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domingo, setembro 21, 2008

215 - Arquitectura Sustentável Futuro com[ ]passado - Infohabitar 215




Fig. 01: Cartaz do Congresso

Entre 29 de Setembro e 4 de Outubro de 2008, em Aveiro, no Workshop e no Congresso ligados ao tema "Arquitectura Sustentável Futuro com[ ]passado" serão discutidas as fundamentais e tão actuais relações entre a Arquitectura e as matérias da sustentabilidade.
Trata-se de um conjunto de iniciativas que se inicia com um Workshop, naturalmente, mais dedicado a pessoas muito ligadas às matérias da Arquitectura, que se desenvolverá entre 29 de Setembro e 3 de Outubro, culminando, depois, com o Congresso “Arquitectura Sustentável – Futuro com[ ]passado”, nos dias 3 e 4 de Outubro, onde se irão apresentar e discutir diversas facetas dessa relação entre Arquitectura e sustentabilidade, de uma forma que interessa, naturalmente, aos arquitectos, mas igualmente a um amplo leque de técnicos e de responsáveis pelo nosso habitat.

Trata-se de uma organização conjunta do NAAV - Núcleo de Arquitectos de Aveiro da Ordem dos Arquitectos e do GH - Grupo Habitar, Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, com o apoio institucional da Universidade de Aveiro, com o patrocínio da CIN, e outros importantes apoios que são devidamente divulgados.


 

Fig. 02: NAAV e GH

Procuraremos com este congresso alcançar o maior número possível de arquitectos, estudantes de arquitectura, engenheiros e outros técnicos. Uma das principais ideias deste congresso é discutir, de uma forma ampla, aprofundada e sob diversos pontos de vista temáticos, a relação que existe, ou que poderá/deverá existir, entre o fazer Arquitectura e a aplicação de princípios de sustentabilidade, uma relação que tem estado, frequentemente, um pouco afastada dos diversos fóruns que têm sido realizados sobre este último tema.

Esta temática ficará longe de se esgotar nos dos dias de trabalhos deste Congresso, mas assim se contribuirá para o que se julga ser uma muito necessária, porque pouco frequente, discussão conjunta das matérias da Arquitectura e da Sustentabilidade, numa perspectiva técnica e social adequadamente alargada, que se julga ser, portanto, muito útil a um amplo leque de técnicos e de responsáveis pelo habitar e pelo ordenamento do território, para além dos arquitectos.

Refere-se que este conjunto de eventos conta com a participação intensa e alargada de membros do Grupo Habitar (GH) e de técnicos, investigadores e projectistas membros ou amigos do GH.

E salienta-se o excelente formato desta organização, que decorre de uma acção conjunta do NAAV da AO e do GH (uma associação profissional e uma associação técnica e científica), mas logo com o vital apoio directo da Universidade de Aveiro e de uma empresa, a CIN; contando, ainda com um amplo conjunto de apoios de conteúdo e de divulgação, em que numa primeira linha se referem o CentroHabitat, o Diário de Aveiro e a TVI, que cooperam, activamente, no próprio desenrolar dos trabalhos.

Não se resiste ao sublinhar da grande diversidade e qualidade das intervenções, da responsabilidade de especialistas e técnicos mais da teoria, ou mais da prática, mais da construção ou mais das áreas da investigação e onde se procurou associar essas perspectivas a outras ligadas, por exemplo, às responsabilidades da comunicação social, e assim é possível encontrar referências como: FEUP, GH; FAUTL, UFP, UA, FAU-Brasília, UTAD, NAAV, LNEC, OASRN, IST, Aveiro Domus, DAU-ISCTE e FAUP; ao lado de participantes ligados à TVI e ao Expresso.

É, mais uma vez, a concretização de um dos objectivos fundamentais do Grupo Habitar: tratar questões fundamentais da sociedade – neste caso o fazer Arquitectura com preocupações e objectivos de sustentabilidade – numa perspectiva que tenta associar a necessária faceta técnica e profissional com os respectivos aspectos sociais e culturais e, neste caso, tendo em consideração as particularidades da formação e da prática arquitectónica.

