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segunda-feira, fevereiro 08, 2016

568 - Renovada abordagem das casas de banho domésticas - II, Infohabitar 568

Infohabitar, Ano XII, n.º 568

Verdadeiras casas de banho e não simples e frias “instalações sanitárias” - II

Artigo LXXXVI da Série habitar e viver melhor
António Baptista Coelho

Aspectos motivadores em casas de banho


No estudo do LNEC que editei em 1998 e que, nesta série editiria, se tem referido, frequentemente (“Do bairro e da vizinhança à habitação”), salientavam-se as seguintes características como as mais desejáveis nas casas de banho (fez-se, apenas, um reordenamento dos aspectos apontados e juntaram-se alguns comentários):

·         Facilitarem o uso seguro das peças sanitárias (banheiras, duches, sanitas, lavatórios e bidés) pelos habitantes e, nomeadamente, por pessoas com dificuldades na movimentação (crianças, idosos e doentes). Uma exigência que tem actualmente suporte regulamentar, mas onde se julga haver ainda um caminho a fazer em termos da melhor ergonomia no uso dessas peças, considerando-se, especificamente, aspectos de uma aprofundada segurança no respectivo uso, pois as casas de banho continuam a ser locais onde frequentemente ocorrem acidentes domésticos (por exemplo, escorregamentos, colisões com peças sanitárias cerâmicas e envenenamento por acesso não controlado a drogas e mdeicamentos).
·         Permitirem grande facilidade de limpeza geral e particularizadamente dos equipamentos sanitários e dos espaços entre eles, e entre eles e as paredes, caracterizando-se por terem revestimentos e pinturas duráveis, impermeáveis, à prova de humidade e "anti-fungos". Uma matéria em que também se julga haver um caminho a seguir em termos da ergonomia dessa mesma acção de limpeza e das influências que tem na própria escolha das peças sanitárias (por exemplo previsão destas peças em consola, quando as casas de banho sejam estreitas).
·         Terem excelentes condições de luz e de ventilação naturais (janelas de abrir) ou "forçada" (grelhas de entrada e saída de ar). E nesta matéria há que sublinhar que, sem dúvida, são preferenciais as condições de iluminação e ventilação naturais, aliás com importância claramente acentuada numa altura em que se procura uma maior sustentabilidade ambiental habitacional (e aqui há que sublinhar que, por vezes, se faz o mais complicado nestas matérias da sustentabilidade ambiental e se esquece o mais simples e igualmente importante como é o caso. E, ainda nesta matéria, há que salientar que, muitas vezes, a famosa ventilação forçada é claramente deficiente ou corresponde a sistemas cuja eficácia de ventilação é claramente duvidosa ou que obrigam, mesmo, a soluções mecânicas que gastam energia para a resolução de uma situação que pode e deve ter uma resolução “natural”.
·         Serem em número adequado ao número de habitantes da casa, considerando-se, como base de provisão, que para mais de quatro(4) pessoas devem existir, para além de uma casa de banho completa (sanita, bidé, lavatório e banheira), mais uma casa de banho, que pode ter apenas um duche, uma sanita e um lavatório (isto será muito importante quando todas as pessoas da casa tiverem de acordar e fazer a sua higiene pessoal, de manhã, praticamente, às mesmas horas). E esta é uma matéria cuja importância é evidente, mas que deve ter em conta: por um lado o risco de se exagerar no número de casas de banho, devido ao peso financeiro que uma tal situação tem quando se pensa nas correntes casas de banho “revestidas a cerâmica” e distribuídas por toda a casa (em vez de soluções com acabamentos racionalizados e concentradas nos chamados “blocos-água”), e entende-se a diferença que estas situações implicam em termos das redes de águas e de esgotos em cada piso e em diversas prumadas; e, por outro lado, deve apostar em soluções de desmultiplicação dos espaços funcionais das casas de banho, proporcionando, por exemplo, o seu uso simultâneo (exemplo, zona de banho e zona “sanitária” autonomizadas).
·         Poderem receber algumas peças de mobiliário (armários e "cestos" para roupa e atoalhados) e facilitarem a instalação dos diversos acessórios de casa de banho (cortinas de duche e toalheiros); uma matéria cuja importância foi já, aqui, devidamente sublinhada.



