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terça-feira, dezembro 01, 2020

Uma habitação ligada à natureza e bem estimulante (bons espaços e ambientes domésticos I) – Infohabitar # 757

Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.

 

Infohabitar, Ano XVI, n.º 757

Edição: terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Uma habitação ligada à natureza e bem estimulante (bons espaços e ambientes domésticos I) – Infohabitar # 757

 

Caros leitores da Infohabitar, 

Continuando em um dos temas “centrais” da nossa revista: os espaços do habitar, vamos aprofundando, em cada semana, esta matéria, neste caso específico no âmbito de um global e adequado desenvolvimento dos espaços e ambientes domésticos.

Esta viagem pelos espaços do habitar continuará a ser feita nas próximas semanas editoriais da Infohabitar, apenas com eventuais intervalos mais dedicados à divulgação de iniciativas julgadas especialmente interessantes ou a outras matérias mais ligadas a datas específicas.

Lembra-se, novamente, que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas sobre os artigos aqui editados e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com , ao meu cuidado).

Considerando a atual e ainda muito crítica evolução da pandemia, voltar a sublinhar-se a vital importância do distanciamento social, conseguido, designadamente, pelo cumprimentos das obrigações legais agora definidas, através do teletrabalho e do confinamento obrigatório em determinados períodos do dia e da semana e de todas as medidas de proteção própria e dos outros, que são muito favorecidas com o uso sistemático, maximizado e cuidadoso de máscara – seja no interior seja nos espaços públicos – e por um reforço dos cuidados de higiene próprios e relativamente à sistemática  higienização dos ambientes e dos objetos que usamos no dia-a-dia.

Não tenhamos dúvida de que boa parte do combate à pandemia passa por estes nossos esforços pessoais e familiares, que terão de se enraizar nos nossos hábitos diários, mesmo quando no horizonte temos já as vacinas

Despeço-me, até à próxima semana, enviando saudações calorosas e desejos de força e de boa saúde para todos os caros leitores  e seus familiares,    

Lisboa, Encarnação, em 30 de novembro de 2020

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

 

Uma habitação ligada à natureza e bem estimulante (bons espaços e ambientes domésticos I) – Infohabitar # 757

António Baptista Coelho

(texto e imagens)

Resumo

No presente artigo desenvolve-se uma reflexão sobre os aspetos que caraterizam o que podemos considerar como "bons espaços e ambientes domésticos", abordando-se as matérias “básicas” da relação com a natureza e da previsão de boas condições de conforto ambiental, e de como uma habitação pode ser verdadeiramente agradável e estimulante, numa abordagem que se baseia nos modos como as crianças sentem e vivem o seu espaço doméstico de grande proximidade.

Reflectimos, assim, um pouco, sobre a importância do conforto ambiental e da força imaginativa dos nossos mundos domésticos, numa dupla perspectiva que nos poderá proporcionar uma habitação agradável e globalmente estimulante.

 

1. Em primeiro lugar: respeitar a relação com a natureza no espaço habitacional

É, de certa forma, consensual que para oferecer bons espaços e ambientes domésticos há, em primeiro lugar, que respeitar, nesses espaços, a relação global e múltipla com a natureza e, designadamente, com o movimento aparente do Sol; e se imaginarmos espaços expressivamente isolados/separados de tais relações teremos, sem dúvida, espaços muito desagradáveis e mesmo tendencialmente muito pouco habitáveis (ex., no limite, os odiados calabouços medievais, isolados da natureza, do mundo vivo e mesmo praticamente do passar do tempo e, cumulativamente, sem qualquer conforto e espacialmente mínimos).

