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segunda-feira, outubro 15, 2018

660 - AS HUMANIDADES E O HABITAR - Infohabitar 660

INFOHABITAR N.º 660
AS HUMANIDADES E O HABITAR 

Conjunto de 16 artigos e um texto de apresentação

 

Caros leitores da revista semanal Infohabitar com a presente edição, damos continuidade a uma tipologia editorial, em que se procura voltar a focar e divulgar artigos e séries editoriais já desenvolvidas há algum tempo, mas versando temáticas intemporais.

Julgamos que quando uma revista técnica e científica como a nossa atinge um significativo “tempo de vida” – neste caso 14 anos – e expressão editorial – a caminho dos 700 artigos – corre-se o risco de textos que deixaram de estar numa primeira linha editorial, mas que continuam com o mesmo interesse e oportunidade, poderem ficar um pouco esquecidos “nas prateleiras arquivadoras”, neste caso “na nuvem arquivista” e, a partir desta consideração, surgiu a ideia de voltar a colocar “bem à mão”, à distância de um rápido “clic”, conjuntos temáticos de artigos, por vezes muito bem articulados, entre si, outras vezes marcados por uma salutar diversidade, como é o caso actual.

E é assim que, na presente edição da Infohabitar, se sugere a leitura de uma série de 16 artigos, editados entre 2005 e 2013, desenvolvidos por 11 autores e que têm em comum a abordagem do grande tema referido à temática das relações entre AS HUMANIDADES E O HABITAR.

Lembra-se que esta matéria das relações entre AS HUMANIDADES E O HABITAR constitui um dos 35 temas editoriais da Infohabitar.

Regista-se, ainda, que esta matéria das relações entre AS HUMANIDADES E O HABITAR; corresponde a um dos sete grandes temas abordados num estudo amplo sobre a matéria do “habitar humanizado”, apresentado e desenvolvido em duas publicações editadas e disponibilizadas pela Livraria do LNEC (apontadas em seguida) e no n.º 18 dos Opúsculos da Editora Dafne – neste caso, com o título “Entre casa e cidade, a humanização do habitar”.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada: Uma apresentação geral, Lisboa, LNEC, Memória n.º 836, 2007, 40 p., 19 fig., ISBN 978-972-49-2117-4.
COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada, Lisboa, LNEC, Tese e Programas de Investigação TPI n.º 46. Lisboa: LNEC, 2007. 574 p., 121 fig., ISBN 978-972-49-2120-4.

Esta temática global do “habitar humanizado” refere-se, pois ao habitar espaços domésticos e urbanos e corresponde a um estudo de investigação, desenvolvido no quadro de uma “habilitação em arquitetura e urbanismo”, realizado e discutido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), considerando-se que o interesse no desenvolvimento deste tema decorreu, quase diretamente, da necessidade sentida de se aprofundarem aspetos ainda considerados menos objetivos e que no entanto caracterizam, claramente, pela sua existência ou ausência, múltiplas situações domésticas e urbanas.
Trata-se, assim, de um tema cuja importância se julga ser evidente numa altura em que o “mal habitar” casa e cidade continua a marcar, em todo o mundo, um elevadíssimo número de famílias e as periferias e os vazios urbanos de grandes cidades, uma importância que resulta, tanto da necessidade de se considerarem, diretamente, os múltiplos aspetos de uma sensível humanização dos quadros do habitat humano, como da importância de se estar alerta relativamente às recorrentes simplificações relativas a áreas mínimas habitacionais mal concebidas (“cegamente” funcionalizadas), e à doentia repetição de projetos-tipo mal concebidos e mal aplicados em termos urbanos.


Caminhar e filosofar -  “Há alguma coisa nessa actividade, que é o filosofar, que tem alguma afinidade com o caminhar …” - Eduardo Prado Coelho, “O inabsorvível”, Público - opinião,  17 Janeiro 2004

Considerando, agora, especificamente, a temática das relações entre AS HUMANIDADES E O HABITAR,  relembra-se que a matéria da habitação humanizada é aqui tratada a partir do ponto de vista e com as ferramentas da arquitectura; no entanto, o que se pode considerar como uma limitação tem de ser compensado pela consideração da verdadeira importância de todo um leque disciplinar de outras ciências humanas; e a arquitectura também o é.