Fig. 04: uma casa de banho que alia funcionalidade e simplicidade de equipamento e de arranjo (formal, cromático, textural) a excelentes condições de conforto ambiental, designadamente, com luz e ventilação naturais, e a um certo sentido de agradabilidade doméstica (grande espelho, zonas de cor e de texturas adequadamente diversificadas, um interessante "móvel" com lavatório e algum espaço livre, para uma cadeira; Interior de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H33, Arq.º Greger Dahlström.

Problemas correntes em casas de banho

Os problemas mais correntes em casas de banho domésticas, estão ligados, numa primeira linha ao mau funcionamento das respectivas instalações, à falta de privacidade no uso destes espaços e designadamente no acesso a estes espaços e a eventuais influências negativas do uso destes espaços nos espaços domésticos contíguos – más influências estas que têm a ver com a falta de isolamento em termos de cheiros e de ruídos.


Numa segunda linha, de maior pormenor, os problemas mais correntes em casas de banho domésticas, estão ligados ao não cumprimento ou à deficiente satisfação das condições acima referidas como aspectos motivadores no uso destes espaços e designadamente: a dificuldade no uso das peças sanitárias – situação esta que incrivelmente nem é pouco corrente; a falta de espaciosidade crítica no uso das mesmas peças e a ocorrência de associações funcionais negativas e que possam concorrer para acidentes domésticos; a dificuldade de limpeza dos espaços e das peças sanitárias; a ausência de agradáveis condições de luz e de ventilação naturais, ou mesmo a ocorrência de más condições de ventilação forçada (por exemplo, através de condutas); as casas de banho e as respectivas peças sanitárias serem em número insuficiente e/ou estarem mal distribuídas na habitação; e não haver desafogo mínimo para se poderem arrumar algumas peças de mobiliário.

E é interessante sublinhar que o primeiro conjunto de problemas está associado a um projecto e construção deficientes e que este segundo conjunto de problemas é, simplesmente, resolvido com casas de banho razoavelmente espaçosas e com janelas exteriores.

Questões dimensionais (e outras) em casas de banho

Há matérias fundamentais em termos de agradabilidade no uso de uma habitação e nestas sublinha-se a importância de as casas de banho servirem, no mesmo nível, cada um dos pisos de uma dada habitação, desenvolvida por exemplo em dois pisos, uma exigência que deveria ser extensível a um quarto, proporcionando-se uma vivência “de nível”, por exemplo, a um idoso; trata-se de um aspecto que tem, naturalmente, implicações críticas na concepção residencial, mas chama-se a tenção para se estar aqui a tentar construir uma ideia de habitação que seja muito satisfatória, e tudo o que evite usos únicos e zonamentos domésticos rígidos, dando alternativas de vivência, é claramente muito positivo para uma vida doméstica diversificada e adaptável.

No que se refere à recorrente questão, que está devidamente regulamentada, da relação entre número de quartos (de dormir) e número e características das respectivas casas de banho, ela coloca questões sensíveis quando uma das casas de banho e, frequentemente, a melhor desenvolvida, está reservada a um uso privativo. A questão destes usos privativos merece ser bem equacionada quando se trata de habitação de interesse social, avançando-se que nos parece que uma única casa de banho, espaçosa, bem equipada e com luz e ventilação naturais continua a ser uma excelente solução para estes casos, suportando, julga-se uma razoável pressão de uso e podendo ser, até, eventualmente, subdividida em zona de banhos e zona sanitária.
A questão do dimensionamento, frequentemente mínimo, das casas de banho merece uma atenção específica pois, por um lado não se julga que, numa casa de banho, o mais caro seja propriamente o espaço, mas sim as instalações e as peças sanitárias, pelo que um relativo desafogo espacial permitirá, de certa forma rentabilizar e tornar mais útil o investimentos feito nesses aspectos, melhorando, realmente, a habitabilidade da casa e, complementarmente, tornando as casas de banho muito mais amigáveis e confortáveis quer para o cada vez maior número de idosos, quer para um amplo leque de usos, ainda muito pouco servidos, e que aí podem encontrar excelente sítio de realização, como é por exemplo o caso do banho de crianças. Naturalmente que um pouco espaço suplementar, onde se pode arrumar uma cadeira e um vão de janela que pode abrir em dias agradáveis, são também condições fundamentais para casas de banho realmente mais felizes, e que nada tenham a ver com os cubículos sanitários que nos são frequentemente oferecidos.
E, finalmente, é possível, numa casa de banho, distribuir o respectivo equipamento ao longo de um período temporal alongado, proporcionando-se, por exemplo, inicialmente, equipamentos mínimos, que depois possam vir a ser substituídos por outros mais elaborados e com maiores dimensões, mas isto exige que o espaço esteja lá desde o início e que a opção seja por equipamentos facilmente desmontáveis e substituídos por outros, o que também favorece a sempre bem-vinda apropriação.
E é interessante pensar na casa de banho, também, como um espaço da habitação onde se pode estar em privacidade e com satisfação e durante período relativamente alongados, por exemplo num banho imersão, lendo; uma opção bem diferente de um banho de chuveiro rápido, mas que deve ser igualmente possível no nosso espaço doméstico.




