quinta-feira, janeiro 10, 2008

ALVALADE, DE FARIA DA COSTA. UMA CIDADE NA CIDADE - O MISTÉRIO DE ALVALADE - II - Infohabitar 178

 - Infohabitar 178


ALVALADE, DE FARIA DA COSTA. UMA CIDADE NA CIDADE


António Baptista Coelho com a cooperação de Nuno Teotónio Pereira

Após uma bem justificada e excelente interrupção da edição deste artigo sobre “o(s) mistério(s) de Alvalade”, que aconteceu na passada semana para a edição de um novo artigo de Celeste Ramos, retoma-se a referida edição, esta semana e na próxima semana.
Trata-se de um pequeno trabalho sobre o bairro de Alvalade, em Lisboa, originalmente realizado com o objectivo da sua apresentação numa palestra que decorreu ainda na Associação dos Arquitectos Portugueses (AAP), integrada nos ENCONTROS AAP – HABITAÇÃO: “CONSTRUIR CIDADE COM HABITAÇÃO”, na Sede da então AAP, hoje Ordem dos Arquitectos, em 8 de Maio de 1998.
Índice geral (e plano de edição):
1. O mistério de Alvalade (1.ª semana)
2. Um caso e a sua utilidade (1.ª semana)
3. Cronologia (2.ª semana)
4. Alvalade, um bairro integrado e integrador (2.ª semana)
5. Alvalade, como foi (3.ª semana)
6. Integração física, estrutura e imagem (3.ª semana)
7. Comentários finais (3.ª semana)
Bibliografia
Breve nota introdutória:
O mistério de fazer cidade passa por habitar, realmente trechos de vida colectiva – sendo marcados por eles e marcando-os – e obriga a uma arquitectura residencial urbana bem qualificada, dinamizadora do uso de espaços exteriores sem zonas residuais, geradora de vizinhanças de proximidade com condições naturais de convívio e segurança, que garantam transições agradáveis entre os espaços domésticos e os vastos espaços públicos urbanos, e integrando tipologias edificadas directamente relacionadas com o exterior, com dimensões sociais e físicas equilibradas e com imagens públicas que suscitem a apropriação e a identidade. E numa altura em que uma verdadeira durabilidade e vitalidade urbanas estão, finalmente, na ordem do dia é tempo de aprender com as melhores práticas, que mais se aproximaram de tais condições; e nestas, entre nós, Alvalade e os seus “mistérios” têm um lugar muito especial.

