terça-feira, junho 16, 2020

Habitações térreas e opções domésticas e urbanas – Infohabitar # 734

Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.

  

Infohabitar, Ano XVI, n.º 734

 

Viver ao nível térreo - I

Habitações térreas e opções domésticas e urbanas – Infohabitar # 734

por António Baptista Coelho (texto e imagens)

 

Notas prévias:

Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,

Esperando que estejam todos de saúde,

continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.

Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.

Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),

despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,

Lisboa, Encarnação, em 15 de junho de 2020

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

 

 

Viver ao nível térreo - I

Habitações térreas e opções domésticas e urbanas – Infohabitar # 734

António Baptista Coelho

 

Edifícios integrados por diversos tipos de espaços domésticos          

Uma das grandes opções de viver, adequadamente, “o habitar” – habitação e vizinhança e vice-versa – joga-se, sempre que tal é possível (e assim o foi, frequentemente, ao longo de milénios), na escolha de habitações que tenham relação direta com o espaço público ou de uso público, ou indireta através de espaços exteriores de uso privado (quintais e pátios privativos.

Antes de avançar um pouco mais na estruturação desta opção importará referir que, quanto mais ponderamos sobre esta matéria do poder viver plenamente o habitar nas suas diversas dimensões físicas de ambientais – espaço doméstico interior, espaço doméstico exterior e relação entre o espaço doméstico e o espaço público de uma vizinhança, ainda marcada por um significativo sentido de grupo e de conhecimento mútuo –, mais se evidencia a ideia de que a gradual “anulação” de tais potencialidades vivenciais privadas exteriores e de relação directa entre o espaço privado e um espaço “para-público”, parece decorrer, em boa parte, de uma expressiva uniformização tipológica, que prefere programar habitações praticamente iguais desde o último piso ao piso mais térreo de um edifício, sem aproveitar, em cada nível, os diversos potenciais de relacionamento, eles próprios também geradores de uma inestimável animação/caracterização arquitectónica em termos do respectivo alçado – desenvolvimento este ele próprio também muito mais trabalhoso do que a simples repetição de pisos iguais uns sobre os outros.

Naturalmente que é mais natural e eventualmente adequado desenvolver este tipo de concepção em edifícios menos altos e mais urbanisticamente integrados (ex., em quarteirões) do que em altas “torres” isoladas; mas “meios termos” serão sempre possíveis e está cada vez mais provado que viver a cidade é viver continuidade urbana e alguma densificação, sendo que tais condições são, ainda assim, compagináveis com edifícios relativamente altos e até relativamente isolados; e em tudo isto é essencial a capacidade do projecto de Arquitectura e de um projecto que integre bem a história das tipologias numa perspectiva o mais possível completa; isto é, considerando todos esses níveis de vivência do habitar e a excelente capacidade de variação e de vivência que podem e devem “morar” em muitos dos essenciais espaços de transição, de ligação e de cuidada separação entre esses vários níveis físicos muito pormenorizados.

 


Fig. 01: o interesse que sempre foi e sempre será despertado pela possibilidade de se viver a cidade tendencialmente mais ao nível térreo, de se viver uma cidade mais marcada pelas vizinhanças e de se viver, afinal, um habitat humano mais à escala humana.

 

Habitação ligada ao espaço público e ao mundo térreo         

É assim que, quando escolhemos ou privilegiamos habitações que tenham uma afirmada relação direta com o espaço público ou de uso público, ou ainda uma outra relação indireta através de espaços exteriores de uso privado (quintais e pátios privativos, que podem ser até fisicamente bastante exíguos), optamos, basicamente, por uma ideia onde se concilia:

·        o referido potencial de uso e de gozo de diversos níveis físicos e “ambientais” do habitat humano,

·       com o “simples” potencial de poder “viver ao nível térreo”, ou bem perto dele e um viver ao nível térreo que é, também, viver mais intensamente a natureza, o exterior de vizinhança e as pontes de relação com a continuidade urbana.

            Uma tal opção é, naturalmente, determinante da adaptabilidade do habitar assim escolhido e vivido, seja numa perspetiva de adequação prévia a determinados modos de vida, eventualmente, mais ruralizados, seja  na perspetiva de resposta a determinados desejos habitacionais e de vivência da respetiva vizinhança de proximidade e do seu eventual potencial de convívio e de contato mais “livre” com o simples exterior, com o “ar-livre”, com a natureza, com o espaço urbano e, tão importante como tudo isso, com o pequeno mundo de vizinhança que esteja localmente disponível e que, não tenhamos dúvida, pode e deve disponibilizar-nos um “terceiro pequeno mundo”, distinto dos nossos espaços domésticos e também distinto do espaço urbano mais animado e impessoal; um estar na cidade, mas continuando a estar “em casa” ou um “estar quase em casa”, mas também já no princípio da cidade.

