quinta-feira, setembro 15, 2005

Da arquitectura dos sítios e das paisagens – e a propósito um grande texto de Aquilino Ribeiro - Infohabitar 40

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Da arquitectura dos sítios e das paisagens – sobre a integração e a propósito um grande texto de Aquilino Ribeiro

Artigo de António Baptista Coelho

A integração é, provavelmente, a qualidade chave, e a qualidade última que poderá ainda ajudar a salvaguardar e a regenerar partes das nossas paisagens construídas e naturais, que tanto têm sofrido ao longo de dezenas de anos de contínua e criminosa agressão ao nosso património cultural.
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Por isso aqui se volta ao tema da integração, considerado como motivo fundamental daquela que pode e deve ser uma arquitectura dos sítios e das paisagens.
Numa altura em que se começa, finalmente, a discutir até onde, de que modos e com que meios de enquadramento se poderá ir no controlo do desenho da arquitectura – tema sempre importante, mas que adquire relevo especial quando ainda há tantos não-arquitectos a projectar arquitectura e há já também mais de 10. 000 arquitectos preparados para projectar –, é crucial focar a nossa atenção na valia real que tem uma cuidada e completa integração, nos seus múltiplos aspectos, mais funcionais, mais visuais/ambientais e mais caracterizadores, mas sempre obrigados a uma opção de respeito básico e culturalmente enriquecedor por cada sítio e por cada paisagem.
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A integração serve a integridade, que é o estado de uma coisa ou de um contexto completo, uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação. Por outro lado a integração significa o acto de completar e tornar inteiro ou completo por assimilação e agregação; afinal, o acto de reunir.
Ser íntegro é estar total e adequadamente composto, integrado por todos os necessários e habituais elementos e relações que constituem a respectiva totalidade, o contexto completo.
Estar integrado é fazer parte da totalidade que é reunião de um grupo de elementos cada qual, por si só, significante, mas que também retira significado e função do seu papel na constituição e no funcionamento do todo.
Estar integrado, para além de querer dizer harmonização no conjunto de que se faz parte, também significa cooperação activa no estabelecimento e no posterior desenvolvimento de um dado contexto. Afinal, a adequada reunião num todo composto e completo tem de ser mais do que a simples adição das suas partes constituintes – na imagem seguinte a casa Pacheco de Melo, na Ilha de S. Miguel, em S. Vicente Ferreira, perto da Canada dos Barões, desenhada pelo Arq. Pedro Maurício Borges e que foi Prémio Secil Arquitectura 2002.
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Faz-se, em seguida, com o devido respeito, a transcrição de um encadeado de trechos da belíssima crónica romanceada de Aquilino Ribeiro, "A Casa Grande de Romarigães" (1959, pp. 20, 21, 25, 27 e 36), livro que muito se recomenda e onde se encontra, ao longo de várias frases/imagens, uma perfeita definição da integração residencial no contexto natural, e das partes no "todo" que deve constituir cada casa, aqui considerada, naturalmente, um pouco como símbolo do sítio de habitar, o sítio habitado, portanto, marcado pelo homem, mas também, como se poderá em seguida visualizar, em grande e simples integração com a natureza, e, portanto, também por ela bem marcado:
"Ao subir pela vereda que passava a meio monte um bando de perdizes tocou os alegres tintinábulos... e novamente se viu sozinho sob a copa esplêndida do céu ... Voltou-se para o grande baldio, vestido com a serguilha ruça do matiço, pespontado de sobros, carvalhos cerquinhos e pinheiros, uma frondosa mata a sudoeste, tudo a crescer à rédea solta da natureza, irreprimìvelmente... A água reluzia aqui e além nos algares das chãs e nos estirões rectos das regueiras, perdida e tão mal empregada que era abusar da bondade de Deus não a encaminhar para onde criasse flores e frutos. E o sol, um sol rijo e pesadão...espojava-se sobre a terra à maneira duma galinha choca sobre os ovos da postura.
- Que rica quinta aqui se fazia! – tornou a dizer para consigo, filho revesso de campónios, a quem a patena e o cálice não haviam obliterado o sentido da terra.
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Práticos em castrametação agrícola riscaram a linha circundante, bem como estabeleceram a melhor área para o solar, quartéis de servos e estábulos...
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...Em menos de um ano pôde murar uma vasta área, captar águas perdidas e plantar bacelos com que se propôs espaldar de cordões e parreiras os socalcos e cômoros da propriedade. E não se esqueceu de um colmeal nos abrigos soalheiros da mata, que àquela altura do mundo era letra viva o ditado: «quem tem abelha, ovelha e moinho no rio, entrará com el-rei ao desafio.»
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A casa de torre, como incumbia a um homem de prol, ostentava já telhados de várias águas e, nos salões e quartos, os mestres de Azurara e de Barcelos deitavam tectos de apainelados e de masseira em castanho e bom carvalho. Já todas as janelas, em que perpassava um arzinho remoto de Renascimento, tinham portadas. À margem do caminho que ligava Sampaio com Romarigães deixara lugar para a capela que prometera a Nossa Senhora do Amaparo...Não tardou que o licenciado ali tivesse câmara própria para dormir...
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Em menos de cinco anos estava acabada a Casa Grande, prédio de torre, com largos salões e muitos cómodos, no flanco a capela de N.ª S.ª do Amparo, e uma cozinha de lajedo e chaminé de barretina... A fonte, perto do corgo, gorgolejava por uma bocarra ... abundante e fresca água. E o bastio de pinheiros e carvalhiços cobria já o cerro em frente, unido à velha mata e populosa cidade dos pássaros. À tarde a brisa, que subia desde a costa pelo estuário do Coura, arrepiava-lhe brandamente as corutas e uma onda balsâmica e elísia varria a Casa Grande."

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