3. Cronologia nacional e internacional de Alvalade

1901: avenidas ligam recém-construída rotunda do M Pombal aos jardins do C. Grande; transportes urbanos tornam acessíveis Saldanha e mesmo Entrecampos (eixo Fontes Pereira de Melo e Ressano Garcia/República); introdução dos eléctricos.
1903: 1ª Cidade-Jardim, Letchworth (Unwin e Parker)
1912: Hospital Júlio de Matos, de Leonel Gaia (alt. De Carlos Ramos, 1933)
1917: extinção total dos transportes de tracção - “os Americanos”
1918: legislação sobre habitação económica e início de primeiros “bairros sociais” portugueses no Arco do Cego, Lisboa e na Arrábida, Porto.
1919: 2ª Cidade-Jardim, Welwyn; fundação da Bauhaus e início de actividade de Le-Corbusier
1923: “Vers une Architecture”, Le-Corbusier
1927 a 1935: Instituto Superior Técnico, de Porfirio Pardal Monteiro (fulcro urbano na origem física do Plano de Alvalade)
1929: fundam-se os Congressos Internacionais para a Arquitectura Moderna (CIAM)
1930: constrói-se em Viena o Bairro Karl Marx
1932: Engº Duarte Pacheco, MOP
1933: os CIAM lançam a Carta de Atenas
1933: Duarte Pacheco chama Agache para estudo da zona de Lisboa ao Estoril e Cascais
1934: Lei das expropriações, na sua sequência cerca de um terço da área da área do Concelho é expropriada
1935 a 1961: Cidade Universitária, de Porfírio e António Pardal Monteiro
1937: Bairro do Alvito ou Bairro Salazar (“linguagem” modernista)
1938 a 1940: Bairro da Encarnação, de Paulino Montez
1938 a 1948: Duarte Pacheco Presidente da Câmara e MOP manda executar plano de urbanização a De Groer; expropriação de 1/3 da área do concelho; 1º Congresso dos Arquitectos Portugueses; Praça do Areeiro, de Cristino da Silva
1938: Duarte Pacheco Presidente da CML; desenho urbano do Bº do Areeiro (Avª Paris e João xxi), de Faria da Costa; Faria da Costa integra os quadros da CML, chamado por Duarte Pacheco; processo de urbanização de Lisboa começa a ser controlado pela CML
1940: Fonte Monumental na Alª Afonso Henriques, de Rebelo de Andrade; início do projecto da Cidade Universitária, de Porfírio e António Pardal Monteiro (obra muito posterior).
1943: Avª Sidónio Pais e António Augusto de Aguiar, de Cristino da Silva; morte de Duarte Pacheco
1944 e 1945: Avª Gago Coutinho, conjunto urbano/moradias de A. Soeiro e Carlos Ramos
1945: Plano de Alvalade, de Faria da Costa
1945 a 1961: Avª da Igreja, conjunto urbano, de Jacobetty Rosa
1945: Plano de Alvalade, de Faria da Costa
1946 a 1950: Avª João XXI, conjunto urbano, de Filipe Figueiredo, José Segurado, Joaquim Ferreira e Guilherme Gomes
1947: Praça Pasteur e Avª Paris, conjunto urbano, de José Bastos, Licínio Cruz, Alberto Pessoa e Chorão Ramalho
1946: Alvar Aalto, ensaio sobre o fim da “máquina de habitar”
1947: Lewis Mumford denuncia o final da etapa racionalista e do estilo internacional
