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segunda-feira, setembro 11, 2017

609 - Relações entre Vizinhança Urbana e Edifício Habitacional – Infohabitar 609

Infohabitar, Ano XIII, n.º 609

Relações entre Vizinhança Urbana e Edifício Habitacional 

por António Baptista Coelho

Tal como foi anteriormente divulgado, a Infohabitar está a retomar as suas edições regulares, procurando disponibilizar um novo artigo em cada semana e preferencialmente à segunda-feira, aproveitando-se para, mais uma vez, enviar um amigável desafio aos leitores no sentido de poderem enviar para o editor (mail referido no final do artigo) propostas de artigos para edição.

Considerando que, durante já um número muito significativo de semanas a Infohabitar tem editado artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, tendo em conta o elevado número de artigos editados e porque estamos numa altura de reinício das atividades regulares da nossa revista, lembrámo-nos de proporcionar uma “revisão da matéria dada”, antes de prosseguirmos na edição desta série.

Neste sentido apresentam-se, em seguida, os títulos interativos dos artigos da série, que abordam temáticas da natureza do habitar e da relação do sítio que habitamos e das suas caraterísticas com a qualidade habitacional atingida, neste caso, sob o título geral: “Relações entre Vizinhança Urbana e Edifício Habitacional” e aproveitando-se para acrescentar, no final do artigo, uma muito pequena e informal nota de reflexão sobres estas apaixonantes e tão atuais matérias.

Em próximos artigos iremos disponibilizar reflexões sobre a estruturação de um edifício habitacional e dos seus espaços comuns e, sequencialmente, entraremos nos diversos espaços habitacionais privados.

Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.

Lembra-se, ainda, que por motivos alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já apontámos, na Infohabitar, a maior parte dos artigos desta série editorial não conta, neste momento, com as respetivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caraterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens.
Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sediado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.




São os seguintes os 12 artigos disponibilizados sobre o tema: Relações entre Vizinhança Urbana e Edifício Habitacional” (e que podem ser consultados, simplesmente, clicando no respetivo título)

É muito interessante considerar estas matérias associadas às “Relações entre Vizinhança Urbana e Edifício Habitacional” como elementos que caraterizam cada intervenção urbana e residencial, em muitos aspetos de qualificação arquitetónica, como, por exemplo, a acessibilidade, a agradabilidade/conforto ambiental, a comunicabilidade/permeabilidade, a privacidade e convivialidade, a eventual domesticidade e a sempre essencial integração, entre outras matérias, visando-se a geração de um perfil urbano-residencial bem identificável, numa opção que, embora infelizmente ainda pouco generalizada, é subatancialmente conhecida e aplicada.

Mas será pelo menos tão interessante e muito mais inovador e estimulante considerar estas diversificadas matérias associadas às “Relações entre Vizinhança Urbana e Edifício Habitacional”, que aqui foram apenas muito globalmente apontadase de modo nada exaustivo, como elementos diretamente protagonistas e geradores do “jogo” tipológico urbano-residencial ou de um renovado “jogo” tipológico urbano-residencial, cujo desenvolvimento é bem urgente, seja na resposta às atualmente muito renovadas e diversifidadas novas formas de habitar cidade e “casa”, seja face às “novas” necessidades habitacionais – com destaque para os pequenos agregados familiares, pessoas sós e idosos – seja, considerando-se o excelente e rico potencial que muitas dessas “novas” tipologias urbano-habitacionais têm no que se refere à igualmente urgente revitalização/reanimação de centros urbanos históricos e periféricos, apostando-se naquilo que é já desiganada de “densificação doce/suave”, tipologicamente cuidada e funcionalmente diversificada e vitalizada/vitalizadora.

E fica ainda um terceiro aspeto que muito se liga aos anteriores e que se resume no papel que pode e deve ter este renovado labor tipológico na cuidada, mas expressiva, melhoria das imagens urbanas preexistentes, numa opção, naturalmente, associada à criação de uma imagem urbana plenamente viva e “utilizável” em “profundidade”, pelo peão.

e a estas matérias voltaremos …

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 609
“Relações entre Vizinhança Urbana e Edifício Habitacional” – 12 artigos sobre o tema
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

quinta-feira, outubro 11, 2012

411 - Sobre o jogo das relações urbanas: limiares, transições e relação interior/exterior - I - Infohabitar 411


Infohabitar Ano VIII, N.º 411

ARTIGO XXI DA SÉRIE HABITAR E VIVER MELHOR


Sobre o jogo das relações urbanas: limiares, transições e relação interior/exterior - I

(com imagens de Coimbra)

António Baptista Coelho

Para além do “jogo de entradas” e do próprio “jogo urbano”, para além da crucial integração de elementos naturais e dos papéis relacionais e de apropriação de tais elementos, para além do que se consegue atingir em termos de capacidade de vivência e de atractividade do exterior público, há, antes de tudo e talvez no fim de tudo, sempre um pouco, daquilo que dá coesão a tudo isso e que podemos definir como “o jogo das relações” em Arquitectura residencial e urbana.


E complementarmente a esta questão coloca-se outra: como tal jogo parece poder ser determinante na construção de soluções habitacionais e urbanas verdadeiramente estimulantes e porque não dizê-lo, verdadeiramente eficazes?



Fig. 01

Há autores que constroem toda uma teoria do habitar sobre este jogo, como é o caso de Christopher Alexander, de Chermayeff, de Jean-Charles Depaule e mesmo, em boa parte, de Hertzberger, transformando a concepção residencial num verdadeiro jogo de limiares de privacidade e convivialidade, e, muito provavelmente terão razão. No entanto, julgo que é adequado associar a uma tal rede de relações muito centrada na presença do espaço privado, uma outra rede de relações que (se) baseia a estruturação do espaço público, e aqui é sempre útil todo o excelente processo de leitura da imagem urbana desenvolvido por Gordon Cullen.