E não tenhamos qualquer dúvida de que um tal potencial de vivência tripartida e conjugada dos mundos privado, de vizinhança e da cidade, para além de constituir uma riqueza em si próprio, é fator expressivamente enriquecedor da vivência de cada um desses níveis físicos; e quem vive tais situações de vizinhança ativa sabe que o que se está a referir é bem verdade.

Trata-se, afinal, de um importante fator de adequação e de "liberdade" nas soluções de habitar casa e cidade que se escolhem, e um fator que, infelizmente, tem sido muito desprezado em favor das, tantas vezes “estafadas”, soluções-tipo de edifícios tipo esquerdo-direito", iguais do rés-do-chão ao último piso e em urbanizações elas próprias também muito “esquerdo-direito”, no sentido em que, por exemplo, gavetos com excelente potencial urbano são tratados sem qualquer sensibilidade, numa ausência de sensibilidade que alastra a uma uniformização do trabalho dos níveis habitáveis, porque, de outra forma, o projecto urbano, ou de verdadeira Arquitectura urbana, daria muito trabalho de imaginação e de pormenorização – e, evidentemente, o resultado estaria aí para ser visto e, logo, intensamente vivido.

 

 

Fig. 02: as imagens urbanas estimulantes produzidas por malhas urbanas “tradicionais”, que nos fazem pensar sobre a viabilidade e a oportunidade de se revisitarem, cuidadosamente e com grande sensibilidade, esses tipos de soluções.

 

 Imagem urbana estimulante

            Sublinha-se, assim,  também o muito importante papel que estas soluções cumprem/cumpririam na modelação pormenorizada de uma imagem urbana desejavelmente estimulante, porque diversificada e por vezes orgânica e até lúdica, no acompanhamento visual e físico que proporciona aos percursos pedonais contíguos, fazendo, de certo modo, sentir, mais fortemente, nesses percursos o ambiente residencial e de animação local, que aí se pretendeu ser envolvente e caraterizador:

·        seja pela quase-contiguidade (sempre protegida) dos vãos domésticos,

·        seja pela presença pontuada, não tão densa como na cidade “central” de outros espaços não tão domésticos, como as habitações ali próximas, nem ainda “tão urbanos” – como pequenas lojas e abrigados retalhos de esplanadas,

·        seja pela presença evidenciada das fundamentais zonas de transição, de limiar e de proteção ou enquadramento da essencial privacidade doméstica e da referida relação com a cidade - ex., sebes naturais, muros bem pormenorizados, diferenças de nível estratégicas, sequências de vistas bem estruturadas e marcadas pelo verde urbano ou pela sua ausência (condição que nesta solução de evidenciação de um nível térreo residencial e com exteriores privados, pode referir-se a um verde privado, mas com fruição pública, aspeto este de grande importância na gestão do exterior).

E não podemos esquecer que é muito nestas zonas de transição e de relação entre espaços, até historicamente, mais afirmados na tradição do habitat humano, que muito de uma boa caracterização arquitectónica pode e deve acontecer.

 

Ligação habitação-rua: ligação habitação-cidade

            Sobre a ligação habitação-rua, matéria que foi e que sempre deveria ser fundacional no pensar e fazer cidade viva, importa aprofundar as possibilidades vivenciais e arquitetónicas que uma diversidade de relacionamento entre esses dois mundos de privacidade e de convivialidade pode e deve proporcionar com o duplo objectivo de uma cidade mais variada, atraente e mesmo equilibradamente surpreendente, e de uma habitação bem marcada e também diversificada pela respetiva identidade – das características formais da solução (exemplo: volumes, cores e desníveis dos acessos privados, e diferentes agregações dos mesmos).

         De certa forma será aqui o espaço/sítio mais adequado para a harmonização entre diversos modos e gostos de habitar e uma relativa e equilibrada uniformidade, no sentido de verdadeira urbanidade: viver como gostamos, o mais possível, nos nossos espaços domésticos interiores e exteriores, mas sem chamar sobre nós uma atenção, que pode ser frequentemente indesejada e que desvie o interesse público daquilo que mais lhe deve interessar, e que é o sentido e a continuidade urbana, bem marcada, através de diversos elementos de Arquitectura (desde a altura do edificado à pormenorização dos respetivos vãos), em edifícios, quarteirões, ruas, eventualmente, bairros e, sempre, eixos urbanos naturalmente estruturadores.

 

 

Fig. 03: o interesse e a positiva curiosidade que sempre despertaram as tipologias habitacionais com acesso directo ao espaço público.