Escreveu Ken Kern que:

"as relações com as horas do dia, as estações e a orientação solar formam uma parte inconsciente da experiência do homem, do mesmo modo que a necessidade de isolamento e de sociabilidade.... Uma casa de vidro, por exemplo, com a sua acessibilidade e transparência, conduziria à satisfação do aspecto social e extrovertido da natureza humana e da sua ânsia de expansão. A natureza introvertida do homem, por outro lado, pode procurar os confins das suas origens cavernícolas... em espaços obscuros e misteriosos. De qualquer modo, o encerramento de um espaço não deve entrar em conflito com a expansividade de outro. Ambos são igualmente necessários e essenciais....O espaço não tem de ser necessariamente restringido pelos seis planos de um compartimento desenhado e construído de maneira convencional. O espaço pode ser ilimitado ou pode estar apenas parcialmente confinado". (1)

Estas importantes palavras de Ken Kern levam-nos muito longe e muito fundo, tanto nas matérias, aqui abordadas, da relação global com a natureza e da sua importância essencial na construção do bom habitar, como na matéria mesma da boa arquitectura do habitar e de uma sua exigente e múltipla qualificação, que, para ser ainda mais sensível e sentida, deverá funcionar de forma “una” e especificamente caracterizada em cada intervenção, aliando-se, com grande naturalidade, aspetos múltiplos da composição arquitectónica  com aspetos básicos do bem-estar e da relação com o meio natural e o mundo vivo e cíclico, como é, por exemplo, uma adequada e estimulante insolação dos diversos espaços domésticos ao longo do dia e ao longo do ano.

E é bem interessante ter presente que, por exemplo,  a importância da insolação na satisfação e mesmo na alegria de se habitar uma dada casa é algo de fundamental; e nesta matéria e julga-se a propósito lembra-se que Rodríguez Villasante referiu (2) que num extenso conjunto de empreendimentos de habitação de interesse social na envolvente de Madrid, não se detectaram manifestações de insatisfação para com os espaços/fogo, nem transferência para eles de aspetos de culpa por condições de existência menos agradáveis, mas como única excepção destacaram-se queixas de habitantes que reclamavam por falta de luz e de insolação nas suas habitações, que estavam orientadas a Norte. (3)

E nunca será demais sublinhar que tais aspetos de relação com o meio natural, com a luz do dia, com o luar, com o vento, com os reflexos da luz do Sol nos interiores se têm de casar/integrar com os aspetos da comunicabilidade entre espaços interiores, exteriores e de transição, e ainda com os tão importantes aspetos de relação com as vistas exteriores mais próximas e/ou paisagísticas; e tudo isto num respeito ou num adequado e adaptável serviço ao conjunto das funções residenciais.

Fig. 01: um espaço habitacional (i) que tem de ser concebido em aliança com o espaço naturalizado envolvente e devidamente intervencionado em termos paisagísticos e (ii) tendo em conta os diversos aspetos de conforto ambiental que esse espaço envolvente proporciona diretamente e nas habitações contíguas e próximas.


2. Importância determinante do conforto ambiental no espaço habitacional

A ideia que se quer aqui sublinhar é a importância determinante do conforto ambiental, com destaques específicos para a insolação, a luz natural, a ventilação (4), o isolamento de ruídos e o isolamento térmico, para uma verdadeira satisfação com o espaço doméstico. De certa maneira podemos dizer que tudo o resto se constrói sobre esta base de adequado conforto ambiental de que se conhecem já, bem, os respectivos aspectos técnicos.

São os seguintes os aspectos julgados fundamentais para um adequado conforto ambiental doméstico.

2.1. Máxima, mas cuidada, insolação e iluminação natural abundante e geral

Chama-se a atenção para a influência que têm estas condições no bem-estar físico e psicológico e na alegria de viver, e basta lembrar os dias cinzentos que a muitos deprimem para imaginar a influência que tem uma casa em que mal se veja o Sol e onde se tenha de estar, quase sempre, de luz acesa.

Naturalmente que a luz e a radiação solar não poderão ser em excesso e para isso importa trabalhar, seja em aspetos básicos de orientação e dimensionamento dos vãos exteriores, seja na sua adequada configuração e eventual proteção (ex., palas de sombreamento).

E é interessante referir que a melhor caracterização do habitar em termos de espaço arquitectónico decorre, em grande parte, interior mas também exteriormente, de um adequado e arquitectonicamente bem integrado e pormenorizado aproveitamento e controlo dessas adequadas condições de insolação, luz natural, ventilação, relação com o bem-estar higrotérmico e conjugação com as vistas exteriores, mas evidentemente não esquecendo as vistas próprias.

