Mostrar mensagens com a etiqueta inovação na habitação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta inovação na habitação. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, outubro 02, 2017

612 - Organizar os espaços habitacionais - Infohabitar 612

Infohabitar, Ano XIII, n.º 612

“Organizar os espaços habitacionais” – sete artigos sobre o tema mais um novo texto

por António Baptista Coelho

Tal como foi anteriormente divulgado, a Infohabitar retomou as suas edições regulares, através da edição de um novo artigo em cada semana, preferencialmente, logo à segunda-feira, aproveitando-se para, mais uma vez, enviar um amigável desafio aos leitores no sentido de poderem enviar para o editor (mail referido no final do artigo) propostas de artigos para edição.

Considerando que, durante já um número muito significativo de semanas a Infohabitar tem editado artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma “revisão da matéria dada”, antes de prosseguirmos na edição desta série.

Neste sentido e neste artigo apresentam-se, em seguida, os títulos interativos dos artigos da série “Habitar e Viver Melhor”, que abordam temáticas relativas a uma adequada e diversificada organização dos espaços habitacionais, aproveitando-se para acrescentar, no final do artigo, uma nova nota de reflexão sobres estas apaixonantes e tão atuais matérias; e salienta-se que todos os quatro artigos aqui editados, desde início de Setembro de 2017, integram, logo a seguir à listagem interactiva dos artigos, novos textos de reflexão sobre a envolvente habitacional, as novas tipologias residenciais e a estrututação dos respectivos edifícios.

Em próximos artigos iremos disponibilizar reflexões sobre a estruturação e os conteúdos possíveis ds diversos espaços habitacionais mais comuns, ou mais privados e personalizados.

Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.

Lembra-se, ainda, que por motivos alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já apontámos, na Infohabitar, a maior parte dos artigos desta série editorial não conta, neste momento, com as respetivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caraterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens.
Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sediado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.

São os seguintes os sete (7) artigos disponibilizados sobre o tema da organização dos espaços habitacionais":


Zonas domésticas:propostas organizativas

Diversas opções para os espaços da habitação

Equilíbrios dimensionais e de privacidade na habitação

Opções de compartimentação na habitação

“Libertar” a habitação das instalações

Oferta diversificada de espaços domésticos específicos I 

Oferta diversificada de espaços domésticos específicos II 

Sobre as temáticas associadas e associáveis à matéria geral de uma adequada e diversificada  “organização dos espaços habitacionais” muito há a dizer e sublinha-se que o que a seguir se aponta, em alguns parágrafos temáticos, corresponde, apenas, a uma informal reflexão sobre estes urgentes e importantes assuntos.

Tal como já se apontou em diversos textos desta série, pensar-se que uma habitação pode ser estruturada segundo diversos “partidos” organizativos é uma opção deveras salutar, pois:

- não só é tempo de olharmos as propostas organizativas domésticas funcionalistas tal como elas podem e devem ser olhadas/vividas, numa perspectiva expressivamente “funcional”, ainda que fazendo-a, sempre, passar por um crivo não “maquinal” e de estruturação rígida das tarefas domésticas, a não ser que estejamos em presença de um programa exactamente deste tipo, por exemplo, marcado por actividades realizadas por empregados e/ou serviços domésticos realizados fora da esfera do respectivo agregado familiar;

- como parece ser tempo de se abrirem as novas e renovadas organizações domésticas a uma expressiva diversidade de necessidades, modos e gostos de habitar a “casa” de cada um e de cada agregado familiar; seja numa opção por organizações domésticas básicas com um elevado potencial de adaptabilidade passiva – através de espaços e relações espaciais que propiciem e apoiem, especificamente, variadas formas de apropriação e diversos usos -, seja numa opção por organizações domésticas com elevado potencial de adaptabilidade activa, que propiciem expressivas readaptações e conversões de espaços, equipamentos e instalações a diversos “mundos” domésticos pessoais e grupais (do respectivo agregado familiar) – como pode acontecer com variadas fusões e separações de espaços, recriações de alguns espaços (previamente preparadas) e variadas forma de reequipamento e reinstalação de elementos associados à vida doméstica;

- e parece ser, já, tempo de se pensar a “casa potencialmente para a vida”, proporcionando-se à habitação e, designadamente, aos seus espaços de circulação e de apoio funcional diversificado a capacidade para “envelhecerem”, positivamente, acompanhando a mutação das necessidades funcionais e ambientais dos seus habitantes, enquanto estes envelhecem – também esta uma matéria com expressiva relação com aspectos de mutação e adaptação de funcionalidades e “agradabilidades” – e uma matéria que é tão urgente como apaixonante.