a Direcção do Grupo Habitar
António Baptista Coelho
Defensor de Castro


Fig. 03: Folheto de divulgação do Congresso

Em seguida divulgam-se os programas do Workshop e do Congresso, bem como as actividades associadas e refere-se a todos aqueles que pretendam inscrever-se a opção simplificada de acederem ao blog do Congresso, o
http://futuro-com-passado.blogspot.com/


fazendo aí a respectiva inscrição,

ou, alternativamente a possibilidade de enviarem um mail para a organização do Congresso, futuro.com.passado@gmail.com
contendo os seguintes elementos devidamente preenchidos:
Nome:
Curso/profissão:
Entidade:
Telefone:
e-mail:
morada:
nº contribuinte:
designar o evento (Workshop e Congresso ou só Congresso) em que se pretende inscrever:

Congresso, custo de inscrição: 20€
Wrkshop (inclui acesso ao congresso), custo de inscrição: 50€

Anexar comprovativo de pagamento:
Transferência Bancaria: 0033 0000 45324160831 05

Ou referir pagamento da inscrição no dia do evento, inscrição que, neste caso, ficará, naturalmente, condicionada à capacidade da sala onde decorrerá o Congresso.

Requisitos para o workshop: Computador portátil
Prestamos também informações sobre alojamento.
Para mais informações contacte:
E-mail geral: futuro.com.passado@gmail.com

Contactos:
E-mail geral: futuro.com.passado@gmail.com
Arq.Bruno Marques (organização) Telm: 919495051
Inês de Carvalho (colaboradora NAAV) Telm: 933167746
Arq. António Baptista Coelho Telm: 914631004
CongressoArquitectura Sustentável Futuro com[ ]passado

Aveiro – 3 e 4 de Outubro de 2008
Auditório da Reitoria da Universidade de Aveiro

Organização conjunta do NAAV – Núcleo de Arquitectos de Aveiro da Ordem dos Arquitectos e do Grupo Habitar– Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional.

http://www.naav-arquitectura.blogspot.com/
http://infohabitar.blogspot.com/

Patrocinador: CIN
Parceira Institucional: Universidade de Aveiro

Parceiros: CentroHabitat

Apoio à divulgação: Diário de Aveiro; TVI


Actividades paralelas:
Pré-congresso:

Workshop sobre arquitectura sustentável
5 Grupos de trabalho, de segunda-feira (29/09/2008) a quinta-feira (02/10/2008), com apresentação de propostas no último dia do Congresso.


Tutores convidados:
Arq. José Gigante
Eng. Humberto Varum
Arq.ª Laura Costa
Arq. Miguel Veríssimo
Arq. Nadir Bonaccorso

Visita Guiada ao Campus Universitário de Aveiro
Palestra e visita guiada com o Arq. Gonçalo Byrne e o Arq. Nuno Portas
Segunda-feira dia 29/09; Palestra integrada no workshop a ter lugar no Auditório da Reitoria.

Integradas no congresso:

Festa de Arquitectura do NAAV: Sexta-feira dia 3 de Outubro, à noite, na Sede do NAAV: Festa de Arquitectura - After hours


Exposições:
- Exposição da casa do Futuro (Aveiro Domus), maquetas e painéis;

- Exposição das propostas do workshop;

- Exposição do Patrocinador - CIN.



CongressoArquitectura Sustentável Futuro com[ ]passado

Programa

1º Dia, Sexta, 3 de Outubro 2008
Intervenções e outras fases dos trabalhos: hora (duração)


Recepção e entrega de pastas: 9.00h (30min.)

Sessão de abertura do Congresso: 9.30h (15min.)

Mesa constituída por:
Prof.ª Maria helena Nazaré (Reitora da Universidade de Aveiro/UA) (a convidar)
Arq.ª Teresa Novais (Presidente da Ordem dos Arquitectos, Secção Regional Norte/OA-SRN)
Arq. A. Baptista Coelho (Presidente Grupo Habitar/GH)
Arq. Ricardo Vieira de Melo (Presidente do Núcleo de Arquitectos de Aveiro/NAAV)
Arq. Bruno Marques (NAAV e Direcção do GH)


Sessão A
Moderação – Arq. F. Brandão Alves (FEUP)

Arq. Mário Varela Gomes (FCSH- UTL): 9.45h (45min.)
Habitar no Gharb (séculos XII-XIII). Antecedentes e consequentes

Arq. António Baptista Coelho (GH e LNEC): 10.30h (30min).
Os outros aspectos da sustentabilidade: da satisfação residencial à qualidade arquitectónica

Café: 11.00h (30min.)

