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segunda-feira, fevereiro 26, 2018

Microfunções e microespaços domésticos: uma abordagem geral – Infohabitar 632

Infohabitar, Ano XIV, n.º 632
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CV

Microfunções e microespaços domésticos: uma abordagem geral 

por António Baptista Coelho


Uma nova microfuncionalidade doméstica

Quando se colocam em causa “regras” domésticas árida e cegamente funcionalistas e rigidamente hierarquizadas, num tempo marcado por tanta diversidade nos modos e desejos e necessidades habitacionais e por tantas novidades tecnológicas aplicáveis ao espaço doméstico, estamos, provavelmente, também em tempo de fazer “descer” a estruturação funcional da habitação das grandes funções (ex., dormir, estar, cozinhar, tomar refeições) para uma densa e muito variada rede de microfunções aplicáveis a um espaço doméstico e de trabalho, pessoal e familiar, que assim se definirá, muito positivamente, em termos da harmonização entre essenciais aspectos funcionais e igualmente essenciais aspectos de identidade e apropriação domésticas, numa nova mistura formal e funcional, que, sendo bem desenvolvida, enriquecerá a experiência da respectiva vida diária e poderá, até, incrementar o valor global desse espaço doméstico, que passa a ser um espaço positivamente caracterizado e expressivamente “único”.



“Novos casulos” domésticos

Generalizando, podemos considerar que haverá algumas acções domésticas que poderão “libertar-se” das respectivas e mais correntes “prisões” espaciais e funcionais, reconvertendo-se em termos da sua caracterização própria e dos seu relacionamentos mútuos mais correntes em microfunções associáveis a pequenos espaços tendencialmente agregáveis em alguns espaços maiores (ex. “clássico”, recanto de preparação de refeições associável a grande cozinha multifuncional ou a sala-comum). E será interessante, embora não seja aqui feito, imaginar uma rede de microfunções disseminadas na habitação, embora se alerte para um reviver de uma nova rigidez, agora microfuncional, que provavelmente poderá ser bem combatida por uma reflexão sobre as relações microfuncionais que se considerem específica e mutuamente incompatíveis, designadamente, por questões associadas a aspectos de segurança e de sanidade.


Desta forma o novo habitar, aqui mais confinado à escala doméstica e privativa, poderá caracterizar-se, seja por uma relativamente habitual estrutura espacial, marcada por espaços conhecidos e aos quais atribuímos usos correntes e habituais, seja por uma outra camada de dispositivos espaciais e funcionais e/ou de virtualidades espaciais e funcionais que irão associar-se, diversamente e até inesperada ou inusitadamente àquela estrutura espacio-funcional mais “clássica”, reconvertendo-a em soluções domésticas extremamente marcadas por gostos, desejos e até “manias” ou idiossincrasias que, afinal, irão transformar um espaço antes impessoal numa verdadeira e própria casca de caracol bem à medida das nossas necessidades pessoais mais íntimas e dos nossos sonhos: uma casca de caracol que caracteriza bem o que também poderemos referir como “novos casulos” domésticos.


Naturalmente que uma tal opção “espacio-funcional-formal-caracterizadora” obrigará a um espaço doméstico bem marcado por uma ampla adaptabilidade, mas desde que esta função de adaptabilidade doméstica possa exercer-se sem influenciar potencial e significativamente a saúde e o bem-estar dos habitantes, num caminho que parece poder ser extremamente positivo e enriquecedor por proporcionar casas muito mais ligadas à identidade e ao gosto de cada um; mas atenção que esta perspectiva parece influenciar, mais fortemente, as habitações com menor número de quartos, e, portanto, mais ligadas a uma ocupação humana mais reduzida.


Seguem-se pequenos textos de comentário breves sobre alguns micoespaços domésticos tendencialmente privativos e diferenciados, que podem marcar e enriquecer funcional e espacialmente os espaços comuns domésticos – proporcionando-se estar razoavelmente “sozinho/à parte”, mas potencialmente em companhia. Mas salienta-se que, de nenhuma forma, os espaços em seguida apontados esgotam o amplo e rico leque potencial de microespaços domésticos, um leque que foi, aliás, extensamente abordado, já há muitos anos, na magistral “Linguagem de Padrões” de Alexander et. Al – uma obra que é sempre importante revisitar. 


Alcovas

Uma alcova ou recanto de dormir/repousar pode integrar-se bem num espaço amplo com características potencialmente conviviais, proporcionando quer o maior desafogo no convívio, quer a possibilidade de se realizar uma actividade individualizada, mas numa situação de companhia mútua, o que pode ser muito apreciado por pessoas que, por exemplo, tenham dificuldade de concentração quando isoladas; e na prática corresponde, sempre, a uma positiva alternativa para desenvolvimento das mais diversas actividades, para além de enriquecer espacialmente o espaço maior onde se integra.


