quinta-feira, janeiro 03, 2008

Homem rico – Homem pobre, um artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 177

 - Infohabitar 177

Brevíssima nota da edição: é com sincera alegria que o Infohabitar volta a publicar um artigo de um dos seus tradicionais e mais efectivos colaboradores, a Arq.ª paisagista Celeste Ramos, que aqui faz um pequeno/grande ponto de situação sobre várias temáticas que marcaram 2007; para se não perder a oportunidade desta edição nesta altura do ano faz-se uma justifificada interrupção da edição de um extenso artigo sobre o bairro de Alvalade, em Lisboa, que será retomado e concluído nas duas próximas semanas.

ABC

A pobreza é o maior desastre ecológico - Indira Ghandi

Que haja sim todos os dias solidariedade

Não concordo com os que dizem que deveria haver Natal todos os dias pois que cairia na rotina e no esquecimento imediato porque o homem precisa de ritmos e, para mim, nada se iguala ao Natal, à magia da luz que renasce no coração dos homens ricos e pobres e onde há mais alegria no ar e agitação por vezes frenética para que não se esqueça ninguém, nem dos esquecidos todo o ano.

Que haja sim todos os dias solidariedade para com todas as criaturas viventes mas se trabalhamos todo o ano e precisamos de tempo de férias e de descanso de Verão ou de Inverno, para renovar energia, precisamos também do “tempo” de Natal para concentrar toda a magia que pode proporcionar, quer se seja ateu ou cristão, porque é a festa do homem e da sua família.

É o solstício de Inverno, o nascimento do frio e do recolhimento da terra e dos animais que hibernaram, é o silêncio das plantas que ainda não nasceram mas já foram semeadas no Outono, é o descanso da terra que se esgotou a produzir os bens que também agora se colhem, diferentes, é o tempo do manto de neve que protege e dá outra visão das estações e acorda memórias. E há Natal no coração, esse centro solar de amor, que se celebra desde tempos imemoriais por todas as civilizações antigas.




Fig. 01: Natal


E da riqueza da natureza com seus ritmos fez o homem riqueza também renovando actos de tradição e de entre eles o da riquíssima gastronomia portuguesa. É bom ter ritmos como o do próprio crescimento do homem que de bebé passa a menino e depois a adolescente até se tornar adulto, numa vida marcada por um acordar e elevar permanentemente a consciência do que somos em balanço individual e sobretudo colectivo.

O que se escreve há 4 anos neste blog multidisciplinar que “proletariza” os mais interessantes saberes - ligado sempre aos espaços e formas de habitar, em permanência ou ocasionalmente, espaços do homem e do seu viver - é da autoria de técnicos de formação superior que dedicam a sua vida profissional a estudar e realizar o seu melhor e cujas ideias são tornadas públicas através desta forma, denominada global, de comunicar, e mesmo de apreender melhor o mundo e trocar saberes e sensibilidades, forma que há tão poucos anos não pensaríamos poder existir e atingir pelo menos os que “falam a nossa língua”.

Datar o tempo de existência da vida planetária


Como há sempre o reverso da medalha, também, a par da evolução e enriquecimento das populações e das consciências, há as maiores avalanches de destruição do planeta que se tornou tão pequenino e acessível, aniquilando os animais selvagens da terra, do ar e do mar, ao destruir os ecossistemas que permitiram a sua evolução e existência, mesmo aqueles que existem há milhões de anos, como que a datar o tempo de existência da vida planetária - como os tubarões e outros mamíferos gigantes que são os maiores predadores sem os quais mais nada existe no mar, ou os grandes predadores da terra como o lobo das serranias ou o leão da savana, predadores do topo das cadeias alimentares sem os quais desaparece a natureza e a beleza do planeta incluindo a mais pequena planta, ficando apenas deserto, sendo sabido que toda a vida do planeta começou no mar e dele ainda depende na sua integridade porque sem mar não há Terra.


Fig. 02: natureza e cidade


Mas se a existência destes grandes predadores é responsável pela existência da vida e da sua desmultiplicação e continuidade, o homem é o único predador a dizimar a vida global tendo no entanto sido o ser vivo mais jovem por ter sido o último a aparecer sobre a Terra que durante milhões de anos se engalanou em festa para o receber e tudo pôr ao seu dispor para encontrar a sua felicidade e crescer como ser superior, como “rei” do mundo, mas não da vida.

No entanto, é o único que não obedece a qualquer lei preparando alegremente a sua própria extinção, não desaparecendo todos os homens de uma só vez da face do planeta, mas provocando tais desequilíbrios no clima global que a sua acção se manifesta hoje em qualquer lugar mesmo o mais longínquo daquele que destruiu, fazendo desaparecer cidades inteiras e mesmo países, sobretudo em África e nas Américas do Sul, como se o homem que tanto evoluiu em tantos saberes e se tornou superior e cientista, e inventou línguas para falar com os outros e este instrumento para comunicar globalmente, não servisse para nada.

