quinta-feira, agosto 10, 2006

Sobre a humanização do espaço público, artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 98

 - Infohabitar 98

Sobre a humanização do espaço público

António Baptista Coelho

Nota introdutória

Do abandono a que têm estado votados, frequentemente, os espaços públicos urbanos, resulta a oportunidade de uma reflexão prática cuidadosa, ainda que relativamente informal, sobre a própria matéria-base dos aspectos de imagem e desenho urbanos que podem estruturar o positivo desenvolvimento de espaços públicos motivadores, amigáveis e enriquecedores.
Um outro objectivo deste texto ilustrado é contribuir para uma aproximação gradual entre a técnica que deve ser urgentemente consolidada e divulgada nesta matérias e as ideias básicas a que todos os cidadãos informados, e não necessariamente arquitectos, poderão e deverão chamar suas relativamente às múltiplas características qualitativas do que se deve fazer e exigir, sempre que se intervém no espaço público, isto é, no espaço que tem de ser todos e a todos satisfazer; e isto aplica-se sem grandes diferenças seja a novos espaços urbanos, seja na requalificação da cidade existente.

Sublinha-se, assim, que aqui se visa o espaço urbano em geral e, essencialmente, o que se poderá designar como o grande leque de situações existentes numa cidade corrente que tem de ser viva e humanizada para ser um espaço de vida realmente satisfatório e enriquecedor.
Apuraram-se e privilegiaram-se duas ideias-chave:
. a importância da vitalidade global do mundo público;
. e a necessidade de se visar, de múltiplas formas, a sua humanização.
Essa vitalidade é uma vitalidade funcional e social, com um sentido amplo ligado ao habitar – desde as vizinhanças à cidade – e à cultura urbana, enquanto a referida humanização terá obrigatoriamente contornos estéticos (estritos e amplos), éticos, sociais e também, naturalmente, culturais.
Parece ser este um tema amplo e complexo, mas também um tema vital para a sociedade e uma temática rica e apaixonante nas questões que levanta.
São, em seguida, sinteticamente abordados dez “tópicos” sobre a vital e actual temática da humanização e vitalização do espaço público. Privilegia-se a ilustração de boas práticas, associadas a espaços urbanos correntes bem qualificados e, essencialmente, a conjuntos urbanos de habitação de interesse social portuguesa; desta forma sublinha-se que as qualidades residenciais e urbanas consideradas não têm a ver com custos específicos, mas sim com a qualidade dos respectivos processos de projecto/construção/manutenção e, designadamente, com a qualidade das suas soluções de arquitectura urbana.
Fig. 1: duas das muitas e muito humanas perspectivas do conjunto no Monte Espinho, Matosinhos, um sensível e civicamente empenhado desenho de Paula Petiz para uma nova pequena parte de cidade, viva e estruturante.

Vizinhanças de proximidade protectoras e sequências estimulantes

Bolsas de vizinhança de proximidade protectoras, conviviais, com dimensão pequena e claramente configurada e uma imagem urbana humanizada e muito apropriável, configuram espaços públicos extremamente agradáveis e positivamente caracterizados, nos quais a arquitectura dos pequenos edifícios se “apaga” também de uma forma positiva, o que interessa aqui é que estamos em presença de um pequeno pedaço de cidade.
As sequências estimulantes de pequenos, demarcados e bem articulados e harmonizados cenários residenciais constituem os elementos fundamentais do urbanismo de pormenor, que é aquele sobre o qual quase tudo se deve fazer na arquitectura urbana.

Sítios “únicos” e variados e gradações de privacidade

É essencial desenvolver sítios “únicos” e variados, que promovam a fundamental diferenciação entre lugares e assegurem emoção na percepção do espaço urbano habitado.
As soluções urbanas e residenciais que se queiram caracterizar por espaços públicos humanizados e vitalizados devem oferecer condições de grande integração entre espaços mais privados (dos fogos e contíguos a estes), espaços mais urbanos e espaços de transição.
Fig. 2: sítios únicos criando vizinhanças de proximidade – um espaço habitacional densamente humanizado (em Lübeck).