  

Tipologias com acessos diretos ao exterior 

            E a ideia que se quer aqui deixar é ser plenamente possível e social e economicamente bem sustentável apostar em soluções diversificadas e, por vezes, tipologicamente mistas, que aplicam média/alta densidade habitacional com edifícios de baixa e média altura (até, em parte, eventualmente, sem elevadores), em que boa parte das respetivas habitações têm/tenham acessos diretos:

·        a exteriores privados (exemplo: três pisos em que as habitações térreas têm acesso direto ao exterior e as em 1.º andar também têm acessos por escada a pequenos talhões privativos),

·        e a espaços exteriores de vizinhança; numa condição que assim aliará a diversidade de poder viver uma habitação com um leque amplo de espaços exteriores privados, à diversidade de poder viver uma habitação com um leque relativamente amplo de soluções de acesso ao exterior público ou de uso público – um potencial que parece ser bem rico, pois, naturalmente, continuarão a existir soluções correntes tanto na disponibilização de exterior privado como de relação com um espaço comum “tradicional” que faça a transição entre os mundos público e privado.

 

Ligação entre edifício e rua

            Sobre a ligação edifício-rua já desenvolvemos, em outros artigos desta série, um conjunto de ideias que se considera básico, mas falta talvez imaginar o que poderia ser uma entrada comum, provavelmente de um conjunto de habitações não excessivamente dimensionado em termos sociais e físicos, e onde nos sentíssemos tão individualizados e identificados com a proximidade “imediata” da nossa “concha” doméstica, como verdadeiramente estimulados, tanto pela proximidade e uso intensos:

(i) dos nossos pequenos espaços exteriores privados,

(ii) do espaço público que os contorna e serve,

(iii) da própria vizinhança marcada por um sentido agradável e protegido de um conjunto de vizinhos em que o convívio é claramente apoiado, mas sempre de forma “não imposta”, havendo alternativas de acesso que o garantam,

(iv) e ainda de sinais inequívocos, seja do espaço urbano mais vivo e em continuidade, seja, porque não, da sua antítese, pela presença de sinais evidenciados da natureza.

 

Identidade e habitação

           Sobre a ligação habitação-edifício e igualmente numa perspectiva do que poderia ser uma tal relação, julga-se que são importantes os aspectos de marcação da identidade da habitação, de segurança maximizada na aproximação à porta da habitação e de vigilância, a partir do interior, quando se acede à habitação, de privacidade dos espaços domésticos relativamente a vistas das vizinhanças envolventes e com uso público (e naturalmente a partir de vãos domésticos alheios), e mesmo de uma equilibrada antecipação dos ambientes exteriores e interiores domésticos, em aspectos que não podem fazer arriscar a dignidade do ambiente comum do edifício e da sua presença na respetiva vizinhança urbana.

 

 

Fig. 04: vantagens variadas e também visuais do viver ao nível térreo.

 

 Vantagens do viver ao nível térreo

            Esta matéria do “viver ao nível térreo” ou próximo dele e, consequentemente, do habitar de uma forma que, potencialmente, pode estar intimamente ligada ao “exterior”, ao “ar-livre”, “à rua” e, portanto à natureza, e/ou à cidade e/ou mesmo à paisagem de proximidade, é matéria que merece aprofundamento e desenvolvimento posteriores e cuidadosos, que serão, apenas minimamente explorados em próximo artigo desta série, mas desde já se sublinham algumas relações a privilegiar no desenvolvimento deste “filão” de reflexão projetual (sobre o “viver ao nível térreo”):

(i)           com a diversificação e adequação tipológica habitacional;

(ii)         com os importantes aspetos de harmonização a necessidades específicas de acessibilidade;

(iii)        com as “novas” preocupações de densificação urbana;

(iv)      com a sustentabilidade ambiental e social urbanas;

(v)         com um urbanismo renovado e mais humano;

(vi)      com soluções de arquitectura urbana mais sensíveis a situações de baixa e muito baixa densidades;

(vii)     e com uma oferta habitacional mais caraterizada e potencialmente apropriável pelos seus habitantes (fisicamente e em termos de identidade).

 

 

 

Uma primeira versão, bastante menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 475 da Infohabitar, em 9 de março de 2014.

 

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

 

Infohabitar, Ano XVI, n.º 734

 

Viver ao nível térreo - I

Habitações térreas e opções domésticas e urbanas – Infohabitar # 734

 

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

 

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

 

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).


terça-feira, junho 09, 2020

Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional – Infohabitar # 733

Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.

Infohabitar, Ano XVI, n.º 733

 

Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional – Infohabitar # 733

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

09Notas prévias:
Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,
Esperando que estejam todos de saúde e, novamente, com um muito especial abraço de força e de confiança no futuro aos muitos amigos e leitores desse grande País Irmão, que estão ainda a viver uma fase complicada da epidemia.
Continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.
Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.
Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),
despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,
Lisboa, Encarnação, em 8 de junho de 2020
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional – Infohabitar # 733