Fig. 05: casa de banho como verdadeiro espaço de banho de lazer, numa reconquista do banho com esse sentido, como sempre foi e só deixou de ser quando surgiu o funcionalismo "fundamentalista" e mesmo, frequentemente, muito pouco conhecedor do grande leque de funções domésticas; Interior de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H33, Arq.º Greger Dahlström.

Novidades e tendências em casas de banho

Ao longo deste pequeno exercício de reflexão sobre o que são e o que poderão ser as casas de banho domésticas já se foram apontando aspectos de inovação e tendências actuais no desenvolvimento destes espaços.

No entanto será interessante considerar aqui como uma opção fundamental a escolha entre soluções mais ou menos divididas, e, portanto, tendencialmente, menos e mais desafogadas, sublinhando-se que este desafogo será sempre sinónimo de mais funções lúdicas e de saúde das casas de banho (ex., banho e brincadeiras de crianças, repouso e descontracção de adultos) e da sua maior capacidade de uso por utentes com reduzidas capacidades de movimentação. Resolvendo um pouco esta opção Sven Thiberg aponta a possibilidade de se desenvolver uma concentração das instalações em blocos equipados e subdivididos de tal maneira que fiquem facilitadas as futuras acções potenciais de fusão entre diversos compartimentos (3), numa adaptabilidade que poderá ser estratégica, por exemplo, na relação com o envelhecimento dos habitantes.

Outras tendências referem-se à “tradicional” grande separação dos espaços que incluem as instalações sanitárias relativamente aos restantes espaços domésticos, alternativamente, a uma nova tendência em que se fazem misturas diversificadas, embora naturalmente cuidadas em termos de relações de privacidade, mas aceitando-se, por exemplo contiguidades que podem ainda chocar espíritos mais habituados a uma vivência doméstica muito hierarquizada e repartida em zonas “funcionais”, associando-se, por exemplo, uma pequena casa de banho à cozinha, uma banheira ao quarto, etc.

Sobre estas perspectivas considera-se que é fundamental  proporcionar uma grande diversidade de modelos de habitar pormenorizados, que se colam muito melhor às nossas vidas que são bem distintas umas das outras e que as tornam mais estimulantes e curiosas; ao contrário da oferta única, sempre, quase da mesma habitação, com as mesmas zonas funcionais e com os mesmos espaços.

De certa forma, a casa de banho, porque é o compartimento doméstico mais crítico em termos de privacidade, é talvez o espaço que pode ser “chave” numa experimentação mais activa de novas organizações e ideias domésticas, pois inovando-se, de forma fundamentada, nas casas de banho, será sempre mais fácil inovar também em outros espaços da casa.

E não tenhamos dúvidas de que o compartimento de que tantas vezes falamos como “casa de banho”, não o é, realmente, reduzindo-se, sim, a um repositório de sanitários de catálogo num cenário frio e muito pouco doméstico, e, portanto, não há que ter dúvidas em inovar no sentido de acabar, de vez, com este tipo de soluções, que foram afinal soluções que serviram, numa primeira linha, vendedores de apartamentos e de peças sanitárias.

E, portanto, e pelo menos, no domínio da higiene pessoal e da saúde pela água há que assegurar a reconquista do ambiente da casa de banho tradicional, relativamente espaçosa, onde se atribui uma real importância ao banho de imersão (com virtudes terapêuticas físicas e psíquicas, hoje em dia, perfeitamente reconhecidas) e dispondo até de algum mobiliário com utilidade prática específica e fundamental na apropriação e na humanização da casa de banho. E o banho e as outras funções habitualmente sediadas nas casas de banho poderão invadir diversificadamente o espaço doméstico, sempre que este espaço ganhe dimensões mais desafogadas e zonas mais diversificadas.

