terça-feira, março 21, 2006

Notas ribeirinhas de Lisboa - um artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 75

 - Infohabitar 75

Notas ribeirinhas de Lisboa

um artigo de António Baptista Coelho

Queremos descobrir e ir ao encontro dos desejos e gostos das pessoas e ser coerentes com a nossa cultura e com o carácter do lugar? E a memória? Quais as imagens que recordamos do velho Tejo? Carcaças de hidroaviões? Esculturas de sucata? Vontades de abalar em navios? Viagens mais ou menos sonhadas entre margens e Continentes?
São as memórias dos Portos de muitas gerações, recheando de sentidos as margens, densificando-as e diversificando-as. E sobrevivem, ainda hoje, tantas memórias de ricos e estimulantes cenários, que poderão ser recriadas. Não é crime fazê-lo, recriando as histórias, dos cais das caravelas aos guindastes gigantes, das varandas sobre a praia medieval ao tijolo burro dos grandes armazéns.
E por "detrás" da margem, quanto aos velhos edifícios que parecem esconder-se envergonhados, o que se poderá fazer? Escondê-los, ainda mais, com novos edifícios ou com árvores, com o tráfego da noite ou com a cidade fantasma das alamedas, quase sempre vazias e inanimadas, feitas para se verem "de carro" ou, por cima, à boleia dos pássaros?

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Uma grande cidade faz-se de cidades, de troços, de mutação, de coerências e diálogos locais, desde a cor à função, de formas e jogos formais, de poesia e harmonia racional. O que aqui se joga é a oportunidade única de refazer boa parte de uma Lisboa transoceânica e uma tal oportunidade é com certeza irredutível a opções "cinzentas", predominantemente unifuncionais e repetitivas.
E neste sentido vale a pena atender a um conjunto de conclusões/opções retiradas de um concurso de ideias para a margem ribeirinha, realizado já há alguns anos, e que defendem, globalmente, uma densidade equilibrada entre espaço livre e espaço construído e diversas soluções de pormenor, mas notando-se três importantes consensos:
- a opção por um litoral denso do ponto de vista da vida (densidade de uso) e de símbolos;
- a recusa de frentes homogéneas ou barreiras construídas contínuas paralelas à margem e/ou de grande altura;
- e a recusa de zonas livres unifuncionais contínuas.

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E quando perguntamos ao lisboeta o que ele gostaria de ter na sua Cidade ouvimos, por exemplo:
- qualidade do espaço urbano e arquitectónico;
- boas acessibilidades;
-valorização das características de Lisboa;
-zonas verdes e espaços para o cidadão;
-e preocupação com o crescimento da cidade, a sua terciarização e a expulsão dos seus moradores de sempre.
Levando tudo isto em conta, o que se deverá fazer será, talvez, muito variado, cuidadoso, coerente com tantos sítios que fazem esta nossa margem de Lisboa, num acréscimo qualitativo ao que já lá está e deverá permanecer, mas também, porque não aqui e ali arrojado, dinâmico, atraente para todos, estimulante pelo sossego ou pela animação, pontualmente recriador da nossa história e expressivo da nossa cultura.

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Há espaço para muito, há que ter cuidado com os principais problemas, não se pode perder tempo, mas tem que se fazer com acerto e confiança, e a Cidade pode ganhar espaços de cidadania variados, renovando-se ao voltar a abraçar as curvas do rio.
Deixemo-nos de tabus e vamos fazer um pouco de cidade, com ruas, praças, alamedas e jardins, não mais uma muda urbanização de escritórios, não mais uma nova faixa para os tristes passeios de tarde de Domingo, nem mais uma "zona verde" mais ou menos de enquadramento a novos e majestáticos edifícios e quase sempre insegura, porque verdadeiramente não habitada.
As pessoas, os citadinos e os outros, aqueles que também vivem a cidade de vez em quando, mas intensamente, querem muitas e variadas coisas, cada vez mais e mais diversas e só na extensão de uma cidade completa e complexa elas as encontrarão, não apenas, com certeza, em faixas enfeitadas com restaurantes e relvados.
Trata-se de uma oportunidade única, e com o seu tempo próprio, mas que tem de pertencer a várias gerações, há que ser rápido, sendo lento/cuidadoso, há que pensar e há que fazer já, há que jogar na oportunidade histórica e respeitar/recriar as memórias de muitas cidades e de muitos cidadãos, só assim a cidade poderá vibrar num tema colectivo com a sua margem.

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Entre inspirações nas fontes históricas, o respeito pelos ambiente e pelas paisagens, a (re)vitalização do tecido urbano, a coerência de acessibilidades e a integração de e com outras intervenções estruturantes é que serão estabelecidas as bases de uma proposta ribeirinha e lisboeta bem radicada e viável.

