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segunda-feira, fevereiro 26, 2018

Microfunções e microespaços domésticos: uma abordagem geral – Infohabitar 632

Infohabitar, Ano XIV, n.º 632
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CV

Microfunções e microespaços domésticos: uma abordagem geral 

por António Baptista Coelho


Uma nova microfuncionalidade doméstica

Quando se colocam em causa “regras” domésticas árida e cegamente funcionalistas e rigidamente hierarquizadas, num tempo marcado por tanta diversidade nos modos e desejos e necessidades habitacionais e por tantas novidades tecnológicas aplicáveis ao espaço doméstico, estamos, provavelmente, também em tempo de fazer “descer” a estruturação funcional da habitação das grandes funções (ex., dormir, estar, cozinhar, tomar refeições) para uma densa e muito variada rede de microfunções aplicáveis a um espaço doméstico e de trabalho, pessoal e familiar, que assim se definirá, muito positivamente, em termos da harmonização entre essenciais aspectos funcionais e igualmente essenciais aspectos de identidade e apropriação domésticas, numa nova mistura formal e funcional, que, sendo bem desenvolvida, enriquecerá a experiência da respectiva vida diária e poderá, até, incrementar o valor global desse espaço doméstico, que passa a ser um espaço positivamente caracterizado e expressivamente “único”.



“Novos casulos” domésticos

Generalizando, podemos considerar que haverá algumas acções domésticas que poderão “libertar-se” das respectivas e mais correntes “prisões” espaciais e funcionais, reconvertendo-se em termos da sua caracterização própria e dos seu relacionamentos mútuos mais correntes em microfunções associáveis a pequenos espaços tendencialmente agregáveis em alguns espaços maiores (ex. “clássico”, recanto de preparação de refeições associável a grande cozinha multifuncional ou a sala-comum). E será interessante, embora não seja aqui feito, imaginar uma rede de microfunções disseminadas na habitação, embora se alerte para um reviver de uma nova rigidez, agora microfuncional, que provavelmente poderá ser bem combatida por uma reflexão sobre as relações microfuncionais que se considerem específica e mutuamente incompatíveis, designadamente, por questões associadas a aspectos de segurança e de sanidade.


Desta forma o novo habitar, aqui mais confinado à escala doméstica e privativa, poderá caracterizar-se, seja por uma relativamente habitual estrutura espacial, marcada por espaços conhecidos e aos quais atribuímos usos correntes e habituais, seja por uma outra camada de dispositivos espaciais e funcionais e/ou de virtualidades espaciais e funcionais que irão associar-se, diversamente e até inesperada ou inusitadamente àquela estrutura espacio-funcional mais “clássica”, reconvertendo-a em soluções domésticas extremamente marcadas por gostos, desejos e até “manias” ou idiossincrasias que, afinal, irão transformar um espaço antes impessoal numa verdadeira e própria casca de caracol bem à medida das nossas necessidades pessoais mais íntimas e dos nossos sonhos: uma casca de caracol que caracteriza bem o que também poderemos referir como “novos casulos” domésticos.


Naturalmente que uma tal opção “espacio-funcional-formal-caracterizadora” obrigará a um espaço doméstico bem marcado por uma ampla adaptabilidade, mas desde que esta função de adaptabilidade doméstica possa exercer-se sem influenciar potencial e significativamente a saúde e o bem-estar dos habitantes, num caminho que parece poder ser extremamente positivo e enriquecedor por proporcionar casas muito mais ligadas à identidade e ao gosto de cada um; mas atenção que esta perspectiva parece influenciar, mais fortemente, as habitações com menor número de quartos, e, portanto, mais ligadas a uma ocupação humana mais reduzida.


Seguem-se pequenos textos de comentário breves sobre alguns micoespaços domésticos tendencialmente privativos e diferenciados, que podem marcar e enriquecer funcional e espacialmente os espaços comuns domésticos – proporcionando-se estar razoavelmente “sozinho/à parte”, mas potencialmente em companhia. Mas salienta-se que, de nenhuma forma, os espaços em seguida apontados esgotam o amplo e rico leque potencial de microespaços domésticos, um leque que foi, aliás, extensamente abordado, já há muitos anos, na magistral “Linguagem de Padrões” de Alexander et. Al – uma obra que é sempre importante revisitar. 


