domingo, fevereiro 14, 2016

Importância dos pequenos espaços exteriores privados – Infohabitar 569


(na imagem parte da Universidade da Beira Interior, Covilhã)

Infohabitar, Ano XII, n.º 569

Importância dos pequenos espaços exteriores privados – Infohabitar 569

António Baptista Coelho
Artigo LXXXVII da Série habitar e viver melhor


Na Série editorial intitulada "habitar e viver melhor" estamos agora a abordar, com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e passamos, então agora, a uma reflexão sobre a importância e a enorme e desejável variedade de caraterização dos pequenos espaços exteriores privados – matéria que nos irá acompanhar ao longo de quatro ou cinco edições da nossa Infohabitar.

A outra dimensão doméstica exterior, que é possível termos nas nossas varandas, pátios e pequenos jardins

 
Fig. 01: a paisagem urbana de pormenor ganha tanto ao nível público, como ao nível privado com sequências densas e com boa imagem pública de pequenos quintais privadosexterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura:  Karmebäck e Krüger    

           Importância e protagonismo do exterior privado

           O título deste artigo não faz justiça à ideia que se tem sobre a importância potencial dos espaços exteriores privados, salientando-se que se considera que estes espaços podem ter uma importância estruturadora da própria organização da habitação, essencialmente no caso das habitações isoladas, mas igualmente em conjuntos habitacionais coesos e mesmo em edifícios multifamiliares em altura; e em qualquer destes casos obtém-se um excepcional ganho em termos de caracterização da solução habitacional, embebendo-se esta solução com um sentido “diferente” ou com uma outra dimensão que pode influenciar, seja usos específicos exteriores (lazer exterior em condições muito agradáveis e estimulantes, floricultura, etc.) e a possibilidade de se desenvolverem exteriormente actividades habitualmente interiores (leitura, convívio, refeições, trabalho profissional, banhos, etc.), seja uma muito mais intensa relação com o exterior e com a natureza com evidentes ganhos para o conforto ambiental (luz e ventilação naturais) e para a apropriação e caracterização da habitação (grandes floreiras e pequenos pátios ajardinados).

           A ideia que aqui se aponta é que o exterior privado possa ser, inteiramente, espaço útil e mesmo espaço habitável, servindo, por exemplo, seja para circulações correntes, seja para zonas de estadia e de diversas actividades domésticas, como será, por exemplo, o caso do estar, do lazer e da recepção. Naturalmente que esta possibilidade será mais efectiva em soluções de edifícios unifamiliares (moradias), mas considera-se que pode ser extensível a variadas soluções multifamiliares, considerando-se as limitações associadas a diversas zonas climáticas e tendo-se em conta, como bases de fundamentação directas, as soluções encontradas na habitação popular (exemplo, pátios e alpendres) e na própria história do habitar.

           Exterior privado e geração de tipologias habitacionais renovadas

           E é possível criar e recriar novas formas de exteriores em edifícios multifamiliares, fundindo atraente e funcionalmente, espaços públicos, semi-públicos, comuns e privados, numa perspectiva volumetricamente diversificada, que transforma as habituais soluções sem forma e sem "história" em divertidos espaços que articulam a rua com uma habitação que acaba por ser uma "casa" integrada numa estrutura ou cenário espacial, verdadeiramente, em três dimensões.

           Nestas matérias o que aqui também se salienta é a ausência de sentido que tem o esquecimento a que se têm votado tantas soluções de relação entre espaços domésticos interiores e exteriores e específicas de transição entre interior e exterior, em favor de uma estruturação doméstica que tende a considerar, por um lado, o exterior doméstico como uma dimensão claramente suplementar e “descartável”, a não ser, quando em soluções consideradas “luxuosas”, esse exterior ou esse espaço de transição entre interior e exterior é aplicado como sendo uma qualidade de “luxo”, e isto quando em tantas soluções de habitação popular esses espaços são, por vezes, dos mais usados na habitação, e isto considerando, naturalmente, as limitações regionais e climáticas, que serão sempre estruturantes, designadamente, nos aspectos de adequada protecção destes espaços relativamente a ventos dominantes e de adequada orientação solar e cuidadoso sombreamento destes mesmos espaços.