Regulamentarmente impossíveis ou, pelo menos, bastante difíceis as alcovas podem ter inúmeras apropriações, para além de serem os espaços/cama que as caracterizam, sendo possível integrarem pequenos e intimistas espaços de trabalho e/ou lazer pessoal, grandes “recantos” estratégicos para a arrumação e exposição de colecções, recantos de leitura bem povoados por livros e quadros nas paredes, etc.


Trata-se, aqui, de uma matéria doméstica e arquitectónica de grande importância histórica e que pode e deve ter um adequado reaproveitamento numa urgente revisão dos aspectos exigenciais que devem estruturar a concepção habitacional, visando-se, designadamente, a geração de soluções mais diversificadas, adaptáveis e versáteis a diversos modos de habitar e à respectiva mutação de gostos e necessidades habitacionais.



Vestíbulo ou corredor pessoal

Caso os espaços de vestíbulo ou corredor que sirvam determinados espaços domésticos mais privados sejam adequadamente dimensionados e estruturados, eles podem agregar às respectivas funções de circulação e recepção, outros aspectos/funções variados e estimulantes, como aqueles associados a uma adequada apropriação e identificação dessa zona da habitação, mas também outros aspectos tão identificadores como funcionais, como é o caso de alguns tipos de arrumações, designadamente, de livros, elementos decorativos diversos, colecções, etc.


Não tenhamos dúvida de que o resultado será excelente, seja porque, assim, se consolida a coerência/fluidez de todo o espaço interior doméstico – reforçando-se funcional e ambientalmente as zonas de ligação entre espaços principais –, mas também porque haverá mais espaços específicos e diversificados para usos específicos e diversificados, mais apropriação do espaço doméstico e um maior potencial funcional, designadamente, associados a uma mais expressiva repartição/disseminação dos variados perfis de arrumação doméstica.


Ainda um aspecto interessante nesta perspectiva é o resultado global que pode ser trazido ao espaço doméstico que agregue microespaços domésticos deste tipo – em que há quase uma marcação de aproximação e um expressiva identificação/apropriação –, que pode resultar numa marcação global muito rica, quase de uma grande habitação formada de outras quase “pequenas habitações”.  


Parece ser, ainda, interessante anotar que no caso contrário, de existência de significativos espaços de acesso doméstico “privativos” e funcionalmente limitados ao seu uso como circulação, tais espaços acabam por poder constituir-se como relativos bloqueios funcionais/ambientais na desejável fluidez do espaço doméstico. 


Marquise ou varanda

Antes de abordar esta matéria há que salientar que a “marquização selvagem”, clandestina e desregrada das varandas habitacionais é, realmente, uma verdadeira praga responsável pela crítica deterioração da imagem urbana e residencial de muitos dos nossos bairros e cidades, e que deveria ser energeticamente combatida e regenerada, de forma estratégica e designadamente em vizinhanças e bairros expressivamente patrimoniais, com é, por exemplo o caso de Alvalade, Campo de Ourique e Olivais Norte, em Lisboa.


No entanto, a concepção, de origem (quando da concepção da solução habitacional) de espaços de marquise, adequadamente encerrados e programados em termos de conforto ambiental, pode permitir excelentes espaços de transição, quer entre um interior mais “protegido”/recatado e o exterior caracterizadamente público, quer entre espaços exteriores e interiores bem marcados; podendo ser muito interessantes os usos domésticos, mais privatizados ou mais comuns, destes espaços e sendo, ainda, interessantes as vistas que eles poderão permitir, do lado do espaço público, sobre os interiores habitacionais – um pouco como “olhadelas”  fugazes sobre aspectos caracterizadores de interiores domésticos mais “divulgáveis”. Mas salienta-se, novamente, que apenas é de aceitar a marquise/”jardim de Inverno” adequadamente projectada em total sintonia com o respectivo edifício.


Lugar-janela ou janela-lugar

Embora esta matéria da associação entre recantos domésticos e vãos exteriores com vista e /ou luz natural, seja retomada mais à frente, nesta série editorial, não poderíamos deixar de a apontar aqui, ainda que sumariamente, e por duas ordens de razões.


A primeira razão, que parece óbvia, mas que não deve ser descurada, tem a ver com o resgate de uma negativa concepção habitacional que tendia a considerar a geração do espaço interior, pelo menos, um pouco separada da geração dos respectivos vãos exteriores – e quem o negue está a fugir à verdade, julga-se, pelo menos quando não estamos a tratar de arquitectura de qualidade.


