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terça-feira, maio 21, 2019

687 - As janelas e o interior doméstico – Infohabitar 687

Infohabitar, Ano XV, n.º 687                      

As janelas e o interior doméstico – Infohabitar 687

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Sequem-se algumas notas sobre a relação entre o interior doméstico e os respectivos vãos de janela, considerados estes vãos como importantes elementos de construção, acabamento, e qualidade arquitectónica do interior doméstico.


Pensar as janelas como elementos de composição dos alçados/volumetrias, mas também como elementos multifuncionais e de composição do interior doméstico.

Quando abordamos as janelas domésticas, do ponto de vista da respectiva concepção, parece haver, frequentemente, uma tendência para as considerarmos, de forma privilegiada, essencialmente como elementos de composição dos respectivos alçados e volumetrias.

Naturalmente, que esta é uma perspectiva genérica, mas é interessante considerá-la no que se refere ao relativo “esquecimento” que ela pode induzir, seja, numa primeira linha, no que se refere aos diversos conteúdos funcionais que podem e devem ser assegurados por uma janela, seja no que se refere à própria integração e ao papel formal das janelas na estruturação e na composição dos interiores domésticos.

É, basicamente, este lembrete o que corresponde à matéria tratada nos textos que se seguem, que devem, no entanto, ser tomados, basicamente, como uma reflexão muito livre sobre o assunto; e que decorre de alguma prática profissional de projectista e de uma muito longa prática profissional como agente de análise pormenorizada de centenas de casos práticos de edifícios habitacionais.

Breves notas sobre as janelas domésticas como elementos de composição dos alçados/volumetrias

Não sendo, aqui, o sítio adequado para uma reflexão alongada sobre o papel das janelas domésticas como elementos de composição dos respectivos alçados/volumetrias, pois estamos, agora, no mundo do interior doméstico e não nos níveos da vizinhança residencial, importará, no entanto, considerar que a formalização pormenorizada das janelas de peito e de sacada, bem como as associadas pormenorizações de varandas e balcões, não respeita, frequentemente, um equilíbrio formal e funcional marcado por significativos aspectos de integração local, escala humana e caracterização residencial.

A opção faz-se, frequentemente, por soluções normalizadas e pouco harmonizadas com a escala e o carácter do respectivo edifício residencial, e o que dizer de uma ausência de uma pormenorização que, para além de servir tais preocupações de integração e de escala, pudesse realmente valorizar a solução global de alçados e de volumetria numa perspectiva de solução verdadeiramente global, integrada nos seus elementos e na envolvente e expressivamente caracterizadora daquele edifício ou conjunto edificado específicos: sendo esta última opção, naturalmente, aquela que é marcada por uma adequada qualidade arquitectónica.

Sabemos, evidentemente, que uma tal opção tem importantes implicações económicas (ex., pormenorização específica para um dado edifício), mas por vezes até em soluções sem expressivas preocupações de economia ela não existe e, em outros casos, fica muito evidente não ter havido uma adequada pesquisa das múltiplas soluções-tipo disponíveis e não tenhamos dúvida que, hoje em dia (ao contrário do que acontecia há algumas dezenas de anos), há inúmeras soluções de catálogo disponíveis para se poderem “montar” soluções específicas de fenestração bem integradas e valorizadoras da respectiva solução arquitectónica global.

Fig. 01: janela com ampla luz natural, com enquadramento de vistas do exterior, com vão de correr manobrável, com vidro de segurança abaixo do parapeito ...

Notas sobre a multifuncionalidade das janelas domésticas

Um outro aspecto que importa, sempre, lembrar quando se aborda a temática da fenestração doméstica, refere-se à fundamental multifuncionalidade que deve marcar a respectiva concepção, considerando-se, designadamente, os seguintes aspectos formais/funcionais:

- adequadas condições de relação com o exterior, a partir do interior doméstico e também, um pouco, “vice-versa”, através de adequadas “transparências” e expressões funcionais dos espaços interiores domésticos sobre as respectivas vizinhanças de proximidade;

- adequadas condições de conforto ambiental interior – boa luz natural e adequadas condições de obscurecimento, bom isolamento térmico e sonoro e boa ventilação natural;

- adequadas condições de segurança: no uso, designadamente, por crianças e idosos, e visando-se, especificamente, riscos de queda no uso normal e quando em acções de manobra e manutenção; e por previsão do respectivo encerramento (segurança contra intrusões);

- e adequadas condições de possibilidade de uso de espaços exteriores e interiores contíguos; seja de forma independente (ex., só espaços exteriores, ou só espaços interiores); seja de forma integrada, através de estimulantes continuidades entre interiores e exteriores domésticos.