António Baptista Coelho


Tipos de adaptabilidade e flexibilidade habitacional

A adaptabilidade da habitação a diversos modos de vida e usos domésticos ou específicos, colocada ao serviço de diversos tipos de agregados familiares e de diversas apropriações funcionais e pormenorizadas, é, cada vez mais, um aspecto fundamental a considerar na concepção dos espaços domésticos, tal como foi apontado em artigo anterior desta revista, mediante a referência à opinião de diversos autores, que salientaram a importância de deixarmos de privilegiar organizações domésticas rígidas e excessivamente hierarquizadas, favorecendo-se, sim, os caminhos marcados por espaços habitacionais mais apropriáveis e potencialmente mutantes:
  • seja pela capacidade “passiva” de adaptabilidade e conversão de espaços a diversos usos, proporcionada pela própria organização e dimensionamento gerais de uma habitação;
  • seja na flexibilização oferecida aos seus respetivos conteúdos funcionais e de mobiliário/decoração (nos mesmos espaços-base);
  • seja pelas condições de adaptabilidade relacional disponibilizadas, em termos de localizações e relações que proporcionem e incentivem diversos usos;
  • seja pelo potencial de adaptabilidade física (“hardware”) específica que igualmente ofereçam, designadamente, através da junção e subdividão de espaços e compartimentos, já existentes – numa opção que terá sempre de ser extremamente bem prevista no sentido de se respeitar, na íntegra,a segurança estrutural do respetivo edifício;
  • seja pela dinamização do equipamento evolutivo de alguns espaços e compartimentos;

  • seja mesmo pela capacidade de expansão real que seja proporcionada para novos compartimentos – uma solução naturalmente mais adequada a soluções habitacionais unifamiliares.



Fig. 01: adaptabilidade/flexibilidade dos espaços habitacionais - espaço "x" ocupação "a"
Nesta perspetiva e evidentemente nunca será possível, nem tal seria desejável, prever, na fase de projecto de Arquitectura, a (quase) totalidade de opções de ocupação e apropriação dos espaços domésticos; mas, no entanto, não tenhamos qualquer dúvida que é essencial que, na fase de projecto os espaços e subespaços da habitação sejam tornados versáteis para um máximo de apropriações e ocupações e nunca para usos quase-únicos, como por vezes, ou mesmo muitas vezes, acontece, designadamente, nos espaços limitados da habitação de interesse social.
E não tenhamos dúvida de que o espaço disponível influencia a versatilidade dos respetivos usos e ocupações, mas não é condição única, nem talvez a mais importante, para a referida e desejada adaptabilidade doméstica; e quase sempre tal versatilidade é ganha pela sábia agregação de múltiplos microespaços versatilmente habilitados para múltiplas “microatividades”, até quase simultâneas.

 

Relação entre família e habitação

No entanto, para além desta múltipla perspectiva da adaptabilidade e flexibilidade habitacional, que está globalmente ligada às amplas matérias da apropriação dos espaços domésticos, outra linha de reflexão é importante na opção por diversas formas de organização dos mesmos espaços; trata-se da caracterização do perfil da habitação na sua relação com as características etárias e gregárias dos seus habitantes.
E nesta perspectiva vários autores apontam um leque global de soluções integradas do que se pode referir como “tipologias família-habitação”, tal como em seguida se regista de forma sintética.


Fig. 02: adaptabilidade/flexibilidade dos espaços habitacionais - espaço "x" possibilidade de ocupação "b".


Estúdios individuais e para casais

Estúdios mínimos para jovens longe de casa e pessoas sós, idosas ou não; estúdios estes com equipamentos domésticos muito funcionais e completos, ou reduzidos a um mínimo razoável, que pode ser pré-instalado, e dispondo de um quarto de dormir em zona que possa ser adequadamente separada do resto da casa, ou, em alternativa, nela integrada de forma a criar um espaço amplo.
Segundo Alexander, a habitação para uma pessoa só deve ser um espaço com grande capacidade de individualização/apropriação, podendo caracterizar-se por um amplo espaço central e multifuncional, rodeado por recantos ou subespaços com diversas atribuições funcionais (1); e um espaço doméstico entre cerca de 30 e 40m² pode servir, razoavelmente bem, uma solução deste tipo.
Naturalmente que este tipo de solução pode ser adaptada, com alguma facilidade, ao uso por casais (jovens ou idosos), que aceitem este tipo de condições domésticas marcadas por algum “minimalismo” ou alguma informalidade e/ou versatilidade da organização e do recheio doméstico. 
E salienta-se que esta opção minimalista é basicamente distinta de uma opção informal em termos da capacidade de apropriação e ocupação dos respetivos espaços domésticos, sendo a primeira potencialmente mais uniforme e despojada espacialmente e a segunda eventualmente mais orgânica e multiforme - outras submatérias que nos levariam longe nestas reflexões.




Fig. 03: adaptabilidade/flexibilidade dos espaços habitacionais - espaço "x" ocupação "c".


