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terça-feira, junho 11, 2019

690 - Pormenorização habitacional e qualidade arquitectónica - Infohabitar 690

Infohabitar, Ano XV, n.º 690                      

Reflexão geral sobre a relação entre a pormenorização habitacional e a qualidade arquitectónica do interior doméstico – Infohabitar 690

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Em seguida, serão brevemente abordados alguns aspectos particularizados de relação entre a qualidade arquitectónica, incluindo naturalmente a satisfação habitacional e o desenvolvimento de determinadas soluções de pormenorização dos espaços domésticos, considerando-se, com especial enfoque, as matérias ligadas à apropriação desses espaços. 


Algumas notas gerais sobre a pormenorização habitacional

A pormenorização exterior e interior tem escalas físicas próprias e características específicas, relacionadas com a distância a que os aspectos de pormenor são mais frequentemente vistos e com os períodos de tempo, mais ou menos longos, em que decorre habitualmente a sua visualização.

Destaca-se ainda que o desenvolvimento de certos elementos de grande pormenor, basicamente funcionais, como é o caso dos "rodapés", sancas a meia altura (muito úteis para a protecção das paredes em que se apliquem), lambris e sancas altas pode privilegiar diversas características tais como: formalidade, informalidade, tradicionalismo, modernidade, funcionalidade extrema, representatividade, etc.
Robert Stern, nos seus projectos habitacionais, oferece-nos um amplo conjunto de motivos e aspectos a desenvolver em termos de pormenorização, salientando-se, os seguintes (apurados em diversos documentos e livros sobre a obra desse Arquitecto):

- Elementos de "design gráfico", traçados nas fachadas através de perfis, cujos dimensionamentos devem considerar a escala própria de cada edifício.

- Contrastes de cor para salientar certos planos de parede, que podem ser usados quase como moldura geral integradora dos diversos elementos que aí existam ou que aí sejam colocados.

- Aproveitamento formal/funcional de certos equipamentos domésticos, como é o caso das bancadas e armários de cozinha, privilegiando-se diversas características tais como: formalidade, informalidade, tradicionalismo, modernidade, funcionalidade extrema, representatividade.

E o Arquitecto Charles Moore em um dos seus principais trabalhos teóricos (“The Place of Houses, com Gerald Allen e Donlyn Lyndon), faz mesmo depender boa parte do “partido” projectual do interior doméstico de um conjunto de relações entre os respectivos espaços da habitação e os “seus” elementos de equipamento e de instalações, numa opção muito interessante, em que, de certa forma, a pormenorização doméstica “sobe de escala” e se torna elemento estruturador da organização e caracterização domésticas.


Fig. 01: uma biblioteca doméstica caracterizadora.


Pormenorização bem integrada no projecto global

Naturalmente que defender uma pormenorização bem integrada no projecto global não deixa de ser um “lugar comum” ou uma situação que, desejavelmente, existe e está bem sucedida, ou, não existe ou está mal conseguida. No entanto faz-se aqui esta referência essencialmente por se considerar que a caracterização de uma dada solução interior doméstica depende, significativamente, da adequação e harmonização da respectiva pormenorização em relação com o respectivo projecto global e tudo o que se faça para defender, manter e reforçar tal harmonização é essencial numa consolidada caracterização da respectiva solução global, caracterização esta que tem e terá, cada vez mais, expressivas dimensões financeiras, associadas ao valor específico de uma solução doméstica globalmente cuidada, mantida, e valorizada, a partir de uma solução “histórica” que terá, naturalmente, de ter sido marcada pela qualidade projectual.

Estamos, felizmente e finalmente, aqui, em Portugal, a chegar a uma altura em que a defesa, adequada manutenção e mesmo recuperação cuidadosa de um conjunto de espaços domésticos pormenorizados e caracterizados por uma adequada e positiva solução arquitectónica original, começa a “pagar”, não só pela genuinidade dos espaços e ambientes de pormenor assim proporcionados, mas também pela valorização financeira desta opção.     