De certa forma a arquitectura residencial pode e deve retirar boa parte do seu carácter próprio e desejavelmente quase único de uma adequada e sensível habilitação ao meio natural em que se deverá integrar, lembrando, afinal, a sua razão básica e fundadora de abrigo e protecção em total integração na natureza.

2.2. Diversas zonas e compartimentos bem orientados

A orientação dos diversos compartimentos habitacionais deve ser desenvolvida relativamente ao movimento aparente do Sol, respeitando, sempre que possível, a velha e boa estratégia do acordar com o Sol nascente, das cozinhas mais frescas e protegidas e da protecção do Sol poente, designadamente, nos espaços mais ocupados ao final da tarde ou a partir desta altura do dia.

E há muito escrito sobre a importância que tem poder-se viver um dia-a-dia marcado pelos ritmos naturais, um dia-a-dia que, depois, se estende, com agradável naturalidade, ao próximo acompanhamento da mudança das estações do ano, matéria esta que, evidentemente, se liga à existência de uma expressiva componente de verde urbano.

2.3. Ventilação cruzada eficiente e "positiva"

O espaço habitacional deve ser cuidadosamente “varrido” por uma ventilação cruzada, que se desenvolva, portanto, entre duas fachadas opostas, condição esta que é de grande importância para a renovação do ar interior, para o controlo da humidade no ar interior, e para o desejável equilíbrio da temperatura interior, associada também a aspetos de ventilação; e tais “exigências” seriam suficientes para “proibir” a existência de habitações “mono-orientadas”, também narcadas por muito negativas condições de vistas exteriores numa única direção geral.

A referida ventilação cruzada eficiente e “positiva” deve ser assegurada, designadamente, pela localização da cozinha e instalações sanitárias "exteriores" a sotavento, no edifício – fachada do edifício oposta ao lado de onde sopra habitualmente o vento – proporcionando-se que os gases e cheiros nocivos ou desagradáveis sejam estratégica e rapidamente evacuados pelos vãos exteriores, não invadindo a casa); e nesta ventilação é fundamental que ela seja estrategicamente considerada “varrendo” o máximo do volume interno da habitação; uma condição que, por exemplo, no Verão é fundamental para um bem-estar que muito ultrapassa os aspectos apenas físicos.

E naturalmente que esta estratégia de ventilação terá de ser devidamente suportada por vãos exteriores e interiores bem configurados e equipados (ex., "bandeiras" específicas de ventilação, dispositivos de ventilação integrados nos vãos, etc.).

2.4. Ausência de continuidades e contiguidades perturbadoras em termos acústicos

Nesta matéria Dreyfuss e Tribel consideram que o isolamento razoável entre duas partes da mesma habitação só é possível mediante a separação por duas portas, ou por uma parede suficientemente espessa e pesada, por exemplo, entre a sala e um quarto contíguo e que certas contiguidades não devem ser permitidas (5); e há que sublinhar que a ausência de ruído é uma condição básica da satisfação residencial, provada em muitos estudos.

Mas a estratégia de proteção acústica tem de ser muito ampla e associada:

·      aos ruídos produzidos no interior da própria habitação;

·      aos ruídos produzidos em habitações vizinhas (destacando-se habitações superiores) e em espaços e equipamentos comuns do edifício (ex., ascensores e escadas comuns);

·     e aos ruídos exteriores mais diversos.

2.5. Conforto higro-térmico

O conforto higrotérmico tem relações diretas e indiretas com quase todos os aspetos que acabaram de ser apontados e depende de matérias específicas construtivas e de pormenor, com natural destaque para os aspetos de isolamento, sendo importante referir que este conforto tem quadros específicos e bem distintos no Inverno e no Verão, que muitas vezes não são globalmente considerados, e constitui matéria crítica no bem-estar e na saúde dos habitantes, mas com especial incidência naqueles mais sensíveis - crianças, idosos e doentes.


2.6. Nota breve sobre a grande importância específica e da integração dos diversos aspetos do conforto ambiental doméstico

Muito brevemente aqui se registam dois aspetos:

·      O primeiro refere-se à vital importância específica que têm os diversos aspetos do conforto ambiental doméstico, que foram aqui apenas muito sinteticamente apontados, com o objetivo de se disponibilizar uma reflexão de síntese e relacionada com as outras matérias em seguida abordadas.