Soluções habitacionais para pessoas sós

Citando, julga-se, a propósito, um estudo realizado pela Taylor University of York (2), apontam-se, agora, diversos subtipos de soluções habitacionais para pessoas sós e para casais:
·          "unidade auto-suficiente", provida de porta de acesso, cozinha, casa de banho completa – uma habitação pode ser uma unidade de alojamento ou conter várias unidades desse tipo; (3)
·         "unidade compartilhada", onde vivem várias pessoas, cada uma com um "espaço particular", mas compartilhando uma zona de estar, cozinha e casa de banho completa;
·         "espaço particular", quarto individual dentro de um alojamento compartilhado, usado essencialmente como espaço para dormir, mas também como zona de estar e para guardar bens pessoais;
·         "quarto completo", como o "espaço particular", mas com pequena zona de estar mais desenvolvida e incluindo lavabo e pequena cozinha; há que compartilhar a retrete e o banho;
·         "espaço comum ou colectivo, compartilhado", que pode incluir casa de banho, cozinha, estar, arrumações;
·         e, finalmente, uma evolução do "espaço particular", anexando-lhe instalações sanitárias que podem ser mínima e/ou pequena zona de estar, que pode resumir-se a um espaço para um pequeno sofá e uma mesa de trabalho (esta opção foi desenvolvida pelo autor deste trabalho).


Pequenas habitações

Subindo, agora, um pouco na “escala” do dimensionamento doméstico, mas mantendo-nos no âmbito de soluções especialmente adequadas para pessoas sozinhas, casais e outros pequenos agregados familiares, apontam-se, em seguida, as sugestões de diversos autores nesta matéria.
Desenvolvimento de pequenas habitações para jovens longe de casa, pessoas sós, idosas ou não, ou casais sem filhos em coabitação; estúdios estes com equipamentos domésticos que podem ser mais ou menos elaborados e completos, nomeadamente, para se disponibilizarem espaços para a instalação de mobiliário patrimonial ou, contrariamente, oferecendo os espaços já mobilados.
Segundo Claude Lamure esta solução deverá dispor de um quarto de dormir relativamente isolado do resto da casa, que seja suficientemente espaçoso para integrar duas camas individuais e certas zonas específicas (ex., sofá perto de janela).
A habitação deve ser globalmente espaçosa e ter circulações facilitadas, tanto entre cozinha e sala, como entre a sala e o quarto (pensa-se na funcionalidade do uso por idosos). (4)
Referem John Noble e Barbara Adams que este tipo de solução será muito útil a idosos pouco activos, que assim poderão dispor de pequenos fogos "super-funcionais" e razoavelmente espaçosos que lhes poupem e facilitem o trabalho doméstico e as próprias deslocações interiores. (5)

Pequena habitação para um casal

Num estudo espanhol considera-se que a habitação para um casal (habitação com quarto comum) será muito semelhante à habitação para uma pessoa só, designadamente, no caso de um casal de jovens adultos; pois no caso de se tratar de um casal de jovens ou de idosos, serão recomendáveis zonas mais amplas e diferenciadas. (6)
Claude Lamure aponta que as pequenas habitações realizadas especificamente para favorecerem a vida doméstica de casais, num quadro privilegiadamente informal de uso da habitação, devem favorecer os espaços "super-funcionais" para os trabalhos domésticos, a abundância de diversos tipos de arrumações, feitas de raiz, a possibilidade de desenvolvimento de recantos individuais para estudo/trabalho profissional e caracterizarem-se por um franco relacionamento geral entre espaços, que assegure, designadamente, a vigilância natural e simplificada de crianças pequenas. (7)

Grandes habitações multigeracionais e multifuncionais

Tal como aponta Lamure interessa também referir aqui o interesse do desenvolvimento de grandes habitações, razoavelmente espaçosas, para famílias "maduras" com diversos filhos de diferentes idades, com um quarto relativamente autónomo que pode servir para um filho mais velho, para escritório ou para um parente idoso, e, ainda, com um quarto de casal acentuadamente isolado do resto da casa. (8)
Defendem John Noble e Barbara Adams que as habitações deste tipo poderão desejavelmente ligar-se espaços exteriores privados no caso de famílias com crianças. (9)
E os mesmos autores referem que este tipo de solução servirá também casais idosos e activos continuando nas habitações onde criaram os filhos e onde, posteriormente, terão espaços adequados às numerosas actividades a que se dedicam em casa. (10)
Mas salienta-se que a relação entre espaços interiores e exteriores de uma dada habitação é algo que deve merecer uma redobrada e contínua atenção, devendo existir, sempre, uma possibilidade, nem que seja mínima, de “estar lá fora”, mas “em casa”; possibilidade esta que deverá, em muitas situações ser “exponencialmente” dilatada a uma possibilidade de “viver lá fora” grande parte do tempo, realizando inúmeras atividades.  