Realmente parece ser altura de se anular, de uma vez, a “tirania” funcionalista das gradações de privacidade, que transformam muitas habitações em verdadeiros espaços “sem saída” e rigidamente “zonados”, sem capacidade de mudança funcional expressiva; e isto não quer dizer, evidentemente, que tais ofertas domésticas não continuem a ser disponibilizadas, mas não de forma quase única e desejavelmente contendo sempre algumas opções de adaptabilidade.

Tendo-se em conta o que acabou de ser apontado, uma forma relativamente fácil de avançar com habitações mais adaptáveis/úteis ou mais versáteis na sua apropriação pelos variados “tipos” de habitantes, é estruturar a habitação de modo a que espacial e relacionalmente os diversos espaços do fogo tenham diversas opções e capacidades de usos e de apropriações pormenorizadas; uma matéria que muito se joga com a disponibilização de alternativas de acesso e com a consideração da organização habitacional de uma forma, talvez, pouco compartimentada através de espaços de circulação que sejam, apenas e exclusivamente, espaços de circulação; ainda uma outra forma de avançar nesta perspectiva é proporcionar uma excelente capacidade de arrumação (em quantidade e em distribuição) e, eventualmente, alternativas de instalação para algumas máquinas domésticas, arrumando-as de forma a que o seu ruído e outros dos seus aspectos funcionais não inviabilizem certos usos domésticos (ex., tomar refeições na cozinha sem a incómoda vizinhança de algumas máquinas).

Outras matérias bem importantes para uma adequada e diversificada organização habitacional é o desenvolvimento de um equilíbrio dimensional nas zonas mais sociais e mais privadas, proporcionando, nas primeiras, o desenvolvimento, eventual, de reuniões familiares alargadas, inclusive, considerando mudanças provisórias de mobiliário e disponibilizando, nas zonas potencialmente mais privadas a (re)criação de subespaços muito apropriáveis e identificadores dos respectivos habitantes, subespaços estes que também devem pontuar zonas sociais e que, tendencialmente, surgem em privilegiada relação com vãos exteriores.

Um outro aspecto que nunca é excessivo sublinhar nestas matérias de equilíbrios dimensionais diz respeito a que mais do áreas mínimas ou “médias”/razoáveis há que ter em conta e aplicar as dimensões mais versáteis e multifuncionais, e por vezes 10 cm farão uma grande diferença funcional/formal/ambiental, não sendo, eventualmente, significativos em termos de custos de construção.

A questão da compartimentação da habitação é uma matéria importante na sua caracterização e no seu uso, podendo variar, teoricamente e na prática, entre opções quase de “planta livre”, com um mínimo de paredes, e outras extremamente repartidas, inclusivamente, no que se refere a zonas de cisrculação e distribuição domésticas. Já se referiu, atrás, que um dos mais interessantes potenciais de adaptabilidade doméstica se joga em “simples” opções de fusão/união entre compartimentos contíguos e de separação/compartimentação de grandes compartimentos, mas importa apontar que para além destas opções outras há que proporcionam uma gestão fácil de separação ou ligação entre espaços, como é o caso das grandes portas de correr e há tratamentos “ambientais”, ao nível da arquitectura de interiores, que caracterizam determinados espaços como “prolongamentos” de outros e há uma essencial ligação entre todos estes aspectos e uma fenestração exterior que os acolha positivamente; havendo ainda aspectos associados a instalações que podem facilitar ou dificultar as referidas opções de fusão/separação de espaços.

E aqui há uma nota que tem de ser feita relativamente à necessária compatibilização regulamentar de algumas destas opções, designadamente, quando elas se relacionem com aspectos de segurança no suso normal e contra risco de incêndio.

Chegamos, agora, a uma matéria que podemos designar como de adequada previsão dos principais núcleos de instalações domésticas, nos seus aspectos de serviço directo e nos seus traçados, de modo a que para além de não dificultarem as referidas opções e dinâmicas de adaptabilidade, as possam mesmo apoiar. Matérias com alguma complexidade e crítica relação com custos de construção e adaptação e com aspectos de segurança no suo e contra risco de incêndio, mas que podem ter respostas tão simples como aquelas associadas à criação de núcleos de instalações concentrados, estrategicamente localizados e com traçados adequadamente estruturados e bem conhecidos, numa perspectiva que, no limite, se pode associar a uma espécie de “libertação” da dinâmica adaptável da habitação relativamente às suas instalações. Mas, desde já, aqui se aponta que uma tal dinâmica pode ter importantes reflexos nas questões de privacidade ou de uso privatizado de certas instações (ex., casas de banho privativas), havendo que reflectir sobre estes assuntos e tomar decisões específicas nestas matérias.