Pormenorização funcional que não esqueça o ambiente doméstico

Defender uma pormenorização funcional que não esqueça o ambiente doméstico, ou, por outras palavras, a construção/proposta “básica” de um conjunto de “cenários” estimulantemente marcados por variadas qualidades, entre as quais poderemos destacar, por exemplo, a expressão da escala humana, o sentido de  envolvência, o enquadramento paisagístico, a afectividade e mesmo o “calor” certos tipos de acabamentos, a  estimulante mas regrada fluidez entre os diversos tipos de espaços, etc., etc., é uma opção, ou “um partido”, que fará, sem dúvida, opor opiniões muito calorosas/marcadas.

Mas, no entanto, se nos lembrarmos de ambientes muito marcados por uma funcionalidade “rígida”, “fria” e minimalista, sendo estes ambientes de habitação – e dá vontade de dizer que isto vai bem para lá da habitação –, não parece ser excessivo criticar o aplicar deste tipo de soluções, a não ser quando a apropriação por parte de quem aí habite/more não seja expectável/desejável; e mesmo assim não tenho qualquer dúvida de qual é a minha opinião pessoal sobre tais tipos de ambientes, talvez montados mais para serem fotografados do que para serem vividos, mas esta é uma opinião pessoal.


Fig. 02: um "excesso" de apropriação ?...


Pormenorização doméstica que não esqueça a dimensão da apropriação

E aqui estamos numa temática ligada a uma pormenorização doméstica que não esqueça a dimensão da apropriação, essencialmente, no que se refere à capacidade de se poder mobilar adequada, extensa e diversificadamente os diversos espaços da habitação, mas também no que se refere à disponibilização de panos de parede amplos e bem iluminados, que sejam excelentes para se “povoarem” com variados tipos de arte (gravuras, quadros, pratos de cerâmica, pequenas esculturas) e que estejam mesmo a pedir a sua cuidada renovação através de novas cores escolhidas pelos moradores.

E não tenhamos dúvida de que há muitas habitações em que praticamente não há panos de parede adequados em quantidade e em dimensão para este tipo de intervenção e apropriação pelos moradores.

E a apropriação, baseada na pormenorização doméstica, pode ainda basear-se em outros tipos de soluções, como, por exemplo, varandas fundas e variadamente mobiláveis, espaços próprios para a instalação de vasos e de floreiras e “simples” paredes espessas, cujos peitoris e soleiras acolham os mais variados elementos de apropriação e identidade pessoal e doméstica.


Pormenorização que não esqueça a facilidade de manutenção e o apoio à durabilidade

Naturalmente que uma adequada e sustentada pormenorização doméstica não deve esquecer  a facilidade de manutenção corrente desses espaços, equipamentos e instalações, bem como o facilitar das operações que influenciam, positivamente, a sua respectiva durabilidade.

E nesta perspectiva é perfeitamente válida a proposta de soluções que podem “arriscar” a consensualidade da respectiva vista e apropriação por diversas “famílias” de moradores, em favor da expressiva facilitação de tais operações de manutenção e de intervenção ocasional, como será o caso da aplicação de canalizações visíveis e/ou de espaços “de serviço” onde passam partes significativas das instalações.

Mas também, aqui, é essencial ponderar bem as opções escolhidas em termos de manutenção corrente ao longo de um significativo período temporal, não se sacrificando, por exemplo, esse prolongamento de um estado adequado de utilização com manutenção simples, em favor de uma aparência inicial extremamente apelativa, mas que, a médio prazo, se revela problemática, designadamente, pela dificuldade de intervenção para reposição num estado adequado.


Soluções pormenorizadas formalmente neutrais 

Um aspecto importante a considerar na pormenorização do interior doméstico é que as soluções tenham uma caracterização depurada e formalmente neutral, harmonizável com um amplo leque de soluções/”partidos” de mobiliário e de decoração.

