Mostrar mensagens com a etiqueta melhoria da segurança. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta melhoria da segurança. Mostrar todas as mensagens

domingo, fevereiro 13, 2011

333 - Segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte II - Infohabitar 333

Infohabitar, Ano VII, n.º 333

Habitação e Arquitectura IX: a segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte II
António Baptista Coelho

NOTA IMPORTANTE: POR SE TRATAR DE UM ARTIGO COM CERCA DE 18 PÁGINAS FOI DIVIDIDO EM DUAS PARTES E EDITADO NA PASSADA SEMANA E NA PRESENTE EDIÇÃO DO INFOHABITAR, JUNTANDO-SE UM ÍNDICE PARA ORIENTAÇÃO: NO ÍNDICE A BOLD A PARTE DO ARTIGO EDITADA ESTA SEMANA.


Habitação e Arquitectura IX: a segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte II
Índice1 - Introdução à segurança arquitectónica residencial e urbana
2 - As duas faces da segurança arquitectónica residencial
3 - Aspectos estruturadores da segurança urbana e residencial
4- A segurança, do bairro/cidade, à vizinhança e à habitação
5 - Bases e estratégias da segurança arquitectónica e urbana
5.1 Bom urbanismo, gestão local e polícia de proximidade
5.2 A segurança arquitectónica residencial ao nível urbano: matéria de base da concepção
5.3 Segurança urbana para quem?
6 - A segurança nos espaços públicos (versus) a segurança nos espaços edificados
6.1 Segurança nos espaços públicos: acessibilidades e equipamentos
6.2 A segurança na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios 6.3 A segurança nos edifícios
6.4 A segurança nas habitações
7 - Carácter e importância específica da segurança
8 - Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a segurança arquitectónica residencial

Habitação e Arquitectura IX: a segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte II

6. A segurança nos espaços públicos (versus) a segurança nos espaços edificados
Tanto a segurança física e funcional, como a segurança relacional atravessam os diversos níveis físicos, ficando aquela última à porta dos edifícios, dos fogos e nas suas janelas, locais privilegiados para o natural acompanhamento das actividades exteriores; este parece ser o mais eficaz dispositivo arquitectónico, positivamente "passivo", inibidor de insegurança, relacionando-se, fortemente com adequadas e estratégicas relações de acessibilidade.


6.1 Segurança nos espaços públicos: acessibilidades e equipamentos
Espaços confinados, relações mútuas de visibilidade, animação urbana estratégica, números equilibrados de vizinhos, usos reais nos espaços públicos e uma paisagem nocturna bem estruturada são aspectos que, ligados aos mais inteiramente físicos do equilíbrio entre peões e veículos e de uma verdadeira adequação funcional de percursos e estadias, contribuem para o sossego e a harmonia vicinal e urbana (ao nível das vizinhanças de proximidade e dos próprios edifícios).

Quanto às questões da relação entre segurança e acessibilidade, há que sublinhar que as matérias de insegurança urbana também se ligam a uma certa nova velocidade de vivência da cidade pouco humana e tantas vezes perigosa, que tornou o espaço público citadino muito pouco acolhedor para o peão, cujo espaço tem recuado frente ao do veículo, perdendo-se parte das funções de estadia e de diversas actividades antes aí desempenhadas. E nestas matérias da acessibilidade há que salientar as situações gravíssimas em que vizinhanças e mesmo pequenos bairros estão isolados fisicamente da cidade e, além disto, estão extremamente mal servidos de transportes públicos, criando-se um isolamento crítico, que além de aspecto essencial na ausência de qualidade no habitar, é também factor directo de desenvolvimento da insegurança urbana nesses locais e respectivas envolventes.

Nestas matérias temos que saber que as lojas têm uma influência enorme na segurança, são dos principais agentes de segurança quase com as funções da Polícia de Proximidade, mas aqui o problema é que os PDM obrigam por vezes a um excesso de lojas nos pisos térreos dos edifícios, e depois ficamos, frequentemente, com espaços vazios infindáveis e inseguros, e depois as poucas lojas existentes acabam por fechar devido á insegurança, e consequentemente as respectivas zonas e ruas ficam mais inseguras. Matéria esta que deve ser investida rapidamente, possibilitando-se e regulamentando-se a conversão de lojas em habitações e de habitações em lojas e outros equipamentos; e isto não é nada de novo, são coisas que se fazem no resto da Europa, e já se fez por cá em diversos bairros.

O que aqui se apontou para as lojas, em termos do seu papel de enquadramento e acompanhamento da vida nos espaços públicos, tornando-os mais seguros, deve ser aplicado em todas as previsões de outros equipamentos colectivos, acabando-se, de vez, com a sua previsão segregada, quando não "autista" e até prejudicial para a continuidade urbana, e considerando-os, duplamente, quer como unidades que garantam os respectivos seviços, quer como actores protagonistas na estruturação e vitalização dos espaços públicos e das continuidades urbanas dos seus sítios de implantação, tornando-se, assim, pólos estratégicos da segurança urbana local.





Fig. 07: segurança urbana em vizinhanças bem configuradas e com visibilidade a partir das habitações: um projecto de Carla Baptista e Freddy Ferreira César no Amparo, Funchal.

6.2 A segurança na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifíciosOs espaços públicos contíguos aos edifícios são zonas estratégicas, cujas configurações e cuidados de visibilidade mútua e a partir dos edifícios podem determinar condições de segurança fulcrais para uma intensa fruição do exterior, fruição esta que é, por sua vez, factor suplementar de segurança.

Um aspecto importantíssimo é a questão da altura dos edifícios. Uma pessoa a partir do 5º, ou 6º andar, isola-se do que se passa no espaço público, é como se este deixasse de existir para ela, porque deixa de haver uma relação directa, deixa de haver a relação da voz, deixa de haver a possibilidade de a pessoa falar com alguém, na rua, a partir da sua janela.

Importa ainda referir a barreira crítica que os edifícios altos e/ou com extensos e, por vezes, confusos espaços comuns, constituem, frequentemente, para o uso do espaço público por crianças e idosos, que, tal como se referiu atrás, são os principais vitalizadores do espaço público e que acabam por ficar tantas vezes encarcerados em suas casas; e, no caso dos idosos, frequentemente, numa constante inquietação por poderem ser assaltados, isto quando se geram círculos viciosos de pouco uso e de insegurança no espaço público.

