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terça-feira, maio 21, 2019

687 - As janelas e o interior doméstico – Infohabitar 687

Infohabitar, Ano XV, n.º 687                      

As janelas e o interior doméstico – Infohabitar 687

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Sequem-se algumas notas sobre a relação entre o interior doméstico e os respectivos vãos de janela, considerados estes vãos como importantes elementos de construção, acabamento, e qualidade arquitectónica do interior doméstico.


Pensar as janelas como elementos de composição dos alçados/volumetrias, mas também como elementos multifuncionais e de composição do interior doméstico.

Quando abordamos as janelas domésticas, do ponto de vista da respectiva concepção, parece haver, frequentemente, uma tendência para as considerarmos, de forma privilegiada, essencialmente como elementos de composição dos respectivos alçados e volumetrias.

Naturalmente, que esta é uma perspectiva genérica, mas é interessante considerá-la no que se refere ao relativo “esquecimento” que ela pode induzir, seja, numa primeira linha, no que se refere aos diversos conteúdos funcionais que podem e devem ser assegurados por uma janela, seja no que se refere à própria integração e ao papel formal das janelas na estruturação e na composição dos interiores domésticos.

É, basicamente, este lembrete o que corresponde à matéria tratada nos textos que se seguem, que devem, no entanto, ser tomados, basicamente, como uma reflexão muito livre sobre o assunto; e que decorre de alguma prática profissional de projectista e de uma muito longa prática profissional como agente de análise pormenorizada de centenas de casos práticos de edifícios habitacionais.

Breves notas sobre as janelas domésticas como elementos de composição dos alçados/volumetrias

Não sendo, aqui, o sítio adequado para uma reflexão alongada sobre o papel das janelas domésticas como elementos de composição dos respectivos alçados/volumetrias, pois estamos, agora, no mundo do interior doméstico e não nos níveos da vizinhança residencial, importará, no entanto, considerar que a formalização pormenorizada das janelas de peito e de sacada, bem como as associadas pormenorizações de varandas e balcões, não respeita, frequentemente, um equilíbrio formal e funcional marcado por significativos aspectos de integração local, escala humana e caracterização residencial.

A opção faz-se, frequentemente, por soluções normalizadas e pouco harmonizadas com a escala e o carácter do respectivo edifício residencial, e o que dizer de uma ausência de uma pormenorização que, para além de servir tais preocupações de integração e de escala, pudesse realmente valorizar a solução global de alçados e de volumetria numa perspectiva de solução verdadeiramente global, integrada nos seus elementos e na envolvente e expressivamente caracterizadora daquele edifício ou conjunto edificado específicos: sendo esta última opção, naturalmente, aquela que é marcada por uma adequada qualidade arquitectónica.

Sabemos, evidentemente, que uma tal opção tem importantes implicações económicas (ex., pormenorização específica para um dado edifício), mas por vezes até em soluções sem expressivas preocupações de economia ela não existe e, em outros casos, fica muito evidente não ter havido uma adequada pesquisa das múltiplas soluções-tipo disponíveis e não tenhamos dúvida que, hoje em dia (ao contrário do que acontecia há algumas dezenas de anos), há inúmeras soluções de catálogo disponíveis para se poderem “montar” soluções específicas de fenestração bem integradas e valorizadoras da respectiva solução arquitectónica global.

Fig. 01: janela com ampla luz natural, com enquadramento de vistas do exterior, com vão de correr manobrável, com vidro de segurança abaixo do parapeito ...

Notas sobre a multifuncionalidade das janelas domésticas

Um outro aspecto que importa, sempre, lembrar quando se aborda a temática da fenestração doméstica, refere-se à fundamental multifuncionalidade que deve marcar a respectiva concepção, considerando-se, designadamente, os seguintes aspectos formais/funcionais:

- adequadas condições de relação com o exterior, a partir do interior doméstico e também, um pouco, “vice-versa”, através de adequadas “transparências” e expressões funcionais dos espaços interiores domésticos sobre as respectivas vizinhanças de proximidade;

- adequadas condições de conforto ambiental interior – boa luz natural e adequadas condições de obscurecimento, bom isolamento térmico e sonoro e boa ventilação natural;

- adequadas condições de segurança: no uso, designadamente, por crianças e idosos, e visando-se, especificamente, riscos de queda no uso normal e quando em acções de manobra e manutenção; e por previsão do respectivo encerramento (segurança contra intrusões);

- e adequadas condições de possibilidade de uso de espaços exteriores e interiores contíguos; seja de forma independente (ex., só espaços exteriores, ou só espaços interiores); seja de forma integrada, através de estimulantes continuidades entre interiores e exteriores domésticos.