Finalmente, mas tendo bem presente que de forma alguma aqui se realizou uma reflexão sistemática sobre as matérias associáveis a uma adequada organização doméstica (esta reflexão é, naturalmente, mais desenvolvida nos artigos de que se faz, acima, referência e link directo), aponta-se a grande importância que tem a disponibilização, em cada solução de fogo, de uma oferta diversificada e cuidadosa de múltiplos espaços e subespaços domésticos específicos e bem identificáveis; esta é, naturalmente, uma matéria de base de uma adequada arquitectura doméstica, pois uma habitação deve poder ser um verdadeiro “mundo doméstico”, funcional, apropriado, único, atraente, envolvente e versátil e para tal não pode ser uma simples “máquina” doméstica mal caracterizada por espaços “áridos”, monótonos e sem carácter próprio e capacidade de aceitação do carácter que lhe pode e deve ser atribuído por cada habitante e agregado familiar. Basta lembrar Alexander e a sua “linguagem de padrões”; uma “habitação” tem ser composta por múltiplos e ricos espaços e subespaços bem adaptáveis e atraentes, desde os “lugares janela”, aos recantos de estar, desde os “sítios de entrada” aos espaços pontuados pela luz, desde as zonas mais interiorizadas e envolventes às ligadas às vistas exteriores; e isto é possível e desejável desde a habitação de autor para um dado agregado familiar à habitação mais económica, naturalmente, com limites nesse quadro de riqueza formal e funcional, sendo que, quanto maiores forem as limitações económicas mais a qualidade arquitectónica tem de marcar a solução.

e a estas matérias voltaremos …

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 612
“Organizar os espaços habitacionais” – sete artigos sobre o tema mais um novo texto
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, setembro 25, 2017

611 - Adaptabilidade nas habitações - Infohabitar 611

Infohabitar, Ano XIII, n.º 611

“Sobre a Desejável Adaptabilidade das Habitações” – 11 artigos sobre o tema

por António Baptista Coelho

Tal como foi anteriormente divulgado, a Infohabitar retomou as suas edições regulares, através da edição de um novo artigo em cada semana, preferencialmente, logo à segunda-feira, aproveitando-se para, mais uma vez, enviar um amigável desafio aos leitores no sentido de poderem enviar para o editor (mail referido no final do artigo) propostas de artigos para edição.

Considerando que, durante já um número muito significativo de semanas a Infohabitar tem editado artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma “revisão da matéria dada”, antes de prosseguirmos na edição desta série.

Neste sentido e neste artigo apresentam-se, em seguida, os títulos interativos dos artigos da série “Habitar e Viver Melhor”, que abordam temáticas relativas ao elevado potencial de adaptabilidade que pode ser proporcionado pelas nossas habitações ou “mundos Domésticos”, e aproveitando-se para acrescentar, no final do artigo, uma muito pequena e informal nota de reflexão sobres estas apaixonantes e tão atuais matérias.

Em próximos artigos iremos disponibilizar reflexões sobre a estruturação e os conteúdos possíveis e desejáveis nos espaços comuns das habitações e, sequencialmente, nos diversos espaços habitacionais mais privados e personalizados.

Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.

Lembra-se, ainda, que por motivos alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já apontámos, na Infohabitar, a maior parte dos artigos desta série editorial não conta, neste momento, com as respetivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caraterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sediado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.

São os seguintes os 11 artigos disponibilizados sobre o tema da Desejável Adaptabilidade das Habitações” (“mundos domésticos”):

Os nossos pequenos mundos domésticos e pessoais: introdução

Mundos domésticos e pessoais: habitação e espaços da habitação, temas de desenvolvimento

Novas formas de habitar

Diversidade na organização habitacional

Algumas reflexões gerais sobre a adaptabilidade doméstica

Adaptabilidade e habitação

Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional

Bons espaços e ambientes domésticos I

Bons espaços e ambientes domésticos II

Viver ao nível térreo I

Viver ao nível térreo II

Sobre as temáticas associadas e associáveis à matéria geral da “Adaptabilidade das Habitações ou «Mundos Domésticos»” muito há a dizer e sublinha-se que o que a seguir se aponta, em alguns parágrafos temáticos, corresponde, apenas, a uma informal reflexão sobre estes urgentes e importantes assuntos.

Considerando-se que a racionalidade construtiva e, sequencialmente, de custos tem a ver, muito mais, com muitos outros aspectos do que com aqueles associados às características organizativas e formais/funcionais das habitações que nos envolvem, servem e enriquecem em termos de dia-a-dia; e lembrando que os actuais modos de projeto/obra proporcionam uma elevadíssima fiabilidade na execução final das intervenções e uma elevada versatilidade numa concepção doméstiva capaz de se aproximar de muitos gostos e necessidades habitacionais, harmonizando estas variadas soluções no quadro de um mesmo edifício; e lembrando, finalmente, que já seria altura de se desenvolver uma adequada revisão e fusão regulamentar em todos os aspectos que possam ser hoje considerados como desactualizados ou criticamente aplicáveis.