Fig. 02: uma janela dupla perfeitamente enquadrada com móvel aparador, estruturando a sala-comum.

Reflexões sobre as janelas como elementos de composição do interior doméstico

As janelas domésticas devem ser encaradas como elementos cujas características formais e funcionais estejam adequadamente harmonizadas com a caracterização global de um ambiente/quadro doméstico e com um muito amplo leque de opções em termos de arranjos domésticos, condição esta que obrigará a um sensível cuidado em termos de soluções formais de janelas que sejam, pelo menos, compatíveis com esse amplo leque de arranjos.

Há, no entanto, aspectos básicos a considerar na fenestração, de forma privilegiada ou estruturadora da organização doméstica e entre estes  sobressai a capacidade de mobilar os diversos compartimentos e espaços, associada, designadamente, à expressiva disponibilização de paredes para encostar mobiliário, mas também associada a questões de dimensionamentos versáteis, que proporcionem, por exemplo, mobilar e circular, e ainda associada a adequadas relações geométricas entre paredes e vãos de janela e de porta, proporcionando a sua respectiva manobra mas também a boa integração de mobiliário (ex., aproveitando bem os cantos dos compartimentos).
Um exemplo interessante deste tipo de preocupações encontra-se em tradicionais soluções de fenestração, cujas folhas envidraçadas e portadas de segurança ficam praticamente “embebidas” na espessura das paredes, em vãos tão funcionais como fortemente expressivos pela sua capacidade simbólica e marcante de uma relação interior/exterior bem enquadrada e enquadradora.

É essencial pensar, pelo menos, na materialidade das soluções de fenestração e na sua expressão formal mais marcante; uma preocupação que nos pode levar a escolher vãos de janela com perfis de caixilharia reduzidos, material e cromaticamente neutros (no que se refere ao seu potencial de harmonização com variados arranjos interiores) e com superfícies envidraçadas maximizadas; opções estas que, no entanto, não devem comprometer outras exigências a ter com os vãos exteriores, essencialmente no que se refere ao conforto ambiental interior, designadamente, no que se refere ao sombreamento e à ventilação natural.

Uma das soluções historicamente consolidadas em termos da harmonização interior de soluções de fenestração liga-se ao uso, nesta fenestração e nos seus elementos associados, de materiais, texturas e acabamentos naturais (ex., aço, madeira, tecidos naturais e “lisos”, etc.), sendo que, com sentido contrário, as soluções marcadas pela artificialidade (ex., plásticos) podem comprometer significativamente a referida harmonização interior doméstica entre fenestração e os mais diversos tipos e conteúdos de arranjos. 

Há, ainda, um aspecto essencial a considerar na previsão da fenestração doméstica, “pelo interior”, que é a fundamental adequação dos vãos relativamente à sua orientação solar, tendo-se em conta a necessidade de dispositivos específicos de controlo da insolação, da luz natural e da ventilação natural, muito ligados às características específicas de orientação de cada vão e que também devem cumprir as referidas condições de harmonização com um amplo leque de potencias arranjos interiores domésticos.

Também um importante aspecto a ter em conta na boa integração da fenestração nas diversas soluções de espaços domésticos interiores, refere-se às respectivas condições de “securização” dos vãos contra intrusões; matéria sensível e complexa, pois as soluções de portadas interiores deixaram de ter, actualmente, expressiva aplicabilidade e sendo que as soluções baseadas em alarmes acabam por ser diversas nas condições disponibilizadas, não proporcionando uma clara expressão de um sentido de segurança directa contra intrusões.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 687

As janelas e o interior doméstico – Infohabitar 687


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo/LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil




Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, fevereiro 05, 2019

673 - Pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 673

Infohabitar, Ano XV, n.º 673
Pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 673
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

por António Baptista Coelho (texto e desenhos)
Sobre uma habitação feita mais por sítios específicos do que por espaços ditos de/para actividades e funções domésticas.
Aproveitando para lembrar, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e é tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas e dinâmicas.
Sobre a previsão destes tipo de “cantos”, “recantos” e “sítios”  domésticos, que são, em boa parte, os grandes responsáveis pela criação de um grande mundo pessoal e familiar, destacam-se alguns aspectos muito variados e, designadamente, de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade, de funcionalidade com sentido lato e de adequada, rica e apropriável pormenorização arquitectónica, que, em seguida, muito brevemente se apontam – não exaustivamente (trata-se de um texto naturalmente dinâmico).

