sexta-feira, agosto 04, 2006

O Espaço Como Dominação e Consciência - um artigo de M. Luiza Forneck - Infohabitar 97

 - Infohabitar 97


É com uma especial satisfação que acolhemos, novamente, nas “páginas” do nosso Infohabitar, um artigo da nossa colaboradora Profª. Maria Luiza Forneck.
E esta satisfação justifica-se seja porque se trata, pela primeira vez, na nossa revista, de um artigo que cruza, especificamente, as áreas do habitar e da história, numa aliança que se julga, cada vez mais, fundamental e que pretendemos dinamizar na nossa revista/blog, seja porque se trata, também, embora indirectamente, de se chamar a atenção para a defesa dos direitos do povo guarani e para o grande interesse que tem, para todos nós, neste mundo e neste início de século, a consideração dos seus direitos históricos, o reforço da sua identidade cultural e o apoio às suas múltiplas manifestações sociais e artísticas; e a propósito não quero deixar de registar, aqui, um pequeno comentário da autora deste artigo, que serve também de breve introdução ao que, como verão, é um excelente texto de aliança entre habitar e história, infelizmente um habitar que é testemunho de uma extraordinária civilização que não teve continuidade, mas que nos deixou abundantes elementos de grande riqueza artística, que a todos enriquecem e que a todos podem levar a pensar um pouco sobre muitas questões, algumas delas bem actuais.
Dizia-me Maria Luiza Forneck no mail que acompanhou o envio do seu texto: “Escrevi esta crônica pelos guarani, povo que não se reergueu e pasme, a “reserva" em que moram alguns no meu estado tem 200 e poucos hectares! Há outras tribos que tiveram terras demarcadas no norte do País, mas estes... Quem luta por esta causa são os moradores atuais dos municípios da região e o Centro de Cultura Missioneira ... “
Trinidad, foto de Susana Abreu
Fiquemos, então, com mais um excelente artigo que nos vem do Sul do Brasil, chamando ainda a atenção para a revisão do texto, que foi feita pela Profª. Nadir Damiani, do Centro de Estudos Missioneiros, da Universidade do Alto Uruguai/RS, à qual o Infohabitar agradece e deseja que ultrapasse, rapidamente, os actuais obstáculos no seu doutorado.
Um último e bem merecido destaque para as excelentes imagens que ilustram o artigo e cuja autoria é de Susana Abreu – a excepção a esta regra é a imagem de satélite que abre o artigo e que, tal como é bem visível, é do Google Earth.