Mas como tratar estas matérias sem nos especializarmos em Antropologia, Engenharia(s), Filologia, Filosofia, História, Geografia, Medicina/saúde, Sociologia e Psicologia? Naturalmente teremos de encontrar os “postos avançados” dessas áreas de conhecimento que estabeleçam contactos privilegiados com as áreas da arquitectura do habitar, nesta perspectiva da humanização do mesmo habitar, que aqui nos motiva. Teremos assim de encontrar e estudar alguns desses autores/obras, e indicar esses caminhos, mas também devemos identificar nas matérias que são da arquitectura e do urbanismo, mais ligadas ao habitar, aqueles arquitectos e urbanistas, que mais têm seguido ou que mais se têm aproximado (d)esses caminhos. Esta é uma dupla estratégia capaz de assegurar a fundamental criação de pontos de encontro entre a humanização da arquitectura do habitar, pelos arquitectos, e o aprofundamento de um habitar humanizado e culturalmente bem qualificado, pelas outras disciplinas ligadas à matéria.

Afinal e tal como disse Fernando Gil (Fernando Gil ao Expresso de 10/12/93.1993): “Aquilo a que hoje se chama pluridisciplinaridade não é uma metodologia, é a única metodologia possível para se perceber seja o que for. E essa é a razão pela qual é necessário estar-se aberto para fora de um certo limite.”

Se houvesse que fazer uma referência sintética sobre quais as principais temáticas qualitativas a investir, prioritariamente, nesta grande e “renovada” área de uma qualidade arquitectónica residencial humanizada, e sobre a forma preferencial de as investir, sistemática e integradamente (numa espécie de “novelo qualitativo”), uma nota especial deveria ser endereçada para a necessidade de se irem definindo e articulando, mutuamente, os conceitos empregues, criando-se, por um lado, uma crescente e gradualmente consolidada plataforma multidisciplinar de discussão e cooperação técnica, enquanto, por outro lado, se iriam traduzindo tais conceitos numa linguagem, o mais possível, a todos acessível e apoiada, sempre que possível, em exemplos práticos perfeitamente ilustrativos desses mesmos conceitos. Afinal, e tal como se tem repetido e se irá repetir neste trabalho, esta matéria das humanidades nos mundos do habitar tem a ver muito directamente com o eterno e matizado confronto entre quem habita e quem é responsável pelas soluções habitacionais e urbanas.

E a realidade é que em torno e acerca dos espaços de habitar que fazem viver quer as cidades quer os pequenos aglomerados, muitas disciplinas têm vindo a desenvolver, designadamente, nas últimas dezenas de anos, os seus conhecimentos e modos de actuação, assistindo-se, hoje em dia, e cada vez mais, a um esforço de concentração multidisciplinar em temáticas urbanas e residenciais que ainda não há muito tempo eram praticamente exclusivas da formação em arquitectura, e isto é já “meio caminho andado”, naturalmente; falta provavelmente uma verdadeira interiorização e um adequado aperfeiçoamento dos mecanismos práticos da tal pluridisciplinaridade, referida por Fernando Gil.




Listam-se, em seguida (ordenados de acordo com a respectiva apresentação), alguns dos subtemas tratados nos artigos, associados ao tema editorial das relações entre AS HUMANIDADES E O HABITAR cujos títulos específicos e links são, depois, disponibilizados mais abaixo:

A dimensão existencial nas cidades
Casa
Casa e sentidos
Cuidador
Arquitectura, Ciências Humanas e Habitar
Cidades vivas
Cidades cultas
Cidades criativas
Territórios em mudanza
Cidadania e ambiente
Sociedade e envelhecimento
Os idosos na cidade e a cidade envelhecida
O habitar como técnica e poesia
Cultura da cidade e do território
Fiquem, então,caros leitores com algumas das muitas páginas da nossa pequena história editorial; e boas leituras,

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar, Presidente da GHabitar, investigador principal com habilitação em Arquitectura e Urbanismo (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), Arquiteto (ESBAL).

Notas práticas:
. a listagem dos artigos mantém a respetiva ordem cronológica editorial (dos mais recentes para os menos recentes);
. os artigos são disponibilizados no seu formato editorial original;
. para aceder ao artigo basta fazer ctrl + click sobre o seu endereço eletrónico (disponibilizado a seguir ao respetivo título); ou sobre o próprio título (quando este está ligado diretamente ao respetivo ebdereço eletrónico – ao passar o rato/mouse sobre o título essa ligação fica evidente).  


