domingo, março 14, 2010

Soluções de realojamento I: a Residencial Alexandre Mackenzie no realojamento da favela Nova Jaguaré - Infohabitar 289

Infohabitar, Ano VI, n.º 289 Soluções de realojamento I: reflexões preliminares sobre a recente solução da Residencial Alexandre Mackenzie para realojamento da favela Nova Jaguaré, em São Paulo
Artigo de António Baptista Coelho

Divulgação da
13.ª Visita Técnica do Grupo Habitar
sexta-feira, 26 Março, 14h.00, Cais de Vila Nova de Gaia


Antes de passarmos ao artigo da semana, acima referido, relembramos a 9.ª Assembleia-geral do Grupo Habitar (GH), cuja convocatória formal foi editada a semana passada, no nº 288 do Infohabitar e que continua disponível, salientando-se que, tal como tinha sido considerado, foi possível programar na mesma sexta-feira 26 de Março, numa parceria entre o GH, a CidadeGaia-SRU e a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, a partir do Cais de Vila Nova de Gaia a 13.ª Visita Técnica do GH, entre as 14.00h e as 18.00h, com o seguinte programa:

. Encontro: entrada do Convento Corpus Christi, sexta-feira dia 26 de Março de 2010, às 14h 00.
. 14,00h- Visita ao Convento Corpus Christi, da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia .
. 15,30h – Visita
à obra do THE YEATMAN OPORTO HOTEL .
. 17,00h – Visita à Zona do
CASTELO DE GAIA .

A visita é pública, tal como acontece com todos os eventos participados pelo Grupo Habitar. E o Grupo Habitar agradece, desde já, publicamente, à Cidade Gaia - SRU e à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia por esta excelente parceria.

A partir das 18h 00, decorrerá a 9.ª Assembleia-geral do Grupo Habitar, na sede da CidadeGaia - SRU: Rua Guilherme Gomes Fernandes Nº 136-140; esta Assembleia decorrerá de acordo com a respectiva convocatória e será reservada aos associados do GH e aos colegas que queiram aderir ao Grupo e que, entretanto tenham manifestado esse interesse a um dos associados.
E junta-se a localização da CidadeGaia-Sru:
http://www.cm-gaia.pt/gaia/portal/user/anon/page/_SRU_apresentacao.psml?categoryOID=96928080808180GC&contentid=EE92808680CO&nl=pt

A Direcção do Grupo Habitar
António Baptista Coelho
Defensor de Castro
Segue-se o artigo da semana.
Soluções de realojamento I: reflexões preliminares sobre a recente solução da Residencial Alexandre Mackenzie para realojamento da favela Nova Jaguaré, em São Paulo
Artigo de António Baptista Coelho

Não gosto especialmente de títulos longos, mas neste caso teve de ser pois quero, com este artigo, iniciar uma nova série editorial de textos ilustrados sobre soluções de realojamento, ou sobre novas ou renovadas soluções de realojamento, mas quero, também, aproveitar esta série de reflexões para pensar um pouco sobre as questões, bem integradas, das tipologias e das áreas domésticas, que se disponibilizam nestas operações e da qualidade arquitectónica residencial interior e exterior que aqui se tem de aplicar. E, por isso, o longo título.

Mas vamos à matéria.

Na sequência de uma última estadia na excelente Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, para realizar uma conferência, fui convidado por colegas da Superintendência de Habitação Popular e da Secretaria de Habitação da Prefeitura da Cidade de São Paulo, para visitar as margens da favela Nova Jaguaré, e, especificamente, as últimas soluções de realojamento que aí têm vindo a ser aplicadas de forma faseada e bem avaliada/acompanhada tecnicamente; e aproveito, aqui, para agradecer a excelente oportunidade e a gentileza e eficácia desta visita pois não tenhamos dúvidas que da troca de experiências sobre problemas com alguma identidade surgirão, sempre, resultados positivos acrescidos, e quando a cultura e a língua são comuns, então, os resultados poderão ser muito expressivos.

Fig. 01: o novo conjunto de realojamento "Residencial Alexandre Mackenzie"(imagem cedida por Marcos Boldarini).