Notas
(1)      Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", p. 184.
(2) Como indica Sven Thiberg ("Housing Research and Design in Sweden", p. 180), a maioria das casas de banho não têm um espaço de arrumações bem organizado, e um simples recanto com cerca de 0.60x0.60m de área permite a instalação de um armário alto com variadas e úteis utilizações (ex., toalhas, papel, artigos de higiene e beleza, roupa suja, etc.); caso não se use para este fim, o referido espaço permite a instalação de uma cadeira, sempre útil no apoio aos banhos e a outros usos da casa de banho.
(3) Sven Thiberg (Ed.), "Housing Research and Design in Sweden", p. 181.

Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XII, n.º 568
Artigo LXXXVI da Série habitar e viver melhor

Verdadeiras casas de banho e não simples e frias “instalações sanitárias” - II, Infohabitar n.º 568

Editor: António Baptista Coelho – abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, abril 26, 2015

530 - Cozinha: aspetos motivadores e problemas a considerar - Infohabitar 530


http://labhab.fau.usp.br/3cihel/ 



Últimas notícias: o 3.º CIHEL recebeu 118 propostas de artigos, estamos portanto todos de parabéns, designadamente os organizadores diretos.

Infohabitar, Ano XI, n.º 530

A cozinha: aspetos motivadores e problemas a considerar

Artigo LXXII da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho



Continuamos, em seguida, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar, e neste os seus espaços comuns. Estamos agora a abordar , com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e continuamos com alguns aspetos sobre o espaço de cozinha e sobre todo o seu potencial.

Cozinha: aspetos motivadores e a explorar


Tal como se apontou num estudo editado no LNEC em 1998, intitulado “Do bairro e da vizinhança à habitação” (ITA 2), entre as características mais desejáveis nas cozinhas tradicionais, ou nas zonas de cozinha, para preparação de refeições salientam-se as seguintes:

·        Estarem razoavelmente próximas das zonas de refeições.
·        Possibilitarem vistas sobre o exterior a partir das principais zonas de trabalho.
·        Apoiarem, o melhor possível, a sequência de: receção e armazenagem de produtos alimentares; preparação de cozinhados; transportes para as (e a partir das) zonas de refeições; lavagens e arrumações.
·        Facilitarem o uso funcional da "bancada" e dos armários de cozinha, bem como de todos os equipamentos e aparelhos eletrodomésticos de apoio e terem, preferencialmente, uma "bancada" de trabalho comprida e sem interrupções (em U ou em L).
·        Terem relação direta com a despensa ou os armários para arrumação de produtos alimentares.
·        Serem fáceis de limpar e duráveis, e não provocarem ruídos, fumos e cheiros desagradáveis no resto da casa e em espaços de circulação comuns e contíguos.
·        Terem equipamento adequado: lava-louças com escorredouro; bancadas de trabalho espaçosas, resistentes e laváveis; espaços preparados e equipados para o fogão, frigorífico e máquina de lavar louça; e sítio próprio para o esquentador. As cozinhas devem ter, ainda, espaços válidos para instalar equipamentos suplementares (por exemplo, arcas frigoríficas e pequenos fornos).
·        Integrarem uma zona de refeições correntes.
·        E serem equipadas com mobiliário fixo que associe facilidade de limpeza, durabilidade, atratividade e, especificamente, uma cuidada ergonomia, seja nas valências de arrumações diversificadas, seja nas valências de uso de planos de trabalho, equipamentos e instalações; ergonomia esta que deverá estar intimamente associada a condições maximizadas de conforto ambiental (designadamente no que se refere à iluminação natural e artificial e à ventilação) .


Fig. 01: Recanto de cozinha de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H7, Arquitetura: Lars Asklund, Asklund & Jansson Arkitekter.

Cozinha: problemas correntes

Pela sua “densidade” de equipamentos a cozinha é um dos principais protagonistas de um espaço doméstico, mas é importante ter-se bem presente, que ela existe para nos servir e para nos proporcionar uma vida diária, agradável, estimulante e convivial; e não para que nós a “adoremos” como se fosse um espaço quase de “culto”, recheado de gadgets e onde o homem é, praticamente, um intruso, que se movimenta, de certa forma, nas margens das máquinas domésticas.