(Tema geral)

ESCALAS E TEMPOS DO HABITAR 

A emergência da dimensão existencial nas cidades - Uma proposta a partir do Centro Histórico de Évora - Susana Mourão (n.º 446, 1 JUL 13, 9 págs., 1 fig. e vários filmes).
A Casa dos Sentidos de Sérgio Fazenda Rodrigues - António Baptista Coelho (n.º 324, 12 Dez. 10, 5 págs., 3 figs.).
Quem é cuidador? – Marilice Costi (n.º 317, 24 Out 10, 4 págs., 2 figs.).
Cidades vivas, cultas e criativas I - Artigo de António Baptista Coelho (n.º 183, 17 Fevereiro 2008, p págs., 7 figs.)
Os territórios em mudança e o espaço global: questões de cidadania e de ambiente – João Lutas Craveiro (n.º 110, 26 Out., 11p., 6 fig.).
Seis cantos contra a guerra – Khaled Ghoubar, ilustração de António Baptista Coelho (n.º 94, 21 Jul. 06, 5p., 1 fig.).
As sociedades envelhecem, mas somos humanos – Maria Celeste Ramos e António Baptista Coelho (n.º 72, 2 Mar. 06, 5p. 2 fig.).
Retrospectiva – Maria Luiza Forneck (n.º 68, 5 Fev. 06, 3p.).
Quem sabe começamos por nós? – Marilice Costi (n.º 58, 12 Dez. 05, 3p. 2fig.).
Os idosos na cidade e a cidade envelhecida – Paulo Machado (n.º 56, 5 Dez. 05, 6p., 3fig.).
Interpelações Virtuais ao Cidadão Comum - Maria João Eloy , (n.º 54, Nov. 05, 2 p., 10 fig.).
As cidades também se abatem – “They kill horses - don’t they ?” - Maria Celeste Ramos (n.º 53, 16 Nov. 05, 4 p., 3 fig.).
O habitar é técnica e poesia I – inclui poema de António Ramos Rosa - António Baptista Coelho (n.º 44, 4 Out. 05, 2p., 1 fig.).
O Preconceito na apreensão da Cultura da Cidade e do Território - Maria João Eloy (n.º 34, 2 Ago. 05, 6 p., 10 fig., 3 com.).

Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, acolhido no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.


Infohabitar, Ano XIV, n.º 660
AS HUMANIDADES E O HABITAR
Conjunto de 16 artigos

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, fevereiro 17, 2008

183 - Cidades vivas, cultas e criativas I - Artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 183


Fig. 01

 - Infohabitar 183

Cidades vivas, cultas e criativas I

Artigo de António Baptista Coelho

Relações entre revitalização urbana, cultura e criatividade


A ideia que aqui se coloca é que há, hoje em dia, um conjunto de aspectos de intervenção urbana e activa que associam, em si mesmos, capacidades de se avançar na resolução de alguns problemas das nossas cidades e paisagens. E a ideia é que a revitalização urbana, a dinamização da cultura e da arte, e a criação de uma cidade mais cívica, humana e ambientalmente sustentável, são aspectos que mutuamente se conjugam e se influenciam, podendo ser usados em acções de melhoria da qualidade de vida urbana e peri-urbana, hoje em dia, cruciais e urgentes.

Desde já aponto que quando iniciei este artigo não conhecia ainda o teor da “Carta de Leipzig sobre as Cidades Europeias Sustentáveis” (1), sublinhando, desde já, que este conhecimento proporcionou uma maior articulação e, mesmo, fundamentação institucional das matérias aqui apontadas; e o próprio teor da Carta de Leipzig resultou na vontade de a vir a comentar, especificamente, em próximo artigo desta série.

Voltemos, então, às ideias-base que estiveram na origem deste pequeno texto e começando pelo enquadramento e utilizando alguns artigos recentemente editados no jornal Público, poderemos ter em conta alguns aspectos que caracterizam muitas cidades europeias actuais:


Fig. 02


I A criatividade cultural como factor de revitalização urbana


Um desses aspectos é sintetizado no artigo de Catarina Selada e Inês Vilhena da Cunha, intitulado “A criatividade é um «produto» urbano?” (2), e onde numa “caixa” se destaca, entre outros aspectos, que “a fixação de criativos pode ser um factor de desenvolvimento das áreas rurais, zonas de baixa densidade ou pequenos centros urbanos.”