Quero ainda salientar que a palestra na FAUUSP, acima referida, foi realizada, por convite da Prof.ª Sheila Ornstein, em 17 de Novembro de 2009 no Auditório Ariosto Mila, e nela abordei as amplas matérias da "humanização do habitar", matérias estas que, naturalmente, têm tudo a ver com o necessário caminho que tem de ser seguido nas acções de realojamento de pessoas que vivem em condições domésticas e urbanas sub-humanas, em zonas de barracas e em casas abarracadas, em aglomerados muitas vezes até higienicamente inaceitáveis.

Introdução
Fazendo justiça à indicação de ir aqui fazer, apenas, algumas "reflexões preliminares", até porque é muito negativo falar-se de assuntos que pouco se dominam e, neste caso, pouco conheço das soluções de realojamento aplicadas no âmbito da "urbanização de favelas", seja em São Paulo, seja noutras zonas do Brasil, irei apontar, apenas, alguns comentários, decorrentes da visita à intervenção de realojamento de cerca de 400 famílias, que anteriormente habitavam a favela Nova Jaguaré (onde vivem cerca de 4.500 famílias), no conjunto designado por Residencial Alexandre Mackenzie, situado na Av. Alexandre Mackenzie, em São Paulo; e há que sublinhar, ainda, que essas reflexões "preliminares" decorrem quer do que se viu, ouviu e discutiu na referida visita, quer dos mais de 20 anos, que tenho, de conhecimento directo da realidade portuguesa da promoção de habitação de interesse social e, especificamente, de soluções de realojamento de zonas de barracas.

Fig. 02: vista geral do conjunto de realojamento, podendo observar-se a margem da favela, a zona de edifícios/apartamentos concluía e habitada e a zona de "casas sobrepostas", ainda em conclusão (imagem cedida por Marcos Boldarini).

Devo referir ainda que esta visita foi realizada, também, na companhia do respectivo projectista, o Arq.º Marcos Boldarini, e nela foi possível visitar, longamente, boa parte do conjunto, seus edifícios e espaços exteriores de vizinhança, tendo havido a possibilidade de dialogar com outros técnicos envolvidos na respectiva obra e, ainda, de entrar em alguns dos apartamentos e trocar impressões com os seus habitantes; e quero agradecer ao colega Marcos Boldarini, além da gentileza da visita, ter facultado a ficha técnica do seu projecto, que se anexa, e um inestimável conjunto de imagens sobre as suas peças técnicas e sobre a obra acabada.

Aponta-se, portanto, neste texto, um conjunto de temas que se consideram muito importantes em situações críticas de realojamento e que, se julga, serem bem identificáveis neste conjunto situado na Av. Alexandre Mackenzie, em São Paulo.

Salienta-se que será abordado, essencialmente, o conjunto de edifícios de apartamentos com 5 pisos e acesso por galerias exteriores comuns, encontrando-se a zona de "casas sobrepostas" em acabamento à data da visita; para outra ocasião e, eventualmente, outro autor - quem sabe o próprio projectista - ficará uma reflexão sobre os objectivos desta diversificação tipológica: 295 habitações em "prédios" (baixos e alongados), e 132 habitações em "casas sobrepostas".


Fig. 03: as "casas sobrepostas" em acabamento.

Definição do território de intervenção
Uma matéria importante é a definição do território de intervenção, feita de uma forma clara e cuidadosa. Não estamos em presença de um "condomínio" de acesso exclusivo, mas há locais de acesso "visualmente" controláveis, com portões que estão fechados, mas apenas "no trinco", e que caracterizam um limite e uma área de vizinhança e de pertença da globalidade dos edifícios de apartamentos; na altura da visita assistimos à saída de um grupo de crianças, devidamente monitorizado, sendo que a primeira criança do grupo abriu o pequeno portão.
Ainda nesta matéria destaca-se, quer o cuidado que foi investido na vedação do conjunto, através de uma solução que, garantindo segurança, tem uma adequada imagem residencial, quer todo o cuidado que marca a intervenção pormenorizada em todos os espaços exteriores entre os edifícios e, designadamente, nas zonas contíguas ás fronteiras com a favela.

Fig. 04: a excelente pormenorização em todos os espaços exteriores entre os edifícios e, designadamente, nas zonas contíguas ás fronteiras com a favela.