Fig. 02: uma janela dupla perfeitamente enquadrada com móvel aparador, estruturando a sala-comum.

Reflexões sobre as janelas como elementos de composição do interior doméstico

As janelas domésticas devem ser encaradas como elementos cujas características formais e funcionais estejam adequadamente harmonizadas com a caracterização global de um ambiente/quadro doméstico e com um muito amplo leque de opções em termos de arranjos domésticos, condição esta que obrigará a um sensível cuidado em termos de soluções formais de janelas que sejam, pelo menos, compatíveis com esse amplo leque de arranjos.

Há, no entanto, aspectos básicos a considerar na fenestração, de forma privilegiada ou estruturadora da organização doméstica e entre estes  sobressai a capacidade de mobilar os diversos compartimentos e espaços, associada, designadamente, à expressiva disponibilização de paredes para encostar mobiliário, mas também associada a questões de dimensionamentos versáteis, que proporcionem, por exemplo, mobilar e circular, e ainda associada a adequadas relações geométricas entre paredes e vãos de janela e de porta, proporcionando a sua respectiva manobra mas também a boa integração de mobiliário (ex., aproveitando bem os cantos dos compartimentos).
Um exemplo interessante deste tipo de preocupações encontra-se em tradicionais soluções de fenestração, cujas folhas envidraçadas e portadas de segurança ficam praticamente “embebidas” na espessura das paredes, em vãos tão funcionais como fortemente expressivos pela sua capacidade simbólica e marcante de uma relação interior/exterior bem enquadrada e enquadradora.

É essencial pensar, pelo menos, na materialidade das soluções de fenestração e na sua expressão formal mais marcante; uma preocupação que nos pode levar a escolher vãos de janela com perfis de caixilharia reduzidos, material e cromaticamente neutros (no que se refere ao seu potencial de harmonização com variados arranjos interiores) e com superfícies envidraçadas maximizadas; opções estas que, no entanto, não devem comprometer outras exigências a ter com os vãos exteriores, essencialmente no que se refere ao conforto ambiental interior, designadamente, no que se refere ao sombreamento e à ventilação natural.

Uma das soluções historicamente consolidadas em termos da harmonização interior de soluções de fenestração liga-se ao uso, nesta fenestração e nos seus elementos associados, de materiais, texturas e acabamentos naturais (ex., aço, madeira, tecidos naturais e “lisos”, etc.), sendo que, com sentido contrário, as soluções marcadas pela artificialidade (ex., plásticos) podem comprometer significativamente a referida harmonização interior doméstica entre fenestração e os mais diversos tipos e conteúdos de arranjos. 

Há, ainda, um aspecto essencial a considerar na previsão da fenestração doméstica, “pelo interior”, que é a fundamental adequação dos vãos relativamente à sua orientação solar, tendo-se em conta a necessidade de dispositivos específicos de controlo da insolação, da luz natural e da ventilação natural, muito ligados às características específicas de orientação de cada vão e que também devem cumprir as referidas condições de harmonização com um amplo leque de potencias arranjos interiores domésticos.

Também um importante aspecto a ter em conta na boa integração da fenestração nas diversas soluções de espaços domésticos interiores, refere-se às respectivas condições de “securização” dos vãos contra intrusões; matéria sensível e complexa, pois as soluções de portadas interiores deixaram de ter, actualmente, expressiva aplicabilidade e sendo que as soluções baseadas em alarmes acabam por ser diversas nas condições disponibilizadas, não proporcionando uma clara expressão de um sentido de segurança directa contra intrusões.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 687

As janelas e o interior doméstico – Infohabitar 687


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo/LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil




Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, maio 14, 2019

686 - Guardas, parapeitos e peitoris domésticos – Infohabitar 686

Infohabitar, Ano XV, n.º 686                      

Guardas, parapeitos e peitoris domésticos e qualidade arquitectónica – Infohabitar 686

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagem)


Sequem-se algumas notas sobre a relação entre entre guardas, parapeitos e peitoris, considerados como importantes elementos de construção e de acabamento, e a qualidade de uso e arquitectónica do interior doméstico.