E temos de ter bem presente que os edifícios pertencem à rua, sendo que a rua, nas palavras do famoso arquitecto, e antigo responsável municipal de uma grande cidade brasileira, Jaime Lerner, continua a ser a melhor invenção do homem em termos de vivência da cidade, e, por outro lado, a arquitectura modernista, a boa arquitectura modernista, sem rua também funciona, pois assegura uma relação contínua entre edifícios e espaços exteriores naturalmente controlados, sem zonas mortas, sem zonas não visíveis, e assim tem-se segurança; ao contrário das situações em que o espaço existe por todo o lado, sem forma e sem relação com edifícios, e os espaços estão afastados uns dos outros, e não são atravessados nem usados, ou não são visíveis, e assim a situação de insegurança instala-se e cresce.

6.3 A segurança nos edifícios
Nos espaços edificados há todo um conjunto de preocupações de segurança, de ordem física e/ou funcional, algumas regulamentadas, que visam a ausência de acidentes e sinistros com consequências graves (ex. incêndios, quedas de altura, escorregamento, colisão com vidros, intoxicação com gás, queimaduras em fogões, etc.).

Nesta matéria há situações verdadeiramente inaceitáveis, exemplificadas por tantos casos de escadas forradas a revestimentos que molhados são perigosamente derrapantes, e ocorrências em que a sorte evitou o que poderiam ser desgraças, como no caso em que um vidro de segurança (julga-se) que integrava a guarda de uma varanda (e com cerca de 1,5m por 0,80m), foi arrancado pelo vento (julga-se) da respectiva guarda de varanda de um 3.º ou 4.º andar e acabou espetado, a cutelo, num relvado contíguo; uma situação presenciada pelo autor destas linhas e que é inconcebível.

Como se percebe nem todos os aspectos essenciais que deveriam velar pela nossa segurança residencial no uso corrente dos edifícios estão regulamentados e, por outro lado, há dúvidas básicas relativas à boa vivência arquitectónica dos espaços residenciais, que se podem colocar sobre alguns aspectos que estão regulamentados. Situação, que na nossa opinião, recomendaria uma revisão dos aspectos regulamentares ligados à segurança residencial no uso normal, tendo como objectivo a resolução dos aspectos ainda não cobertos e a eventual unificação e simplificação do corpo regulamentar existente.


Outra vertente da segurança no edificado liga-se à respectiva componente social e tem a ver, basicamente, com a espontânea familiaridade ou o anonimato que se pode gerar num dado edifício e na sua proximidade, designadamente, pelo número de fogos que ele contém (número de vizinhos), pelas características de acessibilidade, comunicabilidade exterior e socialização que se vivem nos seus espaços comuns (ex. escadas com vistas amplas sobre o espaço público, galerias amplas, etc.), e pela possibilidade de relação directa com o exterior, a partir das habitações e, eventualmente, de espaços comuns, por exemplo, através de uma acessibilidade alternativa que duplique os “pontos” de vitalização residencial do espaço público. Para não falar de idênticas funções asseguradas pelos equipamentos que estejam integrados nos pisos térreos dos edifícios.

A altura excessiva dos edifícios, já atrás referida, além de reduzir a escala humana da cidade, aumenta a descontinuidade urbana, pois os edifícios mais altos têm de estar mais afastados entre eles, havendo espaços públicos mais extensos, e reduz drasticamente a capacidade de interacção entre as habitações e o espaço público, abrindo-se caminho à insegurança urbana. E então quando pessoas que viviam precariamente em casas abarracadas de um único piso são realojadas nesses edifícios altos, estão a juntar-se os problemas apontados aos da inadequação com os antigos modos de vida, ligados à terra e à vizinhança; e o resultado será ainda agravado quando há fortes concentrações de pessoas dos mesmos grupos socioculturais.

6.4 A segurança nas habitações
Tal como já se apontou atrás, a segurança no uso normal dos espaços domésticos é matéria que está já devidamente tratada em guias técnicos estarngeiros e internacionais e que se encontra integrada em diversos manuais de apoio ao projecto residencial disponíveis entre nós, com natural destaque para diversas publicações da Livraria do LNEC e designadamente da sua Colecção Informação Técnica Arquitectura (ITA).

Por esta razão não desenvolvemos a temática, referindo apenas os itens de projecto que merecem cuidados acrescidos em termos de segurança no uso normal: portas e janelas, varandas e guardas, pavimentos, cozinhas e casas de banho (zonas húmidas e onde pode haver contacto com produtos tóxicos), escadas e rampas, outras diferenças de nível, equipamentos domésticos, instalações de gaz e eléctrica.

O bem-estar doméstico deve ser servido por uma espaciosidade e organização adequadas, que garantam a privacidade e a diversidade de apropriação no uso da habitação, e que tenham em conta a agradabilidade e a segurança de crianças, idosos e doentes, que são os mais exigentes em termos de condições de uso e de conforto.

Mas é possível aprofundar estes aspectos de segurança mesmo na dimensão doméstica, pois é um aspecto importante, por exemplo, para os habitantes mais sensíveis, como é o caso dos idosos e das crianças que por vezes estão sozinhas em casa, e nesta matéria e a título de exemplo significativo, sublinha-se que a existência de circulações domésticas claramente configuradas e bem estruturadas é, segundo Claude Lamure (1976) (3), um factor de melhoria da sensação de segurança no interior da habitação. Afinal, por exemplo, para os idosos é essencial que o sentimento próprio de segurança também invada benignamente os respectivos e privados mundos domésticos. E estas reflexões podem e devem ser estendidas à configuração pormenorizada dos espaços e equipamentos comuns dos edifícios multifamiliares.




Fig. 08: segurança urbana em vizinhanças bem configuradas e vivas: um recanto convivial do conjunto da Cooperativa Sete Bicas, na Senhora da Hora, Matosinhos, um projecto de Pedro ramalho e Luís Ramalho.

7. Carácter e importância específica da segurançaA segurança é uma qualidade objectiva, em grande parte, no que se liga a aspectos físicos ligados ao uso e ao habitar humano e, naturalmente, aos aspectos regulamentares a eles associados e a riscos de acidente e sinistro. Nesta perspectiva a tendência deverá ser o acentuar das condições de segurança na aproximação ao edificado e depois no seu interior, não esquecendo algumas potenciais "armadilhas" do exterior, em termos de insegurança, fáceis de sanar, quando se sabe o que faz (exemplo, ter cuidado com plantas tóxicas e que produzam alergias).