Sobre os pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados – considerações estruturantes

Antes de passar a alguns, pouco, comentários específicos sobre a caracterização e a importância que podem ter alguns tipos de espaços privados exteriores e de relação interior/exterior, numa adequada vivência dos nossos espaços domésticos pessoais e familiares, importa abordá-los, resumidamente, de uma forma geral e introdutória àqueles comentários.
Em primeiro lugar um aviso, talvez desnecessário mas sempre útil, que não se irão apontar aqui aspectos sistemáticos de projecto destes espaços, mas sim considerá-los numa perspectiva de concepção muito aberta e estimulante de boas e renovadas formas de habitar os nossos espaços domésticos, sendo que a primeiríssima consideração a registar é que estes tipos de espaços de fruição directa do exterior e de afirmada (física) relação com o interior doméstico, têm de se constituir em verdadeiros elementos estruturantes dos respectivos projectos de Arquitecturas, marcando seja o carácter/qualificação dos seus interiores, seja o carácter/imagem da sua face pública. E tudo o que seja menos do que isto não deve chegar, pois será sempre referido a colagens, mais ou menos, postiças de tais elementos/espaços nas fachadas dos edifícios e no prolongamento “automático” dos respectivos interiores contíguos.
Tal condição é essencial e está provada/garantida em múltiplos testemunhos de grandes Mestres Arquitectos, que a ela se referem, sublinhando, por vezes, que a própria essência da Arquitectura é o “jogo” de relações entre espaços e, designadamente, entre espaços interiores, exteriores e de transição/graduação ou de aberturas visuais mútuas.
Naturalmente que esta condição será tanto mais importante, quanto mais “liberta” de condicionantes envolventes e de agregação estiver a solução arquitectónica residencial, sendo básica, por exemplo, na concepção de moradias unifamiliares isoladas; mas ela é, também, fundamental mesmo, por exemplo, como bem sabemos, em grandes edifícios multifamiliares integrados em centros urbanos densos, que podem basear boa parte do seu carácter arquitectónico próprio/único no manejar da sua vertente de, eventuais, “cascatas”, mais ou menos naturalizadas de grandes varandas domésticas.


Fig. 01: interpretação livre do conjunto residencial da Cooperativa UGTimo, no Zambujal - projecto do Arq.º José Alves Bicho 

Oito aspectos de concepção a ter em conta no desenvolvimento de pequenos espaços exteriores privados

Para além da consideração básica que acabou de ser apontada, existem, pelo menos, oito “famílias” de aspectos, igualmente estruturantes da concepção de pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior, que importa aqui registar, de forma sintética: 

Exterior privado e janelas domésticas

Parece óbvio, mas tantas vezes excelentes pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior têm a sua presença muito menorizada por soluções de vãos pouco adequadas em termos de más influências na funcionalidade dos espaços contíguos, pormenorização visual inadequada, pouca segurança contra intrusões, etc.
E tal condição é extremamente crítica, por exemplo, quando, por exemplo, se desenvolvem, de raiz, varandas envidraçadas; cuja caracterização arquitectónica pode variar entre a excelência e a extrema dissonância, mercê de soluções de vãos bem diferentes na sua pormenorização.

As vistas no exterior privado

Desenvolver qualquer pequeno espaços doméstico privados exterior ou de transição interior/exterior, implica programar e assegurar as respectivas estratégias de vistas: sobre o exterior público; sobre o interior privado, a partir deste último e através do exterior privado, etc.
E mesmo que tais vistas não existam ou seja muito condicionadas, como é, por exemplo, o caso de um pequeno pátio privativo, tais vistas têm de ser consideradas e devidamente trabalhadas, neste caso, no sentido de se proporcionar um interessante sentido intimista e protegido.  

A criatividade volumétrica e pormenorizada no exterior privado

A matéria, acima apontada, do papel estruturante que os pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior assumem na concepção arquitectónica residência, liga-se a um aspecto, talvez mais “fino” na sua consideração, referido à grande criatividade volumétrica, multilateral e pormenorizadamente diversificada que pode e deve ser proporcionada por tais espaços.
Uma condição bem evidente na diferença que existe, por exemplo, entre varandas muito abertas e balcões expressivamente mais encerrados ou resguardados, e, naturalmente, entre a grande variedade que é possível seja entre varandas – desde a pequeníssima varanda apenas de assomar, à mais profunda e orgânica varanda/sala – e entre a expressiva diversidade tipológica e volumétrica que é possível no desenvolvimento de pequenos pátios privados, mais ou menos encerrados, mais ou menos tratados como pátio construído ou como pequeno jardim.