Trechos de vida colectiva com desenho urbano de pormenor

Muita da vitalidade urbana se joga na adequada previsão de trechos de vida colectiva, funcionais, com uma imagem urbana atraente mas sóbria e capazes de dinamizar funções tão correntes e fundamentais como o variado recreio/lazer na rua, numa forte relação entre função, forma e contexto urbano.
O desenvolver de uma escala pública em que uma imagem humanizada se liga a exigências fortíssimas em termos funcionais, de durabilidade e de capacidade de comunicação de imagens/formas. Trata-se aqui de recolocar o desenho e a morfologia urbana de pormenor no centro da mais premente actualidade da produção da cidade.

Eixos e pólos urbanos regeneradores dos sistemas de convivência

Desenvolver sequências de espaços públicos – e de pequenos trechos urbanos – que se constituam em verdadeiras “colunas vertebrais” de partes de uma cidade que assim se irá habitando. Naturalmente que a escala humana e a pormenorização servem e amplificam a força funcional e de imagem destes trechos.
Fazer espaços públicos humanizados e vitalizados é, essencialmente, (re)fazer uma cidade que se deseja (re)constituída nos seus sistemas de convivência. Dizer que esta convivência já não faz parte dos actuais modos de vida é apenas desculpar o não querer ou mesmo o não saber fazer esses espaços que se querem naturais incentivadores do convívio, convívio que nasce logo à porta de casa.
Fig. 3: uma adequada pormenorização de eixos urbanos conviviais – a EPUL no Restelo, Lisboa; projecto urbano de Nuno Portas, Teotónio Pereira e Gonçalo Ribeiro Telles; projecto de edifícios de Teotónio Pereira, Pedro Botelho e João Paciência (1985).

Vizinhanças de proximidade reforçadas, sóbrias e naturais

Relação com a envolvente e com a colectividade servida por uma atractividade geral e espacial ao nível de um micro-urbanismo que reforça a presença da vizinhança de proximidade e suscita adesão, marcando uma relação de proximidade que é também ponte de relação com a envolvente.
Tal como disse Francisco Keil do Amaral, muito mais importante do que muitos outros aspectos, é assegurar “edifícios correntes com boa qualidade arquitectónica e bem agrupados.” Assim se pode estruturar o exterior urbano e residencial com naturalidade e coerência – podemos sempre lembrar que o que parece mais simples provavelmente foi aquilo que foi melhor e mais longamente pensado e preparado.

Claro ordenamento urbano com referências directas à escala humana

A humanização e vitalização dos espaços públicos decorre sempre de um claro ordenamento de edifícios e espaços exteriores urbanos; um ordenamento urbano que se quer adequado e bem legível, numa aliança entre uma estrutura urbana funcional e uma imagem urbana humanizada, a dominância pedonal e a (re)estruturação funcional e de imagem da respectiva envolvente.
Quando dirigimos atenção para a humanização e vitalização dos espaços públicos temos de atender de forma específica a uma questão de escala do edificado, uma escala que tem de se harmonizar com o tecido urbano envolvente, mas que, acima de tudo, cada vez mais, tem de ser uma escala com referências directas à escala humana. Em tudo isto é fulcral o papel das fachadas dos edifícios, fachadas que evidenciam, por vezes, o corte entre a rua e o fogo, mas outras vezes amplificam a articulação entre esses dois mundos.
Fig. 4: vizinhanças reforçadas, ordenadas e à escala humana – espaços de vizinhança próxima bem configurados, abrigados/protectores e equipados; Cooperativa Habijovem Algarve, Albufeira (112 fogos), 1993; Arq. José Lopes da Costa.