O segundo tem a ver com a importância destes aspetos de conforto ambiental doméstico serem considerados de forma integrada, nas suas diversas matérias (insolação, higrotérmica, iluminação natural, ventilação, acústica), seja no que se refere ao interior doméstico, seja no que tem a ver com a relação entre este interior e o exterior envolvente, e ainda com a própria vivência estimulante deste exterior; esta matéria parece óbvia, mas não o é, infelizmente, e o projeto de arquitetura tem tudo a ver com tal integração.

Fig. 02: um espaço habitacional (i) que tem de ser concebido em aliança com os diversos aspetos do conforto ambiental e que (ii) é (tem de ser) muito mais do que um espaço de estritas funcionalidades e de "frios" dimensionamentos físicos.

3. Uma habitação verdadeiramente agradável e estimulante - a partir de como as crianças a sentem e vivem (segundo Gilles Barbey)

Vamos, então, em frente neste pequeno mundo doméstico e pensemos, um pouco, globalmente, sobre o que poderá ser o caminho de uma verdadeira satisfação, que ultrapasse os referidos aspectos ambientais; e nesta perspectiva podemos recorrer e generalizar, nos itens seguintes, algumas conclusões de um estudo de Gilles Barbey sobre como as crianças imaginam e lêem as casas. (6)

3.1. Uso dinâmico do espaço habitacional

Barbey salienta o que refere ser um uso dinâmico do espaço, expresso em dimensões de habitações, que embora muito grandes não são monumentais:

·      os quartos individuais têm aspecto agradável e estão ligados e atravessados por túneis e corredores, sugerindo itinerários e direcções, capazes de proporcionarem condições exploratórias e aventurosas nas habitações;

·      e a casa é considerada como um labirinto reconfortante, embora não perdendo alguns aspectos que produzem receios.

Desenvolve-se, assim, uma integração ponderada entre espaços de circulação e outros compartimentos e favorece-se, assim, uma estruturação que joga na surpresa e nas alternativas de ligações entre espaços, assim como na forte caracterização de alguns desses espaços.

Julga-se que esta forma de desenvolver uma habitação é um excelente caminho de positiva subjugação dos aspectos funcionais a valores de caracterização doméstica fundamentais e que têm também a ver com um certo sentido lúdico, estimulante do próprio prazer de usar uma casa que seja um cenário de vida estimulante e curioso, mesmo depois de muitos anos de vivência.

Uma condição que, tal como tem sido apontado, também há que favorecer ao nível do micro-urbanismo de vizinhança e que, naturalmente, deverá transparecer, de forma atraente nas relações entre esses mundos mais domésticos  e estes mundos mais públicos, mas ainda muito íntimos.

3.2. Habitações caracterizadas por uma ambivalência básica

Gilles Barbey aponta, também, que as crianças imaginam casas caracterizadas por uma ambivalência básica, como elemento vertical que se ergue do solo, ou corpo concentrado, que é lugar de lançamento da pessoa na sociedade e concha de abrigo, independência e protecção; portanto, uma casa que é simultaneamente concha protectora e elemento de relacionamento urbano.

E cá temos, novamente, matéria fundamental para uma reflexão prática que sublinha o interesse de uma conjugação maximizada entre um sentido de integração de cada casa na continuidade urbana protectora e sinais sóbrios, mas claros, de identidade e de apropriação de cada sítio que se habita em casa, no café, no jardim de vizinhança, etc.

3.3. Habitações que suscitam sentimentos de permanência e relações de afetividade

E, finalmente, o referido Gilles Barbey evidencia, na imaginação doméstica infantil, as ideias de permanência e de afectividade relacionadas com a de eficácia, porque as casas vernáculas proporcionam, frequentemente, um sentimento agradável e seguro de permanência, relacionado tanto com os valores socioculturais, como com as características locais, topográficas, geológicas e climáticas; e aqui os desenhos referidos por Barbey referem-se a imagens tradicionais confirmando que as crianças procuram, naturalmente, a permanência e a duração encontradas na natureza e nas casas vernáculas.

E não será que todos nós não nos sentimos melhor em habitações e espaços residenciais marcados por tais aspectos de agradabilidade e de permanência?

