domingo, janeiro 30, 2011

Sessão de Homenagem a Nuno Teotónio Pereira e novo artigo " DOMESTICIDADE" - Infohabitar 331

Infohabitar, Ano VII, n.º 331

Sessão de Homenagem a Nuno Teotónio Pereira e novo artigo " DOMESTICIDADE. Relação de proximidade entre indivíduo, espaço e habitabilidade "
, de Célia Faria
A presente edição do Infohabitar está dividida em duas partes:



Fig. 01

Uma primeira parte em que se convidam os leitores para a Sessão de Homenagem a Nuno Teotónio Pereira, que terá lugar no próximo dia 5 de Fevereiro de 2011, pelas 16 horas, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Rua Camilo Castelo Branco, 4 (ao Marquês de Pombal), Lisboa.
Notas importantes: Os textos que divulgam esta sessão são da responsabilidade dos organizadores da referida sessão: o Infohabitar limitou-se a participar na sua divulgação.
As imagens que acompanham os textos são do arquivo do Grupo Habitar, ao qual Nuno Teotónio pertence, desde a sua fundação, como Membro de Honra.

E uma segunda parte em que se edita um novo artigo, neste caso intitulado " DOMESTICIDADE. Relação de proximidade entre indivíduo, espaço e habitabilidade ", um artigo de Célia Faria e um tema que parece feito à medida para acompanhar o convite para a Sessão de Homenagem a Nuno Teotónio Pereira.



Fig. 02

Sessão de Homenagem a Nuno Teotónio Pereira – 5 de Fevereiro de 2011, 16 horas

Por iniciativa de um grupo de amigos, e com a participação do homenageado e de Jorge Sampaio, a sessão terá como principal objectivo realçar o papel de um dos grandes protagonistas da resistência nas últimas décadas da ditadura, que nunca abandonou a participação política e cívica mesmo depois do 25 de Abril.

Esteve na origem de duas importantes cooperativas fundadas nos anos 60 – a Pragma e a Confronto – que serão especialmente evocadas na referida sessão, durante a qual será lançado, em Lisboa, o livro de Mário Brochado Coelho, «Confronto – Memória de uma cooperativa cultural» (Afrontamento).
Local: Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Rua Camilo Castelo Branco, 4 (ao Marquês de Pombal), Lisboa; Data: 5 de Fevereiro, das 16:00 às 18:00 (Segue-se convívio)



Fig. 03

A Sessão contará com intervenções de Jorge Sampaio, Mário Brochado Coelho e Júlio Pereira (coordenação de Joana Lopes), na presença do homenageado. Igreja do Sagrado Coração de Jesus

Organização: Alberto Magalhães, Joana Lopes, Jorge Pires da Conceição, Júlio Pereira (Afrontamento) e Mário Brochado Coelho

(Durante a sessão, será lançado em Lisboa o livro de Mário Brochado Coelho, Confronto – Memória de uma Cooperativa Cultural (Afrontamento)

Fig. 04: no LNEC, quando da cedência da sua colecção de urbanismo e habitação ao Laboratório; onde se encontra, já hoje, devidamente organizada e concentrada num núcleo documental específico, integrado na Biblioteca do LNEC.

HOMENAGEM A NUNO TEOTÓNIO PEREIRA
A Pragma e a Confronto nas últimas décadas da ditadura
«A década de 60 do século passado e os anos que se seguiram até ao 25 de Abril foram vividos com uma intensidade extrema, com grandes entusiasmos e dolorosas rupturas, corresponderam ao canto do cisne da ditadura sem que então o pudéssemos adivinhar» (Joana Lopes no Prefácio do livro CONFRONTO – Memória de uma Cooperativa Cultural).

De entre as iniciativas estruturadas levadas a efeito por grupos de pessoas não alinhadas em torno das referências polarizadoras que então faziam resistência ao Regime (PCP, velhos republicanos e pessoas da génese do futuro PS), salienta-se a criação das cooperativas de acção e dinamização cultural PRAGMA (1964-1972), em Lisboa e CONFRONTO (1966-1972), no Porto, tendo em boa medida como referência os passos para «aggiornamento» dados então pela Igreja Católica e despoletados por João XXIII.

As intenções de actividade então publicitáveis estão bem sintetizadas no texto de César Oliveira e José Carlos Marques: «A cooperativa é um lugar geométrico de possibilidades. Pessoas há que vêem nela um centro cultural com possibilidades de se tornar criador. E muitas mais pessoas poderão criar iniciativas, se o quiserem. No nosso meio, não há muitas razões para desperdiçar as mais ténues possibilidades de renovação, invenção, trabalho sério».

