Em memória viva de Nuno Teotónio Pereira
Na morte
de um amigo e de alguém que marcou a sociedade e a arquitetura portuguesas a
vontade que há é, em primeiro lugar, a de um silêncio benéfico e de sentida homenagem,
aliado aos sentimentos dirigidos à família enlutada e aos amigos diretos.
Nuno
Teotónio foi e é um grande homem, que marcou, marca e marcará a sociedade e a
arquitetura portuguesas; e na nossa memória e na nossa vida diária ele está e estará
vivo, em obras, textos e numa presença que nunca passará.
Uma vida
cheia, uma vida que julgo ter sido plena e feliz, uma vida de serviço, de
criação e de gosto pela própria vida, sempre olhando em frente e sempre
considerando a sua e nossa Arquitetura como algo tão sentido e próprio, como partilhado,
comum e útil para todos e para a cultura.
E talvez
que a forma como o Nuno Teotónio pensou e marcou tudo isto, com perfeita naturalidade
e familiaridade, “entre amigos”, ou entre pessoas naturalmente movidas por intenções
positivas e evidentemente solidárias, seja um dos seus legados: considerando a
Arquitetura e a Arquitetura do habitat humano como algo muito próximo de todos
nós habitantes, algo extremamente natural, sensível, “descomplicado” e “simples”,
mas marcado por uma riqueza tão grande e sentida, que só quem sente tudo isto
bem perto e naturalmente pode ir entendendo a paixão que estes temas nos
despertam.
Esta atitude
do Nuno, como me obrigou a tratá-lo depois de alguns poucos encontros,
parece-me ser a base de muito do que fez, sempre em companhia, sempre em
diálogo, sempre olhando um outro dia que se queria melhor e que ajudou a fazer
melhor.
Obrigado
Nuno e por tudo bem hajas!
António Baptista
Coelho
Depois deste
pequeno texto, e ainda num registo
muito pessoal, gostaria de lembrar aqui, em primeiro lugar, uma outra grande e saudosa
amiga comum, minha e do Nuno, a Arquitecta Isabel Plácido, alguém que sempre
esteve com o Nuno Teotónio, desde sempre!
E lembro
outro amigo comum, o Arquitecto Hélder Oliveira, atual colega professor na
Arquitetura da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, pois sei que ele
partilha comigo estas sentidas palavras e muitas outras que só ele poderá dizer.
Quero,
ainda, e de modo informal, em nome do Laboratório Nacional de Engenharia Civil
(LNEC), uma “escola” que integrei e que continua a ser uma “minha casa”, honrar
a memória bem viva do Nuno Teotónio e voltar a agradecer-lhe a cedência ao
LNEC, em 2009, da sua coleção documental sobre habitação e urbanismo, uma coleção
única, que está disponibilizada numa sala que integra a biblioteca do LNEC e
devidamente integrada na respetiva base documental.
(Coleção documental sobre habitação e urbanismo de Nuno Teotónio Pereira, no LNEC, em Lisboa)
Finalmente
e numa homenagem natural ao Nuno Teotónio, por parte da sua Infohabitar,
revista que honrou por variadas vezes com artigos e textos, é reeditado, em
seguida, um dos seus artigos; e entre as várias possibilidades sobressaiu um
texto por ele escrito e editado no nº 216 da Infohabitar, intitulado “Que fazer
com estes 50 anos?” – referido ao problema da
habitação e ao I Congresso Nacional de Arquitectura (realizado em 1948), um
texto editado pela Ordem dos Arquitectos, na louvável iniciativa de comemorar
os 60 anos do 1º Congresso, e que aborda, entre outras matérias, temas tão
interessantes e atuais como: “O contexto mundial: construir um mundo novo”; e “tornar
efectivo para todos o direito à Arquitectura.”
O Editor
da Infohabitar
(Nuno Teotónio com Vasco Folha, Raúl Hestnes Ferreira e Teixeira Trigo numa ação do GH no INH, Lisboa)
Fiquemos, então, com as palavras de Nuno Teotónio Pereira:
QUE FAZER COM ESTES 50 ANOS?