Alcovas

Uma alcova ou recanto de dormir/repousar pode integrar-se bem num espaço amplo com características potencialmente conviviais, proporcionando quer o maior desafogo no convívio, quer a possibilidade de se realizar uma actividade individualizada, mas numa situação de companhia mútua, o que pode ser muito apreciado por pessoas que, por exemplo, tenham dificuldade de concentração quando isoladas; e na prática corresponde, sempre, a uma positiva alternativa para desenvolvimento das mais diversas actividades, para além de enriquecer espacialmente o espaço maior onde se integra.


Regulamentarmente impossíveis ou, pelo menos, bastante difíceis as alcovas podem ter inúmeras apropriações, para além de serem os espaços/cama que as caracterizam, sendo possível integrarem pequenos e intimistas espaços de trabalho e/ou lazer pessoal, grandes “recantos” estratégicos para a arrumação e exposição de colecções, recantos de leitura bem povoados por livros e quadros nas paredes, etc.


Trata-se, aqui, de uma matéria doméstica e arquitectónica de grande importância histórica e que pode e deve ter um adequado reaproveitamento numa urgente revisão dos aspectos exigenciais que devem estruturar a concepção habitacional, visando-se, designadamente, a geração de soluções mais diversificadas, adaptáveis e versáteis a diversos modos de habitar e à respectiva mutação de gostos e necessidades habitacionais.



Vestíbulo ou corredor pessoal

Caso os espaços de vestíbulo ou corredor que sirvam determinados espaços domésticos mais privados sejam adequadamente dimensionados e estruturados, eles podem agregar às respectivas funções de circulação e recepção, outros aspectos/funções variados e estimulantes, como aqueles associados a uma adequada apropriação e identificação dessa zona da habitação, mas também outros aspectos tão identificadores como funcionais, como é o caso de alguns tipos de arrumações, designadamente, de livros, elementos decorativos diversos, colecções, etc.


Não tenhamos dúvida de que o resultado será excelente, seja porque, assim, se consolida a coerência/fluidez de todo o espaço interior doméstico – reforçando-se funcional e ambientalmente as zonas de ligação entre espaços principais –, mas também porque haverá mais espaços específicos e diversificados para usos específicos e diversificados, mais apropriação do espaço doméstico e um maior potencial funcional, designadamente, associados a uma mais expressiva repartição/disseminação dos variados perfis de arrumação doméstica.


Ainda um aspecto interessante nesta perspectiva é o resultado global que pode ser trazido ao espaço doméstico que agregue microespaços domésticos deste tipo – em que há quase uma marcação de aproximação e um expressiva identificação/apropriação –, que pode resultar numa marcação global muito rica, quase de uma grande habitação formada de outras quase “pequenas habitações”.  


Parece ser, ainda, interessante anotar que no caso contrário, de existência de significativos espaços de acesso doméstico “privativos” e funcionalmente limitados ao seu uso como circulação, tais espaços acabam por poder constituir-se como relativos bloqueios funcionais/ambientais na desejável fluidez do espaço doméstico. 


Marquise ou varanda

Antes de abordar esta matéria há que salientar que a “marquização selvagem”, clandestina e desregrada das varandas habitacionais é, realmente, uma verdadeira praga responsável pela crítica deterioração da imagem urbana e residencial de muitos dos nossos bairros e cidades, e que deveria ser energeticamente combatida e regenerada, de forma estratégica e designadamente em vizinhanças e bairros expressivamente patrimoniais, com é, por exemplo o caso de Alvalade, Campo de Ourique e Olivais Norte, em Lisboa.


No entanto, a concepção, de origem (quando da concepção da solução habitacional) de espaços de marquise, adequadamente encerrados e programados em termos de conforto ambiental, pode permitir excelentes espaços de transição, quer entre um interior mais “protegido”/recatado e o exterior caracterizadamente público, quer entre espaços exteriores e interiores bem marcados; podendo ser muito interessantes os usos domésticos, mais privatizados ou mais comuns, destes espaços e sendo, ainda, interessantes as vistas que eles poderão permitir, do lado do espaço público, sobre os interiores habitacionais – um pouco como “olhadelas”  fugazes sobre aspectos caracterizadores de interiores domésticos mais “divulgáveis”. Mas salienta-se, novamente, que apenas é de aceitar a marquise/”jardim de Inverno” adequadamente projectada em total sintonia com o respectivo edifício.


Lugar-janela ou janela-lugar

Embora esta matéria da associação entre recantos domésticos e vãos exteriores com vista e /ou luz natural, seja retomada mais à frente, nesta série editorial, não poderíamos deixar de a apontar aqui, ainda que sumariamente, e por duas ordens de razões.


