quinta-feira, setembro 21, 2006

Os velhos na cidade velha, artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 104

 - Infohabitar 104

Nota introdutória:Os leitores do Infohabitar já se acostumaram aos artigos da nossa colaboradora, de sempre, Maria Celeste Ramos, textos em que as impressões mais sentidas e “directas” se ligam a aspectos fundamentais, que estruturam e deviam estruturar, muito mais, o nosso habitar diário, de casas e de cidades.
São textos que, logo numa primeira leitura fazem pensar, e que, depois, por exemplo, quando os guardamos, em papel, e de novo os olhamos, fazem lembrar, a quem se importa com o habitar de casas, bairros e cidades, como foi, como deve ser e como ainda se poderá fazer para melhorar as cidades que habitamos e que nos habitam, ou deveriam habitar.
Chama-se, assim, a atenção para dois aspectos, primeiro para a constante apresentação que a autora faz de possibilidades/ideias de “saída” e de melhoria, relativamente a situações urbanas, muitas delas, negativas, e, depois, para o grande interesse e para a amplitude que este artigo tem, realmente; a autora aqui fala, com clareza e de uma forma integrada, “dos velhos na cidade velha” e de como é urgente, muito urgente, enfrentarmos todos os problemas que lhes estão associados.
Fiquemos então com um ponto alto do nosso Infohabitar, que, de certa forma, remata uma fase dos trabalhos do Grupo Habitar, em que se desenvolveram, em vários sítios do País, sessões técnicas sobre esta temática dos idosos e da cidade envelhecida, e considere-se que as ilustrações apenas visaram “pontuar” o excelente discurso que a seguir se apresenta.

António Baptista Coelho

Os velhos na cidade velha são os mesmos que a fizeram jovem e esplendorosa, são os mesmos que a cidade esquece

artigos de Maria Celeste Ramos
imagens de A. B. Coelho


A Vida no seu eterno ciclo de nascer e crescer, desenvolver-se, viver e morrer – ciclo biológico dos reinos vegetal e animal, e do Homem, desde a primeira célula primordial que no universo se formou.
Também ciclo das estrelas! Que sei eu que gosto tanto de inventar coisas e ver tudo em todas as coisas do céu e da terra como a mesma semente original e apenas formas diferentes de manifestação, mas que lá estão como nos mostram constantemente os cientistas das coisas do espaço celeste.
Curiosamente é esse ainda o ciclo da Cidade que "nasceu para morrer", título de velho e pequenino artigo de Ribeiro Telles, título de que não gosto muito, mas que não tira a essência do que é dito por um dos homens mais cultos do país, grande arquitecto-paisagista e um dos últimos da primeira geração do saudoso professor Francisco Caldeira Cabral que criou timidamente um curso livre na UTL, hoje curso universitário dos mais antigos da Europa, que se espalha e desenvolve em todas as universidades do país, excepto Braga.

Da mesma forma se espalha pelo mundo o trabalho premiado internacionalmente das gerações actuais, levando a vários países "diferenças" aqui desenvolvidas e manifestadas, como se a semente germinada fosse naturalmente lançar frutos e deles dar testemunho além fronteiras, num vaivém que convém a todos os saberes que se colhem dos homens, crescem e renovam e de novo se espalham, e mais uma vez se trocam fechando ciclos "abertos", ou espiralados?
O vento que leva a borboleta ou o pólen a atravessar os mares, as correntes do mar que levam a semente a atingir outros continentes, as migrações das aves e de outros animais, como o saber dos homens, atravessam todas as fronteiras, movimento eterno de todas as coisas do céu, da terra e do homem vivente de pés assentes na nave espacial que o sol obriga a girar em seu redor, macro e micro que se interceptam até ao nível invisível do movimento intracelular do corpo humano ou de uma simples e pequenina folha de humilde planta. Tempo e espaço de movimento de nascer e de morrer de todas as coisas mas com primaveras no porvir.