Falar do
Congresso de 48 é voltar atrás meio século e evocar o tempo em que não havia
mais do que 150 arquitectos em Portugal — quase todos concentrados em Lisboa e
Porto — e que acorreram com entusiasmo à magna reunião, ficando a conhecer-se
todos uns aos outros. O contraste com a realidade de hoje, quando caminhamos
para os 10 mil, estamos espalhados pelo País, e cada um de nós não conhece mais
do que um por cento do corpo profissional, não deixa de ser impressionante.
Mas o mundo também já é bem outro, dominado pelas realidades virtuais e a
caminho acelerado da globalização. Nas notas que se seguem procurar-se-á dar
uma ideia do que foi esse tempo distante e arriscar-se-ão algumas pistas no
sentido de buscar, perante situações e contextos tão diferentes, uma linha de
continuidade nos rumos da profissão.
O contexto mundial: construir um mundo novo
Nas cidades devastadas por arrasadores bombardeamentos aéreos, os governos e os
povos empenhavam-se arduamente na reconstrução. Mas, tanto ou mais que a
reconstrução material, todo o clima que se vivia clamava por uma reconstrução
social e moral que apagasse os ódios passados, com base na solidariedade e na
fraternidade. Da rica América, através do Plano Marshall, chegavam biliões para
os ciclópicos trabalhos de reconstrução, não distinguindo vencedores e vencidos.
Em S. Francisco era fundada a ONU, destinada a acabar com as guerras no mundo.
E até antes, em 1942, ainda no auge dos combates, o governo de coligação inglês
publicava o Plano Beveridge, da autoria de um conceituado economista liberal
(!), o qual viria a ser o modelo do Estado-Providência nas democracias
ocidentais, assegurando a todos o direito à educação, à saúde e à segurança
social. Ao mesmo tempo a reconstrução das cidades arrasadas era integrada num
quadro abrangente de dinamização económico-social, inspirado tanto no New-Deal
rooseveltiano, de que o paradigma era a Tenessee Valley Anthority, como nos
planos quinquenais soviéticos.
Foi neste contexto que os arquitectos foram naturalmente chamados a um papel de
primeiro plano. E estavam bem preparados para isso, com a doutrina messiânica
da Carta de Atenas e as propostas redentoras de Le Corbusier, fazendo apelo a
um “Espírito Novo”. O Movimento Moderno conhecia a sua grande oportunidade
histórica: era preciso rejeitar tudo o que se considerava caduco, convencional
ou simplesmente académico.
Enquanto o Estado Novo procurava sobreviver, os arquitectos organizavam-se em
torno dos novos ideais.
Com a derrota do nazi-fascismo em 1945, as ditaduras ibéricas viram-se
seriamente ameaçadas — interna e externamente — e Salazar foi obrigado a
operações de cosmética com a adopção, meramente formal, de alguns figurinos
democráticos. Fortes movimentos de contestação, como as greves operárias de
1944 e o Movimento de Unidade Democrática, lutavam pelos direitos dos
trabalhadores e por eleições livres e sérias, a ponto de o ditador ter pela
primeira vez admitido, nas eleições para deputados em 1945, a participação da
oposição e o abrandamento temporário da censura à imprensa.
No campo profissional, as revistas de arquitectura europeias, que tornavam a
publicar-se após um longo interregno, eram lidas com avidez e o livro “Brazil
Buils”, editado em 1943 pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, mostrava a
realidade pujante de uma arquitectura moderna fora do espaço centro-europeu.
Enquanto a revista “Técnica” do IST publicava a tradução do articulado
principal da Carta de Atenas, era constituída em Lisboa uma associação de
arquitectos designada “Iniciativas Culturais Arte e Técnica, ICAT”, liderada
por Keil Amaral. Quase ao mesmo tempo, um grupo de arquitectos do Porto criava
a “ODAM, Organização dos Arquitectos Modernos”.
Fortemente politizados, pugnando pela Arquitectura Moderna, os dois grupos
iriam juntar esforços para dar cabo do chamado “português suave”, a arquitectura
dita nacional que a ditadura de Salazar, a exemplo de outros regimes
totalitários, utilizava como instrumento de inculcação ideológica para
fortalecer o seu poder. Uma arquitectura marcadamente cenográfica que, por ter
sido desejada, programada, promovida e, quando necessário, imposta pelo regime,
merece bem a designação de “arquitectura do Estado Novo” — porque as outras,
desde o Modernismo dos anos 30 até ao Moderno dos 50 e 60, desenvolveram-se
livremente, perante a indiferença e sem interferências do poder, ao longo do
quase meio século que durou a ditadura.