O  Espaço Como Dominação e Consciência

um artigo de  M. Luiza Forneck




O Espaço Como Dominação e Consciência
Maria Luiza Forneck(*)
Trinidad, Google Earth
Peço desculpas aos historiadores pelas imprecisões ao discorrer sobre a civilização jesuítico guarani, havida na América do Sul, durante o processo de colonização de terras na Bacia Platina pelas coroas Ibéricas, nos séculos XV e XVIII.. Situada nos atuais territórios de Brasil, Argentina e Paraguai, a região conheceu muitos conflitos durante o período colonial e, em decorrência, vários Tratados entre seus colonizadores - Tordesilhas, Madrid, Santo Ildefonso, El Pardo, Badajós, entre outros -, buscaram a delimitação de fronteiras e a resolução de questões políticas e sócio-econômicas.
Uma recente viagem ofereceu-me mais elementos e pude verificar, que no período de trinta anos da primeira visita, a evolução do conhecimento obtida por estudiosos, leigos e autoridades em valorizar, através de pesquisas e escavações o legado desta experiência, demasiada ousada até para os dias atuais.
S. Inacio, foto de Susana Abreu
Mas porque interessaria aos que se dedicam à análise do urbano a saga deste povo? Creio que uma reconstituição de como o espaço foi utilizado pelos jesuítas nas reduções - pequenos aglomerados que não deveriam ultrapassar cinco mil moradores, pois chegado este limite fundava-se outro -, além da sua organização interna dizem do propósito de controlar corações e mentes. E pasmem, os guarani até o encontro com os jesuítas, eram seminômades. Provenientes da Floresta Amazônica, foram os primeiros a praticar a agricultura. Além disso, caçavam, pescavam e coletavam, além também possuir habilidades guerreiras.De 1609 a 1706, foram fundadas 67 reduções mas apenas 30 desenvolveram-se, tornando-se auto-suficientes economicamente. Vinculadas à administração da Espanha colonial, chegaram a abrigar em torno de cem mil índios. Visitei três das que se encontram em melhor estado: São Miguel Arcanjo/RS, no Brasil; San Inácio Mini/Missiones, na Argentina e Nossa Senhora da Santíssima Trindade/Itapuã, no Paraguai. Os sítios arqueológicos foram tombados pela UNESCO como Patrimônio Histórico da Humanidade. No Brasil, há, em frente às ruínas de São Miguel, o Museu das Missões, projetado por Lúcio Costa – autor do plano para a cidade de Brasília – que possui o maior acervo de arte sacra missioneira do País, abrigando a imaginária Guarani, feita pelos indígenas nos séculos XVII e XVIII.
S. Miguel, foto de Susana Abreu
Sua arte, conhecida como barroco missioneiro, atesta a capacidade de aprendizado de uns e o sucesso de outros na difusão da fé no continente americano. Hoje, os descendentes dos indígenas, pouco numerosos, mantêm o idioma guarani como língua oficial, mas também falam o português e o espanhol. Na Argentina, recusaram-se a falar conosco, fazendo sinais com os dedos do valor, em pesos apenas, que aceitam em troca de seus produtos. Infelizmente para eles, em guarani só se conta até cinco, o que dá idéia do pouco que podem obter... E seu artesanato não mais reproduz a figura de Jesus Cristo, de anjos ou santos, que inspiraram as imagens existentes no museu do lado brasileiro.
As ruínas de São Miguel restringem-se a uma bela catedral e todas as noites, a saga da quase extinção deste povo é encenada, num espetáculo de Som e Luz. Na Argentina e no Paraguai, os guias são descendentes dessa tribo, já integrados à “nossa” cultura. E o que sobrou da redução de Nossa Senhora da Santíssima Trindade permite perceber a disposição interna dos prédios, obedecida em todas as reduções, onde nada foi deixado ao acaso ou improviso.
Trinidad, foto de Susana Abreu
E foi através da organização espacial de “funções” no espaço interno, do número máximo de habitantes permitido em cada redução - uma área “urbana” no centro de áreas agrícolas e pastoris -, aliado ao prévio convencimento dos caciques, que compreendi a importância da utilização do espaço como aliado do afã “pedagógico” dos jesuítas. Os indígenas, no entanto, se adaptaram ao sistema reducional e ao catolicismo como forma de sobrevivência, mas nunca deixaram de praticar a sua religiosidade, Seu legado inclui heranças como: 20% do vocabulário – em português -, o hábito do chimarrão, do churrasco, da farinha de mandioca e de outros legumes; do banho diário, do modelo de chiripá; do uso do poncho de lã natural; dentre outros (**).
As ruínas de todas as reduções mostram: a praça central e a catedral com a morada dos jesuítas ao lado; o cabildo (espécie de prefeitura), onde caciques e índios discutiam as decisões a tomar; a disposição das casas e locais de trabalho; a casa das viúvas; a prisão onde eram castigados os que discordavam das decisões “coletivas”; os cemitérios, onde até crianças foram separadas dos adultos, e entre elas por sexo; atestando a preocupação em utilizar, ao máximo, o espaço a serviço de um propósito...
Trinidad, foto de Susana Abreu
Os guarani, um povo ao mesmo tempo guerreiro e dócil teve uma contribuição neste período que não se restringiu a trabalhos manuais, mas na escrita, na elaboração de instrumentos musicais, ao mesmo tempo em que produziam um excedente notável em erva-mate, couro e chifres para exportação. Sem serem escravizados, aceitavam de boa vontade o regime de produção trazido pelos jesuítas, que incluía a importância de que os resultados obtidos deveriam ser reinvestidos e uma parcela distribuída a seus produtores. E assim os indígenas acreditaram que viveriam “um pedacinho do Céu na Terra”...
Conceitos por demais subversivos: um índio que não é preguiçoso? Que discute o destino de sua produção? Que fabrica máquinas para imprimir livros? Que lê e toca instrumentos musicais sofisticados? Idéias como estas levaram o Marquês de Pombal determinar a expulsão dos jesuítas, pois o território dava mostras de poder tornar-se uma nova nação. E ainda mais, as reduções estavam em território que, pelo tratado então vigente entre Portugal e Espanha, o de Tordesilhas, de 1494, eram terras pertencentes à Espanha.
Trinidad, foto de Susana Abreu
Mas o espaço serve à dominação, mas também trabalha em prol da consciência. Expulsos, por força de uma troca do território onde se assentavam Os Sete Povos das Missões pela Colônia de Sacramento – ao sul do Uruguai - os guarani, chefiados por um mitológico líder Sepé Tiarajú, ousaram despertar a ira de Portugal e Espanha, bradando “Esta terra tem dono”. Abandonados por seus mentores, enfrentaram sozinhos, na chamada “Guerra Guaranítica”, os exércitos de seus colonizadores juntos, o que resultou no quase completo extermínio de seu povo e de suas “cidades”, esculpidas em pedra, que o vento e as intempéries estão por devastar também.
Quem olhar atentamente o traçado “urbano” obedecido pelas reduções, onde os índios passaram a viver e foram convencidos a produzir de boa vontade, ouvindo a história de Cristo Redentor, verá que o espaço foi cientificamente pensado a serviço do triunfo de um Poder que, por fim, os aniquilaria quase por completo.
(*) Mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo PROPUR, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS e Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia universidade Católica de São Paulo- PUC/SP.
(**) Agradeço à profª Nadir Damiani, do Centro de Estudos Missioneiros, da Universidade do Alto Uruguai/RS, a revisão das muitas imprecisões cometidas ao elaborar esta crônica.
Contacto da autora das fotografias: Susana Abreu, susana@rotacultural.com.br