quinta-feira, agosto 17, 2006

A CIDADE e o RECREIO, um artigo de Maria Celeste Ramos - Infohabitar 99

 - Infohabitar 99

A CIDADE E O RECREIO, O ESPAÇO E O TEMPO – ESPAÇO DE ALEGRIA E DE FORMAÇÃO DO CIDADÃO

Artigo de Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Colaboração e ilustração de António Baptista Coelho

A cidade é de facto o espaço privilegiado para a vida dos homens, e tempos houve em que havia a preocupação de definir cidade – civitas –, ou seja, definir espaço e funções de um certo aglomerado habitacional para que merecesse designação específica e diferenciada.
O lugar (pueblo-parish), a aldeia (village), a vila e a cidade (ville-town-city), depois metrópole, área metropolitana ou mais recentemente a megalópolis, radica na especificidade da actividade por grupos de habitantes.

O lugar e a aldeia seriam os locais habitados por aqueles que se dedicavam exclusivamente ao sector primário, enquanto que, depois, "subir-se-ia" na hierarquia da designação, não apenas com base no número de habitantes, mas também na pirâmide das funções do secundário e terciário, culminando-se na cidade, que é, por excelência, espaço terciário. O ordenamento das paisagens do campo e urbanas seguia de perto o ordenamento urbano e humano, qualificando espaços e funções.
O recreio e "loisir" são comuns a todos os lugares "habitados" (e mesmo adentro da habitação privada), mas tomam maior relevância à medida que aumenta o número de habitantes, e tal que no planeamento urbano passou a haver "quantificação" per/capita para determinadas tipologias de espaços exteriores para que os actuais espaços urbanos, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, fossem planeados e construídos com inteligência visando o bem-estar do cidadão e, mais recentemente, o bem estar da própria "natureza"selvagem" dentro da cidade e na sua envolvência.


Fig.1: Um pouco de cidade em Belém, Lisboa.

Tudo isto para que a vida permaneça, vida que não pode ser "deixada apenas à sobrevivência" dos espaços do campo, eles também em ameaça permanente pela desordem de tipologias de ocupação e pela ausência de percepção do valor de cada espaço especificadamente, e para que a cidade não seja apenas uma laje contínua de betão e de betuminoso onde a vida se torna insuportável, porque já é completamente anti-natura; e tal que entre um candeeiro e uma árvore centenária não há hesitação: corta-se a árvore!
Assim há regras urbanas que vão evoluindo com o tempo e a demografia dos espaços urbanos, não apenas para a geo-distribuição das funções da cidade, de que é a mais dignificada a de administração, a que se seguem as de ensino e religião, de saúde e de cultura, e de recreio e desporto.
E estas funções estão sempre a ser focadas quando se escreve sobre a cidade e a renovação do seu desenho, e sobre a "deslocalização" de funções que igualmente são alteradas pela evolução de diversas condições funcionais, entre as quais se destacam as ligadas às acessibilidades e aos transportes públicos.
E entre as funções da cidade estão as associadas aos espaços de recreio e de desporto, e aos espaços livres e públicos como os largos e praças, cujas funções poderão estar mais limitadas à cultura e ao comércio ou, simplesmente, poderão ser pequenas parcelas que se articulam no desenho de planeamento e ordenamento e que são “apenas” espaços de "respiração", para além dos espaços de circulação da cidade, e que desenham a sua estrutura fundamental e servem as suas qualidades de mobilidade.

Fig. 2: O recreio “livre e na rua”, num conjunto habitacional de interesse social da C. M. de Vila Nova de Gaia, na Quinta do Guarda Livros, Oliveira do Douro, projecto do Arq. Paulo Alzamora, 2001.