Guardas, parapeitos e peitoris domésticos: aspectos gerais ligados à qualidade arquitectónica

A constituição e configuração das guardas, parapeitos e peitoris domésticos refere-se, naturalmente a um elemento de projecto que importa harmonizar, seja considerando o efeito/composição global e pormenorizado dos respectivos alçados e volumetrias, em termos de vistas exteriores gerais e de aproximação;

seja considerando o seu efeito/composição pormenorizado em termos das vistas interiores domésticas em que se incluam os respectivos vãos;

seja no que se refere ao seu efeito em termos de vistas de enquadramento e de comunicabilidade/”atravessamento”, que são possíveis a partir do interior sobre o exterior;

seja considerando as suas influências directas e indirectas em termos das condições de segurança no uso, iluminação natural e ventilação natural dos espaços interiores servidos;

seja no que se refere a suas eventuais funcionalidades diversificadas, por exemplo: estar no exterior, debruçar sobre o exterior, ocupar com contentores e vasos de plantas, etc.;
seja no que se refere às respectivas condições de segurança no uso – matéria esta, que, devido à sua importância, é, em seguida, um pouco mais desenvolvida.

Será, talvez, oportuno apontar aqui que a qualidade arquitectónica integrada de uma dada solução de guardas, parapeitos ou peitoris, dependerá do nível, desejavelmente expressivo, de conjugação dessas soluções na totalidade do respectivo projecto/obra, atingindo-se, desejavelmente, situações em que essas soluções não têm presença autonomizável, mas apenas totalmente “embebida” na solução arquitectónica respectiva e global, e mesmo valorizando-a em termos da percepção da respectiva pormenorização.

Uma condição de expressiva integração da pormenorização na solução geral, que, hoje em dia, estará talvez um pouco mais facilitada pela disponibilização de um grande leque de soluções formais, funcionais e variadamente “materializadas”, mas que exige sempre uma grande sensibilidade e um grande cuidado na respectiva pormenorização e no vaivém obrigatório que tem de acontecer entre ela e a expressão do projecto global.


Fig. 01: guardas, parapeitos e peitoris domésticos: segurança e visibilidades estratégicas


Guardas, parapeitos e peitoris domésticos: segurança e visibilidades estratégicas

Nota importante: as reflexões que se seguem, designadamente referidas às condições de segurança em guardas, parapeitos e peitoris domésticos, não são exaustivas e, portanto, não substituem uma pesquisa bibliofráfica e documental adequada.
A constituição e configuração das guardas e peitoris deve ter em conta um máximo de condições de segurança em termos de altura ao pavimento, características "à prova de subida de crianças", e distâncias máximas de segurança entre elementos verticais constituintes; trata-se de matéria que não estando talvez ainda adequadamente regulamentada deve ser objecto da máxima atenção por parte dos projectistas.

Por esta razão apontam-se, em seguida, alguns aspectos de configuração de guardas que contribuem para a prevenção de quedas: (1)

"Abaixo da altura de protecção não existirão aberturas com dimensões maiores do que 0.12m, para evitar a passagem de uma criança, frestas rasantes ao pavimento maiores do que 0.05m, nem elementos que facilitem a escalada do parapeito ou da guarda; quando abaixo da altura de protecção existirem encerramentos em chapa de vidro, este deverão ser temperados, ou armados com malha metálica ou laminado plástico." 

E há que ter em conta que as guardas opacas despertam a curiosidade nas crianças, levando-as, por vezes, a subirem ao parapeito.

No entanto, e tal como foi registado no estudo no LNEC que tem sido referido nesta série editorial (ITA 2 – Do Bairro e da Vizinhança à Habitação”), os parapeitos devem permitir vistas ao longe e ao perto, sobre o exterior envolvente, e para isso devem ser relativamente baixos, também porque devem considerar a visibilidade de uma pessoa sentada perto da janela, condição esta que evidencia o interesse das janelas de sacada, ou das janelas com peitoril bastante baixo.

