terça-feira, abril 04, 2006

ARQUITECTURA NO FEMININO, um artigo de Celeste.Ramos - Infohabitar 77

 - Infohabitar 77

Na sequência das considerações que têm animado a opinião pública relativas à representatividade feminina nos mais variados órgãos políticos, sociais, económicos e culturais do País, a minha querida amiga e arquitecta Maria.Celeste.Ramos, mais uma vez, nos oferece um muito sensível e rico texto, neste caso, sobre a possível existência de uma “arquitectura no feminino. Pergunta esta a que eu quero, desde, já, responder, que sim, que há, que felizmente há, assim como felizmente há uma poesia no feminino e há uma forma de viver e de estar consigo mesmo e com os outros, no feminino, e ainda bem, pois, como a própria Celeste nos diz neste seu belo texto “as diferenças existem e contribuirão, com certeza, para uma maior riqueza de linguagens e de comunicação entre todos os seres humanos.”
Fiquemos então, mais uma vez, com Celeste Ramos e também com as imagens da excelente e serena arquitectura de um habitar sensível aos modos de vida e aos sítios e com um desenho bem marcado pela escala humana, portanto, um habitar humanizado, que foi desenhado pela Arq.ª Ana.Valente e promovido pela C.M. de Esposende em Forjães.
António.Baptista.Coelho