A primeira razão, que parece óbvia, mas que não deve ser descurada, tem a ver com o resgate de uma negativa concepção habitacional que tendia a considerar a geração do espaço interior, pelo menos, um pouco separada da geração dos respectivos vãos exteriores – e quem o negue está a fugir à verdade, julga-se, pelo menos quando não estamos a tratar de arquitectura de qualidade.


A segunda razão refere-se à enorme força expressiva e ao fortíssimo conteúdo de imagem/função que estão associados à geração de “lugares-janelas” – que associam pequenos espaços, bem caracterizados, à contiguidade de vãos exteriores – e de “janelas-lugares” – vãos exteriores que, pela sua força expressiva, amplitude e adequada pormenorização se acabam por constituir em verdadeiros pequenos mas importantes subespaços domésticos; e nesta categoria há que salientar o grande interesse das bay-windows, vãos exteriores com variadas tipologias de pormenor e que, de certo modo, fazem expandir pontual/localmente o espaço interior doméstico sobre o exterior contíguo, proporcionando estar, um pouco, lá fora, mas também no agradável interior da habitação e, simultaneamente acabam por marcar esse exterior urbano de vizinhanças e pequenas ruas citadinas com pontuais, mas estimulantes e rítmicos sinais domésticos.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 632

Microfunções e microespaços domésticos: uma abordagem geral 

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho

Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Uma nova funcionalidade doméstica - Infohabitar n.º 627

Infohabitar, Ano XIV, n.º 627

Número total de visualizações de página da Infohabitar em 15 de Janeiro de 2018 às 9h,00 (de Portugal): 999,964

CAROS LEITORES, ESTÁ MESMO, MESMO A  SER  ULTRAPASSADA A “BARREIRA" DO MILHÃO DE VISUALIZAÇÕES EM 14 ANOS DE EDIÇÕES DA INFOHABITAR

Parabéns a todos os autores e leitores que editaram e leram os nossos artigos; e vamos tentar chegar aos dois milhões mais cedo (antes dos 28 anos de edições), e para isso precisamos de artigos e de divulgação – artigos que nos sejam enviados (para abc.infohabitar@gmail.com) e uma divulgação que cada um de vós possa fazer no vosso “círculo” profissional e pessoal de contactos.

PS: e acreditem que, há 14 anos atrás, começámos mesmo com o contador a "0"; foi difícil, mas agora dá bastante prazer.


Fig. 01: Embora se critique neste artigo o mau uso e a continuidade de um uso datado e inadequado do funcionalismo arquitectónico habitacional é urgente lembrar e divulgar os excelentes exemplos de um adequado funcionalismo urbano e arquitectónico dominantemente residencial, que seria bem importante resgatar, recuperando as suas imagens urbanas e divulgando as suas excelentes realizações - no esboço, uma vista do exemplar e actualmente tão pouco estimado Bairro de Olivais Norte em Lisboa, um verdadeiro caso de referência nacional e europeu que assim deveria/deverá ser tratado.


Edita-se o artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CIV

Uma nova funcionalidade doméstica

por António Baptista Coelho

Uma nova funcionalidade doméstica - o tais, bem conhecidos, espaços funcionais domésticos, mas agora bem personalizados, diversos, agradáveis e envolventes


