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quinta-feira, janeiro 11, 2007

121 - Sobre a humanização do habitar e o cooperativismo – uma primeira “conversa escrita” entre António Novais e António Baptista Coelho - Infohabitar 121

 - Infohabitar 121


Fig. 1: Beja, Cooperativa de Habitação Económica Lar Para Todos, 1986, projecto coordenado pelo Arq. Raúl Hestnes Ferreira.

Nota explicativa:

Nesta edição apresenta-se mais uma iniciativa do Grupo Habitar e do Infohabitar, que passa pela edição periódica, mas sem intervalos predefinidos, de “pares” e outros conjuntos de sequências de cartas com o título que melhor reflicta o conteúdo da respectiva troca e discussão de ideias; e até pode ser que por exemplo este importante primeiro tema da relação existente e potencial entre um habitar de forma mais humana e a cooperação habitacional nos leve longe: quem sabe!

Edita-se, assim, em seguida uma “conversa escrita”, que se inicia com uma carta, que decorreu naturalmente de uma conversa anterior, da qual a carta tenta fazer o possível relato, e uma carta que informalmente aborda, neste caso, variados temas na área da humanização do habitar e do cooperativismo, e uma carta que levanta ideias e propõe caminhos de discussão; e naturalmente a esta primeira carta segue-se a carta de resposta, que igualmente avança ideias e coloca questões para uma outra terceira carta que está para chegar.

O tema escolhido para esta primeira troca de “palavras escritas” foi o do novelo de aspectos que integram as matérias da humanização do habitar e da sua já existente e potencial relação com o cooperativismo habitacional, um tema que foi tema real de uma última conversa entre nós e que assim agora se abre a todos os leitores do Infohabitar, registando-se que se trata de uma “conversa escrita” entre duas pessoas que têm vivido de forma intensa as questões do habitar e designadamente o que o habitar pode dar para além do tecto e de um fundamental, mas não suficiente, conjunto de funções domésticas.

Apenas mais duas notas importantes:

A primeira é acentuar a natureza inteiramente informal e ao “correr da pena” ou do “bater do teclado” que têm e querem sempre vir a ter estas “conversas escritas”; considera-se ser esta uma opção fundamental nesta pequena aventura, que tem, naturalmente, reflexos numa discorrer de opiniões e de ideias apresentadas de forma um pouco fragmentada, pois essa é a essência de uma conversa, mas uma essência que pode eventualmente traduzir-se numa motivadora e natural agregação de ideias e, deseja-se, numa motivadora dinamização de outras pessoas para esta e para outras “conversas escritas”.

E a segunda nota, que já acabou de ser apontada, é, portanto, a vontade real de poder chamar outras pessoas para esta e para outras “conversas”, com os efeitos enriquecedores que essas pessoas trarão, sem qualquer dúvida, à discussão dos assuntos em consideração; e bastará o respectivo envio à edição do Infohabitar (para
abc@lnec.pt ou abc.infohabitar@gmail.com ).

Uma iniciativa deste tipo implica, naturalmente, uma sintética identificação dos perfis dos autores, e assim regista-se que António Baptista Coelho é investigador do LNEC e Vice-presidente da Nova Habitação Cooperativa (NHC) e António Novais é fundador e Vice-presidente da cooperativa As Sete Bicas. Há, no entanto, que sublinhar que os temas em desenvolvimento o serão, mais em resultado das nossas observações e vivências das realidades do habitar de hoje e menos em consequência das nossas actividades específicas e funções enquanto cooperativistas habitacionais.

Os autores, em 8 de Janeiro de 2007

(as imagens são apenas globalmente ilustrativas e seguem uma ordem cronológica)


Fig. 2: conjunto da Nova Habitação Cooperativa (NHC), na Estrada da Circunvalação, Lisboa, 1995, projecto coordenado pelos arquitectos Rui Pedro Cabrita e Miguel Ângelo Silva.

Caro Baptista Coelho,

Como que continuando a nossa conversa de há dias, agora sob a forma escrita (o que é um tanto mais complicado e demorado), os nossos temas andaram à volta dos meios que tornassem, por um lado, a relação entre os cooperadores com as cooperativas (sejam elas de que ramo forem) mais confiáveis, e das cooperativas em relação aos cooperadores com a oferta, tanto quanto possível, de condições favoráveis e atractivas e dentro das expectativas concretizáveis no que toca aos produtos que colocam ao dispor dos seus associados.