Arq. Luís Pinto de Faria (U.F.P): 11.30h (30min.)
Eco Arquitectura

Arq.ª Maria Fernandes: 12.00h (30min.)
Arquitectura em terra.

Debate: 12.30h (20min.)

Almoço: 13.00h (90min.)


Sessão BModeração – Dr. Júlio Magalhães (TVI)

Eng. Humberto Varum (U.A.): 14.30h (20min.)
Caracterização das construções existentes en adobe na região de Aveiro.

Arq. Márcio Buson (F.A.U. Univ. Brasilia): 14.50h (20 min.)
Blocos de Terra Compactada produzidos com o KRAFTTERRA (solo + sacos de cimento reciclados).

Arq.ª Laura Costa (U.T.A.D.): 15.10h (30min.)
Contributos para um urbanismo mais sustentável – coberturas ajardinadas.

Café: 15.40h (20min.)

Arq. Bruno Marques (NAAV e GH): 16.00h (30min.)
O contributo do desenho urbano para uma arquitectura bioclimática

Arq.ª Isabel Plácido e Arq.ª Sara Eloy (L.N.E.C.) : 16.30h (30min.)
A contribuição das novas tecnologias (TIC) na sustentabilidade da habitação.

Debate: 17.00h (20min.)


Congresso
Arquitectura Sustentável Futuro com[ ]passado

Programa

2º Dia, Sábado, 4 de Outubro 2008

Intervenções e outras fases dos trabalhos: hora (duração)


Sessão CModeração – Arq. Miguel Nery (O.A.S.R.N.)

Eng. Manuel Duarte Pinheiro (I.S.T.): 9.30h (30min.)
Certificação ambiental da construção sustentável – Sistema Líder A.

Arq. Nadir Bonaccorso: 10.00h (30min.)
Projectar com princípios sustentáveis.

Café: 10.30h (30min.)

Arq. Carlos Coelho: 11.00h (30min.)
O primeiro empreendimento cooperativo de construção sustentável em Portugal – na Ponte da Pedra.

Eng. Jorge Alves (AveiroDomus): 11.30h (30min.)
InovaDomus-Futuro do Habitat– Aveiro.

Debate: 12.00h (20 min.)

Apresentação das propostas do workshop: 12.20h (40min.)

Almoço: 13.00h (90min.)

Sessão DModeração – Dr. Valdemar Cruz (Expresso)

Apresentação das propostas do workshop: 14.30h (30min.)

Arq.ª Paula Cadima (FAUTL): 15.00h (30min.)

Arq. Fausto Simões: 15.30h (60min.)
Princípios e práticas de projecto para uma arquitectura sustentável

Café: 16.30h (30min.)

Arq. José Luís Saldanha (DAU/ISCTE): 17.00h (30min.)
Relações entre espaço urbano e espaço rural baseado numa visão alargada do conceito de território.

Arq. Manuel Correia Fernandes (FAUP): 17.30h (30min.)
Perspectiva crítica/positiva da sustentabilidade e do projecto de Arquitectura.

Debate: 18.00h (20min.)

Sessão de encerramento do Congresso: 18.20h (10min.)

Editado por José Baptista Coelho em 21 Setembro 2008

domingo, março 02, 2008

185 - O LIXO É TAMBÉM RESPONSABILIDADE NOSSA – um artigo da Arq.ª Marilice Costi - Infohabitar 185

 - Infohabitar 185
É com uma alegria muito especial que o Infohabitar volta a publicar um artigo de uma das suas redactoras de primeira hora, a Arq.ª Marilice Costi. MS, de Porto Alegre.

A Direcção redactorial do Infohabitar
ABC



O LIXO É TAMBÉM RESPONSABILIDADE NOSSA


Marilice Costi



Assuntos que se repetem deixam de nos interessar. Assim como as barbáries, as guerras, as migrações na procura de territórios necessários para que nos sintamos inteiros, pertencentes, existentes, enraizados, e não ao sabor dos tufões. A repetição cansa e dessensibiliza. Com o lixo é a mesma coisa. Somos todos responsáveis por dejetos, matérias contaminantes (pilhas, baterias, sangue, registros de Rx), entulhos de obras e outros tantos. E tudo precisa de embalagem.

Os apelos ao consumo são tão intensos que, mesmo tendo a capacidade de compreender, criticar e mudar comportamentos, criamos lixo. Todos os dias. O melhor seria valer a frase: tudo se transforma. Mas transforma-se em que?