Mas os aspectos menos objectivos da segurança ganham um peso cada vez maior. Trata-se, afinal, de uma adequada configuração urbana dos edifícios e espaços públicos que lhes estão associados (criando-se sossegadas e protegidas vizinhanças de proximidade), das respectivas tipologias edificadas e das características socioculturais e comportamentais dos seus habitantes, numa mistura complexa que se traduz em maiores ou menores riscos de bem-estar e mesmo de segurança, nos casos positivos porque geradores de fortes, espontâneos e positivos sentimentos de interacção, socialização e identidade, que se traduzem em condições de tranquilidade e amparo mútuo e natural. E sobre estes aspectos houve, entre nós, trabalhos pioneiros e infelizmente pouco divulgados e desenvolvidos, designadamente, por Luís Sozka.

Luís Soczka, num trabalho editado pelo LNEC (já em 1984), referia já então que "vários estudos levam a crer que o sentimento de perda de identidade e o anonimato percebido levam a reacções emocionais negativas na situação de adensamento populacional, constituindo assim um importante factor de stress e um precipitador das respostas agressivas" (4), e este autor defendia que a concentração populacional não é um indicador objectivo, como a densidade habitacional, mas sim um indicador psicológico que resulta, subjectivamente, da percepção da densidade populacional como excessiva. E finalmente, e no mesmo trabalho do LNEC, Soczka apontou as características espaciais que definem e potenciam condições de segurança urbana:

- Orientação e localização fáceis.
- Observação da movimentação dos outros.
- Prevenção dos encontros por "fuga", interdição de acesso ou camuflagem.
- Espaços rectangulares apenas abertos unilateralmente, ou abertos multilateralmente, mas sobrelevados.
- Encerramento espacial bilateral, conjugado com a possibilidade de observações fáceis dentro de um espaço geométrico muito regular, estruturado por eixos perpendiculares entre si.
- Ao nível concreto dos espaços de circulação e de uso comuns, serão de evitar, segundo o citado autor, galerias e zonas muito extensas.

Nestas matérias há, também, que ter em conta que temos de estar com o nosso tempo e poder decidir aceitar eventuais quebras da nossa privacidade (por exemplo, através de vídeo-vigilância), quando esteja em jogo a possibilidade de se poder usar melhor a cidade, o bairro e a vizinhança, portanto numa opção por sairmos, frequentemente, do nosso casulo doméstico; são opções que podem ser colocadas e "votadas", ou referendadas e julga-se que serão sempre preferíveis à clausura doméstica obrigatória e a uma cidade feita de condomínios privativos, espaços rodoviários e centros comerciais encerrados.

Não sabemos o que nos reserva o futuro, mas talvez haja esperança quando os promotores de grandes superfícies comerciais começam a investir no comércio "de bairro", é que não podemos perder a rua como espaço de vivência, mas também não podemos ter todas as ruas com comércio e pracetas supostamente conviviais um pouco por todo o lado, porque nunca funcionarão dessa forma; há, portanto que investir numa análise urbana local e em "fatos à medida" e muito bem desenhados para cada situação específica, e depois "prová-los" e emendá-los no que se ja possível emendar, e ir aprendendo com a experiência.

Quanto ao aspecto mais geral da relação entre segurança/insegurança e saúde no habitar, não será aqui desenvolvida, especificamente, mas tem estado presente neste texto, sendo evidente a relação entre insegurança no habitar e problemas de saúde dos respectivos habitantes; e sobre isto apontam-se alguns aspectos:

A solidão nos altos blocos de apartamentos afecta muito as pessoas que não trabalham fora de casa, e as crianças, que não devem usar sozinhas os elevadores, num isolamento que é crítico, em edifícios muito grandes e em cujas vizinhanças não há condições mínimas de comércio diário

Podermos usar com prazer e em segurança a nossa vizinhança é fundamental para uma vida urbana agradável e para se evitar que as pessoas se isolem, doentiamente, em casa.

Os jardins perto da habitação proporcionam satisfação, bem-estar e um elevado número de vantagens para a saúde física e psíquica, sendo a introdução do verde a única solução capaz de re-humanizar muitos dos nossos espaços urbanos.

E conclui-se esta temática com a referência a um estudo, da Universidade de Michigan, publicado no American Journal of Public Health, que conclui que as pessoas idosas que vivem em bairros segregados e com criminalidade têm mais riscos de ter cancro do que as pessoas de idade e história clínica comparáveis dos bairros mais integrados e seguros. (5)




Fig. 09: segurança urbana em vizinhanças bem configuradas e habitadas: o conjunto projectado por Paula Petiz no Monte Esoinho, Matosinhos.

8. Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a segurança arquitectónica residencialEm termos dos desenvolvimentos considerados mais interessantes nestas matérias da segurança urbana e residencial, salientam-se os seguintes temas de estudo.

Defende-se a urgência de se reconquistarem as cidades como espaços humanizados e de vida, sendo para isso também essencial que os espaços urbanos sejam mais confortáveis, bem arranjados, equipados e limpos. E não tenhamos dúvidas que sítios ruidosos, sujos e vandalizados cooperam activamente no círculo vicioso da insegurança urbana. Uma insegurança urbana que será reduzida, naturalmente, na medida em que mais pessoas usem com intensidade a vizinhança e o bairro. Mas para isso o bairro tem de ter continuidade física e intensidade de usos, em sequências urbanas de proximidade marcadas por equipamentos que estimulem o convívio: do café à mercearia; e que simultanemamente com este papel convivial proporcionam mais segurança pública, seja devido a essa vitalidade urbana, seja pela vigilância natural que desenvolvem nos espaços públicos contíguos.

A rua urbana com natural continuidade constitui o melhor cenário de integração dos equipamentos colectivos, assegurando-lhes dinamização mútua, ritmo e concentração estratégicas e um alongado potencial de ligação com muitas vizinhanças residenciais.

A rua equipada e estruturadora de um tecido urbano com continuidade serve também de ponto de encontro de diversos tipos de habitar e gostos de habitar, aproximando diversos grupos sociais e etários, o que é condição acrescida de animação e de segurança. Mas o que aconteceu, frequentemente, foi a disseminação de blocos habitacionais em espaços exteriores mal definidos, que em vez das velhas esquinas urbanas ocupadas por lojas, têm muitas passagens entre edifícios e por baixo de edifícios, amplas extensões exteriores com usos pouco definidos e por vezes caracterizadas por péssimas condições de manutenção, grandes empenas sem janelas, que proporcionam sítios sem visibilidade sobre o que se passa na rua; e, além de tudo isto, temos frequentemente blocos de grande altura, onde a partir de cerca do 6.º andar praticamente ninguém quer saber do que se passa lá fora.