Uma pessoa, em Portugal, pela sua acção, espírito de iniciativa e de incentivação, teve enorme responsabilidade e protagonismo na criação destas cooperativas, de cuja existência é indissociável, sendo mesmo um dos primeiros dirigentes da PRAGMA: o arquitecto Nuno Teotónio Pereira!

É com este pano de fundo que iremos no próximo dia 5 de Fevereiro, pelas 16 horas, homenagear Nuno Teotónio Pereira, evocando o papel que a PRAGMA e a CONFRONTO tiveram na resistência, na fase final da ditadura de Salazar e Caetano, aproveitando ainda para lançar em Lisboa o livro de Mário Brochado Coelho «CONFRONTO – Memória de uma Cooperativa Cultural».

Esse evento terá lugar na sala de conferências da Igreja do Santíssimo Coração de Jesus, na Rua Camilo Castelo Branco, em Lisboa, obra emblemática dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, que recebeu em 1975 o Prémio Valmor da Câmara Municipal de Lisboa e que em Novembro de 2010 passou a Monumento Nacional por Decreto governamental.

Este evento constituirá também uma boa oportunidade de reencontros e do que daí, obviamente, possa resultar.


Naturalmente, o Infohabitar, o Grupo Habitar e o Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC associam-se a esta homenagem a Nuno Teotónio Pereira.

o editor do Infohabitar
António baptista Coelho

Artigo da semana no Infohabitar

DOMESTICIDADE. Relação de proximidade entre indivíduo, espaço e habitabilidade. por Célia Faria
Nota importante: as duas imagens de pinturas de Paula Rego foram retiradas da internet do site: http://www.saatchi-gallery.co.uk/artists/paula_rego.htm - salientando-se que a qualidade das mesmas e a sua reduzida dimensão pouco correspondem à qualidade dos respectivos quadros.
“El hablar de domesticidad es describir un conjunto de emociones percibidas, no un solo atributo aislado.”(1)

Entre os conceitos de habitante, espaço habitável e habitação existe uma relação complexa. É necessário compreender essa relação para se trabalhar a noção de DOMESTICIDADE como resultado da experiência de um espaço “qualificado”, o espaço habitado. Neste sentido, habitação deve ser entendida como inscrição no espaço e no tempo com uma vinculação ao lugar e à memória, isto é, à própria identidade do ser.

Precisamente, a ideia de domesticidade diferencia-se da de espaço pela presença da experiência. A domesticidade está relacionada com o processo fenomenológico da percepção e da experiência do mundo por parte do corpo humano.



Fig. Quadro de Paula Rego - the maids (1987), imagem retirada do site
http://www.saatchi-gallery.co.uk/artists/paula_rego.htm

A discussão contemporânea sobre a temática da domesticidade surge como consequência da ameaça da erosão da identidade dos lugares, pela sobreposição do global, pela justaposição de um sistema de relações, objectos e signos que a modernidade construiu independentemente das particularidades dos lugares, impondo-se-lhes.

Diante da perseguição de uma nova realidade baseada em arquitectura nómada, espaços mediáticos, não-lugares e interconexões no ciberespaço, torna-se pertinente questionar sobre o alcance da crise da ideia de domesticidade, enquanto função de legibilidade e identidade.

Não é o método nem o uso que faz do contexto, como ponto de partida para uma resposta localizada, nem o saber oficinal que lhe está associado que se questiona, mas sim o modo como se olha para a apropriação do espaço, o significado que este pode adquirir com a tradução da experiência humana.

Torna-se, assim, indispensável repensar o espaço e os significados da nossa existência no espaço. Desde que se dá esta reflexão sobre o pensamento no espaço e a arquitectura, o conceito de domesticidade é necessariamente convocado. A domesticidade enquanto experiência de pensamento e a arquitectura como essa experiência concretizada.

Se a vida, por um lado, se tornou mais fácil com o desenvolvimento e a rapidez dos meios de transporte e de comunicações, por outro lado, tem levado a humanidade a um constante desafio, sobreviver num mundo extremamente acelerado e homogéneo.


Fig. Quadro de Paula Rego - "the family" (1988), imagem retirada do site
http://www.saatchi-gallery.co.uk/artists/paula_rego.htm

No entanto a domesticidade permite uma síntese entre cultura e civilização que resiste à homogeneização universal. É o pólo cognitivo onde se pode apreender usos e sentidos. Expressão da singularidade, considerando a funcionalidade que possui face à universalidade que emerge com o processo de globalização.

