sexta-feira, julho 21, 2006

Seis cantos contra a guerra - Infohabitar 94

 - Infohabitar 94

Disse-me o grande amigo e membro do Grupo Habitar, Khaled Ghoubar: “é o melhor que eu posso fazer contra esse absurdo no Líbano, e eu acho que eles podem ser muito úteis porque não pretendem ser parciais.”
E assim, sem mais comentários a não ser uma imagem, que ofereço ao Khaled, e com a qual partilho a intenção dos cantos, editam-se,

“Seis cantos contra a guerra.”

António Baptista Coelho




1/6
Quando ansiava pela paz,
me anunciaram a guerra.

Já gastei no passado quase todo o meu ódio,
hoje eu o conservo em pequenas garrafas,
como perfume.

Bateram à minha porta
com armas de fogo e armas brancas,
sem nenhuma bandeira branca...

Disse-lhes que eu saí
que a minha alma foi penar
onde as mães penam seus filhos mortos,
onde os filhos perdidos procuram suas mães,
onde o sangue não alimenta nada.

Disse-lhes que eu ali
era só um corpo inútil, desalmado
e que poderiam levá-lo para a guerra,
para aumentar as penas
das mães e dos filhos,
ambos perdidos nos escombros
que produzirei.

Me carregaram em regozijo,
me carregaram morto-vivo,
eu que só queria parar
para chorar todos os mortos.

Khaled Ghoubar 19 07 2006


2/6
Já viram a mãe muçulmana
no quadro de Guernica?

Já identificaram a criança judia
no quadro de Guernica?

Já sentiram o cheiro
de carne humana dilacerada,
soterrada, carbonizada?
Dizem que começa com um cheiro doce...
que depois atrai os abutres!

Guernica, de guerreiros carniceiros,
que escória é essa gente
que chamamos de humanos?

Não são judeus, nem são muçulmanos!

Khaled Ghoubar 19 07 2006


3/6
Antes que sobre só estupidez
e rancor dilacerante,
faço meu testamento de fé:

De nada adianta matar o corpo
se a alma é imortal;
De nada adianta castigar
o mal com o mal
que nunca nascerá o bem;
De nada adianta me ofender,
serão sempre injustos;
De nada adianta queimar minha casa,
sei reconstrui-la com cinzas;
De nada adianta me expulsar,
a memória dos meus pés me trará de volta;
De nada adianta me acusar,
eu sou uma peça de dominó;
Eu só queria a ingenuidade honesta
de uma paz definitiva;
Não quero flores,
choros e tiros para o ar,
só quero o silêncio dos campos arados;
Eu quero que eles atravessem a fronteira
para apararem no peito
as balas que eles desferiram;
Não haverá nem céu, nem inferno,
só um eterno murmúrio de lamento.

Khaled Ghoubar 19 07 2006



4/6
Não vai dar certo!
Eles gostam de fogo
e eu do vento...

Eles gostam de brincar de policial
e me tratarem como bandido...

Eles não querem ver
que “beith” muçulmano
é o mesmo “beith” judeu...

Todas as mortes para eles
são muito divertidas,
do outro lado da fronteira...

O TodoPoderoso
os castigará com a simetria,
eles que são ignorantes
da Geometria Divina,
são filhos do Caos.

Eu sou simplesmente
um homem preocupado,
ajudando os salmões
a subirem os rios.

Khaled Ghoubar 19 07 2006
5/6
Enquanto a guerra não acaba,
no Vale do Anhangabau
o PCC montou um telão
que de 5 em 5 minutos
dá o escore da guerra,
enquanto escrotos fazem apostas.

Quantas mortes faz uma vitória?
Quantas vitórias faz um campeão?
Quem é o demente juiz
desse jogo macabro e absurdo?

Khaled Ghoubar 19 07 2006


6/6
Antes que tudo volte ao normal,
como é normal...

Antes que as orações
sepultem para sempre
os corações expostos
pela bala ou pela dor.

Antes que as fronteiras se abram
para recolher e trocar seus mortos.

Antes que uma mãe
em desespero grite em hebreu
e uma criança
em pânico responda em árabe.

Antes que se esqueçam da barbárie
que é lavar a Terra Santa
dos muçulmanos e judeus
com o sangue de inocentes iludidos,
enlouquecidos, e enraivecidos,
judeus e muçulmanos.

Antes que se esqueçam
do enxofre e da prata
nessas terras enterrados.

Antes que se esqueçam...

Khaled Ghoubar 19 07 2006

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