sexta-feira, dezembro 28, 2007

ALVALADE, DE FARIA DA COSTA. UMA CIDADE NA CIDADE - O MISTÉRIO DE ALVALADE - I - Infohabitar 176

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ALVALADE, DE FARIA DA COSTA. UMA CIDADE NA CIDADE - O MISTÉRIO DE ALVALADE


António Baptista Coelho
É editado no Infohabitar, nesta e nas próximas duas semanas um pequeno trabalho sobre o bairro de Alvalade, em Lisboa, originalmente realizado com o objectivo da sua apresentação numa palestra que decorreu ainda na Associação dos Arquitectos Portugueses (AAP), integrada nos ENCONTROS AAP – HABITAÇÃO: “CONSTRUIR CIDADE COM HABITAÇÃO”, na Sede da então AAP, hoje Ordem dos Arquitectos, em 8 de Maio de 1998. Este trabalho foi realizado com a cooperação de Nuno Teotónio Pereira.
Índice geral (e plano de edição):
1. O mistério de Alvalade (1.ª semana)
2. Um caso e a sua utilidade (1.ª semana)
3. Cronologia (2.ª semana)
4. Alvalade, um bairro integrado e integrador (2.ª semana)
5. Alvalade, como foi (3.ª semana)
6. Integração física, estrutura e imagem (3.ª semana)
7. Comentários finais (3.ª semana)
Bibliografia

1. O mistério de Alvalade (e os mistérios da cidade)

“Depois do investigador cinzento ter batido a asa para outra porta, fiquei a pensar no vazio deste bairro em que vivo há tantos anos. Não tem história, só comércio, vá lá, bombeiros e escolas para lhe dar alegria. Os jornais dizem que é uma das zonas de mais assaltos em Lisboa, mas não se vê nem sombra de polícia porque agora a Batalha de Alvalade já nem a Rainha Santa a salvava. Trava-se com brigadas de gatunos milagrosos em vez de rosas sagradas e se aparece um vigarista a dar música ao cidadão há logo que festejá-lo porque é um expedicionário à moda antiga que ainda dispara conversa em vez de apontar o facão.
E no entanto, à primeira vista tudo é ordem e paz - o mistério de Alvalade está aí” (1).
Mas haverá outros mistérios que ajudem a explicar Alvalade?
Tudo começa na identidade de cada bairro ou conjunto urbano significativo e no protagonismo do espaço público, socializador e realmente habitado, articulando edifícios e espaços exteriores em trechos de vida colectiva que dão coesão à cidade.
O mistério de fazer cidade passa por habitar realmente esses trechos de vida colectiva e obriga a uma arquitectura residencial urbana bem qualificada, dinamizadora do uso de espaços exteriores sem zonas residuais e geradoras de vizinhanças de proximidade com condições naturais de convívio e segurança, transições agradáveis entre os espaços domésticos e os vastos espaços públicos urbanos, integrando tipologias edificadas directamente relacionadas com o exterior, com dimensões sociais e físicas equilibradas e com imagens públicas que suscitem a apropriação e a identidade.