Esta é mais uma daquelas afirmações “óbvias”, mas que, frequentemente, se vê posta em causas através de opções de pormenor (ex., rodapés, pavimentos e portas interiores) que “jogam” apenas com famílias de mobiliário e mesmo até com cromatismos interiores específicos.


Cores e texturas “naturais”

Uma velha solução que, quase sempre, permite a harmonização entre a pormenorização do interior doméstico associada ao respectivo projecto de arquitectura e a intervenção dos moradores é a utilização extensa e razoavelmente expressiva de cores de texturas “naturais”, associadas a uma pormenorização formalmente racionalizada e depurada, designadamente, nos seus aspectos de menor escala, não existindo “forma a mais” e estando boa parte da forma existente bem justiçada em termos funcionais ligados ao uso directo e/ou a aspectos de facilidade de manutenção.


“Mobília” encastrada

As  soluções de mobiliário ou "imobiliário" encastrado ou embebido sempre foram muito estimadas pela Arquitectura de interiores pois estão ligadas a uma opção de desenho inicial muito completo do respectivo espaço doméstico, estando frequentemente associadas, seja ao estudo de soluções habitacionais ditas mínimas, seja a uma forte adequação entre espaços domésticos dimensionalmente controlados e um seu conteúdo de mobiliário cuja escala, bem contida, não ponha em risco uma ocupação doméstica com algum desafogo.

Acontece, no entanto, que um uso mais extenso deste tipo de mobiliário encastrado, pode fazer arriscar a capacidade de apropriação dos respectivos espaços domésticos e exige muito da respectiva capacidade de projecto de pormenor, tal como foi acima apontado e de forma a não “brigar” com a referida apropriação pelos moradores;  uma capacidade que, frequentemente, se joga em termos do respectivo potencial de “camuflagem” e/ou de profunda integração na estrutura global dos respectivos espaços arquitectónicos, , designadamente, em termos de introdução de mobiliário. 


Floreiras

As floreiras foram sempre parentes-pobres da concepção residencial, seja porque não cabiam num excessivamente depurado vocabulário modernista, seja porque ocupavam espaço precioso nas promoções privadas e de interesse social, seja porque sempre estiveram associadas a problemas de impermeabilização.

Na realidade, no entanto, as floreiras e/ou o espaço para a introdução de floreiras e vasos para plantas constituem interessantes elementos que tinham lugar cativo na arquitectura tradicional e que têm até lugar protagonista em algumas das melhores soluções domésticas modernistas.

E naturalmente, e tal como foi já aqui repetido, floreiras e espaços para vasos são elementos muito importantes do vocabulário de uma habitação e de um edifício habitacional positivamente apropriado pelos seus habitantes.

Inovação na introdução de instalações

A introdução de elementos associados a instalações domésticas, como por exemplo, pequenos lavatórios, banheiras, pequenas bancadas de apoio à preparação de bebidas e pequenas refeições e grelhadores com chaminés de evacuação de fumos, fora dos espaços domésticos onde habitualmente tais elementos são instalados, é uma opção adequada à inovação que se defende para os espaços domésticos.

No entanto uma tal opção tem de estar devidamente acautelada em termos das condições de segurança, conforto ambiental, sanidade, manutenção, durabilidade e privacidade aplicáveis.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 690

Reflexão geral sobre a relação entre a pormenorização habitacional e a qualidade arquitectónica do interior doméstico – Infohabitar 690


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil, em Lisboa



Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

segunda-feira, março 19, 2018

635 - Pequenos grandes mundos do pormenor doméstico - Infohabitar 635


Infohabitar, Ano XIV, n.º 635



Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CVIII

Pequenos grandes mundos do pormenor doméstico

por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Sobre o mundo do detalhe doméstico

O que aqui se irá comentar, em seguida, sobre o detalhe doméstico refere-se, essencialmente, a matérias suplementares, ou melhor dito, paralelas, às directamente associadas aos espaços da habitação,  globalmente bem distintas dos aspectos funcionais domésticos, que se considera terem sido já amplamente visados em diversos estudos, e privilegiando determinadas notas associadas ás opções de Arquitectura interior e ao seu diálogo com os habitantes, sempre ao serviço das opções gerais de adequação, adaptação/versatilidade e apropriação/identificação, que se considera serem objectivos fundamentais a redescobrir nas soluções domésticas.