Falando do nosso universo (as cooperativas de habitação) a pergunta que se imporia seria a seguinte: Correspondem as cooperativas, com os produtos que colocam à disposição dos seus cooperadores, ao modelo de utilização e de vivência (proximidade e interacção com a sua vizinhança), que permitam aos cooperadores a desejada integração em ambientes, que sendo novos, não façam àqueles sentirem-se deslocados ou “encasulados”, mas que, antes, facilitem o contacto e o são relacionamento inter-vizinhos?

É sabido que as habitações que hoje se produzem, seja no mercado livre, seja no do mundo cooperativo, obedecem, mais ou menos, a um mesmo padrão construtivo: cozinha mais ou menos minúscula, quartos, sala comum e arrumos. É sabido também que, particularmente nos casais com vida profissional activa, as refeições normais são, tendencialmente, tomadas na cozinha, por questões de mobilidade, de economia de tempo, de tradição, etc.. E será que as habitações (neste caso as cozinhas) dão resposta, pela sua configuração e área, a estas necessidades?

As classes mais débeis economicamente encontravam, até um passado recente, solução para os seus problemas de habitação naquilo a que no Porto se designa por “ilhas”; aglomerados de minúsculas casas construídas em superfície. Nesses aglomerados, havia, muitas vezes, espaço para os canteiros, ou vasos, onde proliferavam mil tipos de plantas e flores, ou para a miudagem conviver em ambiente de brincadeira e de jogos colectivos, hábitos que hoje se vão perdendo, com grande pesar por parte de todos quantos neles então participaram e deles muitos ensinamentos tiraram. Sobrava também o tempo para que os vizinhos, ao se cruzarem nos espaços comuns, parassem para dois dedos de conversa;

Mas a que se devem então os protestos de muitos dos moradores dessas “ilhas”, ou mais recentemente dos moradores de alguns bairros em demolição quando são confrontados com a imposição de se realojarem em novas habitações com índices de conforto e de habitabilidade bem melhores que as de onde provêm? Não será, também porque se confrontam com a consciência de que vão perder, para sempre, aquele ambiente intimista e de solidariedade que viviam nos antigos espaços das suas habitações, ou recantos onde crianças e adultos pudessem ter contacto com a terra, como o faziam naqueles anteriores espaços? Lembremo-nos, de novo, dos jogos que a criançada fazia desenhando-os ou construindo-os com terra, ou do efeito retemperador e de prazer com que muitos adultos se sentiriam se tivessem, por perto, um canteiro onde pudessem amanhar a terra e contemplar o crescimento das suas plantas. Lembremo-nos ainda dos pátios alfacinhas e do efeito intimista e solidário que os mesmos provocavam nos “vizinhos” (haveria que recuperar também este termo, no sentido que o mesmo significava então).

Felizmente que o tipo de habitação que a esmagadora maioria das Cooperativas produz para o alojamento dos seus cooperadores, vai no sentido de responder positivamente a algumas das realidades e constrangimentos acima apontados, através da inclusão, nos seus edificados, de equipamentos sociais e espaços lúdicos e de convívio para todos os grupos etários. Felizmente que muitas das Cooperativas alimentam ainda actividades lúdicas ou desportivas, para benefício dos seus membros.

Com estas acções desenvolvidas pelas Cooperativas de Habitação (construção de habitações dentro de critérios cada vez mais rigorosos e onde se incluem os equipamentos sociais) a interrogação que se põe é se estará tudo feito no que seja o âmbito desta área do cooperativismo e no que sejam as aspirações e determinações dos seus dirigentes. Avanço a resposta: Não!
--- x ---

Suspendo aqui a minha parte da “conversa”, que nos comprometemos passar a ter com regularidade sobre estes temas, ligados à nossa “costela” do cooperativismo.

Com os assuntos acima abordados, mais não pretendi que não fosse tentar encontrar um fio para o arranque desta “missão”.

Saúdo-o com cordialidade.

António Novais
06.12.30


Fig. 3: MCH Algarve, Faro, CUPH – Urbanização Janelas de Faro I, projecto coordenado pelos arquitectos Jennifer Silva Pereira e Rogério Paulo Inácio, 2005.