1947: figura legal do prédio de rendimento com renda limitada/condicionada (Dec lei 36 212/36 213/36 214 de 1947), através da cedência em hasta pública dos terrenos municipais, destacando-se conjuntos do Bairro de S. Miguel e da Avª da Igreja e transversais
1948: 1º Congresso Nacional de Arquitectura com apresentação do Bairro de Alvalade
1948: Plano de Urbanização, Plano de Groer (Plano Director de Urbanização de Lisboa)
1948: Alvalade cresce: Avª da Igreja/Poente e ruas contíguas, Agosto, inauguração das duas primeiras células de casas de renda económica, conjuntos urbanos de Miguel Jacobetty (500 fogos); primeiras Escolas Primárias em Alvalade de Peres Fernandes; Avª da Igreja/Nascente e transversais, conjuntos urbanos de Fernando Silva; Rua José Duro (transversal à Av. da Igreja), Miguel Jacobetty e Faria da Costa.
1948: Edital de Março de 1948 consagra Plano do Sitio de Alvalade; exposição que celebra 15 anos de obras públicas (1932-47)
1948 a 1950: Bº de S. Miguel, conjunto urbano de Miguel Jacobetty e Sérgio Gomes
1949: edifício na Praça de Londres (projecto), de Cassiano Branco
1949 a 1951: Av. D. Rodrigo da Cunha, de Joaquim Ferreira
1949 a 1952: LNEC, de Porfírio Pardal Monteiro
1950 a 1960: reestruturação viária e das redes de transporte público
1951 e 1952 : solução inovadora não aceite para o lado nascente da Av. dos EUA por J. Simões, Castro Rodrigues, J. Huertas Lobo, Celestino de Castro e H. Gandra (1914-1988), inspirada na Unidade de Habitação em Marselha
1951: Conjunto no início Nascente da Avª EUA e ao longo da Linha de Cintura, de Joaquim Ferreira e Orlando Avelino, com colaboração de Faria da Costa
1952 a 1957: blocos do cruzamento da Av. dos EU-A e Av. de Roma, as mais importantes do bairro, de Filipe Figueiredo e José Segurado
1953 a 1955: conjunto das Estacas (premiado na Bienal de S. Paulo e Prémio Valmor), de Formozinho Sanches e Ruy J. d´Athouguia
1955: Escola Primária no Bº de S. Miguel, de Ruy J. d´Athouguia
1955 a 1958: série de blocos perpendiculares á via do lado E da Avª dos EUA de M. Laginha, Pedro Cid e Vasconcelos Esteves
1955 a 1960: Inquérito à Arquitectura Popular
1956: Chombart de Lauwe, CNRS, “Vie quotidienne des familles ouvrières”
1956 a 1958: blocos do lado Oeste da Avª dos EUA de Croft de Moura, Henrique Albino e Craveiro Lopes
1958: Plano de Olivais Norte, do GEU da CML
1958: conjunto da Av. do Brasil de Jorge Segurado
1958: conjunto residencial de blocos transversais na Av. do Brasil (limite N de Alvalade), de Jorge Segurado
1959 a 1961: Liceu Padre António Vieira de R Jervis d.'Athouguia, no Pote d’ Água, limite N de Alvalade.
1960 a 1961: Plano de Olivais Sul, do GTH da CML
1967: Prémio Valmor para edifício de habitação de interesse social em Olivais Norte, de Nuno Teotónio Pereira, António Pinto de Freitas e Nuno Portas
1969: Praça de Stº Antonio, local previsto como Centro Cívico
1969: Praça de Stº Antonio, em Alvalade local, previsto como Centro Cívico, ocupada por habitação e escritórios
1972: Metropolitano chega a Alvalade