Os mundos do pormenor doméstico

Pela sua importância serão primeiro abordados os aspectos ligados à criação de vários tipos de "lugares" ou "sítios" domésticos específicos, quase sempre, não coincidentes com determinados compartimentos ou espaços da habitação.
Em próximos artigos desta série serão abordados, com o mercido desenvolvimento, os vãos exteriores, considerando-se a sua enorme importância na qualidade arquitectónica e vivencial habitacional, seguindo-se os diversos aspectos que apoiam na criação de “sítios” domésticos muito específicos, depois os aspectos cruciais e por vezes insuspeitados do cromatismo residencial, em seguida, os aspectos de maior pormenor ligados à arrumação doméstica, depois, algumas pontes de ligação com a construção, os equipamentos e as instalações e, finalmente, uma abordagem complementar e sempre necessariamente "em aberto" de outros aspectos de pormenorização, que, conjuntamente com aqueles aspectos e em grande integração com espaços domésticos considerados como bem desenvolvidos.
Todos estes elementos constituintes do espaço habitacional privado são protagonistas na construção de um estimulante mundo de interioridade doméstica, marcado pela apropriação, pelo bem-estar, pela identidade pessoal e familiar, e por um "sentido doméstico" ou de verdadeira "concha", tal como tão bem referiu Amália Rodrigues, que não é fácil de desenvolver mas que tem enorme importância na felicidade que podemos gozar na nossa habitação.
De certa forma parece haver elementos que, apondo-se, caracterizando e marcando os espaços domésticos, ao nível do pormenor, são muito importantes para fazer passar o nível de satisfação doméstica de um patamar meramente adequado/funcional para um outro patamar que é em boa parte responsável pelas tais casas felizes e que nos ajudam a ser felizes.
Sob este tema iremos aqui paulatinamente considerando, essencialmente, aspectos de arquitectura de interior, associados ao desenvolvimento de: paredes; pavimentos; vãos de porta; guardas, parapeitos e peitoris; isolamentos; equipamentos; instalações; bay-windows e outros "lugares-janela"; floreiras; mobília encastrada; e outros pormenores.
E a ideia é apontar, aqui, aspectos de pormenor que mais fácil e naturalmente proporcionam ambientes domésticos estimulantes, e não realizar uma abordagem sistemática de todos os elementos que aqui podem ser previstos.


Calma no uso pormenorizado da habitação

Toda esta faceta de abordagem à qualidade habitacional depende da possibilidade de haver alguma calma na apropriação da habitação pelos seus habitantes, uma calma que fica evidenciada no seguinte texto, que foi escrito algumas semanas após uma mudança de casa.
"Fim de tarde. Sentado no sofá  de canto, por trás da mesa de abas, leio, finalmente o jornal matinal. Um lugar preferido, os meus filhos definiram outros sítios de preferência mais na ponta do sofá  grande ou no cadeirão estofado, a Isabel sente-se melhor no maple repousando os braços e gozando, também, a luz quente e baixa do cavalo/candeeiro em ferro forjado. Os sítios da casa vão, gradualmente, tendo nomes e chamando por certos usos, mas é preciso dar um certo tempo redondo para que a nova casa nos reconheça e para que nós também a possamos conhecer."
E uma calma no uso intenso da casa que estará, sempre e naturalmente, ligada a algum desafogo espacial, ou a um desafogo pelo menos mínimo no usufruto doméstico, que tem a ver não apenas com o respectivo espaço interior, mas também com adequadas condições de relação com o exterior (bons vãos de janela), de conforto ambiental (boa luz natural e bom isolamento térmico e sonoro) e de possibilidade de uso do próprio exterior contíguo; estando este, pelo menos, minimamente composto, equipado e limpo, e sendo o exterior, pelo menos, minimamente motivador do seu próprio uso, e aqui podemos citar Alain Sarfati, quando este  explicita o prazer que espera oferecer aos habitantes propondo percursos embebidos no habitat: “o convite à descoberta, à exploração exprime-se no atravessar de diferentes passagens, ligações, escadas, galerias, áleas e caminhos”. (1)