Caro António Novais,

Continuando a nossa conversa, e com algum método seguindo o correr das suas palavras e das ideias que discutimos há pouco mais de um mês – um método que espero poder e podermos baralhar, positivamente, em próximas destas conversas, apetece sublinhar que a habitação não é ou não deveria ser apenas uma “caixa” onde se exercem diversas “funções” habitacionais, funções estas actualmente já muito escalpelizadas.

E a habitação não é uma “caixa” – ou a “gaveta” onde se arrumam pessoas, numa bem adequada ideia da Doutora Isabel Guerra – não só porque a habitação é muito mais do que uma “caixa” definidora de um dado mundo doméstico, sempre o foi, pois nela sempre muito mais se passou do que apenas funções – basta lembrarmo-nos das emoções –, mas também porque a habitação, que esteve na base da aglomeração de casas e da cidade, não pode de forma alguma esquecer-se das razões de coesão e de vivência comum, que estiveram na base da construção citadina. E, se o esquecer, provavelmente inicia aí o princípio do fim da sua razão de existir em termos de unidade específica; e aqui há também funções, mas também emoções.

Explorando um pouco mais esta matéria dá vontade de comentar que, provavelmente, há cerca de 10.000 anos se começou a passar da casa isolada para a “cidade” por razões de protecção mútua, de desenvolvimento económico e cultural e muito provavelmente também por razões de desenvolvimento gregário e associativo, e também de convívio em grupo, enquanto hoje em dia parece ser a reclusão doméstica e talvez mesmo o aprofundar do individualismo, por um lado, e a estratégica reclusão consumista, por outro, que ameaça a vitalidade do espaço público, que constitui afinal a própria matéria-base da cidade.

E voltando, outra vez, um pouco atrás, também uma caixa apenas “habitável” não corresponde ao sentido de protecção, de envolvência e de identidade e de relação com o corpo e o espírito que pode estar presente até no mais pobre abrigo.

Sobre o problema das habitações-tipo feitas para famílias-tipo, dá vontade de dizer que, em boa parte elas só serão as mais adequadas absolutamente por acaso, pois como se sabe não há pessoas-tipo, nunca houve e cada vez menos há, seja considerando a grande diversidade de culturas que cada vez em maior número integram a nossa grande casa europeia, seja porque o viver de forma específica é, cada vez mais e ainda bem, a vontade de muitos.

Naturalmente que um edifício multifamiliar ou um agregado de edifícios unifamiliares só poderá responder com fidelidade a cada conjunto de necessidades e de desejos familiares a muito custo, mas há diversos aspectos em que se pode actuar numa contínua aproximação à satisfação de quem habita: um dos aspectos é o diálogo construtivo e funcional com quem vai habitar e com quem vai projectar, sempre que tal diálogo seja possível; outro aspecto é conhecer o melhor possível o maior número possível de soluções residenciais e urbanas, pois não vale a pena repetir erros e há inúmeras soluções que podem responder a inúmeras solicitações; outro aspecto liga-se à aplicação de cuidados de projecto especificamente dirigidos para se aumentar a adaptabilidade de uma dada solução doméstica genérica, e esta é uma matéria que nem é especialmente complexa e permite uma riquíssima reinterpretação da casa por um razoável leque de formas e desejos de habitar, trata-se sim de uma matéria em que tudo isto é apenas possível com um bom projecto de arquitectura.

Portanto a resposta que dá vontade de dar à questão levantada sobre se as habitações actuais tendem a dar resposta às necessidades actuais, a resposta que se julga mais acertada é que, por regra, não! E pensa-se apenas nas necessidades funcionais, sobre as outras então só excepcionalmente as novas habitações lhes dão resposta; e aqui fica uma pergunta: será que é desejável e possível seguir, como regra, por este caminho de tentar dar resposta também a outras necessidades domésticas que não as apenas funcionais?

Ao entrar-se nesta matéria de outras necessidades habitacionais para além das funcionais, tendo presente, naturalmente, que há ainda necessidades funcionais por cumprir, mas não é por isso que se deve parar a reflexão sobre estas matérias, portanto neste aprofundamento dos rumos e das dimensões da satisfação residencial, há que fazer duas coisas fundamentais: olhar a rua e a cidade e sair de casa, e poder ter vontade de sair de casa; e poder depois olhar e lembrar a nossa casa de fora e ter vontade de a ela voltar e de nela receber os amigos que devem poder vir pela rua com agrado.