A segunda razão refere-se à enorme força expressiva e ao fortíssimo conteúdo de imagem/função que estão associados à geração de “lugares-janelas” – que associam pequenos espaços, bem caracterizados, à contiguidade de vãos exteriores – e de “janelas-lugares” – vãos exteriores que, pela sua força expressiva, amplitude e adequada pormenorização se acabam por constituir em verdadeiros pequenos mas importantes subespaços domésticos; e nesta categoria há que salientar o grande interesse das bay-windows, vãos exteriores com variadas tipologias de pormenor e que, de certo modo, fazem expandir pontual/localmente o espaço interior doméstico sobre o exterior contíguo, proporcionando estar, um pouco, lá fora, mas também no agradável interior da habitação e, simultaneamente acabam por marcar esse exterior urbano de vizinhanças e pequenas ruas citadinas com pontuais, mas estimulantes e rítmicos sinais domésticos.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 632

Microfunções e microespaços domésticos: uma abordagem geral 

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho

Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, dezembro 04, 2017

Espaços domésticos privados - Infohabitar 621 e Projeto KnowRISK

Infohabitar, Ano XIII, n.º 621 e Projeto KnowRISK

Sobre os espaços domésticos privados e pessoais: novo artigo e link para um velho artigos sobre o tema

por António Baptista Coelho


E (antes da nossa edição habitual) uma divulgação importante, de evento a realizar, em breve no LNEC:

Caros colegas,

No próximo mês de dezembro, de 11-12 de dez., terá lugar a Conferência

Final do projeto KnowRISK.

O KnowRISK — Know your city, reduce seismic risk through non-structural elements  —  é um projeto europeu orientado para a divulgação científica sobre risco e proteção sísmica não-estrutural. Este projeto assenta num consórcio de investigação composto por instituições de Portugal (IST e LNEC), Itália (INGV) e Islândia (EERC).

O evento inica-se no dia 11 (como poderão ver no site),  e o dia 12 será no LNEC onde ocorrerá uma Mesa Redonda destinada a fazer um balanço da intervenção KnowRISK e discutir o papel das escolas enquanto plataforma para a comunicação de risco.

Paralelamente, haverá uma pequena exposição, destinada a apresentar os
materiais utilizados ou feitos pelos alunos durante a intervenção nos
três países do consórcio knowrisk. Esta exposição será um pretexto para uma conversa entre a equipa KnowRISK e todos aqueles que se juntarem a nós, em
torno das questões de risco sísmico e medidas protetivas.

Convidamos todos a marcarem presença no dia 12 de dezembro.
(Auditório)!

Envia- se a ligação ao site da Conferência
(https://risklisbon.wixsite.com/knowrisk) onde é possível
conhecer com maior detalhe o que vai acontecer. 



Caros leitores, nesta edição da Infohabitar, depois de uma pequena introdução encontrarão um novo artigo sobre a estimulante temática dos espaços domésticos privados e pessoais e um link para uma “velho” artigo sobre o mesmo tema e que assegura uma introdução ao desenvolvimento, posterior, da matéria, de acordo com as diversas tipologias específicas desses espaços domésticos (ex, quartos, espaços para tranbalho, etc.). 

Em setembro de 2017 a Infohabitar retomou as suas edições semanais regulares e considerando que, durante um número muito significativo de semanas a Infohabitar editou artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma desenvolvida e comentada revisão desta matéria, antes de prosseguirmos na edição desta série; uma revisão que inclui, sublinha-se, sistematicamente, novos artigos de reflexão e comentário sobre cada uma das matérias específicas tratadas em cada edição.

Neste sentido apresentam-se, em seguida, o título interactivo do artigo da série “Habitar e Viver Melhor”, que aborda a temática dos espaços domésticos privados, e junta-se um novo artigo com reflexões sobre esta matéria. Em próximos artigos iremos aprofundar, tipo de espaço a tipo de espaço, as diversas subtipologias dos espaços domésticos mais privados e personalizados.

Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.

Lembra-se, ainda, que por motivos totalmente alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já divulgámos, a maior parte dos artigos desta série editorial (editados talvez ao longo de dois anos) não conta, neste momento, com as respectivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caracterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens; em tempo procuraremos ir repondo as referidas ilustrações, agora através de uma ferramenta integrada no próprio processo editorial do nosso blog/revista - o Blogger.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sedeado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.



Regista-se, em seguida, o artigo já disponibilizado na Infohabitar sobre a temática dos “espaços domésticos privados e pessoais” (basta clicar sobre o título para aceder ao respectivo texto):

- Espaços domésticos privados


Espaços domésticos privados e pessoais

(novo artigo)
As temáticas associadas e associáveis à matéria geral dos espaços domésticos privados e pessoais são extremamente amplas e tão sensíveis como significantes; portanto, não queremos correr o risco de dar a ideia de as irmos tratar, aqui, de forma exaustiva, iremos sim desenvolver, de seguida, uma reflexão geral e informal sobre o tema, aproveitando a oportunidade de o fazer antes de passar a uma viagem sobre o leque tipológico em que eles se disseminam, e tentar deixar algumas reflexões e ideias como pistas para posteriores incursões teórico-práticas; sendo que se procura que tudo isto seja feito numa perspectiva de inovação sustentada no tratamento da temática.