2. Alvalade: um caso e a sua utilidade

Hoje em dia é vital, para o tecido urbano, a luta contra soluções incompletas, descontinuadas e desqualificadas e para se fazer uma boa arquitectura urbana, é fundamental conhecer aprofundadamente conjuntos e bairros já com algumas histórias e o respectivo carácter, portanto com anos de vivência e de amadurecimento urbano. Naturalmente, a dimensão da área, a sua repartição em conjuntos com imagens e conteúdos próprios e, finalmente, a sua história de projecto reforçam o interesse destes exemplos.
Outro aspecto básico a procurar é o conteúdo vivo destes conjuntos urbanos, necessidade essencial para a intenção de “fazer cidade com habitação”, afinal apenas a síntese de uma verdade sempre provada, pois nunca houve cidade sem habitação.
E é, hoje em dia, uma questão de vida ou de morte do tecido urbano, a aplicação de um conhecimento urbanístico temporalmente sedimentado e validado pela experiência e a negação do uso de soluções incompletas, descontinuadas e desqualificadas. Quem decide e quem projecta o habitat tem de perceber que não basta fazer uma boa arquitectura, adequada aos seus prováveis futuros habitantes, é preciso saber fazer urbanismo e fazê-lo integrando variados espaços, imagens e funções e diversos grupos sociais.
Um conjunto residencial deve ser um tecido vivo, socialmente diversificado, funcional, ambientalmente agradável e harmonizado, prático e económico na sua manutenção, adaptável a variações de usos, apropriável e positivamente qualificado por quem lá mora e, também, um tecido estrutural e visualmente caracterizado e caracterizador: e tudo isto está presente no Bairro de Alvalade, em Lisboa.
É essa a razão que nos deve levar a olhar para o Bairro de Alvalade com “olhos de ver”, registando aspectos gerais e de pormenor, ponderando soluções, medindo aqui e ali, formulando e tentando responder, consecutivamente, a variadas teses sobre o seu corpo urbano e acrescentando sempre um pouco mais àquilo que pensamos serem certezas sobre como se pode/deve fazer cidade com habitação.
A qualificação globalmente positiva de Alvalade é, julgamos, consensual (e é essencial partir-se desta noção de consensualidade), ela fundamenta-se na concentração de muitos dos aspectos que foram sintetizados e que serão desenvolvidos neste trabalho; factores parciais do “mistério de Alvalade”. Há, no entanto, um outro tema de urbanismo, subjacente, ou paralelo, a todos esses factores, e que é essencial no estudo desse “mistério”, trata-se da presença natural da habitação, caracterizando e vitalizando ruas e praças, dando corpo edificado e público à noção de um “urbanismo amável”.
Afinal: “Ao projectar novos bairros para Lisboa, não se esqueçam de prever locais aprazíveis de reunião livre, tanto quanto possível ligados aos núcleos comerciais – pólos forçados de atracção. E deixem nesses locais lugar para certas actividades expontâneas. Excelente seria que os enobrecessem com algumas obras de arte... quanto aos problemas do trânsito, convirá que não pensem quase exclusivamente – como é prática habitual – nas soluções que o facilitam aos veículos. Os peões são muito mais numerosos e não basta destinar-lhes passeios estreitos ao longo das casas ... “ (F. Keil do Amaral, em “Lisboa, uma cidade em transformação”, p. 48).

2.1 Fazer cidade com habitação em Alvalade

A importância de se fazer cidade com habitação decorre da necessidade humana de uma fruição diária de um ambiente de vizinhança e de animação, espacial e funcionalmente diversificado, com uma mistura harmonizada de habitação e serviços, respondendo a diversas necessidades e aspirações.
Fazer cidade com habitação é também investir na identidade de cada bairro ou conjunto urbano significativo, identidade essa constituída pelas características de uma arquitectura urbana qualificada e atraente e equilibradamente variada, caracterizada por um adequado e bem integrado modelo, pela diversidade e viabilidade da composição populacional e, finalmente, pela redescoberta do espaço público como sítio privilegiado de (re)vitalização social.
O espaço público urbano deve ser um espaço habitado, para isso os espaços públicos residenciais devem constituir o ligante físico e social das edificações envolventes, articulando edifícios com espaços exteriores e edifícios com edifícios, em trechos de vida colectiva que dão coesão à cidade.
Fazer cidade com habitação é fazer habitação ao longo de espaços públicos viáveis e habitados, e obriga a uma arquitectura residencial urbana claramente muito bem qualificada logo ao nível do projecto.
Um dos mais importantes valores de uma habitação é a possibilidade de se poder usar plenamente o respectivo sítio e as suas adjacências, criando-se um ambiente de vida completo, baseado na dinamização do uso dos espaços exteriores, evitando-se zonas sem funções definidas, habitualmente geradoras de conflitos, e assegurando-se o conforto da vizinhança habitacional.
É essencial garantir condições naturais de convívio e segurança nas zonas de transição entre o espaço privado de cada habitação e os vastos espaços públicos urbanos, relacionando o uso recreativo e seguro do exterior na vizinhança habitacional, tanto com zonas bem vitalizadas e animadas, como com o sossego familiar doméstico, sem espaços residuais e abandonados e privilegiando tipologias edificadas que favoreçam vizinhanças próximas apropriáveis pelos seus habitantes, urbanas e geradoras de convívio local.
Edifícios com poucos fogos, caracterizados por acabamentos exteriores expressivamente duráveis e com uma imagem pública que suscite o agrado e a apropriação dos habitantes, são adequados para uma grande diversidade de grupos socioculturais e permitem um claro reforço do número de fogos mais relacionados com o exterior o que constitui, também, uma grande vantagem na adequação do edifício a pessoas com hábitos de vida intensamente exteriores.