Solução edificada escolhida e respectivo potencial de atractividade
A solução escolhida estará no limite do uso funcional do elevador, uma longa discussão pode ser desenvolvida quanto á necessidade de haver elevador para o acesso a um 4.º andar, mas fiquemos quer com a oportuna comparação com a regulamentação de edificações portuguesa, que até há bem pouco tempo, aceitava tal situação desde que com alturas piso a piso relativamente reduzidas, quer com a disponibilização, nos pisos térreos, de acessos directos entre as habitações e o exterior contíguo, e que poderão servir casos de grande necessidade em termos de acessibilidades.
E há que ser lógico e interiorizar, ou simplesmente constatar, que o custo inicial, o custo de manutenção e a insegurança associada ao mau uso e à potencial vandalização de elevadores coloca este tipo de instalações fora do campo de adopção em soluções dedicadas a elevados números de habitantes e a populações socialmente críticas; e em termos técnicos há que sublinhar que será possível prever posteriores agregações de "colunas" de elevadores a galerias exteriores comuns.

Um outro aspecto bem importante nesta escolha tipológica refere-se a um desenho do edificado marcado por expressiva capacidade de atractividade, em termos de volumetrias e de cores, mas não se arriscando, nem a regularidade e, consequentemente, a economia global da construção (volumetria geral simplificada), nem um "partido" geral de "desenho", positivamente marcado pela sobriedade e estratégica "horizontalidade", que, assi, faz acentuar uma agradável relação com o solo, bem conhecida de quem antes habitava barracas ou casas abarracadas.

Fig. 05: é importante investir numa atractividade que sirva/atinja quem habita e que dignifique o espaço urbano.
A solução de acesso por galerias exteriores comuns, a partir de circulações verticais estrategicamente encerradas, proporciona que as pessoas habituadas a uma vivência da habitação em forte relação com o exterior, continuem a poder fruir tal relação, assim como algumas relações de convívio com quem vive em cada piso, embora seja positivamente controlado o número de vizinhos em cada galeria de acessos.

Fig. 06: galerias que são quase varandas domésticas, humanizadas e que também contribuem para o referido potencial de atractividade da solução.


No exterior também se habita
Numa forte relação entre escolha da tipologia edificada e opção geral de habitabilidade do conjunto, temos um conjunto residencial harmonizadamente entremeado de edifícios alongados e vizinhanças de proximidade potencialmente conviviais, que constituem os "negativos", desses edifícios, criando-se, assim, como que grandes "compartimentos" exteriores - numa interessante relação com a ideia de se fazer um exterior "interior".
Mas não se trata de um exterior residencial apenas volumetricamente disponível, pois os edifícios têm acessos estrategicamente vitalizadores de todas essas vizinhanças, e há numerosas habitações - todas as do piso térreo, portanto cerca de um quinto do total (cerca de 60) - que dão acesso directo ao exterior, vitalizando-o e securizando-o com naturalidade; e além de tudo isto todas as habitações até ao 4.º andar (piso mais alto) têm janelas e galerias de acesso que funcionam como varandas de "diálogo", dinamização e "controlo" natural do que se passa no exterior residencial.

Fig. 07: a ideia de se fazer um exterior que també se habita, realmente, um exterior que é também um "interior".

Mas além de tudo isto há um claro objectivo de uma positiva apropriação das vizinhanças de edifícios e espaços exteriores contíguos, logo a partir dos elementos cromáticos estratégicos, mas também pelo desenvolvimento de canteiros ao longo das habitações térreas e que são arranjados e cuidados pelos respectivos habitantes, e, naturalmente, há todo o pormenorizado arranjo, ajardinamento e equipamento dos espaços exteriores de vizinhança, evidenciando-se, assim, que estamos em presença de espaços exteriores que são, também, espaços para serem efectiva e afectivamente habitados no dia-a-dia; uma opção que é, também, estratégica, seja no aproveitamento de condições de conforto ambiental que permitem estar "na rua" frquentemente, seja num natural equilíbrio compensado de espaciosidades interiores domésticas e exteriores "públicas"/de vizinhança.

Há, assim, aqui, um estimulante pequeno "mundo" de vizinhança de proximidade, que desde que bem gerido e acompanhado, para se evitarem e reduzirem "desvios", poderá funcionar como uma segunda "concha" protectora, que envolve os espaços domésticos e que prepara a relação com o verdadeiro mundo urbano. E, já agora, refere-se não ter sido observado, a este nível, que tipos de relações estratégicas com a cidade foram ou estão a ser previstos, designadamente, quanto a transportes públicos, e que tipo de localização urbana caracteriza o sítio em termos de proximidades a estruturas urbanas importantes; matérias estas que são, como sabemos, vitais para o êxito social do realojamento, até porque tem de haver vida urbana acessível em termos de equipamentos diários.