Vários tipos de "lugares" ou "sítios" domésticos específicos

Tal como refere o arquitecto Herman Hertzberger, nas suas Lições de Arquitectura (2), citando Aldo van Eyck, é fundamental fazer “de cada casa e de cada cidade uma porção de lugares, pois uma casa é uma cidade em miniatura e uma cidade é uma casa enorme”; e como se partilha inteiramente esta ideia, de uma casa, uma habitação, serem verdadeiras cidades “em miniatura”; a casa tem de ser realmente uma porção de lugares, mutuamente bem integrados, mas individual e positivamente caracterizados, porque úteis, mas também carregados de sentido doméstico.
E não tenhamos dúvidas de que este mosaico de sítios/lugares constituintes de uma habitação não se esgota nos respectivos espaços e compartimentos, tem de ter uma "célula" mais fina, naturalmente mais fácil de concretizar em grandes habitações, mas que tem, obrigatoriamente de se verificar até nas habitações mínimas, e podemos mesmo dizer que nestas habitações tal qualidade de "grão fino", composto por pequenos lugares domésticos, é fundamental até, também, para suavizar e se tornar muito mais aceitável até a eventual escassez espacial.
Por estas razões iremos, em próximos artigos desta série editorial, numa viagem informal e de "sentido aberto" ou dinâmico por alguns dos sítios/lugares domésticos que nos fazem parar para pensar, para sentar e para olhar, quando visitamos uma habitação que vale a pena; pois nas outras um relance rápido chega!
E há, ainda, que sublinhar ser possível "montar" uma habitação "funcionalmente mínima", porque composta por poucos espaços e compartimentos principais e correntes - como quartos e corredores -, através de um amplo espaço multifuncional, caracterizado por excelentes condições de conforto ambiental, pormenorização e durabilidade, em que as diversas funções domésticas se associem muito mais a lugares/sítios dimensionalmente reduzidos e pouco ou nada compartimentados, do que a espaços e compartimentos "clássicos"; e sublinha-se o interesse que esta perspectiva de desenvolvimento doméstico tem quando pensamos no habitar privado de pessoas sós, casais e eventualmente pessoas idosas que optem por este tipo de habitar.
Esta associação entre habitações pouco compartimentadas e integradas por variados lugares/sítios  e o habitar privado de pessoas sós ou casais, prende-se ao desenvolvimento da habitação como uma verdadeira segunda pele, que sirva o modo como gostamos de viver/habitar e que sirva e evidencie, naturalmente, a nossa identidade, sendo aqui exemplificada, nas palavras de José Pacheco Pereira (2005), sobre a casa/sala/biblioteca, bem viva e caracterizada, onde vivia Eugénio Andrade:
“Uma sala coberta de livros, ao mesmo tempo sala de ler, escrever, de comer, com uma cozinha incrustada, … o quarto, com janela para a Duque de Palmela, uma rua silenciosa quase sem trânsito, numa parte do Porto perdida do centro, mesmo estando perto do centro... Um desenho de Jean Cocteau no corredor… Esta foi sempre a sua verdadeira casa.” (3)
E, já agora, o grande Jorge Luís Borges,  também tinha uma sala com uma grande mesa onde tudo acontecia - vida, trabalho e convívio - tal como salientou Raúl Hestnes Ferreira, na 4.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar. (4)