2.2 Alvalade: um bairro dinâmico

Alvalade, ligado à cidade, tem sabido adaptar-se à sua dinâmica evoluçäo: ruas e passeios têm acolhido mudanças de traçado e de uso, misturas de actividades têm-se revelado importantes factores de animação e funcionalidade, Praças e Avenidas estão, já, bem caracterizadas e assumem um papel na cidade, conjuntos de equipamentos operam em perfeita continuidade urbana; e tudo isto a par da manutenção de belíssimas ruas e alamedas residenciais, sossegadas e intimistas

2.3 Alvalade: uma cidade de bairros e um bairro de pessoas

Alvalade teve uma ocupação humana inicial de 45000 pessoas, e tem actualmente um pouco menos de 35000. Considerando o período de 1955 a 1995 (cerca de 40 anos), parece ter havido uma boa rotação de gerações residentes.
Ocupação e tipos habitacionais: 31000 hab. em multifamiliares de renda económica + 2000 hab. em unifamiliares de renda económica (33000); 9500 hab. em multifamiliares de renda não limitada + 2500 hab. em unifamiliares de renda não limitada (12000).
Uma “mistura” social de cerca de 73% de habitantes de grupos sociais mais desfavorecidos com 27% de habitantes da pequena burguesia, que é apenas aparentemente semelhante a outras “misturas” sociais posteriores realizadas em novos bairros lisboetas (exº Olivais), pois a população das “Células” de habitação social de Alvalade (actualmente idosa) é “de origens modestas”, mas é frequentemente originária do centro de Lisboa e caracteriza-se por uma muito baixa taxa de iliteracia.(2)