Usos reais do exterior privado

Evidentemente que condição de proporcionarem, ou não, usos reais, é marcante na caracterização e na adequada viabilidade dos pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior.
Talvez basta apontar que um uso real pode ser “apenas” o proporcionar a possibilidade de “colocar os pés na rua”, de “estar cá fora”, em pequeníssimas varandas de assomar. Mas o uso real pode ser, por exemplo, proporcionar um variado conjunto de funções de estar, lazer e elaboração e toma de refeições  numa ampla e bem equipada varanda/sala. Talvez o que não faça qualquer sentido são as situações dimensionalmente “neutras” e inadequadas que proporcionem um pouco mais de espaço para estar “cá fora” em pé e nada mais, designadamente, quando em quadros habitacionais com controlo de custos.

Exterior privado e relação com aspectos de segurança

Não sendo, talvez, aqui o sítio para o desenvolvimento desta essencial matéria, que obriga a uma atenção específica e desenvolvida, não faria sentido não registar e sublinhar que a concepção global e pormenorizada dos espaços, equipamentos, elementos de pormenorização e soluções de manutenção dos pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior têm de cumprir exigentes condições de segurança no uso, designadamente, em espaços elevados e no que se refere ao risco de queda dos habitantes, com natural destaque para crianças e idosos.
Outro aspecto de segurança a considerar tem a ver com a defesa relativamente a intrusões em espaços exteriores privados térreos ou próximos do nível térreo, pois, não existindo tais condições, originam-se, frequentemente, iniciativas dos habitantes procurando solucionar esta situação, frequentemente inadequadas em termos funcionais e de imagem pública.

Exterior privado e relação com o conforto

Naturalmente que o desenvolvimento de pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior só faz sentido quando a respectiva orientação solar e eólica lhes proporcione adequadas condições de conforto ambiental; sendo que as respectivas condições de pormenorização poderão apoiar tais condições, designadamente, no seu controlo ao longo do dia e no decorrer das estações do ano.

Exterior privado e relação com a natureza

Evidentemente que os pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior são locais estratégicos de integração de elementos naturais em soluções muito diversificadas e perfeitamente integradas na solução arquitectónica global, conseguindo-se efeitos globais muito interessantes, por sequências de imagens, com dois sentidos, entre verde público e verde privado e obtendo-se um muito importante factor de apropriação residencial e doméstica, através de um verde privado que cada morador poderá “manejar” e recriar a seu gosto.

Exterior privado, relação com a acessibilidade e caracterização tipológica

Um aspecto de grande interesse na geração de variadas tipologias de edifícios residenciais de baixa altura e/ou de transição entre o uni e o multifamiliar e, também, de importante relação com variados gostos e hábitos residenciais refere-se à possibilidade de pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior proporcionarem acessos directos (devidamente controlados) entre os espaços privados e espaços públicos ou de uso público (ex., caminhos pedonais de vizinhança) ou entre espaços privados e espaços públicos (ex., galerias de acesso comum elevadas).

Fig. 02: interpretação livre de um conjunto residencial da Cooperativa COOHAFAL, Funchal, projecto coordenado pelo Arq.º João Francisco Caires.

Consideração complementar sobre o equilíbrio de aéreas domésticas interiores e exteriores

Tratando-se de uma matéria que, por si só, justificará cuidadosas reflexões, regista-se aqui, apenas, que não se considera poder-se concluir, basicamente, por uma tendência de anular os pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior, quando se desenvolvem habitações com áreas e custos controlados.
Considera-se que, pelas razões acima apontadas, o papel destes espaços é de grande importância na qualificação de uma adequada habitabilidade residencial, embora, naturalmente, existam situações onde, por exemplo, é preciso optar entre um interior um pouco menos exíguo e a disponibilização de uma varanda razoável. Mas há muitas soluções possíveis e importa sempre ter em conta que quando os edifícios são baixos e o exterior residencial público é agradável e convidativo, será possível reduzir “estrategicamente” o exterior privado.
Em próximas edições serão abordadas algumas tipologias de pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 673
Pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 673
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar,– Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, abril 16, 2018

637 - Caracterização geral dos vãos exteriores II - Infohabitar 637



Infohabitar, Ano XIV, n.º 637


Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CX



Caracterização geral dos vãos exteriores  II


por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Segurança contra quedas a partir de vãos e de guardas de pisos elevados

Esta é uma matéria que nem deveria ser aqui apontada, pois é evidente que este tipo de segurança, contra quedas a partir de vãos exteriores e varandas/terraços, deveria ser acautelada, ao máximo, por disposições específicas sobre a alturas dos peitoris e sobre a pormenorização e constituição da parte dos vãos inferior a esses peitoris, ou, em alternativa, mecanismos legais que acautelem as situações de responsabilidade civil associadas às quedas de altura que podem, infelizmente, ocorrer -  pensa-se, por exemplo, e se tal for legalmente possível, na existência de uma declaração assinada por quem assuma gostar de viver em determinadas condições, que podem ser arriscadas no que se refere a quedas.