E refere-se esta observação porque é frequente encontrarem-se cozinhas com um evidente excesso de funcionalidades e de “maquinalidade” e com um evidente deficit de humanização e de sentido gregário, e desde sempre as cozinhas foram o centro da casa, aqui ardia, em continuidade o fogo do lar e aqui se passava quase tudo o que se passava em casa; evidentemente o tempo foi passando, mas está na altura de se recuperar, plenamente, o capital de convivialidade e de atratividade das cozinhas como sítios da família, como sítios do centro da vida doméstica, sem discriminações de tarefas e de espaços, e até é útil esta possibilidade no sentido em que os restantes espaços da casa ficam mais disponíveis para os novos usos domésticos.

Tal como aponta Sven Thiberg (1), as deficiências mais comuns detetadas em cozinhas relacionam-se muito mais com a organização da sequência de trabalho e a disposição relativa de elementos de mobiliário e equipamento do que com a quantidade de espaço livre disponível. Os aspetos negativos frequentemente apontados são os seguintes: portas abrindo para dentro da cozinha, passagens livres muito estreitas, portas de frigoríficos abrindo na direção errada, colisões entre portas de acesso e de armários, colisão entre portas de acesso e fogões, fornos e bacias de lavagem e, finalmente, a falta de espaço livre em torno da mesa de cozinha são, todos, aspetos negativos frequentemente apontados.

Tal como refere o citado autor, chama-se aqui a atenção para um problema de projeto conhecido, mas pouco evidenciado, é que os bons projetos de Arquitetura cuidam do desenho das cozinhas e proporcionam espaços realmente satisfatórios e motivadores. Dá trabalho mas os resultados são extremamente significativos e, como em tudo, nem todos conseguem atingir um adequado nível de qualidade, designadamente, quando, como é o caso, se estão a integrar tantos elementos e com tantos objetivos vivenciais.

E em termos de problemas correntes nas cozinhas há que destacar dois, que por sinal são dois dos aspetos mais críticos no que se refere à, sempre estimulante, maior integração da cozinha num espaço doméstico do tipo “planta livre” – por exemplo numa espaçosas e convivial cozinha-sala de família e de estar que dê acesso a quartos: o problema dos cheiros e vapores originados nas ações de preparação de refeições, que poderá ser em boa parte ultrapassado através de uma cuidadosa solução da respetiva ventilação; e o problema dos ruídos produzidos, designadamente, por máquinas associadas, habitualmente, ao espaço de cozinha – caso das máquinas de lavar e mesmo dos equipamentos de ventilação –, que poderá ter solução seja pela escolha de modelos caracterizadamente silenciosos, seja pelo desenvolvimento de um pequeno compartimento, isolado, para instalação das máquinas, uma solução muito eficaz e que foi utilizada, em Portugal, em soluções de habitação de interesse social, ganhando-se, assim, a cozinha como um agradável espaço de convívio e para diversas atividades domésticas.


Fig. 02: Zona de cozinha aberta sobre sala de uma habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 8-12, Arquitetura: Kim Dalgaard, Tue Traerup Madsen.

Cozinha: questões levantadas (dimensionais e outras)

A situação, cada vez mais frequente, de ambos os elementos do casal trabalharem fora de casa, o crescimento de hábitos de abastecimentos periódicos e em grandes quantidades e a disponibilização cada vez mais alargada de equipamentos para simplificação das tarefas culinárias obriga a cuidados extremos na sistematização funcional das zonas de preparação de refeições e no seu relacionamento com os respetivos espaços de arrumação; e tal como atrás se disse não é um dado adquirido que se façam bons projetos de cozinhas, antes pelo contrário, pois esta pormenorização, quando existe, é considerada, mais como uma oportunidade de vender elementos vistosos.

A cozinha, mesmo sendo um espaço convivial, tem de ser um espaço extremamente funcional no apoio á preparação de refeições.

