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domingo, dezembro 11, 2011

373 - O Planejamento urbano e a problemática da segregação sócio-espacial, artigo de Anselmo Belém Machado e duas sessões no LNEC - Infohabitar 373

Infohabitar, Ano VII, n.º 373

A presente edição (i) anuncia uma palestra no LNEC, (ii) relembra uma próxima sessão técnica também no LNEC e (iii) edita um artigo de um novo colaborador do Infohabitar, o Professor Anselmo Belém Machado, da Universidade Federal de Sergipe,Brasil, Doutorando em Geografia Humana na Universidade do Minho. O artigo intitula-se: "O Planejamento urbano e a problemática da segregação sócio-espacial: Estudo comparativo inicial das ocorrências espaciais diferenciadas entre bairros de alto e baixo poder aquisitivo no Brasil-Aracaju e em Portugal-Braga."

Palestra no LNEC
Convidam-se os leitores para estarem presentes na palestra do Prof.º Luis Antonio Machado, do Rio de Janeiro, que se realizará na próxima Quarta-feira dia 14 de Dezembro, às 10h na sala 2 do Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.
O Doutor Luís Machado é um dos pioneiros do estudo da favelas no Brasil, com muito trabalho publicado e sobretudo especializado nas questões da habitação e da segurança urbana.
Quem esteja interessado na palestra, que é de entrada livre, deverá fazer a respectiva inscrição para o mail cursos@lnec.pt.

Luís A. Machado é Sociólogo do Instituto de Estudos Sociais e Político (UFRJ), Coordenador Executivo do UrbanData/Brasil e membro do INCT (Observatório das Metrópoles). Principais temas de actuação: favela, sociabilidade, violência, cidadania e informalidade
Tema da palestra de Luís António Machado
SOCIABILIDADE VIOLENTA: VIDA QUOTIDIANA E POLÍTICA NO RIO DE JANEIRO
A violência urbana é um tópico central do debate público em todo o Brasil, inclusive no Rio de Janeiro, onde desde 2008 está na berlinda um programa de "policiamento comunitário" para as áreas de habitação favelada, chamado de UPP - Unidades de Polícia Pacificadora. Propõe-se discutir as possibilidades e limites desta política pública e seu impacto sobre o lugar das favelas na cidade.

Sessão Técnica Edifícios
A sequência das Sessões Técnicas Edifícios continua, na próxima Quinta-feira, dia 15 de dezembro de 2011, neste caso sobre a temática "A actual legislação de segurança ao incêndio - Dificuldades e limitações da sua aplicação aos edifícios existentes", uma sessão coordenada pelo colega Doutor António Leça Coelho, um amigo e cooperante do GH, desde a sua fundação. Uma sessão oportuna pois o quadro legal de segurança ao incêndio no País sofreu uma profunda alteração no último trimestre de 2008 com a publicação de diversos diplomas, dos quais se destacam os seguintes:
• Decreto-Lei n.º 220/2008 de 12 de Novembro de 2008 (regime jurídico)
• Portaria n.º 250 de 29 de Dezembro de 2008 (regulamento técnico).

O Decreto-Lei n.º 220/2008 procedeu, no seu Artigo 36.º (Norma revogatória) à revogação de praticamente toda a legislação de segurança ao incêndio existente no País, incluindo o Decreto-Lei n.º 426/89, de 6 de Dezembro (Medidas Cautelares de Segurança Contra Riscos de Incêndio em Centros Urbanos Antigos).
Por outro lado, o DL n.º 220/2008 refere no n.º 1 do seu Artigo 17.º (Operações urbanísticas) que “Os procedimentos administrativos respeitantes a operações urbanísticas são instruídos com um projecto de especialidade de SCIE, com o conteúdo descrito no anexo IV ao presente decreto-lei, que dele faz parte integrante”.
Como consequência dos referidos artigos constata-se que qualquer intervenção num edifício, considerada como uma operação urbanística, implica a necessidade de elaborar um projecto de segurança ao incêndio de acordo com a actual legislação.
A obrigatoriedade de aplicar esta legislação aos edifícios existentes, coloca aos licenciadores e aos projectistas diversos desafios que nem sempre podem ser resolvidos de forma satisfatória. A dificuldade da actual legislação conduzir, não raramente, às soluções mais ajustadas, coloca-se mesmo para as novas construções. Este facto torna-se mais evidente para os edifícios existentes, nomeadamente para aqueles que se situam nos centros urbanos antigos.
Junta-se o link à respectiva página de divulgação no site do LNEC:
http://www.lnec.pt/congressos/eventos/pdfs/STE05.pdf

Artigo da semana

O Planejamento urbano e a problemática da segregação sócio-espacial: Estudo comparativo inicial das ocorrências espaciais diferenciadas entre bairros de alto e baixo poder aquisitivo no Brasil-Aracaju e em Portugal-Braga
autoria de Anselmo Belém Machado
Universidade Federal de Sergipe, profufsbelem@ig.com.br

Inclui duas imagens do autor


RESUMO
Este artigo apresenta uma proposta de estudo de análise comparativa da situação socioeconômica e da infraestrutura urbana de alguns bairros de Aracaju-Brasil e de Braga-Portugal, a ser desenvolvida durante o curso de doutorado. O conteúdo do artigo é resultado de pesquisas já realizadas: uma teórico-prática, realizada em Aracaju, e outra, teórica e ainda inicial, em Braga. Em Aracaju, foram escolhidos os bairros Jardins e São Conrado, e em Braga, os bairros de Nogueiró e Andorinhas, com o objetivo de avaliar o modo como se expressa o fenômeno urbano da segregação socioespacial em dois contextos territoriais distintos. Em relação aos bairros de Braga, estamos apenas expressando comentários iniciais. Estamos cientes de que os processos de segregação socioespacial e de planejamento urbano ocorrem de maneiras e em níveis bem diferentes, visto que estão relacionados com as realidades específicas de cada país ou continente.

Palavras-Chave: Segregação socioespacial, planejamento urbano, estudo comparativo, Brasil e Portugal.

ABSTRACT
This article presents a proposal of a study of comparative analysis of social and economical situation and of urban infrastructure of some neighborhoods in Aracaju, Brazil, and in Braga, Portugal, in order to be developed during the doctorate course. The content of the article is a result of surveys already done: a theoretical and practical one, accomplished in Aracaju and the other one, theoretical and in its beginning, in Braga. In Aracaju, the Jardins and São Conrado neighborhoods were chosen, and in Braga, the Nogueiró and Andorinhas neighborhoods, with the objective to investigate the way how the urban phenomenon of social and spatial segregation in two different territorial contexts is expressed. In relation to Braga’s neighborhoods, we are just expressing initial comments. We are aware that the processes of social and spatial segregation and urban planning occur in ways and in different levels as well as they are related to the specific realities of each country or continent.
Keywords: social and spatial segregation, urban planning, comparative study, Brazil and Portugal.

Regista-se que este artigo foi anteriormente publicado nas Actas do I Simpósio de Pesquisa em Geografia da Universidade do Minho e Universidade de São Paulo, realizadas em 20 e 21 de Junho de 2011, na Universidade do Minho, Campus Azurém, Guimarães.

Índice:

1 - INTRODUÇÃO

2 - ANÁLISE INICIAL DE ALGUNS PONTOS SOBRE A SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL E A QUESTÃO DO PLANEJAMENTO URBANO NO BRASIL E EM PORTUGAL

3 - CARACTERISTICAS DOS BAIRROS JARDINS E SÃO CONRADO EM ARACAJU E DESCRIÇÃO INICIAL DOS BAIRROS NOGUEIRÓ E ANDORINHAS EM BRAGA

3.1 - ANÁLISE DO BAIRRO JARDINS (ARACAJU-BRASIL)

3.2 - ANÁLISE DA REGIÃO DENOMINADA DE FAVELA DE SÃO CONRADO NO BAIRRO SÃO CONRADO (ARACAJU-BRASIL):

3.3 - ANÁLISE INICIAL DO BAIRRO DE NOGUEIRÓ (BRAGA-PORTUGAL)

3.4 - ANÁLISE INICIAL DO BAIRRO DAS ANDORINHAS (BRAGA-PORTUGAL)

4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

5-REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

6-SIGLAS E OUTRAS FONTES


1 - INTRODUÇÃO

O objetivo deste artigo é analisar a problemática da segregação socioespacial dentro da questão do planejamento urbano. Dentro deste contexto, estamos realizando um estudo de caso comparativo das ocorrências espaciais diferenciadas entre pequenos territórios existentes no Brasil e em Portugal.

Escolhemos quatro bairros: dois compostos por infraestruturas urbanas precárias, de baixo nível social e população de baixa renda e pouca escolaridade, e dois bairros dotados de boa infraestrutura urbana com alta concentração de cidadãos de altos rendimentos e bem qualificados. Destes quatro territórios, dois deles se localizam em Aracaju/Brasil, sendo um de alto rendimento e outro de baixo rendimento, e, para comparação, os outros dois, também onde se concentram cidadãos de altos e baixos rendimentos, estão localizados na cidade de Braga/Portugal.

Os territórios localizados em Aracaju são o bairro Jardins, que é uma área com boa infra-estrutura urbana e de grande concentração de cidadãos de altos médios rendimentos e bem qualificados, e o bairro São Conrado, mais especificamente a micro-área denominada “favela de São Conrado”. Esta área é composta por uma péssima infraestrutura, com uma grande concentração de cidadãos de baixos rendimentos e pouco qualificados e/ou sem qualificação.

Os bairros que serão pesquisados em Braga são: o bairro de Nogueiró que, segundo pesquisa inicial, é uma área de boa infraestrutura urbana, situada nas proximidades da Freguesia de Lamaçães, com grande concentração de cidadãos de altos e médios rendimentos; e o outro é o bairro das Andorinhas, denominado de bairro social, localizado na Freguesia de São Vicente onde, segundo também pesquisa inicial, há infra-estrutura urbana que precisa de melhoramentos, composto por grande concentração de cidadãos de baixos rendimentos e mal qualificados. Temos conhecimento das diferenças e das especificidades da realidade de infra-estrutura urbana que existem entre Brasil e Portugal; por isto. destacamos que, em relação aos bairros de Braga, estamos apenas iniciando os estudos e levantando algumas hipóteses.