Tendo dito isto, importa, agora, clarificar o que se pode entender por “espaços domésticos privados e pessoais”, uma caracterização mais espacial/ambiental do que tipológica, e que se refere a todos aqueles espaços domésticos – especificamente compartimentados ou espacial/ambientalmente definidos (podem ser apenas parcialmente definidos – que têm tendencialmente um uso/apropriação privilegiando uma pessoa, um pequeno conjunto de pessoas (ex., irmãos), ou um casal, estando, assim, definidos, um pouco por contraste relativamente aos espaços domésticos com características tendencialmente ao serviço de todo o agregado familiar e conviviais, no sentido de poderem integrar reuniões mais alargadas, e ainda aqueles espaços que funcionalmente servem todo o agregado familiar, como será o caso das circulações e espaços de entrada na habitação, das arrumações gerais domésticas e das casas de banho de serviço comum.

Naturalmente que uma tal definição pode ser sempre discutível e pode ser encarada de forma limitada, quando queremos imbuir no espaço doméstico um sentido de expressiva adaptabilidade, concretizado em zonas que possam, eventualmente, mudar, radicalmente, de atribuição funcional ao longo do tempo (ex., quarto de dormir que se transforma em sala e sala que se converte em grande quarto de dormir e trabalhar).
No entanto uma expressiva caracterização de privacidade visual e ambiental, relativa ou quase total autonomização e capacidade de apropriação e identidade deve sempre marcar os espaços domésticos mais ligados a um uso pessoal exclusivo ou por um muito pequeno grupo de habitantes (ex., casal).    

São, designadamente, os seguintes os diversos tipos de espaços domésticos pessoais e personalizáveis de que aqui “falaremos”, caso a caso, em próximas edições:
 - Quartos
- Espaço de lazer/trabalho
- Pequenos escritórios e espaços de trabalho profissional em casa
- Outros espaços privativos e diferenciados
- Recantos vários
- Alcovas em espaços domésticos comuns

E desde já se regista que esta lista não é fixa, pois à medida que iremos mergulhando na matéria a potencial diversidade e dinâmica desta tipologia de espaços privados e desejavelmente personalizáveis será, espera-se, ampliada e reconvertida.

Talvez que a principal função doméstica exercida no espaço privado seja o sono, o repouso e actividades associadas, ligado a quartos que incluam camas e ou sofás/camas, uma condição que faz desde logo relevar a questão dimensional geral deste espaço, no qual a cama não deve integra-se de forma excessivamente ocupadora do espaço; caso contrário o quarto vai resumir-se a uma função de alcova, mas não dispondo das relações que, tradicionalmente, as alcovas proporcionam com espaços domésticos contíguos, sendo portanto uma espécie de alcova com eventuais caracterizações excessiva e negativamente encerradas e até, por vezes, ambientalmente negativas, se o volume de ar for reduzido e existir deficiente ventilação.

Numa outra perspectiva, embora ainda na faceta do conforto ambiental, é importante que os espaços domésticos mais privados sejam espaços caracterizadamente sossegados – relativamente isolados ou bem isoláveis do ruído exterior e doméstico – e dispondo de adequados elementos de controlo das respectivas condições de conforto ambiental, e designadamente da luz natural, proporcionando-se adequadas condições para o solo e o repouso sempre que estas sejam desejadas; são, portanto, os espaços domésticos mais sensíveis em termos de conforto ambiental global e nesta sensibilidade deverá entrar a questão da sua orientação preferencial relativamente ao movimento aparente do Sol, sendo que, habitualmente, a orientação a Nascente poderá proporcionar uma agradável harmonização com os ciclos naturais do homem em termos de despertar e adormecer. 

Um outro aspecto que é determinante no desenvolvimento dos espaços domésticos expressivamente privados e ligados a uma pessoa ou a um casal, é a sua capacidade para poder ser fortemente apropriado por quem directamente o habita, uma qualidade que tem a ver com diversas variáveis entre as quais se destacam; a espaciosidade suplementar depois de instalada(s) a(s) cama(s) e tendo-se, razoavelmente, em conta o “sobredimensionamento” que hoje caracteriza algumas camas; a disponibilidade e a funcionalidade de espaços e equipamentos de arrumação, em elementos de mobiliário específicos e/ou em roupeiros embutidos; a disponibilidade de adequados e amplos panos de parede para encostar mobiliário e para pendurar quadros e espelhos; e a possibilidade de se desenvolverem outras pequenas áreas funcionais complementares ou enriquecedoras do espaço, como espaço de toucador e/ou de escrivaninha e sítio para pequeno sofá, bem situados na proximidade de janela; e naturalmente a relação deste espaço com uma casa de banho privativa ou próxima – sendo ainda possível desenvolver outras enriquecedoras relações entre um espaço privativo basicamente centrado nas funções dormir, descansar, lazer e as micro-funções ligadas ao banho.