Claude Lamure ("Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 177 e 178) considera os seguintes factores estruturantes da organização das cozinhas:

·       Os três postos principais, lava-louças, posto de preparação de alimentos e posto de fogão, são indissociáveis. Nenhum obstáculo deve interpor-se nos percursos entre eles, e, particularmente, nenhuma outra circulação deve interferir com a circulação entre esses três postos.
·         Dois elementos complementares, posto de instalação de frigorífico e posto de serviço ou "descarga", devem ser igualmente acessíveis a partir dos três postos principais.
·         Cada equipamento necessita de um plano de "descarga" contíguo.
·         A organização preferencial (para não canhotos) será constituída por uma sequência, da esquerda para a direita, incluindo lava-louças, preparação, fogão (porque se poderá usar a mão direita no fogão, enquanto que com a esquerda se usam diversos utensílios).
·         As arrumações devem estar adequadamente distribuídas por diversos sítios, de acordo com o princípio de se disponibilizarem os elementos necessários no seu primeiro ou no seu último sítio de utilização.
·         A máquina de lavar louça deve ser colocada perto de um armário para louça ou de uma mesa de refeições.
·         O balde do lixo, (ou o acesso à conduta de lixos) deve ser preferencialmente localizado num sítio bem ventilado, mas muito próximo da cozinha.
·         O acesso a um forno deve ser desimpedido numa profundidade mínima de 1.20m, medida a partir da abertura do forno.

Tal como refere Claude Lamure (2), as pessoas tomam, muito frequentemente, as refeições na cozinha, logo quando a área desta é superior a 9m² - o que até é uma dimensão bastante “económica”;  e continua-se a tomar aí refeições, quando a área desce para cerca de 6m². Mas quando as cozinhas são razoavelmente espaçosas, quando a sua área é superior a 11m², diz Lamure, que quase toda a gente toma as refeições exclusivamente aí e começam a surgir, de forma significativa, o recreio e o trabalho de crianças e mesmo o estar ocasional dos adultos. E é importante que as áreas das cozinhas cresçam na proporção em que aumente o número de quartos na habitação; condição esta que infelizmente não se verifica como regra, pois as cozinhas são habitualmente consideradas como tratando-se de uma espécie de grandes casas de banho, imutáveis, seja a casa pequena ou grande.

Mas a dimensão geral não é tudo, sendo essencial a existência de uma largura adequada, e segundo o Institut de Tecnologia de la Construcción de Catalunya (3) , o processo de composição da largura-tipo de uma cozinha deve considerar os seguintes elementos): largura de bancada, 0.60m; largura da circulação e espaço de actividade, 1.10m (1,20 noutros estudos); largura de mesa para refeições, de 0.90m a 1.10m. Teremos, assim, uma dimensão de referência entre 2,60 a 2,90m, bem diferente da da nossa dimensão mínima regulamentar. (4)

Ainda segundo Lamure, em cozinhas espaçosas, são preferíveis as disposições de bancada em L e em U, porque economizam deslocações e espaço de circulação, permitem movimentos mais cómodos (menos bruscos, com mudanças de direção mais suaves) e definem zonas livres de circulação e atravessamento; no caso das bancadas em L é de referir que estas se integram bem com uma mesa suplementar (multifuncional) (5).

As cozinhas em U são ótimas, seja em situações de grande disponibilidade espacial, seja em situações de extrema exiguidade (zona de cozinha ligada a sala, onde basta rodar sobre si próprio para chegar às diversas superfícies de bancada).

E ainda novamente segundo Claude Lamure a altura da bancada de cozinha poderá variar ligeiramente com as diversas funções a executar, ou, parecendo ser uma melhor solução, poderá ser previsto um plano de trabalho específico ou uma mesa de cozinha que permita a execução de certos trabalhos a partir da posição de sentado (6); condição esta que é, também, muito rica em termos de potencial de projeto e de criatividade, mais uma vez numa estratégica aliança entre função e forma.

References


Referências/notas

(1) Condiciones Minimas d'Habitabilitat i de Construcción dels Edificis a Contemplar en les Ordenances d'Edificació, p. 42.
(2) A dimensão mínima, definida pelo "Regulamento Geral das Edificações Urbanas", Artº 69, é apenas de 1.70m.
(3) Condiciones Minimas d'Habitabilitat i de Construcción dels Edificis a Contemplar en les Ordenances d'Edificació, p. 42.
(4) A dimensão mínima, definida pelo "Regulamento Geral das Edificações Urbanas", Artº 69, é apenas de 1.70m.
(5) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 180.
(6) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 183.

Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XI, n.º 530
Artigo LXXII da Série habitar e viver melhor

A cozinha: aspetos motivadores e problemas a considerar

Editor: António Baptista Coelho 
abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



domingo, março 02, 2008

185 - O LIXO É TAMBÉM RESPONSABILIDADE NOSSA – um artigo da Arq.ª Marilice Costi - Infohabitar 185

 - Infohabitar 185
É com uma alegria muito especial que o Infohabitar volta a publicar um artigo de uma das suas redactoras de primeira hora, a Arq.ª Marilice Costi. MS, de Porto Alegre.

A Direcção redactorial do Infohabitar
ABC



O LIXO É TAMBÉM RESPONSABILIDADE NOSSA


Marilice Costi



Assuntos que se repetem deixam de nos interessar. Assim como as barbáries, as guerras, as migrações na procura de territórios necessários para que nos sintamos inteiros, pertencentes, existentes, enraizados, e não ao sabor dos tufões. A repetição cansa e dessensibiliza. Com o lixo é a mesma coisa. Somos todos responsáveis por dejetos, matérias contaminantes (pilhas, baterias, sangue, registros de Rx), entulhos de obras e outros tantos. E tudo precisa de embalagem.

Os apelos ao consumo são tão intensos que, mesmo tendo a capacidade de compreender, criticar e mudar comportamentos, criamos lixo. Todos os dias. O melhor seria valer a frase: tudo se transforma. Mas transforma-se em que?



Fig. 01


Procure imaginar o peso: uma sacola não move o ponteiro de uma balança comum. Uma tonelada de sacolas é uma imensa montanha. Imagine a quantidade de plástico produzido (210 mil toneladas no Brasil): cerca de 10% do lixo do país! Inicialmente utilizadas apenas para coleta de lixo, as sacolas passaram a substituir as de tecido e de papel. Tudo passou a receber proteção impermeável: equipamentos, malas, roupas, alimentos, remédios e tantos materiais. Por ser um plástico muito barato, o filme das sacolas não tem muito valor na reciclagem, por isto, os lixões urbanos estão cheios delas a contaminar o solo. Produzido a partir de uma resina chamada polietileno de baixa densidade (PEBD), o material -do qual são feitas as sacolas – precisa de um século para degradar. O que faremos quando o solo todo degradar? Quando no meio do lixo, baratas, ratos e outros vetores proliferarem resistentes a tudo?

Para pensarmos e nos posicionarmos, o que falta? Até que ponto somos omissos, até que ponto induzidos? O que estamos esperando para recusar embalagens? Não precisamos de tantas. É só devolvermos aos empacotadores. Uma cadeia de comportamento positivo – tal como um vírus da consciência ambiental - depende de cada um de nós.

A peste, após a tomada da Bastilha, ocorreu porque ninguém mais cuidava das cidades: esgotos, lixos acumulados, vetores proliferando. muito grave e que só aparece quando há greve dos lixeiros, ou contaminação como foi com o césio. Ou epidemias. A legislação brasileira referente a lixos é bem redigida: controle, estoque, manipulação e destino de diversos tipos de lixo, cuidados importantes. Mas quem fiscaliza? O poder público precisa da parceria do privado, que precisa abrir mão de postura oportunista.

Mexer com lixo rende muito dinheiro. Mas não parece. São os desafios para o século XXI: buscar rotas novas para o problema, o diálogo com a sociedade, a conscientização, o investimento em pesquisa e em ações efetivas.



Fig. 02


Além disto, os aterros e os lixões estão no total limite. As áreas ficam degradadas, gases intoxicam os catadores, enfim, um enorme problema ambiental. Na capital paulista são 18 mil toneladas só de lixo domiciliar: 18% é só plástico. Toneladas que durarão cem anos para degradar. A cada dia, em escala crescente, tornando-se um problema insolúvel.

Minha mãe fazia bolsas de tecido com retalhos de suas costuras e presentava. As sacolas não estragaram, nem envelheceram, porque foram substituídas pelas de plástico que somem de nossas vistas carregando nossos detritos. Viramos todos plasticólatras? Ou estamos atrasados? A troca de sacolas de plástico por outras de pano vem sendo estimulada por prefeituras do RS. Há outras possibilidades como reciclar ou facilitar a degradação do plástico através de aditivos agregados a ele ou através da mudança de sua composição.