E não tenhamos quaisquer dúvidas de que um adequado tratamento "cénico" das vistas exteriores proporcionadas de uma dada habitação, considerando-se a possibilidade de reconfiguração dos seus vãos exteriores, produz efeitos verdadeiramente inesperados e com enorme impacto na vivência doméstica, sendo que, quando esta vida doméstica é vivida longa e intensamente, como acontece, frequentemente, no caso dos habitantes mais idosos e/ou de pessoas doentes e/ou com mobilidade condicionada, a possibilidade de se poderem usufruir vistas exteriores relativamente “mergulhantes” a partir de posições sentadas e próximas das janelas, tal possibilidade pode passar a ser uma quase-exigência para se cumprir uma concepção e uma qualidade arquitectónica vivencial interior verdadeiramente adequadas.

Salienta-se a distinção que Neufert faz entre parapeitos baixos para salas elevadas e com boas vistas (altura 0.50m, idêntica à altura proposta por Alexander) e parapeitos normais para salas e quartos de trabalho.(2) Há assim aqui uma evidente tendência para janelas domésticas com parapeito baixo, muito mais "paisagístico" do que o seguro parapeito com cerca de 90cm de altura, mas haverá aqui um trabalho a fazer para tornar seguros esses parapeitos mais baixos , por exemplo, com vidro de segurança e dispositivos específicos de fecho das respectivas janelas.

Tal como aponta Alexander uma outra solução, que evita a ambiguidade das janelas de sacada, que podem parecer portas, está em janelas com peitoris baixos entre 0.30 e 0.50m (convenientemente protegidos) e em "janelas francesas ou à francesa" (com soleiras a cerca de 0.10/0.15m de altura do pavimento interior), que permitem vistas mergulhantes sobre o exterior próximo até cerca de 0.60m de distância do vão. (3)

E importa sublinhar a necessidade urgente de se desenvolverem, aprofundarem e apontarem aspectos essenciais de segurança na configuração e constituição de guardas, parapeitos e peitoris domésticos, pois trata-se de matéria crítica que, infelizmente, vai pontuando notícias trágicas que surgem, periodicamente, em meios de comunicação social. 

E não se trata de se visar uma segurança “total”, mas tão somente inviabilizar ou dificultar muito os riscos de acidente mais frequentes e mais críticos – ex., quedas por atravessamento, por escalamento ou por parapeitos/peitoris baixos, ferimentos por quebra e queda de vidros, etc.

E um aspecto também muito importante nesta matéria de uma maior segurança no uso de guardas, parapeitos e peitoris domésticos e á consideração dos seus respectivos aspectos de durabilidade e de manutenção regular, pois também não é de aceitar seja a reduzida durabilidade das soluções seja que as operações de manutenção regular sejam feitas com risco das condições de segurança dos respectivos agentes de manutenção.


Guardas, parapeitos e peitoris domésticos: apropriação e variadas potencialidades

Para além de todos estes aspectos mais "objectivos" e funcionais há uma outra verdadeira dimensão dos espaços disponibilizados em alguns parapeitos e em muitos peitoris e zonas de soleira de janelas, que merece uma atenção muito específica, pois acaba por proporcionar uma boa parte da capacidade de apropriação oferecida pela habitação.

Estamo-nos a referir a aspectos aparentemente tão comezinhos como haver espaço para encher parapeitos com pequenos vasos com plantas e com os mais diversos objectos decorativos, personalizando e marcando, por exemplo, vãos de janela e criando assim zonas de "descompressão/limiar" com grande capacidade de atractividade e de identidade, tanto quando vistas do exterior como do interior doméstico.

E tais pequenas zonas são também espaços de expansão visual e virtual dos compartimentos onde se situam e nestes aspectos muito ganham com uma sua formalização rebaixada e/ou com o seu desenvolvimento em encalços ou vãos profundos, uma profundidade que era construtivamente justificada, até meados do século XX, e que hoje em dia ganhou algum fôlego, seja com a previsão de paredes mais espessas por incorporarem recheios isolantes, seja com o relativo "prolongamento" dos vãos através de elementos que os protegem da radiação solar excessiva - embora haja que ter cuidado com a largura de encaixe das escadas portáteis dos bombeiros.