Notas de remate

Pensou-se, assim, um pouco, sobre a dupla e, desejavelmente, integrável importância do conforto ambiental e da força imaginativa dos nossos mundos domésticos: uma dupla perspectiva que nos poderá garantir uma habitação tão agradável/confortável como imaginativa e estimulante.

Nesta reflexão sobre os aspetos que parecem ser essenciais na concepção arquitectónica residencial iremos, na próxima semana, abordar outras matérias também ligadas ao desenvolvimento de "bons espaços e ambientes domésticos", não nos limitando aos que se podem caraterizar como "simplesmente" funcionais.


Notas:

(1) Ken Kern, "La Casa Autoconstruida", p. 113.

(2) Tomáz Rodríguez Villasante, et al, "Retrato de Chabolista con Piso", p. 135.

(3) Em Portugal recomenda-se que os fogos tenham dupla exposição, sendo uma das fachadas orientada entre E-SE e SW (quartos orientados entre E-SE e S-SE, sala entre S-SE e SW); aceitam-se fogos com exposição simples, desde que a fachada não esteja orientada entre NE e SW (Ministério do Equipamento Social, "Recomendações Técnicas para Habitação Social", Artº 4.2.1.5); no entanto continuam a acontecer situações de não cumprimento desta condição.

(4) "Deverá ficar assegurada a ventilação transversal do conjunto de cada habitação, em regra por meio de janelas dispostas em duas fachadas opostas"; assim se regista no Artº 72, "Regulamento Geral das Edificações Urbanas", e no entanto continuamos a visitar casos de mono-orientação.

(5)  Dreyfuss e Tribel consideram que certas contiguidades não devem ser permitidas: canalizações de água ao longo de paredes de quartos e salas; equipamentos hidráulicos encostados a paredes de quartos; cozinhas sobrepostas a quartos; quartos contíguos a salas de fogos vizinhos e a escadas e galerias comuns. (D. Dreyfuss; J. Tribel, "La Cellule-Logement", p. 25).

(6) Gilles F. Barbey, "Man-Environment Interactions, Evaluations and Applications-Part3, Anthropological Analysis of the Home Concept: Some Considerations Based on the Intrepretations of  Childrens' Drawings", pp. 146 a 149.


O presente artigo corresponde a uma edição ampliada, modificada e revista do artigo que foi editado na Infohabitar, em 22/06/2014, com o n.º 488.

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XVI, n.º 757

Uma habitação ligada à natureza e bem estimulante (bons espaços e ambientes domésticos I) – Infohabitar # 757 

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).

 

terça-feira, maio 28, 2019

688 - Sobre o conforto ambiental e a qualidade arquitectónica interior doméstica – Infohabitar 688

Infohabitar, Ano XV, n.º 688                      
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Sobre o conforto ambiental e a qualidade arquitectónica interior doméstica – Infohabitar 688

por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Sequem-se algumas notas gerais sobre a relação entre os isolamentos e outros cuidados ambientais e a qualidade de uso e arquitectónica do interior doméstico.