Fig. 08: a apropriação do exterior residencial contíguo às habitações térreas, uma forma de proporcionar uma forma de habitar mais adequada a quem está habituado ao contacto com o exterior e também uma forma de tornar este exterior mais vivo e mais seguro.


Sensibilidades na solução edificada
No que se refere à solução edificada há variadas sensibilidades algumas já aqui apontadas, como é o caso da altura geral humanizada e dialogante com os exteriores contíguos, mas também da opção por fazer habitar bem e intensamente toda a envolvente, através de acessos directos das habitações térreas ao exterior, e, naturalmente a própria imagem geral transmitida, que funde um estratégico sentido de residencialidade e de capacidade (cromática e volumétrica) de apropriação, com um "partido" global de adequada sobriedade urbana.
Mas há outras "sensibilidades", entre as quais se referem as soluções de controlo de acesso em metal "microperfurado" (provavelmente não será esta a designação técnica), que propicia o controlo sem os problemas dos caixilhos envidraçados tão frequentemente degradados, mas também as soluções de previsão, em cada piso, da reserva de um compartimento para as mais diversas utilidades. Uma criança que nos acompanhou estava genuinamente entusiasmada com a planeada pequena biblioteca que aí poderia surgir, mas podem ser também sítios para os mais diversos objectivos muito práticos, desde o arrumar de bicicletas a locais de atendimento social; e aqui e nestas perspectivas é essencial o acompanhamento e a gestão social da ocupação, tal como iremos, sempre, sublinhando.

E há no último piso, em terraço, a ideia de se proporcionar um amplo espaço de convívio do condomínio, num reafirmar de uma solução estruturada pela circulação bem visível e dinamizadora nas galerias exteriores comuns; galerias estas cuja extensão foi sabiamente encurtada - é sabido que estas galerias funcionam tanto melhor, quanto mais semelhantes forem a varandas "privatizadas", e foi assim que elas aqui foram desenvolvidas.

Fig. 09: o terraço de convívio, que contribui, também, para outros níveis de leitura e de uso dos espaços residenciais.


E, finalmente, a "célula" doméstica, espacialmente equilibrada e razoavelmente multifuncional

Quanto à habitação propriamente dita considera-se que, globalmente, ela é espacialmente equilibrada, numa perspectiva de que havendo pouco espaço toda a habitação é "razoavelmente" pouco espaçosa - isto naturalmente considerando as referências na actual habitação de interesse social portuguesa - , e escreve-se "razoavelmente" pois é bem perceptível a adequada funcionalidade da organização doméstica, prevendo-se uma pequena cozinha autonomizada da sala-comum e dispondo de adequados vãos exteriores e de uma pequena zona de tratamento de roupas; e assim não se associando funções dmésticas tão criticamente distintas como: o cozinhar; o tratar a roupa; e o estar/lazer e as refeições familiares e conviviais. E destaca-se que as dimensões da cozinha proporcionam alguma positiva funcionalidade e até flexibilidade no seu uso, podendo "libertar-se" a pequena sala-comum para usos, por exemplo, mais ligados aom lazer e, quem sabe, ao trabalho em casa - uma realidade que se julga ser de incentivar e apoiar em termos espaciais e de conforto.
Mais se sublinha que a organização da pequena habitação liga-se, funcionalmente, aos quartos e à pequena casa de banho, que tem janela exterior.

Fig. 10: a "pequena" cozinha e a casa de banho; espaços bem pormenorizados.


Um outro aspecto que importa destacar é o cuidado colocado na ventilação cruzada das habitações e na sua adequada e ampla fenestração, apoiando-se o bom arejamento doméstico e propiciando-se boas condições de luz natural, depois servidas por uma adequada e alegre paleta cromática interior.