Quanto aos espaços de desporto há que citar a que classe etária nos referimos, já que, à partida, os espaços de desporto, porque exigem maior área, deverão situar-se longe do coração da cidade, podendo distribuir-se radialmente e em anéis concêntricos, para que o acesso não seja penoso pela distância às áreas de habitação, e pela dificuldade ou perda de tempo na deslocação, considerando-se as classes etárias a que se destinam, sob pena de, por exemplo, se desmotivarem os adolescentes que já têm autonomia de deslocação e correspondem à população urbana que está nas idades de formação de todo o seu ser físico e psíquico, e para quem o desporto é escola de auto-conhecimento e de desenvolvimento máximo da sua motricidade, de capacidades globais e de socialização, e de encontro em alegria, e para quem o recreio mais importante é o desporto de ar livre, podendo embora fazer-se em espaços fechados, mas menos saudáveis.
Desporto que deve também ser feito no espaço escolar onde à partida devia ser natural e óbvio, mas aí a situação tornou-se problema tão complicado que não quero ir por aí. Mas não tenho dúvidas em afirmar que uma das razões de repulsa escolar e mau aproveitamento, que no limite poderá culminar na violência dos jovens, pode radicar, mais do que se afirma, na ausência do desporto a que nunca nenhum jovem se furta, e por isso brinca e joga nos locais mais insólitos e inesperados porque essa é também condição natural de ser adolescente, mesmo desfavorecido, até porque é sabido que "nos bairros de violência" esta não se generaliza a todos os adolescentes, nem sequer aos que são exclusivamente oriundos dos grupos sociais mais pobres.
E quando uma escola primária ou de ensino básico tem um pátio, mas não tem árvores e o seu pavimento é apenas de betuminoso repulsivo e perigoso: lamenta-se profundamente que as crianças não mereçam melhor.
E da mesma forma se lamenta que os espaços infantis das cidades estejam equipados com brinquedos de poucas marcas monopolizadoras do mercado dando origem a uma “tipologia” muito marcada pelo "modelo único” nas formas, cores e materiais, frequentemente, muito caros na aquisição e implantação, e sem alternativa de restauro, ficando milhares de euros postos a um canto quando se partem e enferrujam, sempre iguais de norte a sul, sem a possibilidade de haver terra ou areia, sem árvores e sem relvados para as brincadeiras e jogos livres, sem criatividade e numa monótona e triste “igualdade.”


Fig. 3: “E bastariam, apenas, extensos relvados” – o miolo do quarteirão de habitação de interesse social da cooperativa Coohafal, na Madalena, Funchal, projecto do Arq. Guilherme António Barreiros Salvador, 1988.

E bastariam apenas extensos relvados e árvores que permitissem espaços de sol e de sombra, onde as crianças pudessem correr e "brigar" e aprender, então sim, igualdade e fraternidade, e estes espaços permitem a utilização por todas as classes etárias e proporcionam um custo mínimo de conservação; mas devem estar em locais caracterizados pela segurança e pelo sossego – afinal condições que são fundamentais para a saúde em meio urbano.
A este respeito e com o propósito de minimizar acidentes existe o Decreto-Lei 379/97 que visa propostas de alteração de planeamento, construção e manutenção, inspecção e fiscalização de espaço de jogos e de recreio; mas acho complicado ter-se chegado ao ponto de ser necessário "legislar o brincar", é mesmo a "condição humana."
O contexto social é muito mais complexo do que isto e cada homem adulto ou adolescente em formação, é vítima, ou fruto, de todo o complexo de inter-relações socioculturais e se por acaso a região de Lisboa e Vale do Tejo é considerada pela UE das sub-regiões de maior rendimento per/capita, diríamos então que de facto os graves problemas dos adolescentes não é um problema de riqueza regional, mas de outros problemas que foram descuidados e esquecidos, “ghetizando-se” os adolescentes.
A exclusão social não radica apenas na componente da eventual débil economia da família, mas igualmente na qualidade da oferta das instituições escolares, e da própria cidade, nos seus espaços; mas aqui há que referir os associados e frequentes “esquecimentos” das classes de decisão, sobretudo autárquicas.
Mas eu quero, hoje, aqui, falar, essencialmente, da cidade e da alegria e dos espaços em que o cidadão se pode retemperar do cansaço e da monotonia, tendo não importa que idade e ocupação diária e ao longo de todo o ano, e onde e como a cidade é espaço em que essa alegria natural e humana pode e tem de ser renovada, porque a cidade é espaço de viver e de ACONTECER em cada dia de cada ano, no seu ciclo não apenas anual e civil mas também diário e cósmico.
É mesmo a "condição humana" que é posta em causa porque brincar é natural, rir é natural, ser feliz é natural – e desejável.
O contexo social é muito mais complexo do que isto e cada homem adulto ou adolescente em formação, é vítima, ou fruto, de todo um complexo de inter-relações socioculturais, e se, por exemplo, por acaso a região de Lisboa e Vale do Tejo é considerada pela UE das sub-regiões de maior rendimento per/capita, diríamos então que de facto os graves problemas dos adolescentes não se referem a um problema de riqueza regional, mas a outros problemas, que foram descuidados e esquecidos, ghetizando-se, realmente, os adolescentes.
Qualquer adulto poderá pensar que "brincar" é apenas um acto infantil e próprio das idades mais jovens ou, então, brinca apenas para brincar com seu filho, menino, não receando o "ridículo", em privado, tal é a força de alegria que emana do bebé ou do pré-adolescente. Mas a alegria é própria do ser humano não importa a forma como vive e, se vive só, ou mais dificilmente se é velho e só, então a "alegria" até parecerá não poder ter mais lugar nos seus olhos ou no seu andar. E não devia ser assim, pois a cidade é, por natureza, lugar de encontro e de festa/alegria.