           O que aqui mereceria a pena ser feito, neste ponto da reflexão, era apontar soluções que concretizem este tipo de preocupações e averiguar o custo das mesmas, pois não podemos esquecer que a existência de uma dimensão de espaço exterior privado é, sempre, um fundamental aspecto qualitativo em qualquer solução habitacional; e há um grande leque de soluções de espaços exteriores privados, verdadeiramente efectivos e, portanto, bem distintos daquelas soluções de varandas mal dimensionadas, mas pormenorizadas, sombrias e desabrigadas, que para pouco ou nada servem. E é importante imaginarmos, por exemplo, soluções de habitar fortemente estruturadas por espaços exteriores privados, desenvolvidos, provavelmente, na continuidade de atraentes espaços exteriores comuns, ou públicos.


Fig. 02: o exterior privado pode e deve existir sob variadas formas, como neste espaço em terraço de um edifício multifamiliar, mas há que o tratar como espaço exterior privado - exterior de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Bengt Hidemark.     

Ganhar outra dimensão exterior para o habitar privado

           Basicamente do que aqui tratamos é da possibilidade de ganhar uma outra dimensão exterior para o habitar privado, que pode ser naturalizada (ligada à natureza através de floreiras e pequenos pátios e jardins) e razoavelmente aberta às vistas envolventes ou, agradavelmente, intimista e polarizadora da própria identidade protectora da habitação (em balcões e pátios cuidadosamente “fechados” e climaticamente agradáveis) nos quais se pode estender a vida na habitação; e em qualquer dos casos há o ganhar uma “nova/velha” verdadeira dimensão exterior, mas para um tal êxito há que saber manejar a concepção do habitar harmonizando e enriquecendo mutuamente espaços privados interiores e exteriores

E importa apontar aqui que esta reflexão e este estudo leva ao aprofundamento da investigação sobre diversos tipos de edifícios com conteúdo habitacional – que pode não ser exclusivo.

Com recurso a Nuno Portas aponta-se o leque dos diversos espaços exteriores privados: (1)
·         Varanda ou balcão, espaço predominantemente saliente do plano de fachada; o balcão é uma "varanda de peitoril" (provavelmente com guarda opaca).
·         "Loggia", espaço predominantemente reentrante no volume do edifício (espécie de varanda ou balcão total ou parcialmente reentrante).
·         Marquise, varanda ou "loggia" em grande parte envidraçada – é discutível esta inclusão no domínio dos espaços exteriores privados, nomeadamente, quando são projectadas de raiz, e quando não o são, não deveriam ser permitidas pois desfiguram os respectivos edifícios.
·         Terraço ou grande varanda habitualmente situada na parte superior do edifício ou aproveitando, em diversos níveis, o seu escalonamento topográfico.
·         Pátio central (aberto no interior do fogo).
·         Quintal e/ou jardim, frontal, de traseiras ou lateral.

Usos do exterior privado

           Se nos limitarmos às mais simples formas de exterior privado, como serão caso das varandas e terraços, alguns autores, como Claude Lamure (2), M. Imbert (3) e Dreyfuss e Tribel (4), salientam as principais actividades que são aí realizadas, sublinhando-se as consideradas mais importantes (indicadas numa ordem de importância decrescente):

·         criar plantas e flores;
·         repousar, descontrair e estar ao sol ou ao fresco (nas tardes e noites estivais);
·         vigiar as crianças no exterior;
·         secar roupa;
·         proporcionar que as crianças brinquem;
·         permitir que os bébés tomem ar;
·         tomar certas refeições.
A relação com a natureza e o lazer assumem, como se vê, uma clara importância no uso do exterior privado, mas alguns autores destacam, também, a importância deste tipo de espaço como elementos de enquadramento visual do exterior e de protecção climática da restante habitação.



Fig. 03: um pequeno quintal/pátio privado pode e deve ser um pequeno mundo em termos de imagens e de potenciais apropriações - exterior de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Jan Christer Ahlbäck.