Não faz, evidentemente, qualquer sentido desenharem-se vãos e guardas que não tenham em conta a protecção contra quedas, mas também fazem pouco sentido normas que obriguem a soluções únicas. Será portanto necessário identificar soluções que garantam, o mais possível, essa segurança, mas contribuindo para a qualidade arquitectónica da solução global e não desperdiçando as potencialidades de vistas e de conforto ambiental desses vão e espaços elevados; e haverá, aqui, matéria para posteriores desenvolvimentos, designadamente, em termos de simples e úteis colectâneas de soluções pormenorizadas.


Segurança contra intrusões físicas e visuais em vãos exteriores térreos ou pouco elevados.

A questão da segurança contra intrusões em vãos exteriores térreos ou pouco elevados é uma matéria que tem de ser considerada, à partida, na solução de fenestração de um dado edifício, pois não faz sentido "esquecer" que essa será logo uma das preocupações dos respectivos habitantes. E atente-se que haverá, com certeza, uma associação entre estes aspectos de segurança contra intrusão e os de protecção da privacidade doméstica.

Não faz sentido que assim não aconteça pois a segurança contra intrusões tem de ser bem acautelada, em pisos térreos ou acessíveis directamente do exterior ou através de galerias comuns, através da consideração de vários aspectos entre os quais se salientam: a altura de janelas, muros e vedações; a visibilidade a partir de sítios muito usados; e a previsão de gradeamentos, gelosias, portadas e fechaduras de segurança.

Naturalmente não faz qualquer sentido que tais cuidados nãos sejam integrados com as respectivas exigências de privacidade visual e de agradabilidade, caso contrário a habitação transforma-se num fortim ...

E, evidentemente, tais cuidados de segurança e privacidade têm de ser integrados no projecto da habitação e do edifício, e desejavelmente devem contribuir para a sua qualidade global, pois são aspectos indissociáveis de boas condições habitacionais.




Vãos exteriores "estanques" e com abertura controlada

É fundamental que os vãos exteriores sejam estanques ao ar, à água da chuva e ao ruído (janelas de peito e de sacada, portas, respectivos peitoris, soleiras e ligações aos quadros dos vãos).

Esta é uma exigência básica, seja considerando todos os aspectos de relação visual e de conforto ambiental (isolamento térmico e impermeabilização), seja considerando o bem-estar doméstico, que tudo tem a ganhar com a possibilidade de nos podermos isolar de ruídos exteriores desagradáveis e incómodos (por exemplo o ruído do tráfego intenso, do vento e da chuva).

Mas é igualmente fundamental que os vãos exteriores não desperdicem a possibilidade de serem elementos de captação de luz, sol e ar renovado e fresco, e para tal é fundamental que existam elementos de controlo dessa luz, dessa radiação solar e desse ar, e que tais dispositivos sejam realmente eficazes e fáceis de usar.

E é também muito importante que os vãos exteriores envidraçados tenham uma manutenção e uma limpeza simplificadas, pois caso contrário os benefícios de uma boa fenestração ficarão muito diminuídos; e não tenhamos dúvida que o projecto tem de prever tais condições de manutenção e limpeza.

As janelas peito e de sacada podem ser de variados tipos funcionais e dimensionais, apresentarem diferentes características gerais de aspecto, disposição e configuração e estarem conjugadas com diversos tipos de elementos complementares (ex., bandeiras superiores ou laterais manobráveis). Não faz qualquer sentido é considerar-se "um vão" como um simples "buraco envidraçado", sem se contemplar a sua solução de funcionamento, seja em termos de controlo de luz e de capacidade de ventilação, seja considerando a sua manutenção e limpeza.

Tal como já se referiu uma janela não é apenas um vão transparente, é também o seu aproveitamento e controlo em termos de luz, insolação, ventilação, vistas exteriores, privacidade interior e segurança no uso e contra intrusões; só janelas em que todas estas facetas estejam adequadamente solucionadas, em termos funcionais e de imagem arquitectónica, serão janelas bem projectadas, e não é fácil.