Espaços e serviços domésticos comuns

Vale a pena salientar que se considera muito adequada a associação entre os estúdios e as pequenas habitações e um potencial e diversificado leque de espaços e serviços comuns; condição esta que naturalmente será menos interessante no caso das grandes habitações, ou, especificamente, das habitações com um elevado número de quartos (ex., acima do T3).
No entanto a ideia que se julga mais adequada é que deverá haver, cada vez mais, uma maior possibilidade de escolha das soluções de habitar, quer em termos de carácter tipológico geral, quer em termos de espaços domésticos e comuns disponíveis, quer em termos de serviços domésticos, e outros, disponibilizados ou facilitados; e depois poderemos escolher o que preferimos.

Serviços comuns e domiciliários e equipamentos coletivos de proximidade

De certa forma até é possível considerar a possibilidade de haver um desenvolvimento de serviços domiciliários com um amplo leque funcional e sedeados fora dos edifícios servidos, disponibilizando o seu apoio/serviço a diversas unidades habitacionais.
E um aspeto que aqui deve ser bem considerado é a vantagem que tem uma gestão autonomizada e bem equilibrada destes possíveis pequenos complexos de espaços e serviços comuns e/ou de apoio domiciliário; sendo aqui muito interessante a reflexão que há a fazer sobre a relação deste tipo de “complexos” com algumas das velhas e com novas valências de equipamentos coletivos com faceta residencial.
Em tudo isto há que referir que a potencial diversidade de oferta de espaços e serviços comuns e domiciliários pode a ajudar a diversificar e apurar o leque de opções domésticas e residenciais disponíveis, considerando-se esta matéria de grande interesse, face à grande diversificação dos modos de vida, e  ao evidente e significativo crescimento dos pequenos agregados familiares e das pessoas idosas vivendo sós e necessitando de diversos serviços de apoio.
E não podemos deixar de sublinhar que a Infohabitar integra um tema editorial específico dedicado ao que se designou como habitações colaborativas intergeracionais, ou habitações adaptáveis e intergeracionais promovidas, naturalmente, através de iniciativas cooperativas ligadas à habitação de interesse social; e este foco numa intergeracionalidade participativa é também um foco na grande diversidade de usos da habitação que devem ser proporcionados, básica e diretamente, pelos espaços domésticos e indiretamente pelo próprio e respetivo edifício habitacional e mesmo pela respetiva vizinhança próxima residencial.

Notas:

(1) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 356.
(2) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 86.
(3) Por exemplo dois quartos individuais, para duas pessoas que vivem juntas, mas cada uma com o seu espaço privado e independente ("LAT", "Living Apart Together") - Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 79.
(4) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.
(5) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.
(6) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 46.
(7) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.
(8) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.
(9) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.
(10) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.



Uma primeira versão, menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 473 da Infohabitar, em 23 de Fevereiro de 2014.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 733

Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional – Infohabitar # 733

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, junho 02, 2020

Sobre uma habitação mais adaptável – Infohabitar # 732


Em memória bem viva de José Paulo Goulart de Bettencourt



Infohabitar, Ano XVI, n.º 732

Sobre uma habitação mais adaptável – Infohabitar # 732

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Notas prévias:
Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,
Esperando que estejam todos de saúde e, novamente, com um muito especial abraço de força e de confiança no futuro aos muitos amigos e leitores desse grande País Irmão, que estão agora a atravessar uma fase complicada da epidemia.
Continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.
Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.
Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),
despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,
Lisboa, Encarnação, em 1 de junho de 2020
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


Sobre uma habitação mais adaptável – Infohabitar # 732

António Baptista Coelho


Continuando a apresentar e comentar reflexões de projectistas e estudiosos sobre aspetos considerados estruturantes nas opções de organização dos espaços domésticos, ficamos em seguida com Amos Rapoport e, depois, com Christopher Alexander, entre opiniões de outros autores, privilegiando-se uma perspetiva que tenta aprofundar a grande diversidade de soluções potencialmente disponibilizadas, que integram uma verdadeira dimensão de adaptabilidade habitacional, e que, assim, propiciam uma vida doméstica mais adequada, agradável e estimulante.

Habitação e modos de vida

Amos Rapoport evidencia três factores a ter em conta naquela que ele considera dever ser uma aproximação muito cuidadosa e funcionalmente “aberta” a uma solução doméstica que sirva, o melhor possível, determinados modos de vida familiares: (1)
A negrito/bold evidenciam-se as indicações de Rapoport e de outros autores.
·        o afastamento cultural existente e a "capacidade de comunicação" que possa ser criada entre habitante e projectista [capacidade esta que parece ser potenciada através da acção de certos promotores como é evidentemente o caso das cooperativas de habitação, que desde sempre consideraram a participação dos, e a boa informação aos, futuros habitantes como um processo essencial no acesso à habitação];
·        a significativa variedade de subculturas que estão, actualmente, em mutação rápida (designadamente, por desenraizamento cultural e imigração para as grandes cidades) [e aqui poderemos acrescentar que actualmente vivemos um período em que essa grande diversidade de modos e desejos de habitar ficou e ficará extremamente evidenciada];
·        e a existência, em cada grupo sociocultural, de muitos níveis de aculturação e mesmo de mutação sociocultural.

