quinta-feira, janeiro 24, 2008

Algumas definições I – da habitação ao engenho - Infohabitar 180

 - Infohabitar 180

Por vezes precisamos de consolidar definições, por vezes precisamos realmente de definições, outras vezes, não! Outras vezes precisamos até de novas definições e de definições renovadas.

Mas há um consolo especial quando encontramos definições que nos preenchem espaços de dúvida e nos consolidam ideias que se vão concretizando ano a ano, ao longo dos trabalhos e das conversas entre amigos e entre colegas de trabalho. Daquelas ideias boas; que são aquelas que abrem outros caminhos de ideias, mas que vão deixando alguns contornos de certezas.

Uma coisa é certa: por vezes precisamos de consolidar definições e então quando se trata de elementos especialmente básicos dá um gosto especial encontrar definições que preenchem muitos dos caminhos que confluem em cada ideia. E afinal nunca é excessivo defender uma perspectiva oposta ao círculo vicioso da “tábua rasa”, e, portanto uma perspectiva de acumulação complementar e sequencial de conhecimentos, e numa tal perspectiva são especialmente valiosas as boas definições, aquelas que revelam um especial bom senso e que fazem pensar, tal como acima se apontou.

E sem mais introduções propõe-se a leitura de algumas definições retiradas de algumas fontes fundamentais e referidas com o devido destaque, e, como não podia deixar de ser, aqui no Infohabitar, sobre matérias associadas ao habitar, numa perspectiva ampla, seja do habitar propriamente dito, embora ainda em termos de ideias gerais, seja do habitar na perspectiva de quem para ele contribui tecnicamente.



Fig. 01: casa em Faro

Citado da FOCUS, Enciclopédia Internacional, Livraria Sá da Costa Editora, 1966, Lisboa, Almqvist & Wiksell, Estocolmo

Habitação (FOCUS, vol 3, pp. 57 e 58):


“(Arquitectura) Abrigo e espaço edificado assegurando os níveis de conforto exigidos pelas diversas funções da vida privada e de relação de um agregado familiar, tais como podem ser definidos por ciências ergonómicas ou pela sociologia aplicada.

A realidade da concentração urbana, a evolução da estrutura e modos de vida da família na sociedade industrial obrigam a considerar a casa como célula do tecido urbano relacionada estreitamente com a localização e organização do recreio infantil, da educação, ocupações de tempos livres, abastecimentos e transportes quotidianos para as zonas de trabalho.




Fig. 02: Alcobaça, um pormenor da intervenção de Gonçalo Byrne

A casa insere-se em núcleos residenciais de grandezas calculadas, onde se procura valorizar a comunicação entre grupos de moradores dispondo intencionalmente os edifícios em relação ao terreno, seu prolongamento natural, localizando os equipamentos de utilidade comum em relação com os percursos exteriores e os órgãos de distribuição dos grupos residenciais, e assegurando aos moradores, pelo isolamento acústico ou de vistas, uma menos ilusória intimidade.
No interior da habitação familiar, também as divisões tendem a interligar-se, ...

A escolha entre habitação colectiva em altura e a moradia de tipo unifamiliar não pode fazer-se independentemente das situações urbanísticas, mas, prevalecendo as razões que conduzem ao primeiro tipo, procuram-se actualmente soluções que permitam dispô-las em habitações densamente agrupadas, de prolongamentos privados em terraços ou pátios.”

Arquitectura (FOCUS, vol 1, pp. 259 e 260):


“Entre as muitas qualidades que pode apresentar a construção, que o homem imagina e realiza para as suas actividades, manifesta-se a arquitectura onde se possa experimentar uma intenção artística, por ter recebido uma forma significativa, desde o invólucro aos espaços que interiormente encerra e aos que, externamente, contribuirá para modelar.

A arquitectura é pois mais do que boa ou arrojada construção: é reposta a funções e exigências, não apenas físicas ou fisiológicas, mas socioculturais; é resposta em termos de espaços modelados, proporcionados e ritmados, mas a partir de relações figurativas com as necessidades vitais do que neles se processa.

Toda a arquitectura pertence ao domínio da construção, mas não lhe é bastante a adequação no emprego dos materiais e técnicas ... à exigência de conhecimento das leis internas no emprego dos materiais soma-se a definição dos objectivos práticos e necessidades humanas – físicas, fisiológicas e psicológicas – cuja satisfação os espaços construídos devem assegurar ... Escala, proporção, linhas dominantes, ritmo, luz, cores, efeitos de textura, são componentes da linguagem arquitectónica, concebidos, não em relação a cânones imutáveis, mas à expressão figurativa dos conteúdos culturais.

Se, em diferentes épocas, foram estes aspectos valorizados de modo diferente, propõe-se, actualmente, uma fenomenologia arquitectónica , seguida na experiência dos homens, utentes e criadores dos ambientes que a construção define; experiência sensível que faz com movimento e na duração e que condiciona a apreensão do significado de organismos espaciais nos quais se representa e modifica o mundo, a sociabilidade, a vida dos homens.”