2.4 Uma concentração de qualidades urbanas e habitacionais em Alvalade

(características de) Acessibilidade:
-Bairro compartimentado por arruamentos principais ligados à Cidade.
-Desde o início da ocupação a AR foi servida por autocarros, comboios e carros eléctricos; mais tarde estes últimos foram eliminados, mas entretanto o "Metro" foi abrindo várias estações na zona.
-Percursos cómodos, cuidadosamente distribuídos, pouco numerosos e pouco extensos (grandes extensões ritmadas por pólos e acidentes de percurso positivos), sendo os principais apenas cruzados no indispensável.
-Vias de acesso local com redução da faixa de rodagem, mas sem redução de largura entre edifícios.
-Células residenciais em trono de Escolas Primárias, com raio de influência máximo de 500.0m.
-Rêde de veredas pedonais através de logradouros.
-Impasses rodoviários, mas prolongados e inter-ligados por veredas pedonais.
-Boa parte dos Edifícios com acessos alternativos.
-Fogos com um mínimo de espaços desaproveitados, por rentabilização de Área útil e nomeadamente por ordenação das comunicações e redução de percursos no interior da Ha.
-Na estruturação da habitação realizou-se uma concentração de superfície livre (desimpedida após a instalação de mobiliário padrão) de modo a atingir-se cada recanto com o mínimo gasto de energia, para além de se obter um melhor ordenamento geral.
(características de) Comunicabibilidade:
-Com a Cidade por quatro fronteiras bem definidas e assinaladas por pólos de comunicabilidade/acessibilidade bem identificáveis.
-Com o comércio interno (vida interior do Bairro) em vias comerciais, conjugadas entre si e com o exterior, fortemente caracterizadas e muito pedonalmente fruíveis.
-Entre ruas muito animadas e ambientalmente diferenciadas (diversos espectáculos urbanos), através de interiores de quarteirões residenciais sossegados e ao longo de impasses rodoviários inter-ligados por veredas pedonais; é a lógica pura do "caminho secreto", mas seguro, aplicada e provada na prática.
-Com a envolvente do edifício por zonas frontais e de traseiras, adequadamente ocupadas e usáveis para actividades determinadas.
-No interior da habitação por zona social evidenciada e central.
-Entre interior da habitação e exterior por janelas de sacada e varandas com guardas "transparentes".
(características de) Espaciosidade:
-Basta dizer que ainda hoje funciona bem depois de várias adaptações viárias.
-Perfeitamente hierarquizada, ao nível exterior, desde os largos passeios comerciais até aos estreitos passeios dos impasses residenciais contíguos a quintais privados e às largas veredas pedonais nas traseiras dos edifícios.
-Mínima ao nível dos espaços comuns dos edifícios habitacionais.
-Mínima mas bem equilibrada nas habitações, onde se destacam os quartos de casal espaçosos e quadrangulares.
(características de) Capacidade:
-Em termos globais o Bairro tem cerca de 230 Ha, com uma densidade global ("bruta") de cerca de 200 habitantes/Ha (cerca de 46000 habitantes na totalidade), alojados em edifícios uni e multifamiliares, sendo grande parte destes de baixa altura.
-Em termos viários continua a funcionar com fluidez, ainda que com um número actual muito elevado de veículos (circulando e estacionando).
-Quanto à habitação foram considerados os posicionamentos dos móveis fundamentais e integrados armários na construção, sempre que possível.
(características de) Funcionalidade:
-Várias zonas bem evidenciadas e com serviços diferenciados muito próximas das habitações.
-Zonas pedonais úteis e com variadas atribuições funcionais, estrategicamente coordenadas com as zonas de veículos.
-Soluções práticas de harmonização do tráfego de veículos com o estacionamento de longa e curta duração.
-Ao nível da habitação há um máximo de aproveitamento da Au com um máximo de comodidade da vida doméstica, mediante características de boa afinidade geométrica e correlação entre os compartimentos do fogo.
-O reduzido número e a semelhança entre as soluções de fogo utilizadas em boa parte dos edifícios multifamiliares (12 soluções muito idênticas, entre si) permitiu a sua optimização funcional (e em termos de custos).
(características de) Agradabilidade:
-Sossego e abrigo (sombreamento, protecção eólica) das ruas e impasses residenciais; é interessante anotar que a simples possibilidade de opção entre os dois lados da mesma rua, com idênticas condições de espaciosidade e equipamento, é um excelente factor de agradabilidade no exterior público.
-Habitações rectangulares proporcionando luz e ventilação natural a todos os compartimentos, sem recantos sombrios e húmidos.
(características de) Durabilidade:
-Caminhos pedonais (veredas) bordejando quintais privados, assegurando-se, assim, o seu bom estado de manutenção; nos poucos casos em que estes caminhos não foram concretizados é bem evidente a deterioração do aspecto.
-Usufruto público de boa parte do "verde" privado, sem custos de manutenção pública; nas condições referidas na anterior característica.
-Edifícios não parecem exigir cuidados especiais de manutenção; e como a estrutura urbana define quarteirões, a boa aparência pública refere-se, na maioria dos casos, essencialmente, aos conjuntos de fachadas principais, constituindo ruas e impasses residenciais.
(características de) Segurança:
-Total controlo das ruas e interiores de quarteirão por estrutura urbana contínua, sem espaços "mortos" e com longos troços acompanhados ("vigiados") por estabelecimentos comerciais*.
-Cruzamentos viários ortogonais, com abundância de entroncamentos e ritmo intenso de passadeiras pedonais (obrigando a trânsito de veículos lento e atento).
(características de) Convivialidade:
- Bairro integrando fogos: “sociais”, de “renda limitada” e "de renda não limitada".
-Rejeição de segregações por fomento da coexistência de diferentes grupos sociais no interior de cada "célula" para cerca de 5000 habitantes.
-Manutenção de características de homogeneidade social em sub-células com cerca de 500 fogos.
