Ainda sobre O ESPÍRITO DO LUGAR - na sequência dos "dois artigos gémeos" - um texto de Maria João Eloy
Da leitura dos dois artigos relevo,
Porque, num nível de planeamento urbano que não seja exclusivamente negociável, dir-se-ia que a figura da ‘democrática consulta ao cidadão’ levado até ao nível de Plano de Pormenor (1), proporcionaria o denominador comum para se obter um critério fiável que ajudasse o autarca, os serviços técnicos e os projectistas a decidir … mas onde encontrar exemplos paradigmáticos desse tipo de actuação, que possam ajudar a ajuizar da sua ‘bondade’?
Sem um 1º exemplo (eficaz), onde buscar uma tradição de comportamento democrático nesta área da vida urbana – a da participação do cidadão no ‘projecto da cidade’?
(1) Quando se recorre à figura da ‘consulta ao cidadão’, é oportuno integrá-la no conceito de desenvolvimento sustentável, cujo objectivo, entre outros, ‘deve ser conseguido através da comunidade local e com o respectivo compromisso, sendo que as opções individuais em prol do desenvolvimento sustentável, devem ser resolvidas a nível local (1º Relatório da Comissão Europeia / Grupo de Peritos sobre o Ambiente Urbano, 1994).
Todavia e como alerta Nuno Portas (‘Os Planos Directores como instrumentos de regulação’ in Sociedade e Território nº 22, 1995, p 27), é de recusar a ideia simplista de que as questões qualitativas do ambiente e da forma simbólica, que é suposto imprimirem carácter e prazer a uma cidade ou a um território, não têm a ver com o nível de ordenamento e só poderão emergir nos planos de pormenor ou projectos de arquitectura.
Segundo o autor, a forma simbólica do ambiente resulta, excepcionalmente, de um só acto de desígnio e desenho, mas é, antes e fundamentalmente, a interpretação do existente a que se acrescenta ou substitui algo, razão que o leva a admitir:
“todas e qualquer das figuras de plano podem e devem contribuir para este jogo de unidade e diversidade, do geral e do particular, do que oferece continuidade e homogeneidade e do que aceita a descontinuidade e os particularismos, do que é imposto e do que é sugerido - e do que se ganha por não se ter imposto e se ter sabido esperar pela oportunidade não previsível ou não prevista”
- no primeiro, o que se refere sobre a ‘perda do sentido do lugar’ e sobre a consideração de que ‘limites, centros, organização e ícones, são matéria do espírito do lugar’; mas dou atenção, principalmente, ao que o autor acentua quando diz poder haver uma ‘(re)descoberta do espírito de cada lugar’, acrescentando que, nessa situação, ’os seus habitantes muito ganharão em sentido de pertença e de responsabilidade’;
- no segundo, o que se aconselha a quem ‘é responsável por qualquer projecto que implique ocupação do solo de forma a alterar-lhe o uso irreversivelmente’ de modo a ‘se rodear de uma equipa interdisciplinar para que a sua "ideia" se integre no LUGAR sem mais danos e possa mesmo ser "reparadora" do local’, evidenciando a contingência actual do planeta reagir ‘de forma tão brutal à acumulação do erro humano’.
- trata-se, como é facilmente perceptível, dos casos emblemáticos do Túnel do Marquês e da revitalização do Parque Mayer em Lisboa e das intervenções em espaços exteriores no Porto, como as executadas no âmbito do Porto 2001 que culminam na tão debatida renovação da Av dos Aliados;
Porque, num nível de planeamento urbano que não seja exclusivamente negociável, dir-se-ia que a figura da ‘democrática consulta ao cidadão’ levado até ao nível de Plano de Pormenor (1), proporcionaria o denominador comum para se obter um critério fiável que ajudasse o autarca, os serviços técnicos e os projectistas a decidir … mas onde encontrar exemplos paradigmáticos desse tipo de actuação, que possam ajudar a ajuizar da sua ‘bondade’?
Sem um 1º exemplo (eficaz), onde buscar uma tradição de comportamento democrático nesta área da vida urbana – a da participação do cidadão no ‘projecto da cidade’?
(1) Quando se recorre à figura da ‘consulta ao cidadão’, é oportuno integrá-la no conceito de desenvolvimento sustentável, cujo objectivo, entre outros, ‘deve ser conseguido através da comunidade local e com o respectivo compromisso, sendo que as opções individuais em prol do desenvolvimento sustentável, devem ser resolvidas a nível local (1º Relatório da Comissão Europeia / Grupo de Peritos sobre o Ambiente Urbano, 1994).
Todavia e como alerta Nuno Portas (‘Os Planos Directores como instrumentos de regulação’ in Sociedade e Território nº 22, 1995, p 27), é de recusar a ideia simplista de que as questões qualitativas do ambiente e da forma simbólica, que é suposto imprimirem carácter e prazer a uma cidade ou a um território, não têm a ver com o nível de ordenamento e só poderão emergir nos planos de pormenor ou projectos de arquitectura.
Segundo o autor, a forma simbólica do ambiente resulta, excepcionalmente, de um só acto de desígnio e desenho, mas é, antes e fundamentalmente, a interpretação do existente a que se acrescenta ou substitui algo, razão que o leva a admitir:
“todas e qualquer das figuras de plano podem e devem contribuir para este jogo de unidade e diversidade, do geral e do particular, do que oferece continuidade e homogeneidade e do que aceita a descontinuidade e os particularismos, do que é imposto e do que é sugerido - e do que se ganha por não se ter imposto e se ter sabido esperar pela oportunidade não previsível ou não prevista”
Etiquetas: ESPÍRITO DO LUGAR, integração urbana, maria joão eloy, planeamento, planos, urbanismo
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5 Comments:
Nota prévia: pelo facto de, por vezes, pensar, não sou pensador e, muito menos, bom pensador. Intervenho aqui como cidadão virtualmente consultado.