Escolha e enquadramento da vistas sobre o exterior.

Tal como apontou Charles Moore: "As vistas existem já, a única habilidade está na sua captura através de janelas (quadros), a partir do interior. As vistas de exteriores assemelham-se às perspectivas que podemos apreciar em quadros pendurados nas paredes, mas mudam com as estações do ano e constantemente (estão vivas)...permitem a entrada do habitante na perspectiva exterior...". (1)

E esta é uma frase fundamental, que associa aos aspectos de conforto ambiental, assegurados pelos vãos exteriores, uma outra carga conceptual com idêntica importância: a captura, o enquadramento e a valorização de vistas exteriores, proporcionando a sua fruição pelos habitantes. Mas, infelizmente, todos conhecemos casos de janelas ou de "não-janelas" que, nem proporcionam "sol, luz e ar", nem nos facultam vistas e estimulantes; e há ainda aquelas famigeradas grandes paredes "cegas", que tão bem ficam nos desenhos de projecto e que, por acaso, são contíguas a vistas excepcionais, e ainda por cima a orientação de tais janelas seria óptima - tal não se compreende e não se deveria aceitar.

Considerando agora um certo carácter mais formal que pode existir no desenvolvimento dos vãos domésticos gostaria de referir que o único limite ao seu desenvolvimento deveria ser a boa mobilaridade do interior; mas aqui até há situações contrárias, em que o ritmo de uma dada solução de fachada/janelas produz compartimentos domésticos quase inúteis - enfim!

Sobre o partido formal da fenestração ele já foi aproximado nos aspectos da apropriação através do interessante povoamento de vãos profundos e amplos com variados objectos, numa opção que tanto identifica o interior doméstico, como o projecta um pouco sobre a respectiva vizinhança. Quanto a outras matérias formais e construtivas associadas ao tratamento exterior. e também interior, dos vãos elas são de grande importância arquitectónica, mas ligam-se essencialmente ao muno da concepção de cada solução, pelo que não serão aqui comentadas.


Gradação e melhor reflexão da luz no interior

Segundo Christopher Alexander, os vãos de janelas com arestas interiores ortogonais e aguçadas produzem desagradáveis (encandeantes) contrastes de luz (muito brilho/linha de escuridão) (2); e este autor considera que vãos de janela "fundos", cerca de 0.25/0.30m de profundidade e não ortogonais (ângulos de 50/60º com os planos das paredes interiores), proporcionam zonas de luz natural com intensidades intermédias, que reduzem os contrastes bruscos de luz e aumentam a reflexão da luz natural, tornando o espaço interior mais agradavelmente visível nos seus pormenores.

E cá estamos na aproximação aos referidos e tão apropriáveis vãos fundos, e salienta-se que, ultimamente, com as crescentes exigências de isolamento térmico, tais profundidades voltaram a poder ser correntes; e então nas áreas da reabilitação elas são casos correntes.


Sobre a racionalidade ou a subdivisão das zonas envidraçadas

Segundo Christopher Alexander as janelas amplas e com grandes chapas de vidro contínuas proporcionam vistas uniformes, enquanto várias janelas relativamente estreitas e verticais oferecem vistas diferentes.

Embora esta reflexão seja interessante, julga-se que ela pode ser tomada numa perspectiva ampla, direccionada para uma orgânica previsão da fenestração exterior, que também tem de levar em conta o custo inicial e de eventual substituição de grandes superfícies envidraçadas, assim como os custos iniciais de protecção (contra intempéries e contra intrusão) dos grandes vãos envidraçados.

Notas:

(1) Charles Moore; Gerard Allen; Donlyn Lyndon, "La Casa: Forma y Diseño", p. 101.

(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 913 e 914.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 637