Fig. 01


Procure imaginar o peso: uma sacola não move o ponteiro de uma balança comum. Uma tonelada de sacolas é uma imensa montanha. Imagine a quantidade de plástico produzido (210 mil toneladas no Brasil): cerca de 10% do lixo do país! Inicialmente utilizadas apenas para coleta de lixo, as sacolas passaram a substituir as de tecido e de papel. Tudo passou a receber proteção impermeável: equipamentos, malas, roupas, alimentos, remédios e tantos materiais. Por ser um plástico muito barato, o filme das sacolas não tem muito valor na reciclagem, por isto, os lixões urbanos estão cheios delas a contaminar o solo. Produzido a partir de uma resina chamada polietileno de baixa densidade (PEBD), o material -do qual são feitas as sacolas – precisa de um século para degradar. O que faremos quando o solo todo degradar? Quando no meio do lixo, baratas, ratos e outros vetores proliferarem resistentes a tudo?

Para pensarmos e nos posicionarmos, o que falta? Até que ponto somos omissos, até que ponto induzidos? O que estamos esperando para recusar embalagens? Não precisamos de tantas. É só devolvermos aos empacotadores. Uma cadeia de comportamento positivo – tal como um vírus da consciência ambiental - depende de cada um de nós.

A peste, após a tomada da Bastilha, ocorreu porque ninguém mais cuidava das cidades: esgotos, lixos acumulados, vetores proliferando. muito grave e que só aparece quando há greve dos lixeiros, ou contaminação como foi com o césio. Ou epidemias. A legislação brasileira referente a lixos é bem redigida: controle, estoque, manipulação e destino de diversos tipos de lixo, cuidados importantes. Mas quem fiscaliza? O poder público precisa da parceria do privado, que precisa abrir mão de postura oportunista.

Mexer com lixo rende muito dinheiro. Mas não parece. São os desafios para o século XXI: buscar rotas novas para o problema, o diálogo com a sociedade, a conscientização, o investimento em pesquisa e em ações efetivas.



Fig. 02


Além disto, os aterros e os lixões estão no total limite. As áreas ficam degradadas, gases intoxicam os catadores, enfim, um enorme problema ambiental. Na capital paulista são 18 mil toneladas só de lixo domiciliar: 18% é só plástico. Toneladas que durarão cem anos para degradar. A cada dia, em escala crescente, tornando-se um problema insolúvel.

Minha mãe fazia bolsas de tecido com retalhos de suas costuras e presentava. As sacolas não estragaram, nem envelheceram, porque foram substituídas pelas de plástico que somem de nossas vistas carregando nossos detritos. Viramos todos plasticólatras? Ou estamos atrasados? A troca de sacolas de plástico por outras de pano vem sendo estimulada por prefeituras do RS. Há outras possibilidades como reciclar ou facilitar a degradação do plástico através de aditivos agregados a ele ou através da mudança de sua composição.

Na Alemanha, a plasticomania deu lugar à sacolamania (cada um com sua própria sacola). Quem não anda com a sua a tiracolo é obrigado a pagar uma taxa extra pelo uso de sacos plásticos. A guerra contra os sacos plásticos ganhou força em 1991, quando foi aprovada uma lei que obriga os produtores e distribuidores de embalagens a aceitarem de volta e a reciclar seus produtos após o uso. Os empresários repassaram os custos para o consumidor. O preço é salgado: o equivalente a sessenta centavos a unidade. Na Irlanda, desde 1997, paga-se um imposto de nove centavos de libra irlandesa por cada saco plástico, multiplicando o número de irlandeses indo às compras com suas sacolas de pano, de palha ou mochilas. A meta de uma rede de supermercados inglesa era emplacar em 2008 com pelo menos 2/3 de todos os saquinhos feitos de material que se decompõe dezoito meses após descarte. Com um detalhe: mesmo sem contato com a água, o plástico se dissolve, porque serve de alimento para microorganismos encontrados na natureza.


Fig. 03


Mas não temos só o plástico como um problema grave. O Rio Grande do Sul é responsável por 5 milhões de lâmpadas fluorescentes usadas, o que contamina milhões de metros cúbicos de água potável. O alerta foi dado por IPOA Ambiental numa audiência pública. O mercúrio contido nos bulbos é altamente contaminante. Mas como proceder com as lâmpadas usadas? Quem sabe como fazer? Para onde encaminhá-las?