Uma nova e mais adequada funcionalidade doméstica
O que se procura apontar no texto que se segue é a possibilidade e a oportunidade de se seguirem outros caminhos na concepção dos espaços habitacionais privados que não sejam os que são, habitualmente, associados a aspectos específicos de funcionalidade e mesmo de alguma “maquinização” das actividades que marcam a nossa vivência doméstica.
Tais ideias referem-se, essencialmente, aos espaços de cozinha e de casa de banho, embora outros espaços e subespaços da casa também possam e devam ser reencarnados numa perspectiva que não lhes negue as suas exigências funcionais, mas que as recoloque, finalmente, sob a alçada de uma agradável e vital caracterização doméstica; acabando de vez com a ideia de “máquinas de habitar”, assim reconvertidas a máquinas habitáveis e “domesticadas”.
E de certa forma esta mesma perspectiva de recuperação do sentido doméstico, agradável, envolvente, sossegado/calmo, caloroso, agradavelmente expressivo e identitário do habitar e especificamente dos espaços da habitação, é um caminho que vai continuar a ser abordado em próximos textos, referidos aos desejáveis subespaços que têm de compor/integrar e vitalizar/caracterizar os espaços maiores da habitação; e neste sentido obrigando-os a determinadas condições de adaptabilidade e versatilidade no seu uso e na sua apropriação.
Neste sentido e desenvolvendo um exercício que será interessante e muito rico alargar a múltiplos espaços habitacionais, iremos, em seguida, reflectir um pouco nesta perspectiva, e especificamente sobre as duas sub-tipologias espaciais domésticas que estão mais ligadas a essa “tradição” funcionalista, designadamente, os espaços de cozinha e de casa de banho. Naturalmente que sabemos não se tratar apenas de uma “tradição” funcionalista, pois, evidentemente, tais espaços têm exigências funcionais específicas e rigorosas, no que se refere a aspectos de segurança no uso, higiene, facilidade de limpeza, manutenção e “cadeias” funcionais aconselháveis, mas parece ser tempo de salvaguardar tais exigências, mas, no mínimo, harmonizando-as tendo em conta alguma novidade e/ou redescoberta associadas a um expressivo e eventualmente dominante sentido de domesticidade, sendo tempo de reencarar tais espaços com essa abertura de espírito e considerando, mesmo, que estas novas ou renovadas opções possam ter, eventualmente, expressão directa na própria caracterização das respectivas habitações.
E neste sentido abordam-se, em seguida, os espaços de cozinha e de casa de banho, fazendo-se uma pequena nota final sobre os espaços/elementos de arrumação e outros espaços ditos “de serviço”.

Fig. 02: está na altura de olharmos as "velhas" tipologias de vizinhança próxima e de edifício e habitação, nas suas mútuas relações e agregações, com outros olhos, inspirando-nos nelas para se iventarem "novas" tipologias "pós-funcionalistas".

Novas e antigas cozinhas

O espaço de cozinha constitui, historicamente, o núcleo e o coração de actividade da habitação, pelo menos quando pensamos na habitação popular, aquela que sempre foi, naturalmente, dominante e onde não existia pessoal dedicado à preparação e ao servir das refeições, e um coração da vida doméstica onde a preparação, o servir e o tomar as refeições era natural motivo de convívio familiar; um convívio que se passava também antes e depois das refeições e ao longo do seu alongado processo de preparação e que tinha e tem naturais “prolongamentos”, designadamente, no acompanhamento do recreio e do trabalho de casa/estudo das crianças e em muitas outras tarefas da “lide” doméstica que, globalmente, aconteciam também na cozinha ou “grande cozinha familiar”.
No âmbito da promoção habitacional intensiva que marcou o Século XX e em certo período histórico marcado pelas essenciais preocupações higienistas, seguidas das suas sequenciais preocupações funcionalistas, e numa altura em que muitas famílias ainda tinham apoios domésticos diversificados, seja no âmbito da família alargada, seja por parte de pessoal de serviço doméstico (muitas vezes reduzido já ao mínimo), assistiu-se como que a uma especialização da cozinha, tendo ficado o tratamento de roupas um pouco “pendurado” (sem espaço ou com pouco espaço específico atribuído), isto porque a tendência de funcionalização e especialização não conseguia servir bem todas as tantas funções entretanto identificadas; e assim certas funções da antiga cozinha multifuncional e convivial foram sendo menorizadas e integradas em espaços por vezes exíguos e mal localizados (ex., em espaços claramente residuais), enquanto as importantes funções de convívio natural e de refeições informais foram estrategicamente esquecidas ou então ridiculamente concentradas em pequenas mesas escamoteáveis e tantas vezes muito mal localizadas.
E, naturalmente, a regulamentação oficial fez eco desta “evolução”, que foi, inicialmente, positiva no sentido de se regrarem situações sem higiene/segurança e sem qualquer sentido funcional, mas que foi negativa porque empobreceu clara e gradualmente, ao longo do Século XX, toda a concepção arquitectónica doméstica (incluindo-se aqui, incrivelmente, não só a designada “habitação social/mínima”, mas a quase totalidade da promoção habitacional, que assim foi “simplificada”), seja no sentido do que seria uma importante continuidade cultural, seja no sentido da adaptabilidade a tantos e variados modos de viver a habitação.
E lembremos que hoje em dia, então, é que não há “pessoal doméstico”, que fique como que confinado aos espaços de “serviço”, a não ser em casos de excepção, e, portanto, estas considerações têm todo o sentido, devendo influenciar ou uma relação forte entre cozinha e estar, eventualmente, gerando-se amplos espaços de convívio familiar do tipo “sala de família”, ou uma redescoberta da grande cozinha familiar, multifuncional e convivial, a qual acaba por poder libertar o espaço de sala para funções mais específicas e/ou mais reservadas. E, já agora, lembremos as designações tantas vezes usadas para as cozinhas domésticas: espaços de serviço, zonas de água, zonas húmidas, etc – e vá lá que regulamentarmente elas sempre contaram como “área habitável” (a mais “valiosa” em termos regulamentares).  
 