Embora os Planos Diretores Urbanos, tanto de Aracaju como de Braga, já tenham sido elaborados há dez anos e mesmo sendo melhorados ainda precisam de ajustes. Segundos dados da Prefeitura Municipal de Aracaju (2000), seu plano diretor urbano foi concluído no ano 2000, e, segundo Pinto (2007, p.79), o plano diretor de Braga foi concluído em 2001. O plano diretor de Aracaju não conseguiu eliminar os problemas da segregação socioespacial existente em seus bairros, tanto nos bairros localizados em áreas nobres quantos nos existentes em regiões periféricas próximas a estas.

Embora existam diferenças no contexto histórico, cultural, social e econômico entre os bairros de Aracaju e de Braga, precisamos saber quais foram e quais são os reais objetivos destes planos diretores e se realmente foram escritos objetivando eliminar as problemáticas socioespaciais existentes. É com esta visão que estamos realizando este estudo comparativo nestes territórios em países diferentes e com realidades históricas e socioeconômicas específicas. Por isso, faremos análises e interpretações baseadas em cada realidade específica. Inicialmente levantamos a hipótese de que existem semelhanças e contrastes que se reproduzem em vários países no que se refere aos problemas de segregação socioespacial e do mau planejamento urbano. Por outro lado, afirmamos que estes problemas existentes, mesmo ocorrendo com graus e intensidades diferenciados, são frutos dos contrastes mundiais inerentes ao mundo globalizado.

2 - ANÁLISE INICIAL DE ALGUNS PONTOS SOBRE A SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL E A QUESTÃO DO PLANEJAMENTO URBANO NO BRASIL E EM PORTUGAL

Desde o surgimento da cidade, as questões relativas ao seu “ordenamento” e à sua “estruturação” são de interesses dos grupos que compõem a sociedade e, principalmente, dos grupos dominantes. Portanto, desde a antiguidade que o homem vem interferindo na natureza e realizando várias mudanças na cidade, quer seja no sentido da localização, quer seja no seu formato, ou ainda na sua função, às vezes com função política, às vezes econômica, portuária e até cultural.

Com o desenvolvimento urbano, na passagem de uma sociedade feudal para uma sociedade moderna, a cidade passou a ter mais importância que o campo. A área rural foi perdendo poder econômico e político com o processo de urbanização mundial. O processo de urbanização vem ocorrendo de maneiras bem diferentes, se compararmos, por exemplo, os países da América do Sul com os da Europa. Nas cidades antigas, não havia planejamento: elas cresciam de acordo com a influência da natureza. À medida que a cidade foi se transformando, com o desenvolvimento das forças produtivas, foi adquirindo inovações tecnológicas, novas paisagens e novas relações sociais.

Para entender o fenômeno urbano e os problemas relacionados à segregação socioespacial e planejamento urbano, é preciso analisar o ciclo de produção, e não apenas realizar estudos estatísticos sobre sua população, seu gênero e seu nível de conhecimento, conforme é citado abaixo.

O que falta, para uma compreensão concreta do fenômeno urbano (seja para a definição de cidade, seja para a compreensão do que é o urbano), a nosso ver, é trabalhar com aspectos que demonstrem a realidade concreta da sociedade, como a divisão do trabalho, lembrando o ciclo da produção esboçado por Karl Marx, que compreendia os processos de produção, circulação, troca e consumo. (SPOSITO, 2008, pp.17-18)

No mundo globalizado, as cidades tomaram outra vertente em relação ao ciclo da produção. Multiplicaram-se em quantidade e em formato com redes urbanas bem diferentes. As regiões metropolitanas compostas pelas cidades globais passaram a comandar a produção, intensificando a circulação e diversidade de produtos, de forma a criar padronização de milhares de produtos em regiões localizadas nas periferias do mercado mundial, locais aonde antes o consumo de vários produtos oriundos destas metrópoles não chegava a existir nem a serem consumidos pelas populações de baixa renda.

A nova divisão social do trabalho exigiu atualizações na mão-de-obra das empresas em todos os continentes, o que foi irradiado para as metrópoles regionais e depois para as cidades médias e também para as menores. Com a multiplicação deste processo de produção, muitos destes produtos chegaram à periferia destas cidades, ainda que muitos sejam de produção ilegítima, conhecidos como produtos “piratas”. Mas o ponto da questão é que, tanto em Aracaju (Brasil), nos bairros nobres e em sua periferia, quanto em Braga (Portugal), em regiões compostas por uma população de maior poder aquisitivo e nos bairros sociais (1), os produtos industrializados chegam aos seus mercados consumidores.

Os produtos legítimos que são consumidos, pela população de alto poder aquisitivo (em Aracaju como em Braga) são (na maioria) de melhor qualidade e muito mais caros. O público consumidor de baixa renda, residente nas áreas menos favorecidas, consome a parte falsificada destes produtos. Não é por acaso que a indústria e o comércio de produtos da China (Made in China) crescem tanto no Brasil e em Portugal. Estas indústrias chinesas têm variedade de produtos, o que pode ser constatado no centro urbano de Aracaju (Brasil) e, mais fortemente e com mais variedade, na cidade de Braga (Norte de Portugal). Este ciclo de produção está crescendo de maneira assustadora e, mesmo pagando os impostos devidos, há muitos lojistas que sonegam os impostos e não pagam o salário digno, porém vendem produtos muito mais baratos. Assim, proliferam inúmeros postos de vendas, pequenas lojas, vendedores ambulantes, proprietários migrantes, mercados consumidores e funcionários com mão-de-obra barata e desqualificada, revelando, assim, outra faceta da segregação socioespacial, que possivelmente analisaremos em um próximo estudo.

Com o desenvolvimento das cidades em nível mundial, no final da Idade Moderna e início da Idade Contemporânea, a divisão social do trabalho toma outro rumo. Isto vem ocorrendo em decorrência das inovações técnicas, descobertas científicas, da melhoria da saúde das populações, da intensa valorização do solo urbano e do aumento na concentração da população nesta área. Com isso, as fabricações dos produtos industrializados se multiplicam, ficando cada vez mais diversificados e seletivos. Por outro lado, amplia-se a troca de mercadorias no mundo (compostas por produtos originais ou/e piratas), intensificando o comércio mundial. Com as inovações nos meios de transportes e telecomunicações, este processo multiplica-se por mais de mil vezes.

O crepúsculo de uma civilização e a aurora de uma nova foram marcados por invenções mecânicas: o regime milenar das velocidades de “4 km/hora” (passo do homem, do cavalo, do boi) passou, brutalmente, ao de 50, 100 e mesmo 500 km/hora, para transporte de pessoas e de produtos e ao regime limitado, do telégrafo, do telefone, do rádio, para o transporte de idéias informação, comando, ordens e controle. (CORBUSIER, 2000, p. 105)

Hoje, a velocidade dos transportes ultrapassa de 900 km/hora e, aliado à revolução nos meios de comunicação, com a presença da internet, o Mundo tornou-se uma aldeia global, fazendo perder sentido a existência de muros, muralhas, territórios, etc. Ou, pelo menos, foi modificado este sentido, pois hoje existe efetivamente a estrutura dos blocos de países e de regiões continentais, tais como MERCOSUL, PACTO ANDINO, APEC, UNIÃO EUROPEIA, ALCA, NAFTA, que foram criados para facilitar o comércio entre os países pertencentes ao bloco e reduzir os impostos.

Atualmente foram criados mais dois blocos de países que atualmente foram formados para proteger seus interesses: o bloco formado pelos países em ascensão econômica, denominado de BRICS,(2) que procura manter o crescimento econômico e influência política mundial, e o bloco formado mais recentemente por alguns países da União Européia, que entraram em crise econômica e financeira, bloco denominado de PIIGS. (3) Estes blocos realizam acordos com um objetivo comum, quer seja econômico, regional, político e até estratégico, favorecendo o fortalecimento desta comunidade. Martins (1997), em seu livro “Fronteira e Nações”, realizou um estudo sobre a origem e história das fronteiras, faznedo uma retrospectiva das fronteiras na natureza, das fronteiras na história, da fronteiras modernas e no último capítulo intitulado “É o fim das Fronteiras?”, ele questiona se elas acabaram ou mudaram de sentido, pois,

O conceito de “mundialização” entrou na ordem do dia, mas nem por isso os regionalismos, os particularismos, deixaram de existir. A idéia da formação de “blocos de países” visando obter ganhos de escala parece por si só contradizer a tese do “fim das fronteiras”. Ao contrário, são novas fronteiras que estão surgindo, as “inter-blocos”, e acrescente-se, sem que as “nacionais” tenham deixado de existir. Talvez apenas estejam deixando de ser “externas” para se tornar “internas”. (MARTINS, 1997, p.60)

O sentido das fronteiras internacionais, nacionais e regionais, como também dos limites político-administrativos, passou a ter outra vertente, acompanhando as transformações do capitalismo pós-fordista, agora em sua fase flexível. Nessa linha de raciocínio, o processo de globalização interfere e atinge todas as regiões mundiais – ou quase todas – levando ao aumento do ritmo de consumo, à diversificação de novas mercadorias: mais baratas e de menor qualidade para os bairros periféricos e as mais caras e com melhor qualidade para os bairros de luxo. Também vem ocorrendo a criação de novos guetos urbanos, conforme podemos destacar em Haesbaert, onde a flexibilização da economia tem provocado a criação de multiculturalismos e modismos que só reforçam a segregação socioespacial.

A flexibilização da economia, com a implantação do chamado capitalismo pós-fordista ou de acumulação flexível; a hegemonia do capital financeiro sobre o capital produtivo; a crise do Estado do bem-estar social e, conseqüentemente, dos grandes projetos de planejamento regional-nacional integrado, e a instituição ainda em processo de ‘Estados de controle’ ou de ‘segurança’; a difusão das tecnologias da informação, gerando uma violenta e desigual ‘compressão tempo-espaço’ na rica expressão de Harvey (1989), e, a nível cultural, a propagação do multiculturalismo e/ou hibridismo cultural, onde seria cada vez mais difícil encontrar identidades claramente definidas. (HAESBAERT, 2006, p.118).