E nem há justificações económicas válidas para uma tal situação, pois há todo um amplo catálogo de soluções arquitecturas densas, conviviais, bem habitáveis e naturalmente seguras, devido às relações visuais que proporcionam sobre os espaços públicos que rodeiam e aos quais dão forma e carácter; e este catálogo de pequenas ruas, de passagens e impasses, de pátios residenciais, de pracetas e praças urbanas e de variadas misturas de equipamentos e de tipos de edifícios de habitação, estão aí para serem usados, sem ser preciso aplicar, sistematicamente, as soluções de condomínios privados, até porque estas geram envolventes urbanas sem vida e portanto menos seguras.

A partir da mistura entre equipamentos e habitação e entre diversos tipos de edifícios com acessos privativos e directos ao exterior público, com acessos comuns amplos e bem situados e com pequenos quintais e pátios privativos bem marcados e visíveis ou com espaços públicos bem ligados à habitação, é possível ocupar e fazer viver boa parte da envolvente do espaço edificado, tornando grande parte do respectivo exterior público que lhe é contíguo, um espaço mais vivo e mais seguro.

E sublinha-se que é importante ligar, mais fortemente, a habitação à vida urbana, não interpondo entre uma e outra extensos e frequentemente inseguros espaços comuns.

Mas, repete-se, se os edifícios de habitação estiverem isolados e forem tão altos que pouco têm a ver com o que se possa passar à sua volta, se os espaços exteriores não tiverem "princípio meio e fim", escapando-se como manchas de óleo entre esses edifícios, e se os próprios equipamentos funcionarem como elementos que, em vez de darem coesão à cidade, contribuem para a descontinuidade urbana: então não teremos cidade viva e as pessoas vão ficar protegidas nos seus apartamentos, entrando para eles directamente pelas garagens e ligando muito pouco ao que se passa lá fora.

O espaço urbano seguro é, como se tem defendido, o espaço vivo e acolhedor, e é sempre o espaço da continuidade urbana, naturalmente visível e apropriado pela comunidade ou por cada pessoa ou família. E quando pertença da comunidade este espaço tem de ser uma espécie de sala de estar da vizinhança ou mesmo da cidade, um espaço com o qual se deve interagir naturalmente a partir das janelas que o rodeiam, desenvolvendo-se um controlo do espaço público muito natural, pela continuidade do espaço que é criada e pelas atraentes referências urbanas de orientação que povoam esta continuidade urbana, e que são elas próprias estratégicos e vitais elementos de segurança urbana, como é o caso dos acessos às habitações e às lojas.

Quanto às matérias de ligação entre a reabilitação urbana e a segurança pública elas podem ser sintetizadas referindo-se que os aspectos urbanos mal desenvolvidos ou não desenvolvidos, como a excessiva concentração de grupos sociais sensíveis, a utilização de mega-edifícios impossíveis de gerir, o uso de tipologias habitacionais inadequadas, a ausência de equipamentos de vizinhança e conviviais, a deficiente ou ausente continuidade urbana, as acessibilidades citadinas deficientes e a ausência de vizinhanças e espaços exteriores úteis e amigáveis, são aspectos que terão de ser abordados e resolvidos, caso a caso, com especial sensibilidade humana, social e urbana, em sede de um projecto de regeneração urbana com especial qualidade, feito por arquitectos, e informado e acompanhado por um amplo leque de outros técnicos, entre os quais especialistas em segurança pública.

Para terminar aponta-se que, tal como refere Jane Jacobs (1961) (6) “a primeira coisa que deve ficar clara é que a ordem pública não é mantida basicamente pela polícia, sem com isso negar a sua necessidade. É mantida fundamentalmente pela rede intrincada, quase inconsciente, de controles e padrões de comportamento espontâneos… a segunda coisa é que o problema da insegurança não pode ser solucionado pela dispersão das pessoas... Numa rua movimentada consegue-se garantir a segurança; numa rua deserta não… Deve ser nítida a separação entre o espaço público e o espaço privado…; devem existir olhos para a rua…; a calçada deve ter usuários transitando ininterruptamente, para induzir olhos atentos na rua assim como observação da rua a partir dos edifícios... Desde que a rua esteja bem preparada para lidar com estranhos, desde que possua uma demarcação eficaz de áreas privadas e públicas e um suprimento básico de atividades e olhos, quanto mais estranhos houver, mais divertida ela será. Os estranhos são um trunfo enorme … principalmente de noite, quando a segurança é mais necessária.”

E aproveita-se para sublinhar que em tudo o que se refere à segurança urbana é essencial dedicar uma atenção muito cuidadosa aos aspectos da iluminação nocturna, da sua eficácia, durabilidade e adequação da respectiva imagem urbana, considerando, entre outros pormenores, que a tendência da sociedade poderá ser, muito provavelmente, um crescimento gradual e seguro dos horários diversificados num cenário citadino que cada vez mais decorrerá 24 sobre 24 horas; e nesta matéria são importantes os recentes estudos que, sobre esta matéria da iluminação artificial urbana, tem realizado Roger Narboni (1995) (7).

Concluindo esta matéria crucial e com grande reflexos no desenho da arquitectura residencial e urbana, sublinha-se que não se está aqui a defender um urbanismo residencial securitário, mas sim um habitar seguro, uma das condições para um habitar humanizado, pois, tal como é defendido numa obra recente, coordenada por Gérald Billard (2005) (8), há que harmonizar o objectivo securitário no conjunto das transformações que se estão a operar nos modos de vida citadinos, nas relações sociais e com os espaços do habitar, considerando o grande risco para a sociedade que está já bem presente, e que se poderá avolumar criticamente, nas posições extremas e tipificáveis, por um lado, de auto-clasura e, por outro, de “super-vigilância”.

E em toda esta temática é fundamental uma ampla discussão e divulgação das matérias associadas à segurança arquitectónica residencial, com especial atenção a estas "novas" matérias da relação entre a concepção urbanística pormenorizada e a melhoria das condições de segurança.

