segunda-feira, abril 09, 2018

Caracterização geral dos vãos exteriores I - Infohabitar 636


Infohabitar, Ano XIV, n.º 636


Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CIX


por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Caracterização geral dos vãos exteriores I
Sobre a caracterizaçação dos vãos exteriores importa referir, essencialmente, que eles têm uma enorme importância em termos de conforto ambiental doméstico, em termos de luz, insolação, ventilação, isolamento acústico e abertura de vistas exteriores, e que, portanto, têm de ser muio bem concebidos em termos dimensionais e funcionais ao serviço de todos esses fundamentais objectivos de melhor habitabilidade e vivência doméstica- e para tal há uma enorme variedade de tipos de tipos gerais de janelas (1): levantável, giratório, rebatível, basculante, pivotante, de guilhotina; e de correr.
Não faz, portanto, qualquer sentido que o vão exterior seja considerado apenas como elemento de composição da fachada, há que harmonizar a sua dupla função e, sendo necessário, haverá que privilegiar a sua função "interior", não havendo qualquer dúvida de que uma boa janela exige um apurado cuidado de concepção.
Pormenorização geral dos vãos exteriores
Os vãos exteriores de peito e de sacada são, muito provavelmente, tão importantes na satisfação doméstica, quanto o espaço interior em que se conjugam; e haverá, muito provavelmente, "mecanismos" de compensação que acabam por funcionar e que põem em relevo o enrme problema criado por projectos de habitações dimensionalmente exíguas, gloabelmente mal dimensionadas e mal orientadas, mas para além de tuso isto, mal servidas por janelas exíguas, mal orientadas e pobremente desenhadas em todos aqueles aspectos associados às matérias do conforto ambiental (luz natural abundante, controlo de luz e de temperatura, ventilação e isolamento sonoro) e ao desenvolvimento de verdadeiros "lugares-janela".
Os vão exteriores são fundamentais na criação de um espaço doméstico que associe funcionalidade, segurança, conforto ambiental e essenciais aspectos de comunicabilidade com o exterior e de apropriação; uma importância claramente subalternizada coma excepção das boas arquitecturas.



Não é fácil fazer um adequado mapa "global" de possíveis vãos exteriores, pois as janelas - de peito e de sacada - têm de garantir condições que são, por vezes, antagónicas como é o caso da segurança contra quedas e contra intrusões, a possibilidade de obscurecimento do interior doméstico e o seu eficaz isolamento em termos de temperatura e contra o ruído exterior, e os referidos aspectos de grande relação com o exterior natural e urbano, aspectos estes também associados ao uso intenso dos espaços exteriores privativos e dos riquíssimos limares de transição interior/exterior que muito ficarão a dever  ao desenvolvimento de boas soluções de janelas e janelões; e com tudo isto há que harmonizar os custos, tradicionalmente elevados nesta parte da obra.
Podemos dizer que uma (muito) boa janela é um verdadeiro "tratado", pois assegura vistas e outras relações humanas entre interior e exterior, isolamento térmico e contra os ruídos do exterior, ganhos térmicos e ganhos de insolação controlados e bem distintos no Inverno e no Verão, ventilação controlada do respectivo espaço doméstico, considerando que este assume um papel específico na necessária solução global de ventilação da habitação, e também assegura adequadas condições de segurança contra riscos de queda e intrusões e, finalmente, assegura um importantíssimo papel seja na funcionalidade e na apropriação do respectivo espaços doméstico que integra, seja mesmo no nível de atractividade e de identidade que caracteriza o respectivo edifício. E, naturalmente, uma "má janela", como se pode concluir é quase como um falhanço crítico na qualidade global do projecto e na sua influência na satisfação dos respectivos habitantes; e, infelizmente, não é pouco frequente seja a associação crítica entre maus projectos gerais e de janelas, seja a não valorização de um bom projecto geral, ou mesmo o seu muito sensível empobrecimento através de más soluções de janelas.
As janelas domésticas e os seus elementos de regulação devem ter, assim, designadamente, as seguintes características:

- proporcionarem abundante luz natural e radiação solar equilibrada manobra;

- isolarem do ruído e do calor do Verão;

- terem limpeza funcional e seguras e protecções reguláveis do interior e com facilidade;

- terem "bandeiras" de ventilação bem posicionadas e reguláveis, proporcionando ventilação cruzada entre compartimentos e o encaminhamento do ar mais para o tecto (para "varrer" o ar quente que aí se pode acumular), ou mais para baixo (refrescando directamente os habitantes);

- proporcionarem vistas exteriores agradáveis;

- poderem ser encerradas para proporcionarem segurança, privacidade e regulação da luz natural;

- participarem, activamente, seja na boa capacidade mobilável do respectivo compartimento, seja nas boas capacidades funcionais - luz natural e posicionamento relativo - das actividades aí potencialmente mais frequentes e mesmo na respectiva capacidade de apropriação e de atractividade, designadamente, pela expressão reforçada das suas margens - o exemplo desta capacidade é-nos proporcionado por muitas excelentes janelas de tantas habitações mais antigas;

- serem seguras na sua utilização habitual, considerando-se, designadamente, o seu uso por crianças;

- e, naturalmente, estarem, perfeitamente integradas no equilíbrio visual e no partido arquitectónico do respectivo projecto - condição básica e que poderia estar, aqui, ausente, pois trata-se de matéria realmente essencial e primária num bom projecto.
  