O mercado mundial exigente força à inovação e à troca de mercadorias, buscando cada vez mais consumo, maior intercâmbio e com lucros desenfreados. Neste contexto, as cidades se multiplicam pelo mundo e crescem de maneira desordenada, visto que, a cada ano, as populações urbanas em nível mundial aumentam com grande rapidez e sem quase nenhuma seletividade e nem são acompanhadas por sérios planejamentos.

Quando existe um planejamento, este é feito para atender aos interesses dos “agentes produtores do espaço urbano” (CORRÊA, 1993, p.12). Segundo Corrêa, estes agentes produtores são representados pelos proprietários dos meios de produção (industriais e banqueiros), pelos proprietários fundiários (latifundiários), pelos promotores imobiliários (agentes imobiliários e construtoras), pelo Estado (representados pelos políticos, que legitimam estas suas ações) e pelos grupos sociais excluídos (representados por uma vasta população que reside, ocupa e vive, ou melhor, sobrevive nas regiões periféricas). Para Marcel Roncayolo, citado por Sposito (2008), para compreender as contradições sociais existentes na cidade é preciso analisar a função e atitude dos agentes produtores do espaço, que são:

Os proprietários do solo e dos imóveis, proprietários individuais, agindo por meio da constituição de seu patrimônio. Depois, as organizações econômicas que, de um lado, utilizam o espaço para seus próprios fins (banco, comércio ou espetáculo, empresas, industriais) e, de outro, intervém na “fabricação da cidade”: companhias imobiliárias, empresas de construção [e, enfim], o poder público que, segundo modalidades variadas e às vezes contraditórias, acompanha as operações do capital privado. (SPOSITO, 2008, p.23)

Estes agentes produtores do espaço urbano expostos pelos dois autores citados agem em sintonia, objetivando fabricar a cidade continuamente, de maneira que sejam nelas reproduzidas as relações sociais, conforme seus interesses, permanecendo e consolidando o status quo das classes sociais dominantes.

Na contemporaneidade, e mais especificamente na era do mundo globalizado, estes agentes produtores se articularam mais fortemente, o que facilitou mais ainda o aumento contínuo de seus interesses, ou seja, de seus lucros. Conforme Sposito (2008, p.21), após a Revolução Industrial, a cidade sofreu mudanças irreversíveis na forma de apropriação e de transformação da natureza e de organização das relações sociais de produção, o que marcou de maneira definitiva a alteração nas formas das cidades.

Quando surgiu, a cidade tinha características do que chamamos de valor de uso, mas, com a consolidação do capitalismo, tudo o que nela se constrói (edificações, arruamentos, componentes de infra-estrutura etc.) carrega como conseqüência, além do valor de uso, o valor de troca e a indissociabilidade entre essas duas dimensões de mercadorias. É preciso, portanto compreender as formas de uso do solo na cidade por meio da luta entre proprietários e não proprietários de imóveis e pelas diferenças entre o valor de troca e o valor de uso e entre o direito à propriedade e o direito à apropriação da terra. (SPOSITO, 2008, p.21).

Na cidade contemporânea o valor de troca é muito mais forte do que o valor de uso, pois os proprietários desta cidade concreta atual impõem o valor de troca do solo urbano, definindo quais áreas serão mais valorizadas ou não. Por outro lado, os agentes produtores do espaço urbano estabelecem regras de forma que sejam selecionados os privilegiados, discriminando, assim, quais são os grupos humanos que podem usufruir, ou não, deste território, que são na grande maioria restritos, seletivos e com altíssimo valor de troca.

O processo de segregação socioespacial aprofunda as diferenças entre os bairros de uma cidade e até as diferenças dentro de um mesmo bairro, aflorando a luta entre proprietários e não proprietários, ou ainda a luta entre os proprietários dentro de um mesmo bairro. A segregação socioespacial ocorre não só em um bairro elitizado como também em um bairro periférico, mas em níveis diferenciados: há segregações socioespaciais dentro de um mesmo bairro de elite, que é considerado estruturado, onde reside uma população de médio e alto poder aquisitivo. Para o caso do bairro Jardins (Aracaju) levanto a hipótese de que existe uma re-estratificação social dentro de um mesmo bairro, com hierarquia definida entre os grupos mais fortes (com maior poder de compra) e os menos fortes. A segregação socioespacial existe também nas áreas periféricas, bairros onde “residem” populações de baixa renda, que são destituídas de sonhos e não acreditam mais nas promessas dos políticos. Para minimizar estas condições de conflitos atuais, é preciso que seja elaborado um planejamento urbano mais democrático e menos excludente.

A questão de planejamento urbano vem sendo colocada como marco importante em busca da qualidade de vida. Com o atual desenvolvimento técnico e científico os “agentes produtores do espaço urbano” agem na cidade transformando sua paisagem e sua estrutura urbana e, consequentemente, interferindo na vida dos cidadãos, agora de maneira mais profunda. O processo de urbanização fez e faz multiplicar os problemas urbanos, pois a concentração de renda aumenta continuamente, o solo urbano aprofunda o valor de troca, os grupos excluídos se tornam e se sentem mais excluídos ainda, pois próximo de seu bairro ou de seu casebre de papelão – comum em áreas periféricas no Brasil – há mansões e, ao redor destas, toda uma infra-estrutura de serviços, segurança, pavimentação, sistema de esgoto, energia, lojas de conveniências (abertas 24 horas), galerias de luxo, Shopping Center, etc., o que pode ser constatado em Aracaju, nos bairros Jardins e próximo ao São Conrado.

Os proprietários dos meios de produção, buscando a valorização da cidade, estabelecem diferenças no tipo, na qualidade e na localização das moradias, aprofundando, assim, o valor de troca do solo urbano. Com isso, as populações menos favorecidas, que constituem a grande parcela das populações urbanas, vêm sofrendo mais ainda a discriminação, por não possuírem condições financeiras para usufruírem destes territórios mais privilegiados e bem mais estruturados. Atrelado ao planejamento urbano, está a problemática da segregação socioespacial. O crescimento urbano mundial, principalmente depois do final do século XVIII (na Europa e América do Norte) e a partir da segunda metade do século XX (no Brasil e América do Sul), provocou a intensificação desta segregação de maneira mais acelerada e sem um acompanhamento adequado, portanto, sem um crescimento sustentável.

A problemática da segregação socioespacial existe desde tempos remotos, e a sua análise completa e não cabe nesta breve pesquisa. Aqui, pretendemos apenas situar o leitor no contexto desta questão a partir da Revolução Industrial. Valemo-nos das teses levantadas por NEGRI (2008), para quem a maioria dos tipos de segregação encontrados no espaço urbano ocidental é por classe ou por etnia. Mas os estudos só começaram a ser realizados no século XIX.

De acordo com as formulações de Corrêa, o primeiro modelo de segregação foi formulado por J.G. Kohl em 1841, geógrafo alemão. Segundo este modelo, a cidade se caracterizava por estar dividida em anéis, onde a classe alta habitava o centro enquanto que na periferia viviam os pobres.
Na década de 1920, surge o modelo de E. W. Burgess que segue o caminho inverso ao de Kohl, as camadas mais ricas passam a viver nas periferias em busca de qualidade de vida e segurança, enquanto que as camadas mais pobres migram em direção ao centro da cidade em busca de minimizar as distâncias do trabalho (NEGRI, 2008, p.131).

Porém, nos Estados Unidos, foi proposto outro modelo, desenvolvido pelo economista americano Hoyt, que acabou eliminando as discordâncias dos modelos anteriores.

Segundo este, o padrão de segregação não seguia um tipo concêntrico, mas em setores a partir do centro, onde a região de maiores amenidades era ocupada pela classe de mais alta renda, sendo circundada pela classe média e estando a classe pobre localizada diametralmente oposta. (NEGRI, 2008, p.131).

Este modelo foi impulsionado pelo desenvolvimento da comunicação, transporte e novas avenidas que facilitaram a circulação. Mas, segundo o mesmo autor, no século XIX, Friedrich Engels escreveu as mais importantes contribuições relativas às condições da classe trabalhadora na Inglaterra e sobre o problema de habitação, demonstrando um padrão de segregação oposto ao de Kohl. Continuando citando Negri (2008),

Ainda dentre os principais estudos realizados no início do século XX, destaca-se a Escola de Ecologia Humana de Chicago, nos Estados Unidos. Os estudiosos dessa escola basearam suas análises urbanas em modelos metodológicos fornecidos pelo Darwinismo Social, tendo uma perspectiva positivista da realidade. Essa escola pesquisava, sobretudo, os efeitos da imigração, através da formação de guetos. (NEGRI, 2008, p.132)

Para os seguidores desta escola, os indivíduos que conseguissem ocupar os melhores locais e bairros nas cidades eram fruto de seu trabalho, ou seja, era como se não existisse as classes sociais antagônicas, que reproduzissem o espaço urbano conforme os interesses dos grupos mais ricos. Eles defendiam que a segregação era “voluntária” ou “involuntária”, como se fosse dado o direito, aos grupos excluídos, de escolha. A própria formação dos guetos, nos Estados Unidos, revela esta contradição. Quanto mais a cidade cresce e multiplica suas funções, mais ainda aumenta a segregação socioespacial. As teorias desta escola estavam fora da realidade dos grupos sociais diferenciados, pois defendiam que a segregação existente na cidade era algo natural ao próprio crescimento urbano e consequente de desenvolvimentos diferentes entre os cidadãos. Segundo esta escola, todos eram livres para crescerem e evoluírem; quem não conseguisse ter um nível de renda melhor era por que não quis:

O maior equívoco desta escola foi o de ter tomado para a sociedade uma teoria construída para elementos naturais e ter construído bases para a “naturalização” das relações sociais nas cidades. A segregação sócio-espacial foi tomada como algo inerente às cidades, através de questões de cunho racial, étnico e cultural. Como se ser segregado ou não fizesse parte do cotidiano do espaço urbano, das relações “naturais” entre as pessoas, ou seja, somente aquele que se adaptasse mais facilmente e mais rapidamente ao modo de vida urbano poderia sair-se melhor e, conseqüentemente, habitar as melhores áreas e ter as melhores oportunidades de trabalho e renda.” (NEGRI, 2008, p.135)

Segundo Negri, a partir de 1970, começaram a ser realizados estudos dentro de uma linha marxista, utilizando as teses de Castells, Harvey e Lefebvre, que estão em sintonia em seus estudos, que defendem que a segregação socioespacial é decorrente do processo de disparidade social, de alienação urbana e de oportunidades desiguais, inerentes a uma cidade estratificada, quer seja na sua aparência, quer seja na sua essência. Neste artigo, buscamos apenas iniciar uma reflexão sobre sua origem e desenvolvimento, e divulgar alguns estudos já realizados: vários foram escritos para reproduzir o status quo a serviço das classes dominantes, outros cujo objetivo era revelar que todo o tipo de segregação ocorrido na área urbana reflete as diretrizes de uma sociedade mercadológica, que tem como função produzir, circular, consumir, de maneira a favorecer os detentores dos meios de produção.