Novas casas de banho

Quanto às “casas de banho” importa sublinhar a possibilidade de desenvolvimento da “figura” do espaço de banho com um sentido caracterizador e caracterizado por determinadas formas de viver a habitação. Situação que poderá ligar-se ao desenvolvimento de associações entre espaços de banho e outros espaços de estar, dormir e lazer com forte carácter identitário e relativamente privativo, embora espacialmente pouco controlado em termos dimensionais. O exemplo de um tal espaço é o sítio de banho de uma das casas do Arq.º Charles Moore, que se integra num espaço de estar e assume mesmo uma posição destacada neste espaço.
O sentido desta solução liga-se à recuperação de formas de banho tradicionais/antigas, que se associavam com flexibilidade aos diversos espaços da habitação, assumindo-se o banho como acto de prazer, além de função higiénica, acto esse expressivamente ambulatório, pois podia acontecer tanto junto a uma lareira, como numa grande cozinha multifuncional, neste caso por razões práticas de proximidade com a fonte de água quente.
De certa forma esta matéria de uma desejável recuperação do sentido amplo, de lazer e de prazer, do banho doméstico liga-se por um lado, ao interesse da separação entre funções higiénicas e de satisfação de necessidades básicas e o acto do banho, designadamente do banho de imersão, como função que tem também evidentes vantagens em termos da saúde, a tal “saúde pela água” (SPA), actualmente tão divulgada em equipamentos de turismo, mas que evidentemente deveria ter o seu papel garantido na habitação corrente.
Tudo isto tem também a ver com uma urgente opção de dignificação da “casa de banho” doméstica, resgatada da sua designação de “instalação/instalações sanitária/s” e que pode/deve assim deixar de ser relegada para os espaços interiores sobrantes das soluções habitacionais, ganhando direitos “de janela”, de desafogo espacial e de dignidade, identidade e até uma importante afectuosidade de acabamentos; em vez da fria disponibilização de um pequeno “mausoléu” de concentração de canalizações, serviços higiénicos e, por outro lado, luxos incoerentes em termos de “equipamentos sanitários” e de revestimentos até absurdamente impermeáveis).
E será sempre interessante reconsiderar a opção por um banho que possa ir mudando de sítio, conforme desejos e aspectos práticos (o caso do banho dos bebés é um bom exemplo deste tipo de banho), ou pela consideração do banho de imersão como elemento “central” de uma dada organização de um dado espaço doméstico estruturador da respectiva habitação – o que acontece no referido exemplo da casa de Charles Moore.
Importa ainda ter em conta que uma casa de banho pode e deve proporcionar uma expressiva apropriação em termos de arranjo geral, podendo constitui-se como extensão de um mundo muito pessoal, por exemplo, pela profusão de plantas tropicais e pela introdução de peças de mobiliário e de equipamento sanitário especiais, como é o caso de algum mobiliário especial e de uma velha banheira. De certo modo o que aqui se pode reforçar é o sentido de “casa de banho” personalizada e confortável, sendo para tal essencial a existência de boas condições de luz  e ventilação naturais.
E não tenhamos dúvidas que nada disto é compatível com espaços de “casa de banho” (realmente de “instalações sanitárias”) mínimos e interiores (tantas vezes encaixando mal até uma exígua banheira).


Fig. 03: a habitação ganha em carácter/identidade e verdadeiras funcionalidades com variadas e estimulantes misturas de usos e apropriações, que, no entanto, exigem um natural suporte dimensional e de estruturação doméstica.