Notas:(3) Claude Lamure, "Adaptation du logement à la vie familliale”, 1976.
(4) Luís Soczka, "Espaço Urbano e Comportamentos Agressivos - da Etologia à Psicologia Ambiental", 1984.
(5) Ana Gerschenfeld, "No futuro: O cancro como doença social", Público, P2, pg. 3, 11 de Dezembro 2010.
(6) JACOBS, Jane, “Morte e vida das grandes cidades”, trad. Carlos Mendes Rosa, 2001 (1961), pp. 32, 35, 36 e 41.
(7) Roger Narboni, "La Lumière urbaine", 1995.
(8) Gérald Billard, Jacques Chevalier e François Madorée, “Ville fermée, ville surveillée: La sécurisation des espaces résidentiels en France et en Amérique du Nord", 2005.

Notas editoriais:(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 333, 13 de Fevereiro de 2011

quinta-feira, novembro 02, 2006

111 - Concentração urbana e melhoria da qualidade de vida - Artigo de José L.M. Dias - Infohabitar 111

 - Infohabitar 111

Questões relativas à concentração urbana e ao desafio da melhoria da segurança e da qualidade de vida nas zonas citadinas


Artigo de José L. M. Dias, Engenheiro
Imagens de A. B. Coelho

1 - Introdução
Uma das tendências a que se assiste nas sociedades contemporâneas é a da progressiva e intensa concentração da população em centros urbanos de pequena a grande dimensão, fenómeno que é acompanhado pelo progressivo abandono e desertificação das zonas rurais.

Essa aparente propensão de desenvolvimento em contínuo e por vezes exponencial dos agregados habitacionais na história secular dos povos, coloca questões tanto mais complexas quanto mais se multiplicam, nas últimas décadas, os casos de centros urbanos com elevada dimensão em área, forte concentração populacional, e significativo grau de desenvolvimento económico e cultural.

A forma como o tecido urbano se apresenta, designadamente, em termos das infra-estruturas básicas, disposição local e estado de conservação dos edifícios, são aspectos essenciais para a avaliação da vitalidade desse tecido e do modo como se encontra preparado para enfrentar os diversos agentes agressivos, bem como os sinais da mudança.

A avassaladora tendência de concentração urbana e a consequente desertificação rural, com a sangria das zonas campestres, e o aumento do fluxo migratório dos seus residentes para as zonas citadinas, coloca diversas interrogações, não apenas sobre aspectos terrenos relativos à viabilidade de gestão do território de forma equilibrada num cenário assimétrico como este, mas também sobre os aspectos anímicos e de vivência do conjunto habitável. Aponta-se, sobretudo, para uma distribuição demográfica equilibrada entre os centros urbanos e rurais, não olvidando que o êxodo em massa das zonas rurais para cidades prejudica umas e outras, na exacta medida em que deve existir um necessário balanço entre o dinamismo das cidades e a força telúrica do campo.



Fig. 01: “A avassaladora tendência de concentração urbana e a consequente desertificação rural ...”

Reconhece-se que, do ponto de vista económico, as cidades e outros centros urbanos periféricos podem reunir suficiente “massa crítica” para constituir por si próprios autênticos pólos de desenvolvimento local e até mesmo regional ou nacional, e para crescer em larga escala, sempre que o respectivo peso específico na economia regional ou nacional possa ser claramente determinante para a definição das escolhas e opções estratégicas da política macro-económica e financeira da zona do globo onde se inserem. Mas, considerando que o progresso económico é fundamental, mas pode não ser suficiente para assegurar o pleno bem estar dos cidadãos, é fatal, ainda, admitir que as escolhas políticas sobre a cidade poderão passar, sobretudo, pela complexa tarefa de interpretação correcta das necessidades e esperanças da população das urbes, de modo esta possa reconhecer que as acções que no terreno materializam as opções políticas são, efectivamente, no sentido do bem estar comum.

2- Questões de desempenho e sustentabilidade dos Centros Urbanos


Nas sociedades desenvolvidas ou em vias de o serem, as exigências essenciais da construção, que sempre estiveram presentes na definição dos objectivos básicos do desempenho da construção, vieram recentemente a ser complementadas com as que derivam das preocupações ecológicas no sentido de se garantir a sustentabilidade das construções, ou seja de se procurar satisfazer a legítima reivindicação das sociedades em verem mantido, sem perturbação assinalável ou mesmo melhorado, o ecossistema local e regional, durante e na sequência da execução de uma obra de construção. Tal passa forçosamente pela consciencialização dos diferentes intervenientes no acto da construção da necessidade de, especialmente, escolherem os materiais de construção com adequadas características do ponto de vista da promoção da qualidade ambiental, e de assegurarem a qualidade do ambiente interior.

Porém, importa, por outro lado, averiguar se faz ou não sentido, em certas zonas habitadas, a defesa de um ambiente mais ecológico, quando se verifica que, alguns dos níveis de habitabilidade não atingem sequer o limiar mínimo do aceitável. Surge, assim, a problemática das condições mínimas de habitabilidade que reclamam sobretudo uma atitude mais pró-activa na procura de soluções preventivas e curativas, em detrimento da opção por posições mais reactivas que decorrem, não raras vezes, apenas da necessidade de se minimizarem as situações locais de descontentamento, geradoras de polémica nos órgãos da comunicação social.

Os centros urbanos destinam-se, essencialmente, a servir quem dos mesmos faz uso, ou seja os seus habitantes e os que os visitam em curtas ou longas temporadas, quer em turismo quer em negócios ou outros. Por isso, a questão central consiste na interrogação sobre se estes centros de concentração humana têm capacidade para oferecer alojamento com segurança e conforto adequado, e se possuem a dinâmica adequada para se regenerarem quando, efectivamente, os efeitos da sua velhice e a da sua vetustez assumirem especial gravidade. Está em causa a transmissão para as gerações seguintes não só dos bens culturais como dos patrimoniais, já que ambos interagem para gerar a memória viva dos centros urbanos.




Fig. 02: “... interrogação sobre se estes centros de concentração humana têm capacidade para oferecer alojamento com segurança e conforto adequado, e se possuem a dinâmica adequada para se regenerarem ...”

O processo de construção de edifícios é cada vez mais complexo, fazendo intervir um número elevado de especialidades e valências, pelo que impende sobre esse processo uma exigência de coordenação, rigor, qualidade e empenho. Neste processo participam diversos técnicos pertencentes a diversos ramos de actividade: engenheiros, arquitectos, gestores da construção, sociólogos e psicólogos, técnicos de segurança e de construção, operários, etc. Para que seja minimamente atingido o objectivo de obtenção de uma construção segura, confortável, com boa qualidade e durável, torna-se crucial que seja introduzida uma hierarquização na cadeia de decisões; que exista um forte imperativo de responsabilidade individual e colectiva dos diferentes participantes no acto da construção. Esse binómio de hierarquia e responsabilidade é polarizador de uma coerente, participada e consciente tomada de decisões inerente a um salutar e correcto processo construtivo.