É importante e é bom fazer recordar para não nos esquecermos de onde vimos e que homens são marcos de evolução, para que se renove a memória dos que foram responsáveis pela introdução de novos saberes sobre as coisas e neste caso da vida dos jardins, das plantas e do ordenamento das paisagens, bem como das cidades e da sua re-construção e renovação, e humanização tornada mais inteira e consciente colectivamente, já que a cidade sempre foi crescendo de tal forma em dimensão física e número de habitantes, que não podia mais ser a "velha cidade medieval ou renascentista só-de-pedras" embora com a natureza na área envolvente ali tão perto, por maior beleza que tenham as que ainda restam e que são sempre de re-visitar como Óbidos e Monsaraz, Vila do Conde ou Braga, ou qualquer vila e aldeia de interior podendo-se recuar para os nossos lugares de raiz visigótica e mesmo Celta como Bragança.

Como é Velho este país e as suas paisagens e como vêm de longe os saberes que se herdaram e passam de boca em boca e de mão em mão dos velhos que transmitem os saberes, mas que, embora tão recentemente, são esquecidos tão depressa como se não tivessem nenhuma importância, eles que foram enquanto jovens os construtores da cidade e dos espaços de vida e de cada função, que foram à frente para ir deixando intacto o espaço de viver dos que vieram a seguir, família colectiva inter-dependente e intergeracional continuamente renovável e evolutiva como tudo o que é a vida do planeta que se habita desde a origem dos tempos.

Alguns destes lugares tão velhos são livros vivos de pedra talhada em história, alguns deles a ser destruídos não apenas por modernas intervenções despropositadas que lhes retiram a harmonia visual e vivencial, mas em contrapartida procurados também pela imparável procura turística, e de que é um dos mais fortes exemplos o dos degraus da escadaria do Parthenon que se vão partindo mais um pouco, ou também como Veneza que já não permite ser olhada em longas perspectivas porque parece não caber já mais ninguém tal mar-de-gente à procura da beleza antiga, como se os grupos humanos se deslocassem numa espécie de "demanda da linguagem" que emana destas cidades-originais, linguagem que, ou não existe nas cidades mais recentes ou, em cada uma haverá, certamente, uma mensagem bem diferente mas em que está sempre presente o tempo cultural.

O Planeta Casa Comum, está, com o desenvolvimento do turismo, dos transportes e da comunicação global, a ser visitado "apenas" como uma casa maior, a de "toda-a-gente", e será, quem sabe, uma forma inesperada de encontro de maior solidariedade de "vizinhança" global e eu não me descarto desta utopia por mais que escreva sobre o oposto.

É certo que mesmo com a devastação da Europa pelos Vikings durante a Idade Média, ou por Átila, o Huno, ficou sempre Civilização e cultura acrescentada. Mas já vai longe a "invasão dos Bárbaros", os países estão arrumados nas suas fronteiras físicas, mesmo aquele tão pequenino e o mais jovem país do mundo que é Timor, parecendo que falta arrumar a Casa, arrumando a Cidade e, sobretudo, arrumando as ideias, passando para a fase de limpeza dos resíduos, de restauro e de revitalização da arquitectura e dos espaços públicos incluindo os jardins, que estes tempos de "plástico" e de fast-food e "fast-arquitectura" tudo invadiram sem pudor.

É importante e é bom fazer recordar para não esquecermos a cidade da nossa infância e do nosso crescer, e de nossos pais, espaço sociocultural e afectivo que foi muito determinante para grande parte do que cada um de nós é, porque o ambiente onde se vive tem uma marcação que fica em permanência para além da herança biológica, e por isso, quando se fala de qualidade do ambiente e de preservação da memória estar-se-á a deixar herança para os que se seguirão e irão nascer, como uma rosa nasce de outra rosa, como uma andorinha nasce de outra e se perpetua a vida que a cidade tem, como se fora o mais complexo e rico dos ecossistemas, mesmo que se lhe chame eco-sistema-artificial porque é repositório de todos os saberes da cidade e do campo.

Não acho que seja assim tão artificial porque em tudo se manifesta em vida biológica, vida da ética e da estética da sucessão de gerações – espelho mesmo do país histórico milenar porque tudo está escrito e impresso e contém a força de um ser vivo e da sua força genética de hereditariedade como se a simbologia de algo estivesse, igualmente, impressa no próprio grafismo do símbolo, e a cidade é duplamente, grafia e símbolo.

Se muitas cidades morrerem e desapareceram não restando nem sequer ruínas, ou estando soterradas, a maioria delas ficou de pé e merecem da parte dos que "amam as cidades", a melhor das atitudes para as conservar e quase eternizar – e que – lembro agora – Roma-cidade-eterna.