4. Alvalade, um bairro integrado e integrador

O projecto do Instituto Superior Técnico (1927/35), articula dois eixos de crescimento de Lisboa, o eixo as Avenidas Novas, “amplas e burguesas”, e o eixo “pobre na extensão da avenida Dª Amélia, depois chamada Almirante Reis (exº Bº das Colônias e Rua Morais Soares), com bairros para os menos favorecidos”(3), constituindo um fulcro urbano importante para o desenvolvimento dos Bairros do Areeiro e de Alvalade. (4)
Como também refere José Augusto França, o IST (terminado em meados dos anos 30) é um ponto de referência na “primeira etapa de progressão de Lisboa para nordeste”.(5)
Também até 1935, são desenvolvidos, por promotores privados, os Bairros do Campo Pequeno e dos Actores, na envolvente da actual zona de Alvalade/Areeiro e destinados à pequena burguesia.
Duarte Pacheco, MOP desde 1932, e depois de 1938 também Presidente da CML, organiza o Plano de Urbanização de Lisboa (de 1935 a 38, mas já com o esquema fundamental definido em 35). Os urbanistas da escola francesa Agache e De Groer começam a trabalhar em Portugal, orientando De Groer os Serviços de Urbanização da capital montados por Duarte Pacheco.(6)
O Plano contemplava uma rede básica de radiais partindo do centro da cidade para a periferia e uma série de quatro circulares concêntricas. Entre as primeiras as que nos interessam para o enquadramento da zona de Areeiro/Alvalade são o prolongamento até à Encarnação da Avenida Almirante Reis e o prosseguimento da linha Avenida da República-Campo Grande até ao Lumiar-Paço do Lumiar; enquanto entre as segundas e com idêntico interesse se destacam, especialmente, a de Moscavide a Algés, contornando externamente o Parque Florestal, e a do Beato a S. Domingos de Benfica, pelo Areeiro, Entrecampos e Sete Rios.(7)
São previstos grandes equipamentos, alguns deles com influência na demarcação do sítio de Alvalade (exº, Aeroporto e Cidade Universitária) e rodovias estruturadoras da Cidade e com fortes influências no futuro Bairro de Alvalade, antecipando-se, ainda, as necessidades de expansão residencial da cidade através do projecto de bairros sociais periféricos e do início da expropriação das futuras áreas de Olivais, Chelas e Telheiras.(8)
Considerando o sítio do futuro Alvalade temos, assim, na altura, uma zona ampla e rural limitada, a W, pelas traseiras do enfiamento urbano do Campo Grande, “aproximada”, a também a W, pelas ruas que partem do Campo Pequeno, limitada, a N e a E, por rodovias de saída de Lisboa (Alferes Malheiro/Avª do Brasil e Avª Gago Coutinho) e, finalmente, pontuada, a Sul, pelo desenvolvimento do IST e, a Norte, pela presença/remate do Hospital Júlio de Matos.
Cerca de 1940 são iniciadas “concepções monumentalistas (eixos de simetria e composições académicas de volumes e espaços) na avenida António Augusto de Aguiar (1942) e na Praça do Areeiro (1938-48)”(9), mas “simultaneamente, acontecem evoluções positivas no desenho urbano: equipamentos para os Parques Eduardo VII e de Monsanto (anos 40-50), com projectos de Keil do Amaral e as urbanizações do Restelo e de Alvalade, de Faria da Costa”. (10)
O bairro de Alvalade e o seu pequeno quase-gémeo bairro do Areeiro, serão desenvolvidos praticamente em simultaneidade com aquelas “concepções monumentalistas”, mas dão corpo a uma outra ideia de cidade, que irá assimilar essa monumentalidade, assim como, mais tarde, as primeiras concepções modernas, numa conjugação de opostos, que é ainda qualificada por um expressivo carácter de bairro na cidade, e que constitui, provavelmente, um dos principais mistérios de Alvalade, ou dos Alvalades – uma afirmada tolerância formal não descaracterizadora.
Após 1940 o desenho tipo-Areeiro marcou toda a cidade. No entanto a divulgação da “Carta de Atenas” e o apelo ao estudo sistemático da arquitectura popular, realizado depois entre 1955 e 60, constituíram influências crescentes entre os arquitectos.(11)
Finalmente, em 1948, o 1º Congresso Nacional de Arquitectura, “foi marco e motor de uma viragem” (12); tendo sido feita, neste Congresso, a apresentação das soluções edificadas do bairro de Alvalade.
E de entre as conclusões saídas do Congresso há bastantes de enorme actualidade, e que tiveram aplicação em Alvalade, salientando-se, aqui, apenas: (I) “...que não se confundam «casas baratas» com «habitações económicas»”, combatendo-se a redução excessiva de áreas e a utilização de materiais menos qualificados e defendendo-se “as maiores condições de habitabilidade com o menor dispêndio”; (ii) “impedimento de toda e qualquer especulação com terrenos... quando destinados à...habitação; (iii) “que não se construam bairros exclusivamente destinados a uma determinada classe, ou isolados ...”; (iv) e “que no estudo da habitação se considere o desenvolvimento moral e físico da criança”.