Outra questão que precisa ser analisada posteriormente é sobre alta concentração urbana em regiões litorâneas, das populações do Brasil e de Portugal. No Brasil, segundo o IBGE (2010), e também em Portugal, segundo o INE (2009), há grandes concentrações de populações litorâneas e, tanto no Brasil quanto em Portugal, as maiores parcelas de suas populações se concentram em áreas urbanas, que são formadas também pelas principais regiões metropolitanas e situadas no litoral destes países. Assim, no Brasil, pode ser observado, abaixo, que grande parte de sua população concentra-se em áreas urbanas.

Após cerca de quatro meses de trabalho de coleta e supervisão, durante os quais trabalharam 230 mil pessoas, sendo 191 mil recenseadores, o resultado do Censo 2010 indica 190.732.694 pessoas para a população brasileira em 1º de agosto, data de referência. Em comparação com o Censo 2000, ocorreu um aumento de 20.933.524 pessoas. Esse número demonstra que o crescimento da população brasileira no período foi de 12,3%, inferior ao observado na década anterior (15,6% entre 1991 e 2000). O Censo 2010 mostra também que a população é mais urbanizada que há 10 anos: em 2000, 81% dos brasileiros viviam em áreas urbanas, agora são 84%. (IBGE, 2010) (Grifo nosso).

Com estes dados, percebemos que a tendência é que continue crescendo a concentração da população urbana, o que nos leva a crer que os problemas urbanos também devem seguir o mesmo ritmo. Isto vem ocorrendo, de modo geral, em nível mundial. Assim, os problemas de segregação socioespacial tendem a se agravar mais ainda. Atualmente os problemas inerentes ao contexto da urbanização, citados anteriormente, já são alarmantes, visto que a densidade populacional cresce diariamente nas periferias das regiões metropolitanas e das cidades médias também.

Por outro lado, em relação a Portugal, segundo o Instituto Nacional de Estatística,

as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto concentravam os municípios com densidades populacionais mais elevadas: Amadora (7 183 habitantes por Km2), seguida de Odivelas (5 913), Lisboa (5 651), Porto (6 000), Oeiras (3 763), São João da Madeira (2 744) e Matosinhos (2 720). (INE, 2009, p. 3-9)

Assim, constatamos que o maior percentual da população de Portugal também se encontra nas regiões litorâneas e com percentuais mais acentuados nas duas grandes regiões metropolitanas do país: Lisboa e Porto.

Baseando-se nestes dados pode-se afirmar que, tanto para o caso do Brasil como de Portugal, está ocorrendo um aumento considerável no processo de segregação socioespacial. Esta migração intensifica, naturalmente, à procura por moradia e trabalho nas regiões metropolitanas e litorâneas nos dois países citados. Como este contingente populacional não é absorvido, nem em relação ao emprego, tampouco em relação à moradia, estes grupos de excluídos estão reforçando a segregação socioespacial.


3 - CARACTERISTICAS DOS BAIRROS JARDINS E SÃO CONRADO EM ARACAJU E DESCRIÇÃO INICIAL DOS BAIRROS NOGUEIRÓ E ANDORINHAS EM BRAGA

Os bairros escolhidos na cidade de Aracaju foram Jardins e São Conrado. O bairro Jardins está localizado em uma área nobre, com infraestrutura considerada boa e composta por uma população de razoável e alto poder aquisitivo e com bom nível de instrução. O bairro São Conrado (mais especificamente a favela de São Conrado) está localizado em uma área de infraestrutura urbana precária, composto por uma população de baixíssima renda e quase sem instruções.

Na cidade de Braga, os bairros escolhidos foram Nogueiró e Andorinhas. O bairro Nogueiró está localizado na freguesia de Lamaçães, constituído de uma boa infra-estrutura urbana e composto por uma população, na sua grande maioria, com bom nível socioeconômico e com boa instrução. O bairro social denominado bairro das Andorinhas está localizado na freguesia de São Vicente, e é onde reside uma população de baixo poder aquisitivo e sua infraestutura urbana ainda precisa de certa melhoria e maior atenção por parte dos órgãos públicos.

Já fizemos uma análise geral dos dois bairros localizados em Aracaju, mas as análises específicas dos bairros de Braga serão somente iniciais e hipotéticas, pois ainda não temos o conhecimento efetivo das áreas escolhidas nesta cidade, como também ainda não realizamos pesquisa de campo. Assim, descrevemos, a seguir, as características dos bairros localizados em Aracaju e faremos uma descrição inicial sobre os bairros escolhidos em Braga.

3.1 - ANÁLISE DO BAIRRO JARDINS (ARACAJU-BRASIL)

O bairro Jardins foi criado em dezembro de 1998 conforme dados da Prefeitura Municipal de Aracaju, pela Lei nº 2.666, em uma área considerada privilegiada de Aracaju, que é a zona sul e, mais especificamente, centro-sul se considerar a planta urbanística onde se concentra a maior área urbanizada. “O espaço construído, no início, cresceu muito horizontalmente, mas hoje, o crescimento vertical é mais evidente e percebe-se que existem construções contínuas, principalmente nos últimos cinco anos.” (MACHADO, 2010, p.2)

Em relação à população residente, podemos afirmar, conforme levantamento realizado com entrevistas no bairro, que é uma população constituída por um grande percentual da classe média e classe média alta. Existem no bairro áreas definidas como ilhas de segregação socioeconômica, onde reside um pequeno contingente de pessoas pertencentes à classe alta de Aracaju. Este grupo minoritário reside em condomínios residenciais de alto valor imobiliário.



Fig. 01: o Bairro Jardins  - Aracaju

O bairro é bem servido de serviços e composto de várias lojas e galerias com marcas e grifes internacionais. Além disso, no bairro encontra-se o mais frequentado Shopping Center da cidade, com o mesmo nome do bairro: o Shopping Center Jardins.

O bairro Jardins, em Aracaju, é considerado um bairro de classe média alta e o novo subcentro de Aracaju. O centro antigo de Aracaju vem perdendo o poder de concentração de grupos de consumo, ou seja, o centro antigo é hoje frequentado, de maneira geral, por consumidores de baixa ou pouca renda, mas ainda continua com a existência de poucas lojas onde a classe média frequenta e compra os seus produtos.

Por outro lado, no bairro Jardins há uma gama de serviços que favorece os consumidores de maior poder aquisitivo, como: posto de gasolina e loja de conveniência 24 horas, Shopping Center, delegacia de polícia, hospital Primavera e pronto socorro (atendimento a emergências), mas só atende a quem pode pagar um alto valor das consultas e internamentos ou que tenha planos de saúde especial. Há ainda no bairro lojas revendedoras de automóveis e motocicletas novos, as melhores escolas (ou, pelo menos, as mais caras), academias, várias pet shops, praças e o maior parque da cidade, (Parque Augusto Franco) além de uma rede bancária, três supermercados, vários bares e lanchonetes seletivas, contando ainda com panificações de boa estrutura com bebidas e comidas especiais.

De modo geral, estas são as características do bairro Jardins, onde se encontra o mais luxuoso condomínio de Aracaju (Mansão Luciano Barreto Junior).

3.2 - ANÁLISE DA REGIÃO DENOMINADA DE FAVELA DE SÃO CONRADO NO BAIRRO SÃO CONRADO (ARACAJU-BRASIL)

Em relação ao bairro São Conrado, foi definida uma área pertencente a este bairro, onde existe a maior concentração de pessoas de baixa e baixíssima renda ou, ainda, sem renda. Esta área – a favela de São Conrado – é a porção localizada próximo ao canal Santa Maria e Rio Poxim.

Descrevendo a área total do bairro São Conrado, podemos afirmar que este é um dos bairros maiores de Aracaju, dentro dele foi construído o conjunto Orlando Dantas, dando maior valorização para a área mais estruturada do bairro, sendo reforçada esta estrutura com a abertura e construção da Avenida Gasoduto e da instalação de um supermercado da rede G. Barbosa, o que provocou uma grande valorização imobiliária e social para esta parte do bairro.


Fig. 02: Bairro São Conrado - Aracaju

Nos últimos dez anos, o bairro se desenvolveu muito em relação à sua infra-estrutura urbana, tal como: melhoria na pavimentação, novo sistema de esgoto, melhoria na rede de energia elétrica, na diversidade de serviços e no comércio local. Hoje, o bairro conta com uma delegacia, várias escolas públicas e privadas, posto médico, fórum, igrejas, praças, bares, lan houses, salão de beleza e vários condomínios.