Naturalmente que tais possibilidades dependem muito da espaciosidade básica do espaço privativo/quarto em questão, mas há aqui dois aspectos que importa salientar: sendo um deles que é sempre desejável aliar outras micro-funções, realmente possíveis, à habitual função-base do dormir/descansar, e isto ainda que tais possibilidades sejam razoavelmente muito delimitadas (ex., uma pequena escrivaninha servindo também como apoio de cabeceira à cama), pois a multifuncionalidade enriquece o conteúdo e a imagem dos quartos; e que é interessante e talvez desejável que tenhamos em conta as metodologias de concepção dos bons quartos de hotel, quando pensamos nos quartos domésticos – sem dúvida que muito com eles aprenderemos, designadamente, nesta criação de micro-zonas funcionais adequadas, atrentes e mutuamente bem ligadas.

Hoje em dia considerar um quarto como espaço de lazer/trabalho em condições expressivas de privacidade é condição essencial que importa assegurar pois, cada vez mais, muito trabalho pode ser realizado à distância, mas devendo, sempre, associar-se a condições, pelo menos mínimas, de suporte do mesmo, seja em termos funcionais, seja em termos de resguardo da privacidade e de adequado conforto ambiental (ex., isolamento sonoro, iluminação natural, conforto higrotérmico, vistas agradáveis sobre o exterior). E, naturalmente, que tais condições também servem o lazer doméstico.
E deverá existir, sempre, um suplemento espacial que proporcione um “suplemento de convívio potencial”, sendo muito pouco agradável e “doméstico”, que, por exemplo, no quarto de um dado jovem não seja possível a recepção, ainda que em condições apenas mínimas e claramente informais, de outros dois ou três jovens.

Uma outra tendência que já não é nova, mas que parece avolumar-se, é o desenvolvimento de pequenos escritórios e outros espaços de trabalho profissional em casa, numa tendência que a vulgarização das videoconferências e dos apoios tecnológicos baratos e vários ao trabalho doméstico (ex., máquinas de impressão, scanner e fotocópia e mecanismos de autenticação de assinaturas) vai tornando mais efectiva; sendo realmente já possível para muitas profissões e metodologias de trabalho por objectivos que o tempo de trabalho individual possa ser realizado em casa.
Mas para tal há que proporcionar condições adequadas, que se sintetizam em três vertentes gerais: (i) adequada e estimulante espaciosidade e capacidade para integrar mobiliário e equipamento; (ii) muito adequadas e estimulantes condições de conforto ambiental e de relação com o exterior, pois podemos estar, aqui, a abordar períodos de trabalho muito alongados ; e (iii) estratégicas capacidades para um funcionamento do espaço de trabalho de uma forma razoável ou totalmente autonomizada relativamente ao restante espaço doméstico – condição esta que está dependente da recepção corrente de pessoas estranhas ao agregado familiar (ex., clientes), e que pode ser matizada por estruturações gerais da habitação caracterizadamente adaptáveis a diversos tipos de ocupação espaço-funcional.

Naturalmente que este último tipo de espaços domésticos poderá existir de modo totalmente integrado com outras funções privadas, como o caso do dormir e do repouso pessoal, caso as condições dimensionais e ambientais do compartimento assim o proporcionem (ex., grande quarto com boas janelas) e, desejavelmente, através de um cuidado específico com o respectivo mobiliário e equipamento.   


Estivemos, aqui, dedicados a espaços específicos destinados a uma actividade de estudo e/ou trabalho com algumas exigências em termos espaciais e funcionais, mas no campo de uma adequada concepção doméstica importa considerar e assegurar que muitas das principais actividades domésticas, que são, globalmente, adstritas a um dado compartimento bem definido, serão melhor realizada, quando de certa forma repartidas ou disseminadas por conjuntos de sub-espaços que podem ter exiggências específicas de espaço, funcionalidade, conforto e ergonomia, caso se pretenda que estes sub-espaços sejam bem e intensamente usados e as suas sub-actividades possam aí ser estimulantemente desempenhadas.

E para além de tais sub-espaços mais correntes, haverá todo um leque de passatempos cujo exercício pode depender de espaços de apoio específicos, que não se compadeçam de uma integração limitada a uma zona de um dado móvel, mas sim a um dado móvel e eventuais outros equipamentos, agradavelmente integrados naquele espaço e/ou naquele recanto e/ou naquela passagem espaçosa; e tudo isto faz uma habitação mais apropriável, estimulante e realmente doméstica.