Integrar arquitectonicamente isolamentos e outros cuidados ambientais

Não iremos aqui tratar dos diversos aspectos técnicos do conforto ambiental associados ao isolamento higrotérmico e acústico, à adequação relativamente à ventilação natural, e à adequação/protecção relativamente à insolação e à luz natural dos espaços domésticos, pois tais aspectos estão bem desenvolvidos noutros trabalhos de índole técnica específica e, cada uma dessas temáticas, levar-nos-ia muito longe e bem fora do perfil de reflexão informal, que foi adoptado neste texto.
Dedicamos, sim, alguma atenção à ideia de que o espaço doméstico, a habitação privada: (i) deve ser um espaço bem protegido e que exprima e evidencie tal protecção; (ii) e que esteja estrategicamente aberto/condicionado relativamente às diversas condições naturais de conforto ambiental aplicáveis (higrotérmicas e sonoras, de ventilação e luz natural, e de insolação); e atenção que, tal como sabemos, todas estas matérias interagem umas com as outras quando se projecta um espaço doméstico.
Tais objectivos de protecção e adequada integração no ambiente natural devem marcar, sistemática e cuidadosamente, os espaços domésticos, tornando-os ambientalmente agradáveis e sustentáveis, mas numa perspectiva formal/funcional muito integrada no respectivo partido arquitectónico interior e exterior (as vistas exteriores respectivas), poderíamos até dizer, muito “natural”, nada “imposta”, perfeitamente harmonizada em termos de solução geral e de pormenorização e muito amigável e racional em termos das respectivas condições de controlo funcional corrente e de manutenção.
Julga-se que não se trata de um “lugar comum” ou de uma afirmação óbvia e desnecessária, pois são muito frequentes os casos de “esquecimento” destes aspectos no projecto geral e de pormenorização, um esquecimento que pode ser, infelizmente, muito global e crítico, ou parcial e “infeliz”, caracterizando “soluções” em que os cuidados de conforto ambiental são considerados e aplicados como algo separado da concepção arquitectónica, um pouco como quem aplica um remédio para curar uma doença que poderia ser evitada com um leque natural de cuidados prévios.
Poderíamos ainda referir que, de forma global, os isolamentos e os outros cuidados ambientais naturais que devem integrar as soluções domésticas, nos devem proporcionar a possibilidade de gozar os espaços da nossa habitação em condições, quer de forte separação/isolamento, quer de expressivo aproveitamento relativamente às condições ambientais naturais existentes no exterior – higrotérmicas, sonoras, de ventilação (e qualidade do ar) e de luz naturais, e de insolação.
E poderíamos ainda dizer um pouco mais, defendendo que tais soluções de adequada integração e aproveitamento doméstico das condições de conforto ambiental existentes no sítio da intervenção, podem marcar positivamente a respectiva solução arquitectónica global e pormenorizada.



Fig. 01


Um espaço doméstico que deve ser agradável, que nos deve fazer sentir bem e que nos faz bem à saúde, mas cujo desenvolvimento exige grandes cuidados

Tais exigências, que deveriam ser consideradas como básicas e naturais, proporcionam o desenvolvimento de um espaço doméstico extremamente adequado em termos de condições de luz natural e insolação bem controladas e direccionadas, conforto higrotérmico expressivo e bem controlado, ventilação constante e tão eficaz como pouco perceptível e bem controlável, eficaz e contínua ausência de cheiros e odores menos agradáveis ou intensos, e expressivo e global sossego acústico/sonoro.
E entenda-se que nada nestas condições se refere a um especial acréscimo de custos, mas somente depende de um projecto mais completo e adequado; e sendo que, a prazo, tais condições vão reflectir-se muito positivamente no bem-estar global e na saúde dos respectivos habitantes, com evidentes reflexos muito acrescidos em pessoas mais jovens, mais idosas e com problemas de saúde.
Salienta-se, no entanto, que o cumprimentos de tais exigências básicas de conforto ambiental doméstico obriga a uma formação específica e ao estudo cuidadoso das respectivas matérias, sendo que há problemas críticos a considerar: (i) seja no frequente e já referido pouco cuidado da concepção arquitectónica nestes assuntos; (ii) seja na frequente e deficiente formação que estas matérias, ainda, merecem ao nível universitário; (iii) seja na também, ainda, frequente ausência de documentação adequada e directamente dirigida para a relação entre estas matérias e a concepção arquitectónica, e , já agora, na reduzida divulgação das melhores obras existentes.
E o que dizer da própria capacidade projectual de integrar, muito positivamente, todas estas exigências de conforto ambiental num partido arquitectónico adequado e interessante: no mínimo, há que reconhecer que não é fácil, até porque esses aspectos devem ser harmonizados com outros importantes aspectos de projecto – tais como as vistas exteriores e interiores, a segurança no uso corrente, a espaciosidade funcional, a versatilidade doméstica, a privacidade e o convívio – mas trata-se de algo que tem de ser adequadamente desenvolvido e que, quando cumprido, é elemento muito valorizador e caracterizador da respectiva solução.