Porém, na área específica do bairro, determinada para a nossa análise, a situação é bem diferente. Nesta área, próxima ao canal Santa Maria e o rio Poxim, reside e convive uma população de moradores de baixíssima renda, parte destes é dependente de doações da prefeitura e órgãos públicos do Estado. Além disso, são cidadãos, na sua maioria, sem instrução. A infra-estrutura desta área do bairro é muito precária. Não há pavimentação, o sistema de esgoto quase não existe e boa parte dos dejetos desemboca no canal Santa Maria e no rio Poxim, ao longo dos quais se dão as construções das casas ou casebres, quase sem estrutura e habitadas por uma população excluída.

Há inúmeras vilas na área, onde muitas famílias habitam “quartinhos”, às vezes com mais de quatro pessoas dividindo o espaço. Em condições sub-humanas, estes habitantes convivem com todas as dificuldades, além de viverem na “beira” do riacho ou rio, convivendo com a presença de ratos, caranguejos e animais doentes (cães e gatos).

Dentro deste contexto, contatamos a existência da segregação e da exclusão social, em que há dificuldades em usufruir dos serviços urbanos e até a inexistência de acessibilidades a estes serviços.

A segregação, como um mecanismo de dominação e exclusão, sempre impede ou dificulta o acesso dos segregados a algum serviço, benefício, direito ou vantagem, seja público seja privado. Pode ser o conforto de um serviço de transporte, um bom parque, os serviços públicos ou os shoppings. A segregação espacial urbana atua través da acessibilidade, ou seja, através das facilidades ou dificuldades de locomoção no espaço urbano. Uns têm os equipamentos e serviços urbanos mais acessíveis, outros, menos acessíveis, entendendo-se acessibilidade em termos de tempo e custo de deslocamento no espaço urbano. (VILLAÇA, 2003, P.342)

Para tentar solucionar ou minimizar a questão da segregação socioespacial, é preciso resolver também as dificuldades que envolvem a acessibilidades aos serviços urbanos. O marco principal para a solução destes problemas está diretamente ligado à existência de um plano diretor com bases de interesses sociais e sustentáveis. Mas está difícil colocar em prática o plano diretor de Aracaju. Este está a quase um ano em revisão e continua “preso” na câmara dos vereadores, visto que a elite dominante, no caso de Aracaju, não tem interesse em discutir ou tentar solucionar os problemas urbanos, principalmente os problemas existentes nos bairros periféricos, ou mesmo nos bairros sem estruturas, existentes em áreas consideradas centrais da cidade, como é o caso da favela do bairro São Conrado.

Em relação aos bairros escolhidos em Braga, podemos fazer algumas considerações iniciais, por não termos ainda o conhecimento efetivo destas áreas definidas. Escolhemos dois bairros que, segundo pesquisas iniciais, existem contrastes no sentido de infra-estrutura e das condições socioeconômicas das populações residentes nestas áreas.

3.3 - ANÁLISE INICIAL DO BAIRRO DE NOGUEIRÓ (BRAGA-PORTUGAL)

Este bairro está situado próximo à freguesia de Lamaçães, conforme a visualização do mapa turístico de Braga, editado pela empresa DIRENOR – Comunicação e Divulgação Regional Ltda. (sem data de publicação). Segundo pesquisa teórica inicial, e com informações obtidas com alguns moradores desta cidade, no bairro de Nogueiró se concentra uma razoável população de médio a alto poder aquisitivo e é um bairro onde a infra-estrutura urbana é considerada boa.



Fig. 03: Bairro de Nogueiró

Circulando por este bairro, percebemos que existem alguns condomínios residenciais de apartamentos e casas grandes bem estruturados, com boa pavimentação e sistema de esgoto e drenagem. Este bairro situa-se próximo de clubes sociais, escolas, casa de saúde, caixas eletrônicos (multi bank), igrejas etc. Também não fica muito distante da Universidade do Minho, do Mc Donald’s, Bracalândia, Carrefour Minho Center, Makro e de outras casas comerciais.

3.4 - ANÁLISE INICIAL DO BAIRRO DAS ANDORINHAS (BRAGA-PORTUGAL)

Em relação aos bairros sociais de Braga, escolhemos o bairro das Andorinhas por ser um dos bairros sociais onde existia, em 2003, um maior número de população dependente. Embora os dados não sejam recentes, acreditamos que, neste bairro, exista ainda uma grande necessidade de auxílio aos grupos populacionais excluídos. De maneira geral, ficou constatado que, em Braga, existem vários problemas a serem solucionados em que,

Perante os resultados do inquérito, se quisermos destacar os três problemas mais importantes numa escala gradativa do mais grave são a toxicodependência, a pobreza e os problemas habitacionais os que se afiguram como prioridades para a intervenção. Outros problemas como o alcoolismo, o desemprego e a delinquência seguem, contudo de perto os três primeiros indicados. (DIAGNÓSTICO SOCIAL DO CONCELHO DE BRAGA, 2003, p.67)

Estes problemas certamente estão presentes nos cinco bairros sociais. Mas escolhemos o bairro das Andorinhas por ser a área onde existia a maior população entre estes bairros e, portanto, a maior concentração destes problemas citados. Conforme o Diagnóstico Social do Conselho de Braga (2003, p.180), além de várias análises e tabelas que foram feitas pela BRAGAHABIT sobre os bairros da cidade, podemos destacar o quadro nº 37 que apresenta uma caracterização de seus cinco bairros sociais (Enguardas, Andorinhas, Pte. dos Falcões, Sta. Tecla e Complexo Habitacional do Picoto) em relação às populações presentes nestes bairros.

Para facilitar a análise, abstraímos deste quadro apenas os dados de constatação de que, na época, (se compararmos com os outros bairros sociais), foi no bairro social das Andorinhas o local onde existia o maior número de famílias carentes (200), o maior número de pessoas (581) e, ainda, onde existia o maior número de pessoas isoladas (22).



Fig. 04: Bairro Social das Andorinhas

Analisando, mais uma vez o Mapa Turístico de Braga, notamos que o seu nome não está descrito no Mapa. Será proposital? Qual será o motivo da não divulgação da existência deste bairro? Estas são perguntas iniciais. Naturalmente, iremos realizar também nesta área pesquisas e entrevistas. Segundo entrevista realizada no Semanário de Porto (14/05/09), o presidente da BRAGAHABIT, senhor João Nogueira, afirma que este bairro é um dos quatro bairros sociais criados em Braga.

Segundo informações iniciais, este bairro é composto por uma população de baixa renda e foi um dos bairros sociais criados pela prefeitura municipal de Braga para tentar minimizar as desigualdades sociais de seus moradores. Mas, conforme a entrevista, estes bairros custam caro e precisam de obra de reabilitação:

Bairros sociais saem caros Braga ainda mantém quatro bairros sociais, que alojam 471 famílias. Santa Tecla, Andorinhas, Enguardas e Ponte dos Falcões têm mais de 30 anos e precisavam urgentemente de obras de reabilitação quando, há seis, foram comprados ao Instituto de Gestão e Administração Pública. Melhorar as condições de habitabilidade e minimizar a possibilidade de fricções sociais eram os objectivos. (NOGUEIRA, 2009)

Segundo Pinto (2007), a cidade de Braga é conhecida como a mais antiga de Portugal, fundada na época dos romanos, quando era chamada de Bracara Augusta. Hoje, é considerada a terceira cidade de Portugal, pelo seu crescimento urbano, desenvolvimento do comércio, pela construção de novas indústrias e pelo desenvolvimento científico muito forte, que foi reforçado pela instalação da Universidade do Minho, que, com sua variedade de cursos de graduação e pós-graduação incentivou novo incremento cultural, social e econômico à cidade. Em 2009, segundo o site Wikipedia, Braga tinha uma população de 176.154 habitantes. Como todas outras cidades de porte médio, Braga também necessita de uma política constante de planejamento urbano sustentável visto que:

A estratégia do planeamento urbano sustentável passa pela ligação e coordenação entre o planeamento territorial e a protecção ambiental. Esta é uma visão muito integrada, na qual a sustentabilidade, no planeamento físico e no desenvolvimento territorial, vem definida pelos seguintes aspectos: qualidade espacial (com três componentes: ambiente, ecologia e paisagem); qualidade socio-económica, que significa que a política na agricultura e no recreio nas áreas livres deve melhorar o nível de vida dos seus utilizadores e criar condições sólidas de vida e trabalho; funções espaciais e dinâmica no âmbito do projecto, entre as quais está a rede ecológica, que inclui um conjunto de núcleos, áreas de desenvolvimento natural e corredores ecológicos. (PINTO, 2007,p.27)

4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste artigo, fizemos uma análise geral sobre a questão do planejamento urbano e os problemas que surgiram com o crescimento das cidades mediante o mau uso destes planejamentos. Como consequência, as cidades foram crescendo sem uma boa infra-estrutura, o que foi favorecendo a segregação socioespacial cada vez maior, principalmente em suas periferias. Isso vem ocorrendo desde a antiguidade em todos os continentes, mas com níveis de intensidades diferenciados.

A nossa análise teve como objetivo realizar um estudo comparativo entre duas cidades, uma existente no Brasil e a outra em Portugal. A consolidação do capitalismo flexível intensificou mais ainda a valorização urbana, segregando as áreas nobres em detrimento dos bairros mais periféricos, onde sempre existiu uma estrutura urbana que não vem acompanhando o desenvolvimento urbano na mesma intensidade do que o das forças produtivas. A terra tornou-se uma mercadoria e as áreas urbanas mais ainda. A grande maioria de seus cidadãos não teve nem têm condições econômicas de se enquadrar neste contexto de evolução social e econômica.

Nos últimos cinquenta anos, as cidades se multiplicaram em nível mundial, principalmente nos países subdesenvolvidos. Com isso, a necessidade em adequar o seu desenvolvimento urbano com as boas condições de moradia e de proteção ao meio ambiente tornou-se condição fundamental para um crescimento sustentável. Porém, os planejamentos urbanos, na sua grande maioria, e particularmente no Brasil, foram feitos sem uma efetiva análise do contexto social e econômico, não atendendo a real necessidade das classes de rendas inferiores.

