terça-feira, maio 14, 2019

Guardas, parapeitos e peitoris domésticos – Infohabitar 686

Infohabitar, Ano XV, n.º 686                      

Guardas, parapeitos e peitoris domésticos e qualidade arquitectónica – Infohabitar 686

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagem)


Sequem-se algumas notas sobre a relação entre entre guardas, parapeitos e peitoris, considerados como importantes elementos de construção e de acabamento, e a qualidade de uso e arquitectónica do interior doméstico.



Guardas, parapeitos e peitoris domésticos: aspectos gerais ligados à qualidade arquitectónica

A constituição e configuração das guardas, parapeitos e peitoris domésticos refere-se, naturalmente a um elemento de projecto que importa harmonizar, seja considerando o efeito/composição global e pormenorizado dos respectivos alçados e volumetrias, em termos de vistas exteriores gerais e de aproximação;

seja considerando o seu efeito/composição pormenorizado em termos das vistas interiores domésticas em que se incluam os respectivos vãos;

seja no que se refere ao seu efeito em termos de vistas de enquadramento e de comunicabilidade/”atravessamento”, que são possíveis a partir do interior sobre o exterior;

seja considerando as suas influências directas e indirectas em termos das condições de segurança no uso, iluminação natural e ventilação natural dos espaços interiores servidos;

seja no que se refere a suas eventuais funcionalidades diversificadas, por exemplo: estar no exterior, debruçar sobre o exterior, ocupar com contentores e vasos de plantas, etc.;
seja no que se refere às respectivas condições de segurança no uso – matéria esta, que, devido à sua importância, é, em seguida, um pouco mais desenvolvida.

Será, talvez, oportuno apontar aqui que a qualidade arquitectónica integrada de uma dada solução de guardas, parapeitos ou peitoris, dependerá do nível, desejavelmente expressivo, de conjugação dessas soluções na totalidade do respectivo projecto/obra, atingindo-se, desejavelmente, situações em que essas soluções não têm presença autonomizável, mas apenas totalmente “embebida” na solução arquitectónica respectiva e global, e mesmo valorizando-a em termos da percepção da respectiva pormenorização.

Uma condição de expressiva integração da pormenorização na solução geral, que, hoje em dia, estará talvez um pouco mais facilitada pela disponibilização de um grande leque de soluções formais, funcionais e variadamente “materializadas”, mas que exige sempre uma grande sensibilidade e um grande cuidado na respectiva pormenorização e no vaivém obrigatório que tem de acontecer entre ela e a expressão do projecto global.


Fig. 01: guardas, parapeitos e peitoris domésticos: segurança e visibilidades estratégicas


Guardas, parapeitos e peitoris domésticos: segurança e visibilidades estratégicas

Nota importante: as reflexões que se seguem, designadamente referidas às condições de segurança em guardas, parapeitos e peitoris domésticos, não são exaustivas e, portanto, não substituem uma pesquisa bibliofráfica e documental adequada.
A constituição e configuração das guardas e peitoris deve ter em conta um máximo de condições de segurança em termos de altura ao pavimento, características "à prova de subida de crianças", e distâncias máximas de segurança entre elementos verticais constituintes; trata-se de matéria que não estando talvez ainda adequadamente regulamentada deve ser objecto da máxima atenção por parte dos projectistas.

Por esta razão apontam-se, em seguida, alguns aspectos de configuração de guardas que contribuem para a prevenção de quedas: (1)

"Abaixo da altura de protecção não existirão aberturas com dimensões maiores do que 0.12m, para evitar a passagem de uma criança, frestas rasantes ao pavimento maiores do que 0.05m, nem elementos que facilitem a escalada do parapeito ou da guarda; quando abaixo da altura de protecção existirem encerramentos em chapa de vidro, este deverão ser temperados, ou armados com malha metálica ou laminado plástico." 

E há que ter em conta que as guardas opacas despertam a curiosidade nas crianças, levando-as, por vezes, a subirem ao parapeito.

No entanto, e tal como foi registado no estudo no LNEC que tem sido referido nesta série editorial (ITA 2 – Do Bairro e da Vizinhança à Habitação”), os parapeitos devem permitir vistas ao longe e ao perto, sobre o exterior envolvente, e para isso devem ser relativamente baixos, também porque devem considerar a visibilidade de uma pessoa sentada perto da janela, condição esta que evidencia o interesse das janelas de sacada, ou das janelas com peitoril bastante baixo.