Caracterização geral dos vãos exteriores II


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
abc@lnec.pt

Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, abril 09, 2018

636 - Caracterização geral dos vãos exteriores I - Infohabitar 636


Infohabitar, Ano XIV, n.º 636


Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CIX


por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Caracterização geral dos vãos exteriores I
Sobre a caracterizaçação dos vãos exteriores importa referir, essencialmente, que eles têm uma enorme importância em termos de conforto ambiental doméstico, em termos de luz, insolação, ventilação, isolamento acústico e abertura de vistas exteriores, e que, portanto, têm de ser muio bem concebidos em termos dimensionais e funcionais ao serviço de todos esses fundamentais objectivos de melhor habitabilidade e vivência doméstica- e para tal há uma enorme variedade de tipos de tipos gerais de janelas (1): levantável, giratório, rebatível, basculante, pivotante, de guilhotina; e de correr.
Não faz, portanto, qualquer sentido que o vão exterior seja considerado apenas como elemento de composição da fachada, há que harmonizar a sua dupla função e, sendo necessário, haverá que privilegiar a sua função "interior", não havendo qualquer dúvida de que uma boa janela exige um apurado cuidado de concepção.
Pormenorização geral dos vãos exteriores
Os vãos exteriores de peito e de sacada são, muito provavelmente, tão importantes na satisfação doméstica, quanto o espaço interior em que se conjugam; e haverá, muito provavelmente, "mecanismos" de compensação que acabam por funcionar e que põem em relevo o enrme problema criado por projectos de habitações dimensionalmente exíguas, gloabelmente mal dimensionadas e mal orientadas, mas para além de tuso isto, mal servidas por janelas exíguas, mal orientadas e pobremente desenhadas em todos aqueles aspectos associados às matérias do conforto ambiental (luz natural abundante, controlo de luz e de temperatura, ventilação e isolamento sonoro) e ao desenvolvimento de verdadeiros "lugares-janela".
Os vão exteriores são fundamentais na criação de um espaço doméstico que associe funcionalidade, segurança, conforto ambiental e essenciais aspectos de comunicabilidade com o exterior e de apropriação; uma importância claramente subalternizada coma excepção das boas arquitecturas.



Não é fácil fazer um adequado mapa "global" de possíveis vãos exteriores, pois as janelas - de peito e de sacada - têm de garantir condições que são, por vezes, antagónicas como é o caso da segurança contra quedas e contra intrusões, a possibilidade de obscurecimento do interior doméstico e o seu eficaz isolamento em termos de temperatura e contra o ruído exterior, e os referidos aspectos de grande relação com o exterior natural e urbano, aspectos estes também associados ao uso intenso dos espaços exteriores privativos e dos riquíssimos limares de transição interior/exterior que muito ficarão a dever  ao desenvolvimento de boas soluções de janelas e janelões; e com tudo isto há que harmonizar os custos, tradicionalmente elevados nesta parte da obra.
Podemos dizer que uma (muito) boa janela é um verdadeiro "tratado", pois assegura vistas e outras relações humanas entre interior e exterior, isolamento térmico e contra os ruídos do exterior, ganhos térmicos e ganhos de insolação controlados e bem distintos no Inverno e no Verão, ventilação controlada do respectivo espaço doméstico, considerando que este assume um papel específico na necessária solução global de ventilação da habitação, e também assegura adequadas condições de segurança contra riscos de queda e intrusões e, finalmente, assegura um importantíssimo papel seja na funcionalidade e na apropriação do respectivo espaços doméstico que integra, seja mesmo no nível de atractividade e de identidade que caracteriza o respectivo edifício. E, naturalmente, uma "má janela", como se pode concluir é quase como um falhanço crítico na qualidade global do projecto e na sua influência na satisfação dos respectivos habitantes; e, infelizmente, não é pouco frequente seja a associação crítica entre maus projectos gerais e de janelas, seja a não valorização de um bom projecto geral, ou mesmo o seu muito sensível empobrecimento através de más soluções de janelas.
As janelas domésticas e os seus elementos de regulação devem ter, assim, designadamente, as seguintes características:

- proporcionarem abundante luz natural e radiação solar equilibrada manobra;

- isolarem do ruído e do calor do Verão;

- terem limpeza funcional e seguras e protecções reguláveis do interior e com facilidade;

- terem "bandeiras" de ventilação bem posicionadas e reguláveis, proporcionando ventilação cruzada entre compartimentos e o encaminhamento do ar mais para o tecto (para "varrer" o ar quente que aí se pode acumular), ou mais para baixo (refrescando directamente os habitantes);

- proporcionarem vistas exteriores agradáveis;

- poderem ser encerradas para proporcionarem segurança, privacidade e regulação da luz natural;

- participarem, activamente, seja na boa capacidade mobilável do respectivo compartimento, seja nas boas capacidades funcionais - luz natural e posicionamento relativo - das actividades aí potencialmente mais frequentes e mesmo na respectiva capacidade de apropriação e de atractividade, designadamente, pela expressão reforçada das suas margens - o exemplo desta capacidade é-nos proporcionado por muitas excelentes janelas de tantas habitações mais antigas;

- serem seguras na sua utilização habitual, considerando-se, designadamente, o seu uso por crianças;

- e, naturalmente, estarem, perfeitamente integradas no equilíbrio visual e no partido arquitectónico do respectivo projecto - condição básica e que poderia estar, aqui, ausente, pois trata-se de matéria realmente essencial e primária num bom projecto.
  