Um conjunto integrado de espaços interiores e exteriores bem pormenorizados

Tal como tão bem disse, Ken Kern, o espaço urbano é um conjunto integrado de espaços interiores e exteriores, um espaço construído e tornado legível por hierarquias e estruturado por transições e continuidades, que vão lembrando o que fica para trás e antecipando agradavelmente o que está para a frente, numa sequência ramificada que se quer sempre bem presente e clara.
Nas vizinhanças próximas urbanas e residenciais, que são os principais e “primeiros” elementos de uma cidade coesa, humanizada e vitalizada, é fundamental a importância da boa forma geral e da boa pormenorização pois aqui estamos no mundo da proximidade, sítio de olhares muito frequentes e muito chegados, sítio com muitas e exigentes funcionalidades, sítio vital de transição entre o mundo privado de cada um e o mundo público e citadino que é de todos, sítio que quando falta ou quando defeituoso acarreta inúmeros problemas.

A grande importância do verde urbano e o vital papel da caracterização

A variedade, a riqueza, a atractividade e a agradabilidade do jardim residencial de vizinhança, um modelo de espaço público cujo interesse funcional e de imagem ao nível vicinal e urbano e cuja importância estão ainda longe de serem justamente reconhecidos, seja para o recreio e lazer, seja para a formação dos mais novos e para o dia-a-dia dos mais velhos, seja para o convívio entre todos, seja para o equilíbrio microclimático local, seja para a própria saúde psicológica dos residentes.
Tal como diz Christian Norberg-Schulz o carácter e a caracterização é mesmo o verdadeiro assunto da arquitectura, um assunto que marca o edificado e transborda sobre os exteriores contíguos de uma forma que tem de ser natural para ser efectiva e culturalmente válida. Não podemos fazer espaços urbanos e residenciais sem forma própria e sem identidade, afinal estamos a construir, melhor ou pior, uma cidade que vai durar.
Fig. 5: interior/exterior, verde urbano e caracterização – um jardim residencial de vizinhança do conjunto da Cooperativa Coociclo, em Telheiras, Lisboa (1989), projecto coordenado pelo Arq. Duarte Nuno Simões.

A boa prática da pequena escala e da modelação da paisagem urbana

A grande prática que deve ser seguida no bem fazer pequenos e bem configurados espaços exteriores e a grande prática da pormenorização que deve preencher e dar uma verdadeira alma aos grandes espaços públicos exteriores.
É essencial um grande cuidado na modelação da paisagem urbana, pois é esta que acompanha, complementa e caracteriza o espaço público dando-lhe boa parte dos seus conteúdos funcionais e de imagem; trata-se de níveis consecutivos de cenários, distintos mas ligados, trata-se de uma essencial relação de integração por continuidades e por contrastes cuidadosos.

Espaços públicos urbanos amigos das crianças e dos mais velhos

Fazer cidade habitada e amigável, cidade ligada ao clima e à paisagem, cidade em si própria paisagem urbana e humana, cidade que acompanha e enriquece quem a habita, cidade que apoia quem a habita, proporcionando, ao longo das suas ruas e outros espaços coesos, contínuas e graduais aulas de vida e de sociedade, aos mais novos, amparando-os e estimulando-os, num quadro global seguro e formativo, enquanto acarinha, envolve e protege os mais velhos, os mais lentos, dando-lhes condições de tranquilidade urbana, de estadia e de convívio mitigado no exterior. Assim se dá mais tempo e qualidade de vida, directa e indirectamente, nos variados e estimulantes cenários que são oferecidos e numa vitalidade diária que pode cativar em cada esquina, em cada praceta, em cada esplanada e em cada pequeno jardim.
Fazer cidade habitada e amiga das crianças e dos mais velhos é fazer uma cidade que serve melhor aqueles que mais a usam e aqueles que mais vida lhe dão, e que naturalmente são aqueles que precisam de condições urbanas de segurança, acessibilidade e conforto mais cuidadas, e fazer esta cidade não é apenas fazer alguns espaços específicos para as diversas idades, que também são precisos naturalmente, mas é, sim, essencialmente, fazer uma cidade arquitectónica e culturalmente válida, espacialmente integrada e socialmente solidária e viva.
Fig. 6: pequena escala bem modelada em espaços urbanos amigáveis – pormenor do conjunto municipal de realojamento em Santa Maria da Feira, projecto do Arq.º Bruno Marques (1999).