Notas:
(1) Monique Eleb e Anne Marie Chatelet, “Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui”, p. 239
(2) Herman Hertzberger, Lições de Arquitetura, São Paulo, Martins Fontes, 1996 (1991),p.193.
(3) José Pacheco Pereira, “Rua Duque de Palmela 111 (Eugénio de Andrade); «Uma sala coberta de livros…»”, Abrupto, Early Morning Blogs n.º 520, 17-06-2005, http://abrupto.blogspot.com/ 1045bqi e 269c
(4) 4ª Sessão Técnica do Grupo Habitar, em 22 de Janeiro de 2006 no Auditório da sede do INH em Lisboa.
Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 635

Pequenos grandes mundos do pormenor doméstico

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
abc@lnec.pt

Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


segunda-feira, agosto 05, 2013

449 - Os espaços antes das entradas comuns na habitação- Infohabitar 449


Infohabitar, Ano IX, n.º 449
Artigo XXXV da Série habitar e viver melhor
Os espaços antes das entradas comuns na habitação

António Baptista Coelho

Considerando a boa vivência do edifício multifamiliar vamos agora tratar, especificamente, de cada um dos seus principais espaços comuns, considerando não só como eles são e se espera que sejam, habitualmente, mas também imaginando como eles poderiam ser em termos de uma concepção arquitetónica que tire partido máximo do seu elevado potencial de funcionalidade, representatividade, identidade, apropriação e apoio ao convívio natural entre vizinhos e visitantes; e desde já se aponta que nesta reflexão será muito importante a tentativa de não esquecer soluções anteriormente usadas e os seus respetivos resultados em termos de satisfação residencial.
Sendo esta uma introdução que irá acompanhar, sistematicamente, as reflexões desenvolvidos sobre os vários espaços e principais equipamentos comuns dos edifícios multifamiliares, será tentada, sistematicamente, um afeiçoar das suas considerações ao espaço ou equipamento visado.
Relativamente à entrada comum no edifício multifamiliar ou num pólo de receção de um agregado de edifícios unifamiliares e aos respetivos espaços e elementos exteriores públicos ou comuns importa ter em conta um conjunto de aspetos que são, em seguida, informalmente apontados.
É importante que uma entrada comum nos dê as boas vindas, através de um arranjo agradável e envolvente, que nos abrigue da chuva e do sol excessivo, que se caracterize por aspectos que não se encontram em outras entradas comuns, é a entrada que todos desejamos.
O espaço que antecipa a entrada pode ter um conteúdo essencialmente funcional, ligado ao apoio à entrada, em termos de contato com as habitações, proteção das intempéries, apoio ao serviço de correio, e apoio ao próprio processo de entrada (ex., uso de chaves, pousar volumes); mas pode e deve ter, paralelamente, uma “utilidade” evidenciada em termos de identificação do edifício, expressão da sua imagem pública no sentido de alguma “explicação” do seu funcionamento geral e clarificação da sua relação funcional com a envolvente pública ou comum directa (espaço comum eventualmente existente, relação com a respetiva rua ou a praceta, articulação com as respetivas soluções de estacionamento automóvel, etc.).


Fig. 01: o Edifício na Carvalhosa, Porto, Arqs Arménio Losa e Cassiano Barbosa.