ARQUITECTURA NO FEMININO

um artigo de Celeste Ramos
Será que há arquitectura no feminino?
Não sei se há, não se fala nisso e nem sequer sei como poderei "convidar" à leitura de sinais que possam definir a diferença que "sinto", que há quando há projectos de arquitectura desenhados por técnicos do sexo feminino, pois que, como o feminino em si mesmo, é subtil.
Talvez eu tenha encontrado, igualmente, diferenças não apenas em certos pormenores bem como na finura de acabamento da obra tanto no interior como no exterior dos fogos, obra que deve ser fiscalizada por quem a concebeu, sendo sabido que o melhor projecto pode ser alienado se a construção for "descuidada" relativamente ao desenho e imagem final pretendidos.
Houve de facto uma altura a partir da qual "a mulher" saiu do "lar" e foi para a rua invadindo o espaço escolar de todos os níveis passando pelo universitário e os mais altos graus académicos, adquirindo saberes e competências ao mais alto nível, culminando no reconhecimento não apenas nacional mas também mundial e, interessantemente, cada vez em idades mais jovens – ainda recentemente tal ficou exemplificado pelo caso de uma cientista portuguesa de 27 anos, de um centro de investigação científica no Porto, que recebeu um prémio de um milhão de euros para prosseguir o seu trabalho de investigação para combater a malária e alunos da faculdade de engenharia, do Porto.
Num espaço de pouco mais de 100 anos, a mulher doméstica (e domesticada) foi avançando com maior visibilidade e irreversibilidade, sobretudo na segunda metade do século XX, quando invadiu todos os espaços de trabalho começando pela necessidade de contribuição para melhoramento da economia familiar mas, sobretudo, muito recentemente, fê-lo como acto deliberado de libertação e de auto conhecimento, bem como de exposição social das suas capacidades e aptidões até aí desconhecidas não apenas para "ela" mesma, mas para o mundo de todos nós, altura a partir da qual o ser "feminino" deixou, em muitos países, de estar enclausurado.
Não se está a esquecer o facto de a mulher que não foi "rainha", ter tido sempre árduo trabalho em casa e nos campos, desde as mais juvenis idades em que pode ser "aproveitada" como mão-de-obra gratuita, submissa e quase geneticamente transmissível, sem direito nem à escolarização nem sequer a ter e dar "opinião", mas, em contrapartida, ter de, silenciosamente, durante todos os anos de adolescente e adulta, percorrer vários quilómetros a pé e descalça de lata à cabeça cheia de água, para simplesmente sobreviver e fazer sobreviver a sua família.
Mas não é disso que se pretende falar, embora na maioria dos países do mundo e na maioria dos continentes, esse facto seja ainda hoje a realidade do quotidiano, pese embora que, do total de habitantes do planeta, 52% seja do sexo feminino, porque assim "manda a natureza", julgo eu, que seja mais abundante o "feminino" para que a VIDA não morra.
Mas é no denominado mundo ocidental e vincadamente na Europa, que essa emancipação teve início e, neste domínio, Portugal não está no fundo da tabela, por mais que desinteressantemente se reivindiquem tabelas, como se a mulher não tivesse tido, até aqui, feito o caminho totalmente sozinha sem bengalas nem concessões comiserativas.
A mulher "invadiu" todos os "reinos" incluindo os mais fechados e antes “impensavelmente” possíveis de neles entrar, invasão que passa por poder hoje trabalhar como estivadora ou condutora de camiões TIR, poder ser soldado ou polícia ou toureira, poder integrar uma equipa de futebol ou ser campeã olímpica, poder ser realizadora de cinema ou encenadora, designer de interiores ou de moda, jornalista ou escritora, cantora ou pintora, poder ser cientista ou professora universitária, ser senadora ou ter alto cargo na Justiça, ser empresária ou assumir o cargo mais alto de uma nação como primeira-ministra, situação nas quais Portugal tem todas estas representações no "feminino", não estando, mais uma vez, nem no fundo da tabela, nem sendo neste aspecto um país desconhecido no mundo
A mulher portuguesa também recebe altas condecorações nacionais e internacionais, ou medalhas de ouro, ou outros prémios mundiais dos mais difíceis de aceder, nos campos da ciência, das artes e das letras, pode ser presidente de organizações internacionais, ou representante das instituições mais emblemáticas do mundo e do mais alto valor Humanitário. Mas nunca uma mulher portuguesa recebeu, ainda, prémios internacionais de arquitectura, embora, mesmo que em número irrisório, tenha recebido prémios nacionais!
E se no dealbar deste fenómeno de conquista de espaço profissional e sociocultural relevante, teria começado como simples "imitadora do homem", cedo se apercebeu de que não iria longe "sequestrando" o seu "feminino", pelo que hoje soltou o seu ser inteiro cujo feminino se expõe na sua verdade, na actividade profissional que escolheu para si e vê-se, assim, com reconhecimento e visibilidade internacional.
Mas se já é reconhecida a existência de literatura “no feminino”, se há arte no “feminino”, pergunta-se porque não há ainda reconhecimento de arquitectura no feminino com os seus “sinais” diferenciais?
Seja porque razão for, o longo caminhar vai ainda no início mas já permitindo a descolagem do instituído e estando aberto o caminho para que a diferenciação seja cada vez mais visível e mais concreta, não por conveniência de algo ou alguém, mas por afirmação sem “medo”, porque as diferenças existem e contribuirão, com certeza, para uma maior riqueza de linguagens e de comunicação entre todos os seres humanos.
Cada ser humano “aprisionado” não sabe de que é capaz – fica atrofiado e certamente infeliz. Cada ser “libertado” não sabe, igualmente, de que é capaz – terá que caminhar até saber-se. Conhecer-se.
Creio que só a “verdadeira liberdade” é benéfica para a emanação da criatividade e da beleza do que cada ser tem dentro de si como potencial a desbravar e deixar correr, sem mais “barragens” familiares, sociais e culturais, única forma também de crescer o grau de responsabilidade individual e colectiva e o mundo poder ser mais bonito, mais fraterno, mais inteligente, e permitir-se amar-se melhor.
Só na aceitação da total “diferença real” residirá a total IGUALDADE do ser humano masculino e feminino, para se construir o mundo que se anseia.
As imagens são de 2004, em Esposende: um pequeno conjunto residencial projectado pela Arq.ª Ana.Valente, da Câmara Municipal de Esposende; seguem-se as respectivas imagens seguindo-se algumas notas funcionais e de imagem retiradas do apontamento feito quando da visita do Júri do Prémio do Instituto Nacional de Habitação.
Fogos brancos, frente + túnel entrada + muros que deixam ver mas não completamente "o vizinho" (vista+visibilidade discreta) + jardim frente + tapete tijoleira no jardim para a água da chuva não salpicar e sujar os vidros das portas + árvore no jardim ritmando-o + escada de acesso cinzenta clara (discreta contra o descofrado cinzento quase igual) + corrimão da escada de acesso à horta + interior dos fogos (escada + armários + corrimão + estante disfarçando coluna estrutural avançada, tudo da mesma madeira e da mesma cor e tratamento) + cozinha + janela e luz da cozinha + 1º. piso uma janelinha pequena vertical sem abrir mas para dar mais luz, para alem das janelas normais + economia de todos os espaços versus/usos versos pouco espaço – tratamento do exterior e interior com igual qualidade sem hierarquia de importância porque tudo é importante.
Lisboa Bairro.de.Santo Amaro - 26 Outubro 2005
Maria.Celeste.d'Oliveira.Ramos, arquitecta-paisagista
Imagens de António Baptista Coelho
Nota da redacção do Infohabitar:
Não seria possível deixar de passar, sem este breve comentário, a situação de o nosso Infohabitar ter acabado de ultrapassar no recém-passado mês de Março de 2006 a fasquia dos 1.000 acessos num único mês (acessos e não page-views, que são em número quase dobrado), e isto após cerca de um ano de edições regulares do Infohabitar.
Fica aqui o testemunho de mais este pequeno acontecimento e o apelo para cada um dos leitores seja no sentido de poderem ainda dinamizar a consulta e a divulgação da nossa revista/blog dentro de cada um dos seus respectivos meios profissionais, seja de poderem vir a participar nesta nossa aventura editorial seja com artigos com um conteúdo mais desenvolvido, seja pelo simples e oportuno apontamento de um dado facto e/ou acontecimento, minimamente comentado em termos do amplo leque de temas a que nos dedicamos; enviando estes artigos para abc@lnec.pt
Bem hajam todos os leitores do Infohabitar, que é uma revista que existe devido aos seus leitores e colaboradores, e até sempre.
A.BaptistaCoelho

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