Espaços/elementos de arrumação: breves notas

Sobre uma nova forma de encarar os espaços e elementos/equipamentos destinados à arrumação doméstica, apenas se lembra que é vital para um bom uso da habitação que ela integre uma adequada capacidade de arrumação (capacidade para mobilar, armários embutidos e compartimentos específicos), e que é possível estruturar a habitação com uma tal capacidade, deixando-a camuflada ou até parcial e estrategicamente visível, mas sempre bem “subjugada” na sua aparência e modo de usar a um ambiente expressivamente doméstico; não faz sentido é esquecer tais necessidades e/ou tratá-las sem sensibilidade de concepção, “colando”, posteriormente, “arrumos” a espaços anteriormente pormenorizados sem se considerar tal necessidade. 

Outros espaços “de serviço”: breves notas

Numa perspectiva de sensível “domesticação” da “velha” funcionalidade doméstica e visando-se uma promoção habitacional económica, não fará, talvez, muito sentido avançar com outras exigências funcionais muito desenvolvidas, podendo ser, eventualmente, preferível a junção dessas funcionalidades em diversos espaços domésticos, que para tal sejam suplementarmente dimensionados e proporcionando-se, assim, uma expressiva multifuncionalidade em diversos subespaços da habitação; e apenas a título de exemplo podemos imaginar a integração de máquinas de tratamento de roupa em casas de banho espaçosas, o desenvolvimento de uma varanda fechada que possa ser usada, em parte, para estender a roupa  e, em parte, como pequena zona de estar, a existência de espaço suplementar na cozinha para se poder passar a ferro e a existência de largos corredores de circulação, arrumação e estar especializado (ex., para leitura e estudo).

Como comentário a estas reflexões e na sua sequência, parece ser adequado apontar a oportunidade de se ir no sentido de se reequacionar a globalidade das “ditas” e bem conhecidas funcionalidades domésticas; e um pouco nesta perspectiva  em próximos artigos desta série iremos abordar a riquíssima matéria dos subespaços domésticos.

Notas finais:
Lembra-se que por motivos totalmente alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já divulgámos, a maior parte dos artigos desta série editorial não conta, neste momento, com as respectivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caracterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens; em tempo procuraremos ir repondo as referidas ilustrações, agora através de uma ferramenta integrada no próprio processo editorial do nosso blog/revista - o Blogger.
Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sedeado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 627
Uma nova funcionalidade doméstica

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, julho 26, 2015

Lavandaria doméstica - Infohabitar n.º 543

O 3.º CIHEL recebeu 118 propostas de artigos.

Infohabitar, Ano XI, n.º 543

Lavandaria doméstica - Infohabitar n.º 543

António Baptista Coelho
Artigo LXXXIV da Série habitar e viver melhor


Continuamos, em seguida, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar.
Estamos a abordar , com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e continuamos a desenvolver uma reflexão sobre os espaços de lavandaria domésticos.

Lavandaria doméstica - associações interessantes

Habitualmente a lavandaria e rouparia doméstica está associada à cozinha e, eventualmente, a uma casa de banho mais ampla, mas há que manter total independência com os usos ligados à preparação de refeições.

Lavandaria doméstica - hábitos interessantes

O estender a roupa no exterior é um hábito interessante que convém salvaguardar, havendo excelentes soluções que harmonizam esta atividade com o respetivo e relativo recato e a sobriedade da imagem pública produzida.


Fig. 01: pormenor de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 15 - 16, Arquitetura: Mats Molén.

Lavandaria doméstica - aspectos motivadores

A associação de boa parte do tratamento de roupa doméstico – lavar, engomar e costurar – num espaço desafogado do tipo sala de família ou mesmo grande cozinha familiar e multifuncional é uma solução associada a uma interessante dinamização do convívio doméstico, desde que os aspectos associados ao ruído da lavagem estejam minimizados, assim como os aspetos de ventilação que são essenciais.

Lavandaria doméstica - problemas correntes

Os problemas correntes nestas matérias têm a ver, frequentemente, com a quase ausência de apoios domésticos específicos ao tratamento de roupas, ou à existência de situações em que espaços desse tipo interiorizam criticamente os espaços de cozinha contíguos.
E há ainda que referir situações críticas onde se propõe uma íntima associação sem qualquer sentido entre tratamento de roupas e espaço de preparação de refeições – por exemplo com um estendal interior cruzando e cortando transversalmente o espaço de cozinha.



Fig. 02: pormenor de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 33 - 34, Arquitetura: Greger Dahlström.

Lavandaria doméstica -  questões levantadas por áreas mínimas

As áreas e dimensões mínimas agravam as situações de deficiente previsão do tratamento de roupas, tendendo a “amalgamá-lo” juntamente com as diversas funções de cozinhas, sendo estas espacialmente exíguas e mal equipadas.