Citado do LELLO, NOVO DICCIONÁRIO ENCYCLOPÉDICO LUSO-BRASILEIRO, Dir. João Grave e Coelho Netto, Pôrto, Livraria Lello, Limitada, Editora

Habitação (LELLO, volume primeiro p. 1238):



Fig. 03: um “Logar, casa em que se habita ...”

“Logar, casa em que se habita, morada, residência, domicílio ... A habitação corresponde ao grau de civilização d’aquelles que a habitam ... No nosso tempo é com o desenvolvimento do bem-estar e do confôrto interiores, que foram um pouco desleixados, que os architectos se preoccupam, sem desprezar, todavia, o aspecto artístico das construcções.”

Habitar (LELLO, volume primeiro, p. 1238):

“(lat. Habitare) Occupar como morada. Residir ou viver em. Povoar. Frequentar.”


Fig. 04: um pormenor do Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado, Guarulhos, S. Paulo, de Vilanova Artigas com Fábio Penteado e Paulo Mendes da Rocha.

Architectura ou arquitectura (LELLO, volume primeiro, p. 161):

“Arte de construir edifícios. Disposição d’um edifício. Estructura ... Arq. É uma das artes do desenho, dispõe de proporções a que nem a pintura nem a esculptura podem aspirar. Mas, além do estylo e da belleza, deve ter em conta a utilidade.”

Architecto ou arquitecto (LELLO, volume primeiro, p.161):
“Aquelle que exerce a arte de dirigir a construccção de edifícios. Fig. O que planeia. O que phantasia. A profissão de architecto reclama conhecimentos de desenho, geomeyria, perspectiva, estereotomia, phýsica ... chamavam.se mestres de obra ou mestres da obra ou mestres pedreiros ...”

Engenharia (LELLO, volume primeiro, pp. 865 e 866):
“Sciência ou arte das construções civis, militares e navaes”

Engenheiro (LELLO, volume primeiro, p. 866):
“Indivíduo habilitado para dirigir superiormente trabalhos de arte, construcção de estradas, de pontes, de edifícios, obras para a defêsa e o ataque de praças, etc.”

Engenho (LELLO, volume primeiro, p. 866):
“Faculdade especial, aptidão ou talento natural, habilidade, talento inventivo, invenção, ardil.”

Habilitar:
“Tornar hábil, tornar apto, capaz.”


Fig. 05: edifício em Amsterdão (fotografia de Pedro Baptista Coelho).

Citado e traduzido de “Iniciación a la Arquitectura”, de Alfonso Muñoz Cosme. Madrid, Librería Mairea y Celeste Ediciones, Manuales Universitarios de Arquitectura n.º 4, 2000 (ed. revista, actualizada e ampliada de uma outra obra do autor editada em 1995, em Barcelona e intitulada “Arquitecto”).

Todo o edifício deve ter três coisas: Solidez, Comodidade e Beleza; circunstâncias que lhe são proporcionada pela Arquitectura, através do Ordenamento e Disposição das partes componentes, que regula com a justa Proporção pedida pelo Decoro e pela Economia. Daqui resulta que a arquitectura tem oito partes, que são Solidez, Comodidade, Beleza, Ordenamento, Disposição, Proporção, Decoro e Economia” - Citação que Muñoz Cosme faz, à pg. 16 da obra acima referida, de Claude Perrault, por sua vez referindo o Compêndio dos dez livros de arquitectura de Vitrúvio, 1674.

E continua Muñoz Cosme: “Para Vitrúvio a arquitectura devia conter três qualidades: firmitas, utilitas e venustas, que em latim significam, solidez, utilidade e beleza. Alberti preferiu chamar a estes atributos, soliditas, commoditas e voluptas, quer dizer, «estabilidade, comodidade e deleite» e em tempos mais próximos Pier Luigi Nervi falou de «estrutura, função e forma».”


Fig. 06: Ponte Vasco da Gama.

Citado de: de um elemento de divulgação, da exposição intitulada Ingenuidades, Fotografia e Engenharia 1846-2006, uma relativamente recente e excelente exposição na Gulbenkian. O texto é da autoria de Jorge Calado.

“O ciclo vital das engenharias – criação, destruição, reciclagem ...
Engenho é máquina ou ardil; ingenuidade é a qualidade do que nasceu livre e nunca foi escravo. Aqui nasce a engenharia. INGENUIDADES usa o engenho e arte da fotografia para mostrar a vida e morte das técnicas.
No princípio era a terra ... dominado o fogo, trabalhada a terra, utilizada a água e o ar, a engenharia podia emergir. Primeiro regulada pelos números e pela imagem (geometria). São as grandes maravilhas. Depois pela evolução das ciências ... Engenharia é ciência aplicada. O cientista é mais livre que o engenheiro, mas o engenheiro é mais útil ... E as ciências estão hoje todas misturadas. Só os quatro elementos se mantêm: terra, água, ar, fogo (Jorge Calado).”

E ficamos, por aqui, nesta primeira incursão em definições que marcam, e que podem ser, de facto, úteis, mas voltaremos em novos artigos desta série.

Compilado, introduzido e ilustrado por António Baptista Coelho, em 23 de Janeiro de 2008.
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte.

Editado por José Romana Baptista Coelho, em 24 de Janeiro de 2008.

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