São Cidades que foram construindo a milenar civilização do Homem e que foram berço das ideias que fizeram evoluir a humanidade e ganhando tanto mais importância e até desenvolvimento, quanto mais procuradas, dada também a eterna curiosidade humana em ir, mesmo inconscientemente, à procura das suas raízes como civilização. As cidades e as suas pedras a contarem a "história do tempo-e-do-modo do homem" tanto na dimensão de beleza como de vicissitude – e Lisboa, a cidade de todos nós e de lendas de Ulisses e de Lysias, bisneto de Noé de tantos séculos a.C.? E que teriam sido origem do seu topónimo?

A cidade que é velha e envelhece e com ela os seus habitantes somente porque todos envelhecemos com as cidades que habitamos, o que não significa degradação porque existir é já em si mesmo ir envelhecendo.

Quando se procura a classificação UNESCO de um monumento ou espaço urbano – ou mesmo Paisagem, de que Sintra foi o primeiro exemplo mundial –, procura-se perpetuar essa semente de civilidade, prolongando sem tempo o encantamento para ser mais uma página do livro-colectivo-de-memória-civilizacional, como uma família-de-pedras geneticamente detectáveis como pertença comum do homem (a que apetece chamar genoma-urbano), já que parece residir nelas uma certa dimensão de origem primordial e de eternidade, que existe no homem comum.

A linguagem do homem através da língua-mãe que fala – a linguagem do homem através das cidades que constrói.

Mas este escrito é sobre os velhos e vou acabar com um queixume.

Eu, de entre tantos outros que em seu tempo de vida activa colaboraram na construção da cidade e do seu bem-estar, e parecer, que com ela envelhecemos já ultrapassando a terceira idade e por isso já fazendo parte dos 17% dos velhos de Lisboa, situo-me entre os que insistem em estar aqui recusando deslocação para armazéns de velhos nas periferias incaracterísticas, feias e degradadas, recusando mesmo ser "velha", e ser apenas pessoa com a actividade correspondente ao meu percurso de vida e com os outros poder comunicar de várias formas, algumas das quais dependendo da "oferta da cidade ao colectivo dessa idade."

Mas vejo avenidas transformadas em verdadeiras auto-estradas urbanas onde se mata peões que atravessam no local a eles destinados com prioridade (zebras), vejo passeios de peões largos mas sobretudo estreitos onde não se cabe porque estão completamente ocupados com lixos e as pedras fora do local próprio, ou com carrinhas de cargas e descarga que se armazenam em cima de passeio de peão, ou fazem descarga em pleno tempo de sol, serviço que devia ser nocturno, mas não será porque custa o dobro para os comerciantes, pelo que tenho de andar na via do automóvel que acelera para eu correr, o que não posso fazer, nem quero, como se faltasse, também, ordenamento e regras mais rigorosas do USO do espaço público, qual desordem democrática e selvagem de que o último a sofrer é o peão, sobretudo o mais velho.

Aliás, à semelhança das IPs de que foi feito o levantamento dos "pontos negros" (locais de acidentes mortais) pelos técnicos do sistema rodoviário, foi igualmente feito o levantamento dos "pontos negros de Lisboa" (CM-21 Dezembro 2005 - levantamento de 2004 e de Janeiro a Abril 2005), dentro do Plano Lisboa capital da segurança rodoviária, que todos sabemos ser utopia por falta de rigor e interesse de quem governa a cidade dando prioridade ao automóvel.

Como habitualmente serão gastos milhões de euros para a vertente pedagógica, à semelhança do que se faz há mais de 10 anos para as estradas e sabe-se que o número de acidentes e de mortos nunca diminuiu com nenhuma das formas de pedagogia utilizadas. Quando se constroem túneis e auto-estradas dentro da cidade que permitem ultrapassar a velocidade estipulada para a cidade, não há dinheiro-pedagógico que chegue e também não será a semaforização que resolverá o que quer que seja, e será de preço de custo incalculável tanto na implantação como na manutenção e conservação.

Também a cidade que de repente se desmantelou é toda um estaleiro em que as vedações são ou verdadeiros atentados à higiene pública e poluição visual ou aumentando a dificuldade de circulação do peão, ou gigantescos painéis de publicidade que ficam anos a tapar os monumentos que nem são de facto restaurados – e parece um bom exemplo do que em paralelo se faz aos velhos: tapam-se e ficam esquecidos.