E aqui parece centrar-se a matéria que se levanta quando se pensa na insatisfação de certas pessoas quando confrontadas com ter de sair de um sítio de habitar com pouco conforto, mas com elevado potencial de apropriação, convivialidade e relações directas que são aquelas que em boa parte dinamizam a ajuda mútua, para irem habitar novas habitações, por vezes, com elevados níveis de conforto e de habitabilidade, portanto com elevados parâmetros qualitativos funcionais, mas, frequentemente, com reduzidos parâmetros qualitativos ligados a aspectos de identidade, apropriação, convivialidade e mesmo sentido de afinidade e de amigabilidade.

Fazer casas “amigas” de quem nelas mora, para além de serem “amigas” do ambiente, e fazer cidades “amigas” dos seus habitantes. Nestas matérias há muito que fazer pois sabe-se que muito aqui terá a ver com a escala e, tal como refere no seu texto, com a relação com o solo e com a possibilidade de usar a rua e os espaços de transição entre casa e rua com alguma liberdade e mesmo com alguma alegria – e nada disto trata de aspectos subjectivos ou inexistentes, são aspectos difíceis de medir, pois claro, mas que eles existem não haja dúvida. E talvez sobre esta matéria valha a pena prolongarmos um pouco o nosso diálogo em futuros textos, se assim considerar oportuno.

Mas seria importante ter também a sua opinião como habitante e como dirigente de uma grande cooperativa de habitação sobre uma outra faceta desta última temática, é que parece que, por vezes, o principal problema nem é uma pouco eficaz interpretação ou reinterpretação de tais “valores” pouco mensuráveis, mas que enriquecem o sentido do habitar a casa e a cidade, o pior parecem ser aqueles inúmeros casos em que fica evidente no projecto a quase total ausência de preocupações com tal natureza.

Com certeza que é difícil projectar ambientes residenciais intimistas e potenciadores de solidariedade, ou pelo menos de convívio, mas as cooperativas têm conseguido fazer alguns, não é verdade? E não será que vale a pena um tal cuidado e um tal trabalho aprofundado? E não será que muita desta matéria tem suporte directo numa cuidadosa aplicação de determinadas soluções tipológicas, feitas de edifícios e de espaços entre edifícios, ambos criteriosa e fundamentadamente desenhados? Mais um tema que fica em aberto.

E não será que nos últimos anos tem havido algum abrandamento neste tipo de preocupações práticas, designadamente, também nas próprias cooperativas? E não será que é cada vez mais urgente retomar uma tal linha de habitar humanizado e solidário, ainda que naturalmente apoiando os habitantes de hoje, e portanto sensível aos novos hábitos domésticos e urbanos? E que linhas deverão ser privilegiadas para se ir cumprindo um tal sentido de evolução da promoção habitacional e designadamente da promoção habitacional cooperativa?

A resposta que dá no seu texto a esta matéria é que acha que não, que acha que nem tudo está feito na área do cooperativismo habitacional no que se liga a estas matérias de uma ponderada, mas afirmada humanização e dinamização social e convivial da nossa promoção habitacional. Mas como avançar? E como avançar de forma eficaz numa sociedade que cada vez mais está, como diz, encasulada?

E não será também vital para as cidades deste nosso novo século das cidades que na pequena escala das suas vizinhanças algo se comece a passar de forma diferente, isto é, de forma mais humana e convivial?

--- x ---
Termino então por aqui, para já, esta minha parte da “conversa” que nos comprometemos passar a ter com regularidade sobre estes temas, ligados à nossa “costela” do cooperativismo, por sua vez bem ligada à nossa outra costela de habitantes deste século das cidades que estamos a viver pela primeira vez.

Reconheço que fui um pouco longo, o que tentarei corrigir na próxima “conversa escrita”, na sequência da recepção das suas e, eventualmente, de outras ideias que aguardo com expectativa.

Saúdo-o com cordialidade.