E não tenhamos quaisquer dúvidas de que um adequado tratamento "cénico" das vistas exteriores proporcionadas de uma dada habitação, considerando-se a possibilidade de reconfiguração dos seus vãos exteriores, produz efeitos verdadeiramente inesperados e com enorme impacto na vivência doméstica, sendo que, quando esta vida doméstica é vivida longa e intensamente, como acontece, frequentemente, no caso dos habitantes mais idosos e/ou de pessoas doentes e/ou com mobilidade condicionada, a possibilidade de se poderem usufruir vistas exteriores relativamente “mergulhantes” a partir de posições sentadas e próximas das janelas, tal possibilidade pode passar a ser uma quase-exigência para se cumprir uma concepção e uma qualidade arquitectónica vivencial interior verdadeiramente adequadas.

Salienta-se a distinção que Neufert faz entre parapeitos baixos para salas elevadas e com boas vistas (altura 0.50m, idêntica à altura proposta por Alexander) e parapeitos normais para salas e quartos de trabalho.(2) Há assim aqui uma evidente tendência para janelas domésticas com parapeito baixo, muito mais "paisagístico" do que o seguro parapeito com cerca de 90cm de altura, mas haverá aqui um trabalho a fazer para tornar seguros esses parapeitos mais baixos , por exemplo, com vidro de segurança e dispositivos específicos de fecho das respectivas janelas.

Tal como aponta Alexander uma outra solução, que evita a ambiguidade das janelas de sacada, que podem parecer portas, está em janelas com peitoris baixos entre 0.30 e 0.50m (convenientemente protegidos) e em "janelas francesas ou à francesa" (com soleiras a cerca de 0.10/0.15m de altura do pavimento interior), que permitem vistas mergulhantes sobre o exterior próximo até cerca de 0.60m de distância do vão. (3)

E importa sublinhar a necessidade urgente de se desenvolverem, aprofundarem e apontarem aspectos essenciais de segurança na configuração e constituição de guardas, parapeitos e peitoris domésticos, pois trata-se de matéria crítica que, infelizmente, vai pontuando notícias trágicas que surgem, periodicamente, em meios de comunicação social. 

E não se trata de se visar uma segurança “total”, mas tão somente inviabilizar ou dificultar muito os riscos de acidente mais frequentes e mais críticos – ex., quedas por atravessamento, por escalamento ou por parapeitos/peitoris baixos, ferimentos por quebra e queda de vidros, etc.

E um aspecto também muito importante nesta matéria de uma maior segurança no uso de guardas, parapeitos e peitoris domésticos e á consideração dos seus respectivos aspectos de durabilidade e de manutenção regular, pois também não é de aceitar seja a reduzida durabilidade das soluções seja que as operações de manutenção regular sejam feitas com risco das condições de segurança dos respectivos agentes de manutenção.


Guardas, parapeitos e peitoris domésticos: apropriação e variadas potencialidades

Para além de todos estes aspectos mais "objectivos" e funcionais há uma outra verdadeira dimensão dos espaços disponibilizados em alguns parapeitos e em muitos peitoris e zonas de soleira de janelas, que merece uma atenção muito específica, pois acaba por proporcionar uma boa parte da capacidade de apropriação oferecida pela habitação.

Estamo-nos a referir a aspectos aparentemente tão comezinhos como haver espaço para encher parapeitos com pequenos vasos com plantas e com os mais diversos objectos decorativos, personalizando e marcando, por exemplo, vãos de janela e criando assim zonas de "descompressão/limiar" com grande capacidade de atractividade e de identidade, tanto quando vistas do exterior como do interior doméstico.

E tais pequenas zonas são também espaços de expansão visual e virtual dos compartimentos onde se situam e nestes aspectos muito ganham com uma sua formalização rebaixada e/ou com o seu desenvolvimento em encalços ou vãos profundos, uma profundidade que era construtivamente justificada, até meados do século XX, e que hoje em dia ganhou algum fôlego, seja com a previsão de paredes mais espessas por incorporarem recheios isolantes, seja com o relativo "prolongamento" dos vãos através de elementos que os protegem da radiação solar excessiva - embora haja que ter cuidado com a largura de encaixe das escadas portáteis dos bombeiros.

O que aqui se defende é que é necessário tratar, arquitectonicamente, e suscitar a apropriação de uma margem relativamente espessa no contorno do espaço doméstico e especificamente nas zonas de relação entre este espaço e o exterior, ganhando-se, assim, sentido de protecção, sentido de espaço e de volume, maior espaciosidade aparente e um ambiente interior verdadeiramente mais qualificado, porque elaborado, rematado e singular. E afinal trata-se, "apenas", de recuperar o sentido amplo, formal e funcional, que deve ter qualquer abertura da habitação sobre o exterior, uma abertura que deve ser sempre muito mais do que um simples "vão".

Notas:
(1) Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Normas Tecnicas de Diseño y Construccion de las Viviendas Sociales", p. 27.
(2) Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", p. 110.
(3) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 910 e 911.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 686

Guardas, parapeitos e peitoris domésticos e qualidade arquitectónica interior – Infohabitar 686


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo/LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil



Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

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