Ficamos um pouco com a ideia de que, hoje em dia, cada vez mais poucas desculpas existem para não se desenvolverem excelentes projectos/obras habitacionais, positivamente inovadores, designadamente, na versatilidade formal e funcional das soluções oferecidas e, consequentemente, numa mais íntima ligação aos desejos habitacionais dos moradores, condição esta bem distinta das opções quase “monofuncionais”, organizativa e hierarquicamente rígidas, que marcaram, positivamente, o então inovador funcionalismo/racionalismo arquitectónico, cujas primeiras e mais marcantes obras estarão a aproximar-se de fazer cerca de um século, mas cuja excessiva e mal informada utilização marcou, de forma muito negativa e ampla, o habitat humano, designadamente, no período que se seguiu à 2.ª Guerra Mundial.

Uma excessiva e mal informada utilização do “funcionalismo urbano e habitacional”, desenvolvida, seja em intervenções “oficiais”, seja em tantas promoções privadas, que encontraram nos “preceitos” urbanos e habitacionais racionalistas uma quase desculpa para a produção massiva, sem escala humana, repetida por vezes doentiamente, de soluções habitacionais extremamente idênticas (em termos organizativos, hierárquicos, “ambientais”, etc.), que, tantas vezes, apenas se distinguiam pelo número de “quartos de dormir” que integravam/integram; situação esta que gerou, depois, até a sua respectiva e “maquinal” designação por T0, T1, T2 , T3, etc., consosante o respectivo número de quartos de dormir.

No artigo aqui editado na passada semana já fizemos uma ponte para a possibilidade de se desenvolverem edifícios funcionalmente mistos e formal e funcionalmente diversificados, em termos de variados aspectos com relevo para as soluções de acessibilidade oferecidas e para a própria dimensão do edifício; e é neste sentido, que, esta semana, se aborda, aqui na Infohabitar, a habitação, o “mundo doméstico” de cada um de nós, o ambiente formal e funcional que nos deverá apoiar e enriquecer no dia-a-dia, também numa perspectiva de potencial diversidade e adaptabilidade das soluções formais e funcionais disponibilizadas, seja em termos de novas necessidades e grupos socioculturais e etários a servir (por exemplo: numerosos idosos, pessoas que vivam sós, cais jovens, condicionados na mobilidade e na percepção, minorias étnicas , etc.), seja em termos da “simples” possibilidade de cada família e cada habitante poder ter “uma casa” realmente mais próxima dos seus sonhos e preferências de habitar.

E há que acreditar ser este um tema tão inovador como rico, pois, globalmente, podemos e devemos “refazer” a nossa própria forma de pensar a concepção habitacional, desde a vizinhança, passando pelos espaços comuns do edifício, até ao “nosso” mundo doméstico, de formas diversificadas e, há que dizê-lo, positivamente surpreendentes em termos formais e funcionais. Tal não é fácil, pois boa parte da nossa formação (designadamente dos arquitectos e engenheiros civis) teve por base a “cartilha” funcionalista, aliás, bem reforçada na própria base regulamentar; mas é urgente e essencial repensar as possibilidades de concepção do habitat humano, naturalmente, centradas na elaboração dos espaços habitacionais, usando um máximo de referências históricas e de casos de referência, entre as quais as funcionalistas mas não de forma exclusiva, integrando os novos meios tecnológicos, considerando as novas necessidades e os novos problemas e procurando gerar positivas propostas de soluções, que depois deverão ser adequadamente estudadas em termos de análises pós-ocupação.

Importa, assim, abordar um amplo leque de formas/soluções habitacionais, considerando, em cada uma delas, uma adequada diversidade organizacional e de ambiente geral.
Nestas matérias a adaptabilidade doméstica é assunto incontornável, seja numa base passiva, em termos de condições habitacionais capazes de servir bem muitos gostos e necessidades de vida diária, seja numa base razoavelmente activa de proporcionarem boa capacidade para adequadas e fáceis conversões a desejos de base e a mudanças de desejos e necessidades residenciais.

Importa, urgentemente, recuperar uma reflexão sobre o espaço doméstico em que o seu adequado desenvolvimento funcional se harmonize, em pé de igualdadade, com o seu adequado e bem apropriado desenvolvimento formal/”ambiental”; pois a nossa “casa”, essencialmente, não pode ser uma máquina, tem de ser um espaço “envolvente” e amplamente agradável, em termos espaciais e ambientais, que enriqueça, realmente, a nossa vida diária, e que, complementarmente, seja um espaço funcionalmente bem estruturado e equipado.

E em todos estes aspectos importa considerar, de forma específica, o potencial e a caracterização específica que corresponde à opção de se viver ao nível térreo; uma opção que pode e deve ter os seus positivos reflexos, seja a nível doméstico, seja a nível urbano; o tratamento dos pisos térreos habitacionais e funcionalmente mistos tem de ser especificamente considerada nas suas condicionantes e potencialidades.

e a estas matérias voltaremos …

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 611
“Sobre a Desejável Adaptabilidade das Habitações” – 11 artigos sobre o tema
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, abril 10, 2016

577 - Inovação nos espaços comuns habitacionais - Infohabitar n.º 577


NOTÍCIA:


Arquiteta formada na UBI vence Prémio Fernando Távora


Maria Neto apresentou uma proposta referente a um campo de refugiados do Quénia e conquistou o galardão atribuído pela Ordem dos Arquitetos - Secção Regional do Norte.
Maria Neto, arquiteta formada na Universidade da Beira Interior, venceu a 11.ª edição do Prémio Fernando Távora, galardão organizado pela Ordem dos Arquitetos - Secção Regional do Norte.
A antiga aluna da UBI conquistou o júri com a proposta “As cidades invisíveis de Dadaab”, trabalho centrado naquele que é considerado o maior campo de refugiados do mundo, situado no Quénia. Maria Neto, diplomada em Arquitetura pela UBI, é atualmente investigadora do Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.
Desenvolvimento da notícia em http://www.ubi.pt/Noticia/5721

(Artigo da semana da Infohabitar)

Inovação nos espaços comuns habitacionais - Infohabitar n.º 577

António Baptista Coelho
Infohabitar n.º 577
Artigo XCIV da Série habitar e viver melhor

É urgente inovar nos espaços comuns habitacionais

Sobre novidades e tendências nos espaços comuns habitacionais já aqui se falou, nesta série editorial, um pouco, quando se apontaram as diversas questões e opções que se levantam quando se pensa em edifícios multifamiliares com uma mais forte componente de espaços comuns.

No entanto importa termos presente que, por um lado, estamos já bem dentro do século das grandes cidades densificadas, e que, por outro, vivemos, cada vez mais, nesta nossa Europa, o século da diversificação dos modos de vida domésticos, associada à grande diversidade cultural que, cada vez mais, recheia as grandes cidades, e também, cada vez mais, nesta nossa Europa, o século das pessoas que vivem com pressa e que não têm tempo para as tarefas domésticas, o século das pessoas que vivem sós, o século dos idosos, e o século das pessoas que precisam de habitações assistidas, numa ampla gradação de serviços, que vãos dos mais simples aos caracterizadamente hospitalares.

E se repetirmos uma leitura diversa do parágrafo anterior verificamos que densificação urbana, diversidade no uso e apropriação da habitação, a falta de tempo para as velhas lides domésticas, a prevalência de habitações pequenas e a necessidade de amplos leques de serviços de apoio directo às habitações, são, todos eles, aspectos potencialmente ligados à emergência de uma ampla diversidade de soluções residenciais com uma forte valência em espaços e serviços comuns.

Mas para que tais soluções residenciais marcadamente “comuns” possam ter êxito, não tenhamos quaisquer dúvidas de que o combate que apenas se iniciou pela humanização e “domesticação” dos conjuntos residenciais e dos edifícios habitacionais, terá de ter uma claríssima e fortíssima expressão na concepção global, na pormenorização e na caracterização dos referidos espaços comuns dessas soluções residenciais; caso contrário mais vale nem pensar nelas e continuarmos a fazer o edifício “médio”, com a habitação “média”, para a família “média”.




Fig. 01:  a inovação fundamentada e urgente nas soluções de multifamiliares passa tanto pela respetiva imagem geral e respetivos aspetos de pormenor, como pelos seus conteúdos funcionais globais e particularizados, e é neste sentido que se ilustra o artigo como esta solução residencial que integra um edifício multifamiliar com dimensão reduzida com pequenos unifamiliares em banda, que podem ter inúmeras utilidades na relação com uma vivência multifamiliar mais comum; sendo que toda esta perspetiva se liga, estreitamente, seja com aspetos bem atuais de densificação urbana (veja-se a maqueta), seja com aspetos também bem atuais de disponibilização de novas tipologias habitacionais assistidas  (com serviços comuns); e todas estas ideias concretas proporcionam novas formas de viver a cidade e uma certa continuidade da família alargada e solidária -   - habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Johan Nyrén.


Espaços comuns e habitação assistida

Um conjunto de espaços comuns residenciais deve ser, sempre, um atributo de qualidade acrescido na vivência de quem escolha uma tal solução; e quando esta pessoa sai do seu apartamento ou da sua suite privativa, ele deve sentir-se sempre como se estivesse ainda na sua “casa”, estando numa outra “casa” que é também dos outros habitantes desta “casa” maior, uma “casa” que tem de ser, claramente, uma sede de um leque de serviços aos quais ele muito dificilmente teria acesso se continuasse a viver na sua casa “média”.

E, naturalmente, não é admissível que o habitante se tenha de endividar para poder viver deste modo, pois, afinal, no caso mais corrente, ele só precisa de serviços mínimos de apoio doméstico e a principal vantagem que recolhe dos espaços e serviços comuns é a companhia e o convívio espontâneo com outros moradores, uma benesse que até nem há razão para que tenha de ser paga; outros serviços e outros equipamentos poderão ser, sempre, proporcionados numa base opcional e dirigidos a um mercado muito mais largo do que o daquele condomínio específico.

A espaciosidade nos espaços comuns

No entanto, a espaciosidade comum é um aspecto que pode constituir-se numa evidente mais-valia em termos de diversificação dos usos do edifício residencial e da sua capacidade funcional e de convívio. Podemos optar pela espaciosidade mínima, aquela que deverá levar tudo o resto que não é doméstico para a rua pública, e esta é uma opção claramente válida, mas que tem de ter as devidas contrapartidas nessa rua pública, que tem de ser sossegada, animada e humanizada, ainda que em diversas zonas de uso; ou podemos optar por uma espaciosidade comum folgada, desde que bem ligada a usos directos e potenciais, proporcionando estadias e opções inesperadas no dia-a-dia.

Mas fazermos espaços comuns exíguos que levam a ruas mortas, ou amplos espaços comuns, cuja amplidão é apenas dimensional e não motiva usos e apropriações parecem ser opções sem sentido.

Virtualidades domésticas do estacionamento em garagem

Este título suscitará, naturalmente, dúvidas, mas a ideia é, simplesmente, que o estacionamento comum em garagem possa ser um espaço, pelo menos, minimamente agradável e com algum carácter doméstico, e deixe de ser uma espécie de “cave” residual, estritamente funcional, por vezes suja e frequentemente mal iluminada e com cheiros, por vezes, menos agradáveis através da qual entramos e saímos, quase sempre, no nosso edifício.
Não se irá aqui desenvolver muito o tema, mas somente apontar algumas ideias que se julga simples e que poderão garantir uma clara subida da qualidade residencial das garagens comuns.

(nota: esta matéria será desenvolvida na próxima semana)

·         Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XII, n.º 577
Artigo XCIV da Série habitar e viver melhor

Inovação nos espaços comuns habitacionais, Infohabitar n.º 577


Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



domingo, fevereiro 14, 2016

569 - Importância dos pequenos espaços exteriores privados – Infohabitar 569

Importância dos pequenos espaços exteriores privados – Infohabitar 569

António Baptista Coelho
Artigo LXXXVII da Série habitar e viver melhor


Na Série editorial intitulada "habitar e viver melhor" estamos agora a abordar, com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e passamos, então agora, a uma reflexão sobre a importância e a enorme e desejável variedade de caraterização dos pequenos espaços exteriores privados – matéria que nos irá acompanhar ao longo de quatro ou cinco edições da nossa Infohabitar.

A outra dimensão doméstica exterior, que é possível termos nas nossas varandas, pátios e pequenos jardins

Fig. 01: a paisagem urbana de pormenor ganha tanto ao nível público, como ao nível privado com sequências densas e com boa imagem pública de pequenos quintais privadosexterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura:  Karmebäck e Krüger    

           Importância e protagonismo do exterior privado

           O título deste artigo não faz justiça à ideia que se tem sobre a importância potencial dos espaços exteriores privados, salientando-se que se considera que estes espaços podem ter uma importância estruturadora da própria organização da habitação, essencialmente no caso das habitações isoladas, mas igualmente em conjuntos habitacionais coesos e mesmo em edifícios multifamiliares em altura; e em qualquer destes casos obtém-se um excepcional ganho em termos de caracterização da solução habitacional, embebendo-se esta solução com um sentido “diferente” ou com uma outra dimensão que pode influenciar, seja usos específicos exteriores (lazer exterior em condições muito agradáveis e estimulantes, floricultura, etc.) e a possibilidade de se desenvolverem exteriormente actividades habitualmente interiores (leitura, convívio, refeições, trabalho profissional, banhos, etc.), seja uma muito mais intensa relação com o exterior e com a natureza com evidentes ganhos para o conforto ambiental (luz e ventilação naturais) e para a apropriação e caracterização da habitação (grandes floreiras e pequenos pátios ajardinados).

           A ideia que aqui se aponta é que o exterior privado possa ser, inteiramente, espaço útil e mesmo espaço habitável, servindo, por exemplo, seja para circulações correntes, seja para zonas de estadia e de diversas actividades domésticas, como será, por exemplo, o caso do estar, do lazer e da recepção. Naturalmente que esta possibilidade será mais efectiva em soluções de edifícios unifamiliares (moradias), mas considera-se que pode ser extensível a variadas soluções multifamiliares, considerando-se as limitações associadas a diversas zonas climáticas e tendo-se em conta, como bases de fundamentação directas, as soluções encontradas na habitação popular (exemplo, pátios e alpendres) e na própria história do habitar.

           Exterior privado e geração de tipologias habitacionais renovadas

           E é possível criar e recriar novas formas de exteriores em edifícios multifamiliares, fundindo atraente e funcionalmente, espaços públicos, semi-públicos, comuns e privados, numa perspectiva volumetricamente diversificada, que transforma as habituais soluções sem forma e sem "história" em divertidos espaços que articulam a rua com uma habitação que acaba por ser uma "casa" integrada numa estrutura ou cenário espacial, verdadeiramente, em três dimensões.

           Nestas matérias o que aqui também se salienta é a ausência de sentido que tem o esquecimento a que se têm votado tantas soluções de relação entre espaços domésticos interiores e exteriores e específicas de transição entre interior e exterior, em favor de uma estruturação doméstica que tende a considerar, por um lado, o exterior doméstico como uma dimensão claramente suplementar e “descartável”, a não ser, quando em soluções consideradas “luxuosas”, esse exterior ou esse espaço de transição entre interior e exterior é aplicado como sendo uma qualidade de “luxo”, e isto quando em tantas soluções de habitação popular esses espaços são, por vezes, dos mais usados na habitação, e isto considerando, naturalmente, as limitações regionais e climáticas, que serão sempre estruturantes, designadamente, nos aspectos de adequada protecção destes espaços relativamente a ventos dominantes e de adequada orientação solar e cuidadoso sombreamento destes mesmos espaços.

           O que aqui mereceria a pena ser feito, neste ponto da reflexão, era apontar soluções que concretizem este tipo de preocupações e averiguar o custo das mesmas, pois não podemos esquecer que a existência de uma dimensão de espaço exterior privado é, sempre, um fundamental aspecto qualitativo em qualquer solução habitacional; e há um grande leque de soluções de espaços exteriores privados, verdadeiramente efectivos e, portanto, bem distintos daquelas soluções de varandas mal dimensionadas, mas pormenorizadas, sombrias e desabrigadas, que para pouco ou nada servem. E é importante imaginarmos, por exemplo, soluções de habitar fortemente estruturadas por espaços exteriores privados, desenvolvidos, provavelmente, na continuidade de atraentes espaços exteriores comuns, ou públicos.


Fig. 02: o exterior privado pode e deve existir sob variadas formas, como neste espaço em terraço de um edifício multifamiliar, mas há que o tratar como espaço exterior privado - exterior de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Bengt Hidemark.     

Ganhar outra dimensão exterior para o habitar privado

           Basicamente do que aqui tratamos é da possibilidade de ganhar uma outra dimensão exterior para o habitar privado, que pode ser naturalizada (ligada à natureza através de floreiras e pequenos pátios e jardins) e razoavelmente aberta às vistas envolventes ou, agradavelmente, intimista e polarizadora da própria identidade protectora da habitação (em balcões e pátios cuidadosamente “fechados” e climaticamente agradáveis) nos quais se pode estender a vida na habitação; e em qualquer dos casos há o ganhar uma “nova/velha” verdadeira dimensão exterior, mas para um tal êxito há que saber manejar a concepção do habitar harmonizando e enriquecendo mutuamente espaços privados interiores e exteriores

E importa apontar aqui que esta reflexão e este estudo leva ao aprofundamento da investigação sobre diversos tipos de edifícios com conteúdo habitacional – que pode não ser exclusivo.

Com recurso a Nuno Portas aponta-se o leque dos diversos espaços exteriores privados: (1)
·         Varanda ou balcão, espaço predominantemente saliente do plano de fachada; o balcão é uma "varanda de peitoril" (provavelmente com guarda opaca).
·         "Loggia", espaço predominantemente reentrante no volume do edifício (espécie de varanda ou balcão total ou parcialmente reentrante).
·         Marquise, varanda ou "loggia" em grande parte envidraçada – é discutível esta inclusão no domínio dos espaços exteriores privados, nomeadamente, quando são projectadas de raiz, e quando não o são, não deveriam ser permitidas pois desfiguram os respectivos edifícios.
·         Terraço ou grande varanda habitualmente situada na parte superior do edifício ou aproveitando, em diversos níveis, o seu escalonamento topográfico.
·         Pátio central (aberto no interior do fogo).
·         Quintal e/ou jardim, frontal, de traseiras ou lateral.

Usos do exterior privado

           Se nos limitarmos às mais simples formas de exterior privado, como serão caso das varandas e terraços, alguns autores, como Claude Lamure (2), M. Imbert (3) e Dreyfuss e Tribel (4), salientam as principais actividades que são aí realizadas, sublinhando-se as consideradas mais importantes (indicadas numa ordem de importância decrescente):

·         criar plantas e flores;
·         repousar, descontrair e estar ao sol ou ao fresco (nas tardes e noites estivais);
·         vigiar as crianças no exterior;
·         secar roupa;
·         proporcionar que as crianças brinquem;
·         permitir que os bébés tomem ar;
·         tomar certas refeições.
A relação com a natureza e o lazer assumem, como se vê, uma clara importância no uso do exterior privado, mas alguns autores destacam, também, a importância deste tipo de espaço como elementos de enquadramento visual do exterior e de protecção climática da restante habitação.