-Diversos tipos de habitação social aplicados (uni e multifamiliares).
-Fogos não sociais e lojas financiando, em parte, as habitações sociais e acompanhando os principais eixos de tráfego e comércio do bairro.
-Simultaneidade entre conclusão de fogos “sociais”, habitações de renda livre e faixas comerciais (integradas nos edifícios residenciais com fogos de renda livre)*.
-Principais pontos de ligação à cidade realizados "à cabeça".
-Variados tipos de Transportes Públicos.
-Equipamentos e zonas para equipamentos perfeitamente integrados com a habitação e assegurando a continuidade urbana.
-Veredas pedonais contíguas a quintais privados e com excelentes relações visuais mútuas.
- Vizinhanças de proximidade claramente configuradas e limitadas, em ruas e impasses residenciais.
-Ruas comerciais vivas, ainda em progresso, quase meio século depois de construídas, irrigando, em grande proximidade, um máximo de ruas residenciais.
(características de) Privacidade:
-Existência de quintais privados.
-Privacidade relativa ("comum"/condominial) ao nível da vizinhança de proximidade; ruas e impasses residenciais sossegados e intimistas.
-Contrastes fortes e próximos entre vida urbana animada e calma intimidade residencial.
(características de) Adaptabilidade:
-Urbana extrema, tanto aos modos de vida, como à fortíssima pressão da evolução das exigências funcionais urbanas, ao longo do tempo.
-Na vizinhança de proximidade, proporcionando a junção de garagens individuais e de equipamentos colectivos no interior dos quarteirões (exº, campo de jogos iluminado e vedado).
-Ao nível da relação vizinhança de proximidade/edifício permitindo desde extensões de estabelecimentos comerciais sobre os passeios contíguos, até às conversões de fogos térreos em lojas.
-Das habitações, por existência de 3 categorias de espaciosidade, cada uma delas com 3 tipos gerais, conforme o número de quartos, mais algumas variantes (resultado de indecisões dos projectistas sobre quais as soluções a escolher); às várias categorias correspondem, não só, áreas diferentes, mas também diversos tipos de compartimentos (exº, escritórios e "quartos de criada").
(características de) Apropriação:
-Limites do Bairro suficientemente definidos e fundidos com a envolvente.
-Imagem geral forte e "Una".
-Estrutura urbana clara, constituída por duas vias fundamentais, mais outras complementares e uma grelha residencial pedonal que acompanha, mas extravasa a rêde para veículos; tudo isto rodeado por uma arquitectura com imagens perfeitamente integradas, mas continuamente variadas (diversidade na unidade).
-Continuidade urbana encaminhando principais percursos.
-Remates da estrutura urbana por praças e edifícios públicos assinaláveis.
-Vizinhanças de proximidade "personalizadas" em impasses, praças e pracetas residenciais equipados e marcados (exº, Torres de Relógio das Escolas).
-Quintais privados, mas com vista pública (basta ver o cuidado que é, ainda hoje (com a população muito envelhecida), investido no arranjo das sebes que delimitam os quintais.
-Floreiras integradas nos edifícios.
-Portas principais dos edifícios, sempre, evidenciadas e tratadas com especial atenção (mesmo nos casos de edifícios mais modestos).
-Elementos artísticos marcando algumas entradas de edifícios.
(características de) Atractividade:
-Soluções arquitectónicas muito dignas, simples e sóbrias.
-Doze tipos de edifícios com elementos de composição diferentes mas unificados, em termos de alturas e linguagens formais.
-Por vezes edifícios semelhantes, mas com pormenorizações diferenciadas.
-Coexistência de edifícios uni e multifamiliares.
- Edifícios com distinção forte entre frente e traseiras.
- Edifícios com remates ao solo e superiores bem marcados.
-Edifícios com acessos claramente evidenciados.
-Faixas de lojas marcando os pisos térreos.
(características de) Domesticidade:
-Vizinhanças de proximidade com escala humana, baixa, protegida e sossegada.
-Ruas comerciais largas, mas com escala humana marcada por faixas de lojas, socos e entradas marcadas e protectoras.
-Continuidade urbana protectora.
-Dominância de edifícios baixos; edifícios altos marcando zonas mais animadas ou de relação com o exterior do bairro.
-Chaminés acentuadas, vãos habitacionais muito tratados, coberturas em telhado evidenciadas, fachadas bem rematadas.
-Tons de côr naturais ou quentes.
-Presença protagonista das árvores de arruamento, criando verdadeiros "tectos" rebaixadores da escala urbana e amenizadores das zonas construídas.
(características de) Integração:
-Forte, do conjunto do Bairro na cidade.
-Forte, das diversas Células residenciais no conjunto do Bairro.
-Zonas comerciais constituindo como que a "espinha dorsal" estruturadora do Bairro e em total integração com a habitação; proporcionando zonas de comércio com características diversificadas e complementares em condições de grande proximidade mútua.
-Zonas industriais/artesanais em articulação cuidadosa com as zonas residenciais, mas totalmente integradas no conjunto do Bairro.
-Do peão e do veículo, gerais e seguras, dominando o peão, tanto porque são muito numerosas as passadeiras de atravessamento de vias para veículos, como porque existem troços pedonais complementares e em grande conjugação com o restante sistema de percursos; e no entanto o tráfego de veículos é habitualmente fluído.
-Dos grandes equipamentos na continuidade urbana "normal" do Bairro, sem quaisquer descontinuidades.
-Dos principais pólos urbanos, evidenciados ainda mais, porque basicamente integrados.
-Do verde urbano (essencialmente protagonizado pelas árvores de arruamento), na continuidade ambiental do Bairro, onde não existe um Parque ou um grande Jardim, nem se sente essa falta.
Notas:
(1) Cardoso Pires pp.101/2
(2) José Callado p. 225

Bibliografia sobre Alvalade

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Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
Editado por José Baptista Coelho, em 28 de Dezembro de 2007

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