A única iniciativa de regulamentar o que hoje acontece de forma aleatória e caótica foi rechaçada pelo Congresso na legislatura passada. O então deputado Emerson Kapaz foi o relator da comissão criada para elaborar a "Política Nacional de Resíduos Sólidos". Seu projeto apresentava propostas para a destinação inteligente dos resíduos, a redução do volume de lixo no Brasil, e definia regras claras para que produtores e comerciantes assumissem novas responsabilidades em relação aos resíduos que descartam na natureza, assumindo o ônus pela coleta e processamento de materiais que degradam o meio ambiente e a qualidade de vida. O projeto elaborado pela comissão não chegou a ser votado. Nem se sabe quando será. Por isto, nas próximas eleições, escolha bem seu candidato, verifique o seu comprometimento com a qualidade de vida, sua postura e ética, sua visão ambiental e sua atuação efetiva.

Quem sabe passamos a fazer a nossa parte? Avalie o lixo que você produz, converse com seus vizinhos, participe das reuniões de condomínio, conheça os coletores. Mesmo que na sua cidade o lixo não seja separado - orgânico e seco - separe. Os catadaores reconhece a diferença pelo peso das sacolas e demoram menos tempo em contato com os lixões.
Que tal declarar guerra contra a plasticomania? Devolver os sacos desnecessários? Se existem leis, regulamentos, normas para a gestão dos resíduos sólidos. Que sejam implementadas. Que haja fiscalização. Se há muitos interesses em jogo, qual é o nosso?

Qual é o seu? Faça a sua parte, crie parcerias. Convoque os amigos, a família, procure alternativas. Se ainda há tempo para reverter o quadro, o que fazer? Não perca tempo esperando apenas que o poder público faça sua parte, pois o que fazemos hoje será o legado de nossos filhos e netos.



Fig. 04


Breve apresentação da autora:

MARILICE COSTI é Mestre em Arquitetura, arquiteta e urbanista, professora, consultora e pesquisadora. Especialista em Arteterapia.
Ministra oficinas, cursos e palestras. Tem vários livros publicados, artigos em congressos e em revistas, crônicas e poesias e diversos prêmios em literatura, entre eles o Açorianos 2006, de poesia.
Entre os livros publicados um destaque para: “A influência da luz e da cor em corredores e salas de espera hospitalares”(esgotado); “Como controlar os lobos? proteção para nossos filhos com problemas mentais”; “Clichês domésticos”; “Mulher ponto inicial” (esgotado) e “Ressurgimento” (poesia 2006).
É membro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo, da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, da Associação Sul-brasileira de Arteterapia.
No site:

www.sanaarquitetura.arq.br .
e-mail:
marilice.costi@sanaarquitetura.arq.br


Nota: a ilustração foi da responsabilidade da edição do infohabitar.
Editado em 1 de Março de 2008, Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, por José Baptista Coelho

domingo, fevereiro 17, 2008

183 - Cidades vivas, cultas e criativas I - Artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 183


Fig. 01

 - Infohabitar 183

Cidades vivas, cultas e criativas I

Artigo de António Baptista Coelho

Relações entre revitalização urbana, cultura e criatividade


A ideia que aqui se coloca é que há, hoje em dia, um conjunto de aspectos de intervenção urbana e activa que associam, em si mesmos, capacidades de se avançar na resolução de alguns problemas das nossas cidades e paisagens. E a ideia é que a revitalização urbana, a dinamização da cultura e da arte, e a criação de uma cidade mais cívica, humana e ambientalmente sustentável, são aspectos que mutuamente se conjugam e se influenciam, podendo ser usados em acções de melhoria da qualidade de vida urbana e peri-urbana, hoje em dia, cruciais e urgentes.

Desde já aponto que quando iniciei este artigo não conhecia ainda o teor da “Carta de Leipzig sobre as Cidades Europeias Sustentáveis” (1), sublinhando, desde já, que este conhecimento proporcionou uma maior articulação e, mesmo, fundamentação institucional das matérias aqui apontadas; e o próprio teor da Carta de Leipzig resultou na vontade de a vir a comentar, especificamente, em próximo artigo desta série.