Apetece dizer que o desenvolvimento da criatividade urbana é, por si só, matéria de dinamização e enriquecimento da cidade, e de qualquer “cidade”, desde o pequeno aglomerado urbano onde se localize, por exemplo, um pólo artístico, como é o caso do Centro Cultural S. Lourenço, em Almansil, numa zona semi-rural, perto de Faro, a um caso urbano, e cosmopolita com presença notável numa grande cidade como acontece, por exemplo, com o entusiástico movimento de inovação do tecido comercial, designadamente, através de ateliers, galerias de arte e lojas inovadoras, que está a marcar e a crescer, fortemente, na “cruz” formada pela Rua do Rosário e pela Rua Miguel Bombarda, no Porto (as imagens que ilustram este artigo são destas ruas); e pelo meio temos as igualmente excelentes iniciativas de dinamização cultural que têm marcado pequenos e caracterizados pólos urbanos, entre as quais se destacam, por exemplo, os eventos que regularmente acontecem na medieval vila de Óbidos.


Fig. 03
Há, portanto, um potencial de novidade cultural que se pode tornar, com alguma naturalidade, um potencial económico local com sentido crescente, e vitalizador de um ritmo urbano semanal mais nos dias “úteis”, mais nos finais de semana, ou em certas datas específicas, ou, melhor ainda, variando em conteúdos conforme o desenvolvimento do calendário, bem na tradição de uma cidade viva e caracterizada, acrescentando-lhe uma excelente e sensível dimensão de vida cultural e ambiências e memórias únicas e verdadeiramente de referência; sítios, cenários e actividades onde apetece voltar, uma e outra vez, e isto ajuda muito a fazer cidade viva, variada e estimulante.

Este potencial está aí, para ser usado, em muitos sítios, que há que escolher judiciosamente, mas tem de ser usado: não numa perspectiva amorfa, porque repetida, e até por vezes desagradavelmente uniformizadora e mesmo sem gosto, por exemplo, devido a uma incoerente e maçadora repetição de ofertas de actividades e eventos culturais e conviviais; mas sim e sempre numa opção que em cada sítio deve marcar pela sua originalidade e eventualmente por algumas raízes locais, ou, desejavelmente, por uma afirmada identidade local, que se ligue e tire partido da respectiva paisagem urbana e natural e do respectivo meio socio-ecomómico e cultural e que, mais ainda, tenda a caracterizar-se por uma identidade sociocultural e ambiental específica, associada a um adequado potencial de atractividade e de integração de um equilibrado leque de gostos e actividades.

Ainda relativamente ao potencial de um tal desígnio importa aqui citar, de forma sintética, os aspectos apontados no artigo referido como “pontos fortes” das indústrias criativas em áreas rurais, mas que, aqui, queremos generalizar a qualquer outro espaço territorial urbano ou semi-urbano onde se detectem carências de vitalização e que possua algumas condições básicas estratégicas que possam apoiar o desenvolvimento de um núcleo de indústrias criativas.

Fig. 04


E é do referido artigo de Catarina Selada e Inês Vilhena da Cunha que se citam, como pontos fortes de uma tal incitava os seguintes aspectos: criação de empregos qualificados (e outros complementares); desenvolvimento de novas empresas; activação da ligação aos centros urbanos; promoção de outros sectores com destaque para a o turismo, a hotelaria e a restauração (criando-se interessantes novelos ambientais e funcionais caracterizadores do respectivo espaço urbano e paisagístico); revitalização local com reduzidos impactos ambientais; enriquecimento do tecido social e cultural local por criação de “novas amenidades culturais” e pela (re)activação das “redes sociais e culturais” – sublinha-se que a citação do referido artigo é muito livre e informal e que, aqui, se opta pela possibilidade de aplicação deste tipo de iniciativas não exclusivamente em áreas rurais, tal com atrás se disse.

