domingo, setembro 11, 2005

Casas envolventes e vivas (I) - Infohabitar 39

 - Infohabitar 39

Casas envolventes e vivas (I)

Texto de António baptista Coelho

Ainda na sequência do triste evento da morte de Fernando Távora e da transmissão televisiva de um belo programa sobre o arquitecto, em que ele próprio falava de tudo aquilo de que iria ter falta, ou saudade ou pena de deixar: entre tudo isso a sua casa ocupava claramente um lugar muito importante.
A memória falha-me sobre a longa frase que Fernando Távora usou, quando, sentado numa sala da sua casa falava para a câmara de televisão e passava com os olhos em volta e dizia, julgo - mas posso estar enganado em vários pormenores -, que iria ter uma grande pena de deixar aquela casa, a família, os livros, os amigos, as paisagens, afinal a vida e que tudo o que nos rodeava era extraordinário e valia muito muito a pena..
Não é, como referi, uma citação. É apenas uma aproximação à ideia que foi então expressa por Távora. E associado a esta ideia o arquitecto dizia que tinha refeito longa e pormenorizadamente a sua casa ao longo dos anos, mantendo-lhe o carácter e a força mas afeiçoando-a, provavelmente, em diversas facetas do habitar e da ligação entre o habitante e a sua envolvente doméstica.
Foi algo digno de ser notado o lugar privilegiado em que Távora colocou o seu mundo doméstico entre aquilo que vale bem a pena viver.
A ideia que assim fica em evidência é a verdadeira fulcral importância que tem a casa de cada um e de cada agregado na vida dos homens. É um lugar comum esta importância? Não, claramente, não, porque se sobre os aspectos quantitativos da qualidade da doméstica, como é, por exemplo, o caso da disponibilidade equilibrada e judiciosa de espaço, ainda muito há a ponderar; que dizer dos múltiplos aspectos caracterizadamente qualitativos do ambiente doméstico?
A casa de cada um pode e deve ser um factor fundamental da qualidade de vida, por aquilo que a casa directamente oferece e por aquilo que a casa directa ou indirectamente propicia e estimula, como é o caso, só para referir alguns poucos exemplos, do convívio familiar dinamizado e alargado, e da positiva predisposição para fruir a cidade e o espaço público com uma disposição positiva e cívica.
Como é que em tudo isto, por exemplo no carácter interior e exterior da casa e da vizinhança e inclusivamente nos aspectos menos objectivos de factores objectivos como a espaciosidade, influi um bom desenho de arquitectura, um bom “partido”, uma solução eficaz e estimulante e uma ideia culturalmente bem radicada; são todos aspectos da famosa aliança entre a arte e a técnica que faz a boa arquitectura e sobre os quais é fundamental ponderar e cuidadosa e sequencialmente concluir.
Uma coisa é certa, boas casas são fundamentais para boas vidas humanas, quem sabe até para boas passagens desta para outras realidades; pois afinal cada dia positivamente vivido num mundo doméstico humanizado e envolvente é algo que provavelmente não tem preço.
Este texto é o primeiro de uma sequência de ideias escritas sobre o tema das “casas envolventes e vivas” (a sair sem uma ordem definida), que serão sempre associadas a uma poesia que tenha casas dessas. A primeira tem o título “A menina e a Casa” e é de Gilberto Freyre, da obra “De Pai para Filha”, de 1943.
A Menina e a Casa
Minha Sonia
Minha Sonia
Minha Soninha Maria
Nesta casa
Neste mato
Quero ver Sonia crescer.
A casa é cheia de livro
O mato é cheio de bicho
Os livros contam histórias
Os bichos contam também
Mesmo as mesas, mesmo as plantas
Os retratos dos vovós
As panelas da cozinha
Mangueiras e coisas velhas
Têm boca falam também
Dizem segredos bonitos
Que os meninos
Que os poetas
Ouvem ninguém sabe como.
Quero ver Sonia Maria
Conversando com as galinhas
Com o gato
Com os passarinhos
Com a cadeira de balanço
Com o rio que passa perto
Preguiçoso dando voltas
Sem pressa de ir pro mar
Com as estrelas com as palmeiras
Com as cigarras dos bambus
Com os pingos d’água de chuva
E mesmo com os cururus
Com os livros cheios de histórias
Com os almanaques
Com os quadros
E com a melhor das mamães.

A poesia acima incluída foi retirada de um excelente site brasileiro sobre Gilberto Freyre, que se aponta em seguida: Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - prossiga.bvgf.fgf.org.br/portugues/mapa.html
António Baptista Coelho, Encarnação, 11 de Setembro de 2005

1 comentário :

MJE disse...

sentidos lugares ou o sentido do lugar - ei-los aqui