O que aqui se defende é que é necessário tratar, arquitectonicamente, e suscitar a apropriação de uma margem relativamente espessa no contorno do espaço doméstico e especificamente nas zonas de relação entre este espaço e o exterior, ganhando-se, assim, sentido de protecção, sentido de espaço e de volume, maior espaciosidade aparente e um ambiente interior verdadeiramente mais qualificado, porque elaborado, rematado e singular. E afinal trata-se, "apenas", de recuperar o sentido amplo, formal e funcional, que deve ter qualquer abertura da habitação sobre o exterior, uma abertura que deve ser sempre muito mais do que um simples "vão".

Notas:
(1) Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Normas Tecnicas de Diseño y Construccion de las Viviendas Sociales", p. 27.
(2) Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", p. 110.
(3) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 910 e 911.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 686

Guardas, parapeitos e peitoris domésticos e qualidade arquitectónica interior – Infohabitar 686


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo/LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil



Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

terça-feira, fevereiro 05, 2019

673 - Pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 673

Infohabitar, Ano XV, n.º 673
Pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 673
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

por António Baptista Coelho (texto e desenhos)
Sobre uma habitação feita mais por sítios específicos do que por espaços ditos de/para actividades e funções domésticas.
Aproveitando para lembrar, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e é tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas e dinâmicas.
Sobre a previsão destes tipo de “cantos”, “recantos” e “sítios”  domésticos, que são, em boa parte, os grandes responsáveis pela criação de um grande mundo pessoal e familiar, destacam-se alguns aspectos muito variados e, designadamente, de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade, de funcionalidade com sentido lato e de adequada, rica e apropriável pormenorização arquitectónica, que, em seguida, muito brevemente se apontam – não exaustivamente (trata-se de um texto naturalmente dinâmico).

Sobre os pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados – considerações estruturantes

Antes de passar a alguns, pouco, comentários específicos sobre a caracterização e a importância que podem ter alguns tipos de espaços privados exteriores e de relação interior/exterior, numa adequada vivência dos nossos espaços domésticos pessoais e familiares, importa abordá-los, resumidamente, de uma forma geral e introdutória àqueles comentários.
Em primeiro lugar um aviso, talvez desnecessário mas sempre útil, que não se irão apontar aqui aspectos sistemáticos de projecto destes espaços, mas sim considerá-los numa perspectiva de concepção muito aberta e estimulante de boas e renovadas formas de habitar os nossos espaços domésticos, sendo que a primeiríssima consideração a registar é que estes tipos de espaços de fruição directa do exterior e de afirmada (física) relação com o interior doméstico, têm de se constituir em verdadeiros elementos estruturantes dos respectivos projectos de Arquitecturas, marcando seja o carácter/qualificação dos seus interiores, seja o carácter/imagem da sua face pública. E tudo o que seja menos do que isto não deve chegar, pois será sempre referido a colagens, mais ou menos, postiças de tais elementos/espaços nas fachadas dos edifícios e no prolongamento “automático” dos respectivos interiores contíguos.
Tal condição é essencial e está provada/garantida em múltiplos testemunhos de grandes Mestres Arquitectos, que a ela se referem, sublinhando, por vezes, que a própria essência da Arquitectura é o “jogo” de relações entre espaços e, designadamente, entre espaços interiores, exteriores e de transição/graduação ou de aberturas visuais mútuas.
Naturalmente que esta condição será tanto mais importante, quanto mais “liberta” de condicionantes envolventes e de agregação estiver a solução arquitectónica residencial, sendo básica, por exemplo, na concepção de moradias unifamiliares isoladas; mas ela é, também, fundamental mesmo, por exemplo, como bem sabemos, em grandes edifícios multifamiliares integrados em centros urbanos densos, que podem basear boa parte do seu carácter arquitectónico próprio/único no manejar da sua vertente de, eventuais, “cascatas”, mais ou menos naturalizadas de grandes varandas domésticas.