Voltemos, então, às ideias-base que estiveram na origem deste pequeno texto e começando pelo enquadramento e utilizando alguns artigos recentemente editados no jornal Público, poderemos ter em conta alguns aspectos que caracterizam muitas cidades europeias actuais:


Fig. 02


I A criatividade cultural como factor de revitalização urbana


Um desses aspectos é sintetizado no artigo de Catarina Selada e Inês Vilhena da Cunha, intitulado “A criatividade é um «produto» urbano?” (2), e onde numa “caixa” se destaca, entre outros aspectos, que “a fixação de criativos pode ser um factor de desenvolvimento das áreas rurais, zonas de baixa densidade ou pequenos centros urbanos.”

Apetece dizer que o desenvolvimento da criatividade urbana é, por si só, matéria de dinamização e enriquecimento da cidade, e de qualquer “cidade”, desde o pequeno aglomerado urbano onde se localize, por exemplo, um pólo artístico, como é o caso do Centro Cultural S. Lourenço, em Almansil, numa zona semi-rural, perto de Faro, a um caso urbano, e cosmopolita com presença notável numa grande cidade como acontece, por exemplo, com o entusiástico movimento de inovação do tecido comercial, designadamente, através de ateliers, galerias de arte e lojas inovadoras, que está a marcar e a crescer, fortemente, na “cruz” formada pela Rua do Rosário e pela Rua Miguel Bombarda, no Porto (as imagens que ilustram este artigo são destas ruas); e pelo meio temos as igualmente excelentes iniciativas de dinamização cultural que têm marcado pequenos e caracterizados pólos urbanos, entre as quais se destacam, por exemplo, os eventos que regularmente acontecem na medieval vila de Óbidos.


Fig. 03
Há, portanto, um potencial de novidade cultural que se pode tornar, com alguma naturalidade, um potencial económico local com sentido crescente, e vitalizador de um ritmo urbano semanal mais nos dias “úteis”, mais nos finais de semana, ou em certas datas específicas, ou, melhor ainda, variando em conteúdos conforme o desenvolvimento do calendário, bem na tradição de uma cidade viva e caracterizada, acrescentando-lhe uma excelente e sensível dimensão de vida cultural e ambiências e memórias únicas e verdadeiramente de referência; sítios, cenários e actividades onde apetece voltar, uma e outra vez, e isto ajuda muito a fazer cidade viva, variada e estimulante.

Este potencial está aí, para ser usado, em muitos sítios, que há que escolher judiciosamente, mas tem de ser usado: não numa perspectiva amorfa, porque repetida, e até por vezes desagradavelmente uniformizadora e mesmo sem gosto, por exemplo, devido a uma incoerente e maçadora repetição de ofertas de actividades e eventos culturais e conviviais; mas sim e sempre numa opção que em cada sítio deve marcar pela sua originalidade e eventualmente por algumas raízes locais, ou, desejavelmente, por uma afirmada identidade local, que se ligue e tire partido da respectiva paisagem urbana e natural e do respectivo meio socio-ecomómico e cultural e que, mais ainda, tenda a caracterizar-se por uma identidade sociocultural e ambiental específica, associada a um adequado potencial de atractividade e de integração de um equilibrado leque de gostos e actividades.

Ainda relativamente ao potencial de um tal desígnio importa aqui citar, de forma sintética, os aspectos apontados no artigo referido como “pontos fortes” das indústrias criativas em áreas rurais, mas que, aqui, queremos generalizar a qualquer outro espaço territorial urbano ou semi-urbano onde se detectem carências de vitalização e que possua algumas condições básicas estratégicas que possam apoiar o desenvolvimento de um núcleo de indústrias criativas.

Fig. 04


E é do referido artigo de Catarina Selada e Inês Vilhena da Cunha que se citam, como pontos fortes de uma tal incitava os seguintes aspectos: criação de empregos qualificados (e outros complementares); desenvolvimento de novas empresas; activação da ligação aos centros urbanos; promoção de outros sectores com destaque para a o turismo, a hotelaria e a restauração (criando-se interessantes novelos ambientais e funcionais caracterizadores do respectivo espaço urbano e paisagístico); revitalização local com reduzidos impactos ambientais; enriquecimento do tecido social e cultural local por criação de “novas amenidades culturais” e pela (re)activação das “redes sociais e culturais” – sublinha-se que a citação do referido artigo é muito livre e informal e que, aqui, se opta pela possibilidade de aplicação deste tipo de iniciativas não exclusivamente em áreas rurais, tal com atrás se disse.