Destaca-se ainda e com especial relevo o cuidado investido no acabamento e equipamento das habitações; e aqui e tendo sido o conjunto habitado há pouco tempo, sentia-se, nas habitações visitadas, um certo sentido de satisfação e de estima, que provavelmente só se atinge quando se proporciona às pessoas um ambiente doméstico cuidadosamente acabado, ainda que através de soluções simples, económicas e duráveis.
Os elementos de referência de que disponho são essencialmente os portugueses, e em Portugal já visitei habitações de realojamento cujas famílias são tão pobres que são deixadas criticamente vazias, o que leva/levou a pensar e actuar com medidas específicas de apoio a um equipamento/mobiliário mínimo; e em São Paulo já me foi dado visitar anteriores soluções que apostavam em acções de auto-acabamento e equipamento pelos próprios habitantes, soluções estas que me são processual e intelectualmente estimulantes, pois permitem poupança, adequação e auto-ajuda; mas, no entanto, a ideia de se proporcionar, a uma dada família, como que um "novo começo" com uma pequena habitação "razoavelmente" mínima, mas agradavelmente acabada e equipada, pode ser um passo fundamental numa estratégia de desenvolvimento social, familiar e pessoal.


Aproximamo-nos do remate destas primeiras reflexões, aqui no Infohabitar, sobre acções específicas de realojamento, neste caso em São Paulo, Brasil, mas noutros artigos, naturalmente, noutras paragens ou, quem sabe, nas mesmas paragens mas através de outros pontos de vista, e nestes seria muito interessante ter a perspectiva dos projectistas sobre estes e outros pontos que considerem importantes especificamente em acções de uranização e realojamento de favelas. Iremos, no entanto, apontar ainda alguns aspectos, ainda que, para já, apenas de forma esquemática, sobre a sempre crítica questão das áreas domésticas em acções de realojamento.



Fig. 11: a planta-tipo de uma habitação com dois quartos (imagem cedida por Marcos Boldarini).

A "velha" e sempre presente questão das áreas domésticas "mínimas"
A questão das áreas domésticas é cíclica, estamos sempre a voltar a ela quando se trata de "habitações para o maior número", ou sempre que nos dedicamos a tentar resolver, um pouco mais, "o problema da habitação"; e trata-se de uma questão que exige uma abordagem cuidadosa e bem referenciada em termos dos quadros sociais e de carências específicos em que estamos a trabalhar e dos meios disponíveis para apoiar a sua resolução. Portanto, iremos ficar, aqui, apenas, com algumas reflexões globais e muito sintéticas.

A primeira é que a inexistência de condições espaciais e domésticas minimamente adequadas pode ter efectivas consequências patológicas em termos de saúde física e psicológica dos respectivos habitantes. E há, assim, que ter bem presente que, no interior doméstico, as reacções de insatisfação devidas à sobre-ocupação habitacional dominam, habitualmente, todas as outras, inclusivamente o extremo desconforto sanitário, e é sabido que abaixo de cerca de 20m2 por habitante aumentam os níveis de conflitualidade domésticos. Temos, assim, que tentar conciliar economia espacial com uma verdadeira "sanidade" e um, pelo menos mínimo, conforto espacial.

Para outros textos ficará a discussão destas matérias e o seu obrigatório "casamento" com a necessidade de "fazer pequeno" para servir o maior número. Salienta-se, apenas, que neste caso da Residencial Alexandre Mackenzie o pequeno talvez não seja assim "tão pequeno", pois a dimensão da habitação-tipo andará, julga-se, por cerca de 40 a 45m2 de Área Útil para uma habitação com dois quartos, e, não esqueçamos: que a organização é funcional e oferece alguma flexibilidade de usos; que no próprio edifício há verdadeiros "complementos" de habitabilidade; e que o exterior de vizinhança, logo ali bem perto, tem também excelentes condições para ser usado, em segurança e numa base de continuidade e de intensidade.

Sobre esta matéria gostaria de referir que cerca de 1960-1970, em Portugal, no âmbito da Categoria I, uma das "categorias" então mais económicas da Habitação de Interesse Social portuguesa (na altura eram usadas "categorias" de I a IV, essencialmente com base dimensional, depois optou-se por uma "categoria única), tivemos (e temos) excelentes soluções residenciais em que as habitações com dois quartos têm "Áreas Úteis" (espaço interior da habitação com exclusão da área das paredes) entre cerca de 45 e 50 m2, havendo mesmo vários casos próximos de 40 m2.

Como se referiu este é um tema extremamente discutível e apenas gostaria de sobre ele comentar que não é possível, ou não deveria ser possível, desenvolver habitações com áreas mínimas como estas sem um adequado quadro residencial edificado e de vizinhança, e sem uma adequada gestão social estratégica e de continuidade, capaz de identificar os problemas logo que surjam, ou de os despistar antes que ocorram. Um tal adequado quadro edificado e de vizinhança parece existir na Residencial Alexandre Mackenzie, esperando eu que exista o respectivo quadro de gestão.