Usar as suas cidades transformando-as nesse linguajar político

Como se apenas se limitasse a usar as suas cidades transformando-as nesse linguajar político que dessacralizou a palavra que deveria servir a comunicação entre os homens e a vida do mundo, desenditificando-a, palavra que já não leva qualquer mensagem e é apenas usada para usufruir do voto que lhes foi dado pelo cidadão anónimo, palavra que se apropria, de qualquer maneira, da possibilidade que lhe foi dada de ascender e conservar um “emprego” sem trabalhar e sem dar retorno a ninguém, nem mesmo aos lugares neste novo circo em que nem sequer há palhaços e, se os há, já não fazem rir, porque só trazem sofrimento.


Fig. 03: “Mas eu queria falar de cidades e de habitar”


Mas eu queria falar de cidades e de habitar, mais um vez, porque hoje, lendo um jornal diário, que não dispenso desde que aprendi a ler, não encontrando porém nenhuma notícia que me faça sentir cidadã de um mundo em evolução, não apenas em termos de PIB mas sim de felicidade bruta nacional, leio o que há retirando as ilações que posso, constatando que se há algo “cor-de-rosa” para grande parte da população que só vê essa cor (os que estão muito bem e sempre afirmam estar “atentos” ao que não está e lhes compete mudar, mas não mudam senão para pior, porque muito deles depende), consigo de vez em quando olhar o cor-de-rosa com a minha santa ilusão de tentar saber “o que se passa e porquê”.

Olhar os vizinhos


Mas também já recuso ler os grandes “autores” das coisas culturais e técnicas e mesmo sociais, pois que me basta o jornal, olhar a rua e o que nela de novo é construído, olhar os vizinhos, olhar e simplesmente olhar e detectar que se há eruditos e homens bons que estariam prontos para governar o mundo como função da mais alta dignidade e até santidade como dizia Ghandi e Agostinho da Silva, nem sequer são vistos nas muitas e constantes entrevistas e programas que há três ou quatro anos se ouvem em todos os canais de TV, durante 24 horas do dia, de todos os dias, como se o falar já fosse apenas ruído com uso imoral da língua e disso fazendo uma nova profissão por acumulação, inútil e certamente bem remunerada.

Fazem cada vez mais os homens do saber o que são os homens e governá-los em nome da paz e da reconciliação, como foi Jesus ou Ghandi, ou esse primeiro homem negro chamado Mandela porque nesses habitava em seu coração o amor a todos os homens, a luz que ilumina o caminho, que ficaram como arquétipos da condição humana no seu mais alto desígnio, homens luz em tanta escuridão

Habitação em pleno coração da cidade

E vem agora finalmente a propósito o que li no jornal sobre habitação em pleno coração da cidade do Porto – as ilhas – verdadeiras aldeias de miséria e indignidade dentro da cidade histórica e UNESCO, onde vivem 7 mil pessoas, mães com 8 filhos pelo que faz pensar então porquê pedir-se que haja mais nascimentos com aqueles inomináveis subsídios de nascimento, sobretudo para quem a sua riqueza é apenas a sua FAMÍLIA, mas em paralelo despenalizando-se o aborto, e ainda bem que a mulher que o faz já não é julgada como criminosa, mas para que o possa fazer, toda a sociedade, mesmo a parte que não aborta, contribui com impostos para que a ele haja acesso gratuitamente, e para o que certamente se utilizam mais dinheiros públicos do que para subsídios a mães pobres com 8 filhos e vivendo nas “ilhas” do Porto e em todas as ilhas que por aí haverá, mesmo que o direito à habitação condigna esteja consagrado na constituição portuguesa desde 1978 – faz 30 anos.


Fig. 04: Habitação em pleno coração da cidade


Para os 9 mil portugueses que vivem em ilhas de miséria não chegou o 25 de Abril e, curiosamente, dito por José Eduardo Macedo, dono da Imobiliária Chave d’Ouro, que mostra a sua cara no jornal em fotografia bem nítida, lado a lado dessas ilhas há moradias que valem 5 milhões de euros que se vão construindo desde 40-50 anos, sendo proprietários, também, de moradias deste tipo em Tóquio ou Nova Iorque e afirma ainda que só em 2007 o seu negócio cresceu 50%. Assim sendo, também por falta de habitação (e não só de emprego) tanta família não poderá ser membro activo de criação de riqueza e de cultura porque quem mora assim, não pode ter plano de vida, nem escolaridade nem mais nada, embora o “trabalho ensine” mas, se o tem, é trabalho acidental e o menos classificado embora seja preciso de tudo para fazer o mundo.

Nove mil pessoas assim, nove mil pessoas que se perdem na miséria e abandono e são, certamente, marginalizados, porque os ricos não querem estar ao lado da miséria. Talvez que o GH devesse visitar também as “ilhas do Porto”, como a Ilha Grande na Rua de S. Victor, O Bairro do Leal em pleno centro, a Ilha Mozes à Estação de Campanhã, tendo no entanto sido implantado programa de habitação social camarário desde 1956 (há 51 anos), locais onde os ratos e a chuva não pedem licença para entrar.