Em 1947 o ICAT compra a decadente revista “Arquitectura”, fazendo dela
porta-voz para a divulgação das ideias e das realizações do Movimento Moderno.
E pouco depois, já nas vésperas do Congresso, Keil Amaral é eleito Presidente
do Sindicato, cargo de que só viria a tomar posse após a sua realização, mercê
da demora na homologação governamental. Esta homologação, obrigatória para
todos os cargos associativos de qualquer natureza — pois vivia-se em ditadura —
acabou por ser concedida, mas foi retirada mais tarde, demitindo Keil Amaral do
cargo para que fôra eleito pelos seus colegas.
O Congresso foi palco do combate pela Arquitectura Moderna, o qual se
inscrevia na luta mais geral contra a ditadura.
Iam assim já longe os tempos em que os arquitectos se sentiam agradecidos
ao governo pelo facto de o regime lhes ter dado, pela mão de Duarte Pacheco e
das suas Obras Públicas, oportunidades de trabalho inusitadas, ao mesmo tempo
que o reconhecimento da importância social da sua profissão. Isto mesmo não se
esqueceu de lembrar o então ministro José Frederico Ulrich (que sucedera a
Pacheco após a morte deste em 1943) na sessão de encerramento do Congresso: “a
classe dos arquitectos ainda deve mais a este período de ressurgimento nacional
do que a classe dos engenheiros”. E até era verdade. Mas tudo tinha mudado.
Efectivamente, tinham passado escassos oito anos após a grandiosa exposição de
1940, mas um enorme cataclismo mundial tinha virado uma página da História. E
se os tempos eram assim bem outros, os arquitectos portugueses também,
impulsionados por uma nova geração plena de convicções e de combatividade.
Duas circunstâncias decisivas estiveram na base do terramoto que o Congresso 48
provocou ao nível da profissão: por um lado, a garantia dada pelo governo ao
presidente do Congresso Cottinelli Telmo, de que as comunicações não seriam
censuradas; por outro, o facto de se ter admitido a participação plena de
estudantes finalistas, então chamados tirocinantes.
Foi assim, num país onde existia um apertadíssimo contrôlo de tudo o que era
publicado, que a liberdade de expressar ideias que iam contra a retórica
oficial foi aproveitada ao máximo, nos dois temas propostos para discussão: “A
Arquitectura no plano nacional” e “O problema português da Habitação”.
Promovidos pelo governo a propósito da exposição “Quinze Anos de Obras
Públicas”, destinada a glorificar o regime, os dois Congressos de Engenharia e
de Arquitectura conheceram desenvolvimentos bem diferentes. Enquanto o primeiro
decorreu bemcomportadamente sem surpresas, o de Arquitectura transformou-se num
clamor de contestação que surpreendeu o poder. A vaga foi irresistível: a
velha-guarda modernista que se tinha tão docilmente rendido ao “portuguesismo”
apenas dez anos antes, na onda dos fascismos que assolaram a Europa, via-se de
repente obrigada a alinhar com as posições de vanguarda que se impunham em todo
o mundo (com a muito escondida então excepção da União Soviética) com reflexos
nos ambientes de trabalho e de ensino — administração pública, gabinetes de
arquitectura e escolas — em que os Mestres eram contestados por jovens
diplomados e estudantes.
Assim, no Congresso, a construção em altura e a Carta de Atenas foram erigidas
como modelos a adoptar, mas não só: falou-se também de reajustamento social
(pois seria temerário falar em revolução), em habitação proletária, em unidades
de vizinhança, num Novo Humanismo e nas catedrais dos Tempos Modernos, citando
Le Corbusier.
E rejeitou-se “a imposição, ou sequer a sugestão, de qualquer subordinação a
estilos arquitectónicos”, proclamando-se que “o portuguesismo da obra de
arquitectura não pode continuar a impôr-se através de imitação de elementos do
Passado”.