Vantagens do exterior privado

           Nesta perspectiva de utilidade dos espaços exteriores privativos como elementos de apoio ao interior doméstico e de sua relação com o exterior Rob Krier aponta algumas finalidades específicas para bay windows, espaços estes cruciais na relação afirmada entre interior e exterior: (5)

·         São alargamentos dos espaços interiores, proporcionando um sentimento de estar no exterior, mas ainda dentro da influência directa do interior doméstico.
·         Permitem vistas melhoradas do ambiente envolvente e podem mesmo “transportá-lo” para o interior enriquecendo-o e caracterizando-o – e nesta matéria há que considerar especificamente a interessante capacidade de naturalização do interior doméstico, podendo quase trazer-se o jardim para dentro de casa.
·         Enriquecem o espaço interior contíguo, porque dividem-no em subespaços diferenciados, considerando o seu relacionamento mais forte ou menos forte com vãos e espaços exteriores mais, ou menos, fechados e mais, ou menos, amplos.
·         Podem criar verdadeiras “zonas tampão” controláveis em termos de conforto ambiental, e, naturalmente, com boas influências no maior conforto doméstico e na poupança energética.
A bay window é no interior, e no transporte que faz, para o interior, do ambiente exterior, o que é o caramanchão e o telheiro isolado no exterior, neste caso como transporte do interior para uma envolvente exterior.

Os espaços exteriores privativos têm, assim funções específicas e estimulantes (por exemplo criar plantas), proporcionam a extensão de actividades domésticas interiores (como por exemplo o estar e o convívio), e enriquecem e protegem o interior doméstico através de vistas bem enquadradas e de protecções e sombreamentos estratégicos. De certa forma os espaços exteriores privativos criam uma dimensão doméstica suplementar, uma espécie de cintura de protecção e de relação da habitação com a sua envolvente natural e urbana, que é de grande interesse para a plena satisfação de quem habita uma casa com esses atributos.

Mais casa para além das janelas

De certa forma havendo varandas, ainda que pequenas, há mais casa para além das janelas, uma perspectiva que até é também pressentida nos vãos de janela fundos, preenchidos por soleiras e peitoris largos, e que se podem ocupar com vasos de plantas e até pequenos móveis, criando-se espaços de transição com características de iluminação e de vistas específicas – estas sequências de vãos domésticos fundos e úteis e de varandas contíguas criam verdadeiros espaços tão de limiar como de transição, tornando o outro interior mais “interior” e protegido e qualificando o exterior em camadas sequenciais e gradualmente mais públicas, e, portanto, tornando-o muito mais apetecível do que um exterior “cortado à faca”, logo ali, ao rés de uma pobre janela de peito, mal desenhada e aberta numa parede fina. 

Falou-se do exterior privado com elemento fundamental no arquitectar do próprio espaço doméstico interior, mas, naturalmente, o exterior privado tem também uma razão de ser própria, pois, afinal, muitos de nós gostariam de ter uma ampla varanda/terraço ou um jardim ou pátio privados, vontade esta que ficou bem expressa num inquérito habitacional do LNEC (6), no qual:

·         mais de 80% dos inquiridos acharam ser necessário um jardim ou pátio privados;
·         10% aceitaram a varanda como substituto;
·         apenas 7% consideraram o jardim público próximo de casa como um possível substituto do exterior privativo;
·         e apenas uma percentagem mínima dos inquiridos não acharam necessário o jardim ou pátio privados, ou consideraram-no substituível por uma habitação maior – um aspecto que é extremamente interessante.
·         Notas
(1)     Baseado no Estudo de Nuno Portas, "Funções e Exigências de Áreas da Habitação", p. 71.
(2) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 209.
(3) M. Imbert, "Mission d'Études de la Ville Nouvelle du Vaudreil", p. 18.
(4) D. Dreyfuss; J. Tribel, "La Cellule-Logement", p. 29.
(5) Rob Krier, "Elements of Architecture", pp. 64 e 65.
(6) Maria da Luz Valente Pereira; Maria Amélia Correa Gago, "Inquérito à Habitação Urbana", p.

·          Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
(iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XII, n.º 569
Artigo LXXXVII da Série habitar e viver melhor

Importância dos pequenos espaços exteriores privados - Infohabitar n.º 569


Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


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