Diversidade no habitar – diversas soluções domésticas e de vizinhança

É ainda Rapoport que evidencia o que considera ser a principal medida de adequação entre habitação e família, ou entre habitação e características socioculturais, que é, para aquele estudioso, a oferta de uma ampla capacidade de escolha ao futuro morador, seja do tipo específico de habitação, seja do tipo geral de solução habitacional.
E se a escolha do tipo geral de habitação, designadamente, entre soluções uni e multifamiliares é bastante difícil, essencialmente por razões financeiras e de localização, então o “universo” das soluções multifamiliares poderia e deveria obviar a esta falta de diversidade de oferta, disponibilizando um amplo leque de formas de habitar com variedade de caraterísticas específicas e de relacionamento com o exterior; o que infelizmente não acontece.
Trata-se, portanto, de uma espécie de capacidade de adaptação prévia, por possibilidade de escolha e aqui importa comentar que o mercado, infelizmente, nem disponibiliza, habitualmente, variedade de soluções habitacionais de vizinhança e de formas de associação em edifícios, nem mesmo variedade de soluções domésticas, o que seria muito mais simples.
Mas, não! O mercado, por regra, oferece o mesmo “produto” do 1º ao 7º andar. Há excepções, começa a haver excepções, mas por ora elas pouco ultrapassam a barreira da produção dita de luxo, ou então da promoção de interesse social, quando bem qualificada e informada.

 

Habitação adaptável

Há que evidenciar aqui que as matérias da adaptabilidade doméstica são de extrema importância no sentido de uma maior apropriação da casa pelos seus habitantes e de favorecimento de soluções domésticas mais duráveis e adequáveis em termos de natural conversão funcional e de ambiente doméstico geral – por exemplo, uma casa que se transforme com facilidade de uma solução com um assinalável peso de áreas de quartos, para uma outra marcada por uma expressiva sequência de áreas de estar.
A adaptabilidade doméstica foi aprofundada, ainda não há muitos anos, num livro editado pela Livraria do LNEC, intitulado “Habitação evolutiva e adaptável” (ITA 9), e importa aqui referir que ela é fundamental:
  •  quer no sentido de se proporcionar aos moradores uma expressiva capacidade de apropriação do seu espaço doméstico;
  •  quer no sentido de se compatibilizar a organização da habitação e dos seus aspectos específicos de ordem construtiva, funcional (relações entre espaços), dimensional, ocupacional (capacidade de acolhimento de mobiliário) e ambiental (localização, dimensão e características de abertura de vãos exteriores).



Fig. 01: livro editado pela Livraria do LNEC, intitulado “Habitação evolutiva e adaptável” (ITA 9).

Habitação apropriável e habitação natural e agradavelmente mutante

A primeira perspectiva, acima referida, evidencia a importância que tem o potencial de capacidade de apropriação de uma habitação por parte de quem a habita. Trata-se, naturalmente, de um aspecto de enorme importância para o desenvolvimento da adequação habitacional e de um sentimento de verdadeira satisfação com o habitar, e tem expressão directa na possibilidade que a casa deve oferecer para o desenrolar de uma importante dinâmica de mudança periódica nos arranjos domésticos:
  •  seja por conversões funcionais e de mobiliário, mais frequentes, simples e passivas (simples mudanças nas disposições de conjuntos de mobiliário e outros elementos de composição e decoração);
  •  seja por conversões funcionais e de mobiliário associadas a eventuais junções e subdivisões de compartimentos.
Um exemplo extremo deste tipo de solução é dado por Sven Thiberg (Sven Thiberg, Ed., "Housing Research and Design in Sweden", p. 139), quando se refere ao compartimento tradicional da casa japonesa, que muda, funcionalmente, através de mudanças de peças de mobiliário muito simples; e,  mesmo na nossa cultura, bastará recuarmos à Idade Média para encontrarmos soluções semelhantes.

E há que sublinhar que a referida dinâmica de mudança periódica nos arranjos domésticos obriga a uma organização e a um dimensionamento muito cuidados dos espaços domésticos e a uma espaciosidade razoável porque seja ou claramente acima dos mínimos regulamentares, ou próxima de tais mínimos mas compensada por uma excelente solução de organização e configuração domésticas – um excelente projecto de Arquitectura, portanto.