Fig. 4: "Grande homem é o que não perdeu a sua alma de criança."

Alguém que não recordo disse que "grande homem é o que não perdeu a sua alma de criança" e sabe-se bem como está a desaparecer do adulto, essa capacidade de manifestar a dimensão mais simples de "ser simples e ser menino", sorriso directo e cheio de luz que virá do interior e que tende, infelizmente, a enfraquecer com a idade .
Mas quando que se afirma que os velhos são como os meninos, creio bem que não são apenas tão frágeis como eles mas que, para os que passam os seus "bojadores", a mesma alegria simples e aquela luz no olhar regressam como património revalorizado e que repartem com seus netos ou com quem estiver no seu caminho, e se o sorriso falhar mais vale um sorriso triste do que não ter sorriso algum.
Quantos velhos se observam tristes pelas ruas por onde passamos?
Mas, quantas crianças também, não têm um sorriso, nunca sorriram?
A alegria corresponde a uma dimensão de saúde no corpo e na mente em que a cidade tem uma grande dimensão de responsabilidade, não por razões socioeconómicas, mas simplesmente pelos espaços físicos que na cidade têm de existir para que "viver na rua seja também prazer."
Que dimensão cabe à cidade apenas no sentido físico de espaço de estar e de convívio para que ao menos a natureza do homem comunique com a natureza das árvores e das flores e dos espaços onde as crianças "gritam e brincam"?

Fig. 5: É preciso que "viver na rua seja também prazer”; arte urbana em Almada.

Mas serão os adolescentes os mais esquecidos na sociedade actual – porque já saíram da alçada protectora de seus pais e largados à vida sem espaços de prazer e de estar colectivo, pelo que o seu crescimento é deveras problemático, o seu corpo físico e mente crescem mas sem desenvolvimento criativo e preparador para a fase adulta.
E hoje em dia a, quase, regra é a cidade e a sociedade só oferecem, ao adolescente, lugares de recreio nocturno que muitas vezes nem sequer são locais de música e convívio, mas, sim, frequentemente, sítios de ruído e poluição e de convite à droga e ao álcool a partir de idades cada vez mais baixas.
Esta situação inutiliza para a vida inteira qualquer adolescente porque o cérebro não se desenvolveu saudavelmente e, até aos 18 anos, a biologia humana não está ainda desenvolvida para poder fazer a síntese deste tipo de erros, mas sobretudo das "ofertas" de uma cidade irresponsável e comercial em que só importa o comércio e não os cidadãos, mesmo os que são a semente do futuro.
É urgente pensar e planear a ocupação dos adolescentes, considerando especificamente, as respectivas circunstâncias e os mais adequados espaços escolares e públicos, porque os adolescentes são a seiva de cada nação.
Os adolescentes têm de ter direito à cidade e à alegria, têm de ter direito aos espaços colectivos de crescimento motor, psíquico e social. O movimento de degradação da oferta da cidade para com os adolescentes pode e deve ser invertido sob pena de a cidade não ter mais razão de existir para além de dormitório colectivo.
É preciso cidade para rir e brincar, para ver rir e ver brincar e partilhar alegria infantil e colectiva.

Lisboa -bairro de Santo Amaro – domingo, 12 de Março 2006.
Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Colaboração e ilustração de António Baptista Coelho, em Agosto de 2006.
Edição de José Romana Baptista Coelho.

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