Ainda numa leitura generalizadora do que Catarina Selada e Inês Vilhena da Cunha referem serem os efeitos das indústrias culturais no meio rural, e, portanto, pensando na influência dessas indústrias em meios urbanos e semi-urbanos, importa citar: a indução de efeitos multiplicadores para o desenvolvimento das economias locais; e o excelente papel “«da criatividade» nas medidas de combate à desertificação e ao despovoamento dos territórios”, que as autoras localizam em meio rural e que aqui se toma a liberdade de aplicar de forma genérica e designadamente a meios urbanos e semi-urbanos desvitalizados e/ou descaracterizados – e esta matéria da influência da “criatividade” na recaracterização de determinadas zonas de cidade e de determinadas paisagens é algo que merece desenvolvimento específico, que se pretende fazer em futuro artigo desta série.

Finalmente, e ainda aproveitando algumas ideias do citado artigo, é claro que determinadas condições preexistentes, designadamente, ao nível da acessibilidade pedonal estratégica e da história local e respectivo potencial de identificação/identidade e de valia patrimonial de espectro razoavelmente amplo, serão, sem dúvida, trunfos importantes no êxito de cada “jogo”, em cada sítio.


Fig. 05


II A cultura como elemento de dinamização da sustentabilidade urbana

Um dia antes do artigo que se acabou de referir e comentar, no mesmo “Público”, um excelente artigo de Abel Coentrão, intitulado “Quando a economia falha, sobra a cultura” (3), abordou uma recente intervenção no Porto de Tom Fleming, onde se apresentaram variadas linhas de saída da crise urbana e social que se vive em muitos pólos urbanos europeus, através do desenvolvimento criativo e mesmo premeditadamente pouco regulado – portanto vivo e expontâneo – de uma grande variedade de pequenas indústrias criativas em meio urbano, mais ou menos denso.

E entende-se aqui a relação directa entre os temas tratados nos dois artigos, e, de certa forma, o reafirmar da ideia que a cultura é um meio excelente e prático de desenvolver a regeneração funcional e social de meios urbanos social e fisicamente deprimidos; e a este importante novelo temático também voltaremos em próximos artigos desta série.

Antes de fazer alguns comentários finais gostaria ainda de realizar uma conexão destas matérias da redinamização cultural como meio de revitalização dos espaços vividos e marcados pelo homem (espaços urbanos e semi-urbanos ou semi-rurais) com as candentes temáticas da sustentabilidade citadina.

Esta relação será objecto de futuro desenvolvimento, no entanto, é muito interessante e há que destacar, desde já, o potencial de ligação entre as matérias da redinamização do tecido urbano e semi-urbano por pequenas indústrias culturais e a implementação de objectivos de sustentabilidade ambiental, social, convivial e mesmo cultural, num novelo de ideias marcadas, entre outros aspectos de qualidade urbana, por: dominância do tráfego pedonal; vitalização e segurança públicas; integração de actividades diversificadas e não-poluentes; desenvolvimento verde urbano; diversidade e interesse arquitectónico; integração de vários grupos socio-culturais; convivência de vários modos de viver a casa e a cidade; e acentuação das formas suaves e eficazes de transportes públicos.

Há que interiorizar que uma coisa é a (re)dinamização cultural de zonas estratégicas das cidades e dos territórios semi-urbanos e outra coisa é a implementação de medidas amplas de sustentabilidade, mas, no entanto, a sustentabilidade cultural é também matéria fundamental e a (re)dinamização cultural é basicamente amiga de espaços pedonalizados, vitalizados por habitação, acessíveis e ambientalmente agradáveis. Portanto há que estabelecer pontes fortes e eficazes entre estes dois tipos de desígnios.

De facto, poder viver num ritmo mais humano, em ambientes mais saudáveis e conviviais, e marcados por perspectivas de sustentabilidade ambiental, tal como é descrito num artigo assinado por Inês Vilhena da Cunha e Kathrin Calhau, intitulado “Vauban e Ballard são realidades de comunidades sustentáveis” (4), ajuda, sem dúvida, a uma predisposição para a cultura e para a arte, e provavelmente o contrário também é verdadeiro e um ambiente marcado pela arte e pelas indústrias culturais será um meio sensibilizador para a adopção de formas de vida e de ambientes globalmente mais sustentáveis.

