: Uma solução de casa que joga numa forte complementaridade e continuidade entre espaços domésticos exteriores, interiores e de transição.

Ainda nestas matérias de adequação humana da solução doméstica há que sublinhar o desenvolvimento térreo do fogo, sem desníveis, facilitando a vida diária de pessoas idosas, e o excelente desenvolvimento da grande cozinha de convívio.


Fig. 11: As excelentes cozinhas conviviais de Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô; e na sua contiguidade há espaçosos alpendres multifuncionais.

Alguns breves comentários finais sobre o Prémio INH

Cinco aspectos merecem um destaque especial no remate da apresentação destes dois conjuntos municipais, destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007 e aqui abordados genericamente, embora numa perspectiva razoavelmente marcada pelo tema da integração urbana e paisagística:

(i) O primeiro aspecto põe em relevo a ligação que existe entre este assunto fortemente arquitectónico da integração urbana e paisagística e as matérias associadas ao desenvolvimento de vizinhanças de proximidade, e à excelente possibilidade de se fazerem casas realmente adequadas aos diversificados mundos familiares e pessoais dos muitos seus habitantes; matérias estas sumariamente apontadas na parte final do último artigo desta série.

(ii) O segundo aspecto refere-se à importância que tem o desenvolvimento de uma relação estreita/íntima, funcional e caracterizadamente coerente entre as soluções gerais de ocupação/integração topográfica, urbana e paisagística e as soluções gerais domésticas adoptadas; dá vontade de dizer que é desta apenas aparente “complexificação” que nascem, frequentemente, valores projectuais especiais e muito positivos.

(iii) O terceiro aspecto reduz-se a poucas palavras e tem a ver com a fundamental expressão da escala humana; pois é ela que acaba por ser, frequentemente, um importante agente de elementos de integração urbana e/ou paisagística. E é interessante apreciar-se os modos distintos mas igualmente efectivos com que se expressa a escala humana nos dois conjuntos que aqui foram apresentados.

(iv) O quarto aspecto reduz-se também a poucas palavras e refere-se ao continuar a privilegiar intervenções com pequenos números de fogos e naturalmente com números equilibrados de fogos e com misturas equilibradas e sustentáveis de fogos e de equipamentos vivos; a bem conhecida “pequena escala” geral.

(v) E, finalmente, o quinto aspecto, também muito ligado a todos os outros aqui apontados, e especialmente ao dessa “pequena escala”, que é o reafirmar da importância da dignidade residencial e urbana que tem de marcar as intervenções, uma dignidade crucial seja na desejada integração social, seja nos objectivos de integração urbana e paisagística aqui especificamente visados.

As fotografias são de António Baptista Coelho, excepto as imagens das habitações de Arcos de Valdevez, que são do Arq. José Clemente Ricon.

Casais de Baixo, Azambuja, 23 de Agosto de 2007
Editado por José Baptista Coelho, 23 de Agosto de 2007.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 153

  - Infohabitar 153


Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007


Na sequência da edição, aqui no Infohabitar, da acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, em cerimónia que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, continua-se, hoje, nesta nossa revista, um percurso mais pormenorizado sobre o mesmo conjunto de soluções urbanas e residenciais.



Fig. 01: Vista geral do conjunto de 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira, promovidos pela cooperativa Habipaços, com projecto coordenado pelo . arquitecto Paulo Bettencourt.
Sublinham-se, desde já, três aspectos estruturantes nesta pequena sequência de artigos semanais a editar ao longo de Agosto de 2007:
  • Trata-se de uma perspectiva de análise pessoal e “de trabalho”, desenvolvida pelo autor destas linhas no âmbito da sua participação no Júri do Prémio como representante do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; e portanto uma perspectiva que não se tem de articular, plenamente, com a análise do Júri.
  • Na sequência do que acabou de ser referido, optou-se por não referir quaisquer aspectos associados ao respectivo destaque no Prémio; e sublinha-se que a designação (ficha técnica), limita-se a repetir, praticamente na íntegra, a já divulgada na referida Acta do Júri e no respectivo Catálogo do Prémio.
  • E, finalmente, aproveitou-se esta oportunidade para falar, apenas um pouco, sobre temas que se julga estarem na ordem do dia em termos de procura de boas soluções de habitar a casa e a cidade; e é sob o título dessas temáticas que se agrupam os conjuntos apresentados nesta pequena sequência de artigos.
Fig. 02: Vista geral do conjunto de 21 fogos na Horta das Figueiras, Évora, promovidos pela cooperativa CHC, com projecto coordenado pelo arquitecto Nuno O Neill.