Fig. 02: o atual espaço de trabalho do autor destas linhas, que resultou do aproveitamento de uma velha mesa de jogo, arrumada num canto de um compartimento razoavelmente espaçoso e bem localizado na contiguidade de uma varanda; a relativa exiguidade do espaço é em boa parte compensada pela sua excelente localização em termos de conforto ambiental (luz natural, ventilação natural, boa orientação solar a Sul, contiguidade com o exterior privado.
Neste “recanto” doméstico é possível conciliar um razoável leque de atividades de trabalho e de lazer (ex., leitura e audição de música), criando-se condições adequadas para a privacidade e um membro da família e para as suas necessidades de relativo isolamento (trabalho, lazer); condições estas que podem ser replicadas em outros compartimentos da habitação para outros membros do agregado, com excelentes resultados em termos de adequação ao trabalho individual e a gostos específicos de vivência doméstica e, reservando-se, assim, naturalmente, os espaços domésticos mais sociabilizantes para o convívio doméstico.
E tudo isto mediante pequenos, mas muito judiciosos, incrementos às áreas e, muito especialmente, às dimensões domésticas consideradas mínimas, excelentes previsões em termos das diversas dimensões do conforto ambiental doméstico e, naturalmente, um excelente projecto de Arquitectura, que estrutura e organiza a habitação de um modo claramente e “passivamente” adaptável a essas diversas apropriações e atividades.
O projecto de Arquitectura deste edifício multifamiliar é dos anos de 1960, com autoria dos arquitectos Artur Pires Martins e Cândido Palma de Melo.

 Junção e subdividão de compartimentos

A segunda perspectiva, acima referida, as conversões funcionais e de mobiliário associadas a eventuais junções e subdivisões de compartimentos, tem tem idênticas influências na capacidade de apropriação e de identidade que a habitação deve oferecer e liga-se:
·         Quer à evolução da família que aí resida (crescimento e decrescimento);
·         Quer à mudança nas necessidades e nos gostos domésticos; por exemplo, à medida que a família original envelhece e cresce haverá mais necessidade de mais espaço de circulação e de desafogo funcional e, eventualmente, um maior gosto numa especialização de zonas de estar.
·         E esta perspectiva de junção e subdividão de compartimentos é servida:
·         quer por simples aspetos de pormenorização, extremamente fáceis de prever, como é o caso da distribuição estratégica de tomadas de telecomunicações ao longo da casa, proporcionando variadas utilizações e versáteis mudanças de usos dos mesmos compartimentos;
·         quer por aspectos estruturantes na organização da habitação, mas que podem proporcionar uma sua riquíssima versatilidade de uso, como é caso de uma parte do espaço doméstico poder ser usado como espaço total ou relativamente autónomo, desde que disponha, ou possa vir a dispor, sem obras significativas, de acesso próprio e de instalações mínimas de cozinha e sanitárias.(2)
  

Adaptabilidade doméstica e adequação a modos de vida

A adaptabilidade da habitação a diversos modos de vida, caracterizando diversos tipos de agregados familiares e, até, diversas apropriações funcionais específicas, é, cada vez mais, um aspecto fundamental a considerar na concepção dos espaços domésticos, pois assim se podem servir melhor um leque crescente de modos de vida e de usos da habitação, que decorre, tal como sintetizei num anterior livro editado pela livraria do LNEC (“Do bairro e da vizinhança à habitação” – ITA 2):
  • de uma diversidade de horários de trabalho;
  • da ausência, frequente, dos habitantes no seu domicílio, durante os dias úteis;
  • de um nível gradualmente mais elevado de acesso à cultura e à informação;
  • da mobilidade dos agregados implicada por uma tendência, provavelmente crescente, de mobilidade nos postos de trabalho;
  • da recuperação do uso da casa, também, como sítio de trabalho(s);
  • do crescente uso da casa como sítio privilegiado de exercício de actividades de lazer e de “segundas actividades”, tendencialmente cada vez mais numerosas, temporalmente cada vez mais prolongadas e frequentemente bastantes exigentes em termos de condições específicas de concretização;
  • e da tendência fortemente crescente de existência de modos de vida e de tipos de agregados familiares socioculturalmente diferenciados, e aos quais é essencial proporcionar respostas domésticas expressivamente adequadas, seja diretamente, seja através de fáceis condições de conversão – construtivamente simples e baratas e bem adequadas nos respetivos aspetos de manutenção.
Naturalmente que todo este tipo de previsões, quando associado a habitações destinadas a grupos sociais com reduzidas e médias condições económicas não pode implicar uma inflação de espaços específicos e uma exagerada previsão dimensional, sendo, portanto, vital que a habitação incorpore excelentes condições de adaptabilidade passiva e de convertibilidade; condições estas que devem merecer uma especial atenção em termos de segurança estrutural do edifício sempre que estejam associadas à ligação entre compartimentos, sendo muito recomendável uma evidenciada marcação e informação dos elementos construtivos que não podem ser intervencionados.

Notas:
(1) Amos Rapoport, "Housing Ecology", p. 149.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 637.


Uma primeira versão, menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 472 da Infohabitar, em 17 de Fevereiro de 2014.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 732

Sobre a importância da diversidade na organização habitacional – Infohabitar # 732

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).