Fig. 01: interpretação livre do conjunto residencial da Cooperativa UGTimo, no Zambujal - projecto do Arq.º José Alves Bicho 

Oito aspectos de concepção a ter em conta no desenvolvimento de pequenos espaços exteriores privados

Para além da consideração básica que acabou de ser apontada, existem, pelo menos, oito “famílias” de aspectos, igualmente estruturantes da concepção de pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior, que importa aqui registar, de forma sintética: 

Exterior privado e janelas domésticas

Parece óbvio, mas tantas vezes excelentes pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior têm a sua presença muito menorizada por soluções de vãos pouco adequadas em termos de más influências na funcionalidade dos espaços contíguos, pormenorização visual inadequada, pouca segurança contra intrusões, etc.
E tal condição é extremamente crítica, por exemplo, quando, por exemplo, se desenvolvem, de raiz, varandas envidraçadas; cuja caracterização arquitectónica pode variar entre a excelência e a extrema dissonância, mercê de soluções de vãos bem diferentes na sua pormenorização.

As vistas no exterior privado

Desenvolver qualquer pequeno espaços doméstico privados exterior ou de transição interior/exterior, implica programar e assegurar as respectivas estratégias de vistas: sobre o exterior público; sobre o interior privado, a partir deste último e através do exterior privado, etc.
E mesmo que tais vistas não existam ou seja muito condicionadas, como é, por exemplo, o caso de um pequeno pátio privativo, tais vistas têm de ser consideradas e devidamente trabalhadas, neste caso, no sentido de se proporcionar um interessante sentido intimista e protegido.  

A criatividade volumétrica e pormenorizada no exterior privado

A matéria, acima apontada, do papel estruturante que os pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior assumem na concepção arquitectónica residência, liga-se a um aspecto, talvez mais “fino” na sua consideração, referido à grande criatividade volumétrica, multilateral e pormenorizadamente diversificada que pode e deve ser proporcionada por tais espaços.
Uma condição bem evidente na diferença que existe, por exemplo, entre varandas muito abertas e balcões expressivamente mais encerrados ou resguardados, e, naturalmente, entre a grande variedade que é possível seja entre varandas – desde a pequeníssima varanda apenas de assomar, à mais profunda e orgânica varanda/sala – e entre a expressiva diversidade tipológica e volumétrica que é possível no desenvolvimento de pequenos pátios privados, mais ou menos encerrados, mais ou menos tratados como pátio construído ou como pequeno jardim.

Usos reais do exterior privado

Evidentemente que condição de proporcionarem, ou não, usos reais, é marcante na caracterização e na adequada viabilidade dos pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior.
Talvez basta apontar que um uso real pode ser “apenas” o proporcionar a possibilidade de “colocar os pés na rua”, de “estar cá fora”, em pequeníssimas varandas de assomar. Mas o uso real pode ser, por exemplo, proporcionar um variado conjunto de funções de estar, lazer e elaboração e toma de refeições  numa ampla e bem equipada varanda/sala. Talvez o que não faça qualquer sentido são as situações dimensionalmente “neutras” e inadequadas que proporcionem um pouco mais de espaço para estar “cá fora” em pé e nada mais, designadamente, quando em quadros habitacionais com controlo de custos.

Exterior privado e relação com aspectos de segurança

Não sendo, talvez, aqui o sítio para o desenvolvimento desta essencial matéria, que obriga a uma atenção específica e desenvolvida, não faria sentido não registar e sublinhar que a concepção global e pormenorizada dos espaços, equipamentos, elementos de pormenorização e soluções de manutenção dos pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior têm de cumprir exigentes condições de segurança no uso, designadamente, em espaços elevados e no que se refere ao risco de queda dos habitantes, com natural destaque para crianças e idosos.
Outro aspecto de segurança a considerar tem a ver com a defesa relativamente a intrusões em espaços exteriores privados térreos ou próximos do nível térreo, pois, não existindo tais condições, originam-se, frequentemente, iniciativas dos habitantes procurando solucionar esta situação, frequentemente inadequadas em termos funcionais e de imagem pública.

Exterior privado e relação com o conforto

Naturalmente que o desenvolvimento de pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior só faz sentido quando a respectiva orientação solar e eólica lhes proporcione adequadas condições de conforto ambiental; sendo que as respectivas condições de pormenorização poderão apoiar tais condições, designadamente, no seu controlo ao longo do dia e no decorrer das estações do ano.

Exterior privado e relação com a natureza

Evidentemente que os pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior são locais estratégicos de integração de elementos naturais em soluções muito diversificadas e perfeitamente integradas na solução arquitectónica global, conseguindo-se efeitos globais muito interessantes, por sequências de imagens, com dois sentidos, entre verde público e verde privado e obtendo-se um muito importante factor de apropriação residencial e doméstica, através de um verde privado que cada morador poderá “manejar” e recriar a seu gosto.