Fig. 02

É como uma junta bem larga de coesão dos mundos domésticos – deixemos, para já, os espaços comuns fora do jogo –, mas é uma junta onde realmente se vive e que vive, também, a outros ritmos e por outras razões que não apenas aquelas que temos nas nossas casas. É um mundo cívico que tem as suas próprias razões de ser, e isto é muito importante, e é a riqueza e diversidade urbana a chamar por nós, diariamente, e isto é também muito importante e tem “mecânicas” próprias, formais e funcionais – mas, julgo que talvez formais, em primeira linha e a este tema voltaremos – que regem a potencialidade de se influenciar um habitar com mais felicidade e mesmo com mais entusiasmo, e aqui há que lembrar, sempre, o magistral tratado de paisagem urbana de Gordon Cullen, um trabalho ao qual nunca foi feita a devida justiça, designadamente, no que aqui nos reúne, autor e leitor, que é o pensarmos sempre mais um pouco sobre o como fazer habitações mais felizes (leia-se espaços habitacionais e urbanos mais felizes).


Fig. 03


Mas há que sublinhar aqui três aspectos: o primeiro tem a ver com estar-se a tratar de boa parte da matéria própria do “arquitectar”, e assim devemos ter em conta que será difícil ou mesmo desaconselhável avançar muito mais nesta reflexão sobre o jogo das relações no habitar urbano, pois tal assunto deverá ficar atribuído ao trabalho de cada projectista, uma ideia que seria boa se tivéssemos a certeza de que estamos sempre a tratar com excelentes projectistas (sem mais comentários); o segundo aspecto, ao qual dedicaremos, mais à frente, atenção específica tem a ver com a grande importância deste jogo de relações espaciais na construção do amplo leque de tipos de edifícios de habitação; e o terceiro aspecto, ao qual dedicaremos, já de seguida, mais algumas reflexões, tem a ver com a noção de que boa parte da potência arquitectónica e vivencial do jogo de relações espaciais decorre de múltiplos aspectos de ligação, transição, separação e sobreposição física e visual entre espaços interiores e exteriores.


Fig. 04

Pensemos então, apenas um pouco mais, nos aspectos de articulação entre espaços interiores e exteriores e nas suas influências na desejável fruição positiva do habitar.

Nestes limiares é importante a evidenciação dos “jardins de inverno”, nomeadamente, nos pisos térreos através de volumes envidraçados e cheios de plantas "domésticas", é um importante factor de expressão dos seus respectivos fogos, de embasamento do edifício e de relação com a envolvente natural ou de “verde” urbano, ao mesmo tempo que servem como elementos de integração entre o exterior e o interior, porque as plantas são elementos comuns e bem evidentes num e noutro. E isto pode e deve generalizar-se à matéria do verde no edificado, naturalmente, numa relação com um verde mais forte na ligação com o solo.



Fig. 05

E uma tal reflexão, mais “edificada” sobre estes elementos do exterior, mas enclausurados, que são os “jardins de inverno” pode ter uma contrapartida, quer num expressivo desenvolvimento das soluções associadas a quintais/pátios privativos, que são elementos do exterior apenas delimitados por construção, quer num idêntico desenvolvimento das zonas de relação interior/exterior, que podem marcar os "pontos" de acesso aos edifícios e os pólos de animação/vitalização pontual por equipamentos; e afinal todos estes elementos marcam funcional e visualmente o sub-nível físico residencial de transição entre a vizinhança de proximidade e os seus edifícios.

E devemos ter bem presente que é neste sub-nível físico de limiar, que, se conseguirmos desenvolver um verdadeiro nível vivencial, se poderá ganhar boa parte da batalha da motivação do uso do exterior e do desenvolvimento de uma imagem residencial apetecível, pacífica e apropriável.



Fig. 06

Afinal é nesta margem funda, neste limiar, que se "sai" dos espaços exteriores equipados a caminho dos edifícios e se sai dos edifícios a caminho desses exteriores equipados ou de outros edifícios, trata-se de um complexo de relações potencialmente vitalizador que há que tratar com grande continuidade física e visual, velando, cuidadosamente pelo conforto nos edifícios (face a possíveis actividades exteriores incomodativas) e pela funcionalidade, agradabilidade e relativa, mas fundamental, liberdade de uso dos espaços exteriores equipados (com poucas restrições porque bem posicionados e adequadamente protegidos e pormenorizados).

Esta é uma perspectiva que se julga ser razoavelmente inovadora e que se ganhou, evidentemente, não por acaso, na sequência de um amplo trabalho de apoio a uma tese de doutoramento em Arquitectura, realizada no LNEC e apresentada na FAUP, sobre o que poderá constituir a qualidade arquitectónica residencial (1); afinal, também aqui acabámos por nos situar estrategicamente nas relações entre níveis físicos mais conhecidos e evidentes, por se concluir que muita da qualificação arquitectónica se situa nestes inter-níveis, entre cidade e bairro, entre bairro e vizinhança, entre vizinhança e edifício, entre edifício e habitação, e mesmo entre a habitação e os seus compartimentos – não é tornar complexa uma “coisa” simples é, sim, aproximarmo-nos da real complexidade de algo que parece simples.


Fig. 07

E assim já se entende melhor que, por exemplo, é fundamental, não só a adequada concepção dos espaços exteriores de vizinhança e dos compartimentos domésticos, mas também a forma como uns e outros se relacionam directamente e através dos associados níveis do edifico e da habitação. E é, assim, fundamental afirmar que a qualidade residencial depende do desenvolvimento de conjuntos habitacionais globalmente concebidos tendo em atenção as desejáveis características dos seus diversos níveis físicos e das suas estreitas e mútuas inter-relações, desde a integração na envolvente até à pormenorização exterior e interior.

Por outras palavras, Francisco Keil do Amaral fala-nos estas matérias, quando, referindo-se aos "sectores de Lisboa mais lisboetas", diz que (2): "Aprecio neles, acima de tudo, uma «poética desarrumação» e fraccionamento dos edifícios e dos espaços livres e uma escala humana de relações espaciais e volumétricas peculiar. Desarrumação sábia ou com acasos sabiamente aproveitados, favorecia-a o relevo da Cidade, recomendava-a o clima e quadrava aos hábitos populares. Amenizava o conjunto do casario sem grandeza e a permanência em habitações pouco cómodas e salubres; convidava a uma vida na rua, ao ar livre, alegrada pelo nosso sol. Nesses sectores as casas não entaipavam os passantes em ruas monótonas, rigidamente alinhadas. Abriam-se, de quando em quando, em varandas sobre o rio, ou sobre os campos ou sobre outras casas construídas mais abaixo. Nuns pequenos espaços deixados à margem do movimento das ruas podia-se lazeirar, sonhar, conversar livremente ou contemplar o casario e os barcos que sulcavam o Tejo. Nuns larguinhos íntimos, abrigados do vento, os velhos gozavam o sol de Inverno, enquanto, ao lado os mais novos jogavam à malha. Bastantes edifícios eram concebidos envolvendo parcialmente pequenos espaços livres, a que davam recato e utilidade, eximindo-os à bisbilhotice proverbial dos vizinhos portugueses."


Julga-se que sobre o jogo das relações e o seu papel na Arquitectura urbana e do habitar dificilmente outro texto poderia realizar uma melhor síntese.


Notas


(1) António Baptista Coelho, “Qualidade Arquitectónica Residencial”, Lisboa, LNEC, ITA n.º 8, 2000.

(2) Francisco Keil Amaral, "Lisboa uma Cidade em Transformação", pp. 146 e 147.

Notas editoriais:

(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Infohabitar a Revista do Grupo Habitar


Infohabitar, Ano VIII, n.º 411


Sobre o jogo das relações urbanas: limiares, transições e relação interior/exterior - I


Editor: António Baptista Coelho


Edição de José Baptista Coelho


Lisboa, Encarnação - Olivais Norte


domingo, janeiro 04, 2009

228 - Cidade de bairros e limiares - Infohabitar 228

Infohabitar, Ano V, n.º 228

Série habitar e viver (melhor), IV: uma cidade diversa, feita de bairros e limiares

Artigo de António Baptista Coelho


Redescobrir uma cidade diversa


Nuno Portas escreveu, já há alguns anos, que a cidade tem sido dilacerada entre "a continuidade e a diversidade, entre a metrópole e a comunidade, o grande e o pequeno", e a propósito destas escolhas o mesmo autor defende que: "Nem uma cidade de comunidades, hoje, substitui a metrópole, nem a metrópole, ... pode passar sem os outros níveis de relação que não são os bairros transformados em equivalentes a aldeias tradicionais... a cidade não é mais igual, não pode ser igual”; e na mesma intervenção Nuno Portas conclui que “a procura é diversa. A procura cultural é diversificada, não há consenso no modelo para fazer isso”. (1)

E, por fim, o mesmo Nuno Portas remata explicando que, por assim acontecer, lhe “parece estratégico falar no espaço comum. Tentar encontrar mais depressa o consenso sobre o espaço comum, em vez de ter uma grande preocupação sobre o consenso quanto ao edificado".

Julga-se ser este um pedaço de texto muito rico pois nele se sublinham aspectos de diversidade urbana, de diversidade cultural urbana e de se poder privilegiar o espaço comum, ou público, no sentido de se servirem, hoje em dia, estas diversidades, reganhando-se com isso uma cidade mais verdadeira.

A ideia que fica é que esta possibilidade de se poder voltar a ter uma cidade mais diversa e mas culturalmente fundamentada, é uma saída muito importante na aproximação a um espaço urbano mais amplamente satisfatório e mais eficaz, até em termos económicos; e, nesta perspectiva, o consenso sobre os espaços públicos, será o caminho para que todos os respeitem e se considerarmos que o espaço público marca o chão e as paredes da cidade –os “cenários” vivos da cidade – então teremos aqui uma parte significativa da matéria do fazer uma cidade verdadeira e contemporânea.




Fig. 01

É ainda interessante ter presente que uma perspectiva que, como esta, defenda uma cidade renovada com base numa diversidade cultural bem fundamentada é uma perspectiva bem associável ao aproveitamento da cultura como elemento chave de uma desejável revitalização económica das cidades europeias, e sobre estas matérias muito se tem escrito ultimamente.

A ideia que se quer sublinhar é que a conquista de uma adequada diversidade urbana, se ganha essencialmente numa intervenção no espaço público e pode ser um trunfo, quer para um habitar a cidade com satisfação e entusiasmo, quer para a economia da própria cidade.


Uma cidade de bairros e de limiares


A cidade sempre foi feita de bairros, que eram e são, frequentemente, pequenas cidades com as suas características próprias que identificam cada bairro, nos seus aspectos sociais, formais e funcionais. Hoje em dia poderia pensar-se ser questionável a manutenção de uma tal estruturação, mas afinal, a cidade que temos é a mesma cidade, não outra, e as partes da cidade que temos de que mais nos orgulhamos são aquelas feitas de bairros.

Podemos, portanto, defender que uma cidade de bairros é um objectivo hoje muito válido, mas devemos, naturalmente, encarar o termo “bairro” com um sentido muito flexível, que terá pouco a ver com aspectos dimensionais e quantitativos de grandes zonas urbanas, e terá muito mais a ver com a ideia da caracterização de verdadeiros conjuntos de edifícios e espaços públicos com identidade positiva e bem integrados nas respectivas vizinhanças urbanas.




Fig. 02

Poderemos depois, naturalmente, especificar, que um dado conjunto é um “pequeno bairro”, ou que um dado conjunto se integra, em harmonia, num dado espaço urbano de um dado bairro, mas a ideia é sempre esta da contribuição para a constituição de unidades urbanas e residenciais caracterizadamente positivas em termos de identidade e de integração na paisagem urbana.

Defende Sidónio Pardal que "cada bairro precisa de desenvolver a sua identidade física, que é componente fundamental da sua identidade cultural” (2) e Kevin Lynch faz-nos avançar na caracterização de uma tal identidade apontando que "a homogeneidade das fachadas, o material, a decoração, a cor, o recorte no céu e, especialmente, os vãos, são todos indicadores fundamentais que servem a identificação dos principais bairros." (3)

Num trabalho que editei no LNEC em 1998 (4) saliento que ao chegarmos ao nosso bairro ou à nossa Área Residencial ou quando saímos de casa com a intenção de ir até ao centro urbano mais próximo, frequentemente atravessamos um determinado espaço urbano bem conhecido, que envolve o sítio específico onde moramos, até chegar à porta de casa, à paragem do transporte público ou às principais rodovias de acesso à zona; todo esse espaço que cruzamos diariamente é a nossa Vizinhança Alargada, um espaço de equilíbrio entre um animado anonimato urbano e um sentido de ambiente bem conhecido e seguro, marcado por equipamentos de uso diário e pelo encontro frequente de caras conhecidas e de algumas pessoas que saudamos como vizinhos.




Fig. 03

Propõe-se, assim, um novo conceito de “vizinhança alargada”, perfeitamente assimilável ao de uma parte de bairro ou de um pequeno bairro, e que pode e deve ser um domínio privilegiado do peão, permitindo uma vivência urbana física e diária que nos enriqueça pessoalmente pelo convívio e pelo contacto com o exterior e que contribua para a nossa saúde física e mental, enquanto simultaneamente constitua um factor de vitalização desse exterior residencial.
Mas sublinha-se que, para que assim aconteça, são essenciais continuidades físicas com as zonas urbanas envolventes, transportes colectivos funcionais e agradáveis e uma estrutura urbana local muito cuidada e equipada; estrutura esta bem marcada por uma estimulante caracterização de percursos pautados por equipamentos conviviais de uso diário, e desenvolvidos no respeito de uma tradição urbanística marcada por exemplos encontrados em bairros consolidados e vivos.

Não se trata de inibir a inovação urbana, mas apenas de a caldear com os exemplos de sucesso que é possível percorrer e viver; e, naturalmente, aqui é sempre possível e desejável uma opção pela modernidade nos edifícios.

O que não é admissível é corrermos o risco de alienar a possibilidade de habitar também o bairro ou a vizinhança alargada, ficando, assim, “refugiados”, praticamente, quase só no nosso mundo doméstico; esta será sempre uma opção de habitar extremamente insatisfatória, redutora e naturalmente geradora de depressões e de sentimentos socialmente negativos.
no limiar entre o habitar e a cidade e vice versa

"As cidades são algo mais do que conjuntos de edifícios ladeando ruas e praças. São organismos vivos. Os edifícios, as ruas e as praças formam com as pessoas que ali habitam, transitam, trabalham e passeiam, unidades coerentes e características... e as cidades morrem mesmo sem terem sido destruídas. Basta quebrarem-se os elos que ligam, num todo harmonioso, os edifícios e as pessoas; basta que o modo de vida deixe de corresponder à feição e ao carácter das edificações" (5).

E para as cidades viverem as casas da cidade têm de dialogar com as ruas da cidades e inversamente, também, as ruas têm de ir até às habitações e vitalizá-las, caracterizá-las, vitalizando-se e caracterizando-se. Será assim, que, portanto, no princípio e no fim do habitar a cidade terá de estar, sempre e sempre viva.

No princípio, na articulação das referências urbanas, no princípio da esquematização de bairros e de vizinhanças, a cidade funcional, viva e caracterizada deverá marcar a razão de ser dos espaços do habitar, foi até por essa razão de ser que a cidade nasceu, talvez há mais de 10.000 anos, numa sua forma mais reduzida – a cidade-povoação, conjunto de casas concentradas e grupo social naturalmente marcado pela solidariedade.

E no fim, no reverso da chegada a casa, quando de casa olhamos a rua, quando em casa nos sentimos bem, protegidos e entre os nossos e as nossas coisas, que nos marcam, e olhamos a rua e imaginamos e vemos nessa rua os sítios onde ela nos leva, nesse fim, que é, afinal, um outro princípio, sempre num ciclo de vida e de interesse renovados, está e devera estar, sempre, a cidade, também.

E acreditem que nada disto, nem esse princípio, nem esse fim, existem naqueles tristemente famosos subúrbios onde, pouco mais do que, se dorme.

Talvez que esse princípio e esse fim, nessa cidade, existam, também, de uma forma diferente, em certas casas que, sendo, sós, são, elas próprias, pequenas cidades de memórias e de pormenores que são também outras pequenas cidades, mas isso é, provavelmente, uma outra história.




Fig. 04

Ao aproximarmo-nos da nossa casa podemos e devemos ter a noção de estarmos a entrar num pequeno mundo que conhecemos bem e que, mesmo ainda a uma boa distância da nossa porta, nos envolve, protege e de certa forma nos saúda.

Para isso é necessário que existam referências "familiares", marcações físicas e humanas amigáveis que marquem os postos avançados e o recheio citadino e habitável do sítio que habitamos, abrindo-se, assim, percursos que já fazemos descontraída, agradável e "automaticamente", sentindo-nos, por um lado, já em casa, seja por conhecermos tais percursos “como os nossos dedos”, seja por serem, aí, possíveis e, eventualmente, bem-vindas, situações de reconhecimento mútuo e mesmo de algum convívio espontâneo, mas sendo sítios onde, por outro lado, ainda predomina um salutar e “casual” anonimato urbano.

Este princípio e este fim da cidade, e este prenúncio ou mesmo esta expansão do nosso sítio de habitar, deve ser formado por um estimulante agregado de espaços de vizinhança, estes sim mais directamente ligados aos espaços habitacionais privados, mas para tal é necessário Arquitectura: é necessário que esta escala urbana mais “fina” e mais íntima seja verdadeiramente desenhada seja em termos de linhas de projecto estruturantes, seja em termos de uma sensível pormenorização, seja, naturalmente, em termos de uma expressiva identidade, ligada a uma forte adequação a cada sítio e a uma leitura destes objectivos de vivência urbana marcada pela diversidade e pela surpresa, qualidades estas bem radicadas nas cidades que são mais atraentes e estimulantes – diversidade esta que deve resultar numa disciplina urbana de hierarquias de funções que seja atraentemente quebrada por uma expressiva teia de situações excepcionais, negando-se toda e qualquer regra geral, monotonamente hierarquizada.

Um tal estimulante agregado de espaços de vizinhança, marcado, aqui e ali, por estimulantes situações de excepção – como lojas em esquinas, largos conviviais, passagens pedonais, árvores estrategicamente situadas, etc., etc. – constitui, por uma lado, a verdadeira fundação da cidade e, por outro, o limiar da passagem para os pequenos reinos do habitar.

Nesse mesmo agregado de vizinhanças encontram-se, também, os limites naturais da acessibilidade predominantemente pedonal – atenção, que não exclusivamente pedonal – onde encontramos os principais pequenos pólos de acesso rodoviário público aos principais centros urbanos, pólos esses que se devem caracterizar como atraentes zonas de charneira entre diferentes vizinhanças, variadamente caracterizadas e só parcialmente conhecidas; esta caracterização tem a ver com as respectivas soluções de Arquitectura urbana, que poderão revelar, apenas, uma pequena parte dos seus espaços “interiores”, reservando, assim, boa parte da sua realidade para uma gradual descoberta, o que, sem, dúvida, aguçará uma estimulante curiosidade a quem por ali passe (e, inversamente, todos conhecemos arquitecturas que praticamente tudo revelam a quem por elas passa ao lado, até de automóvel).

Falta, talvez, reflectir um pouco mais sobre a ideia de um espaço de habitar que se integra na cidade e que, de certa forma, dela se “esconde”, reservando –se de olhares e de usos mais alheios, proporcionando aos seus habitantes sossego e mesmo algum agradável mistério, mas mantendo, logo ali, bem perto, a possibilidade de acesso aos centros urbanos mais animados, através de percursos e pequenos pólos equipados, bem conhecidos, mais de quem aí habita do que de quem por lá passa.




Fig. 05: a nova Arquitectura também faz, naturalmente, bairros e vizinhanças – conjunto em Alcântara, projecto de Frederico Valsassina

Sobre estas matérias do poder ter o sossego e o intimismo, logo ali ao lado do urbano e, nos limiares entre tais mundos, espaços de relação diversificados e estratégicos, importa dizer, desde já, que se considera ser esta uma matéria essencial para uma expressiva agradabilidade residencial. E importa também, sobre este assunto, sublinhar, desde já, que na própria génese desta ideia está a necessidade de ela não ser aplicável como regra, pois muitas pessoas querem viver nos próprios espaços da cidade bem viva e animada, porque as verdadeiras cidades são compostas de múltiplas misturas formais e funcionais, porque não há verdadeiros pólos de animação urbana sem uma forte componente habitacional e, afinal, porque, a própria vontade de viver um pouco mais afastado da animação pressupõe a possibilidade de se viver junto a essa mesma animação; e uma coisa é certa, é que nada do que aqui se acabou de referir é possível com enquadramentos urbanísticos marcados pela normalização, que não reflictam expressivamente a identidade de cada local e que não sejam servidos por verdadeiros projectos de Arquitectura urbana, qualitativamente muito exigentes.

Pois, afinal, a envolvente da nossa área residencial, seja ela um bairro ou um conjunto coeso de edifícios e espaços exteriores, é sempre uma zona de limiar e de ligação, um espaço de partida e de chegada, um lugar estratégico de trechos de animação e de equipamento convivial, assegurando à cidade continuidades de relações e de imagens, mas marcando essa área residencial com um carácter formal e funcional próprio e expressivo.

E é neste limiar entre o habitar e a cidade que importa assegurar pequenos pólos/enlaces de transportes públicos (6) : rodeados de locais de trabalho e de habitações para pessoas que dependam especialmente desse tipo de transportes; com continuidades viárias e pedonais claramente afirmadas e penetrando nas vizinhanças contíguas; e com unidades comerciais estimulando os fluxos de circulação. Poderemos, deste modo, consolidar ou reconsolidar as mais finas rótulas de coesão urbana, proporcionando-lhes um verdadeiro estatuto de entidade urbana viva de vizinhança própria e ao serviço das vizinhanças que ali estão bem próximas, uma opção que se considera ser, hoje em dia, estratégica, pois dele dependerá boa parte da urgente re-coesão citadina; e uma opção que terá de ter em conta aspectos de densificação estratégica, que são fundamentais em termos da estruturação de qualquer vizinhança socialmente sustentável.

Notas:

(1) Nuno Portas, in "Colóquio Viver (n)a Cidade", LNEC, ISCTE, Comunicações, p. 9.
(2) Sidónio Pardal; P. Correia; M. Costa Lobo, "Normas Urbanísticas, Vol II", p. 76.
(3) Kevin Lynch, "L'Image de la Cité", p. 79.
(4) “Do bairro e da vizinhança à habitação”, ITA 2.
(5) Francisco Keil Amaral, "Lisboa uma Cidade em Transformação", p. 31.
(6) Christopher Alexander, S. Ishikawa, M. Silverstein, et al, "A pattern Language/Un Lenguage de Patrones", p. 183.


Edição Infohabitar
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 4 de Janeiro de 2009
Edição de José Baptista Coelho

segunda-feira, dezembro 15, 2008

226 - Habitar as relações entre o bairro e a habitação - Infohabitar 226

Infohabitar 226

artigo de António Baptista Coelho

Nota: trata-se de um artigo, essencialmente, de texto, sendo as imagens apenas de acompanhamento e relativas ao Bairro da Barceloneta, em Barcelona.

Série habitar e viver (melhor), III: muito se passa nos espaços de relação, entre o bairro e a HABITAÇÃO


Disse Siza Vieira, numa entrevista a Bernardo Pinto de Almeida, quando questionado sobre uma definição sintética e possível de Arquitectura, que “a Arquitectura é um tema de espaço e de relacionamento, de infindável relacionamento.” (1)

Provavelmente é nesta matéria da relação e da transição que se encontrará boa parte dos aspectos associados a soluções de habitar estimulantes, porque agradavelmente curiosas e aproximadas às dimensões humanas.

Se imaginarmos ou visitarmos soluções residenciais em que a preocupação nestas matérias não existe, temos a ideia de que o fazer o habitar se resume a uma adição simplista de níveis físicos encerrados ou abertos. Um compartimento doméstico incluído num andar residencial que pouco mais será do que um paralelepípedo onde vivem várias pessoas, que, por sua vez, estará incluído num paralelepípedo maior e verticalizado onde viverão vários grupos de habitantes; e depois, depois, tudo acaba num espaço exterior em que, geometricamente, se dispuseram as projecções horizontais desses últimos maiores paralelepípedos, precavendo-se afastamentos regulamentares entre os mesmos e uma determinada capacidade funcional em termos de estacionamento automóvel e de outros tipos de funcionalidades sociais e recreativas. Precauções estas que, se frequentemente, são defesas nossas relativamente a situações negativas, são, noutros casos, obstáculos a excelentes soluções de Arquitectura – mas este tema merece desenvolvimentos específicos.


Fig. 01

Teremos, assim, um pequeno mundo quase sem relações mútuas entre os seus elementos, um mundo que só existe, de facto, nas plantas, nos desenhos de implantação e nas mentes de quem não consegue, realmente, imaginar um espaço urbano vivido e diversificado. Não se trata aqui de dizer que uns são fantásticos e bafejados pela vocação, enquanto outros não; mas, de facto, muitas pessoas e mesmo muitos técnicos têm críticas dificuldades na concepção de espaços tridimensionais e não tenhamos dúvidas que se no interior doméstico é um espaço desse tipo, o interior/exterior urbano também o é e de uma forma muito mais diversificada, rica e insinuante.

Mas não podemos ficar por aqui, pois o interior/exterior urbano, além de não ser um sistema de formas e de volumes simples e autonomizados, constitui um verdadeiro sistema de relações múltiplas, físicas, visuais, potenciais, contíguas e ambientais, reais e imaginadas. E é esta realidade, tal como refere Siza Vieira, a matéria-base da Arquitectura, é aqui e a partir desta teia de relações que se conforma a verdadeira Arquitectura, o que impõe, naturalmente, um elevado grau de exigência na concepção, pois, como se tentou apontar, apenas parte da matéria com que se trabalha se pode objectivar em termos claramente dimensionais, boa parte do assunto fica delimitado numa dimensão relacional e não tenhamos dúvida que todos os melhores projectos de habitar e de urbanidade são aqueles que sabem e conseguem trabalhar positivamente esta matéria da relação, da transição, do acompanhamento, da integração, da demarcação, do limiar e da passagem e da conjugação ao serviço da delimitação de sequências de percursos e da marcação de identidades espaciais e ambientais.

E tudo isto é matéria-base da satisfação e da identidade que se sente relativamente a um dado sítio de habitar.

Monique Éleb, um dos poucos estudiosos com obra publicada nestas matérias associadas às bases de uma estruturação cuidadosa das vizinhanças citadinas pormenorizadas, fez mesmo um livro (2) em que aborda as formas dos espaços de relação entre cidade e agrupamentos de edifícios, associando estas matérias a uma reflexão sobre tipologias de habitação e de forma urbana, atribuindo aos espaços de relação um claro protagonismo no fazer de uma cidade habitada e viva, marcada localmente pela identidade e, sempre, pela escala humana, uma cidade como quadro de integração de uma continuidade de espaços de relação e de vizinhança, nunca a cidade como quadro de implantação de objectos mais ou menos isolados e desligados da vida humana.

As tipologias encontram no referido relacionamento urbano a base de geração de velhas e novas soluções de agregação entre habitações, equipamentos, espaços de circulação e outros espaços do habitar, com destaque para aqueles com potencial de relacionamento e convívio; e às tipologias voltaremos noutros artigos.

Mas é aqui, no mundo das transições, entre espaços exteriores, entre estes e espaços interiores e entre limiares semi-interiores e semi-exteriores, que se joga a máxima importância do exterior residencial. Um exterior residencial e urbano que acaba por poder e dever ser assumido como um “verdadeiro” interior urbano, e que, por isso, deve ser positivamente configurado, acompanhando e apoiando o habitante desde a entrada no bairro até à proximidade da porta do seu edifício, dando-se fundamental coesão a todo um vocabulário arquitectónico e urbanístico que vai desde a rua habitacional e comercial à travessa e ao pátio de vizinhança, passando pelas praças e pracetas residenciais, pelas alamedas onde é "suave" habitar, pelos estacionamentos adequadamente integrados, pelas zonas verdes de enquadramento e de lazer, pelos jardins de convívio e de descontracção ou meditação, e pelos espaços mistos de circulação e de animação urbana com características que podem até recuperar elementos tradicionais.

Na relação urbana, vicinal e pormenorizada encontram-se muitas das potencialidades responsáveis pela adequação a cada sítio concreto e pela estimulante diversidade que deve marcar o meio urbano.
De certa forma aqui se joga uma fundamental coesão citadina numa pequena escala de vizinhanças residenciais e conviviais que podem e devem, desta forma, levar o habitar residencial até aos centros urbanos e, por outro lado, levar a animação citadina, ainda que muito mitigada, até às mais distantes vizinhanças residenciais. A relação é a coesão, tal como numa parede a argamassa dá coesão à obra completa.

Nestas matérias da coesão citadina ao peão deve ser atribuído um papel fundamental, considerando-se que deve ser privilegiada a formação gradual de um percurso pedonal bem vitalizado em cada comunidade, ligando nós de actividade e um pólo “central”, o mais possível concentrado, que pode ser uma pequena rua, uma praceta, um largo, ou um pequeno troco de rua comercial (3). Naturalmente, uma tal caracterização pedonal não implica a exclusão dos veículos, mas, essencialmente, uma previsão de fortes aptidões funcionais, ambientais e psicológicas, tanto para os percursos a pé com destinos práticos, como para o puro flanar (ex., passeios largos e abrigados, acompanhados e ritmados por lojas animadas).

Fig. 02

Avançando-se na continuidade urbana, numa sequencial aproximação aos espaços habitacionais privados, e em cada comunidade de vizinhança deve ser desenvolvida, pelo menos, uma zona constituída por uma série de recintos encadeados/ligados por umbrais/limiares, num crescendo de privacidades e conteúdos relativamente misteriosos (4). De certa forma é fácil de imaginar passarmos por espaços ainda estratégica e amenizadamente conviviais e fortemente públicos, para, depois, penetrarmos em ambientes onde há já reflexos directos e expressivos da proximidade das nossas casas e da sua identidade específica.

Provavelmente, o que é fundamental quando se procura contribuir para um espaço citadino em que a habitação se integre com grande harmonia visual e funcional é a defesa de aspectos fundamentais de coesão urbana e residencial: por palavras mais simples estender, expressivamente, o sentido do habitar para além da porta de entrada de cada habitação, levando-nos a estar ali na rua, a dois passos de casa, como se estivéssemos numa espécie de outra nossa sala de estar, mais ampla, partilhada, mas expressivamente amigável e para que tal se consiga é essencial garantir condições várias, mas com destaque para um sentido de segurança ou de protecção natural, ligado a excelentes condições de orientação (sentirmo-nos sempre , o mais possível, orientados em termos dos principais locais de acesso …), e para um afirmado, mas sóbrio, sentido de identidade, sentido este que terá de se fundir com aspectos de verdadeira qualidade arquitectónica – pois de outra forma teremos aqui os conhecidos riscos de “decorativismo” ou de tradicionalismo simplificado.

Desde já se afirma que esta temática do relacionamento entre bairro e vizinhança e, depois, entre vizinhança e espaço doméstico privado constitui uma das principais matérias que a concepção arquitectónica pode usar como motivo de fundamentação de determinadas soluções formais e lá estamos, novamente, nas matérias da relação e na importância fulcral do relacionamento espacial na (boa) Arquitectura.

Importa ainda sublinhar que estas matérias da relação têm tudo a ver com as da segurança, da orientação e da identidade.

Nestas matérias da segurança, da orientação e da identidade devemos ter presente a fundamental importância do desenvolvimento de uma estratégia de visibilidade de segurança intimamente ligada à rede de acessibilidade predominantemente pedonal e aplicada ao longo de todos os territórios de um dado bairro; considerando-se, tanto o normal cenário geral diurno, como o nocturno.

Esta estratégia de visibilidade, segundo Noble (5), deve ser baseada numa estrutura de orientação maximizada, sendo fundamental, por razões de segurança e de funcionalidade, que as pessoas "estranhas" a uma determinada zona consigam encontrar o seu caminho com facilidade (ex., uma ambulância efectuando uma acção de emergência, ou um visitante que não conhece a zona).

E é interessante associar estas ideias de clareza de orientação às ideias de variação e riqueza das imagens urbanas, anteriormente apontadas, considerando-se ser possível assegurar a respectiva harmonização, seja através de uma clara estruturação urbana, seja por meios gráficos auxiliares; mas atenção, quer para a frequente ausência de uma tal estruturação, quer para a inadequação que, quase sempre, caracteriza o design de comunicação urbano, tantas vezes feito por verdadeiros curiosos na matéria, que do assunto quase nada sabem.

Fig. 03

Conclui-se esta reflexão sobre as matérias do relacionamento entre espaços e ambientes residenciais e habitados com a ideia forte que é fundamental que se goste de usar, intensamente, os percursos que ligam a cidade ao bairro onde moramos e, depois, neste, as sequências que devem articular o seu centro à vizinhança que habitamos; tudo isto matéria de relacionamentos urbanos, e, afinal, todos sentimos, tal como tão bem o descreveu Daniel Filipe, que “de vez em quando apetece a gente tomar por uma dessas ruazinhas que não se sabe onde irão acabar, deixando correr o tempo ao sabor dos passos erradios…”. (6)

E, no mesmo livro, Daniel Filipe fala de “uma cidade onde acontecem coisas”(p.51), e dá vontade de afirmar que as coisas acontecem muito mais frequente e intensamente nesses espaços de relação, por exemplo, nas passagens, nas arcadas, junto às entradas e vistas das janelas, nos espaços onde se concentram e até se sobrepõem, parcialmente, actividades, nos espaços em que tantas vezes interior e exterior se amalgamam numa mistura estimulante que nos faz, ao mesmo tempo, espectadores e actores da cena urbana e residencial; por exemplo nos pequenos cafés de bairro, estrategicamente situados, entre o “final da vizinhança” e o “início da verdadeira cidade” e onde, tal como tão bem descreve ainda o mesmo Daniel Filipe, são pequenos “«cafés» sonolentos, onde todos se conhecem e os empregados tratam os clientes pelo nome de baptismo. «Um carioca para o sr. José». Rápido. O sr. José pode ser qualquer de nós – gente que vem e vai, lê o jornal. Diiscute futebol e guarda, no íntimo, um sonho ou uma angústia.” (p.71)

Não tenhamos qualquer dúvida: fazer pedaços de cidade desejavelmente habitada é tudo fazer para inventar estimulantes agregados de espaços como estes, é tudo fazer para simular a vida da cidade velha em espaços feitos de súbito e com formas e meios actuais, é, basicamente, actuar no edificado, mas, acima dele, actuar nas relações, mais objectivas ou menos objectivas, que esse edificado tem de estabelecer com o seu sítio urbano.

E não tenhamos dúvidas que assim actuar é fazer Arquitectura com “A grande”, afinal, a única maneira de a fazer, mas assumidamente num grau de exigência que obrigará a muito e bom trabalho por parte dos projectistas, mas há caminhos que facilitam este percurso, e entre os quais se salientam a depuração formal, a verdade construtiva, a naturalidade funcional e a sobriedade global da solução, bem assumida como um novo complemento para aquele sítio da cidade.

Fig. 04

Façamos agora, para terminar esta matéria e para ligar ao seu futuro desenvolvimento tipológico, um pequeníssimo apontamento sobre o chamado “habitat intermediário”, através de algumas palavras de Monique Eleb e Anne Marie Chatelet (1997): “há três grandes categorias habitacionais: o habitat colectivo, o habitat individual e o habitat intermediário, que tal como o nome indica se liga aos dois precedentes (imóvel colectivo mas com acessos individualizados e superfícies exteriores significativas tais como terraços)” (7). E as autoras, numa referência a F. Lamarre, especificam que “os terraços sobrepostos, entradas e caixas de escada desmultiplicadas conferem ao habitat uma escala intermediária, a meio caminho entre o individual e o colectivo.”
Notas:

(1) Carlos Nuno Lacerda Lopes, “Projecto e modos de habitar”, Dissertação de doutoramento, FAUP, 2007, p. 51.
(2)Monique Eleb; Anne Marie Chatelet – Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui. Paris : Éditions de l’Épure, 1997. 350 p. (Col. Recherche d’Architecture).
(3)Christopher Alexander, Sara Ishikawa, Murray Silverstein, et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 170 a 172.
(4)Christopher Alexander, Sara Ishikawa, Murray Silverstein, et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 309.
(5)John Noble; Barbara Adams, "Home in its Setting", pp. 539 e 540.
(6)Daniel Filipe, “Discurso sobre a cidade”, Lisboa, Editorial Presença, Colecção Forma n.º 8, 1977 (1956), p.70.
(7) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, "Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui", 1997, p.18



Na próxima semana, véspera de Natal, será editado um artigo específico sobre a recente atribuição à NHC, Nova Habitação Cooperativa, do Prémio IHRU – Construção 2008, um artigo onde se fará a apresentação da obra que mereceu este destaque, um conjunto em São João da Talha, Loures, projectado, desenvolvido e gerido tendo em vista, especificamente, a etnia cigana. No mesmo artigo também se fará uma pequeníssima “viagem” comentada entre este recente Prémio da NHC e um anterior Prémio INH, que foi também ganho, por esta cooperativa, há poucos anos, no Zambujal, Amadora.


Edição Infohabitar
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 15 de Dezembro de 2008
Edição de José Baptista Coelho