E nesta perspetiva essencialmente funcional  o espaço “antes da porta de entrada” deverá ser caraterizado por adequadas condições de acessibilidade – no apoio a condicionados na mobilidade, mas também no apoio a transportes volumosos e pesados (ex., rampas, pavimentos aderentes, etc.) –, de iluminação artificial devidamente consideradas em termos de estratégia de iluminação (ex., célula fotoelétrica que liga a luz quando está escuro, ou de acordo com um dado relógio), e de visibilidade de segurança sobre a envolvente próxima e em “meia distância”, proporcionando-se, assim, seja uma entrada segura e calma no edifício, seja idênticas condições quando da saída do mesmo.
Naturalmente que, em muitas regiões do mundo, há ainda que ter em conta especificamente as condições de vedação, de controlo do acesso e mesmo de vigilância da circulação na contiguidade do edifício, uma condição que aqui se considera ser “paralela” às restantes ou delas razoavelmente independente, até porque quando as condições de segurança pública são adequadas este cuidado não fará especial sentido, sendo mesmo negativo em termos dos seus reflexos da urbanidade e da agradabilidade de uso nos espaços públicos contíguos.
Mas estas condições essencialmente funcionais não esgotam, naturalmente, a reflexão sobre “o espaço antes da porta de entrada” no edifício multifamiliar ou numa afirmada agregação de edifícios unifamiliares havendo aspetos de integração urbana pormenorizada e de vizinhança, identidade e representatividade que importa abordar, sob diversas facetas; uma forma estratégica de considerar um texto que se pretende seja útil a quem concebe arquitetura residencial.
Devemos assim refletir sobre uma outra matéria, de cariz mais pessoal, mas igualmente importante para o objectivo de um habitar amplamente mais satisfatório. Tal matéria refere-se a que a entrada do edifício constitui, provavelmente, para muitos de nós, uma etapa fundamental na sequência de espaços urbanos e domésticos que habitamos todos os dias e, sobre este aspecto, lembramos Rob Krier quando este escreve que “no caminho da rua para o interior do edifício passamos por gradações do que podemos designar como «o público». Imediatamente, a posição da entrada e a importância arquitectónica que lhe é atribuída exprimem o papel e a função do Edifício..." (1)



Fig. 02: o Bloco das Águas Livres, Lisboa: Arqs Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu Costa Cabral.

E na relativa ausência de estudos que fundamentem a afirmação da importância da entrada comum, cabe aqui chamar a atenção para a necessidade de se dar muito mais atenção a este elemento de composição do espaço do habitar, havendo muito a aprender com tantos excelentes exemplos que aí estão para serem vistos, facilmente, ao longo das ruas de muitas cidades.
Nestas matérias Alexander defende (2) a criação de uma transição gradual entre a rua e a porta de entrada, transição esta que deve ser servida por aspectos específicos de iluminação natural e artificial, protecção acústica, sequências de níveis, limiares bem marcados e vistas sequenciais de penetração e saída, vistas estas que disponibilizem diversos tipos de visões fugazes, estratégicas, gerais, etc. E o mesmo autor sublinha, depois, a importância que tem a criação de uma entrada acolhedora, preenchida por elementos que propiciem sentimentos de "boas vindas", como assentos confortáveis, pontos de vista interessantes e úteis, tons de cor domésticos e até outros elementos habitualmente associados ao interior das nossas casas. (3)
Mas há ainda um outro aspecto a ter em conta nestas matérias, pois devemos ter bem presente que uma entrada de edifício bem concebida e atraente é também um elemento muito importante e qualificador para a vizinhança urbana em que se integra, e esta qualificação pode fazer-se, por exemplo, por uma afirmada sobriedade.
Não sendo este, especificamente, o tema que aqui nos move, importa reflectir que uma entrada que nos influencie positivamente, pelos seus aspectos formais e funcionais, será, provavelmente, uma entrada que assumirá, também, uma excelente presença e função urbanas. Mas, no entanto, tais aspectos de presença e de função urbanas poderão eles próprios ter reflexos específicos na concepção de entradas de edifícios e, tendo-os, e se os tiverem através de soluções que resultem realmente bem, então, poderemos considerar que haverá motivos complementares para que os habitantes desse edifício fiquem mais agradados com o “seu” edifício e a “sua” entrada, que, assim, naturalmente, é também uma entrada da cidade, pois pertença da cidade e das suas continuidades.



Fig.03: um bloco em banda nos Olivais Norte: Arqs Nuno Teotónio Pereira e António Pinto de Freitas.