4.2 Enquadramento próximo de Alvalade

Não perdendo de vista a conclusão do IST, em meados dos anos 30, convém focar, igualmente, a importância que terá, para o futuro Alvalade, o desenvolvimento da Praça do Areeiro, “nova ágora simbólica, projectada em 1938,…e motor de uma cidade nova (na década de 40)”.(13).
Como já referimos, Duarte Pacheco fez estudar, desde 1935, um plano conjunto da cidade, contando com a colaboração técnica do urbanista De Groer. Faria da Costa, recém-diplomado em 1935 no Institut d'Urbanisme de Paris, tendo trabalhado com Agache e De Groer, passou a pertencer ao novo grupo de técnicos da Câmara de Lisboa, onde também se integrou Keil do Amaral.
“Faria da Costa e Keil do Amaral vão então desenvolver projectos fundamentais ao crescimento e ordenamento da capital. Keil no plano Para o Parque Florestal de Monsanto, nos projectos para o parque Eduardo VII e equipamentos para o Campo Grande, enquanto Faria da Costa fará os planos para os bairros do Restelo, Encosta da Ajuda, Areeiro e Sítio de Alvalade”.(14)
Os novos bairros de Areeiro e Alvalade contaram, assim, com os planos de pormenor de Faria da Costa. Ter sido o mesmo urbanista a realizar dois planos em total contiguidade e que iriam ser resolvidos em grande continuidade é provavelmente outro dos mistérios “dos Alvalades”.
Areeiro foi provavelmente concretizado numa acção que hoje se designaria de “urbanismo operacional”, através de cuidadosas operações de arquitectura urbana bem relacionadas com os elementos preexistentes e abrindo caminhos reais ao gémeo maior, Alvalade. E assim se desenvolveu uma nova cidade: “trata-se, com efeito, de uma nova cidade, bastando-se a si própria, mais que um novo bairro, com ruas, avenidas e praças traçadas e elevadas «ex nihilo», num programa coerente que impunha um gosto e mesmo um estilo”.(15) Álvaro Salvação Barreto, Presidente da CML em 1948, designou o Bº de Alvalade como “uma nova cidade em pleno desenvolvimento na zona a sul da Avenida Alferes Malheiro".
“Lisboa conheceu assim, pela primeira vez desde a reconstrução pombalina, um projecto global e qualificado que inseria e corrigia muito da urbanização ocasionalmente realizada nos anos 30”. (16) Conjugavam-se duas zonas urbanas preexistentes, socialmente distintas, enquanto, na nova zona urbana se integravam, equilibradamente, habitações para diversos grupos sociais e variadas funções urbanas, reconstituindo-se e prolongando-se a cidade. Ter sido uma nova grande parcela de cidade, feita como tal, é outro dos mistérios que explicam o êxito dos Alvalades. E ter sido um projecto realmente qualificado é mais outro desses mistérios, pois, na opinião de J. Lamas, Faria da Costa “foi um dos pioneiros e talvez um dos maiores urbanistas em Portugal”. (17)
“Uma nova cidade”: dimensão, caracterização/qualificação e integração na cidade-mãe, diversidade de funções e associação de diversas classes sociais, distinguem totalmente o Bairro de Alvalade dos bairros sociais até então desenvolvidos em Lisboa, em zonas isoladas da cidade, e distinguem ainda Alvalade de qualquer um dos bairros com que se fez posteriormente a expansão de Lisboa.