António Baptista Coelho
2007.01.05


Fig. 4: Conjunto Habitacional da Bouça, Porto, Cooperativa Águas Férreas – cooperativas Ceta e As Sete Bicas e Associação de Moradores da Bouça –, 2006, projecto coordenado pelo Arq. Siza Vieira, uma acção de reabilitação e de completação (72 novos fogos) da obra que tinha sido parcialmente concluída em 1979; fotografia disponibilizada pelos promotores.

sábado, maio 20, 2006

85 - Conclusões do VIII Congresso Nacional do Cooperativismo Habitacional – FENACHE - Infohabitar 85

 - Infohabitar 85


Conclusões do VIII Congresso Nacional do Cooperativismo Habitacional – FENACHE


(cooperativas, fenache, habitação, urbanismo, gestão, qualidade, cooperativismo, sustentabilidade)

Apresentam-se, em seguida, as conclusões do VIII Congresso Nacional do Cooperativismo Habitacional, na sequência da anterior reportagem fotográfica editada no Infohabitar, e que permitiu uma perspectiva ampla dos excelentes trabalhos desenvolvidos ao longo dos três dias muito participados em que se desenvolveu o Congresso.
Como ficará evidente, mesmo numa primeira e rápida leitura, o texto que se segue e que foi apresentado no final dos trabalhos do Congresso pelo Presidente da Direcção da Fenache, GuilhermeVilaverde, integra um muito objectivo e estimulante conjunto de ideias com grande alcance para a realidade de uma promoção residencial humanizada e sustentável, por todos desejado, hoje em dia, em Portugal.
Refere-se, ainda, que em próximas edições do Infohabitar será retomada a edição de algumas das intervenções que marcaram, muito positivamente, este Congresso, designadamente, pelos seus aspectos de claro conteúdo prático, assente em exemplos residenciais e urbanos de referência, já decididamente seguidos pelas cooperativas de habitação integradas na Fenache (as imagens que acompanham o texto correspondem a algumas dessas realizações).
Lisboa, Encarnação-Olivais-Norte, 21 de Maio de 2006
António Baptista Coelho
(Presidente da Direcção do Grupo Habitar e Vice-presidente da Nova Habitação Cooperativa)
ENQUADRAMENTO
Teve lugar, em Sintra, nos dias 29 e 30 de Abril e 1 de Maio, o VIII Congresso Nacional do Cooperativismo Habitacional.
Organizado pela Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE), o evento contou, nos três dias em que se prolongou, com cerca de 250 participantes por sessão, incluindo dirigentes, técnicos, cooperadores e convidados. Entre estes, há a destacar a presença, na Sessão de Abertura, do Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, Prof. Dr. JoãoFerrão, e do Presidente da Câmara de Sintra, Prof. Dr. FernandoSeara, município que apoiou de forma indiscutível tanto a realização do 8º Congresso Nacional, bem como da 15ª edição dos Jogos Nacionais, que contou neste ano com mais de 600 presenças.



“Janelas de Faro”
Embora o VII Congresso tenha sido genericamente subordinado ao tema da Sustentabilidade do Cooperativismo Habitacional, houve outros assuntos a merecer a atenção dos conferencistas e oradores convidados, nomeadamente questões que projectam o futuro do sector no nosso país, tais como: a Carta da Qualidade da Habitação Cooperativa, a aposta na reabilitação urbana e na gestão do património habitacional e a atenção crescente e inovadora aos segmentos mais jovens e idosos da população, novos modelos organizativos de contratualização com o Estado, etc.
O evento primou ainda por dar espaço a um momento de emocionada homenagem a JoséBarreirosMateus, um grande nome do cooperativismo, falecido em Dezembro último e, à altura da sua morte, Vice-Presidente da FENACHE, onde estiveram presentes mais de 300 pessoas.




“Janelas de Faro”
VIII Congresso Nacional do Cooperativismo Habitacional – FENACHE
Para a Sustentabilidade do Cooperativismo Habitacional
- CONCLUSÕES –
A Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica, FENACHE, integra presentemente 70 estruturas cooperativas que desempenham importante actividade na promoção, construção e gestão habitacional para estratos populacionais diversificados, e com particular incidência em programas de HCC destinados a colmatar lacunas evidentes no seio do sector habitacional.
No seu conjunto, o sector do cooperativismo habitacional é hoje responsável pelo alojamento de 600 mil pessoas (isto é, cerca de 6% da população nacional), o que corresponde a um parque habitacional de 160 mil fogos evidenciando na sua acção não apenas a mera promoção habitacional, antes dotando os seus empreendimentos de infra-estruturas de apoio social, desportivo e cultural, com impacto assinalável no meio em que se inserem.