Ainda numa leitura generalizadora do que Catarina Selada e Inês Vilhena da Cunha referem serem os efeitos das indústrias culturais no meio rural, e, portanto, pensando na influência dessas indústrias em meios urbanos e semi-urbanos, importa citar: a indução de efeitos multiplicadores para o desenvolvimento das economias locais; e o excelente papel “«da criatividade» nas medidas de combate à desertificação e ao despovoamento dos territórios”, que as autoras localizam em meio rural e que aqui se toma a liberdade de aplicar de forma genérica e designadamente a meios urbanos e semi-urbanos desvitalizados e/ou descaracterizados – e esta matéria da influência da “criatividade” na recaracterização de determinadas zonas de cidade e de determinadas paisagens é algo que merece desenvolvimento específico, que se pretende fazer em futuro artigo desta série.

Finalmente, e ainda aproveitando algumas ideias do citado artigo, é claro que determinadas condições preexistentes, designadamente, ao nível da acessibilidade pedonal estratégica e da história local e respectivo potencial de identificação/identidade e de valia patrimonial de espectro razoavelmente amplo, serão, sem dúvida, trunfos importantes no êxito de cada “jogo”, em cada sítio.


Fig. 05


II A cultura como elemento de dinamização da sustentabilidade urbana

Um dia antes do artigo que se acabou de referir e comentar, no mesmo “Público”, um excelente artigo de Abel Coentrão, intitulado “Quando a economia falha, sobra a cultura” (3), abordou uma recente intervenção no Porto de Tom Fleming, onde se apresentaram variadas linhas de saída da crise urbana e social que se vive em muitos pólos urbanos europeus, através do desenvolvimento criativo e mesmo premeditadamente pouco regulado – portanto vivo e expontâneo – de uma grande variedade de pequenas indústrias criativas em meio urbano, mais ou menos denso.

E entende-se aqui a relação directa entre os temas tratados nos dois artigos, e, de certa forma, o reafirmar da ideia que a cultura é um meio excelente e prático de desenvolver a regeneração funcional e social de meios urbanos social e fisicamente deprimidos; e a este importante novelo temático também voltaremos em próximos artigos desta série.

Antes de fazer alguns comentários finais gostaria ainda de realizar uma conexão destas matérias da redinamização cultural como meio de revitalização dos espaços vividos e marcados pelo homem (espaços urbanos e semi-urbanos ou semi-rurais) com as candentes temáticas da sustentabilidade citadina.

Esta relação será objecto de futuro desenvolvimento, no entanto, é muito interessante e há que destacar, desde já, o potencial de ligação entre as matérias da redinamização do tecido urbano e semi-urbano por pequenas indústrias culturais e a implementação de objectivos de sustentabilidade ambiental, social, convivial e mesmo cultural, num novelo de ideias marcadas, entre outros aspectos de qualidade urbana, por: dominância do tráfego pedonal; vitalização e segurança públicas; integração de actividades diversificadas e não-poluentes; desenvolvimento verde urbano; diversidade e interesse arquitectónico; integração de vários grupos socio-culturais; convivência de vários modos de viver a casa e a cidade; e acentuação das formas suaves e eficazes de transportes públicos.

Há que interiorizar que uma coisa é a (re)dinamização cultural de zonas estratégicas das cidades e dos territórios semi-urbanos e outra coisa é a implementação de medidas amplas de sustentabilidade, mas, no entanto, a sustentabilidade cultural é também matéria fundamental e a (re)dinamização cultural é basicamente amiga de espaços pedonalizados, vitalizados por habitação, acessíveis e ambientalmente agradáveis. Portanto há que estabelecer pontes fortes e eficazes entre estes dois tipos de desígnios.

De facto, poder viver num ritmo mais humano, em ambientes mais saudáveis e conviviais, e marcados por perspectivas de sustentabilidade ambiental, tal como é descrito num artigo assinado por Inês Vilhena da Cunha e Kathrin Calhau, intitulado “Vauban e Ballard são realidades de comunidades sustentáveis” (4), ajuda, sem dúvida, a uma predisposição para a cultura e para a arte, e provavelmente o contrário também é verdadeiro e um ambiente marcado pela arte e pelas indústrias culturais será um meio sensibilizador para a adopção de formas de vida e de ambientes globalmente mais sustentáveis.