4.3 Areeiro e Alvalade, irmãos inovadores

O Areeiro serviu como ensaio/preparação de Alvalade e uma charneira de conjugação das diversas zonas urbanas envolventes. E como refere José Manuel Fernandes, “a uma escala mais reduzida, com a chamada experiência das Avenidas de Paris-João XXI-Praça Pasteur (também sobre um estudo de Farta da Costa), consegue-se pela primeira vez implementar na construção da cidade uma série de regras novas e modernizantes” (18), regras essas que se sintetizam em seguida:
- conceber e planear Lisboa com sistemas de arruamentos hierarquizados (circulações separadas de peões e carros) e edificações em quarteirão «aberto» (abolindo a oposição tradicional entre traseiras e fachadas), integradas num conjunto autónomo com equipamentos próprios e de boa acessibilidade (bases das “unidades de vizinhança” que constituem as várias células de Alvalade);
- propor novas formas de execução e gestão do edificado, bem com a diversificação controlada dos tipos de empreendimento: no conjunto da João XXI são cedidos pela Câmara aos construtores os projectos de cada edifício; em Alvalade ou no Restelo há áreas para promoção de habitação económica municipal, outras para a construção privada em andares, de base lucrativa; outras ainda para moradias unifamifiares;
- aceitar a polifuncionalidade das nova áreas urbanizadas, combatendo assim a excessiva “zonificação” da cidade que desde a expansão dos finais de oitocentos se acentuava (em Alvalade surgiu o primeiro “centro comercial” com dimensão concorrência com o comércio da Baixa; aí se continham ainda significativas áreas para indústria, armazéns, serviços e equipamentos);
- articular as novas áreas urbanizadas com os tecidos envolventes já existentes, em correcta continuidade do espaço urbano, de que o exemplo mais acabado será a ligação Alvalade-conjunto de João xxi-Avenidas, visto que sem interrupções ou desfasamento de escalas ­se «sintetizavam» numa só extensão planeada os eixos das avenidas da República e da Almirante Reis (através do Campo Grande e da Alameda-Areeiro), que anteriormente definiam dois sectores da cidade distintos e até com standards socioculturais antagónicos.”
De acordo com José Lamas “os bairros de Alvalade e do Areeiro resultam da política desenvolvimentista de Duarte Pacheco – de expansão planeada de Lisboa em terrenos expropriados, livres de restrições fundiárias e com forte controlo público e municipal. Simultaneamente, deveriam resolver problemas habitacionais, descentralizar serviços e população para a periferia e aproveitar o espaço compreendido entre eixos viá­rios importantes, criando novas estruturas de circulação”.(19)
Faria da Costa projecta o pequeno e experimental Areeiro e o grande Alvalade numa sequência natural:
- O Areeiro foi planeado em 1938, para 9.000 habitantes, com 2.680 fogos, em 32 hectares e foi construído em duas fases, anos de 1940 e 1948.
- Alvalade foi iniciado em 1945, para 45.000 habitantes em 12.000 fogos, ocupando 230 hectares e três anos depois, em 1948, estava já parcialmente concluído.
Como salienta Lamas, Areeiro e Alvalade são exemplos de equilíbrio entre cidade tradicional e princípios da urbanística moderna; funções e equipamentos bem distribuídos, hierarquização viária, interiores de quarteirão tratados por vezes como espaços comuns. (20)
E José Lamas faz uma síntese da arquitectura urbana dos Alvalades:
“Todo o bairro se organiza através de tipologias urbanas precisas: as vias, que se hierarquizam em avenidas, ruas, impasses e caminhos/veredas de peões; as praças e largos localizados no cruzamento de vias; os quarteirões, lugar de disposição dos edifícios, são utilizados no seu interior como zonas de jardim, estacionamento e equipamentos (há no entanto bastantes casos de interiores de quarteirão que, não tendo sido arranjados, foram «privatizados» pelos moradores); os passeios de dimensão hierarquizada; contínuos arborizados e verdes de canteiro e filas de árvores em caldeiras; edifícios repetitivos, de fachadas controladas em ordem e unidade arquitectónica, só enfatizados nos cruzamentos e gavetos, marcando as intersecções com praças e espaços mais significantes”. (21)
Outras são as inovações que se podem destacar: aplicação de princípios da unidade/célula de vizinhança, com raios de influência de equipamentos de uso diário máximos de 500 metros a partir da habitação e sem obrigar a cruzar grandes vias de tráfego; concentração nestas vias de sequências de comércio e serviço que delimitam as células; articulação da habitação com a pequena indústria não poluente, criando uma muito rica e eficaz amálgama de funções citadinas.
“Alvalade nunca seria um bairro-dormitório, já pela mistura e complementaridade de funções, já pela densidade habitacional e conjunto de equipamentos e serviços, já pelas formas urbanas adoptadas”. (22)
Os exemplos (os “mistérios”) dos Alvalades tiveram quase nula continuidade, e não se julga que a experimentação do funcionalismo chegue para explicar tal facto; até porque o próprio Alvalade integrou, e muito bem, as primeiras soluções dessa modernidade, caracterizadas por uma evidente qualidade: em vários troços da Avª EUA, no Bairro das Estacas, na Avª Rodrigo da Cunha e em parte da Avª do Brasil; blocos paralelos, alguma descontinuidade edificada, zonas térreas vazadas e amplos espaços pedonais.
Não podemos deixar de concordar com José Lamas, quando este autor afirma que os exemplos de Areeiro e Alvalade integram o que de melhor e mais qualificado permanece em Lisboa, designadamente, em termos de equilíbrio entre cidade tradicional e urbanismo moderno.