A cidade cujo desenho de estrutura e orientação urbana lhe era dada pelo sistema de arruamentos, alargou a malha do desenho da rua para passar a ter "unidades de cidade" delimitadas por auto-estradas e túneis transformando, com mais esta criação, uma cidade em país, o que torna mais previsível, a "morte na estrada" ao sair da porta da habitação. De Junho 2002 a Junho 2005 houve 3225 atropelamentos de peões em Lisboa, com 62 mortes e 493 com feridos graves – em 2005 houve 382 atropelamentos com 8 mortes. Lisboa já ganhou o direito de construir MURO de Memória dos mortos na cidade por atropelamento.

A cidade pertence a um país que está de facto a pretender estar na "cauda da Europa" do ponto de vista de situações negativas desde o ensino à economia, porque assim quer, é a capital mais poluída do continente, porque assim quer, rivalizando neste aspecto com Atenas e Tóquio e tem ainda peculiaridades de envelhecimento e empobrecimento que mais nenhuma outra terá; e não tem apesar disto, a procura e qualidade turística destas duas cidades porque o turista não vem visitar monumentos "escondidos" como a Torre de Belém nem os outros debaixo de tapumes de publicidade, nem anda a pé saltitando de buraco em buraco e em monte de pedras de calçada.

Há buracos em cada dois metros de distância em todos os passeios de qualquer rua de onde saltaram as pedras que, soltas, fazem escorregar os que não vêem bem ou vão distraídos e têm acidentes por vezes graves. Vejo o mais inaceitável "mobiliário urbano" representado pelos milhões de caixotes de lixo verde, negros de sujidade e odores de pestilência, para além de toneladas de todo o tipo de lixos do comércio espalhados não importa onde, incluindo as consideradas "zonas nobres" da cidade; e, para além das obras por todo o lado durante anos intermináveis, em cada ano, há cada vez mais edifícios ou quarteirões inteiros desmoronados até sem tapumes, como se toda a cidade "tivesse fechado para obras" há 20 anos.

Vejo prédios velhos a arder que são tão altos que as escadas dos bombeiros não alcançam o andar em fogo e, se o alcançam, a água das mangueiras não tem pressão para o apagar ou mesmo apagando destroem o velho edifício, ou vejo prédios tão degradados, incluindo monumentos, que caem ou são deixados às intempéries para que o "tempo" resolva o seu desaparecimento programado, e assim ficam, no chão como amontoado de resíduos, de outros lixos e ratazanas que sucedem à queda.

Vejo todo o tipo de sinalização vertical de várias tipologias em forma e dimensão e cor sem qualquer hierarquia e razoabilidade, vendo, por exemplo, a sinalização de um serviço, mas não a placa toponímica da rua em cada esquina e muito menos o número de polícia nos novos prédios que se erguem, vendo ainda candeeiros de iluminação pública tombados pondo em perigo a população, ou caixas PT caídas no chão, e se por acaso decidi avisar os respectivos serviços camarários, ao fim de 10 anos constato os mesmos candeeiros na mesma situação.

Vejo trechos de cidade como o meu próprio bairro de excelente desenho de estrutura e de volumetria permitindo boas vistas para o rio, de repente ser desmoronado nos edifícios centenários de 3/4 pisos para dar lugar a densa construção sem estética e de 7 pisos, retirando a perspectiva e fechando quarteirões em "ilhas climáticas" sem respiração e qualquer possibilidade de passarem brisas para arejar e limpar a densa poluição do ar.

Vejo as árvores sedentas de água no Verão, porque, como era costume, já não há quem as regue, porque no verão precisam de 2 regas de 25 litros cada, para também não morrerem mais depressa.
Tenho dificuldade em olhar os edifícios urbanos históricos com velhas portas de madeira e postigos de ferro (e até batentes), que fazem parte da história da evolução da arquitectura urbana nacional-regional, completamente descarnados, ferrugentos e decadentes à espera de cair para serem abatidos e dar lugar e mais uma torre, como se "todos os habitantes do país" estivessem a mudar-se para a "capital."

Tenho dificuldade em utilizar certos transportes públicos onde até os bancos reservados a idosos e grávidas estão ocupados "sem direito" e não podem ser reclamados, nem os condutores de tais transportes velam por essa situação.