Fig. 03: um pequeno quintal/pátio privado pode e deve ser um pequeno mundo em termos de imagens e de potenciais apropriações - exterior de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Jan Christer Ahlbäck.

Vantagens do exterior privado

           Nesta perspectiva de utilidade dos espaços exteriores privativos como elementos de apoio ao interior doméstico e de sua relação com o exterior Rob Krier aponta algumas finalidades específicas para bay windows, espaços estes cruciais na relação afirmada entre interior e exterior: (5)

·         São alargamentos dos espaços interiores, proporcionando um sentimento de estar no exterior, mas ainda dentro da influência directa do interior doméstico.
·         Permitem vistas melhoradas do ambiente envolvente e podem mesmo “transportá-lo” para o interior enriquecendo-o e caracterizando-o – e nesta matéria há que considerar especificamente a interessante capacidade de naturalização do interior doméstico, podendo quase trazer-se o jardim para dentro de casa.
·         Enriquecem o espaço interior contíguo, porque dividem-no em subespaços diferenciados, considerando o seu relacionamento mais forte ou menos forte com vãos e espaços exteriores mais, ou menos, fechados e mais, ou menos, amplos.
·         Podem criar verdadeiras “zonas tampão” controláveis em termos de conforto ambiental, e, naturalmente, com boas influências no maior conforto doméstico e na poupança energética.
A bay window é no interior, e no transporte que faz, para o interior, do ambiente exterior, o que é o caramanchão e o telheiro isolado no exterior, neste caso como transporte do interior para uma envolvente exterior.

Os espaços exteriores privativos têm, assim funções específicas e estimulantes (por exemplo criar plantas), proporcionam a extensão de actividades domésticas interiores (como por exemplo o estar e o convívio), e enriquecem e protegem o interior doméstico através de vistas bem enquadradas e de protecções e sombreamentos estratégicos. De certa forma os espaços exteriores privativos criam uma dimensão doméstica suplementar, uma espécie de cintura de protecção e de relação da habitação com a sua envolvente natural e urbana, que é de grande interesse para a plena satisfação de quem habita uma casa com esses atributos.

Mais casa para além das janelas

De certa forma havendo varandas, ainda que pequenas, há mais casa para além das janelas, uma perspectiva que até é também pressentida nos vãos de janela fundos, preenchidos por soleiras e peitoris largos, e que se podem ocupar com vasos de plantas e até pequenos móveis, criando-se espaços de transição com características de iluminação e de vistas específicas – estas sequências de vãos domésticos fundos e úteis e de varandas contíguas criam verdadeiros espaços tão de limiar como de transição, tornando o outro interior mais “interior” e protegido e qualificando o exterior em camadas sequenciais e gradualmente mais públicas, e, portanto, tornando-o muito mais apetecível do que um exterior “cortado à faca”, logo ali, ao rés de uma pobre janela de peito, mal desenhada e aberta numa parede fina. 

Falou-se do exterior privado com elemento fundamental no arquitectar do próprio espaço doméstico interior, mas, naturalmente, o exterior privado tem também uma razão de ser própria, pois, afinal, muitos de nós gostariam de ter uma ampla varanda/terraço ou um jardim ou pátio privados, vontade esta que ficou bem expressa num inquérito habitacional do LNEC (6), no qual:

·         mais de 80% dos inquiridos acharam ser necessário um jardim ou pátio privados;
·         10% aceitaram a varanda como substituto;
·         apenas 7% consideraram o jardim público próximo de casa como um possível substituto do exterior privativo;
·         e apenas uma percentagem mínima dos inquiridos não acharam necessário o jardim ou pátio privados, ou consideraram-no substituível por uma habitação maior – um aspecto que é extremamente interessante.
·         Notas
(1)     Baseado no Estudo de Nuno Portas, "Funções e Exigências de Áreas da Habitação", p. 71.
(2) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 209.
(3) M. Imbert, "Mission d'Études de la Ville Nouvelle du Vaudreil", p. 18.
(4) D. Dreyfuss; J. Tribel, "La Cellule-Logement", p. 29.
(5) Rob Krier, "Elements of Architecture", pp. 64 e 65.
(6) Maria da Luz Valente Pereira; Maria Amélia Correa Gago, "Inquérito à Habitação Urbana", p.

·          Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XII, n.º 569
Artigo LXXXVII da Série habitar e viver melhor

Importância dos pequenos espaços exteriores privados - Infohabitar n.º 569


Editor: António Baptista Coelho – abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.