Salientam-se, em seguida, os temas tratados na passada semana e no presente artigo (tema sublinhado):

(i) Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social.

(ii) Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados.

E apontam-se os dois temas a editar nas duas próximas e semanas:

(iii); a importância da integração urbana e paisagística;

(iv) e, finalmente, a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana.

Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007

As soluções hoje apresentadas e que mereceram destaque no PRÉMIO INH/IHRU 2007, são



Habipaços, Freamunde, Paços de Ferreira, 32 fogos


Conjunto em Talhô, Paços de Ferreira, 32 fogos promovidos pela cooperativa Habipaços, C.R.L., com apoio da C. M. de Paços de Ferreira, construção da empresa Manuel Roriz de Oliveira, S.A., e projecto e coordenação do arquitecto Paulo Bettencourt.



Fig. 03: A vizinhança de proximidade do conjunto de 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira.
O conjunto da Cooperativa Habipaços caracteriza-se por dois aspectos fundamentais:
  • uma grande unidade entre edifícios e espaços exteriores polarizadores, seja dos acessos aos fogos, seja de remate e enquadramento na envolvente do local de intervenção;
  • e uma assinalável funcionalidade na organização pedonal e de veículos dos residentes, estruturando-se, assim, uma vizinhança de proximidade que é, aliás, também marcada por uma imagem de grande dignidade.
Fig. 04: A solução de iluminação natural dos átrios dos elevadores em Talhô, Paços de Ferreira.


Fig. 05: A solução de iluminação natural dos átrios dos elevadores em Talhô, Paços de Ferreira; as vistas a partir do átrio sobre a vizinhança.

Ao nível do interior do edificado salienta-se a rara e sempre muito positiva solução de iluminação natural dos átrios dos elevadores, bem como o cuidado que foi aplicado na iluminação natural dos diversos compartimentos dos fogos.

Há ainda dois aspectos processuais que importa sublinhar nesta intervenção de HCC e que são:
  • a colaboração activa entre município, projectista, cooperativa promotora e construtor;
  • e estarmos em presença de uma colaboração que resultou no desenvolvimento de uma intervenção que é claramente marcada pela racionalidade, sobriedade, dignidade e qualidade construtiva.
Fig. 06: A vizinhança de proximidade do conjunto de 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira; uma vista a partir do interior do edifício.


CHC, Horta das Figueiras, Évora, 21 fogos


Conjunto na Horta das Figueiras, Évora, 21 fogos promovidos pela cooperativa CHC, C.R.L. numa parceria com a C. M. de Évora, construção da empresa Algomape, Lda, e com o projecto coordenado pelo arquitecto Nuno O Neill.



Fig. 07: A vizinhança de proximidade do conjunto de 21 fogos na Horta das Figueiras, Évora.

Trata-se de um conjunto em que se assinala a excelente aliança entre uma activa presença urbana e uma interessante solução residencial funcionalmente diversificada.

Há duas faces neste conjunto:
  • uma mais urbana e que integra uma pequena galeria comercial;
  • e outra mais residencial e marcada por uma pequena praceta agradavelmente arborizada.
Fig. 08: A grande contenção dos espaços comuns do conjunto de 21 fogos na Horta das Figueiras, Évora; todo o espaço útil é maximizado no interior dos fogos.