Exterior privado, relação com a acessibilidade e caracterização tipológica

Um aspecto de grande interesse na geração de variadas tipologias de edifícios residenciais de baixa altura e/ou de transição entre o uni e o multifamiliar e, também, de importante relação com variados gostos e hábitos residenciais refere-se à possibilidade de pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior proporcionarem acessos directos (devidamente controlados) entre os espaços privados e espaços públicos ou de uso público (ex., caminhos pedonais de vizinhança) ou entre espaços privados e espaços públicos (ex., galerias de acesso comum elevadas).

Fig. 02: interpretação livre de um conjunto residencial da Cooperativa COOHAFAL, Funchal, projecto coordenado pelo Arq.º João Francisco Caires.

Consideração complementar sobre o equilíbrio de aéreas domésticas interiores e exteriores

Tratando-se de uma matéria que, por si só, justificará cuidadosas reflexões, regista-se aqui, apenas, que não se considera poder-se concluir, basicamente, por uma tendência de anular os pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior, quando se desenvolvem habitações com áreas e custos controlados.
Considera-se que, pelas razões acima apontadas, o papel destes espaços é de grande importância na qualificação de uma adequada habitabilidade residencial, embora, naturalmente, existam situações onde, por exemplo, é preciso optar entre um interior um pouco menos exíguo e a disponibilização de uma varanda razoável. Mas há muitas soluções possíveis e importa sempre ter em conta que quando os edifícios são baixos e o exterior residencial público é agradável e convidativo, será possível reduzir “estrategicamente” o exterior privado.
Em próximas edições serão abordadas algumas tipologias de pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 673
Pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 673
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar,– Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, abril 23, 2018

638 - Bay Windows e outros "lugares-janela" - Infohabitar 638

Infohabitar, Ano XIV, n.º 638


Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CXI

por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Bay Windows e outros "lugares-janela"

Abordam-se, aqui, isoladamente as Bay-windows e o que se designa de outros "lugares-janela", por serem elementos fisicamente muito caracterizados, e que embora seja, ainda, talvez, pouco comuns na nossa tradição doméstica – designadamente no caso da bay-windows” –, estão habitualmente associados a interessantes aspectos de apropriação e de satisfação no interior das nossas casas.

Bay Windows

A bay window é uma janela construída de forma a projectar-se para fora da respectiva parede exterior, obtendo-se, assim, um quíntuplo resultado:
- uma vista exterior significativamente caracterizada e única e fortemente associável a espaços domésticos;
- uma vista interior que marca, significativamente, boa parte ou a totalidade de uma parede do respectivo compartimento;
- um potencial de vistas do interior sobre o exterior significativamente potenciados, designadamente, com vistas laterais, para além da vista frontal habitual;
- um potencial de tipos de envidraçados e de abertura de janelas bastante significativo, podendo associar panos envidraçados transparentes e outros translúcidos e diversos tipos de janelas de abrir, com as respectivas vantagens em termos do controlo da ventilação natural;
- e, naturalmente, por fim, mas não menos importante – antes pelo contrário – a definição/”construção” de um atraente – porque bem iluminado e configurado – “lugar janela”.
Salienta-se, desde já, quatro outros aspectos que se consideram muito importantes, em termos da capacidade de aplicação da bay window:
- A enorme capacidade de diversificação visual e tipológica no desenvolvimento de  bay windows; claramente não limitadas às suas configurações mais tradicionais.
- A clara capacidade de aplicação das bay windows em edifícios unifamiliares em banda cerrada e em grandes edifícios multifamiliares; portanto numa lógica de aplicação que ultrapassa muito a sua “tradicional” aplicação em grandes moradias isoladas.
- A grande versatilidade de “misturas” funcionais e visuais interiores oferecidas pelas bay Windows.
- A grande capacidade de conteúdo simbólico domesticamente associado, que é sempre oferecida pelas bay Windows , seja qual for a sua tipolgia de aplicação – ex., desde uma aplicação corrente numa fachada a uma aplicação menos corrente em galerias exteriores de acesso a fogos que integrem um grande edifício multifamiliar.
É interessante sublinhar aqui que as bay windows terão sido exportadas do oriente, onde existiam com a designação de "quiosques" e "moucharabiés", com funções específicas de privatização, ventilação e visulização estratégica da rua a partir do interior doméstico, para países do norte da Europa onde a sua utilização se associou a aspectos de potenciação da luz natural, pois acabam por proporcionar uma multiplicação das superfícies envidraçadas, em determinadas zonas da habitação, assim como o aproveitamento maximizado de tais zonas como espaços de lazer, estar, convívio e também com funções específicas, por exemplo, de leitura e de trabalho.
E entre oriente e norte da Europa pouco foram empregues nas nossas habitações portuguesas, a não ser sob a forma de algumas excelentes "marquises", feitas como tal numa perspectiva de "jardins de Inverno" e criando algmas soluções de evidente atractividade exterior e interior.
É interessante pensar a propósito na possibilidade de podermos "importar", com êxito, este e outros modelos/soluções de espaços habitacionais; afinal na tão divulgada sociedade global tal possibilidade acabará por ser bastante natural.