Neste contexto, observamos que, no caso específico dos bairros analisados em Aracaju, já está ocorrendo este processo de segregação socioespacial. Por outro lado, levantamos a hipótese de que nos bairros inicialmente analisados em Braga, e onde iremos realizar em pesquisa de campo, existem também indícios de segregação socioespacial, mas já podemos afirmar que os problemas de infraestrutura urbana existentes nos bairros analisados em Aracaju são, a princípio, bem maiores do que os encontrados em alguns bairros sociais de Braga. Com isso, tentaremos conhecer efetivamente e avaliar os problemas sociais existentes, principalmente nos bairros mais carentes, situados em Aracaju e em Braga.

Em relação aos bairros situados em Braga, lembramos que ainda não temos resultados, visto que estamos iniciando o reconhecimento efetivo destes bairros para posteriormente realizarmos a pesquisa in loco.

Sugerimos que, tanto para o caso de Aracaju como para o caso de Braga, sejam dadas ênfases para a elaboração de planejamentos urbanos estratégicos sustentáveis. A existência apenas de zoneamentos urbanos, controle de uso e ocupação do solo e criação de bairros sociais e conjuntos habitacionais em áreas periféricas para a alocação das populações carentes não resolvem a problemática da segregação socioespacial.

5-REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Câmara Municipal de Braga, (2003). Diagnóstico Social do Conselho de Braga. Braga: União Europeia.

Corbusier, L. (2000). Planejamento urbano. 3. ed. São Paulo: Editora Perspectiva.

Côrrea, R.L. (1993). O espaço urbano. 2. ed. São Paulo: Ática.

Haesbaert, R.(2006). Ordenamento territorial. Boletim Goiano de Geografia, n.26, n.1, jan/jun, p.117-124.

Ianni, O. (1996). A era do globalismo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

IBGE (2010). Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Resultados do Censo.

INE, (2009). Instituto Nacional de Estatística. Portugal. Dados estatísticos.

Lefebvre, H. (2001). O direito à cidade. São Paulo: Centauro.

Machado, A. B.(2010). O bairro Jardins: processo de enobrecimento urbano, consolidação de estratos socioeconômicos e “ilhas” de segregação social. Scientia Plena, v.6, n. 8.

Maricato, E. (2000). As idéias fora do lugar e o lugar fora das idéias. Planejamento urbano no Brasil. In: O. Arantes, C. Vainer e E. Maricato. A Cidade do pensamento único: Desmanchando consensos. Petrópolis: Rio de Janeiro: Vozes.

Martins, A. R. (1997). Fronteiras e nações. 3 ed. São Paulo: Contexto.

Nader, M. M.(2009). Desenvolvimento urbano sustentável: uma questão de espaço.

Negri, S. M.(2008). Segregação socioespacial: alguns conceitos e análise. Coletânea novo tempo, Rondonópolis, v. VII, n. 8, pp.129-153.

Nogueira, J. (2009). Braga acabou com os guetos e o crime caiu a pique. Porto: I Semanário do Porto. Entrevista ao presidente da Bragahabit.14/05.

Oliveira, I. C. E. (2001). Estatuto da cidade: para compreender. Rio de Janeiro: IBAM/DUMA.

Pinto, R. S. B. F. F. (2007). Hortas urbanas: espaços para o desenvolvimento sustentável de Braga. Braga: Portugal: Universidade do Minho. (Dissertação de Mestrado).

Sposito, E. S. (2008). Redes e cidades. São Paulo: UNESP.

Villaça, F.(2003). Segregação urbana e a justiça (ou A justiça no Injusto Espaço Urbano). Revista Brasileira de Ciências Criminais, ano 11, nº 44, julho/setembro, pp. 341/346.



6-SIGLAS E OUTRAS FONTES

CMB - Conselho Municipal de Braga.

PMA - Prefeitura Municipal de Aracaju.

Wikipedia - População do Conselho e Braga em 2009.

DIRENOR

Notas do artigo

(1) Bairros sociais são territórios compostos por um contingente populacional de baixa renda.

(2) O BRICS é formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

(3) O PIIGS é formado por Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha.


Notas editoriais:


(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.


(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.


(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

(iv) Para facilitar a leitura do texto no visor a edição tenta delimitar a extensão dos parágrafos, sempre no máximo respeito pelo texto editado e solicitando-se a compreensão dos autores para esta "liberdade" editorial.

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar


Editor: António Baptista Coelho


Edição de José Baptista Coelho


Lisboa, Encarnação - Olivais Norte


O Planejamento urbano e a problemática da segregação sócio-espacial, artigo de Anselmo Belém Machado e duas sessões no LNEC


Infohabitar, Ano VII, n.º 373, 11 de Dezembro de 2011

domingo, março 14, 2010

289 - Soluções de realojamento I: a Residencial Alexandre Mackenzie no realojamento da favela Nova Jaguaré - Infohabitar 289

Infohabitar, Ano VI, n.º 289 Soluções de realojamento I: reflexões preliminares sobre a recente solução da Residencial Alexandre Mackenzie para realojamento da favela Nova Jaguaré, em São Paulo
Artigo de António Baptista Coelho

Divulgação da
13.ª Visita Técnica do Grupo Habitar
sexta-feira, 26 Março, 14h.00, Cais de Vila Nova de Gaia


Antes de passarmos ao artigo da semana, acima referido, relembramos a 9.ª Assembleia-geral do Grupo Habitar (GH), cuja convocatória formal foi editada a semana passada, no nº 288 do Infohabitar e que continua disponível, salientando-se que, tal como tinha sido considerado, foi possível programar na mesma sexta-feira 26 de Março, numa parceria entre o GH, a CidadeGaia-SRU e a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, a partir do Cais de Vila Nova de Gaia a 13.ª Visita Técnica do GH, entre as 14.00h e as 18.00h, com o seguinte programa:

. Encontro: entrada do Convento Corpus Christi, sexta-feira dia 26 de Março de 2010, às 14h 00.
. 14,00h- Visita ao Convento Corpus Christi, da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia .
. 15,30h – Visita
à obra do THE YEATMAN OPORTO HOTEL .
. 17,00h – Visita à Zona do
CASTELO DE GAIA .

A visita é pública, tal como acontece com todos os eventos participados pelo Grupo Habitar. E o Grupo Habitar agradece, desde já, publicamente, à Cidade Gaia - SRU e à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia por esta excelente parceria.

A partir das 18h 00, decorrerá a 9.ª Assembleia-geral do Grupo Habitar, na sede da CidadeGaia - SRU: Rua Guilherme Gomes Fernandes Nº 136-140; esta Assembleia decorrerá de acordo com a respectiva convocatória e será reservada aos associados do GH e aos colegas que queiram aderir ao Grupo e que, entretanto tenham manifestado esse interesse a um dos associados.
E junta-se a localização da CidadeGaia-Sru:
http://www.cm-gaia.pt/gaia/portal/user/anon/page/_SRU_apresentacao.psml?categoryOID=96928080808180GC&contentid=EE92808680CO&nl=pt

A Direcção do Grupo Habitar
António Baptista Coelho
Defensor de Castro
Segue-se o artigo da semana.
Soluções de realojamento I: reflexões preliminares sobre a recente solução da Residencial Alexandre Mackenzie para realojamento da favela Nova Jaguaré, em São Paulo
Artigo de António Baptista Coelho

Não gosto especialmente de títulos longos, mas neste caso teve de ser pois quero, com este artigo, iniciar uma nova série editorial de textos ilustrados sobre soluções de realojamento, ou sobre novas ou renovadas soluções de realojamento, mas quero, também, aproveitar esta série de reflexões para pensar um pouco sobre as questões, bem integradas, das tipologias e das áreas domésticas, que se disponibilizam nestas operações e da qualidade arquitectónica residencial interior e exterior que aqui se tem de aplicar. E, por isso, o longo título.

Mas vamos à matéria.

Na sequência de uma última estadia na excelente Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, para realizar uma conferência, fui convidado por colegas da Superintendência de Habitação Popular e da Secretaria de Habitação da Prefeitura da Cidade de São Paulo, para visitar as margens da favela Nova Jaguaré, e, especificamente, as últimas soluções de realojamento que aí têm vindo a ser aplicadas de forma faseada e bem avaliada/acompanhada tecnicamente; e aproveito, aqui, para agradecer a excelente oportunidade e a gentileza e eficácia desta visita pois não tenhamos dúvidas que da troca de experiências sobre problemas com alguma identidade surgirão, sempre, resultados positivos acrescidos, e quando a cultura e a língua são comuns, então, os resultados poderão ser muito expressivos.



Fig. 01: o novo conjunto de realojamento "Residencial Alexandre Mackenzie"(imagem cedida por Marcos Boldarini).

Quero ainda salientar que a palestra na FAUUSP, acima referida, foi realizada, por convite da Prof.ª Sheila Ornstein, em 17 de Novembro de 2009 no Auditório Ariosto Mila, e nela abordei as amplas matérias da "humanização do habitar", matérias estas que, naturalmente, têm tudo a ver com o necessário caminho que tem de ser seguido nas acções de realojamento de pessoas que vivem em condições domésticas e urbanas sub-humanas, em zonas de barracas e em casas abarracadas, em aglomerados muitas vezes até higienicamente inaceitáveis.

Introdução
Fazendo justiça à indicação de ir aqui fazer, apenas, algumas "reflexões preliminares", até porque é muito negativo falar-se de assuntos que pouco se dominam e, neste caso, pouco conheço das soluções de realojamento aplicadas no âmbito da "urbanização de favelas", seja em São Paulo, seja noutras zonas do Brasil, irei apontar, apenas, alguns comentários, decorrentes da visita à intervenção de realojamento de cerca de 400 famílias, que anteriormente habitavam a favela Nova Jaguaré (onde vivem cerca de 4.500 famílias), no conjunto designado por Residencial Alexandre Mackenzie, situado na Av. Alexandre Mackenzie, em São Paulo; e há que sublinhar, ainda, que essas reflexões "preliminares" decorrem quer do que se viu, ouviu e discutiu na referida visita, quer dos mais de 20 anos, que tenho, de conhecimento directo da realidade portuguesa da promoção de habitação de interesse social e, especificamente, de soluções de realojamento de zonas de barracas.