Fig. 06


III Outros aspectos da aliança entre cultura e regeneração/sustentabilidade urbana

Para desenvolvimento noutras oportunidades apontam-se, ainda, outros dois aspectos importantes: o primeiro é que em tudo isto e designadamente quando se trata de uma inserção de elementos e eventos ligados à arte e ao artesanato, numa perspectiva mais urbana ou mais integrada nos mundos domésticos, é fundamental tudo fazer para se visar e se obter a máxima qualidade global e específica dos conteúdos culturais e artísticos oferecidos, pois não tenhamos qualquer dúvida que uma qualidade “ímpar” e a disponibilização de eventos e conteúdos “únicos” – portanto adequados e criativos e, portanto, não necessariamente dispendiosos e difíceis de assegurar – são condições que caracterizam o único caminho potencialmente marcado pelo sucesso nestas áreas; o segundo aspecto, que se liga, estreitamente com esta matéria é que a opção pela cultura é também, hoje em dia, na nossa Europa, um investimento que já está a resultar e que cada vez mais dará resultados económicos, e sobre esta matéria lembra-se o sub-título do citado artigo sobre Tom Fleming e as suas pequenas indústrias culturais e criativas, que aponta: “Quando a economia falha, sobra a cultura”.

E não é possível deixar aqui de lembrar, bem a propósito, que na União Europeia a cultura contribui mais para a economia do que os automóveis e que, mesmo em Portugal, a cultura é já o terceiro contribuinte para o nosso PIB, tal como é apontado no belíssimo artigo de Joana Gorjão Henriques significativamente intitulado: “É a cultura, estúpido!”
E, claramente, há aqui todo um potencial de crescimento relativo ao multifacetado aproveitamento da cultura europeia em termos de fonte de recursos económicos, que só depende da referida e exigente opção pela qualidade e de uma aliança entre tal opção e uma perspectiva de gradual mas efectiva melhoria da qualidade de vida nas cidades e nas zonas periféricas; pois não fariam qualquer sentido, nem teriam quaisquer resultados sustentados, quer uma qualidade fingida, quer uma qualidade direccionada para os turistas e que esquecesse os habitantes.

Na sequência desta última preocupação termina-se com a indicação da uma abertura, essencial, a uma preocupação de abordagem desta matérias sempre com os habitantes numa perspectiva de grande eficácia participativa, e aqui há que lembrar o enorme potencial oferecido pela cooperação e pelas cooperativas, e, finalmente, conclui-se este texto com uma citação, “de síntese”, retirada da referida “Carta de Leipzig sobre as Cidades Europeias Sustentáveis”, e onde se diz:

“Entendemos que as nossas cidades têm qualidades culturais e arquitectónicas únicas, uma forte capacidade de inclusão social e excelentes oportunidades de desenvolvimento económico. São centros de conhecimento e fontes de crescimento e inovação. Mas, ao mesmo tempo, debatem-se com problemas demográficos, desigualdade social, exclusão social de grupos populacionais específicos, falta de alojamento adequado a preços acessíveis e problemas ambientais. A longo prazo, as cidades não poderão desempenhar a sua função de motor de progresso social e crescimento económico descrita na Estratégia de Lisboa se não conseguirmos manter o equilíbrio social no interior de cada uma e entre elas, preservando a diversidade cultural e fixando elevados padrões de qualidade para o planeamento urbanístico, a arquitectura e o ambiente.”



Notas:
(1) “Carta de Leipzig sobre as Cidades Europeias Sustentáveis – adoptada na reunião informal dos Ministros responsáveis pelo Desenvolvimento Urbano e Coesão Territorial, em 24 e 25 de Maio de 2007, em Leipzig (CdR 163/2007 EN-EP/hlm, 9 págs.).

(2) Catarina Selada e Inês Vilhena da Cunha (colaboração Inteli, Inteligência em Inovação), “A criatividade é um «produto» urbano?”, Público, 4 de Fevereiro 2008.

(3) Abel Coentrão, “Tom Fleming - Quando a economia falha, sobra a cultura”, Público, 3 de Fevereiro 2008.

(4) Inês Vilhena da Cunha e Kathrin Calhau (colaboração Inteli, Inteligência em Inovação) – “Vauban e Ballard são realidades de comunidades sustentáveis”, Público, 11 de Fevereiro 2008.

(5) Joana Gorjão Henriques - “É a cultura, estúpido!”, Público, 16 de Novembro 2006.
Artigo concluído e editado em 17 de Fevereiro de 2008, Encarnação – Olivais Norte, Lisbo