terça-feira, maio 28, 2019

Sobre o conforto ambiental e a qualidade arquitectónica interior doméstica – Infohabitar 688

Infohabitar, Ano XV, n.º 688                      
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Sobre o conforto ambiental e a qualidade arquitectónica interior doméstica – Infohabitar 688

por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Sequem-se algumas notas gerais sobre a relação entre os isolamentos e outros cuidados ambientais e a qualidade de uso e arquitectónica do interior doméstico.


Integrar arquitectonicamente isolamentos e outros cuidados ambientais

Não iremos aqui tratar dos diversos aspectos técnicos do conforto ambiental associados ao isolamento higrotérmico e acústico, à adequação relativamente à ventilação natural, e à adequação/protecção relativamente à insolação e à luz natural dos espaços domésticos, pois tais aspectos estão bem desenvolvidos noutros trabalhos de índole técnica específica e, cada uma dessas temáticas, levar-nos-ia muito longe e bem fora do perfil de reflexão informal, que foi adoptado neste texto.
Dedicamos, sim, alguma atenção à ideia de que o espaço doméstico, a habitação privada: (i) deve ser um espaço bem protegido e que exprima e evidencie tal protecção; (ii) e que esteja estrategicamente aberto/condicionado relativamente às diversas condições naturais de conforto ambiental aplicáveis (higrotérmicas e sonoras, de ventilação e luz natural, e de insolação); e atenção que, tal como sabemos, todas estas matérias interagem umas com as outras quando se projecta um espaço doméstico.
Tais objectivos de protecção e adequada integração no ambiente natural devem marcar, sistemática e cuidadosamente, os espaços domésticos, tornando-os ambientalmente agradáveis e sustentáveis, mas numa perspectiva formal/funcional muito integrada no respectivo partido arquitectónico interior e exterior (as vistas exteriores respectivas), poderíamos até dizer, muito “natural”, nada “imposta”, perfeitamente harmonizada em termos de solução geral e de pormenorização e muito amigável e racional em termos das respectivas condições de controlo funcional corrente e de manutenção.
Julga-se que não se trata de um “lugar comum” ou de uma afirmação óbvia e desnecessária, pois são muito frequentes os casos de “esquecimento” destes aspectos no projecto geral e de pormenorização, um esquecimento que pode ser, infelizmente, muito global e crítico, ou parcial e “infeliz”, caracterizando “soluções” em que os cuidados de conforto ambiental são considerados e aplicados como algo separado da concepção arquitectónica, um pouco como quem aplica um remédio para curar uma doença que poderia ser evitada com um leque natural de cuidados prévios.
Poderíamos ainda referir que, de forma global, os isolamentos e os outros cuidados ambientais naturais que devem integrar as soluções domésticas, nos devem proporcionar a possibilidade de gozar os espaços da nossa habitação em condições, quer de forte separação/isolamento, quer de expressivo aproveitamento relativamente às condições ambientais naturais existentes no exterior – higrotérmicas, sonoras, de ventilação (e qualidade do ar) e de luz naturais, e de insolação.
E poderíamos ainda dizer um pouco mais, defendendo que tais soluções de adequada integração e aproveitamento doméstico das condições de conforto ambiental existentes no sítio da intervenção, podem marcar positivamente a respectiva solução arquitectónica global e pormenorizada.



Fig. 01


Um espaço doméstico que deve ser agradável, que nos deve fazer sentir bem e que nos faz bem à saúde, mas cujo desenvolvimento exige grandes cuidados

Tais exigências, que deveriam ser consideradas como básicas e naturais, proporcionam o desenvolvimento de um espaço doméstico extremamente adequado em termos de condições de luz natural e insolação bem controladas e direccionadas, conforto higrotérmico expressivo e bem controlado, ventilação constante e tão eficaz como pouco perceptível e bem controlável, eficaz e contínua ausência de cheiros e odores menos agradáveis ou intensos, e expressivo e global sossego acústico/sonoro.
E entenda-se que nada nestas condições se refere a um especial acréscimo de custos, mas somente depende de um projecto mais completo e adequado; e sendo que, a prazo, tais condições vão reflectir-se muito positivamente no bem-estar global e na saúde dos respectivos habitantes, com evidentes reflexos muito acrescidos em pessoas mais jovens, mais idosas e com problemas de saúde.
Salienta-se, no entanto, que o cumprimentos de tais exigências básicas de conforto ambiental doméstico obriga a uma formação específica e ao estudo cuidadoso das respectivas matérias, sendo que há problemas críticos a considerar: (i) seja no frequente e já referido pouco cuidado da concepção arquitectónica nestes assuntos; (ii) seja na frequente e deficiente formação que estas matérias, ainda, merecem ao nível universitário; (iii) seja na também, ainda, frequente ausência de documentação adequada e directamente dirigida para a relação entre estas matérias e a concepção arquitectónica, e , já agora, na reduzida divulgação das melhores obras existentes.
E o que dizer da própria capacidade projectual de integrar, muito positivamente, todas estas exigências de conforto ambiental num partido arquitectónico adequado e interessante: no mínimo, há que reconhecer que não é fácil, até porque esses aspectos devem ser harmonizados com outros importantes aspectos de projecto – tais como as vistas exteriores e interiores, a segurança no uso corrente, a espaciosidade funcional, a versatilidade doméstica, a privacidade e o convívio – mas trata-se de algo que tem de ser adequadamente desenvolvido e que, quando cumprido, é elemento muito valorizador e caracterizador da respectiva solução.


Fig. 02

Um interior doméstico, tipo "concha de caracol", mas equilibrado

Ainda um outro aspecto que importa ter em conta nesta ampla matéria da relação íntima entre o mundo do conforto ambiental doméstico e o mundo da respectiva apropriação espaço-funcional é que devemos poder gozar um interior doméstico, tipo "concha de caracol", portanto, extremamente adequado ao modo como o vivemos pessoalmente em grupo, nas mais diversas ocasiões, um mundo doméstico que nos protege e acompanha quase como uma segunda pele e que também até nos caracteriza, exactamente, como sendo uma segunda pele; mas, no entanto, esse mesmo mundo doméstico também deve ser algo que “vive por si”, com equilíbrios próprios e adequados, um pouco como um nosso grande aliado, mas que também, um outro dia será aliado de outro(s), ganhando, assim, uma espécie de interessante identidade urbana e doméstica própria e desejavelmente estimulante – e nestes sentidos o mundo doméstico também ganhará com um relativo distanciamento em termos da sua possível “personalização” e, nesta matéria, parece que o seu conteúdo “mais técnico” (embora bem domesticado) pode ser um bom aliado neste objectivo de concepção.

Sobre as diversas dimensões do conforto ambiental doméstico: algumas (poucas) notas complementares

O isolamento/condicionamento higrotérmico está minimamente garantido em termos regulamentares designadamente no que refere à nova construção, mas há, frequentemente, uma tendência para o condicionamento mecânico do ar, em detrimento de soluções mais naturais e positivamente passivas.
A questão da ventilação natural e da respectiva estratégia não é um dado adquirido, embora dependa de aspectos tão óbvios como fazer janelas estanques ao ar, mas integrando dispositivos de ventilação específicos e que tenham, depois, “seguimento”, em percursos de ar no interior da habitação (ex., bandeiras de iluminação e ventilação sobre portas).
Quanto ao isolamento sonoro ele depende tanto de cuidados construtivos específicos e nada especiais na constituição de determinadas paredes, das lajes e dos vãos exteriores, como de uma estratégia de distribuição das zonas funcionais do edifício que não faça vizinhos espaços ruidosos de outros onde o sossego seja fundamental (exemplo ascensores e quartos) e que tenha cuidado com os sítios onde passam as instalações de águas e esgotos, numa mesma lógica de os afastar e/ou isolar relativamente a espaços mais sossegados da habitação. E, naturalmente, que terá de haver, também, uma estratégia adequada de vizinhanças dos diversos espaços domésticos relativamente aos espaços exteriores contíguos, mais e menos ruidosos
Relativamente à recepção da radiação solar de forma equilibrada, ela depende, também, de uma adequada estratégia organizativa da habitação, que faça que os compartimentos a recebam, tendencialmente, mais nas horas e nas estações onde ela é bem-vinda, e aqui é possível orientar os diversos tipos de compartimentos consoante a sua utilização preferencial, por exemplo, com os quartos de dormir mais a nascente, salas mais a sul, cozinhas a norte e casas de banho a poente, sendo que há, também, a possibilidade de tratar o exterior do edifício com pequenas palas (ou outros elementos funcionais) que produzam sombra no Verão e não no Inverno, e nada disto é mais caro do que fazer mal, não ligando a estes aspectos; só que dá um pouco mais de trabalho em fase de projecto, e, naturalmente, numa cidade nunca será possível orientar as habitações todas da mesma maneira – até porque as próprias ruas urbanas também ganham com uma adequada estratégia de sombreamento.
Mas grandes a janelas a poente, impossíveis de serem protegidas no Verão, habitações apenas com janelas numa parede (sem ventilação cruzada entre duas paredes opostas), casas de banho interiores e janelas sem vãos específicos de ventilação, isso, por favor, nunca mais, quando se trata de nova habitação.
Destaca-se, ainda, a questão da fundamental abundância de luz natural, que deveria ser uma condição básica em qualquer habitação, mas infelizmente tal não acontece, parecendo que estamos ainda na altura em que quaisquer 5 centímetros a mais na largura das janelas era condição de fracasso financeiro da operação.
E finalmente há que referir que palas verdadeiramente úteis (bem salientes e desenhadas com cuidado, (por exemplo, no pormenor do lacrimal), são elementos fundamentais para a conjugação de aspectos de agradabilidade e, já agora, de alguma cuidadosa atractividade no respectivo projecto de arquitectura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 688

Sobre o conforto ambiental e a qualidade arquitectónica interior doméstica – Infohabitar 688


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo/LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil



Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

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