E, já agora, comenta-se que entre estes passatempos haverá alguns, tão diversos e interessantes, como é o caso da bibliofilia, da aquarofilia e da filatelia, que podem mesmo vir a assegurar um lugar de destaque num dado compartimento e mesmo numa dada habitação e para tal há que disponibilizar, sabiamente, espaços gerais, “espaços entre”, relações espaciais, paredes desafogadas, e dimensões estrategicamente desafogadas. E naturalmente que há espaços que têm de ter condições funcionais específicas, ainda que bem delimitadas, como é o caso de uma prática oficinal intensa (ex., marcenaria ou metalomecânica).

Finalmente, nesta pequena viagem global pela matéria dos espaços domésticos privados e pessoais importa dar verdadeiro relevo a uma categoria que poderemos designar como “recantos vários”, uma tipologia espacial que muito se liga, que à prática de inúmeras actividades domésticas, quer à fundamental marcação de um dado espaço como mais ligado a uma dada pessoa ou a um pequeno grupo de pessoas (ex., um casal); e sendo esta, como tantas outras aqui referidas, muito associável a um adequado projecto de Arquitectura, pois um dado recanto tem de ser adequadamente projectado e não pode surgir como algo “a mais” ou “forçado”, aqui se deixa, apenas, a nota de que um recanto estimulante pode ser um nicho de cima a baixo para um móvel, ou pode ser o espaço no “interior” de uma bay-window, ou pode ser quase simulado com uma pequena gola de parede, sendo evidenciado cromaticamente; sublinhando-se, assim, a infindável diversidade de mais este elemento de arquitectura doméstica, mais um daqueles que fazem de uma habitação um espaço único e que vale a pena e não mais uma “unidade” igual a milhares de outras.

Naturalmente que talvez o principal dos recantos seja aquele que designamos como “alcova” e que era tradicionalmente uma zona de dormir/descansar, desenvolvida na contiguidade de espaços maiores e conviviais; uma tradição muito antiga e, julga-se, muito praticada, diversamente, em várias sociedades e designadamente naquelas em que havia de assegurar adequadas condições de conforto ambiental, devido a críticas condições climáticas.

A tipologia da alcova é muito diversificada, podendo praticamente reduzir-se a um grande móvel/cama, ou desenvolver-se em recantos que integram sofás e sofás/camas, e foi descartada nas revisões higienistas do século XIX e nos regulamentos racionalistas do século XX, naturalmente, por se considerar que este tipo de soluções estava muito ligada a excessos de ocupação doméstica e a negativas condições se privacidade e salubridade. Hoje em dia talvez seja de rever a utilização da tipologia da alcova, mais no sentido de se proporcionar o seu uso no encontro a desejos e modos de vida doméstica específicos.

Como já, em parte se apontou, várias questões são fundamentais e devem ser adequadamente tratadas quando se pensa sobre a concepção de espaços domésticos mais privados e apropriáveis e nesta perspectiva importa aprofundar melhor, designadamente, os seguintes aspectos: a questão essencial da espaciosidade e da ergonomia de tais espaços, com relevo para as suas condições consideradas “mínimas”; a questão da relação com o exterior privado, nas quais importa atribuir um relevo muito especial ao projecto de pormenor de vãos exteriores com adequada aparência, adequada caracterização ambiental (isolamento/controlo) e adequadas vistas e linhas de vista sobre o exterior; a questão do convívio potencial que deve marcar mesmo estes espaços basicamente privados/sossegados; e a questão da existência de uma casa de banho privativa ou da sua estratégica proximidade e da sua adequada caracterização.

Um outro aspecto bem interessante e associado a estas matérias das relações visuais e da presença dos vãos exteriores que servem espaços domésticos mais privados e pessoais, tem a ver com a respectiva visualização exterior, que pode e deve integrar uma imagem de edifíco multifamiliar que se caracterize, na sua presença pública, por uma diversidade de "pequenas imagens" que suscitem a identificação dos habitantes com as suas habitações e espaços privados que as compõem, através de uma judiciosa variação das fachadas; procura-se, assim, seja uma animação e uma atratividade melhoradas dessas fachadas, seja um certo sentido de que um multifamiliar, tal como a própria designação indica, é um conjunto ou agregação de “células unifamiliares” e que estas mesmas correspondema agregação, entre outros (mais comuns) de espaços basicamente privados e bem apropriados.

Finalmente, aponta-se, aqui, apenas de forma muito geral, um caminho de reflexão sobre os espaços domésticos privados, que, só ele, corresponde a um rumo de urgente investigação: trata-se da ligação entre a caracterização dimensional, ambiental, funcional e pormenorizada, em termos de Arquitectura, de espaços domésticos privados e pessoais, do tipo quarto multifuncional e/ou pequeno apartamento T0 ou no máximo T2 (mas pequeno), mas sempre com apoio a cozinha relativamente limitado, e a respectiva integração em edifícios com um leque significativo de espaços e equipamentos comuns.