Homem rico – homem pobre – país rico – país tão pobre


Esta área da cidade do Porto, como a de Lisboa, foi sendo construída a partir do início da era da industrialização do fim do séc.XIX com o afluxo da população rural aos centros urbanos, atingindo hoje 11 mil habitações ocupadas por 50 mil pessoas, distribuídas por mil núcleos, vivendo no meio da imundície e de ratos que roem o copo das crianças mais pequeninas, onde não há nem saneamento básico nem lugar para tantos em tão pequeno espaço (CM 29 dezembro 2007), não fazendo paralelo com as favelas das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, senão na miséria e ofensa à dignidade humana.

Mas creio que não foi sempre assim pois que se sempre houve gente pobre, havia pelo menos solidariedade de vizinhança e alguém com uma horta e pomar e produtos para “oferecer” e, hoje, não apenas no interior só quase existe população demasiado idosa e o campo já não é a riqueza dos pobres e a pobreza atingiu, sobretudo nas grandes cidades, o nível de verdadeira miséria, como é este caso que li hoje no jornal de maior tiragem no país.


Fig. 05: Homem rico – homem pobre – país rico – país tão pobre


Ao que se acresce o total despovoamento como na serra da Estrela onde já não há rebanhos porque não há pastores, onde não há queijo da serra porque as leis impostas pela UE, de "sanidade de produção", acabou com mais um bem único e identitário que passou a industrializado sem qualidade, mas ainda procurado por quem sabe o que "era" o verdadeiro queijo dos melhores da mundo, mas já não é, para cumprir as leis de uma comunidade cruel, ignorante e desconfiada e crítica, sem se importar com o que acontece e porquê, a miséria para a qual contribui, em nome da evolução global, desfazendo mais um pedaço de património gastronómico e cultural e pilar económico de existência ancestral e digna e que permitia a ocupação dos lugares e a continuidade das paisagens e da sua beleza, mas onde já ninguém existe e já ninguém vai sequer passar férias ou apenas visitar

A PAC não acabou apenas com os agricultores e agricultura e produtos da maior qualidade porque trouxe abandono e miséria por onde passou, ficando alguns velhos que, entretanto só esperam pela morte sendo que, no entanto, nem todos os países da UE cumprem à risca todas as leis porque não querem cair no "caso português"e dentro de suas fronteiras crivam o que lhes retira

Beleza e qualidade arquitectónica

Já em Lisboa o fenómeno foi o mesmo pelas mesmas razões de início da industrialização, mas esses “bairros operários” (ou Villas) que foram sendo abraçadas pela expansão urbana não têm condições de tanta gravidade e algumas delas são de grande beleza e qualidade arquitectónica, como a Villa Berta e a Villa Maria na Penha de França, a Villa Maria e as Villas do Bairro de Campo d’Ourique, hoje habitadas na sua maioria por intelectuais e artistas, o que me faz remeter para a utilização do interessante projecto de Siza Vieira em Cedofeita, que em vez de ter sido distribuído aos “sem casa”, é hoje, também, lugar onde habitam arquitectos e que o Júri do Prémio INH visitou em 2007 e assim constatou.

Como balanço de 2007, sobretudo quanto a evolução sociocultural e económica, não vale a pena falar no fechar de milhares de escolas e de hospitais e centros de urgência, de unidades industriais e de pequeno e médio comércio, na perda de emprego e na subida de inflação e perda de compra dos funcionários públicos ou mesmo na subida de juros para aquisição de habitação sobretudo para os jovens.

Na ESPERANÇA de que 2008 não seja igual ... é preciso re-inventar um país

O melhor de 2007 foi ter finalmente chegado ao fim na ESPERANÇA de que 2008 não seja igual, apesar das ameaças dos “senhores do dinheiro” que são barómetro da realidade do homem comum e não comum e não contribua para dos 27 países da UE o país não passe para último lugar pois que se está à frente dos dois mais pobres desta Europa económica que vai esquecendo e adiando a sua dimensão social, mais preocupada em “pedir” mais nascidos para conservar a sua situação de riqueza e desperdício para os poucos países que são lideres e responsáveis pelo descalabro da união (excepto para os que decidem sobre a vida dos 500 milhões que já abarca).


Fig. 06: “A cidade, afinal, não faz história sozinha”


O desenvolvimento económico e cultural não se faz com leis UE mas sim com a consciência do que é o país e a sua história milenar de ocupação dos territórios e actividades que justificaram ser um dos membros mais criativos, tendo agora ficado a "periferia" mais pobre com mais velhos e maltratados, com mais ricos e indiferentes porque a cidade, afinal, não faz história sozinha e, a que tem feito, é história triste e fantasia

É preciso re-inventar um país mas com homens "ricos" de saberes e sobretudo de consciência para que não se extinga como se extinguiu o lobo e as andorinhas

Maria celeste d’oliveira ramos
31 de Dezembro de 2007
Santo Amaro-Lisboa

Imagens de António Baptista Coelho
Editado por José Baptista Coelho, 3 de Janeiro de 2008

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