“Vale Formoso”
Esta capacidade de intervenção e ambição de pioneirismo no nosso trabalho levou a que, actualmente, as cooperativas se encontrem na vanguarda da implementação das novas exigências da Qualidade e suas Garantias, da Eficiência e Certificação Energética e preocupação com as questões ambientais e sustentabilidade Económica e Social das comunidades.
Neste particular momento de fragilidade económica e social do país, acreditamos que as cooperativas podem dar um contributo ainda maior para a resolução das carências habitacionais de inúmeros portugueses. Daí a importância que assume, na presente data, este nosso Congresso.
Por isso, reunidas em Sintra, entre os dias 29 de Abril e 1 de Maio, as Cooperativas de Habitação aprovam, após adequado debate e reflexão, as seguintes Conclusões:

  1. Fazer da Carta da Qualidade da Habitação Cooperativa/FENACHE um instrumento decisivo para progressiva qualificação do trabalho das cooperativas de Habitação, tornando-o de forma gradual e progressiva um critério indispensável à filiação na Federação Nacional, e ao uso da marca da Qualidade FENACHE;

  1. Prosseguir e ampliar os melhores esforços já experimentados pelas Cooperativas de habitação da FENACHE na recuperação, revitalização e reconstrução do parque habitacional do País, tornando-o mais sustentável tanto do ponto de vista urbanístico como do ponto de vista económico e social;



“Vale Formoso”
  1. Continuar a apostar em projectos que contemplem segmentos etários e sociais específicos, tais como a população idosa, pessoas sós, indivíduos com necessidades específicas e jovens;
  2. Promover o inquilinato cooperativo enquanto modelo de trabalho futuro e elemento catalizador da mobilidade habitacional e profissional;



Bairro da Bouça
  1. Aprofundar e desenvolver eficazmente o plano de desenvolvimento dos 5 principais eixos estratégicos indispensáveis para a sustentabilidade do cooperativismo habitacional, tal como definidos pela FENACHE – a Visibilidade, a Capacitação, a Transparência, a Intercooperação e a Contratualização com o Estado – para que o sector se torne cada vez mais reconhecido, desejado e valorizado pelo seu activo e imprescindível papel no seio das comunidades que servimos, da população geral, dos agentes da sociedade e dos órgãos do Estado afirmando-se progressivamente pelo cumprimento do seu papel social, na defesa dos princípios, e valores que são a base essencial da sustentação do modelo cooperativo;
  2. Dinamizar iniciativas de índole cooperativa, de modo a reforçar os laços entre os membros, e entre estes e as cooperativas a que pertencem, promovendo a associação dos diversos momentos institucionais da FENACHE e das nossas Cooperativas aos Jogos Nacionais e demais eventos de carácter desportivo e cultural;
  3. Fomentar as parcerias com o meio académico (universidades e centros de investigação) de forma a aperfeiçoar e disseminar as melhores práticas cooperativas na concepção, promoção e gestão de programas habitacionais;



Bairro da Bouça (fogo "modelo")
  1. Continuar a desenvolver e estimular, no âmbito do CECODHAS e da ACI, projectos de parcerias internacionais, visando a implementação e disseminação de boas e inovadoras práticas que assegurem a sustentabilidade económica, social e ambiental da nossa actividade;
  2. Reforçar o nosso papel de liderança no processo de aproximação e entendimento do Sector Cooperativo em Portugal, dando ainda maior ênfase ao nosso trabalho no seio da CONFECOOP e do Fórum Intercooperativo, e contribuindo de forma activa, e sempre que o Governo assim o deseje, no processo de abertura do Instituto António Sérgio às restantes famílias da Economia Social;
  3. Insistir na consideração do Poder Local como parceiro estratégico privilegiado para que as Cooperativas de Habitação possam desenvolver eficazmente a missão social que prosseguem, reclamando das autarquias medidas de descriminação positiva no tratamento, sem burocracias desnecessárias, dos nossos processos de edificação, fazendo com que a Associação Nacional de Municípios Portugueses aconselhe e estimule a criação, nas autarquias, de “Conselhos Municipais de Habitação”, nos quais o sector tenha privilegiado assento;