Esta é matéria específica que importa continuar a desenvolver em sede/artigos próprio(s), mas desde já se avança que ela terá sempre muito a ganhar com uma reflexão cruzada com o que se vai passando em novos e renovados estabelecimentos do tipo hoteleiro, em que se vão “manejando” múltiplas valências quantitativas e qualitativas, bem para lá de uma simples abordagem espaço-funcional – e apenas a título de exemplo regista-se uma nova “corrente” hoteleira em que os quartos, para lá de uma classificação de base como de casal ou duplos, são classificados como “pequeno”, “médio”, “XL” e “XXL”, sendo que cada um deles tem um leque de sub-ambientes e de microfuncionalidades especificamente associado.

A título sequencial e suplementar e numa perspectiva de “ponte” temática com a matéria, acima referida, de espaços privados, caracterizados por grandes quartos multifuncionais ou pequenos apartamentos com funcionalidades domésticas mínimas, porque associados em edifícios com leques variados de espaços, equipamentos e serviços comuns – matéria esta que será tratada no próximo novo artigo da Infohabitar – é interessante considerar que um adequado e maximizado desenvolvimento de espaços privados e apropriados no quadro de uma habitação corrente – embora tendencialmente bem desenvolvida – é uma qualidade que muito enriquece em termos funcionais e caracterizadores essa habitação (enquanto, necessariamente, quartos mínimos e mal caracterizados a empobrecem); de certa forma colando-se, positivamente, uma outra dimensão, muito privada, à dimensão doméstica e de grupo que caracteriza essa habitação (enriquecendo-se esta conjugação de leitura/vivência de ambientes e dimensões). De certa forma, e num sentido inverso, o excelente desenvolvimento de um leque (o mais possível amplo) de conjuntos de espaços privados, em micro-zonas funcionais de grandes quartos ou pequenos apartamentos, integrados em edifícios com valências comuns, enriquece tais soluções em termos globais, pois atribui-lhes, realmente, conteúdos domésticos bem vitalizados e viáveis – ao contrário de “soluções” que “encaixam” quartos quase mínimos e sem espaço para privacidade e apropriação, servidos por corredores apenas funcionais, que levam a espaços comuns, mas tantas vezes sem carácter e sem um ambiente atraente e envolvente/afectivo.

e a estas matérias relativas ao amplo leque de espaços domésticos privados, voltaremos (mas, tal como já se apontou, nos artigos acima disponibilizados encontrarão, desde já, um conjunto interessante de reflexões).

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 621
Sobre os espaços domésticos privados e pessoais: um novo artigo e lembrar um velho artigo
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, maio 10, 2015

O espaço de cozinha: novidades e tendências - Infohabitar 532



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Infohabitar, Ano XI, n.º 532

O espaço de cozinha: novidades e tendências

António Baptista Coelho

Artigo LXXIX da Série habitar e viver melhor


Continuamos, em seguida, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar, e neste os seus espaços comuns.
Estamos agora a abordar , com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e concluímos hoje a reflexão sobre o espaço de cozinha.

O espaço de cozinha: novidades e tendências


A cozinha como zona de refeições

Uma excelente solução, embora ainda pouco habitual, é a integração de uma atraente zona de preparação de refeições num espaçoso compartimento multinacional, marcado pelo convívio informal e familiar.
E, de certa forma, esta solução pode concretizar-se em duas opções distintas:
- uma sala-comum onde se integra um espaço de kitchenete;
- ou uma cozinha-sala de família, onde o espaço de preparação de refeições assume um protagonismo forte e digno.
Fig. 01: Zona de cozinha e de refeições de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 33 - 34, Arquitetura: Greger Dhalström.

A cozinha como espaço bem equipado

É importante referir que o falar-se de kitchenetes não significa que estas não possam dispor de um excelente potencial funcional em termos de preparação de refeições; podendo constituir-se em espaços plenamente equipados, até no sentido de poderem minimizar ao máximo os incómodos ambientais (ex., ruído, cheiros) nas zonas contíguas.
E, portanto, mais do que uma relação direta entre números de quartos e tipos de cozinhas, devemos considerar, a partir de uma adequada base funcional para cozinhar em boas condições próprias e de influência na restante vida doméstica (exemplo, ruídos, cheiros, vapores), opções de habitar que favoreçam ambientes específicos, tal como acabaram de ser apontados.


Relação entre dimensão da habitação e espaço de cozinha

Naturalmente, que os pequenos apartamentos estarão mais adequados a soluções em kitchenete, mas é perfeitamente possível e adequado pensar, por exemplo, num pequeno apartamento estruturado, por exemplo, em torno de uma espaçosa cozinha-sala de família, ou dispondo de uma espaçosa e “clássica” cozinha onde se possam tomar refeições, assim como é possível imaginar um grande apartamento onde apenas existe uma kitchenete, embora extremamente bem equipada em termos funcionais e “maquinais”.