Um outro aspecto é também importante e tem a ver com enorme diferença entre um projecto espacialmente reduzido, mas bem desenvolvido em termos funcionais, de acabamento e de conforto ambiental e um outro projecto em que se acumulem e agravem, mutuamente, os aspectos críticos de áreas reduzidas, inadequada funcionalidade, deficientes acabamentos e más condições de conforto ambiental (ex., ventilação, térmica e luz natural); e aqui também Residencial Alexandre Mackenzie parece marcar pontos positivos.

No entanto e para concluir esta brevíssima reflexão sobre espaciosidades domésticas críticas não tenhamos quaisquer dúvidas de que elas apenas terão uma eventual e positiva viabilidade quando veículadas por bons projectos de arquitectura, enquanto quando tal não acontece o resultado é muito grave, do curto ao longo prazo; e é sempre necessário referir que custa pouco juntar mais 3 ou 4 m2 num compartimento sem instalações e sem equipamentos específicos como é o caso da sala-comum, e que, cumulativamente, serve todos os habitantes de um dado apartamento ou casa, e há que contar com as perspectivas de sobre-ocupação que podem caracterizar as famílias realojadas e com eventuais necessidades espaciais acrescidas, associadas ao estudo e ao trabalho em casa.


Fig. 12: um pormenor do exterior humanizado da Residencial Alexandre Mackenzie, um passo muito positivo e marcante no realojamento da favela Nova Jaguaré.

Algumas reflexões finais e uma saudação
Apenas um pouco como nota complementar volta a sublinhar-se a importância de uma gestão social, do edificado e dos espaços exteriores, que acompanhe e enquadre a vivência e a cuidadosa manutenção do conjunto de realojamento, e uma gestão que tem de ser feita numa perspectiva de continuidade e proximidade.

E, finalmente, quero aqui deixar, em meu nome e nos do Grupo Habitar e do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC, os parabéns por esta excelente obra a todos os que por ela foram responsáveis, com uma natural referência para o seu projectista coordenador e para a Superintendência de Habitação Popular, da Secretaria Municipal de Habitação da Prefeitura da Cidade de São Paulo, a quem desejo a continuação e o aprofundamento deste tipo de intervenções, que marcam, sem dúvida, o caminho de um realojamento sensível e humanizado.


Anexo: ficha técnica da intervenção (cedida por Marcos Boldarini)
Obra: Residencial Alexandre Mackenzie - Favela Nova Jaguaré;
Local: Av. Alexandre Mackenzie, São Paulo/SP;
Data do Projeto: 2008;
Data da Conclusão da Obra: 2009;
Área do Terreno: 20.670,00m²;
Área Construída: 32.722,08m²;
Total de Unidades Habitacionais: 295 (em prédios), 132 (em casas sobrepostas);
Cliente: Prefeitura da Cidade de São Paulo / Secretaria Municipal de Habitação / Superintendência de Habitação Popular;
Arquitetura: Boldarini Arquitetura e Urbanismo - Marcos Boldarini e Sergio Faraulo (autores), Simone Ikeda, Daniel Souza Lima, Marina Ataguile Malagolini (colaboradores);
Paisagismo: Boldarini Arquitetura e Urbanismo - Marcos Boldarini, Melissa Matsunaga e Simone Ikeda (autores);
Estrutura: Somatec Engenharia;
Fundações: Somatec Engenharia;
Elétrica: Laranjeira Projetos (edifícios), Unika Projetos (casas sobrepostas);
Hidráulica: Laranjeira Projetos (edifícios), Unika Projetos (casas sobrepostas);
Construção: Schahin Engenharia;
Fotografias: Daniel Ducci (vistas gerais), Fabio Knoll (aéreas).
Boldarini Arquitetura e Urbanismo
www.boldarini.com.br, (11) 3287 3797.

Fontes: . AAVV, Urbanização de Favelas - A Experiência de São Paulo, edição da Superintendência de Habitação Popular, da Secretaria Municipal de Habitação da Prefeitura da Cidade de São Paulo, São Paulo, 2008.
. DVD cedido por Boldarini Arquitetura e Urbanismo.

Infohabitar, Ano VI, n.º 289
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 14 de Março de 2010

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