Lavandaria doméstica - novidades e tendências (ex., idosos, etc.)

As principais tendências relativas ao tratamento de roupas doméstico na sociedade urbana actual, marcada pelo isolamento de cada um na sua célula habitacional têm a ver, frequentemente, com a transferência desta actividade para serviços especializados, uma solução que, provavelmente, será também bastante adequada a uma população envelhecida.
Fig. 03: pormenor de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 36 - 37, Arquitetura: Bengt Hidemark, Ingemar Jönsson.


References/Referências/notas


Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
(iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XI, n.º 543
Artigo LXXXIV da Série habitar e viver melhor
Lavandaria doméstica - Infohabitar n.º 543

Editor: António Baptista Coelho 
abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, julho 12, 2015

As máquinas domésticas - Infohabitar n.º 541

http://labhab.fau.usp.br/3cihel/ 



O 3.º CIHEL recebeu 118 propostas de artigos.

Infohabitar, Ano XI, n.º 541

As máquinas domésticas - Infohabitar n.º 541

António Baptista Coelho
Artigo LXXXII da Série habitar e viver melhor


Continuamos, em seguida, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar.
Estamos agora a abordar , com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e continuamos a desenvolver uma reflexão sobre os espaços de arrumação domésticos, seja no sentido do "arrumar" das máquinas domésticas, seja no que se refere à arrumação específica associada à lavandaria doméstica.

O arrumar as máquinas domésticas

Sobre o arrumar das máquinas domésticas já falámos um pouco, quando lembrámos o interesse que tem para agradabilidade da vivência na cozinha que não haja aqui significativas perturbações em termos de ruído.
Realmente há aqui uma dupla necessidade: que as maquinas de lavar roupa e louça e, eventualmente, de secar roupa estejam em locais “super-funcionais”, relativamente às suas diversas funções e que elas possam estar ligadas sem perturbarem o conforto acústico na cozinha e naturalmente em outros espaços domésticos de estadia e convívio.
Já se referiu que uma das soluções está na escolha de máquinas pouco ruidosas, e nesta matéria parece ser urgente que além da classificação relativa ao consumo energético seja facultada uma clara classificação relativa ao respectivo nível de ruído.
Outra solução será a arrumação das máquinas associadas ao tratamento de roupas num espaço próprio e acusticamente isolável da continuidade dos espaços associados à cozinha; condição esta que se julga ser até conveniente no sentido de se desenvolver um espaço específico de tratamento de roupas, bem distinto, tal como deve ser, do espaço de preparação de refeições, mas atenção que, sendo um espaço para instalação de máquinas, ele deve cumprir exigências rigorosas também em termos de isolamento relativamente ao exterior.

Fig. 01: pormenor de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 13 - 14, Arquitetura: Moore, Ruble, Yudell, Bertil Ohrström.

O frigorífico é uma outra grande máquina  doméstica cuja importância funcional, e até quase simbólica, bem como o seu muito significativo dimensionamento, exige um cuidado na respectiva integração na cozinha, muito pouco conseguido em casos habitacionais correntes. Realmente o frigorífico é, habitualmente, um verdadeiro grande armário, com importância crucial no funcionamento diário da cozinha, e até da própria vivência diária na habitação, cuja localização relativa é, habitualmente, fonte de más consequências na vivência da cozinha, tantas vezes atravancando o espaço de movimentação, ou prejudicando gravemente a possibilidade da cozinha ser também um espaço de refeições ou mesmo de estar, agradável para além de funcional, ou ainda constituindo, por vezes, uma barreira à entrada da luz natural no coração da cozinha.
A solução para esta situação, que é infelizmente frequente, até porque os frigoríficos têm sido cada vez maiores – lembremo-nos dos primeiros modelos à altura do ombro, habitualmente decorados/rematados por um urso polar em louça, e façamos uma comparação com os actuais “armários” frigoríficos com a altura de portas – tem a ver com uma adequada previsão da integração do frigorífico considerando a sua utilidade:
(i) na arrumação de alimentos;
(ii) no apoio directo à preparação de refeições;
e (iii) no apoio de serviço eventual a toda a habitação e designadamente ao funcionamento convivial da sala-comum.
Mas o frigorífico também deve ser considerado no que se refere ao seu aspecto visual, tendo em conta o seu volume muito significativo.
Considerando-se estes aspectos na estruturação pormenorizada da própria cozinha, de forma a harmonizar, claramente, a sua presença relativamente às várias actividades que se podem e devem desenrolar nas cozinhas – a ideia aqui é até que o frigorífico constitua um elemento de atractividade visual da própria cozinha, de certa forma aliando-se o que está, naturalmente, na vontade dos habitantes – evidenciando-se um grande electrodoméstico – com um sentido funcional e “ambiental” doméstico aprofundado.