Fig. 02: vista geral do conjunto de realojamento, podendo observar-se a margem da favela, a zona de edifícios/apartamentos concluía e habitada e a zona de "casas sobrepostas", ainda em conclusão (imagem cedida por Marcos Boldarini).

Devo referir ainda que esta visita foi realizada, também, na companhia do respectivo projectista, o Arq.º Marcos Boldarini, e nela foi possível visitar, longamente, boa parte do conjunto, seus edifícios e espaços exteriores de vizinhança, tendo havido a possibilidade de dialogar com outros técnicos envolvidos na respectiva obra e, ainda, de entrar em alguns dos apartamentos e trocar impressões com os seus habitantes; e quero agradecer ao colega Marcos Boldarini, além da gentileza da visita, ter facultado a ficha técnica do seu projecto, que se anexa, e um inestimável conjunto de imagens sobre as suas peças técnicas e sobre a obra acabada.

Aponta-se, portanto, neste texto, um conjunto de temas que se consideram muito importantes em situações críticas de realojamento e que, se julga, serem bem identificáveis neste conjunto situado na Av. Alexandre Mackenzie, em São Paulo.

Salienta-se que será abordado, essencialmente, o conjunto de edifícios de apartamentos com 5 pisos e acesso por galerias exteriores comuns, encontrando-se a zona de "casas sobrepostas" em acabamento à data da visita; para outra ocasião e, eventualmente, outro autor - quem sabe o próprio projectista - ficará uma reflexão sobre os objectivos desta diversificação tipológica: 295 habitações em "prédios" (baixos e alongados), e 132 habitações em "casas sobrepostas".



Fig. 03: as "casas sobrepostas" em acabamento.

Definição do território de intervenção
Uma matéria importante é a definição do território de intervenção, feita de uma forma clara e cuidadosa. Não estamos em presença de um "condomínio" de acesso exclusivo, mas há locais de acesso "visualmente" controláveis, com portões que estão fechados, mas apenas "no trinco", e que caracterizam um limite e uma área de vizinhança e de pertença da globalidade dos edifícios de apartamentos; na altura da visita assistimos à saída de um grupo de crianças, devidamente monitorizado, sendo que a primeira criança do grupo abriu o pequeno portão.
Ainda nesta matéria destaca-se, quer o cuidado que foi investido na vedação do conjunto, através de uma solução que, garantindo segurança, tem uma adequada imagem residencial, quer todo o cuidado que marca a intervenção pormenorizada em todos os espaços exteriores entre os edifícios e, designadamente, nas zonas contíguas ás fronteiras com a favela.



Fig. 04: a excelente pormenorização em todos os espaços exteriores entre os edifícios e, designadamente, nas zonas contíguas ás fronteiras com a favela.

Solução edificada escolhida e respectivo potencial de atractividade
A solução escolhida estará no limite do uso funcional do elevador, uma longa discussão pode ser desenvolvida quanto á necessidade de haver elevador para o acesso a um 4.º andar, mas fiquemos quer com a oportuna comparação com a regulamentação de edificações portuguesa, que até há bem pouco tempo, aceitava tal situação desde que com alturas piso a piso relativamente reduzidas, quer com a disponibilização, nos pisos térreos, de acessos directos entre as habitações e o exterior contíguo, e que poderão servir casos de grande necessidade em termos de acessibilidades.
E há que ser lógico e interiorizar, ou simplesmente constatar, que o custo inicial, o custo de manutenção e a insegurança associada ao mau uso e à potencial vandalização de elevadores coloca este tipo de instalações fora do campo de adopção em soluções dedicadas a elevados números de habitantes e a populações socialmente críticas; e em termos técnicos há que sublinhar que será possível prever posteriores agregações de "colunas" de elevadores a galerias exteriores comuns.

Um outro aspecto bem importante nesta escolha tipológica refere-se a um desenho do edificado marcado por expressiva capacidade de atractividade, em termos de volumetrias e de cores, mas não se arriscando, nem a regularidade e, consequentemente, a economia global da construção (volumetria geral simplificada), nem um "partido" geral de "desenho", positivamente marcado pela sobriedade e estratégica "horizontalidade", que, assi, faz acentuar uma agradável relação com o solo, bem conhecida de quem antes habitava barracas ou casas abarracadas.



Fig. 05: é importante investir numa atractividade que sirva/atinja quem habita e que dignifique o espaço urbano.
A solução de acesso por galerias exteriores comuns, a partir de circulações verticais estrategicamente encerradas, proporciona que as pessoas habituadas a uma vivência da habitação em forte relação com o exterior, continuem a poder fruir tal relação, assim como algumas relações de convívio com quem vive em cada piso, embora seja positivamente controlado o número de vizinhos em cada galeria de acessos.



Fig. 06: galerias que são quase varandas domésticas, humanizadas e que também contribuem para o referido potencial de atractividade da solução.


No exterior também se habita
Numa forte relação entre escolha da tipologia edificada e opção geral de habitabilidade do conjunto, temos um conjunto residencial harmonizadamente entremeado de edifícios alongados e vizinhanças de proximidade potencialmente conviviais, que constituem os "negativos", desses edifícios, criando-se, assim, como que grandes "compartimentos" exteriores - numa interessante relação com a ideia de se fazer um exterior "interior".
Mas não se trata de um exterior residencial apenas volumetricamente disponível, pois os edifícios têm acessos estrategicamente vitalizadores de todas essas vizinhanças, e há numerosas habitações - todas as do piso térreo, portanto cerca de um quinto do total (cerca de 60) - que dão acesso directo ao exterior, vitalizando-o e securizando-o com naturalidade; e além de tudo isto todas as habitações até ao 4.º andar (piso mais alto) têm janelas e galerias de acesso que funcionam como varandas de "diálogo", dinamização e "controlo" natural do que se passa no exterior residencial.



Fig. 07: a ideia de se fazer um exterior que també se habita, realmente, um exterior que é também um "interior".

Mas além de tudo isto há um claro objectivo de uma positiva apropriação das vizinhanças de edifícios e espaços exteriores contíguos, logo a partir dos elementos cromáticos estratégicos, mas também pelo desenvolvimento de canteiros ao longo das habitações térreas e que são arranjados e cuidados pelos respectivos habitantes, e, naturalmente, há todo o pormenorizado arranjo, ajardinamento e equipamento dos espaços exteriores de vizinhança, evidenciando-se, assim, que estamos em presença de espaços exteriores que são, também, espaços para serem efectiva e afectivamente habitados no dia-a-dia; uma opção que é, também, estratégica, seja no aproveitamento de condições de conforto ambiental que permitem estar "na rua" frquentemente, seja num natural equilíbrio compensado de espaciosidades interiores domésticas e exteriores "públicas"/de vizinhança.

Há, assim, aqui, um estimulante pequeno "mundo" de vizinhança de proximidade, que desde que bem gerido e acompanhado, para se evitarem e reduzirem "desvios", poderá funcionar como uma segunda "concha" protectora, que envolve os espaços domésticos e que prepara a relação com o verdadeiro mundo urbano. E, já agora, refere-se não ter sido observado, a este nível, que tipos de relações estratégicas com a cidade foram ou estão a ser previstos, designadamente, quanto a transportes públicos, e que tipo de localização urbana caracteriza o sítio em termos de proximidades a estruturas urbanas importantes; matérias estas que são, como sabemos, vitais para o êxito social do realojamento, até porque tem de haver vida urbana acessível em termos de equipamentos diários.



Fig. 08: a apropriação do exterior residencial contíguo às habitações térreas, uma forma de proporcionar uma forma de habitar mais adequada a quem está habituado ao contacto com o exterior e também uma forma de tornar este exterior mais vivo e mais seguro.


Sensibilidades na solução edificada
No que se refere à solução edificada há variadas sensibilidades algumas já aqui apontadas, como é o caso da altura geral humanizada e dialogante com os exteriores contíguos, mas também da opção por fazer habitar bem e intensamente toda a envolvente, através de acessos directos das habitações térreas ao exterior, e, naturalmente a própria imagem geral transmitida, que funde um estratégico sentido de residencialidade e de capacidade (cromática e volumétrica) de apropriação, com um "partido" global de adequada sobriedade urbana.
Mas há outras "sensibilidades", entre as quais se referem as soluções de controlo de acesso em metal "microperfurado" (provavelmente não será esta a designação técnica), que propicia o controlo sem os problemas dos caixilhos envidraçados tão frequentemente degradados, mas também as soluções de previsão, em cada piso, da reserva de um compartimento para as mais diversas utilidades. Uma criança que nos acompanhou estava genuinamente entusiasmada com a planeada pequena biblioteca que aí poderia surgir, mas podem ser também sítios para os mais diversos objectivos muito práticos, desde o arrumar de bicicletas a locais de atendimento social; e aqui e nestas perspectivas é essencial o acompanhamento e a gestão social da ocupação, tal como iremos, sempre, sublinhando.

E há no último piso, em terraço, a ideia de se proporcionar um amplo espaço de convívio do condomínio, num reafirmar de uma solução estruturada pela circulação bem visível e dinamizadora nas galerias exteriores comuns; galerias estas cuja extensão foi sabiamente encurtada - é sabido que estas galerias funcionam tanto melhor, quanto mais semelhantes forem a varandas "privatizadas", e foi assim que elas aqui foram desenvolvidas.



Fig. 09: o terraço de convívio, que contribui, também, para outros níveis de leitura e de uso dos espaços residenciais.