Fig. 02

Um interior doméstico, tipo "concha de caracol", mas equilibrado

Ainda um outro aspecto que importa ter em conta nesta ampla matéria da relação íntima entre o mundo do conforto ambiental doméstico e o mundo da respectiva apropriação espaço-funcional é que devemos poder gozar um interior doméstico, tipo "concha de caracol", portanto, extremamente adequado ao modo como o vivemos pessoalmente em grupo, nas mais diversas ocasiões, um mundo doméstico que nos protege e acompanha quase como uma segunda pele e que também até nos caracteriza, exactamente, como sendo uma segunda pele; mas, no entanto, esse mesmo mundo doméstico também deve ser algo que “vive por si”, com equilíbrios próprios e adequados, um pouco como um nosso grande aliado, mas que também, um outro dia será aliado de outro(s), ganhando, assim, uma espécie de interessante identidade urbana e doméstica própria e desejavelmente estimulante – e nestes sentidos o mundo doméstico também ganhará com um relativo distanciamento em termos da sua possível “personalização” e, nesta matéria, parece que o seu conteúdo “mais técnico” (embora bem domesticado) pode ser um bom aliado neste objectivo de concepção.

Sobre as diversas dimensões do conforto ambiental doméstico: algumas (poucas) notas complementares

O isolamento/condicionamento higrotérmico está minimamente garantido em termos regulamentares designadamente no que refere à nova construção, mas há, frequentemente, uma tendência para o condicionamento mecânico do ar, em detrimento de soluções mais naturais e positivamente passivas.
A questão da ventilação natural e da respectiva estratégia não é um dado adquirido, embora dependa de aspectos tão óbvios como fazer janelas estanques ao ar, mas integrando dispositivos de ventilação específicos e que tenham, depois, “seguimento”, em percursos de ar no interior da habitação (ex., bandeiras de iluminação e ventilação sobre portas).
Quanto ao isolamento sonoro ele depende tanto de cuidados construtivos específicos e nada especiais na constituição de determinadas paredes, das lajes e dos vãos exteriores, como de uma estratégia de distribuição das zonas funcionais do edifício que não faça vizinhos espaços ruidosos de outros onde o sossego seja fundamental (exemplo ascensores e quartos) e que tenha cuidado com os sítios onde passam as instalações de águas e esgotos, numa mesma lógica de os afastar e/ou isolar relativamente a espaços mais sossegados da habitação. E, naturalmente, que terá de haver, também, uma estratégia adequada de vizinhanças dos diversos espaços domésticos relativamente aos espaços exteriores contíguos, mais e menos ruidosos
Relativamente à recepção da radiação solar de forma equilibrada, ela depende, também, de uma adequada estratégia organizativa da habitação, que faça que os compartimentos a recebam, tendencialmente, mais nas horas e nas estações onde ela é bem-vinda, e aqui é possível orientar os diversos tipos de compartimentos consoante a sua utilização preferencial, por exemplo, com os quartos de dormir mais a nascente, salas mais a sul, cozinhas a norte e casas de banho a poente, sendo que há, também, a possibilidade de tratar o exterior do edifício com pequenas palas (ou outros elementos funcionais) que produzam sombra no Verão e não no Inverno, e nada disto é mais caro do que fazer mal, não ligando a estes aspectos; só que dá um pouco mais de trabalho em fase de projecto, e, naturalmente, numa cidade nunca será possível orientar as habitações todas da mesma maneira – até porque as próprias ruas urbanas também ganham com uma adequada estratégia de sombreamento.
Mas grandes a janelas a poente, impossíveis de serem protegidas no Verão, habitações apenas com janelas numa parede (sem ventilação cruzada entre duas paredes opostas), casas de banho interiores e janelas sem vãos específicos de ventilação, isso, por favor, nunca mais, quando se trata de nova habitação.
Destaca-se, ainda, a questão da fundamental abundância de luz natural, que deveria ser uma condição básica em qualquer habitação, mas infelizmente tal não acontece, parecendo que estamos ainda na altura em que quaisquer 5 centímetros a mais na largura das janelas era condição de fracasso financeiro da operação.
E finalmente há que referir que palas verdadeiramente úteis (bem salientes e desenhadas com cuidado, (por exemplo, no pormenor do lacrimal), são elementos fundamentais para a conjugação de aspectos de agradabilidade e, já agora, de alguma cuidadosa atractividade no respectivo projecto de arquitectura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 688

Sobre o conforto ambiental e a qualidade arquitectónica interior doméstica – Infohabitar 688


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo/LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil



Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).