Fig. 02: Zona de cozinha e de estar de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 36 - 37, Arquitetura: Bengt Hidemark, Ingemar Jönsson.

Adequação a diversos modos/formas de habitar

E todas estas opções marcam diversas formas de fazer um habitar privado e bem caracterizado pelas formas de habitar de quem o vive; formas bem distintas das ordinárias soluções industrializadas de tantas cozinhas que conhecemos, e que acabam por se definir como verdadeiros eletrodomésticos gigantes, que mais do que usar, acabamos por ter de, nós próprios, servir no dia-a-dia (limpar, arrumar, manter, “não riscar”, etc.).


Novos espaços de preparação de refeições

Talvez que as pessoas não apreciem as "cozinhas laboratório", tal como apontou M. Imbert (1), talvez que se aceitem bem as cozinhas mais pequenas, quando se dispõe de um espaço específico para refeições, talvez seja agradável, aquela “solução à americana", em que a preparação de refeições está totalmente integrada numa sala de família, que pode ser o espaço de refeições e de convívio diário e "à vontade", onde as crianças brincam e trabalham e onde se vê televisão.
E importa aqui salientar o enorme potencial de convívio que têm hoje em dia os espaços de cozinhas; e um potencial que é estratégico numa sociedade atual marcada pelo isolamento doméstico e pelo individualismo.
Cristopher Alexander  (2) defendia, já há bastante tempo, que a função de cozinhar deve ser recuperada como elemento quotidiano animador da vida familiar, através da sua integração com o estar familiar e por uma relação direta com as restantes áreas comuns da habitação.
De certa forma é também insistir, estrategicamente, na intensificação das relações face a face, nesta era globalizada e "internetizada", também no interior da habitação.


Cozinha multifuncional como um novo espaço doméstico

Considerando essa referência do espaço de cozinha como elemento quotidiano animador da vida familiar, lembremos que diversas pessoas podem trabalhar conjuntamente numa grande e bem iluminada cozinha, com bancada alongada, mesa de refeições espaçosa e, até, por exemplo, um recanto para um sofá (3); transforma-se, assim, a cozinha num espaço doméstico de convívio pleno de potencialidades funcionais, formais e de dinamização da vida privada.
E com certeza que todas estas possibilidades e outras acima apontadas serão sempre preferíveis a soluções estereotipadas onde, tantas vezes, o espaço está lá apenas para que as pessoas se movimentem no trabalho que executam nas bancadas de cozinha, quase como se fossem robots.


Cozinha multifuncional adequada a idosos e jovens

E atente-se que uma cozinha-sala, bem configurada, é um compartimento com grande utilidade, quer ao serviço da informalidade em fogos para jovens casais e vivendo sós, quer ao serviço da estratégica concentração de atividades e espaços, em fogos para idosos, nomeadamente, quando estes precisam de ajudas na cozinha e quando já se caracterizam por algumas dificuldades de movimentação.


Diversas imagens da cozinha

Quanto à imagem mais “tecno” ou mais “rústica” de uma cozinha ela terá de ficar à escolha de quem a vá usar, no entanto algo diz que nos sentimos muito mais “em casa”, num ambiente caloroso, e é, pelo contrário, difícil de imaginar o cozinhar em cozinhas laboratório, revestidas a metal reluzente, isto, pelo menos, quando somos nós próprios a viver/usar realmente tais espaços.

Fig. 03: Zona de cozinha que é, também, a única zona de acesso a uma habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 35, Arquitetura: Kai Wartiainem, Ingrid Reppen.

Cozinha-sala de estar e cozinha sala de família

Para concluir esta temática, a perspectiva de uma cozinha-sala de estar e de família pode ser considerada de duas formas distintas:
- uma delas, relativamente corrente, em que tal espaço surge como alternativo a outros espaços de estar, numa solução tão associável a habitações amplas, como até a habitações com controlos de área, assegurando-se, neste caso, possibilidades de usos diversificados tanto na pequena sala-cozinha, como na pequena sala-comum que com ela estará conjugada;
- e uma outra, menos corrente e sempre mais discutível, em que existe, realmente, apenas uma única zona para cozinhar, refeições e estar, uma solução tanto menos corrente e adequada, quanto maior for a habitação em termos de número de quartos.
E pode haver, ainda, inovações radicais como aquele em que uma ampla cozinha, bem assumida como tal, para espaço essencialmente dedicado à preparação de refeições, integra, também, a única entrada na habitação.

References


Referências/notas
(1) M. Imbert, "Mission d'Études de la Ville Nouvelle du Vaudreil", p. 12.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 587 e 588.
(3) Sven Thiberg(Ed.), "Housing Research and Design in Sweden", p. 122.


Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
(iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XI, n.º 532
Artigo LXXIX da Série habitar e viver melhor
O espaço de cozinha: novidades e tendências

Editor: António Baptista Coelho 
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GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.