“Ponte da Pedra”
  1. Avaliar, com responsáveis da administração central e local as possibilidades de estabelecimento de parcerias, que possibilitem projectos-piloto no âmbito das régies cooperativas, visando a sua futura implementação como estratégia e modelo de colaboração futura entre o Sector e o Estado;
  2. Manifestar toda a nossa disponibilidade, empenho e profissionalismo em colaborar com o Estado na promoção do anunciado plano Estratégico para a Habitação, fazendo elemento fulcral deste processo a activa participação da FENACHE no denominado Conselho Nacional de Habitação, ao mesmo tempo que se reclama do Estado que assegure ao sector as indispensáveis medidas à concretização dum Política Social de Habitação, no campo das medidas de política de solos, desburocratização administrativa, descriminação fiscal positiva do sector e da criação de especiais linhas de fomento às indispensáveis operações de realojamento social, reabilitação urbana e de promoção cooperativa para arrendamento, e para habitação própria a custos controlados.
  3. Propor à Administração Central, e considerando o actual momento de preparação do próximo Quadro Comunitário de Apoio, a criação de:
a) Medidas que intensifiquem a implementação de experiências já adoptadas, para o desenvolvimento de soluções inovadoras nas áreas da Eficiência energética, Sustentabilidade Ambiental e Requalificação Urbana,
b) Medidas de apoio especifico à Formação Inicial e Contínua de Dirigentes e Quadros do Sector Cooperativo, respeitando as especificidades e particularidades técnicas destes profissionais;




“Ponte da Pedra”
  1. Desafiar o Governo a corrigir, sem mais demora, a situação anómala de ter impedido o acesso das Cooperativas de Habitação à gestão do património habitacional do Estado;
  2. Adopção de medidas praticas que intensifiquem os propósitos delineados pela FENACHE de captação e formação de Jovens que assegurem o rejuvenescimento de Dirigentes e Quadros das Cooperativas de Habitação e a longevidade e sustentabilidade da nossa actividade, pela constituição, em moldes a definir na próxima Assembleia-geral da federação nacional, duma Direcção FENACHE/Jovem que funcionará como incubadora de futuros dirigentes e apoiará os órgãos da federação na concretização do trabalho futuro.
Propostas de Moção apresentadas e aprovadas por unanimidade
a) Moção apresentada pelo Presidente da Direcção da FENACHE
Desenvolver as nossas melhores diligências para que o nome do Dr. JoséBarreirosMateus fique, a exemplo da decisão tomada pelo Município de Sintra, para sempre associado à promoção habitacional cooperativa e à vivência das nossas Cidades, influenciando sempre que possível para que as toponímias dos novos bairros recordem este grande cooperativista e a sua extensa obra em prol das melhores condições de habitabilidade das populações com mais carências.
b) Moção apresentada pelo Delegado da Cooperativa “O Problema da Habitação”
Que todas as cooperativas de habitação, bem como todas as outras de diferentes ramos, e que assim o desejem, atribuam ao Dr. JoséBarreirosMateus, o estatuto de membro honorário das suas organizações cooperativas.
Sintra, 1 de Maio de 2005
Referências das imagens:
  • Conjunto cooperativo das Janelas de Faro, Faro, Vale da Amoreira, do Grupo MCH Algarve (União de Cooperativas), Arqª JenniferPereira e Arq. RogérioPauloInácio; uma solução marcada pela forte integração interior/exterior e pela manutenção e aproveitamento de elementos construídos e naturais preexistentes – concluída a 1.ª fase em 2005.
  • Conjunto cooperativo do Vale Formoso, Lisboa, projecto urbano de Arq. AntónioPiano e Arq. EduardoCampelo, projectos de edifícios de vários projectistas para várias cooperativas e uniões de cooperativas integradas no conjunto; uma solução urbana dinamizada e atraente que harmoniza diversos desenhos de arquitectura e que obriga a uma gestão cuidada de toda a operação – em conclusão em 2006.
  • Conjunto cooperativo do Bairro da Bouça, Porto, Cooperativa ÁguasFérreas (União de Cooperativas), projecto do Arq. SizaVieira; uma solução pioneira na aliança entre requalificação do edificado preexistente (com os moradores a habitarem) e preenchimento urbano com novos equipamentos e edifícios de habitação; acção também inovadora ao nível da gestão – concluído em 2006.
  • Conjunto cooperativo da Ponte da Pedra, Leça do Balio, Matosinhos, da NORBICETA (União de Cooperativas), projecto do Arq. CarlosCoelho; uma solução urbana que privilegia o peão e em cuja 2ª fase se estão a aplicar diversas medidas práticas inovadoras, ligadas à construção e ao uso habitacional sustentável – conclusão da 2ª fase em 2006.
Nota:
A edição/ilustração do artigo foi assegurada por António Baptista Coelho, o texto das conclusões do 8º Congresso do Cooperativismo Habitacional foi disponibilizado ao Infohabitar pelo Presidente da Direcção da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE), GuilhermeVilaverde.
Lisboa, Encarnação/Olivais-Norte 20 de Maio de 2006

segunda-feira, abril 17, 2006

80 - Finalmente a conclusão da Bouça, de Siza Vieira, pela iniciativa cooperativa - Infohabitar 80