Neste quadro, em que foram apresentadas mas rejeitadas conclusões mais
moderadas ao tema “A Arquitectura no Plano Nacional”, até os arquitectos mais
ligados ao regime fizeram a sua auto-crítica, como Cottinelli, reconhecendo que
“temos lançado cá para fora frutos raquíticos e dessorados de uma conciliação
impossível entre juízes sem idoneidade e o nosso desejo anemizado pela
transigência connosco próprios e com os outros.” Ou, como Jorge Segurado, que
desenterrou uma expressão arcaica para justificar a aceitação da solução
vertical na habitação colectiva sem renegar o seu portuguesismo: o
“aposentamento”, como alternativa ao internacionalista “apartamento”.
Foi assim que os arquitectos reunidos em Congresso trocaram as voltas ao Poder
e reconquistaram a sua liberdade de expressão. Obrigado a envergar uma máscara
democrática, o Estado Novo de Oliveira Salazar desembaraçava-se do que
considerava secundário para a sua sobrevivência, conservando porém ciosamente o
essencial: a censura à imprensa, a polícia política, as restrições ao direito
de associação, as eleições fraudulentas. E, entre o secundário, encontrava-se o
contrôlo da expressão arquitectónica, cujas normas apertadas começaram a ser
suavizadas.
Com o impulso do Congresso e os novos ventos que sopravam no mundo, os
arquitectos portugueses forjaram uma consciência profissional que inspirou a
prática associativa e a sua própria intervenção cívica e cultural ao longo dos
anos que se seguiram. Durante este meio século, primeiro o Sindicato
corporativo imposto em 1933 e a seguir a AAP, criada após o 25 de Abril,
enquadraram todo o processo de expansão da actividade profissional e de
afirmação plena dos arquitectos na sociedade portuguesa que se verificou
durante este período.
Um desafio a assumir: tornar efectivo para todos o direito à Arquitectura,
mandando os amadores fazer outra coisa, apurando o desempenho profissional e
dando trabalho a todos os arquitectos
Todos estaremos de acordo em que as comemorações do passado só ganham sentido
se ajudarem a melhorar o presente e a construir o futuro. Caso contrário só
servem para alimentar saudosismos estéreis. Agora que a AAP passou a Ordem, com
competências acrescidas, agora que já somos tantos e em breve seremos muitos
mais, agora que já há arquitectos em todo o território e nos quadros superiores
da Administração e das empresas, agora que a Arquitectur
a portuguesa é
enaltecida pela crítica internacional, o que é que faz falta?
Se olharmos para o interior da profissão é uma evidência que muitos arquitectos
têm dificuldade em arranjar trabalho ou são obrigados a desempenhar tarefas
fóra do quadro profissional; e que estas dificuldades vão acentuar-se com a
proliferação desmesurada de cursos de Arquitectura a que se vem assistindo. E
se olharmos para a produção do espaço edificado entre nós, não só persiste uma
elevada percentagem de projectos feitos por curiosos ou técnicos não
qualificados, como até alguns dos que levam porventura a assinatura de
arquitecto não ultrapassam uma triste mediocridade: a qualidade continua a ser
uma excepção e o nível da produção corrente é claramente insatisfatório — o que
significa que o direito à (boa) Arquitectura não está ao alcance de todos.
Colmatar este défice — eis aqui um desafio bem digno de ser assumido pela
profissão nesta celebração dos 50 anos do Congresso de 48, em prol do interesse
público e da qualidade de vida dos portugueses. E este desiderato, que implica
obrigatoriamente, sem porém nesta se esgotar, a revogação do tristemente
célebre 73/73, poderá fazer com que tantos jovens arquitectos à procura de trabalho
possam encontrar oportunidade de se devotarem à profissão que com tanto
entusiasmo escolheram, constituindo um estímulo para o aperfeiçoamento da
prática de todos nós.
Nuno
Teotónio Pereira
24.8.98
Apenas no sentido de participar na continuidade da divulgação da riquíssima obra social, arquitetónica e escrita de Nuno Teotónio Pereira, registam-se, em seguida diversos artigos editados, por ele ou sobre ele, na Infohabitar: