quinta-feira, outubro 05, 2006

106 - Índice do INFOHABITAR em Outubro de 2006 - Infohabitar 106

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Infohabitar – a revista/blog do Grupo Habitar - APPQH

Tentou-se que todos os artigos tenham (hiper)ligação directa aos seus textos e imagens; no futuro será tentada uma actualização e edição periódicas deste índice e, eventualmente, uma sua organização alternativa temática.



Índice geral dos artigos – edição 12 (Outubro 2006),
contactos, abc@lnec.pt
Outubro de 2006
Mobilidade no centro histórico: o caso de Coimbra – artigo de Sidónio Simões (no prelo, p. fig.).
A Cidade e o Equinócio de Outono II, desenhar com a natureza – artigo de Celeste Ramos (5 Out. 11p. 6fig.).
Índice geral dos artigos do Infohabitar - edição 12, Outubro de 2006 (5 Out.)

Setembro de 2006
A Cidade e o Equinócio de Outono I, o esplendor da luz – artigo de Celeste Ramos, ilustração de António Baptista Coelho (28 Set., 9p. 8 fig.).
Os velhos na cidade velha – artigo de Celeste Ramos, ilustração de António Baptista Coelho (21 Set., 12p., 7 fig.).
Opiniões de Nuno Portas sobre o espaço público – relato de António Baptista Coelho (15 Set., 15p., 5 fig.).
Lisboa, cidade que quer ser UNESCO – artigo de Celeste Ramos, ilustração de Maria João Eloy e de Dias dos Reis (8 Set., 8p., 9 fig.).
Uma viagem pela nova arquitectura na Universidade de Aveiro: reportagem fotográfica informal – Pedro Romana Baptista Coelho e António Baptista Coelho (1 Set., 7p. 16 fig.).
Agosto de 2006
Cidades à beira-rio e o rio como paisagem: a civilização que nasceu da água - Celeste Ramos com a colaboração e ilustração de António Baptista Coelho (24 Ago., 10p., 9 fig.).
A cidade e o recreio, o espaço e o tempo – espaço de alegria e de formação do cidadão – artigo de Celeste Ramos, ilustração de António Baptista Coelho (17 Ago., 6p., 5 fig.).
Sobre a humanização do espaço público – António Baptista Coelho (10 Ago, 8p. 7 fig.).
O Espaço Como Dominação e Consciência – artigo de Maria Luiza Forneck, ilustração de Susana Abreu (4 Ago., 6p., 7 fig.).

Julho de 2006
Lisboa palco de beleza; ... cidade, no rio… a caminho do mar: artigo duplo, sobre a Tall Ships’ Races 2006 – Celeste Ramos e M. João Eloy (27 Jul., 7p., 11 fig.).
Ambiente e construção sustentável numa promoção cooperativa na Ponte da Pedra, Matosinhos – artigo de José Coimbra (23 Jul., 5p., 3 fig.).
Seis cantos contra a guerra – Khaled Ghoubar, ilustração de António Baptista Coelho (21 Jul., 5p., 1 fig.).
A cidade que sou e tenho em mim; Regra de ouro: habitar – Maria Celeste Ramos e Maria João Eloy (14 Jul., 5p. 4 fig.).
Outros destaques no Prémio INH 2006 – António Baptista Coelho (9 Jul., 9p., 19 fig.).
Premiados e mencionados no Prémio INH 2006 – António Baptista Coelho e Maria Celeste Ramos (3 Jul, 10p., 18 fig.).

Junho de 2006
Humanização e vitalização do espaço público: Cadernos Edifícios (N.º 4 ) – artigo de António Baptista Coelho (27 Jun., 3p. 2 fig.).
Prémio INH 2006: candidaturas da promoção privada, parte II – reportagem de António Baptista Coelho (23 Jun., 5p., 16 fig.).
Prémio Instituto Nacional de Habitação 2006: as candidaturas da promoção privada, parte I – reportagem de António Baptista Coelho (17 Jun., 7p., 17 fig.).
Prémio Instituto Nacional de Habitação 2006: candidaturas municipais e de entidade pública empresarial – reportagem de António Baptista Coelho (11 Jun, 6p. 14fig.).
Prémio Instituto Nacional de Habitação 2006: candidaturas cooperativas – reportagem de António Baptista Coelho (4 Jun).

Maio de 2006
O Prémio INH, algumas notas, artigo de António Baptista Coelho (28, Mai,)
Conclusões do 8º Congresso do Cooperativismo Habitacional, FENACHE (20 Mai, 8p., 8 fig).
O 8º Congresso do Cooperativismo Habitacional, FENACHE: programa e reportagem fotográfica, relato de António Baptista Coelho (14 Mai, )
Qualidade do ambiente urbano II – o jardim e acidade ontem e hoje – Maria Celeste Ramos com colaboração e imagens de António Baptista Coelho (7 Mai. 7 p., 7fig.).
Qualidade do ambiente urbano I – a natureza às portas da cidade – Maria Celeste Ramos com colaboração e imagens de António Baptista Coelho (1 Mai. 7 p., 7fig.).

Abril 2006
Habitar o espaço público com sustentabilidade, notas da 2ª Conferência Habitar, Faro 25 Março 06 – relato de António Baptista Coelho (23 Abr. 9p. 17 fig.).
Finalmente a conclusão da Bouça, de Siza Vieira, pela iniciativa cooperativa – texto de António Baptista Coelho (17 Abr. 3 p. 5 fig.)
Infohabitar- Actualidades: lançamento de um DVD sobre o edifício Copan – Sheila Walbe Ornstein (17 Abr. 2p. 1 fig.).
A Nuvem, Ixion e o Centauro – um artigo de Maria.João.Eloy sobre a regionalização (10 Abr., 4p. 3 fig.).
Arquitectura no feminino – texto de Celeste Ramos com imagens de António Baptista Coelho do conjunto residencial projectado pela Arqª Ana Valente e promovido pela CM de Esposende (4 Abr. 6p. 6fig.).

Março 2006A cidade e o equinócio da Primavera – texto de Celeste Ramos com imagens de António Baptista Coelho (28 Mar. 6p. 5fig.).
Notas ribeirinhas de Lisboa – artigo de António Baptista Coelho (22 Mar. 7p. 9fig.).
5.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar - Évora: Os idosos e a cidade envelhecida, com o Grupo Habitar e a Câmara de Évora, relato de António Baptista Coelho (14 Mar. 4p. 9fig.).
A Cidade e o Carnaval, festa de antecipação do Equinócio da Primavera – texto de Maria Celeste Ramos com imagens de António Baptista Coelho (10 Mar. 3p. 2 fig.).
As sociedades envelhecem, mas somos humanos – Maria Celeste Ramos e António Baptista Coelho (2 Mar. 5p. 2 fig.).

Fevereiro 2006Infohabitar/reportagem: com Gonçalo Ribeiro Telles no Jardim da Gulbenkian – artigo de António e Pedro Baptista Coelho (26 Fev. 4p.).
Fazer cidade, a exposição de Raúl Hestnes Ferreira no ISCTE – Celeste Ramos com fotografias de Pedro Baptista Coelho (17 Fev. 4p.).
Hestnes Ferreira, Teotónio Pereira e Teixeira Trigo: sessão do Grupo Habitar com o Instituto Nacional de Habitação – artigo de António Baptista Coelho (8 Fev. 8p. 9fig.).
Retrospectiva – artigo de Maria Luiza Forneck (5 Fev. 3p.).

Janeiro 2006
A Administração do Parque Publico de Arrendamento Habitacional – artigo de Guilherme Vilaverde (30 Jan. 4p. ).
Por um Novo Modelo de Gestão da Habitação IV– artigo de João Carvalhosa (25 Jan. 5p.).
Por um Novo Modelo de Gestão da Habitação III – artigo de João Carvalhosa (19 Jan. 9p. 3 fig.).
Por um Novo Modelo de Gestão da Habitação II – artigo de João Carvalhosa (15 Jan. 9p., 8fig.).
Por um Novo Modelo de Gestão da Habitação I – artigo de João Carvalhosa (10 Jan. 10p., 1fig.).
Ainda sobre o espírito do lugar – artigo de Maria João Eloy (8 Jan. 1p.).

Dezembro 2005
Editorial e Índice do Infohabitar em 2005 – António Baptista Coelho e Edição do Infohabitar (31 Dez. 3p.).
Espírito do Lugar – um artigo gémeo de Celeste Ramos e Baptista Coelho (26 Dez. 5p. 3fig.).
O Natal, o Solstício de Inverno e a Cidade – um artigo da Arq.ª Maria Celeste Ramos (16 Dez. 4p. 3fig.).
Quem sabe começamos por nós? – um artigo da Arq.ª Marilice Costi (12 Dez. 3p. 2fig.).
Mensagem triste, por um amigo que partiu, em memória saudosa de José Barreiros Mateus – ABC (7 Dez. 2p.).

Os idosos na cidade e a cidade envelhecida – um artigo do Sociólogo Paulo Machado (5 Dez. 6p., 3fig.).

Novembro 2005Os idosos na cidade e a cidade envelhecida – Sessão Técnica do Grupo Habitar – artigo de António Baptista Coelho,(28 Nov. 7 p., 7 fig.).
Interpelações Virtuais ao Cidadão Comum - um artigo da Arq.ª Maria João Eloy , (2 p., 10 fig.).
As cidades também se abatem – “They kill horses - don't they ?” - um artigo da Arq.ª Maria Celeste Ramos (16 Nov., 4 p., 3 fig.).
Infohabitar/actualidades – Um comentário sobre o PER, texto da Arq.ª Sara Eloy (16 Nov., 1 p.) .
Urgência e complexidade da regeneração de bairros sociais e outros espaços urbanos degradados - artigo de António Baptista Coelho (8 Nov., 6 p., 5 fig.).
Infohabitar/actualidades – Um comentário de Nuno Teotónio Pereira aos últimos textos do Infohabitar - Nuno Teotónio Pereira (2 Nov., 1 p.).
Os Velhos – a Cidade e a Sociedade – um artigo da Arq.ª Maria Celeste Ramos (2 Nov., 4 p., 3 fig.).

Outubro 2005Um novo PER – Programa Especial de Regeneração habitacional e urbana - artigo de António Baptista Coelho (27 Out., 5 p., 4 fig.).
O meu bairro é uma cidade dentro da cidade – um artigo de Maria Celeste Ramos e António Baptista Coelho com fotografias de Maria João Eloy (19 Out., 4 p.14 fig.).
ACERCA DE LA CASA – Curso em Sevilha, Relato – um artigo de António Reis Cabrita (13 Out., 9 p., 3 fig.).
Infohabitar/actualidades – Património mundial, Macau - texto de António Baptista Coelho (9 Out., 1 p.1 fig.).
O habitar é técnica e poesia I – inclui poema de António Ramos Rosa - texto de António Baptista Coelho (4 Out., 2p., 1 fig.).
Qualidade na habitação: arquitectura, cidade e gestão - artigo de António Baptista Coelho (4 Out., 4 p., 3 fig.).

Setembro 2005
Ordenamento, revitalização da memória e Prémio INH - um artigo da Arq.ª Maria Celeste Ramos (27 Set., 6p., 6 fig., 2 com.).
As grandes cidades e a origem das cidades – artigo de António Baptista Coelho (ABC, 22 Set., 4 p., 2 fig.).
Da arquitectura dos sítios e das paisagens – e a propósito um grande texto de Aquilino Ribeiro artigo de António Baptista Coelho (15 Set., 4 p., 4 fig.).
Casas envolventes e vivas (I) artigo de António Baptista Coelho (11 Set., 3 p., 1 fig.).
Sentido do lugar – I, em memória de Fernando Távora , texto de António Baptista Coelho (4 Set., 3 p., 4 fig., 3 com.).

Agosto de 2005
Sentidos lugares II – algumas notas gerais sobre a integração , artigo de António Baptista Coelho (24 Ago., 4 p., 3 fig.).
Sentidos lugares I – algumas notas sobre o verde urbano , artigo de António Baptista Coelho (21 Ago., 4 p., 5 fig.).
Entre o lugar da casa e os lugares da cidade , artigo de António Baptista Coelho (10 Ago., 4 p., 2 fig., 2 com.).
O Preconceito na apreensão da Cultura da Cidade e do Território - um artigo da Arq.ª Maria João Eloy (2 Ago., 6 p., 10 fig., 3 com.).

Julho de 2005Humanização e vitalização do espaço público (Tópicos IX e X): paisagem urbana modelada, marcada pela pequena escala em espaços amigos das crianças e dos idosos - artigo de António Baptista Coelho (28 Jul., 3 p., 7 fig.).
Humanização e vitalização do espaço público (Tópicos VII e VIII): integração entre interior e exterior, pormenorização, protagonismo do verde urbano e caracterização - artigo de António Baptista Coelho (27 Jul., 3 p., 4 fig.).
Humanização e vitalização do espaço público (tópicos v e vi): vizinhanças reforçadas, clareza de ordenamento e escala humana - artigo de António Baptista Coelho (18 Jul., 4 p., 4 fig.,, 2 com.).
Humanização e vitalização do espaço público (Tópicos III e IV): eixos urbanos habitados, pormenorizados, estimulantes e conviviais - artigo de António Baptista Coelho (11 Jul., 3 p., 4 fig., 1 com.).
Humanização e vitalização do espaço público (Tópicos I e II): vizinhanças de proximidade, sequências, sítios únicos e níveis de privacidade - artigo de António Baptista Coelho (2 Jul., 3 p., 4 fig.).

Junho de 2005EDIFÍCIO COPAN: MARCO DE REVITALIZAÇÃO HABITACIONAL EM SÃO PAULO – Parte II – um artigo do Arq.º Walter Galvão e da Prof.ª Sheila Ornstein (27 Jun., 5 p., 4 fig.).
EDIFÍCIO COPAN: MARCO DE REVITALIZAÇÃO HABITACIONAL EM SÃO PAULO – Parte I - um artigo do Arq.º Walter Galvão e da Prof.ª Sheila Ornstein (22 Jun., 7 p., 3 fig., 3 com.).

Casas como bosques – I - artigo de António Baptista Coelho (16 Jun., 2 p., 1 fig.).
Cidade e sedução I - artigo de António Baptista Coelho (9 Jun., 2 p., 1 fig., 1 com.).
A CIDADE: UM LUGAR DE ESTÍMULO E SURPRESA – um artigo da Arq.ª Marilice Costi (1 Jun., 3 p., 1 fig., 3 com.).

Maio de 2005Mundos citadinos que é urgente conhecer/fazer melhor – III - artigo de António Baptista Coelho (24 Mai., 2 p., 1 fig.).
As cidades são os locais mais desejáveis para viver e trabalhar II – objectivos/desafios e alguns comentários - textos de Adrian M. Joyce, comentados por António Baptista Coelho, 17 Mai., 6 p., 1 fig.).

Abril de 2005As cidades são os locais mais desejáveis para viver e trabalhar I - textos de Adrian M. Joyce comentados por António Baptista Coelho(29 Abr., 3 p.).
Mundos citadinos que é urgente conhecer/fazer melhor – II - artigo de António Baptista Coelho (12 Abr., 1 p.).
Mundos citadinos, mundos desconhecidos que é urgente conhecer melhor e fazer melhor – I - artigo de António Baptista Coelho (11 Abr., 1 p.).

Março de 2005Da minha janela vejo o mundo e reconheço o meu olhar - um texto da Arq.ª Maria Celeste Ramos (21 Mar., 4 p., 2 com.).
Quercus apela ao fim do abate das florestas de carvalho - ABC (21 Mar., 1 p.).
Sobre os fundamentais concursos de arquitectura urbana – um desabafo - ABC(19 Mar., 1p.).
Por uma cidade habitada - artigo de António Baptista Coelho (16 Mar., 2 p., 1 fig.).
Habitação sem cidade algumas notas de António Baptista Coelho sobre um texto do Arq. Luis Fernández-Galiano (13Mar.,1p.).
Sobre as novas ferrovias - JM (10 Mar., 2 p.).
Dos bairros do crime ao verdadeiro problema da habitação - artigo de António Baptista Coelho (09 Mar., 2 p., 1 com.).
Onde acaba a identidade e começa o turismo? - artigo de António Baptista Coelho (4 Mar., 1 p.).

Fevereiro de 2005
5 passos simples para juntar um comentário - ABC (28 Fev., 1 p.).
Sobre as cidades e os idosos - comentário de António Baptista Coelho (28 Fev., 1 p.).
HABITARTE 1 - ABC (24 Fev., 1 p.).
O conjunto de habitações sociais do Monte de São João- um texto de análise do Arq.ºDuarte Nuno Simões (24 Fev., 3 p.).
1º Congresso de Habitação Social, sobre o tema geral "Habitação Social: que futuro? - artigo de António Baptista Coelho (23 Fev., 2 p.).
Preparar a 3ª Assembleia Geral do GH e dinamizar a Associação - artigo de António Baptista Coelho (22 Fev., 2 p.).
Inauguração do INFOHABITAR - uma "linha" inicial por António baptista Coelho (21 Fev).

quinta-feira, setembro 28, 2006

105 - A Cidade e o Equinócio de Outono I – o esplendor da luz, artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 105

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A Cidade e o Equinócio de Outono I – o esplendor da luz

artigo de Celeste Ramos
imagens de folhas e cidade de A. B. Coelho


OUTONO
De noche, el oro
es plata
plata muda el silêncio
de oro de mi alma
Jimenez (Nobel 1956)


OUTONO - o esplendor da LUZ
Hino à luz e à cor





Fig. 0

Depois da Primavera com a exuberância da vida a nascer e manifestar-se e a alegria dos bandos das aves que chegam cruzando o céu azul, depois da grandeza do sol e do calor no pino do verão e dos perfumes dos frutos e das flores, vem agora o esplendor da luz a anunciar o tempo de colher o que falta da fartura das culturas agora doiradas como a luz e que no Outono serão secas e conservadas para a festa do Verão de S. Martinho com o vinho novo e os figos e uvas secas e pinhões, anunciando que a terra já deu tudo e tem de descansar e entrar no repouso e no silêncio no tempo de maior recolhimento e frio que se aproxima e que vai aumentando até ao Natal e à noite mais longa, tempo de meditação da terra e dos homens a preparar a grande viagem para um ano novo.

Outono, explosão da LUZ nos seus mais diversos matizes no céu como que a anunciar outras manifestações da beleza que é dado contemplar, reflectidas em novas formas da natureza, indícios de OIRO nas nuvens que já não são os densos e fantasmagóricos cúmulos de branco luminoso, que voltam a habitar o céu, e também nas folhas das plantas caducas que antes de se abandonarem e caírem no chão, atapetando-o, se mostram cintilantes dançando nas ramadas com as primeiras brisas anunciando a morte a que estão destinadas e exibindo cores de oiro e de cobre, ferrosas ou vermelhas ensanguentadas, das mesmas cores das nuvens e da penugem dos pássaros, acrescentando pela primeira vez no ano todos os tons de cinza a negro dos cirros anunciando a chuva e os trovões e relâmpagos por vezes assustadores e brutais refazendo o equilíbrio electromagnético da atmosfera – outros sons do céu.





Fig. 1

Setembro é o primeiro mês do Outono neste tempo do sono do Inverno, e se a primavera é a chegada das aves migradoras em bandos e gritos de alegria, agora é o tempo de algazarra da debandada para zonas de mais calor e de criação dos filhotes até ao começo da hibernação de Inverno para, mais outra vez, voltarem no equinócio da primavera como se os equinócios fossem um eixo de nascer e morrer, para renascer e repetir a alternância entre a abundância e a máxima carência da terra e da natureza representada no eixo solsticial, e mais uma vez ser relógio cósmico também dos homens.

Ano a ano a Terra faz a sua jornada à volta do Sol manifestando as diferenças correspondentes ao tempo de cada viagem mil vezes repetida ciclicamente e que imprime também ao homem novas atitudes e movimentos em que tudo é mais devagar e contemplativo.

E porque o eixo da Terra não é perpendicular ao plano da sua órbita, mas sim inclinado de 23.5º, no seu movimento de translação dá origem às quatro estações climatéricas das Zonas Temperadas.





Fig. 2 (i e ii) – O primeiro esquema (i) é da Sociedad Astronómica del Estado de Hidalgo, A.C. e corresponde ao hemisfério norte, http://www.meridiano98.org.mx/articulos/solsticio-invierno.html; o segundo esquema (ii) é de Milton Pereira Barros, do Observatório Astronômico Municipal de Diadema, e corresponde ao hemisfério sul: http://www.projetorelogiosolar.diadema.com.br/primaveraestacao.htm

No solstício de Verão (21/22 de Junho), o Pólo Norte está inclinado na direcção do Sol e os raios solares incidem perpendicularmente no Trópico de Câncer – determinando esse limite físico, invertendo-se com a mesma inclinação no solstício de Inverno (22 de Dezembro) delimitando o Trópico de Capricórnio, e enquanto no solstício de Verão o dia atinge a sua máxima duração e a noite a mínima, no Inverno em que a Terra está mais próxima do Sol, a noite é a mais longa do ano e o dia o mais curto, já que os raios do sol atingem o Planeta mais tenuemente no Hemisfério Norte Terrestre.

Nos Equinócios não há inclinação do eixo da Terra relativamente ao Sol e daí os dias serem de duração exactamente igual à da noite, significando equinócio, em latim, noite igual em ambos os hemisférios.

No Equinócio do Outono – 23 de Setembro – o Sol está exactamente sobre o Equador – ou os seus raios incidem perpendicularmente sobre o Equador – e em ambos os hemisférios o Dia é igual à Noite durante 3 dias, altura planetária que os Antigos designavam de relógio cósmico.






Fig. 3 – O esquema é de Milton Pereira Barros, do Observatório Astronômico Municipal de Diadema: http://www.projetorelogiosolar.diadema.com.br/primaveraestacao.htm

Da plenitude do sol de Verão e visibilidade de toda a terra e do aparecimento do máximo de frutos e de fragrâncias, agora é a altura das últimas colheitas porque o Verão já tudo deu em fruto e calor, embora a abundância do planeta nos ofereça, ao longo das 4 estações do ano, diferentes frutos e flores, diferentes cores e alimentos para animais e homem, diferentes quantidades e poupanças, diferentes cheiros e propostas de ser e de estar.

Outono é também o tempo da rentrée - tempo de outros inícios seja do trabalho porque as férias acabaram, seja escolares, seja ainda de outras manifestações culturais e também religiosas (e tempo de Ramadão) e de peregrinações de religiões monoteístas ligadas à estação do ano que marca sempre os ritmos do homem e as suas actividades dentro e fora de casa e começam a cair as primeiras chuvas, que a terra exausta e seca agradece para se amaciar e receber novas sementeiras e dar, ainda, esses perfumes novos da terra ávida de água da vida.

Uma névoa de Outono o ar raro vela – de Fernando Pessoa (5-11-1932)
Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.

O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.

Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,

Terei outra verdade, universal,
E será como esta
Poema de Fernando Pessoa in http://www.mdaedalus.com/pessoa/fernando-pessoa-037p.html

Outono, preparação para o Inverno

Inverno – de Ricardo Reis

No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo Inverno após novo Outono volve
À diferente terra

Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me fiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.
Poema de Ricardo Reis in http://www.geocities.com/larbaudjr/pessoa1.htm#ciclo





Fig. 4 -

Assim, manifestações culturais e algumas desportivas vão passar a pouco e pouco para recintos fechados e cobertos para protecção da chuva e do frio, do vento e da neve que também pode aparecer mais cedo obrigando o homem a recolher-se, mas que terá o espectáculo desse manto branco de neve protegendo a terra como que obrigando olhá-la e respeitar esse estar tranquilo e silencioso, a cobrir as culturas e as plantas fazendo delas esculturas com outra roupagem.

Aparte algumas excepções, acabaram-se as manifestações culturais nos espaços abertos do campo e da cidade, nas praças e nos parques, e mesmo na rua, hábito recente da década de 90 do séc. XX, de levar a cultura e a festa para a rua para todos, festa colectiva gratuita, a relembrar festas antigas dos saltimbancos que tanto se exibiam nas cortes dos monarcas como nos campos de feira ou outros espaços abertos dos aglomerados urbanos, manifestações colectivas como um direito de todos à arte e ao belo, direito e dever de cidadania.

Portugal porém, apesar de ter Inverno rigoroso de chuva e de neve durante alguns meses em alguns lugares montanhosos, não deixa de ter todo o ano céu cheio de sol e esplanadas abertas por todo o lado, porque é bom beneficiar do sol de Inverno e do céu límpido lavado pela chuva, como se também o frio fosse saudável, porque os dias cinzentos de céu fechado com o seu capacete húmido não são muitos nem durante muito tempo, logo se abrindo uma nesga de azul, e talvez por isso é cada vez mais frequente encontrar na rua, um pouco por todo o lado, pessoas que não falam a nossa língua e se vestem como nós nos vestimos apenas no verão, porque para os turistas que predominantemente habitam os países do norte da Europa, este clima de Outono e de Inverno, e de sol, será para eles uma bênção, até porque nem no Verão têm o nosso calor mediterrânico nem as nossas 3 mil horas de sol/ano.
No entanto, e parecendo paradoxal, os africanos que aqui habitam e que são de origem de países ainda mais quentes, sofrem mais do que os habitantes naturais com as baixas temperaturas, mesmo que amenas, como se tivessem sempre registado na sua memória celular as características do clima do país de origem do seu nascimento, como sofrem mesmo no nosso frio Inverno, os mais recentes emigrantes de Leste nascidos e habituados a latitudes de frio muito mais intenso, que nos trazem o seu trabalho diligente e acréscimo de formas culturais, como fizeram os portugueses mundo fora ao partirem na década de 60, trocas constantes de riqueza entre os "homens-migradores" parecendo tornar o mundo mais diferentemente rico com as diferentes formas de ser e estar.

Outono é tempo de grande actividade, criatividade e engenho de sobrevivência, que se evidencia agora essencialmente no reino animal na terra e no mar porque a temperatura começa a baixar e os alimentos escasseiam, sendo que muitos dos bichos têm de começar a armazenar alimentos e energia para passar o Inverno durante o qual muitos podem morrer de esgotamento durante a hibernação, enquanto as aves se preparam para voltar para locais de maior calor e alimento e, igualmente, os bichos do mar e os mais corpulentos da terra, se preparam para fazer as suas grandes migrações ou para hibernar em lonjuras de muitos quilómetros para salvar a sua espécie, cumprindo o eterno movimento da vida ao longo das estações do ano.

Porque acabou o tempo de férias, também para o homem um novo ciclo recomeça porque é tempo de congressos e feiras nacionais e internacionais culturais ou comerciais, de nova época desportiva nacional e internacional, de viagens de negócios e outras manifestações culturais internacionais estando já Portugal presente na II Bienal de Arquitectura de Veneza, como acabaram as férias para os jovens estudantes que iniciam ou retomam as suas actividades escolares, tendo também acabado as férias Judiciais e as férias dos Parlamentos dos países com esses Órgãos Administrativos. Acabaram as férias do homem e começam as da terra e dos seus habitantes selvagens.





Fig. 5

É tempo que dá também ao homem outro tipo de possibilidade de manifestação de criatividade ao sair à rua e pintar a magnificência das formas que se vestem de outras cores e luz, ou de fotografar as esculturas vivas representadas pelas árvores que vão ficar sem folhas ou dos volumes naturais da terra que agora começa a despojar-se de muita vegetação e que exibem todas as cores do negro aos castanhos e vermelhos sanguíneos, adoçadas pelas novas cores pastel e de luz de oiro das paisagens que se vão despindo e transfigurando com outra luz marcando diferenças figurativas e cromáticas nos espaços rurais e urbanos mas, por outro lado, permitindo ver melhor a imponência das árvores mais frondosas e seculares, que nunca perdem as suas folhas e porte e que ficam sozinhas e desacompanhadas das espécies caducas para serem elas agora a apanhar muito mais luz e exibirem-se na sua totalidade.

O homem pode ainda aproveitar directamente esses materiais das plantas e flores mortas - e mesmo frutos e sementes – que se vão entregando à terra ao desprenderem-se da planta mãe (e que irão decompor-se e fazer o novo húmus para a nova vida primaveril), fazendo quadros ou outras composições florais, bem como adornos femininos ou para a Casa – outra forma diferente e altamente criativa de aproveitar os bens da natureza para recreio ou mesmo para actividade económica, passando também pela ervanária porque é tempo de ir colhendo as plantas aromáticas e farmacológicas que vão secando depois de abandonar as sementes na terra ou, exactamente, para apanhar aquelas que se irão tratar e armazenar, guardando-as para comerciar ou para de novo deitar à terra na próxima época de sementeira que virá na primavera a seguir, num contínuo vaivém de reprodução contínua e continuada da vida e da morte regenerada como se cada estação do ano acabasse a anterior e preparasse a que se seguirá. Afinal não há descanso nem para a terra nem para o homem que também ele, nem no seu "sono" descansa.





Fig. 6

Tempo também de colher as plantas aromáticas para a culinária e para a perfumaria – esse bem de consumo que já não é de luxo porque a ele já não se resiste e não há razão para resistir, porque sempre o homem colheu para seu benefício e embelezamento do viver, o que a terra dá, mas sem a molestar e impedir a regeneração contínua, o que não é o que se passa no pós-era tecnológica, qual era de ganância que há tão pouco tempo se iniciou e põe em risco a vida global e de que o filme "verdade inconveniente" da autoria de Al Gore dá a verdadeira dimensão, por mais avisos que se tenham iniciado nos anos 60, que marcaram grandes "revoluções" socioculturais que incluíram o debruçar mais consciente sobre o ambiente, revoluções renovadas na ECO-92 de que saíram tantas Resoluções, incluindo a Primeira Carta da Terra, tudo ignorado por todos, muito embora venha já de muito longe de tempos imemoriais das monarquias mais primitivas, que delimitavam áreas florestais e coutadas, sendo que o Bois de Boulogne, Bois de Vincennes e Saint-Germain-en-Laie são exemplos do nosso quotidiano mais recente e que fazem ainda parte da ceinture-verte de Paris e são local de peregrinação turística, e sublinhando, também, que o Budismo é uma religião holística que inclui nos seus misteres o respeito à natureza total.

Acabou o riso do Sol com a sua gargalhada forte de verão e com o Outono desce a melancolia e paz dos dias que no entanto exibem o sorriso da luz de oiro tranquila trazida pelo pôr-do-sol anunciando outros amanhãs.





Fig. 7


Outono é o tempo da grandiosidade do pôr-do-sol.

Banho de luz, de beleza e de consolação do Céu descendo sobre a Terra nesta época em que se colhe a verdadeira medida de tudo o que a Terra deu ao longo de um ano como se fosse tempo de "balanço."

O pôr-do-sol será belo não importa em que lugar do globo terrestre mas não tem o mesmo tempo de duração já que nalguns lugares, mais próximos do Equador e Trópicos, o Sol pode ser um disco gigantesco mas apenas por alguns minutos, caindo de repente atrás das montanhas ou mergulhando no mar. Porém, em latitudes como as de Portugal o pôr-do-sol prolonga-se por vezes por horas inundando de luz de todas as cores o céu inteiro e as coisas que na terra há, até ao seu tempo mínimo de presença no solstício de Inverno que contrasta com este tempo de máximo de Luz, que desaparece no Inverno, em que a noite tem a duração máxima até ao equinócio da Primavera, num ciclo eterno de força do dia e força da noite.

E podemos recordar-nos de quando se estudava na disciplina de geografia mundial o Corne d'Or, porque até o Mar da Mármara espelha o oiro do Sol juntamente com todos os vidros das janelas viradas a poente fazendo dessa Istambul-Constantinopla (à mesma latitude de Lisboa) um hino ao Sol e à sua luz, devido também à mestria da implantação da cidade que bem soube "planear e desenhar" com a luz há milhares de anos.

E se no Verão o máximo de luminosidade e visibilidade da terra e das estrelas do céu acompanha o máximo de calor, por vezes de canícula, no Outono os monumentos de calcário branco virados a poente espelham-se em oiro se os arquitectos souberem, também, desenhar com a luz, já que, por exemplo, o Mosteiro dos Jerónimos (juntamente com a Torre de Belém) que ao entardecer era um painel doirado de pedra rendilhada, com a construção do CCB demasiado perto (e bastaria tê-lo afastado para oeste alguns metros), já fica metade na sua sombra, o que se lamenta profundamente porque o que o homem faz na terra tem de continuar a "espelhar" o que o céu dá, e a pedra do CCB, espécie de "bunker a que não faltam guaritas" e é manifestação de ostentação de modernidade iletrada sem mais preocupação do que o geometrismo da sua implantação relativamente ao lugar, sem se negar contudo a sua importância e função, não tem, devido à sua textura, qualquer capacidade de ficar igualmente doirado.

Porque, afinal, a luz natural é um dos maiores bens de um espaço e agente de saúde e alegria dos habitantes, e um dos mais importantes factores de planeamento e ordenamento urbano e de absorção da beleza da natureza e da decisão humana, valendo até a pena pensar como é alto o grau de suicídio dos habitantes dos países nórdicos, dos mais desenvolvidos do mundo, talvez também porque o Sol não os visita como nos países do sul mediterrânico, e que os procuram para férias, férias também "de saúde."

Maria Celeste d'Oliveira RamosLisboa - Bairro do Alto de Santo Amaro
Texto terminado a 21 de Setembro de 2006

Preparado para edição a 28 de Setembro de 2006
As imagens de folhas e de cidade são de António Baptista Coelho

Editado por José Baptista Coelho
Fontes:Poema de Fernando Pessoa in http://www.mdaedalus.com/pessoa/fernando-pessoa-037p.html
Poema de Ricardo Reis in http://www.geocities.com/larbaudjr/pessoa1.htm#ciclo
Fig 2 i - Sociedad Astronómica del Estado de Hidalgo, A.C. e corresponde ao hemisfério norte, http://www.meridiano98.org.mx/articulos/solsticio-invierno.html;
Fig 2 ii e Fig 3 in http://www.projetorelogiosolar.diadema.com.br/primaveraestacao.htm
Milton Pereira Barros é Coordenador do Observatório Astronômico Municipal de Diadema, Especialista em Quadrantes Solares, Bacharel e licenciado em Geografia Física.
Sociedade de Astronomia e astrofísica de Diadema - Observatório Astronômico de Diadema: Av. Antônio Silvio Cunha Bueno, 1322 – Jd. Inamar – Diadema – SP, http://www.observatorio.diadema.com.br/

Na próxima semana será editado, também de Celeste Ramos e com imagens urbanas:“A Cidade e o Equinócio de Outono II – desenhar com a natureza”

quinta-feira, setembro 21, 2006

104 - Os velhos na cidade velha, artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 104

 - Infohabitar 104

Nota introdutória:Os leitores do Infohabitar já se acostumaram aos artigos da nossa colaboradora, de sempre, Maria Celeste Ramos, textos em que as impressões mais sentidas e “directas” se ligam a aspectos fundamentais, que estruturam e deviam estruturar, muito mais, o nosso habitar diário, de casas e de cidades.
São textos que, logo numa primeira leitura fazem pensar, e que, depois, por exemplo, quando os guardamos, em papel, e de novo os olhamos, fazem lembrar, a quem se importa com o habitar de casas, bairros e cidades, como foi, como deve ser e como ainda se poderá fazer para melhorar as cidades que habitamos e que nos habitam, ou deveriam habitar.
Chama-se, assim, a atenção para dois aspectos, primeiro para a constante apresentação que a autora faz de possibilidades/ideias de “saída” e de melhoria, relativamente a situações urbanas, muitas delas, negativas, e, depois, para o grande interesse e para a amplitude que este artigo tem, realmente; a autora aqui fala, com clareza e de uma forma integrada, “dos velhos na cidade velha” e de como é urgente, muito urgente, enfrentarmos todos os problemas que lhes estão associados.
Fiquemos então com um ponto alto do nosso Infohabitar, que, de certa forma, remata uma fase dos trabalhos do Grupo Habitar, em que se desenvolveram, em vários sítios do País, sessões técnicas sobre esta temática dos idosos e da cidade envelhecida, e considere-se que as ilustrações apenas visaram “pontuar” o excelente discurso que a seguir se apresenta.

António Baptista Coelho

Os velhos na cidade velha são os mesmos que a fizeram jovem e esplendorosa, são os mesmos que a cidade esquece

artigos de Maria Celeste Ramos
imagens de A. B. Coelho


A Vida no seu eterno ciclo de nascer e crescer, desenvolver-se, viver e morrer – ciclo biológico dos reinos vegetal e animal, e do Homem, desde a primeira célula primordial que no universo se formou.

Também ciclo das estrelas! Que sei eu que gosto tanto de inventar coisas e ver tudo em todas as coisas do céu e da terra como a mesma semente original e apenas formas diferentes de manifestação, mas que lá estão como nos mostram constantemente os cientistas das coisas do espaço celeste.
Curiosamente é esse ainda o ciclo da Cidade que "nasceu para morrer", título de velho e pequenino artigo de Ribeiro Telles, título de que não gosto muito, mas que não tira a essência do que é dito por um dos homens mais cultos do país, grande arquitecto-paisagista e um dos últimos da primeira geração do saudoso professor Francisco Caldeira Cabral que criou timidamente um curso livre na UTL, hoje curso universitário dos mais antigos da Europa, que se espalha e desenvolve em todas as universidades do país, excepto Braga.

Da mesma forma se espalha pelo mundo o trabalho premiado internacionalmente das gerações actuais, levando a vários países "diferenças" aqui desenvolvidas e manifestadas, como se a semente germinada fosse naturalmente lançar frutos e deles dar testemunho além fronteiras, num vaivém que convém a todos os saberes que se colhem dos homens, crescem e renovam e de novo se espalham, e mais uma vez se trocam fechando ciclos "abertos", ou espiralados?
O vento que leva a borboleta ou o pólen a atravessar os mares, as correntes do mar que levam a semente a atingir outros continentes, as migrações das aves e de outros animais, como o saber dos homens, atravessam todas as fronteiras, movimento eterno de todas as coisas do céu, da terra e do homem vivente de pés assentes na nave espacial que o sol obriga a girar em seu redor, macro e micro que se interceptam até ao nível invisível do movimento intracelular do corpo humano ou de uma simples e pequenina folha de humilde planta. Tempo e espaço de movimento de nascer e de morrer de todas as coisas mas com primaveras no porvir.



É importante e é bom fazer recordar para não nos esquecermos de onde vimos e que homens são marcos de evolução, para que se renove a memória dos que foram responsáveis pela introdução de novos saberes sobre as coisas e neste caso da vida dos jardins, das plantas e do ordenamento das paisagens, bem como das cidades e da sua re-construção e renovação, e humanização tornada mais inteira e consciente colectivamente, já que a cidade sempre foi crescendo de tal forma em dimensão física e número de habitantes, que não podia mais ser a "velha cidade medieval ou renascentista só-de-pedras" embora com a natureza na área envolvente ali tão perto, por maior beleza que tenham as que ainda restam e que são sempre de re-visitar como Óbidos e Monsaraz, Vila do Conde ou Braga, ou qualquer vila e aldeia de interior podendo-se recuar para os nossos lugares de raiz visigótica e mesmo Celta como Bragança.

Como é Velho este país e as suas paisagens e como vêm de longe os saberes que se herdaram e passam de boca em boca e de mão em mão dos velhos que transmitem os saberes, mas que, embora tão recentemente, são esquecidos tão depressa como se não tivessem nenhuma importância, eles que foram enquanto jovens os construtores da cidade e dos espaços de vida e de cada função, que foram à frente para ir deixando intacto o espaço de viver dos que vieram a seguir, família colectiva inter-dependente e intergeracional continuamente renovável e evolutiva como tudo o que é a vida do planeta que se habita desde a origem dos tempos.

Alguns destes lugares tão velhos são livros vivos de pedra talhada em história, alguns deles a ser destruídos não apenas por modernas intervenções despropositadas que lhes retiram a harmonia visual e vivencial, mas em contrapartida procurados também pela imparável procura turística, e de que é um dos mais fortes exemplos o dos degraus da escadaria do Parthenon que se vão partindo mais um pouco, ou também como Veneza que já não permite ser olhada em longas perspectivas porque parece não caber já mais ninguém tal mar-de-gente à procura da beleza antiga, como se os grupos humanos se deslocassem numa espécie de "demanda da linguagem" que emana destas cidades-originais, linguagem que, ou não existe nas cidades mais recentes ou, em cada uma haverá, certamente, uma mensagem bem diferente mas em que está sempre presente o tempo cultural.



O Planeta Casa Comum, está, com o desenvolvimento do turismo, dos transportes e da comunicação global, a ser visitado "apenas" como uma casa maior, a de "toda-a-gente", e será, quem sabe, uma forma inesperada de encontro de maior solidariedade de "vizinhança" global e eu não me descarto desta utopia por mais que escreva sobre o oposto.

É certo que mesmo com a devastação da Europa pelos Vikings durante a Idade Média, ou por Átila, o Huno, ficou sempre Civilização e cultura acrescentada. Mas já vai longe a "invasão dos Bárbaros", os países estão arrumados nas suas fronteiras físicas, mesmo aquele tão pequenino e o mais jovem país do mundo que é Timor, parecendo que falta arrumar a Casa, arrumando a Cidade e, sobretudo, arrumando as ideias, passando para a fase de limpeza dos resíduos, de restauro e de revitalização da arquitectura e dos espaços públicos incluindo os jardins, que estes tempos de "plástico" e de fast-food e "fast-arquitectura" tudo invadiram sem pudor.

É importante e é bom fazer recordar para não esquecermos a cidade da nossa infância e do nosso crescer, e de nossos pais, espaço sociocultural e afectivo que foi muito determinante para grande parte do que cada um de nós é, porque o ambiente onde se vive tem uma marcação que fica em permanência para além da herança biológica, e por isso, quando se fala de qualidade do ambiente e de preservação da memória estar-se-á a deixar herança para os que se seguirão e irão nascer, como uma rosa nasce de outra rosa, como uma andorinha nasce de outra e se perpetua a vida que a cidade tem, como se fora o mais complexo e rico dos ecossistemas, mesmo que se lhe chame eco-sistema-artificial porque é repositório de todos os saberes da cidade e do campo.

Não acho que seja assim tão artificial porque em tudo se manifesta em vida biológica, vida da ética e da estética da sucessão de gerações – espelho mesmo do país histórico milenar porque tudo está escrito e impresso e contém a força de um ser vivo e da sua força genética de hereditariedade como se a simbologia de algo estivesse, igualmente, impressa no próprio grafismo do símbolo, e a cidade é duplamente, grafia e símbolo.

Se muitas cidades morrerem e desapareceram não restando nem sequer ruínas, ou estando soterradas, a maioria delas ficou de pé e merecem da parte dos que "amam as cidades", a melhor das atitudes para as conservar e quase eternizar – e que – lembro agora – Roma-cidade-eterna.



São Cidades que foram construindo a milenar civilização do Homem e que foram berço das ideias que fizeram evoluir a humanidade e ganhando tanto mais importância e até desenvolvimento, quanto mais procuradas, dada também a eterna curiosidade humana em ir, mesmo inconscientemente, à procura das suas raízes como civilização. As cidades e as suas pedras a contarem a "história do tempo-e-do-modo do homem" tanto na dimensão de beleza como de vicissitude – e Lisboa, a cidade de todos nós e de lendas de Ulisses e de Lysias, bisneto de Noé de tantos séculos a.C.? E que teriam sido origem do seu topónimo?

A cidade que é velha e envelhece e com ela os seus habitantes somente porque todos envelhecemos com as cidades que habitamos, o que não significa degradação porque existir é já em si mesmo ir envelhecendo.



Quando se procura a classificação UNESCO de um monumento ou espaço urbano – ou mesmo Paisagem, de que Sintra foi o primeiro exemplo mundial –, procura-se perpetuar essa semente de civilidade, prolongando sem tempo o encantamento para ser mais uma página do livro-colectivo-de-memória-civilizacional, como uma família-de-pedras geneticamente detectáveis como pertença comum do homem (a que apetece chamar genoma-urbano), já que parece residir nelas uma certa dimensão de origem primordial e de eternidade, que existe no homem comum.

A linguagem do homem através da língua-mãe que fala – a linguagem do homem através das cidades que constrói.

Mas este escrito é sobre os velhos e vou acabar com um queixume.

Eu, de entre tantos outros que em seu tempo de vida activa colaboraram na construção da cidade e do seu bem-estar, e parecer, que com ela envelhecemos já ultrapassando a terceira idade e por isso já fazendo parte dos 17% dos velhos de Lisboa, situo-me entre os que insistem em estar aqui recusando deslocação para armazéns de velhos nas periferias incaracterísticas, feias e degradadas, recusando mesmo ser "velha", e ser apenas pessoa com a actividade correspondente ao meu percurso de vida e com os outros poder comunicar de várias formas, algumas das quais dependendo da "oferta da cidade ao colectivo dessa idade."



Mas vejo avenidas transformadas em verdadeiras auto-estradas urbanas onde se mata peões que atravessam no local a eles destinados com prioridade (zebras), vejo passeios de peões largos mas sobretudo estreitos onde não se cabe porque estão completamente ocupados com lixos e as pedras fora do local próprio, ou com carrinhas de cargas e descarga que se armazenam em cima de passeio de peão, ou fazem descarga em pleno tempo de sol, serviço que devia ser nocturno, mas não será porque custa o dobro para os comerciantes, pelo que tenho de andar na via do automóvel que acelera para eu correr, o que não posso fazer, nem quero, como se faltasse, também, ordenamento e regras mais rigorosas do USO do espaço público, qual desordem democrática e selvagem de que o último a sofrer é o peão, sobretudo o mais velho.

Aliás, à semelhança das IPs de que foi feito o levantamento dos "pontos negros" (locais de acidentes mortais) pelos técnicos do sistema rodoviário, foi igualmente feito o levantamento dos "pontos negros de Lisboa" (CM-21 Dezembro 2005 - levantamento de 2004 e de Janeiro a Abril 2005), dentro do Plano Lisboa capital da segurança rodoviária, que todos sabemos ser utopia por falta de rigor e interesse de quem governa a cidade dando prioridade ao automóvel.

Como habitualmente serão gastos milhões de euros para a vertente pedagógica, à semelhança do que se faz há mais de 10 anos para as estradas e sabe-se que o número de acidentes e de mortos nunca diminuiu com nenhuma das formas de pedagogia utilizadas. Quando se constroem túneis e auto-estradas dentro da cidade que permitem ultrapassar a velocidade estipulada para a cidade, não há dinheiro-pedagógico que chegue e também não será a semaforização que resolverá o que quer que seja, e será de preço de custo incalculável tanto na implantação como na manutenção e conservação.

Também a cidade que de repente se desmantelou é toda um estaleiro em que as vedações são ou verdadeiros atentados à higiene pública e poluição visual ou aumentando a dificuldade de circulação do peão, ou gigantescos painéis de publicidade que ficam anos a tapar os monumentos que nem são de facto restaurados – e parece um bom exemplo do que em paralelo se faz aos velhos: tapam-se e ficam esquecidos.

A cidade cujo desenho de estrutura e orientação urbana lhe era dada pelo sistema de arruamentos, alargou a malha do desenho da rua para passar a ter "unidades de cidade" delimitadas por auto-estradas e túneis transformando, com mais esta criação, uma cidade em país, o que torna mais previsível, a "morte na estrada" ao sair da porta da habitação. De Junho 2002 a Junho 2005 houve 3225 atropelamentos de peões em Lisboa, com 62 mortes e 493 com feridos graves – em 2005 houve 382 atropelamentos com 8 mortes. Lisboa já ganhou o direito de construir MURO de Memória dos mortos na cidade por atropelamento.

A cidade pertence a um país que está de facto a pretender estar na "cauda da Europa" do ponto de vista de situações negativas desde o ensino à economia, porque assim quer, é a capital mais poluída do continente, porque assim quer, rivalizando neste aspecto com Atenas e Tóquio e tem ainda peculiaridades de envelhecimento e empobrecimento que mais nenhuma outra terá; e não tem apesar disto, a procura e qualidade turística destas duas cidades porque o turista não vem visitar monumentos "escondidos" como a Torre de Belém nem os outros debaixo de tapumes de publicidade, nem anda a pé saltitando de buraco em buraco e em monte de pedras de calçada.

Há buracos em cada dois metros de distância em todos os passeios de qualquer rua de onde saltaram as pedras que, soltas, fazem escorregar os que não vêem bem ou vão distraídos e têm acidentes por vezes graves. Vejo o mais inaceitável "mobiliário urbano" representado pelos milhões de caixotes de lixo verde, negros de sujidade e odores de pestilência, para além de toneladas de todo o tipo de lixos do comércio espalhados não importa onde, incluindo as consideradas "zonas nobres" da cidade; e, para além das obras por todo o lado durante anos intermináveis, em cada ano, há cada vez mais edifícios ou quarteirões inteiros desmoronados até sem tapumes, como se toda a cidade "tivesse fechado para obras" há 20 anos.

Vejo prédios velhos a arder que são tão altos que as escadas dos bombeiros não alcançam o andar em fogo e, se o alcançam, a água das mangueiras não tem pressão para o apagar ou mesmo apagando destroem o velho edifício, ou vejo prédios tão degradados, incluindo monumentos, que caem ou são deixados às intempéries para que o "tempo" resolva o seu desaparecimento programado, e assim ficam, no chão como amontoado de resíduos, de outros lixos e ratazanas que sucedem à queda.

Vejo todo o tipo de sinalização vertical de várias tipologias em forma e dimensão e cor sem qualquer hierarquia e razoabilidade, vendo, por exemplo, a sinalização de um serviço, mas não a placa toponímica da rua em cada esquina e muito menos o número de polícia nos novos prédios que se erguem, vendo ainda candeeiros de iluminação pública tombados pondo em perigo a população, ou caixas PT caídas no chão, e se por acaso decidi avisar os respectivos serviços camarários, ao fim de 10 anos constato os mesmos candeeiros na mesma situação.

Vejo trechos de cidade como o meu próprio bairro de excelente desenho de estrutura e de volumetria permitindo boas vistas para o rio, de repente ser desmoronado nos edifícios centenários de 3/4 pisos para dar lugar a densa construção sem estética e de 7 pisos, retirando a perspectiva e fechando quarteirões em "ilhas climáticas" sem respiração e qualquer possibilidade de passarem brisas para arejar e limpar a densa poluição do ar.

Vejo as árvores sedentas de água no Verão, porque, como era costume, já não há quem as regue, porque no verão precisam de 2 regas de 25 litros cada, para também não morrerem mais depressa.
Tenho dificuldade em olhar os edifícios urbanos históricos com velhas portas de madeira e postigos de ferro (e até batentes), que fazem parte da história da evolução da arquitectura urbana nacional-regional, completamente descarnados, ferrugentos e decadentes à espera de cair para serem abatidos e dar lugar e mais uma torre, como se "todos os habitantes do país" estivessem a mudar-se para a "capital."

Tenho dificuldade em utilizar certos transportes públicos onde até os bancos reservados a idosos e grávidas estão ocupados "sem direito" e não podem ser reclamados, nem os condutores de tais transportes velam por essa situação.

Ninguém escapa à terceira-idade: nem a cidade, nem os responsáveis pela qualidade de vida do ambiente urbano.

Não é forçoso que envelhecer signifique ser "maltratado" – tanto a cidade como o peão – tanto os adolescentes como os velhos e pessoas com handicap - numa cidade que já foi esplendorosa de simplicidade e de luz, de higiene urbana e de alegria de nela habitar.
Não, a cidade não está envelhecida.

A cidade, como os velhos, foram esquecidos como se fossem DESCARTÁVEIS.



Cidade é outra coisa.

A CIDADE ESTÁ E É SIMPLESMENTE HOSTIL para todas as classes etárias e sociais e talvez por isso "nascem" condomínios mas os condomínios dos velhos são "armazéns" dos que já fizeram o que tinham a fazer em tempo útil.

A Cidade tornou-se um espaço de stress diário e colectivo e por isso os que podem deixam a cidade até no fim de semana.

Lisboa não envelhece – Lisboa é espaço de enlouquecimento para os habitantes e para os que, vindos de fora de Lisboa, correm a regressar à paz do local onde vivem logo que resolvam o que têm a resolver.

Lisboa que já não é nem cidade nem sequer Cidade-Estado "Helénico", porque acumula habitantes e todo o tipo de problemas de uma Nação inteira, chegou a uma situação de descontrole impossível de ser controlado, nem sequer ao nível de "policiamento" porque não é possível exigir um polícia em cada esquina e um polícia por habitante, embora algo tenha de ser feito com eficácia porque outras cidades da UE o conseguiram há muito e sem dificuldade, sendo ou não grandes metrópoles.

Lisboa tornou-se a partir do século XXI, tão depressa como isso, um espaço de demência urbana infecto-contagiosa. Os decisores das coisas da cidade esqueceram-se de governar a cidade e de que ela pertence aos peões, prioritariamente, e com especial atenção para as pessoas com handicap e os velhos.

Enquanto assim não for, a cidade não pertence ao mundo evoluído, não é cidade, sendo apenas um local onde se mora com todas as dificuldades, porque a cidade limpa e construída para todos é cidade amável, para todos.

Tenho saudades da minha cidade limpa e cheia de pequenos jardins de traseiras dos quarteirões com belas figueiras e nespereiras e outras árvores, e mesmo flores e hortas, lembrando a ruralidade dos seus habitantes, bem como dos pequenos jardins de quarteirão sem pavimento de betão nem betuminoso, cheios de grandes árvores e de flores diversificando ao longo das quatro estações do ano, cujos perfumes as brisas faziam circular pelo ar, como tenho saudades ainda de passear pelos jardins com pavimento de saibro e ouvir aquele som especial ao pisá-lo, sentir a sua maciez, o que ainda está impresso ma minha memória celular, para além do som da água das fontes e dos repuxos, mas não daquela anomalia do Martim Moniz ,que não se pode atravessar porque o pavimento está sempre molhado e limoso e não há ninguém que não escorregue e caia, exibição de novo-rico que não serve para nada e se a autarquia muitas vezes não faz mais jardins dado o preço da conservação, não sei quanto custará manter o Martim Moniz inútil, com jogos de água para ninguém poder parar para admirar, repousar e isolar-se do ruído urbano, porque o Martim Moniz não tem ninguém, é apenas um local de atravessamento e não de paragem.

E assim se retirou à cidade a possibilidade única de ter cinco praças contíguas – Restauradores, Rossio, Martim Moniz, Praça da Figueira, a desembocar na Praça do Comércio –, locais privilegiados de peão, de cultura e de comércio, de encontro e de paragem e de deleite do que ainda resta de cidade histórica, locais de grandes exposições na rua, de teatro de rua, de concertos na rua, porque de facto a rua é do peão, e tem de ser urgentemente devolvida ao peão e à cultura na rua – para todos, novos e velhos.

Tenho saudades de poder passear a qualquer hora do dia e da noite na cidade, mesmo nos jardins, que em vez de locais de prazer e de contacto com as flores e o divino e o silêncio, são agora locais de insegurança mesmo de dia, e que já deviam ter sido muitos deles murados e fechados, como o Jardim da Estrela, para não continuarem a ser vandalizados, em vez de desprezados e abandonados pela autarquia.

Tenho saudades do belo Largo do Rato que já sofreu quatro remodelações, e onde hoje, nas rampas de peões declivosas e de pavimento polido, se escorrega directamente para debaixo do autocarro.

Tenho saudades de Lisboa como cidade do meu viver e crescer e do meu encantamento – tenho saudades de Lisboa-Cidade e não deste caos e demência de poluição, ruído e medo.

Creio bem que o futuro da cidade é o presente de cada dia – como o meu. Creio bem que a minha alegria de amanhã terei de a construir hoje porque amanhã faz-se tarde. Creio bem que os velhos desta cidade são os que, em seu tempo de cidadãos activos, foram os que a fizeram limpa e esplendorosa.

E que estranha me parece a minha cidade que tem um habitante que coleccionou 700 presépios de mais de 50 países e a cidade não tem um espaço “desactivado” para lhes dar guarida como museu, porque tudo se desmorona para o betão sem qualquer qualidade, e a história e a cultura passaram também a ser “funções urbanas desactivadas.”

Lisboa já não é cidade de civilização e Cultura. É, de repente, um gigantesco armazém de problemas graves e de incomunicabilidade.

Acabo o meu "sentir" sobre os VELHOS com um belo poema de um dos maiores poetas brasileiros da minha adolescência, Carlos Drummond d'Andrade, e com um PS – nota interessante de um autarca do interior transmontano que decidiu OLHAR para os velhos e a velha arquitectura desactivada e encontrar formas dignas para o espaço e para os velhos.




OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espectáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação

In:http://www.fabiorocha.com.br/drummond.htm

Acabei

Maria Celeste d'Oliveira Ramos
25 de Dezembro de 2005
Lisboa – Bairro do Alto de Santo Amaro

PS 1 – No noticiário da TV1, 20 horas, de 27 Agosto 2006, o presidente da Junta de Freguesia da aldeia de Samaiões, afirmou que as 26 velhas escolas de edifícios antigos que foram este ano encerradas por haver poucos alunos, serão adaptadas a novos usos para conservação do património histórico e edificado e para instalação de actividades para uso dos velhos para centros de dia, biblioteca, museu, escola-oficina, às quais se acrescentarão actividades de música e de informática, sendo que a ideia foi de tal forma aceite pela população que vêem assim local de encontro e de promoção de actividades culturais e de encontro sendo que, igualmente, já receberam várias ofertas de outra natureza de várias pessoas para dar vida e mais-valia à decisão da autarquia – reafirmada pelo presidente da CM de Vila Real de Trás-os Montes.
Está de parabéns, a meu ver, toda a actividade em favor da comunidade que salvaguarde património edificado e cultural e vivificação da vida dos habitantes mais velhos, que podem trocar todos os seus saberes para que não se percam, património e memória ancestral acumulada e que morre quando morrem os velhos e que, assim, poderão permanecer através da visita e ensino de todas as camadas etárias e socioculturais e mesmo do desenvolvimento de actividades com carácter turístico.
Restaurar a memória e história dos habitantes é restaurar o país ancestral e perpetuar memória e herança e vida.
Maria Celeste Ramos – 27 Agosto 2006

PS 2: A 31 de Agosto de 2006 um ARMAZÉM DE 29 VELHOS na BURACA ardeu, porque não só é na Buraca como é em casa particular por cima de armazém de bilhas de gás e de bilhas de oxigénio e de todo o tipo de consumíveis inflamáreis – garrafas de aguardentes e duas motos cheias de gasolina.
E só o bombeiro é que se mostrou, no noticiário, a perguntar como era possível haver um “lar de 3ª idade” em cima daquela pólvora – alguns dos velhos, com mais de 80 anos, foram parar ao hospital intoxicados com fumos e se não fossem os vizinhos a dar alarme (e famílias que estava na hora de visita) tinham morrido no incêndio, e ficaram em pânico, naturalmente, e note-se que alguns usam cadeiras de rodas.
Como é que isto é possível? Um lar de idosos situado em edifício tendo no r/c um armazém de bilhas de gás – etc.
Maria Celeste Ramos – 1 de Setembro de 2006.

Artigo:
Escrito a 25 de Dezembro de 2005.
Revisto e complementado pela autora a 27 de Agosto e 1 de Setembro de 2006.
Revisto para edição a 20 de Setembro de 2006.
Nota introdutória e ilustração (vistas de Roma) por António Baptista Coelho a 21 de Setembro de 2006.