As soluções dos fogos são marcadas por uma forte economia espacial nos espaços comuns, para depois se investir o mais possível nas habitações, aliás, marcadas, alternativamente:
  • seja por claro aspectos de racionalidade espacial e de distribuição de funções, com destaque para uma ampla cozinha com varanda de serviço;
  • seja pela cuidadosa inovação na definição de uma zona de varanda/pátio que polariza vãos da cozinha, da sala e da zona de quartos, criando-se um interessante e fresco espaço de transição entre o interior doméstico e a rua, bem aproveitável para diversos usos.

Alguns breves comentários finais sobre o Prémio INH


Três aspectos merecem um destaque especial no remate da apresentação destes dois conjuntos cooperativos, destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007:

(i) O primeiro aspecto é processual e refere-se às evidentes sinergias conseguidas pela associação entre cooperativas de habitação e municípios, através do aproveitamento da capacidade específica da promoção cooperativa, quer na dinamização global das promoções habitacionais de verdadeiro interesse social, quer, especificamente, no contacto com os habitantes e na crucial gestão de continuidade e de proximidade, Desta forma é possível a municípios pouco “equipados” em termos técnicos ou com reduzida prática na promoção habitacional, o desenvolvimento de uma parceria eficaz com cooperativas com provas dadas nesses domínios, assegurando-se, como se referiu, não apenas a concretização de um conjunto habitacional e urbano com qualidade arquitectónica, mas também a gestão continuada e sustentada do mesmo conjunto, e uma gestão que poderá associar soluções de arrendamento de interesse social.

(ii) O segundo aspecto tem a ver com a sempre renovada importância do desenvolvimento de vizinhanças de proximidade, uma intenção fundamental e desde sempre muito ligada aos objectivos habitacionais cooperativos de proporcionar para além de uma casa, uma potencialidade de convívio e de alguma solidariedade através da formalização de uma tal configuração de vizinhança. Realmente, também se habita a rua ou a praceta que é a nossa, e que de certa forma faz uma agradável transição entre o mundo doméstico, de cada um e de cada família, e o mundo mais urbano e animado que também desejamos; e é interessante evidenciar que é neste nível de vizinhança de proximidade que se devem desfazer e anular, totalmente, todos e quaisquer resquícios que ainda sobrevivam em termos de discriminação por imagens habitualmente mais ligadas a habitação considerada “de baixo custo” ou “social”. Não faz qualquer sentido para as pessoas que habitam em, e que são vizinhos de, conjuntos de habitação de interesse social terem a noção de que as suas habitações ou as habitações vizinhas têm um qualquer estatuto “menorizado” relativamente às habitações envolventes; o respectivo custo e as respectivas áreas poderão ser menores, mas a sua imagem tem de ter toda a dignidade que a cidade exige, e só assim se irá fazendo integração física e social.

(iii) Finalmente, o terceiro aspecto, que apenas aqui se aponta, muito na globalidade, tem a ver com a possibilidade e a necessidade de se fazerem casas realmente adequadas aos diversificados mundos familiares e pessoais dos muitos seus habitantes; uma intenção que, afirma-se, pouco tem a ver com mais área e acabamentos mais luxuosos, mas sim, que se liga com mais arquitectura, mas informada e mais sensível, uma arquitectura que trate os espaços do edifício com verdadeiro pormenor, concentrando, racionalizando e “poupando” onde seja possível assim fazer, mas que verdadeiramente crie pequenos mundos domésticos, adaptáveis e ricos. E é interessante poder visitar casas muito racionalizadas e espacialmente contidas (por exemplo em condições mínimas nas escadas comuns), mas onde junto ao elevador é possível olhar o pequeno jardim de vizinhança, onde na sala há lugar para um recanto de trabalho, onde na cozinha há sítio para uma pequena mesa, e onde foi possível criar uma pequena varanda multifuncional. Está realmente “na hora” de se re-equacionarem funcionalidades e caracterizações domésticas.


As imagens da Cooperativa Habipaços são do Arq. José Clemente Ricon.

Casais de Baixo, Azambuja, 16 de Agosto de 2007
Editado por José Baptista Coelho, 17 de Agosto de 2007.