Respeitar e recriar a História

A História é nossa será que não podemos beber nela e, por exemplo:
-repotenciar a ligação dos Bairros históricos (e dos novos) à cidade ao longo da margem;
-recriar novos/velhos Rossios comerciais e subtilmente fluviais;
-traçar Terreiros marcados por alas, grandes pátios urbanos e uma grande via paralela a rio donde partam transversais;
-recuperar algumas memórias da Praia de Alfama e dos núcleos ribeirinhos ligados a actividades fluviais e marítimas;
-pontuar a margem com sóbrias sequências edificadas vitalizadas por habitações;
-inventar umas novas "varandas sobre a praia", casas de 2/3 pisos muito fenestradas e em bandas terreamente permeáveis para ir ao rio/"à praia";
-pontuar visivelmente com novos pequenos portos habitados;
-recriar pontualmente alguns perfis ribeirinhos e Lisboetas de antes do Terramoto, cidade/edifício/jardim/(cais)rio;
-voltar a albergar o uso festivo e lúdico das festas populares, e, até, porque não das velhas esperas de touros em espaços que acolham, como outrora, as efémeras arquitecturas de ocasião;
-e, finalmente, recuperar, passados tantos anos, a oportunidade então perdida de fazer a "margem que falece à cidade de Lisboa".

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Relação com o ambiente e a paisagem

Assegurar o conforto ambiental ao nível do tecido urbano existente (insolação e drenagem atmosférica), bem como respeitadas, designadamente, as actuais vistas de enfiamento.
Há técnicos e técnicas que o permitem fazer e tais cuidados parecem poder ser facilitados, porque a margem é um todo heterogéneo e diversificado zona a zona.

(Re)vitalizar o meio humano e urbano

Contribuir para a revitalização da cidade e para a renovação do seu sangue populacional, mas o mais possível completo, nas misturas das múltiplas actividades e dos diversos tecidos sociais. Já existem dezenas de restaurantes, bares, esplanadas e discotecas, e há perspectivas para ateliers e escritórios, mas, e a habitação!? A fundamental habitação, e diversificada.
E quando se trata de revitalização temos de ter um enorme cuidado com a questão estratégica de não ser possível, nem fazer sentido, vitalizar “todo o espaço”, a cidade tem muitos sítios calmos, onde a vida se faz sem festa, mas dignamente e em segurança e conforto; e pensar assim e actuar em conformidade é também ajudar a uma cidade habitada e positivamente regenerada.

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Prever e harmonizar uma boa rede de acessibilidades funcionais

Acessibilidades primárias rodo e ferroviárias perfeitamente conjugadas com os tráfegos locais e de atravessamento, com o apoio geral a um uso pedonal estrategicamente apoiado por estacionamentos, e com os eixos de transportes fluviais e as novas circulações perimetrais de Lisboa.
E ter em conta a grande extensão de todo o equipamento "verde" existente e em projecto, privilegiando as deslocações pedonais e ciclistas bem apoiadas em transportes públicos amigos do utente e do ambiente.

O Porto que vai continuar

Não esquecer que a área funcional do Porto continua e até se dinamiza, concentradamente, acolhendo uma maior movimentação de contentores, é preciso que este espaço não seja dissonante, é necessário que ele funcione bem e com o mínimo de más influências na envolvente.

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Há que desenhar elementos urbanos ribeirinhos como uma verdadeira arquitectura, baseada no profundo conhecimento de Lisboa e visando uma nova margem da cidade multifuncional, intensa e variadamente habitada, no dia-a-dia, integrando-se totalmente numa zona histórica e de grande beleza natural a preservar, estabelecendo uma continuidade urbana natural com os Bairros vizinhos e valorizando e animando Lisboa com espaços privilegiados para a cultura e o lazer.
Uma tal mistura nega um desenho urbano frio e desumano, e configura um tecido citadino que quer ser complexo, vivo, múltiplo, expressivo, e caloroso, afinal uma parte de cidade, como deve ser uma parte de cidade, não uma parte dessa parte: um jardim para ser visto, uma zona de escritórios, um bairro residencial para privilegiados, uma faixa “ajardinada” de recreio, comércio e restaurantes, etc., etc.

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Uma parte de cidade é de tudo isto um pouco e mais ainda, porque é habitação para diversos grupos sociais, é festa e feira em certas alturas da semana e em certos sítios, é o encontro do "passeio perdido" e é mistura viva de tráfegos e espaço urbano vivo e seguro porque vivo e é, também, a harmonia possível entre o que se faz agora e o que se fará no futuro, assim como deve ser harmonia entre o que se faz agora e o que antes estava feito e precisava de intervenções e regeneração, porque a cidade é um organismo com uma vida longa, muito longa, pelo menos assim todos desejamos que o seja, e porque é nas margens, sempre foi nas margens da água e dos bosques, que muito da cidade se passou, pois são sítios de todos os percursos físicos e imaginários, e sítios de todos os inícios e remates de viagens das mais pequenas e de vizinhança, às maiores e até sem fim, pois para lá do horizonte.

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Lisboa, Encarnação/Olivais.Norte, 21 de Março de 2006
António.Baptista.Coelho

2 comentários :

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