4.4 Objectivos e programa – Alvalade o 1º Plano Integrado

Alvalade foi “front runner” do plano director de 1949 e resultou da necessidade de se fazer habitação em quantidade, logo com modelos de fácil execução, baratos e suportando um certo grau de variação de tipos de fogos. (23)
A grande extensão do plano levou a uma diversificação da sua morfologia evitando-se ambiente monótono, pela associação de uma forte escala humana, caracterizando oito pequenas zonas de reforçada vizinhança próxima, com uma assinalável separação entre circulação estruturadora e acessos locais.
Situado entre 3 eixos rodoviários com importância citadina(N, Avª do Brasil; E, Avª Gago Coutinho; W, Campo Grande), Alvalade foi desde sempre considerada como área crucial de desenvolvimento de Lisboa, a desenvolver com objectivos de: (i) resolução genérica de falta de alojamento; (ii) realojamento de pessoas habitando zonas de renovação urbana (exº Martim Moniz); (iii) descentralização de serviços e (iv) resolução de problemas de circulação.
Limites: N, Alferes Malheiro/Avª do Brasil; E, Avª A. Gago Coutinho, prolongamento Avª Almirante Reis até à Rotunda do Aeroporto; S, linha férrea de cintura e conjugação por continuidade com o Plano do Areeiro; W, Avª da República (a Entrecampos) e Campo Grande.
Habitações/45.000: 31.000 “colectivas” económicas; 9.500 “colectivas” de renda não limitada; 2.000 unifamiliares de renda económica; 2.500 unifamiliares de renda não limitada. Numa mistura social que é, sem dúvida, outro dos “mistérios” dos Alvalades e que hoje está aí na ordem do dia como um dos principais factores da tão referida sustentabilidade.
A tipologia edificada “colectiva”/multifamiliar tinha vindo a ser tecnicamente validada, e assim, “em vez de casinhas mais ou menos unifamiliares, agrupadas em torno de uma pequena igreja protectora, em vez destas aldeias que espalhava pela periferia das cidades, o regime orienta-se, agora, para o projecto de grandes bairros, situados nas áreas de expansão imediata dos grandes centros urbanos” (24)
Alvalade é o primeiro plano de urbanização realizado na sequência do plano «De Groer», por iniciativa camarária, podendo ser considerado como o 1º Plano Integrado. (25)
O espaço é estruturado por uma rede de arruamentos principais, Av. E.U.A., Av. de Roma e Av. da Igreja, que o articulam com os importantes arruamentos limítrofes da Av. do Aeroporto e Campo Grande, e o dividem em oito células funcionais, onde, além da habitação, se integram, em total continuidade física e de imagens, todos o tipos de equipamentos urbanos (desde zonas industriais a grandes equipamentos sociais e desportivos, como é o caso do Parque do INATEL). (26)
A construção foi entregue às Caixas de Previdência ou à indústria privada, mas com projectos-tipo e controlo municipais e destinando-se a renda limitada. Outra opção possível foi a venda de lotes com projecto livre, essencialmente nas Avenidas.