Na Alemanha, a plasticomania deu lugar à sacolamania (cada um com sua própria sacola). Quem não anda com a sua a tiracolo é obrigado a pagar uma taxa extra pelo uso de sacos plásticos. A guerra contra os sacos plásticos ganhou força em 1991, quando foi aprovada uma lei que obriga os produtores e distribuidores de embalagens a aceitarem de volta e a reciclar seus produtos após o uso. Os empresários repassaram os custos para o consumidor. O preço é salgado: o equivalente a sessenta centavos a unidade. Na Irlanda, desde 1997, paga-se um imposto de nove centavos de libra irlandesa por cada saco plástico, multiplicando o número de irlandeses indo às compras com suas sacolas de pano, de palha ou mochilas. A meta de uma rede de supermercados inglesa era emplacar em 2008 com pelo menos 2/3 de todos os saquinhos feitos de material que se decompõe dezoito meses após descarte. Com um detalhe: mesmo sem contato com a água, o plástico se dissolve, porque serve de alimento para microorganismos encontrados na natureza.


Fig. 03


Mas não temos só o plástico como um problema grave. O Rio Grande do Sul é responsável por 5 milhões de lâmpadas fluorescentes usadas, o que contamina milhões de metros cúbicos de água potável. O alerta foi dado por IPOA Ambiental numa audiência pública. O mercúrio contido nos bulbos é altamente contaminante. Mas como proceder com as lâmpadas usadas? Quem sabe como fazer? Para onde encaminhá-las?

A única iniciativa de regulamentar o que hoje acontece de forma aleatória e caótica foi rechaçada pelo Congresso na legislatura passada. O então deputado Emerson Kapaz foi o relator da comissão criada para elaborar a "Política Nacional de Resíduos Sólidos". Seu projeto apresentava propostas para a destinação inteligente dos resíduos, a redução do volume de lixo no Brasil, e definia regras claras para que produtores e comerciantes assumissem novas responsabilidades em relação aos resíduos que descartam na natureza, assumindo o ônus pela coleta e processamento de materiais que degradam o meio ambiente e a qualidade de vida. O projeto elaborado pela comissão não chegou a ser votado. Nem se sabe quando será. Por isto, nas próximas eleições, escolha bem seu candidato, verifique o seu comprometimento com a qualidade de vida, sua postura e ética, sua visão ambiental e sua atuação efetiva.

Quem sabe passamos a fazer a nossa parte? Avalie o lixo que você produz, converse com seus vizinhos, participe das reuniões de condomínio, conheça os coletores. Mesmo que na sua cidade o lixo não seja separado - orgânico e seco - separe. Os catadaores reconhece a diferença pelo peso das sacolas e demoram menos tempo em contato com os lixões.
Que tal declarar guerra contra a plasticomania? Devolver os sacos desnecessários? Se existem leis, regulamentos, normas para a gestão dos resíduos sólidos. Que sejam implementadas. Que haja fiscalização. Se há muitos interesses em jogo, qual é o nosso?

Qual é o seu? Faça a sua parte, crie parcerias. Convoque os amigos, a família, procure alternativas. Se ainda há tempo para reverter o quadro, o que fazer? Não perca tempo esperando apenas que o poder público faça sua parte, pois o que fazemos hoje será o legado de nossos filhos e netos.



Fig. 04


Breve apresentação da autora:

MARILICE COSTI é Mestre em Arquitetura, arquiteta e urbanista, professora, consultora e pesquisadora. Especialista em Arteterapia.
Ministra oficinas, cursos e palestras. Tem vários livros publicados, artigos em congressos e em revistas, crônicas e poesias e diversos prêmios em literatura, entre eles o Açorianos 2006, de poesia.
Entre os livros publicados um destaque para: “A influência da luz e da cor em corredores e salas de espera hospitalares”(esgotado); “Como controlar os lobos? proteção para nossos filhos com problemas mentais”; “Clichês domésticos”; “Mulher ponto inicial” (esgotado) e “Ressurgimento” (poesia 2006).
É membro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo, da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, da Associação Sul-brasileira de Arteterapia.
No site:

www.sanaarquitetura.arq.br .
e-mail:
marilice.costi@sanaarquitetura.arq.br


Nota: a ilustração foi da responsabilidade da edição do infohabitar.
Editado em 1 de Março de 2008, Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, por José Baptista Coelho