Ninguém escapa à terceira-idade: nem a cidade, nem os responsáveis pela qualidade de vida do ambiente urbano.

Não é forçoso que envelhecer signifique ser "maltratado" – tanto a cidade como o peão – tanto os adolescentes como os velhos e pessoas com handicap - numa cidade que já foi esplendorosa de simplicidade e de luz, de higiene urbana e de alegria de nela habitar.
Não, a cidade não está envelhecida.

A cidade, como os velhos, foram esquecidos como se fossem DESCARTÁVEIS.

Cidade é outra coisa.

A CIDADE ESTÁ E É SIMPLESMENTE HOSTIL para todas as classes etárias e sociais e talvez por isso "nascem" condomínios mas os condomínios dos velhos são "armazéns" dos que já fizeram o que tinham a fazer em tempo útil.

A Cidade tornou-se um espaço de stress diário e colectivo e por isso os que podem deixam a cidade até no fim de semana.

Lisboa não envelhece – Lisboa é espaço de enlouquecimento para os habitantes e para os que, vindos de fora de Lisboa, correm a regressar à paz do local onde vivem logo que resolvam o que têm a resolver.

Lisboa que já não é nem cidade nem sequer Cidade-Estado "Helénico", porque acumula habitantes e todo o tipo de problemas de uma Nação inteira, chegou a uma situação de descontrole impossível de ser controlado, nem sequer ao nível de "policiamento" porque não é possível exigir um polícia em cada esquina e um polícia por habitante, embora algo tenha de ser feito com eficácia porque outras cidades da UE o conseguiram há muito e sem dificuldade, sendo ou não grandes metrópoles.

Lisboa tornou-se a partir do século XXI, tão depressa como isso, um espaço de demência urbana infecto-contagiosa. Os decisores das coisas da cidade esqueceram-se de governar a cidade e de que ela pertence aos peões, prioritariamente, e com especial atenção para as pessoas com handicap e os velhos.

Enquanto assim não for, a cidade não pertence ao mundo evoluído, não é cidade, sendo apenas um local onde se mora com todas as dificuldades, porque a cidade limpa e construída para todos é cidade amável, para todos.

Tenho saudades da minha cidade limpa e cheia de pequenos jardins de traseiras dos quarteirões com belas figueiras e nespereiras e outras árvores, e mesmo flores e hortas, lembrando a ruralidade dos seus habitantes, bem como dos pequenos jardins de quarteirão sem pavimento de betão nem betuminoso, cheios de grandes árvores e de flores diversificando ao longo das quatro estações do ano, cujos perfumes as brisas faziam circular pelo ar, como tenho saudades ainda de passear pelos jardins com pavimento de saibro e ouvir aquele som especial ao pisá-lo, sentir a sua maciez, o que ainda está impresso ma minha memória celular, para além do som da água das fontes e dos repuxos, mas não daquela anomalia do Martim Moniz ,que não se pode atravessar porque o pavimento está sempre molhado e limoso e não há ninguém que não escorregue e caia, exibição de novo-rico que não serve para nada e se a autarquia muitas vezes não faz mais jardins dado o preço da conservação, não sei quanto custará manter o Martim Moniz inútil, com jogos de água para ninguém poder parar para admirar, repousar e isolar-se do ruído urbano, porque o Martim Moniz não tem ninguém, é apenas um local de atravessamento e não de paragem.

E assim se retirou à cidade a possibilidade única de ter cinco praças contíguas – Restauradores, Rossio, Martim Moniz, Praça da Figueira, a desembocar na Praça do Comércio –, locais privilegiados de peão, de cultura e de comércio, de encontro e de paragem e de deleite do que ainda resta de cidade histórica, locais de grandes exposições na rua, de teatro de rua, de concertos na rua, porque de facto a rua é do peão, e tem de ser urgentemente devolvida ao peão e à cultura na rua – para todos, novos e velhos.

Tenho saudades de poder passear a qualquer hora do dia e da noite na cidade, mesmo nos jardins, que em vez de locais de prazer e de contacto com as flores e o divino e o silêncio, são agora locais de insegurança mesmo de dia, e que já deviam ter sido muitos deles murados e fechados, como o Jardim da Estrela, para não continuarem a ser vandalizados, em vez de desprezados e abandonados pela autarquia.

Tenho saudades do belo Largo do Rato que já sofreu quatro remodelações, e onde hoje, nas rampas de peões declivosas e de pavimento polido, se escorrega directamente para debaixo do autocarro.