No que se refere à relação entre entrada de edifício e espaço urbano de vizinhança salientam-se dois aspectos de concepção apontados por Alexander: (4)
·       A entrada deve ser visível quando nos aproximamos do edifício ou existir uma indicação clara e condigna da sua localização.
·       A entrada deve ser formalmente realçada, e considerando-se que a aproximação mais frequente é feita paralelamente ao edifício e, portanto, em ângulos de visão habitualmente muito apertados.

A entrada ou átrio comum deve ter, sempre, uma "contrapartida" exterior, pelo menos, parcialmente protegida das intempéries, zona esta que poderá, naturalmente, variar, entre um pequeno espaço coberto sob uma pala e um recinto específico e equipado.
Ainda nesta matéria da aproximação ao edifício e, naturalmente, das acções de partida do edifício, considera-se que os respectivos espaços exteriores deverão ser, sempre que possível, especificamente caracterizados e pormenorizados, apontando-se, em seguida, algumas opiniões de Dubuisson e La Salle nesta matéria: (5)
·       "As entradas consideradas como pontos fortes e partes privilegiadas de junção entre zonas habitacionais interiores e espaços exteriores, também cumprirão o princípio de continuidade. Serão concebidas como «crescimentos» facilitando os encontros entre os habitantes. Para esse efeito o espaço aberto exterior será definido por taludes ou muretes, dispondo-se bancos e vegetação."
·       "O tratamento do pavimento é um dos principais elementos da composição das entradas dos edifícios, afirmando a presença de um acontecimento ao mesmo tempo que define um local de encontro, ele materializa uma potencial penetração dos passeantes."
·       "A sinalética específica poderá exprimir-se de variados modos, através da denominação dos edifícios nos pavimentos exteriores que prolongam exteriormente as entradas e nas paredes verticais contíguas".


Fig. 04: Pormenor de uma das Torres Prémio Valmor nos Olivais Norte: Arqs Arqs Nuno Teotónio Pereira, António Pinto de Freitas e Nuno Portas.


Falta referir que o “espaço antes da porta de entrada” pode ser praticamente “nulo”, correspondendo a uma secção” não formalmente definida de um passeio – mas nesta caso tem de haver espaço funcional no passeio para as suas diversas funções – ou pode constituir como que um amplo pátio, mais ou menos ajardinado, com acesso por uma porta ou cancela específica e cujo uso seja reservado aos habitantes e visitantes do edifício, sendo a vista desta espaço perfeitamente aberta a partir do espaço público contíguo, ou sensível e cuidadosamente reservada dessa relação visual.
E entre tais extremos pode haver um amplo leque de situações intermediárias, entre as quais será sempre interessante a solução em que na vizinhança das entradas há espaços de uso público, bem equipados em termos de bancos para sentar e outro mobiliário urbano, elementos representativos seja da rua ou praceta públicas, seja dos “seus” diversos edifícios, verde urbano e iluminação artificial, proporcionando-se um aproximar naturalmente convivial à entrada mais íntima no edifício, como que um “piscar de olhos” à vivência públiva e comum e uma conjugação “suave” (gradual), mas firme, entre espaços públicos e espaços comuns de uso reservado.
E uma entrada e/ou “um espaço antes da entrada” com as caraterísticas aqui apontadas não implica um gasto especial de espaço e uma despesa fora do vulgar, implica, sim, um projecto do edificado e micro-urbano muito cuidado, e tanto mais cuidado quanto maior for a exigência de economia.
Notas bibliográficas:
(1) Rob Krier, "Elements of Architecture", p. 61.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 494 e 495.
(3) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 623 e 624.
(4) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 485 a 487.
(5) S. Dubuisson, X. De La Salle, in "Espaces Exterieurs Urbains, Rencontres du Centre de Recherche d'Urbanisme",  J. P. Muret (Coord.), p. 65.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


INFOHABITAR Ano IX, nº449 

Os espaços antes das entradas comuns na habitação 
Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
Edição de José Baptista Coelho
Grupo Habitar (GH) e LNEC - Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)

LNEC e Infohabitar - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte