Mostrar mensagens com a etiqueta transições. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta transições. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, abril 01, 2013

433 - SÍTIOS DE PASSAGEM, LIMIAR, TRANSIÇÃO E VIVÊNCIA - I - Infohabitar 433

Infohabitar, Ano IX, n.º 433
Artigo XXIX da Série habitar e viver melhor

Considerar espaços de vizinhança amigáveis e bem relacionados com as habitações e com a cidade, leva-nos, obrigatoriamente, a considerar o tecido urbano tradicional e assim se faz, em seguida, uma citação relativamente longa de um excelente livro de Jean-Charles Depaule, onde o autor descreve um pouco de uma cidade norte-africana.


"A partir de uma artéria principal, de rua em ruela e de ruela em impasse, a circulação reduz-se, as lojas e as oficinas rarefazem-se, tornam-se mais directas ou, pelo contrário, apropriam-se do exterior. A via, ou as suas ramificações, penetra num mundo reservado, à margem do movimento geral, para eventualmente acabar em impasse. Mas há surpresas! Uma rua que parece servir um bairro dá também para se chegar a outra parte da cidade. Outras mais largas e abertas levam a que tenhamos de justificar a nossa entrada e outras há que embora largas e não parecendo vicinais, terminam abruptamente em impasse ou portão...as portas de bairro que à noite garantiam a segurança durante períodos turbulentos estão definitivamente abertas...Entra-se em certos pátios de imóveis tão facilmente como em ruas, mas as ruas são pouco menos fechadas que as habitações...". (1)


Depaule inspirou-se muito na cidade moura ou berbere, mas entre nós, podemos evocar muitas ruas, ruelas e outros espaços intestinos de cidades e de povoações portuguesas, entre a Sé e a Ribeira, no Porto, Alfama e o Bairro Alto em Lisboa, Castelo de Vide e Monsaraz, Lagos e Loulé, só para dar alguns exemplos.



 



Fig. 01: sequência de imagens de Castelo de Vide

Naturalmente estamos a pensar em zonas velhas dessas povoações, mas também nos podemos lembrar da pequena Bouça portuense de Siza Vieira e dos misteriosos interiores de quarteirão do grande Alvalade lisboeta, só para citar conjuntos relativamente recentes e bem conhecidos, e aqui, como mais algumas outras excelentes intervenções mais recentes, encontraremos essas sequências, essas surpresas, essas “cores”, essa vitalidade e esse sossego, quase lado a lado. E, portanto, o que fica provado é a, muito provável, boa capacidade de réplica de tais condições
É interessante considerar que o referido autor, Jean-Charles Depaule, tem trabalhado em conjunto com um dos autores que mais têm aprofundado as matérias da estruturação urbana, mas numa perspectiva, que bem nos interessa, já muito próxima da geração de diversas formas de edifícios habitacionais; um tema que merece ser explorado.





Fig. 02: sequência de imagens de Castelo de Vide

Quando pensamos sobres estas matérias várias vezes chegamos a esta espécie de fronteira entre os espaços públicos e privados que se dilui, seja em tipos de soluções urbanas diversificadas, seja em diversas soluções ou tipos de edifícios, mas por esta vez iremos ficar pelos aspectos específicos que num e noutro lado dessa fronteira são responsáveis por uma afirmada satisfação habitacional, sem dar nomes específicos a tipos de soluções.

Num já citado livro de Monique Eleb e Anne Marie Chatelet, as autoras referiram, objectivamente, como já se referiu, que o grande interesse dos quarteirões tem muito a ver com “esse prodigioso concatenar de actividades e de construções estabelecidas longe das vistas, ao abrigo dos panos de fachadas dos edifícios da rua” e ao longo do referido livro as autoras vão conseguindo, da parte de diversos projectistas, contribuições objectivas para uma boa definição desse “prodigioso concatenar de actividades e de construções”.