Todos reconhecemos a capacidade de atractividade interior e exterior dos vãos exteriores, uma capacidade que, no entanto, está pouco expressa na prática corrente e, nestas matérias há "segredos" importantes entre os quais e segundo Alexander se saçienta o reforço do tratamento das margens dos vãos, e nomeadamente dos exteriores, que  corresponde à evidenciação do natural reforço que se tem de aplicar em torno de uma certa zona de um pano de parede que se pretende abrir e tratar como janela ou porta; de certo modo correspondendo a um desvio e a uma concentração de linhas de força, tal como refere Alexander. (2)
De certa forma quando nos concentramos nos vãos exteriores há que considerar reforços de visibilidade, de profundidades e de transparências.
A profundidade aparente de um vão exterior é muito importante, criando-se com os seus elementos de enquadramento e com outros elementos suplementares, como os encalços e mesmo as cortinas, "um pequeno mundo intermédio ou de limiar", entre o exterior público e o nosso "santuário" doméstico interior, que fica bem destacado, afastado e protegido.
Tal como se refere num estudo do LNEC já aqui, várias vezes, citado (ITA 2), desde que exista algum espaço nesse limiar, ele pode ser povoado e habitado, por plantas e objectos pessoais e domésticos (ex., molduras com fotografias da família), situação esta que proporciona transições e ligações entre espaços interiores e exteriores (ex., vários planos de plantas, interiores e exteriores, privadas ou públicas) e constitui uma barreira psicológica de protecção do nosso espaço doméstico; outra função básica destes espaços é a marcação doméstica das fachadas, para além da sua, natural, marcação pessoal (ex., aquela janela igual às outras, mas com uma planta bem identificável, uma determinada cor nas cortinas e uma resma de livros, é a nossa janela).
E há que sublinhar que, naturalmente, nada disto acontece em janelas simplesmente recortadas e "chapadas" nas paredes, interior e exteriormente, que são meros intervalos ou "ocos" da construção; desta forma perde-se todo um importantíssimo mundo de escalas reduzidas que marcam limiares e buffers que, tanto protegem, até termicamente, como marcam e que podem ser excelentes locais de identidade e apropriação, pois têm alguma, mitigada, visibilidade pública, estando em pisos pouco elevados - assunto este que merecerá posterior e específico desenvolvimento - e porque são assumidos com naturalidade como espaços positivamente "residuais"; e nesta matéria pode-se comentar que se trata de espaços hoje construtivamente sem sentido, o que é verdade, mas não deixando de ser verdade que aquelas excelentes funções de protecção e identificação marginal continuam a fazer todo o sentido, podendo justificar a sua "reconstituição" essencialmente formal, e independente dos aspectos construtivos.
Importa sublinhar que a fenestração do habitar deve adequar-se à altura a que é aplicada no edifício, tanto porque quanto mais abaixo estiver maior área envidraçada é necessária para se obterem os mesmos níveis de luz natural interior, como porque são diversas as relações visuais que caracterizam a relação do interior sobre o exterior, conforme o nível em que se está; e estes aspectos de desenho pormenorizado são elementos estratégicos na caracterização da solução, salientando-se que aqui não se defende a sistemática divesificação da fenestração, conforme os seus níveis de aplicação, apenas que se tenha em atenção o que acabou de ser referido, até, eventualmente, no estudo que se fala de um vão-tipo optimizado e aplicável de forma muito generalizada. FIG
A fenestração térrea habitacional e próxima do nível térreo exige uma concepção específica cuidada de modo a que se harmonizem boas condições de iluminação natural e vistas com aspectos de segurança contra intrusões e de privacidade visual, sendo muito provável o interesse de se desenvolverem desníveis e interposições de espaços e elementos estratégicos, assim como um "espessar" do vão, ele próprio elemento de primeira linha na protecção visual que proporciona ao interior doméstico. E não tenhamos dúvidas que todos estes cuidados são elementos que reforçam a força de embasamento e o carácter do respectivo edifício.

Na próxima semana avançaremos para aspectos mais específicos do "desenho" dos vãos exteriores.
Notas:
(1)  Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", p. 111.

(2)   Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 919 e 920.
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Infohabitar, Ano XIV, n.º 636

Caracterização geral dos vãos exteriores I


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Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

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