Todos reconhecemos a capacidade de atractividade interior e exterior dos vãos exteriores, uma capacidade que, no entanto, está pouco expressa na prática corrente e, nestas matérias há "segredos" importantes entre os quais e segundo Alexander se saçienta o reforço do tratamento das margens dos vãos, e nomeadamente dos exteriores, que  corresponde à evidenciação do natural reforço que se tem de aplicar em torno de uma certa zona de um pano de parede que se pretende abrir e tratar como janela ou porta; de certo modo correspondendo a um desvio e a uma concentração de linhas de força, tal como refere Alexander. (2)
De certa forma quando nos concentramos nos vãos exteriores há que considerar reforços de visibilidade, de profundidades e de transparências.
A profundidade aparente de um vão exterior é muito importante, criando-se com os seus elementos de enquadramento e com outros elementos suplementares, como os encalços e mesmo as cortinas, "um pequeno mundo intermédio ou de limiar", entre o exterior público e o nosso "santuário" doméstico interior, que fica bem destacado, afastado e protegido.
Tal como se refere num estudo do LNEC já aqui, várias vezes, citado (ITA 2), desde que exista algum espaço nesse limiar, ele pode ser povoado e habitado, por plantas e objectos pessoais e domésticos (ex., molduras com fotografias da família), situação esta que proporciona transições e ligações entre espaços interiores e exteriores (ex., vários planos de plantas, interiores e exteriores, privadas ou públicas) e constitui uma barreira psicológica de protecção do nosso espaço doméstico; outra função básica destes espaços é a marcação doméstica das fachadas, para além da sua, natural, marcação pessoal (ex., aquela janela igual às outras, mas com uma planta bem identificável, uma determinada cor nas cortinas e uma resma de livros, é a nossa janela).
E há que sublinhar que, naturalmente, nada disto acontece em janelas simplesmente recortadas e "chapadas" nas paredes, interior e exteriormente, que são meros intervalos ou "ocos" da construção; desta forma perde-se todo um importantíssimo mundo de escalas reduzidas que marcam limiares e buffers que, tanto protegem, até termicamente, como marcam e que podem ser excelentes locais de identidade e apropriação, pois têm alguma, mitigada, visibilidade pública, estando em pisos pouco elevados - assunto este que merecerá posterior e específico desenvolvimento - e porque são assumidos com naturalidade como espaços positivamente "residuais"; e nesta matéria pode-se comentar que se trata de espaços hoje construtivamente sem sentido, o que é verdade, mas não deixando de ser verdade que aquelas excelentes funções de protecção e identificação marginal continuam a fazer todo o sentido, podendo justificar a sua "reconstituição" essencialmente formal, e independente dos aspectos construtivos.
Importa sublinhar que a fenestração do habitar deve adequar-se à altura a que é aplicada no edifício, tanto porque quanto mais abaixo estiver maior área envidraçada é necessária para se obterem os mesmos níveis de luz natural interior, como porque são diversas as relações visuais que caracterizam a relação do interior sobre o exterior, conforme o nível em que se está; e estes aspectos de desenho pormenorizado são elementos estratégicos na caracterização da solução, salientando-se que aqui não se defende a sistemática divesificação da fenestração, conforme os seus níveis de aplicação, apenas que se tenha em atenção o que acabou de ser referido, até, eventualmente, no estudo que se fala de um vão-tipo optimizado e aplicável de forma muito generalizada. FIG
A fenestração térrea habitacional e próxima do nível térreo exige uma concepção específica cuidada de modo a que se harmonizem boas condições de iluminação natural e vistas com aspectos de segurança contra intrusões e de privacidade visual, sendo muito provável o interesse de se desenvolverem desníveis e interposições de espaços e elementos estratégicos, assim como um "espessar" do vão, ele próprio elemento de primeira linha na protecção visual que proporciona ao interior doméstico. E não tenhamos dúvidas que todos estes cuidados são elementos que reforçam a força de embasamento e o carácter do respectivo edifício.

Na próxima semana avançaremos para aspectos mais específicos do "desenho" dos vãos exteriores.
Notas:
(1)  Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", p. 111.

(2)   Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 919 e 920.
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Infohabitar, Ano XIV, n.º 636

Caracterização geral dos vãos exteriores I


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