"Lugares-janela"

Embora a bay window possa ser considerada o exemplo típico de um afirmado “lugar janela”, muitos outros existem, até porque qualquer janela por pior configurada e integrada que esteja será sempre um “lugar janela”.
E esta afirmação liga-se à múltiplas características que podem ser oferecidas por uma janela:
- desde aspectos de luz natural contrastando no interior;
- à potencialidade de vistas sobre o exterior e de “transporte” de vistas exteriores para o interior (ex., vistas de árvores, vistas paisagísticas amplas);
- a toda uma série de capacidades de ocupação e apropriação espacial pormenorizadas que podem se oferecidas pelo “espaço contíguo e próximo do vão”;
- capacidades estas que, naturalmente, irão variar, seja com a respectiva configuração geral do vão (dimensionamento, orientação, altura ao solo, eventual contiguidade com varanda funda ou de assomar), seja com a tipologia básica da janela: de sacada, de “peito” baixo (janela “francesa”), ou de peito;
- e capacidades estas que irão variar, e muito, com a qualidade do respectivo projecto geral e pormenorizado de Arquitectura – e esta referência não é casual, pois, frequentemente, até bons projectos falham em grande parte quando chegam a este importante nível de desenho.   
Muito do que aqui se referiu caminha no sentido da constituição daquilo que podemos referir como "lugares-janela", sítios que muito provavelmente irão ser locais preferidos de apropriação pormenorizada e de uso diário, e sítios onde aquela ideia de que espaço a mais não é obrigatoriamente melhor espaço, fica bem provada, assim como fica evidenciada a grande relação que todos gostamos de ter, nos sítios que habitamos, com boas condições de iluminação natural.

Outros "lugares-janela" ou "sítios junto à janela"

As janelas sempre constituíram espaços que cativam actividades domésticas, sendo exemplo desta matéria os lugares para namorar, "as namoradeiras", habitualmente integradas aproveitando-se os encalços das espessa paredes antigas, e que poderão ser, eventualmente, retomadas e reinterpretadas, pro exemplo, através de uma simulação dessas espessuras utilizando-se os espaços assim criados para arrumações diversas.
Mas uma excelente forma de se aproveitarem os "lugares-janela" ou "sítios junto à janela" é para aproximar deles determinados pequenos conjuntos funcionais de mobiliário, habitualmente associados à construção de agradáveis e estimulantes cenários residenciais interiores, como é, por exemplo, o caso dos conjuntos "sofá ou cadeira de repouso, móvel de apoio e candeeiro" e "pequena mesa e duas cadeiras ou um cadeirão".

Mas os espaços na contiguidade das janelas podem ser, ainda, excelentes sítios de limiar e de transição entre a rua e o "verdadeiro" interior da habitação, sítio, frequentemente, "entre janela e cortinado", onde, sendo possível, se houver um peitoril largo e/ou se a parede for espessa (realmente ou de forma simulada), há lugar à integração de imagens da família, plantas e variados elementos de decoração/apropriação e identificação da habitação relativamente ao seu exterior.
Notas editoriais:
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Infohabitar, Ano XIV, n.º 638

Bay Windows e outros "lugares-janela" - Infohabitar 638

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