Notas conclusivas

Fazer bem o espaço urbano passa por fazer espaços naturalmente formativos, emocionantes, protectores e confortáveis, portanto, fazer espaços urbanos vivos e humanizados.
É preciso conhecer, urgentemente, o que se fez bem em termos de urbanismo residencial, para se perceberem um pouco melhor os aspectos ligados à humanização e vitalização do espaço público habitado. É preciso dar a devida importância à luta pela humanização e vitalização do espaço urbano. é preciso que a vida e a qualidade de vida sejam realmente bem servidas pela técnica.
Fig. 7: o Bairro Económico da Chamusca; projecto de Bartolomeu Costa Cabral e Vasco Croft de Moura (1960).
Temos a obrigação urgente, hoje em dia, de tudo fazer para quando falarmos de espaço público, e tal como diz Yves Lyon, falarmos de “virtudes, energias e motivos fundadores, ideias de civilização, ideias de colectivo.”
E devemos ter bem presentes as palavras de Gonçalo Ribeiro Telles, quando refere que depois dos espaços privados e públicos, surge o “espaço livre comum”, espaço este que Ribeiro Telles refere ser bem observável, designadamente, em partes dos Bairros de Alvalade e de Olivais em Lisboa.
Parece, assim, que só falta observar bem e caracterizar estes e outros espaços, (re)descobrindo as tais “ideias de civilização”, os tais “motivos fundadores.”
E, nestas matérias, e também fazendo justiça ao título deste artigo, é sempre interessante recordar uma frase-chave de Frank Lloyd Wright: “All fine architectural values are human values, else not valuable”; uma frase que parece poder ajudar a desfazer muitas confusões que por aí existem nestas áreas da qualidade arquitectónica residencial.

(Frase citada por Ana G. Cañizares, em “Great New Buildings of the World”, Nova Iorque, Harper Design, 2005, p. 6)
Lisboa, Encarnação, Olivais Norte
10 de Agosto de 2006

2 comentários :

MJE disse...

Texto profundo e exemplificação cuidada através de fotos.
Parece-me necessário o levantamento exaustivo e constante de exemplos positivos, através do registo fotográfico, para nos podermos situar e entender no debate sobre o conceito de 'correcção' na prática da arquitectura e do urbanismo.

Anónimo disse...

Creio que este artigo levanta mais perplexidades que respostas, embora se enunciem pistas de acção política ao nível do ordenamento do território (como a referência à Carta de Condicionantes). Tratando-se de matéria tão sensível, como é a do ordenamento do território, seria oportuno avaliar a eficiência dos regimes de non aedificandi ou das diversas servidões, restrições, das Reservas Agrícola e Ecológica... bem como os resultados de uma lógica autoritária que tem presidido à gestão das áreas protegidas (gestão muitas vezes feita para o favorecimento de um tipo de turismo 'de natureza' -e que permite desportos 'radicais' e ralis de jipe-, em detrimento de um envolvimento mais vivo por parte das populações locais e da promoção das suas actividades ancestrais que ligavam a comunidade à floresta). O artigo espelha bem as contradições de um turismo globalizado e das uniformizações das actividades de lazer, por um lado, indicando o modo como seria possível, por outro, preservar uma genuinidade local: na cultura e nos produtos. Esta cultura e produtos locais é que marcam a diferença, diferença que deve constituir, no mercado do turismo global, mais que um guiché onde se vende a nostalgia ou se plagia a identidade de uma região. Mas em que medida a globalização significa homogeneização (de modos de vida ou de aspirações sociais, processos de produção e normas de qualidade)? E em que medida a política tem, ainda, autonomia para impor a diferenciação (em nome das comunidades humanas ou dos ecossistemas locais)?
[João Lutas Craveiro]