Fig. 06


III Outros aspectos da aliança entre cultura e regeneração/sustentabilidade urbana

Para desenvolvimento noutras oportunidades apontam-se, ainda, outros dois aspectos importantes: o primeiro é que em tudo isto e designadamente quando se trata de uma inserção de elementos e eventos ligados à arte e ao artesanato, numa perspectiva mais urbana ou mais integrada nos mundos domésticos, é fundamental tudo fazer para se visar e se obter a máxima qualidade global e específica dos conteúdos culturais e artísticos oferecidos, pois não tenhamos qualquer dúvida que uma qualidade “ímpar” e a disponibilização de eventos e conteúdos “únicos” – portanto adequados e criativos e, portanto, não necessariamente dispendiosos e difíceis de assegurar – são condições que caracterizam o único caminho potencialmente marcado pelo sucesso nestas áreas; o segundo aspecto, que se liga, estreitamente com esta matéria é que a opção pela cultura é também, hoje em dia, na nossa Europa, um investimento que já está a resultar e que cada vez mais dará resultados económicos, e sobre esta matéria lembra-se o sub-título do citado artigo sobre Tom Fleming e as suas pequenas indústrias culturais e criativas, que aponta: “Quando a economia falha, sobra a cultura”.

E não é possível deixar aqui de lembrar, bem a propósito, que na União Europeia a cultura contribui mais para a economia do que os automóveis e que, mesmo em Portugal, a cultura é já o terceiro contribuinte para o nosso PIB, tal como é apontado no belíssimo artigo de Joana Gorjão Henriques significativamente intitulado: “É a cultura, estúpido!”
E, claramente, há aqui todo um potencial de crescimento relativo ao multifacetado aproveitamento da cultura europeia em termos de fonte de recursos económicos, que só depende da referida e exigente opção pela qualidade e de uma aliança entre tal opção e uma perspectiva de gradual mas efectiva melhoria da qualidade de vida nas cidades e nas zonas periféricas; pois não fariam qualquer sentido, nem teriam quaisquer resultados sustentados, quer uma qualidade fingida, quer uma qualidade direccionada para os turistas e que esquecesse os habitantes.

Na sequência desta última preocupação termina-se com a indicação da uma abertura, essencial, a uma preocupação de abordagem desta matérias sempre com os habitantes numa perspectiva de grande eficácia participativa, e aqui há que lembrar o enorme potencial oferecido pela cooperação e pelas cooperativas, e, finalmente, conclui-se este texto com uma citação, “de síntese”, retirada da referida “Carta de Leipzig sobre as Cidades Europeias Sustentáveis”, e onde se diz:

“Entendemos que as nossas cidades têm qualidades culturais e arquitectónicas únicas, uma forte capacidade de inclusão social e excelentes oportunidades de desenvolvimento económico. São centros de conhecimento e fontes de crescimento e inovação. Mas, ao mesmo tempo, debatem-se com problemas demográficos, desigualdade social, exclusão social de grupos populacionais específicos, falta de alojamento adequado a preços acessíveis e problemas ambientais. A longo prazo, as cidades não poderão desempenhar a sua função de motor de progresso social e crescimento económico descrita na Estratégia de Lisboa se não conseguirmos manter o equilíbrio social no interior de cada uma e entre elas, preservando a diversidade cultural e fixando elevados padrões de qualidade para o planeamento urbanístico, a arquitectura e o ambiente.”



Notas:
(1) “Carta de Leipzig sobre as Cidades Europeias Sustentáveis – adoptada na reunião informal dos Ministros responsáveis pelo Desenvolvimento Urbano e Coesão Territorial, em 24 e 25 de Maio de 2007, em Leipzig (CdR 163/2007 EN-EP/hlm, 9 págs.).

(2) Catarina Selada e Inês Vilhena da Cunha (colaboração Inteli, Inteligência em Inovação), “A criatividade é um «produto» urbano?”, Público, 4 de Fevereiro 2008.

(3) Abel Coentrão, “Tom Fleming - Quando a economia falha, sobra a cultura”, Público, 3 de Fevereiro 2008.

(4) Inês Vilhena da Cunha e Kathrin Calhau (colaboração Inteli, Inteligência em Inovação) – “Vauban e Ballard são realidades de comunidades sustentáveis”, Público, 11 de Fevereiro 2008.

(5) Joana Gorjão Henriques - “É a cultura, estúpido!”, Público, 16 de Novembro 2006.
Artigo concluído e editado em 17 de Fevereiro de 2008, Encarnação – Olivais Norte, Lisbo