3- Questões de Segurança em geral dos Centros Urbanos


Garantir a segurança das vidas humanas e dos bens em grandes e médios centros urbanos pressupõe que se possa conhecer, antes de mais, quais os verdadeiros perigos e ameaças que sobre eles pesam: não só aqueles que espreitam de modo permanente, como sejam a acção diária do vento e da chuva, a queda de objectos, os assaltos e furtos, como aqueles que podem ocorrer de modo imprevisto e súbito: os ciclones, os sismos, os tsunamis, as inundações, os incêndios, o colapso estrutural das construções, etc. Nesse campo de preocupações, ganha sentido sobretudo a programação de medidas, quer para a prevenção dessas situações de catástrofe, quer para fazer face ao inevitável desfecho negativo dessas situações, o qual geralmente envolve todo um cortejo de desgraças que se podem abater sobre as respectivas vítimas (vítimas humanas, populações sem abrigo e com fome, danos materiais elevados, etc.). Ou seja, reclama, essencialmente, uma disponibilidade de adequados meios hospitalares de emergência e o necessário apoio psicológico e financeiro às populações afectadas; e a montante, a garantia de que, em particular, as construções são concebidas para resistir adequadamente às acções sísmicas e que são adoptadas as regras de segurança contra os incêndios.



Fig. 03: “...é a pensar, sobretudo, nas pessoas que as cidades e vilas deveriam ser desenvolvidas...”

A discussão dos problemas dos centros urbanos é muitas vezes centrada sobre as respectivas condições económicas e sobre a política de defesa do ambiente e de ordenamento do território, esquecendo um seu vector fundamental que é a sociedade que ocupa o seu espaço. As questões sociais relativas à cidade são colocadas num plano secundário, quando elas deveriam antes ser o objecto central da atenção da discussão, pois no fundo é a pensar, sobretudo, nas pessoas que as cidades e vilas deveriam ser desenvolvidas. A problemática social atravessa todos os segmentos de actividade e interessa a definição dos diferentes aspectos funcionais. Por exemplo, quando se aborda a questão da segurança de bens e pessoas, nomeadamente a segurança contra incêndios dos edifícios, não se pode olvidar que se torna indispensável a organização do espaço físico das cidades e a mobilização social no sentido de se prepararem as populações, através de procedimentos de actuação em grupo dentro de zonas demarcadas de cada edifício e no exterior deste, para, em caso de deflagração do incêndio a evacuação do mesmo, se possa ser o mais eficaz no sentido da minimização do número de vítimas; algo análogo se passa em relação à ocorrência de sismos associados ou não a “tsunamis”. Outra das matérias em conexão com as anteriores, e que se deve examinar metodicamente, diz respeito à forma como a cidade convive com a criminalidade e os fenómenos de insegurança que se geram nos que nela habitam.

As condições climáticas nas diversas zonas urbanas do globo acabam por gerar situações de carência díspares, sendo que umas são motivadas pelas chuvas intensas que geram problemas de inundações e todo um cenário de destruição e morte, enquanto outras, derivam de períodos de seca extrema que alternam com períodos de chuva moderada, os quais frequentemente provocam a privação ou o rateio de bens essenciais de consumo (água, produtos agrícolas, etc.).

O movimento de massas em grandes cidades, ou na periferia destas, decorrentes de manifestações de cariz político, social, cultural, desportivo e religioso coloca novos desafios quer no que se refere à logística dos acontecimentos, quer em relação à segurança dos respectivos participantes. A natureza singular desses acontecimentos determina a necessidade de se definirem tarefas específicas de organização, já que o estado de espírito das multidões e a possibilidade de inesperadas situações podem provocar inusitados cenários de alta perigosidade. Tal acarreta que sejam definidos planos prévios que facilmente poderão ser colocados rapidamente em prática quando tais ajuntamentos de multidão ocorrem de forma quase imprevisível.

4 – Questões de Salubridade e Conforto nos Centros Urbanos


Proporcionar o conforto dos que vivem nestes centros urbanos compatível com as suas expectativas significa assegurar que os edifícios onde habitam, e aqueles onde trabalham, estão em condições de oferecer um ambiente aprazível do ponto de vista do conforto higrotérmico e acústico e da qualidade do ar interior; e que os equipamentos e instalações (redes de águas e esgotos, eléctricas) bem como o fornecimento de água, energia eléctrica, e gás, e a evacuação dos lixos apresentam níveis aceitáveis de qualidade de serviço. Pensa-se, em especial, na qualidade da água e do abastecimento adequado desta, na energia eléctrica fornecida sem frequentes interrupções, etc.

Colocam-se muitos desafios ao tipo de desenvolvimento das cidades, sendo que a tendência mais comum nas decisões políticas visa maximizar o efeito mediático e o impacto da imagem na cidade através da realização de empreendimentos e a promoção de acontecimentos sociais, descurando necessidades vitais da cidade tais como as infra-estruturas básicas da cidade, particularmente as redes de saneamento básico e os arruamentos correctamente executados de forma a fazer face às intempéries, assim como a chuvas torrenciais e aos ventos ciclónicos.

A actividade geral de lazer necessária no interior dos centros urbanos coloca algumas questões sensíveis, já que se descobre frequentemente que os espaços físicos respectivos apresentam zonas de contacto e de vizinhança com os destinados a habitação que, por vezes, se reflectem em actividade ruidosas que interferem com o nível de conforto geral dos habitantes.




Fig. 04: “A actividade geral de lazer necessária no interior dos centros urbanos coloca algumas questões sensíveis...”

5 – Questões relativas à renovação dos Centros Urbanos


A antinomia muito corrente da construção nova versus construção antiga alimenta amiúde velhas polémicas sobre a excelência e os atributos da tradição, que uns se inclinam a considerar como positivos, enquanto outros vituperam como sendo o oposto à onda de modernidade que, cada vez mais avassaladora e irresistível, se torna capaz de submergir quase por completo a sociedade contemporânea. Trata-se no fundo do resultado da dinâmica cultural que faz emergir diversos dilemas e ímpetos de renovação que reorientam os gostos e o sentir da sociedade.

Perante a necessidade de renovação de uma determinada zona urbana é forçoso indagar sobre qual a forma de condicionamentos impostos pela natureza da área e por outras características salientes do edificado a renovar. Com efeito, a abordagem deve ser dependente da zona da cidade onde se inserem os edifícios, se antiga ou moderna, se predominantemente destinada ao sector de habitação ou de comércio, se em zona classificada ou não, se em área degradada ou bem conservada, se próximo do mar ou rio ou longe deles, se densamente povoada ou não, se com recurso a novas tecnologias ou não, etc. A propósito desta última ideia expressa, vale a pena referir que a tradição construtiva exerce uma influência significativa sobre o estado de conservação exterior dos edifícios, já que esta, iniludivelmente condicionada pelo peso da tradição, pode bloquear os avanços tecnológicos no domínio da construção. Um exemplo é o da utilização, em zonas urbanas com clima caracterizado por longos períodos durante o ano de chuva intensa, de revestimentos tradicionais de argamassa de cimento em fachadas de edifícios, que assim periodicamente reclamam a realização de obras de manutenção consistindo essencialmente na pintura dos paramentos, que como se sabe mobiliza o emprego de significativa mão de obra e elevados custos de reparação. No entanto, a aplicação tendencial de revestimentos de tecnologia mais recente, embora mais dispendiosa, especialmente estudados para exigir um número diminuto de operações de manutenção, poderia, na óptica do custo total durante o período de exploração, eventualmente constituir, para muitos casos de edifícios, uma alternativa económica ao peso dessa tradição.

Embora possa parecer despiciendo, o facto é que sem a mobilização de recursos financeiros e de vontade política, qualquer operação de renovação esbarra contra inúmeras dificuldades, muitas delas intransponíveis. Naturalmente, ao poder político, devidamente mandatado pelo sufrágio eleitoral do respectivo programa político, incumbe levar à prática as ideias estruturantes aplicáveis à urbe, as quais permitem criar indispensáveis mecanismos e sinergias capazes de articular as energias próprias da sociedade civil e as forças económicas mais interessadas nessa renovação, com os meios, o enquadramento legal e a força executiva do poder público. Mas, pode por vezes acontecer que a capacidade de decisão política consiga antecipar um destino para a cidade dificilmente compreendido por parte das massas populares que, por vezes tendem a reagir de forma conservadora em relação ao adquirido e em desconfiança em relação a uma mudança cujos efeitos não conhecem, orientando-se assim mais numa óptica de manutenção do “status quo” e de rejeição do que pode eventualmente vir ser tanto um benefício como, no pior dos casos, um prejuízo para as mesmas.

Uma das questões centrais do desenvolvimento dos processos de conservação e reabilitação gravita à volta da escolha dos protagonistas dos diferentes planos de acção, a forma como estes se articulam com as entidades que tutelam as diferentes esferas que interferem na concretização prática dessas acções, e os meios que dispõem para levar a bom termo os objectivos propostos. Acresce que, o dilema está na escolha do modelo que permita encontrar um justo equilíbrio entre a dinâmica privada e a iniciativa particular, bem como dispor de mecanismos de regulação que permitam a defesa do interesse público. A intervenção, essencialmente, reguladora dos poderes públicos deverá ser possivelmente a que se afigura mais adequada para atingir o objectivo da promoção de uma política ambiental sustentada e próxima dos anseios e expectativas dos respectivos cidadãos. O modo e o grau em que tal intervenção se concatena com os agentes particulares (proprietários, inquilinos, empreiteiros, etc.), são as incógnitas da equação complexa que governa a actividade da conservação e de reabilitação urbana.

O escolha dos diversos tipos de competência que interessa assegurar na intervenção sobre a cidade, sobretudo na sua conservação e reabilitação, passa muito pelo concurso cada vez maior de diversos domínios de actividade e de saber especializado, nomeadamente: engenharia, arquitectura e belas artes, economia, política e sociologia. Esta confluência de sensibilidades, se convenientemente dirigida em favor do bem geral, permite atingir melhor os objectivos de uma correcta e duradoura renovação urbana. Contudo, não raras vezes, algumas destas sensibilidades procuram, em detrimento das outras, sobrepor-se e ditar as ideias e as regras que polarizadas pela lógica do pensamento único pode, sem dúvida, conduzir a uma desastrosa intervenção da qual sai prejudicado o interesse geral.




Fig. 05: “... intervenção sobre a cidade, sobretudo na sua conservação e reabilitação, passa muito pelo concurso cada vez maior de diversos domínios de actividade e de saber especializado...”

Claramente, a multidisciplinaridade, que se reclama em toda a acção dirigida a centros urbanos, apela sobretudo a um esforço de concertação das variadas valências procurando ganhar sinergias da acção combinada. Na realidade, essa via é a mais espinhosa, porque o esforço de síntese das contribuições é muito mais intenso e penoso do que a mera soma das partes, já que envolve sobretudo a definição do que se julga prioritário, e a enunciação do que pode justificar o respectivo escalonamento em função de objectivos previamente escolhidos.

Hoje em dia é cada vez maior o peso das questões sociais na fundamentação dos princípios da organização do espaço físico e na instalação dos equipamentos dentro duma cidade. Discute-se, entre outros itens, a ligação de proximidade entre as zonas habitacionais e os locais de serviço, o hospital, a escola, os centros comerciais, etc.

Outro ponto que se encontra muitas vezes em discussão diz respeito ao tempo de vida das construções, ou seja à dúvida se estas devem ser duráveis ou mesmo muito duráveis, de forma a que se possa esperar no limite um grau de perenidade e carácter intemporal equivalente ao das milenares construções romanas e gregas. Ou se, pelo contrário, devem ser estas construções efémeras e suficientemente “flexíveis e amovíveis” de modo a favorecer a dinâmica das alterações periódicas da fisionomia da cidade, elegendo a lógica da cultura do tipo “fast food”, caracterizada pela noção de que aquilo se utiliza agora se deve, após o uso, rapidamente deitar fora. Trata-se de matéria que, levada para outra escala, pode conduzir a diferente controvérsia, a da conservação versus demolição.

6- Questões de filosofia de organização e de vivência nos centros urbanos


As dificuldades que atravessam a fase do planeamento e concepção de infra-estruturas e edifícios em meio urbano estão directamente entrosadas com a evolução e mutação que por hoje passam as sociedades, em que o válido no presente pode rapidamente ficar desactualizado num curto espaço de tempo. Sem dúvida que tal velocidade de alteração dos dados é o produto do desenvolvimento e progresso acelerado que experimenta a vida contemporânea, a qual coloca desafios permanentes à capacidade de integrar nos modelos de previsão as várias componentes de variabilidade dos sistemas e estruturas.

Não há pois volta a dar, pois que sem que seja dado o explícito reconhecimento à natureza mutante da sociedade, e sejam retiradas as devidas consequências práticas em termos de um planeamento mais flexível e de campo de análise aberto à incorporação na própria concepção da possibilidade de auto-evolução dos espaços físicos, os investimentos realizados podem rapidamente revelar-se inúteis pela obsolescência e perda de funcionalidade dos espaços.

A localização das diferentes funcionalidades, utilidades e necessidades numa zona urbana é matéria mais complexa do que à primeira vista parece ser. Trata-se de saber se pode ser considerado aceitável o modelo de concentração de determinadas funções em zonas localizadas, como por exemplo as relacionadas com a habitação, o pequeno comércio, as actividades de lazer, os equipamentos educativos ou hospitalares, separando-as de outras relativas aos grandes espaços comerciais, a instalações industriais, ao tratamento dos lixos, etc; ou se pelo contrário se deverá optar por um modelo de dispersão e disseminação que faça conviver diferentes tipos de vivências.

As sociedades contemporâneas mudaram substancialmente de ritmo de vida devido ao progresso técnico e científico experimentado nos dois últimos séculos que, acelerando a mudança das tradições e costumes, introduziu novas formas de convivência com os novos bens materiais e culturais. A necessidade de tão rápida assimilação e aculturação, provavelmente sem a conveniente interiorização de novas realidades, e muitas das vezes sem o tempo de pausa conveniente face a outras ainda mais instantes realidades que a uma cadência impressionante se impõem às anteriores, deixou o cidadão em permanente ansiedade e inquietação e, com maior frequência, em posição de conflito interior e com o meio que o rodeia. O acentuar da conflitualidade na sociedade, visível no trânsito de muitas das ruas das grandes urbes é o sinal característico dos efeitos perversos dessa aceleração e do “stress” nas cidades. Por isso o regresso à vivência da espiritualidade vai impondo-se como um bálsamo para a natureza “descompensada” e desequilibrada em que se que se foi moldando a sociedade contemporânea.

A questão da possibilidade de conciliação entre a dinâmica dos centros urbanos, cuja vivência é cada vez mais pautada por um ritmo rápido, competitivo, consumista e materialista, e a necessidade humana de calma, de interioridade e de pacificação é uma interrogação cuja resposta é difícil de obter. Trata-se sobretudo, da possibilidade de convocação das ideias que melhor sirvam a procura do bem-estar físico, psíquico e espiritual através da ordenação das razões que permitam orientar as vontades e esforços em ordem a esse desígnio.




Fig. 06: “A questão da possibilidade de conciliação entre a dinâmica dos centros urbanos, cuja vivência é cada vez mais pautada por um ritmo rápido, competitivo, consumista e materialista, e a necessidade humana de calma, de interioridade e de pacificação é uma interrogação cuja resposta é difícil de obter.”

A promoção nas zonas urbanas das actividades de entretenimento e lazer é essencial para o equilíbrio social e psíquico das populações que, após a semana de trabalho, necessitam de exercer, no fim-de-semana, uma certa descompressão e recuperar algum ânimo e força para voltar ao novo ciclo de trabalho da semana seguinte. Nessas actividades avultam diversos tipos de espectáculo, quer em grandes recintos abertos, quer em espaços confinados como auditórios, teatros, salas de cinema, e até pavilhões desportivos e estádios. Trata-se de uma cultura que visa o complemento cultural indispensável ao enriquecimento pessoal, ao divertimento saudável, e ao prazer da escuta dos sons musicais e da visão de imagens que exercitam a capacidade lúdica e de imaginação colectiva.

Pode parecer paradoxal e até intrigante descobrir que na cidade, embora coexistam diversas motivações individuais, variados comportamentos psicológicos, multiplicidade de ideais políticos, marcadas diferenças nas convicções religiosas, etc., permanece uma quase invisível pendor no sentido da harmonia e do funcionamento eficaz do seu todo. Aparentemente, existe uma conjugação de vontades individuais, quer de índole altruísta quer exclusivamente por interesse próprio, que acabam por resultar em benefício da comunidade. Embora se possa contar com essa pulsão positiva, é, em certa medida, também, primordial contar com a firmeza dos ideais altruístas como espírito dominante nas cidades, já que a cidade como um todo, perante a eventual vacilação de propósitos, resultante de experiência negativa dos fracassos e insucessos ou por perda da convicção própria da sua capacidade vital, resiste se permanecer constantemente polarizada em torno da procura do bem comum e na defesa do interesse público.

José L. M. Dias

A edição do Infohabitar quer deixar aqui, bem expresso, um merecido agradecimento por esta excelente primeira contribuição do engenheiro José L. M. Dias na nossa revista/blog, uma contribuição sobre um novelo de temáticas que é hoje crucial nas nossas cidades e bairros, mais ou menos periféricos, e nos nossos ambientes mais rurais ou ruralizados, se visarmos, como temos de visar, tal como defende o autor, a “possibilidade de conciliação entre a dinâmica dos centros urbanos, cuja vivência é cada vez mais pautada por um ritmo rápido, competitivo, consumista e materialista, e a necessidade humana de calma, de interioridade e de pacificação.”

Realmente a ampla temática da “concentração urbana e da melhoria da segurança e da qualidade de vida nas zonas citadinas” tem de ser considerada prioritária num mundo que é cada vez mais urbano, mas que, por isso, não pode renegar o restante território e os equilíbrios naturais e também não pode esquecer que é na cidade desejavelmente solidária e culturalmente enriquecedora que se cumpriu e poderá cumprir boa parte da maior riqueza da sociedade humana.

Fica assim uma saudação calorosa ao autor por esta sua excelente intervenção inicial na nossa revista, uma intervenção que claramente, muito promete e que, da nossa parte, será sempre muito bem-vinda.

Edição do Infohabitar, Lisboa, Encarnação-Olivais Norte, em 2 de Novembro de 2006

António Baptista Coelho

PS: as fotografias ilustrativas são da responsabilidade de ABCoelho e foram escolhidas numa perspectiva de acompanhamento, relativamente, informal do respectivo texto.