Fig. 03: sequência de imagens de Castelo de Vide

E assim e tal como referem as citadas autoras:


- Alain Sarfati “explicita o prazer que espera oferecer aos habitantes propondo percursos embebidos no habitat: «o convite à descoberta, à exploração exprime-se no atravessar de diferentes passagens, ligações, escadas, galerias, áleas e caminhos»”; (2)

- “F. Soler e J Bernard propõem ... um pátio central muito amplo em torno do qual se organizam os apartamentos” … para “prolongar a cidade até ao âmago das casas através de espaços intermediários, escavados no coração dos edifícios, verdadeiros locais de convivialidade, interstícios indispensáveis entre a cidade e a família”; (3)


- e Roland Simounet, falando sobre o projecto de Saint-Denis Basilique, refere que “os pátios, as mudanças de nível, a pormenorização das galerias e a chicana na entrada dos fogos são limites sucessivos relativamente fechados ao exterior e abertos ao interior”. (4)


Voltaremos a estes temas quando falarmos dos espaços comuns dos edifícios, pois há, felizmente, uma ténue separação entre espaço comum ou público de um quarteirão e espaço comum de um edifício muito estruturado pelo espaço exterior; e é esta ténue diferença responsável por excelentes e motivadoras soluções residenciais e urbanas …


A ideia que fica é que se falarmos com muitos projectistas eles irão enriquecendo este fazer dos miolos de quarteirões, praticamente, sem limites, pelo menos de vocabulário e de conceitos de qualificação arquitectónica. E se nos colocarmos como habitantes e visitantes – e é sempre boa uma perspectiva de visitante que se imagine habitante – então a dúvida será qual a razão que justifica a reduzida aplicação de soluções de miolo de quarteirão tão variadas e tão excelentes em termos urbanos e residenciais; pois é, afinal, aqui que se faz uma boa parte das melhores relações, mais estimulantes e mais úteis, quer com os espaços domésticos, quer com os citadinos.


E se considerarmos as actuais tendências no sentido de uma maior densificação então esta matéria surge ainda como mais oportuna e estruturante, mas atenção que estamos aqui num nível arquitectónico que exige muito do projecto, pois temos de fazer realmente pequenos pedaços de cidade, atraentes, qualificados e estimulantes, integrando diversos tipos de espaços interiores, exteriores e de transição; e julgo mesmo ser um nível de projecto que deverá obrigar a um apurado controlo público da sua respectiva qualidade.


(Estas matérias terão continuidade na segunda parte desta artigo, a editar no próximo domingo.)


Notas:

(1) Jean-Charles Depaule, "À Travers le Mur", p. 107 e 108.
(2) Monique Eleb e Anne Marie Chatelet, “Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui”, 1997, p. 239.
(3) Id. ibid.
(4) Id. p. 81.

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho

INFOHABITAR Ano IX, nº433
ARTIGO XXIX DA SÉRIE HABITAR E VIVER MELHOR
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

quinta-feira, outubro 11, 2012

411 - Sobre o jogo das relações urbanas: limiares, transições e relação interior/exterior - I - Infohabitar 411


Infohabitar Ano VIII, N.º 411

ARTIGO XXI DA SÉRIE HABITAR E VIVER MELHOR


Sobre o jogo das relações urbanas: limiares, transições e relação interior/exterior - I

(com imagens de Coimbra)

António Baptista Coelho

Para além do “jogo de entradas” e do próprio “jogo urbano”, para além da crucial integração de elementos naturais e dos papéis relacionais e de apropriação de tais elementos, para além do que se consegue atingir em termos de capacidade de vivência e de atractividade do exterior público, há, antes de tudo e talvez no fim de tudo, sempre um pouco, daquilo que dá coesão a tudo isso e que podemos definir como “o jogo das relações” em Arquitectura residencial e urbana.


E complementarmente a esta questão coloca-se outra: como tal jogo parece poder ser determinante na construção de soluções habitacionais e urbanas verdadeiramente estimulantes e porque não dizê-lo, verdadeiramente eficazes?



Fig. 01

Há autores que constroem toda uma teoria do habitar sobre este jogo, como é o caso de Christopher Alexander, de Chermayeff, de Jean-Charles Depaule e mesmo, em boa parte, de Hertzberger, transformando a concepção residencial num verdadeiro jogo de limiares de privacidade e convivialidade, e, muito provavelmente terão razão. No entanto, julgo que é adequado associar a uma tal rede de relações muito centrada na presença do espaço privado, uma outra rede de relações que (se) baseia a estruturação do espaço público, e aqui é sempre útil todo o excelente processo de leitura da imagem urbana desenvolvido por Gordon Cullen.

Fig. 02

É como uma junta bem larga de coesão dos mundos domésticos – deixemos, para já, os espaços comuns fora do jogo –, mas é uma junta onde realmente se vive e que vive, também, a outros ritmos e por outras razões que não apenas aquelas que temos nas nossas casas. É um mundo cívico que tem as suas próprias razões de ser, e isto é muito importante, e é a riqueza e diversidade urbana a chamar por nós, diariamente, e isto é também muito importante e tem “mecânicas” próprias, formais e funcionais – mas, julgo que talvez formais, em primeira linha e a este tema voltaremos – que regem a potencialidade de se influenciar um habitar com mais felicidade e mesmo com mais entusiasmo, e aqui há que lembrar, sempre, o magistral tratado de paisagem urbana de Gordon Cullen, um trabalho ao qual nunca foi feita a devida justiça, designadamente, no que aqui nos reúne, autor e leitor, que é o pensarmos sempre mais um pouco sobre o como fazer habitações mais felizes (leia-se espaços habitacionais e urbanos mais felizes).


Fig. 03


Mas há que sublinhar aqui três aspectos: o primeiro tem a ver com estar-se a tratar de boa parte da matéria própria do “arquitectar”, e assim devemos ter em conta que será difícil ou mesmo desaconselhável avançar muito mais nesta reflexão sobre o jogo das relações no habitar urbano, pois tal assunto deverá ficar atribuído ao trabalho de cada projectista, uma ideia que seria boa se tivéssemos a certeza de que estamos sempre a tratar com excelentes projectistas (sem mais comentários); o segundo aspecto, ao qual dedicaremos, mais à frente, atenção específica tem a ver com a grande importância deste jogo de relações espaciais na construção do amplo leque de tipos de edifícios de habitação; e o terceiro aspecto, ao qual dedicaremos, já de seguida, mais algumas reflexões, tem a ver com a noção de que boa parte da potência arquitectónica e vivencial do jogo de relações espaciais decorre de múltiplos aspectos de ligação, transição, separação e sobreposição física e visual entre espaços interiores e exteriores.


Fig. 04

Pensemos então, apenas um pouco mais, nos aspectos de articulação entre espaços interiores e exteriores e nas suas influências na desejável fruição positiva do habitar.

Nestes limiares é importante a evidenciação dos “jardins de inverno”, nomeadamente, nos pisos térreos através de volumes envidraçados e cheios de plantas "domésticas", é um importante factor de expressão dos seus respectivos fogos, de embasamento do edifício e de relação com a envolvente natural ou de “verde” urbano, ao mesmo tempo que servem como elementos de integração entre o exterior e o interior, porque as plantas são elementos comuns e bem evidentes num e noutro. E isto pode e deve generalizar-se à matéria do verde no edificado, naturalmente, numa relação com um verde mais forte na ligação com o solo.



Fig. 05

E uma tal reflexão, mais “edificada” sobre estes elementos do exterior, mas enclausurados, que são os “jardins de inverno” pode ter uma contrapartida, quer num expressivo desenvolvimento das soluções associadas a quintais/pátios privativos, que são elementos do exterior apenas delimitados por construção, quer num idêntico desenvolvimento das zonas de relação interior/exterior, que podem marcar os "pontos" de acesso aos edifícios e os pólos de animação/vitalização pontual por equipamentos; e afinal todos estes elementos marcam funcional e visualmente o sub-nível físico residencial de transição entre a vizinhança de proximidade e os seus edifícios.

E devemos ter bem presente que é neste sub-nível físico de limiar, que, se conseguirmos desenvolver um verdadeiro nível vivencial, se poderá ganhar boa parte da batalha da motivação do uso do exterior e do desenvolvimento de uma imagem residencial apetecível, pacífica e apropriável.



Fig. 06

Afinal é nesta margem funda, neste limiar, que se "sai" dos espaços exteriores equipados a caminho dos edifícios e se sai dos edifícios a caminho desses exteriores equipados ou de outros edifícios, trata-se de um complexo de relações potencialmente vitalizador que há que tratar com grande continuidade física e visual, velando, cuidadosamente pelo conforto nos edifícios (face a possíveis actividades exteriores incomodativas) e pela funcionalidade, agradabilidade e relativa, mas fundamental, liberdade de uso dos espaços exteriores equipados (com poucas restrições porque bem posicionados e adequadamente protegidos e pormenorizados).

Esta é uma perspectiva que se julga ser razoavelmente inovadora e que se ganhou, evidentemente, não por acaso, na sequência de um amplo trabalho de apoio a uma tese de doutoramento em Arquitectura, realizada no LNEC e apresentada na FAUP, sobre o que poderá constituir a qualidade arquitectónica residencial (1); afinal, também aqui acabámos por nos situar estrategicamente nas relações entre níveis físicos mais conhecidos e evidentes, por se concluir que muita da qualificação arquitectónica se situa nestes inter-níveis, entre cidade e bairro, entre bairro e vizinhança, entre vizinhança e edifício, entre edifício e habitação, e mesmo entre a habitação e os seus compartimentos – não é tornar complexa uma “coisa” simples é, sim, aproximarmo-nos da real complexidade de algo que parece simples.


Fig. 07

E assim já se entende melhor que, por exemplo, é fundamental, não só a adequada concepção dos espaços exteriores de vizinhança e dos compartimentos domésticos, mas também a forma como uns e outros se relacionam directamente e através dos associados níveis do edifico e da habitação. E é, assim, fundamental afirmar que a qualidade residencial depende do desenvolvimento de conjuntos habitacionais globalmente concebidos tendo em atenção as desejáveis características dos seus diversos níveis físicos e das suas estreitas e mútuas inter-relações, desde a integração na envolvente até à pormenorização exterior e interior.

Por outras palavras, Francisco Keil do Amaral fala-nos estas matérias, quando, referindo-se aos "sectores de Lisboa mais lisboetas", diz que (2): "Aprecio neles, acima de tudo, uma «poética desarrumação» e fraccionamento dos edifícios e dos espaços livres e uma escala humana de relações espaciais e volumétricas peculiar. Desarrumação sábia ou com acasos sabiamente aproveitados, favorecia-a o relevo da Cidade, recomendava-a o clima e quadrava aos hábitos populares. Amenizava o conjunto do casario sem grandeza e a permanência em habitações pouco cómodas e salubres; convidava a uma vida na rua, ao ar livre, alegrada pelo nosso sol. Nesses sectores as casas não entaipavam os passantes em ruas monótonas, rigidamente alinhadas. Abriam-se, de quando em quando, em varandas sobre o rio, ou sobre os campos ou sobre outras casas construídas mais abaixo. Nuns pequenos espaços deixados à margem do movimento das ruas podia-se lazeirar, sonhar, conversar livremente ou contemplar o casario e os barcos que sulcavam o Tejo. Nuns larguinhos íntimos, abrigados do vento, os velhos gozavam o sol de Inverno, enquanto, ao lado os mais novos jogavam à malha. Bastantes edifícios eram concebidos envolvendo parcialmente pequenos espaços livres, a que davam recato e utilidade, eximindo-os à bisbilhotice proverbial dos vizinhos portugueses."


Julga-se que sobre o jogo das relações e o seu papel na Arquitectura urbana e do habitar dificilmente outro texto poderia realizar uma melhor síntese.


Notas


(1) António Baptista Coelho, “Qualidade Arquitectónica Residencial”, Lisboa, LNEC, ITA n.º 8, 2000.

(2) Francisco Keil Amaral, "Lisboa uma Cidade em Transformação", pp. 146 e 147.

Notas editoriais:

(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Infohabitar a Revista do Grupo Habitar


Infohabitar, Ano VIII, n.º 411


Sobre o jogo das relações urbanas: limiares, transições e relação interior/exterior - I


Editor: António Baptista Coelho


Edição de José Baptista Coelho


Lisboa, Encarnação - Olivais Norte