 - Infohabitar 80

Finalmente a conclusão da Bouça, de Siza Vieira, pela iniciativa cooperativa




O próximo dia 25 de Abril será marcado pela conclusão do famoso e agora totalmente renovado Bairro da Bouça, no Porto, situado entre a linha do caminho de ferro e a Rua da Boavista, projectado por Siza Vieira, com as primeiras ideias apontadas antes de Abril de 1974 e cuja arquitectura urbana e habitacional foi, depois do 25 de Abril de 74, desenvolvida no âmbito do plano de habitação de emergência SAAL (Serviço Ambulatório de Apoio Local), sendo então o conjunto previsto apenas parcialmente construído (1977), seja na parte habitacional, seja nos respectivos espaços públicos.


Em Abril de 2004, portanto há apenas dois anos, foram iniciadas as obras de regeneração urbana e habitacional do pequeno Bairro, que incluíram a profunda reabilitação construtiva e em termos de conforto ambiental dos 56 fogos preexistentes – acção esta feita com os moradores no local –, a conclusão do plano inicial com o desenvolvimento de 72 novas habitações, a criação de um estacionamento subterrâneo e todos os espaços públicos que irão dar coesão urbana à renovada intervenção.



Faz-se ainda um especial destaque a uma cuidadosa, sistemática e eficaz acção de gestão e enquadramento social de uma intervenção de elevada complexidade, seja pela mistura entre obras de requalificação e novas obras, seja pela harmonização de situações sociais e familiares extremamente diversificadas, seja pela necessária harmonização formal de inúmeras apropriações feitas pelos habitantes ao longo de quase trinta anos, seja ainda pelo objectivo de conciliar o controlo de custos, pois trata-se de uma obra financiada pelo INH, com o acabamento de uma obra charneira e marcante da arquitectura portuguesa do século XX e designadamente da história da habitação de interesse social em Portugal.



O perfil deste artigo é apenas alertar para este evento único, pois passados uns muito escassos dois anos após o início desta iniciativa, a Cooperativa Águas Férreas, especialmente constituída para o efeito pelas cooperativas CETA e Sete Bicas e pela Associação de Moradores da Bouça, marca o 25 de Abril de 2006, com a conclusão da Bouça de Siza Vieira.


Para este resultado muitos contribuíram, mas faz-se aqui uma referência especial, ao nível da obra, para o Arq. Álvaro.Siza.Vieira e o seu gabinete, e neste designadamente para o Arq. António.Madureira, na coordenação da obra para o Eng. José.Coimbra e no desenvolvimento da obra para a FDO Construções SA. Ao nível dos promotores têm de ser nomeados os incansáveis José.Ribeiro, Arnaldo.Lucas e Guilherme.Vilaverde, por parte das cooperativas, aos quais muito se deve, mas também deverá ser destacada a colaboração do INH, desde a primeira hora e designadamente o empenho do Director da Delegação no Porto, Defensor.de.Castro e do próprio Presidente do INH, Teixeira.Monteiro.
No próximo dia 25 de Abril de 2006, pela manhã e marcando este evento, o INH – Instituto Nacional de Habitação, e a FENACHE – Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica, decidiram promover, a partir das 10.00h, uma mesa de debate sobre as experiências do SAAL, que conta com a participação dos Arquitectos Álvaro.Siza.Vieira e Nuno.Portas.
O Grupo Habitar (GH) já esteve na Bouça, numa fase avançada da sua construção, em Maio de 2005 (juntam-se imagens dessa altura) e conta vir a fazer um artigo pormenorizado e ilustrado sobre este novo exemplo de inovação e de eficácia da cooperação habitacional, agora numa intervenção complexa de regeneração urbana e habitacional a custos controlados; para já ficam os sinceros e entusiastas parabéns do GH a todos os que para mais esta excelente obra cooperativa contribuíram.
António.Baptista.Coelho
Pres. Dir. Grupo.Habitar