Adormeci com algum desconforto em torno das palavras “espírito do lugar” que, no sonho que se seguiu, caíram ao chão, partiram-se e somente consegui recompor uma expressão parecida com “pirito do lugar”. Acordei sob o olhar de desprezo dos bons pensadores e decidi assumir uma interpretação do sonho: espirito do lugar é coisa que não existe e o tal “pirito” não deverá também existir.
Haverá certamente, em cada momento, espíritos nos lugares, resultantes de memórias, de sensações e de toda a espécie de outros estímulos dos que, por qualquer razão, se relacionam com eles. É aquela trepadeira tão linda que a D.Maria não quer destruir, é a casita onde o Paulo abriu o talho, o banco do jardim sempre com porcaria dos pombos, a praceta boa para um parque subterrâneo, a calçada cheia de buracos, que, por tão antigos, até se tornaram queridos.
A opinião do cidadão rara e dificilmente sairá do âmbito do seu umbigo. O projectista não irá além das suas capacidades técnicas e do arrojo da sua criatividade. O decisor pondera interesses, nem sempre confessáveis, e decide.
Se o conjunto fôr medíocre o resultado nunca poderá ser brilhante. No entanto respeitar-se-ão as regra do jogo: o consultado pode opinar, o projectista projecta e o decisor decide. Quem julga a qualidade da opinião, do projecto e da decisão? Aí somos todos juizes mas, em regra, é o decurso do tempo que assegura a melhor avaliação.
Trata-se da eterna diversidade das opiniões e dos interesses, tudo a propósito do enigmático espírito do lugar que, na escala mais comum entre nós, que eu decerto modo assumo, condenando, não passa, por enquanto, de um pirito.Venham grandes ideias e realizações que o pirito anseia completar-se em espirito.
As quetões do Parque Mayer e do Túnel do Marquês são importantes e deveriam merecer uma discussão técnica, séria, isenta, que ainda não descobri.
Mas há outras questões,comesinhas, que a cidade ainda não conseguiu resolver. Por exemplo:uma boa pavimemtação das ruas, nomeadamente com correcto nivelamento das tampas das caixas de esgotos,o parqueamento em segunda fila e por cima dos passeios.E o endividamento municipal que parece não preocupar ninguém? E o valor dos impostos municipais, as adjudicações, os truques com o PDM?
LS e A.Sousa
Agradeço os vossos comentários que denotam visões atentas do acto de ‘habitar’ o espaço urbano – a que LS chama a ‘escala mais comum entre nós’
e para as quais A.Sousa convoca uma autoridade gestora e reguladora qualificada, que parece inexistente;
LS assume, provavelmente sem preocupações de projectar esse espaço, uma atitude empenhada na sua qualidade, suscitando renovadas interpretações do chamado ‘espírito do lugar’.
Parece-me que, como eu, considera que o facto de habitarmos esse espaço em permanente devir, não nos permite apropriações do sentido de ‘rigor’ e ‘correcção’ que, cabendo (eventualmente) a equipas trans/inter/multidisciplinares de projectistas, exige deles uma explicitação rigorosa e sugestiva das suas intenções e propostas formais, devidamente cabimentadas no orçamento municipal, de modo a poderem ser avaliadas, não apenas pelos autarcas, mas pelos cidadãos, através de uma consulta pública eficaz;
A.Sousa refere a necessidade de discussão técnica para questões maiores e para questões, aparentemente menores que permitem qualificar o espaço urbano, referindo, a este propósito, casos gritantes como o dos ‘truques com o PDM e com algumas adjudicações’.
Para contribuir com uma achega em prol de maior participação do cidadão na vida da autarquia, apenas me ocorre realçar as enormes capacidades da comunicação virtual que permitiriam ao vulgar cidadão ser consultado e fazer ouvir a sua opinião, de forma simples e amigável.
Na actualidade, caminha-se do contacto real necessário à participação dos cidadãos, para um contacto online, no qual as pessoas colaboram instantânea e empenhadamente, desde que a interpelação seja ‘rigorosa’ e ‘correcta’, sem reticências, mal entendidos, meias palavras e dissimulações.
Perguntar-se-á, para quando uma autarquia associada a projectistas que saibam interpelar sugestiva e amigavelmente os seus cidadãos?
MJEloy
Como a alma das gentes, não admitirá o espírito do lugar transplantes e/ou alterações transgénicas sob pena de, no limite, deixar de existir, ou não ser legível nem sequer o seu espírito, porque o próprio lugar des-construir-se-á.
Quanto à participação do cidadão que deveria ser norma adquirida, acontece quanta vezes peticionar contra si próprio por conhecimento imperfeito do resultado final individual e colectivo.
Cabe assim ir mais acima e reclamar dos "truques" do PDM que se acumulam tão gravemente tal que os resultados nas paisagens falam por si mesmo que desmoronam como resposta óbvia e objectiva.
Ao direito de cidadania há que contrapor o dever de cidadania exercido por equipe interdisciplinar com esclarecimento técnico e de ética-ecológica e tal que, como afirmou Almada Negreiros, se "VEJa o que se Olha", o que não parece ter acontecido nas duas últimas décadas em nome de desenvolvimento do qual só se vê não apenas a paisagem "queimada e demolida" mas igualmente, mais recentemente, invadida por doenças da natureza que reagiu desmantelando-se também, doenças transmitidas aos factores da natureza e aos humanos e cujas consequências só agora se vislumbram e não será certamente, agora, eficaz a participação do cidadão, nem sequer será também, o seu dever
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