Fig. 02: pormenor de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 13 - 14, Arquitetura: Moore, Ruble, Yudell, Bertil Ohrström.

O “arrumar” dos apoios ao tratamento da roupa e da própria roupa a secar

Outro esquecimento é frequente na estruturação dos espaços de serviço de uma habitação, referimo-nos aos espaços, ainda significativos, que são sistemática e semanalmente necessários para assegurar os diversos passos do tratamento das roupas domésticas.
Tal como acontece com outras funcionalidades domésticas estes espaços crescem, directamente, com a dimensão da família, e é racional, que, por exemplo, em habitações mínimas – com um quarto ou mesmo sem um espaço específico para quarto – estes espaços de tratamento de roupas possam até não existir, considerando-se que as pessoas que vivem sozinhas ou em casais, em zonas urbanas densas, poderão optar por fazer o seu tratamento de roupas fora de casa.
Será, no entanto, prudente que, mesmo nestes casos tal função seja pelo menos minimamente prevista – por exemplo, com espaço adequado para a instalação de uma máquina de lavar e secar roupa (exige pequena abertura própria para o exterior), até associada, por exemplo, a outros espaços funcionais.
Numa situação corrente é fundamental que haja uma previsão funcional, quer para o espaço de arrumação da roupa para levar, quer de um outro espaço relativamente desafogado para a montagem periódica de uma tábua para passar a ferro, quer de espaços específicos para arrumação de apoio de roupa já tratada, quer, naturalmente, de um espaço específico para colocar a roupa a secar no exterior. E há que sublinhar que todos estes espaços são funcionalmente exigentes e não são muito compatíveis com a preparação de refeições, exigindo, assim, cuidados específicos de previsão e de integração na habitação.
Naturalmente que uma cozinha espaçosa e funcionalmente desafogada pode acolher quase todas estas necessidades, com natural exclusão do espaço de estendal, numa base de funcionamento periódico, mas há que prever os espaços de arrumação de apoio e, sublinha-se, que quando não se verifica uma verdadeira espaciosidade o resultado será sempre a periódica geração de situações de atravancamento e de mistura entre roupas e cozinha, que parece ser sempre de evitar.
Quanto à previsão do estendal exterior é, como sabemos, um tema recorrente, com defensores da roupa a secar à vista de todos, porque é tradicional e é funcional e sustentável o aproveitamento do sol e do vento, e com detratores desta solução, procurando esconder estendais por considerarem menos adequada a sua exposição “pública”.
Entre uma e outra posição a ideia que parece ficar é que há soluções práticas, pouco dispendiosas, que proporcionam o secar exterior da roupa com eficácia – é mais o vento que seca a roupa do que o sol – e de forma pouco evidenciada ou até “camuflada” em termos de vistas públicas. Há ainda soluções de desmultiplicação do tratamento de roupas com a utilização do espaço de cobertura em terraço, dividido em pequenas parcelas “boxes” individualizadas, destinadas essencialmente à secagem de roupa.
Naturalmente, haverá a possibilidade de desenvolver soluções comuns de lavagem de roupa, designadamente, em conjuntos de pequenas habitações.
A ideia que fica, relativamente a estas soluções com diversas facetas de partilha de espaços e equipamentos comuns, é que elas não são, habitualmente, muito apreciadas, talvez pelo “convívio” obrigatório a que sempre obrigam; e, assim, a opção talvez mais viável de tratamento de roupa fora de casa é o que é realizado em serviços próprios, assegurados por firmas especializadas, e que, eventualmente, até poderão ter uma pequena delegação associada a um serviço diversificado de condomínio.
Sobre o arrumar de tudo o resto, de todos “os pequenos nadas” funcionais e não-funcionais, se falará, com algum pormenor, em outros artigos desta série editorial.

References/Referências/notas


Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
(iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XI, n.º 541
Artigo LXXXII da Série habitar e viver melhor
As máquinas domésticas - Infohabitar n.º 541

Editor: António Baptista Coelho –abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.