E, finalmente, a "célula" doméstica, espacialmente equilibrada e razoavelmente multifuncional

Quanto à habitação propriamente dita considera-se que, globalmente, ela é espacialmente equilibrada, numa perspectiva de que havendo pouco espaço toda a habitação é "razoavelmente" pouco espaçosa - isto naturalmente considerando as referências na actual habitação de interesse social portuguesa - , e escreve-se "razoavelmente" pois é bem perceptível a adequada funcionalidade da organização doméstica, prevendo-se uma pequena cozinha autonomizada da sala-comum e dispondo de adequados vãos exteriores e de uma pequena zona de tratamento de roupas; e assim não se associando funções dmésticas tão criticamente distintas como: o cozinhar; o tratar a roupa; e o estar/lazer e as refeições familiares e conviviais. E destaca-se que as dimensões da cozinha proporcionam alguma positiva funcionalidade e até flexibilidade no seu uso, podendo "libertar-se" a pequena sala-comum para usos, por exemplo, mais ligados aom lazer e, quem sabe, ao trabalho em casa - uma realidade que se julga ser de incentivar e apoiar em termos espaciais e de conforto.
Mais se sublinha que a organização da pequena habitação liga-se, funcionalmente, aos quartos e à pequena casa de banho, que tem janela exterior.



Fig. 10: a "pequena" cozinha e a casa de banho; espaços bem pormenorizados.


Um outro aspecto que importa destacar é o cuidado colocado na ventilação cruzada das habitações e na sua adequada e ampla fenestração, apoiando-se o bom arejamento doméstico e propiciando-se boas condições de luz natural, depois servidas por uma adequada e alegre paleta cromática interior.

Destaca-se ainda e com especial relevo o cuidado investido no acabamento e equipamento das habitações; e aqui e tendo sido o conjunto habitado há pouco tempo, sentia-se, nas habitações visitadas, um certo sentido de satisfação e de estima, que provavelmente só se atinge quando se proporciona às pessoas um ambiente doméstico cuidadosamente acabado, ainda que através de soluções simples, económicas e duráveis.
Os elementos de referência de que disponho são essencialmente os portugueses, e em Portugal já visitei habitações de realojamento cujas famílias são tão pobres que são deixadas criticamente vazias, o que leva/levou a pensar e actuar com medidas específicas de apoio a um equipamento/mobiliário mínimo; e em São Paulo já me foi dado visitar anteriores soluções que apostavam em acções de auto-acabamento e equipamento pelos próprios habitantes, soluções estas que me são processual e intelectualmente estimulantes, pois permitem poupança, adequação e auto-ajuda; mas, no entanto, a ideia de se proporcionar, a uma dada família, como que um "novo começo" com uma pequena habitação "razoavelmente" mínima, mas agradavelmente acabada e equipada, pode ser um passo fundamental numa estratégia de desenvolvimento social, familiar e pessoal.


Aproximamo-nos do remate destas primeiras reflexões, aqui no Infohabitar, sobre acções específicas de realojamento, neste caso em São Paulo, Brasil, mas noutros artigos, naturalmente, noutras paragens ou, quem sabe, nas mesmas paragens mas através de outros pontos de vista, e nestes seria muito interessante ter a perspectiva dos projectistas sobre estes e outros pontos que considerem importantes especificamente em acções de uranização e realojamento de favelas. Iremos, no entanto, apontar ainda alguns aspectos, ainda que, para já, apenas de forma esquemática, sobre a sempre crítica questão das áreas domésticas em acções de realojamento.




Fig. 11: a planta-tipo de uma habitação com dois quartos (imagem cedida por Marcos Boldarini).

A "velha" e sempre presente questão das áreas domésticas "mínimas"
A questão das áreas domésticas é cíclica, estamos sempre a voltar a ela quando se trata de "habitações para o maior número", ou sempre que nos dedicamos a tentar resolver, um pouco mais, "o problema da habitação"; e trata-se de uma questão que exige uma abordagem cuidadosa e bem referenciada em termos dos quadros sociais e de carências específicos em que estamos a trabalhar e dos meios disponíveis para apoiar a sua resolução. Portanto, iremos ficar, aqui, apenas, com algumas reflexões globais e muito sintéticas.

A primeira é que a inexistência de condições espaciais e domésticas minimamente adequadas pode ter efectivas consequências patológicas em termos de saúde física e psicológica dos respectivos habitantes. E há, assim, que ter bem presente que, no interior doméstico, as reacções de insatisfação devidas à sobre-ocupação habitacional dominam, habitualmente, todas as outras, inclusivamente o extremo desconforto sanitário, e é sabido que abaixo de cerca de 20m2 por habitante aumentam os níveis de conflitualidade domésticos. Temos, assim, que tentar conciliar economia espacial com uma verdadeira "sanidade" e um, pelo menos mínimo, conforto espacial.

Para outros textos ficará a discussão destas matérias e o seu obrigatório "casamento" com a necessidade de "fazer pequeno" para servir o maior número. Salienta-se, apenas, que neste caso da Residencial Alexandre Mackenzie o pequeno talvez não seja assim "tão pequeno", pois a dimensão da habitação-tipo andará, julga-se, por cerca de 40 a 45m2 de Área Útil para uma habitação com dois quartos, e, não esqueçamos: que a organização é funcional e oferece alguma flexibilidade de usos; que no próprio edifício há verdadeiros "complementos" de habitabilidade; e que o exterior de vizinhança, logo ali bem perto, tem também excelentes condições para ser usado, em segurança e numa base de continuidade e de intensidade.

Sobre esta matéria gostaria de referir que cerca de 1960-1970, em Portugal, no âmbito da Categoria I, uma das "categorias" então mais económicas da Habitação de Interesse Social portuguesa (na altura eram usadas "categorias" de I a IV, essencialmente com base dimensional, depois optou-se por uma "categoria única), tivemos (e temos) excelentes soluções residenciais em que as habitações com dois quartos têm "Áreas Úteis" (espaço interior da habitação com exclusão da área das paredes) entre cerca de 45 e 50 m2, havendo mesmo vários casos próximos de 40 m2.

Como se referiu este é um tema extremamente discutível e apenas gostaria de sobre ele comentar que não é possível, ou não deveria ser possível, desenvolver habitações com áreas mínimas como estas sem um adequado quadro residencial edificado e de vizinhança, e sem uma adequada gestão social estratégica e de continuidade, capaz de identificar os problemas logo que surjam, ou de os despistar antes que ocorram. Um tal adequado quadro edificado e de vizinhança parece existir na Residencial Alexandre Mackenzie, esperando eu que exista o respectivo quadro de gestão.

Um outro aspecto é também importante e tem a ver com enorme diferença entre um projecto espacialmente reduzido, mas bem desenvolvido em termos funcionais, de acabamento e de conforto ambiental e um outro projecto em que se acumulem e agravem, mutuamente, os aspectos críticos de áreas reduzidas, inadequada funcionalidade, deficientes acabamentos e más condições de conforto ambiental (ex., ventilação, térmica e luz natural); e aqui também Residencial Alexandre Mackenzie parece marcar pontos positivos.

No entanto e para concluir esta brevíssima reflexão sobre espaciosidades domésticas críticas não tenhamos quaisquer dúvidas de que elas apenas terão uma eventual e positiva viabilidade quando veículadas por bons projectos de arquitectura, enquanto quando tal não acontece o resultado é muito grave, do curto ao longo prazo; e é sempre necessário referir que custa pouco juntar mais 3 ou 4 m2 num compartimento sem instalações e sem equipamentos específicos como é o caso da sala-comum, e que, cumulativamente, serve todos os habitantes de um dado apartamento ou casa, e há que contar com as perspectivas de sobre-ocupação que podem caracterizar as famílias realojadas e com eventuais necessidades espaciais acrescidas, associadas ao estudo e ao trabalho em casa.




Fig. 12: um pormenor do exterior humanizado da Residencial Alexandre Mackenzie, um passo muito positivo e marcante no realojamento da favela Nova Jaguaré.

Algumas reflexões finais e uma saudação
Apenas um pouco como nota complementar volta a sublinhar-se a importância de uma gestão social, do edificado e dos espaços exteriores, que acompanhe e enquadre a vivência e a cuidadosa manutenção do conjunto de realojamento, e uma gestão que tem de ser feita numa perspectiva de continuidade e proximidade.

E, finalmente, quero aqui deixar, em meu nome e nos do Grupo Habitar e do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC, os parabéns por esta excelente obra a todos os que por ela foram responsáveis, com uma natural referência para o seu projectista coordenador e para a Superintendência de Habitação Popular, da Secretaria Municipal de Habitação da Prefeitura da Cidade de São Paulo, a quem desejo a continuação e o aprofundamento deste tipo de intervenções, que marcam, sem dúvida, o caminho de um realojamento sensível e humanizado.


Anexo: ficha técnica da intervenção (cedida por Marcos Boldarini)
Obra: Residencial Alexandre Mackenzie - Favela Nova Jaguaré;
Local: Av. Alexandre Mackenzie, São Paulo/SP;
Data do Projeto: 2008;
Data da Conclusão da Obra: 2009;
Área do Terreno: 20.670,00m²;
Área Construída: 32.722,08m²;
Total de Unidades Habitacionais: 295 (em prédios), 132 (em casas sobrepostas);
Cliente: Prefeitura da Cidade de São Paulo / Secretaria Municipal de Habitação / Superintendência de Habitação Popular;
Arquitetura: Boldarini Arquitetura e Urbanismo - Marcos Boldarini e Sergio Faraulo (autores), Simone Ikeda, Daniel Souza Lima, Marina Ataguile Malagolini (colaboradores);
Paisagismo: Boldarini Arquitetura e Urbanismo - Marcos Boldarini, Melissa Matsunaga e Simone Ikeda (autores);
Estrutura: Somatec Engenharia;
Fundações: Somatec Engenharia;
Elétrica: Laranjeira Projetos (edifícios), Unika Projetos (casas sobrepostas);
Hidráulica: Laranjeira Projetos (edifícios), Unika Projetos (casas sobrepostas);
Construção: Schahin Engenharia;
Fotografias: Daniel Ducci (vistas gerais), Fabio Knoll (aéreas).
Boldarini Arquitetura e Urbanismo
www.boldarini.com.br, (11) 3287 3797.

Fontes: . AAVV, Urbanização de Favelas - A Experiência de São Paulo, edição da Superintendência de Habitação Popular, da Secretaria Municipal de Habitação da Prefeitura da Cidade de São Paulo, São Paulo, 2008.
. DVD cedido por Boldarini Arquitetura e Urbanismo.

Infohabitar, Ano VI, n.º 289
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 14 de Março de 2010