A domesticidade institui um espaço. É um espaço ponderado, apropriado aos nossos sentidos (um espaço que nos convém, um espaço sensível) mas também um espaço orientado e de orientação (que responde à questão: onde estamos nós?), um espaço que dá lugar aos sentidos, ao pensamento. A domesticidade decorre do habitar, acção pela qual se processa a existência.

Este habitar é uma realidade mediatizada por um antes, um depois e os seus envolventes, requerendo uma harmonia entre coração, cabeça e técnica, e é entendido no sentido de fazer casa, ou seja, «encasar» o espaço, que resulta das relações que estabelecemos com as várias funções do habitar.

E a domesticidade é uma qualidade do espaço que surge em consequência da capacidade de resposta às funções espontâneas e culturalizadas (2) da vida humana.

As funções espontâneas estão associadas às necessidades básicas do ser humano, encaradas como condições de sobrevivência. Elas são naturais e automáticas.

“A sobrevivência de um dado organismo depende de uma série de processos biológicos que mantêm a integridade das células e tecidos em toda a estrutura desse organismo. (...) Praticamente todos os comportamentos que resultam de impulsos e instintos contribuem para a sobrevivência quer em termos directos, através da execução de acções de preservação da vida, quer em termos indirectos, através da criação de condições vantajosas para a sobrevivências ou da diminuição da influência de condições potencialmente adversas.” (3)

Transportando para o âmbito da arquitectura, são associadas com as funções identificadas por Norberg-Schulz (1965) na sua obra Intentions in architecure, onde é desenvolvido um diagrama sobre a estrutura funcional do habitar, referente ao espaço doméstico, considerando quatro funções básicas: Hygiene, Sleeping, Kitchen e Living.


Fig. The functional zones of a simple dwelling: Kitchen, Living, Sleeping, Hygiene. (Norberg-Schulz em Intentions in architecture, 1965)

Por funções culturalizadas, denominam-se aquelas que o homem adquire consoante o contexto em que se encontra, tanto para se sentir realizado relativamente às exigências do meio, como para dar respostas em conformidade com as práticas desse meio. Elas são, na sua essência naturais, no entanto, alteram-se mais significativamente dos que as funções espontâneas, porque são condicionadas pela cultura, sendo submetidas a uma lógica de sistema de valores.

“Existem nas sociedades humanas convenções sociais e regras éticas acerca e acima das convenções, e regras que a biologia por si já proporciona. Esses níveis de controlo adicionais moldam o comportamento instintivo de forma a este poder ser adaptado com flexibilidade a um meio ambiente em rápida complexa mutação e garantir a sobrevivência do indivíduo e dos outros.”(4)

Com base em Le Corbusier, figura central do IV Congresso Internacional de Arquitectura Moderna (CIAM) em que se divulga a Carta de Atenas (1933), é adoptado um modelo universal de «cidade funcional» onde é redigido um conjunto de princípios gerais que propõe o traçado das cidades, segundo uma implantação desenhada através de zoneamentos selectivos. Estes zonamentos são estruturados por uma divisão de áreas que respeitam quatro funções essencias da vida urbana, o habitar (no sentido da habitação, da casa), o trabalhar, o circular e o recrear. E são estas as funções designadas por culturalizadas por se considerarem exigências da vida que a sociedade contemporânea delineou (a estas poderão ser sempre acrescentadas outras).

E é com a resposta positiva a estas funções que medimos a domesticidade e atribuímos significado ao espaço habitado.

Notas: (1) RYBCZYNSKI, Witold: La Casa: historia de uma ideia. Madrid, Nerea, 1986, p.84
(2) FARIA, Célia: A construção do lugar arquitectónico. A significação da forma arquitectónica na perspectiva da experiência do sujeito, dissertação para mestrado em Estudos do Espaço e do Habitar em Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, Lisboa, FAUTL, 2009
(3) DAMÁSIO, António: O erro de Descartes: emoção, razão e cérebro humano, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1994, p.130-131
(4) DAMÁSIO, António: O erro de Descartes: emoção, razão e cérebro humano, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1994, p.140


Notas editoriais: (i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
(ii) Para ser possível a edição de imagens no Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens - é usado o Photobucket; onde, devido ao grande número de imagens, se torna difícil registar as respectivas autorias. Desta forma salienta-se que, caso se pretenda usar essas imagens, se consultem os artigos do Infohabitar onde, sistematicamente, as respectivas autorias são registadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos do Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor abc@lnec.pt

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 331, 30 de Janeiro de 2011

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