4.5 A oportunidade de Alvalade; a dimensão em arquitectura urbana

Como indica Nuno Portas, nos nossos anos 30, é a reduzida intervenção dos arquitectos portugueses nos problemas urbanos e assinalável o convencionalismo com que o fazem. (27)
E, tal como aponta aquele autor, mesmo depois de Duarte Pacheco ter estendido a todas as principais zonas urbanas a exigência de elaboração de «planos de urbanização», carências técnicas de vária ordem continuam a afastar “os principais técnicos nacionais dos primeiros estudos urbanísticos, fosse porque os arquitectos estavam ocupados com os grandes edifícios públicos e os engenheiros com as infra-estruturas, fosse porque essa forma de intervenção, nova nos métodos e nos objectivos, estava longe das preocupações teóricas e práticas dos profissionais modernos”. (28)
Entre as excepções a esta regra contam-se, por um lado, alguns «bairros sociais» tradicionalistas (exº pseudocidade-jardim da Encarnação), e por outro os conjuntos citadinos do Areeiro e de Alvalade (“os Alvalades”), que, como indica Nuno Portas, seguem “um vector realista, afastado das teses do CIAM mas apegado aos meios operacionais e construtivos disponíveis”. (29)
Mas mesmo dentro deste vector realista e, como também reconhece Portas, “entre os primeiros projectos, discretos e correctos, para malhas de rua-quarteirão e pracetas de moderada altura e ambiente controlado e os já dos anos 50, com grandes blocos isolados, há no entanto um salto arriscado, pela transposição de modelos «de fora» do urbanismo do «bloco-parque» para as margens acanhadas de avenidas ...”. (30)

Há assim, também, uma fundamentada e estimulante inovação arquitectónica nos Alvalades, mais um dos seus “mistérios”.
Notas:
(3) José M. Fernandes p. 495
(4) Vista geral do conjunto do Instituto Superior Técnico, ainda em acabamento, nos inicios da década de leso (pro. de Pardal Monteiro, 1927-35): vêem-se os movimentos de terras para prolongamento das avenidas até a futura Alameda D. Afonso Henriques e, ao fundo. um troço da antiga rua do Arco do Cego, interrompido pela nova expansão planeada. Á direita, o Incompleto bairro social do Arco do Cego, esforço urbanizador, sem continuidade, da Iª República (1919) (in Cassiano Branco Uma Obra pera o Futuro, ed, CML. 1991) 499 jmf
(5) José-Augusto França (Arte em P.) p. 237
(6) José Lamas p. 281
(7) José-Augusto França (Arte em P.) pp. 238/9
(8) José M. Fernandes p. 500
(9) José M. Fernandes p. 501
(10) José M. Fernandes p. 502
(11) José-Augusto França (Arte em P.) p. 253
(12) José-Augusto França (Arte em P.) p. 254
(13) José-Augusto França (Anos Quarenta…) p. 27
(14) Patrícia Miguel; Jorge Leal
(15) José-Augusto França (Arte em P.) p. 241
(16) José-Augusto França (Anos Quarenta…) p. 128
(17) José Lamas p. 281
(18) José M. Fernandes p. 502
(19) José Lamas, p. 284
(20) José Lamas, p. 284
(21) José Lamas, p. 286
(22) José Lamas, p. 286
(23) José Callado, p. 39
(24) Fernando Gonçalves, p. 65
(25) GUAL, p. 36
(26) GUAL, p. 36
(27) Nuno Portas. P. 725
(28) Nuno Portas. P. 727
(29) Nuno Portas. P. 728
(30) Nuno Portas. P. 731
Bibliografia
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COELHO, António J. M. B. - “Análise e Avaliação da Qualidade Arquitectónica Residencial”, Tese, LNEC e FAUP, Lisboa, 1995.
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PIRES, José C. - “A Cavalo no Diabo”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1994.
FERNANDES, José Manuel - “Lisboa no Século XX”, O Livro de Lisboa, Coord. Irisalva Moita, Livros Horizonte, Lisboa, 1994.
FRANÇA, José-Augusto - “A Arte em Portugal no Século XX”, Livraria Bertrand, Lisboa, 1974.
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Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
Editado por José Baptista Coelho, em 10 de Janeiro de 2008

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