Tenho saudades de Lisboa como cidade do meu viver e crescer e do meu encantamento – tenho saudades de Lisboa-Cidade e não deste caos e demência de poluição, ruído e medo.

Creio bem que o futuro da cidade é o presente de cada dia – como o meu. Creio bem que a minha alegria de amanhã terei de a construir hoje porque amanhã faz-se tarde. Creio bem que os velhos desta cidade são os que, em seu tempo de cidadãos activos, foram os que a fizeram limpa e esplendorosa.

E que estranha me parece a minha cidade que tem um habitante que coleccionou 700 presépios de mais de 50 países e a cidade não tem um espaço “desactivado” para lhes dar guarida como museu, porque tudo se desmorona para o betão sem qualquer qualidade, e a história e a cultura passaram também a ser “funções urbanas desactivadas.”

Lisboa já não é cidade de civilização e Cultura. É, de repente, um gigantesco armazém de problemas graves e de incomunicabilidade.

Acabo o meu "sentir" sobre os VELHOS com um belo poema de um dos maiores poetas brasileiros da minha adolescência, Carlos Drummond d'Andrade, e com um PS – nota interessante de um autarca do interior transmontano que decidiu OLHAR para os velhos e a velha arquitectura desactivada e encontrar formas dignas para o espaço e para os velhos.


OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espectáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação

In:http://www.fabiorocha.com.br/drummond.htm

Acabei

Maria Celeste d'Oliveira Ramos
25 de Dezembro de 2005
Lisboa – Bairro do Alto de Santo Amaro

PS 1 – No noticiário da TV1, 20 horas, de 27 Agosto 2006, o presidente da Junta de Freguesia da aldeia de Samaiões, afirmou que as 26 velhas escolas de edifícios antigos que foram este ano encerradas por haver poucos alunos, serão adaptadas a novos usos para conservação do património histórico e edificado e para instalação de actividades para uso dos velhos para centros de dia, biblioteca, museu, escola-oficina, às quais se acrescentarão actividades de música e de informática, sendo que a ideia foi de tal forma aceite pela população que vêem assim local de encontro e de promoção de actividades culturais e de encontro sendo que, igualmente, já receberam várias ofertas de outra natureza de várias pessoas para dar vida e mais-valia à decisão da autarquia – reafirmada pelo presidente da CM de Vila Real de Trás-os Montes.
Está de parabéns, a meu ver, toda a actividade em favor da comunidade que salvaguarde património edificado e cultural e vivificação da vida dos habitantes mais velhos, que podem trocar todos os seus saberes para que não se percam, património e memória ancestral acumulada e que morre quando morrem os velhos e que, assim, poderão permanecer através da visita e ensino de todas as camadas etárias e socioculturais e mesmo do desenvolvimento de actividades com carácter turístico.
Restaurar a memória e história dos habitantes é restaurar o país ancestral e perpetuar memória e herança e vida.
Maria Celeste Ramos – 27 Agosto 2006

PS 2: A 31 de Agosto de 2006 um ARMAZÉM DE 29 VELHOS na BURACA ardeu, porque não só é na Buraca como é em casa particular por cima de armazém de bilhas de gás e de bilhas de oxigénio e de todo o tipo de consumíveis inflamáreis – garrafas de aguardentes e duas motos cheias de gasolina.
E só o bombeiro é que se mostrou, no noticiário, a perguntar como era possível haver um “lar de 3ª idade” em cima daquela pólvora – alguns dos velhos, com mais de 80 anos, foram parar ao hospital intoxicados com fumos e se não fossem os vizinhos a dar alarme (e famílias que estava na hora de visita) tinham morrido no incêndio, e ficaram em pânico, naturalmente, e note-se que alguns usam cadeiras de rodas.
Como é que isto é possível? Um lar de idosos situado em edifício tendo no r/c um armazém de bilhas de gás – etc.
Maria Celeste Ramos – 1 de Setembro de 2006.

Artigo:
Escrito a 25 de Dezembro de 2005.
Revisto e complementado pela autora a 27 de Agosto e 1 de Setembro de 2006.
Revisto para edição a 20 de Setembro de 2006.
Nota introdutória e ilustração (vistas de Roma) por António Baptista Coelho a 21 de Setembro de 2006.

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