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domingo, fevereiro 20, 2011

334 - CONSTRUIR SEGURANÇA: Prevenção do crime através da concepção do espaço - Infohabitar 334

Infohabitar, Ano VII, n.º 334

Breve nota de introdução
É sempre com um gosto muito especial que acolhemos no nosso Infohabitar um artigo de um novo colaborador desta revista semanal, que aborda os aspectos muito amplos da qualidade do habitar num verdadeiro sentido de vivermos um dia-a-dia que verdadeiramente nos motive.
Assim acontece aqui, hoje, nesta 334.ª edição do Infohabitar, com o grande e interessante artigo de Daniela Fernandes, Subcomissário da PSP, que nos introduz aos aspectos da "prevenção do crime através da concepção do espaço", uma matéria que foi tratada nas últimas duas edições da nossa revista, e que neste artigo é apresentada de uma forma sintética e historicamente estruturada, proporcionando caminhos lógicos de aprofundamento disciplinar e cooperando na divulgação de uma temática, que é urgente ter em conta num ordenamento urbano de pormenor que se baseie numa plataforma técnica multidisciplinar, e que, infelizmente, entre nós, tem sido uma matéria ainda pouco considerada na formação superior dos técnicos ligados a esse ordenamento.
Saúda-se, portanto, a colega Daniela Fernandes e deseja-se que esta seja, apenas, a primeira de muitas participações no nosso Infohabitar.
E, já agora, avisam-se os leitores que, na próxima semana, teremos um interessante artigo sobre a importância da rua no bom viver da cidade; e a rua bem viva e vivida é factor essencial da segurança urbana.

António Baptista Coelho
Editor do Infohabitar


CONSTRUIR SEGURANÇA:

Prevenção do crime através da concepção do espaço
Daniela FernandesSubcomissário da PSP

Pensar no espaço construído para a prevenção do crime
O crime é um fenómeno muito complexo que se integra na sociedade urbana em que vivemos, para o qual não existe uma fórmula universal capaz de o fazer desaparecer, existindo, no entanto, formas de o prevenir. Segundo Paul e Patrícia Brantingham (1981), o crime é caracterizado por quatro dimensões: a lei, o infractor motivado, a vítima/alvo vulnerável e o ambiente favorável.






Fig. 01 - relações entre agressor, vítima/alvo e local do crime, fonte: Paul e Patricia Brantingham, 1981

Assim, poderá partir-se do princípio de que as estratégias preventivas deverão incidir tanto no potencial autor do crime e na vítima, como nas características do espaço onde ocorre o ilícito criminal.

Desde 1950, muitas reflexões a nível mundial têm vindo a explorar a manipulação do espaço, como forma de prevenir e reduzir a criminalidade e, consequentemente, aumentar os níveis de segurança. Autores como Jacobs (1961), Newman (1972), Jeffery (1971,1977) e Crowe (1991) começam a encarar o espaço urbano, a forma como este está concebido e o tipo de utilização dado ao mesmo, como um possível factor criador ou inibidor de oportunidades para a prática de crimes e incivilidades. Com estes autores começam a surgir conceitos, encarados como abordagens preventivas, que explicam a influência do espaço físico nas ocorrências criminais.

Evidencia-se o conceito Defensible Space e o conceito CPTED, assentes na ideia de criação de um espaço defensible através de estratégias preventivas voltadas para a manipulação das características arquitectónicas e urbanísticas desse espaço. Merece especial destaque a 2ª geração da CPTED, desenvolvida por Crowe, pois esta abordagem não se limita a incidir sobre as características físicas do espaço, incorporando também uma preocupação sobre a componente social do mesmo.






Fig. 02 - Jane Jacobs: fonte www.listal.com/viewimage/13718277

1. Os olhos postos na rua (Jane Jacobs)
O trabalho mais influente acerca do ambiente urbano e da sua relação com o crime foi, provavelmente, a obra The Death and Life of Great American Cities, publicada em 1961 por Jane Jacobs. Nesta obra, esta jornalista, especializada em assuntos de arquitectura, “propõe uma nova forma de ver a relação entre a degradação urbana e o crime” (Fernandes, 2007:38), defendendo que ao restabelecer o tráfego pedestre diminuía-se, consequentemente, as actividades transgressivas, devido ao que ela denominou de Eyes on the street.

Para Jacobs, as ruas da cidade são inseguras quando estão desertas, isto é, a pouca utilização de determinados espaços potencia a ocorrência de crimes por falta de vigilantes. Neste sentido, segundo a autora, as bases do funcionamento equilibrado de um espaço urbano podem ser resumidas da seguinte forma (Fernandes, 2007:40):

(1) Demarcação clara entre o espaço público e privado;
(2) Vigilância por parte daqueles que habitam na zona e exercem o controlo social informal;
(3) E por último, passeios que proporcionem uma utilização contínua, de forma a aumentar a vigilância e, consequentemente, a segurança.

Jane Jacobs aproximou-se das questões da morfologia urbana e deu um dos primeiros passos no sentido da recuperação das formas tradicionais do urbanismo. “De acordo com ela os grandes arquitectos não tinham compreendido que as cidades eram seres orgânicos, constituídas por uma miríade diária de interacções sociais e económicas, e os seus edifícios, nomeadamente os grandes prédios, interferiam nesse processo e eram potenciadores de crime” (Fernandes, 2007:41).


2. Defensible Space (Oscar Newman)





Fig. 03 - Oscar Newman: fonte: www.desensiblespace.com/

Abraçando o espírito de Jacobs, Oscar Newman defendeu a importância da concepção e do ordenamento do espaço físico, no que diz respeito à prevenção criminal, lançando em 1972 o seu conceito Defensible Space exposto no seu livro Defensible Space: Crime Prevention Through Environmental Design, onde concentra a sua análise nos bairros sociais. Tal como Jacobs, este Arquitecto estava convencido de que a deterioração das habitações sociais americanas se devia, em parte, à má concepção do espaço e à falta de interacção do mesmo, pois esta má concepção das habitações sociais provocava o desânimo nos residentes, que deixam de responsabilizar-se pelo espaço público e de exercer os normais instintos de territorialidade (Walsh, 1999:42). Neste sentido, Newman afirmou que o aumento da visibilidade e a separação dos espaços, em áreas atribuídas a um pequeno número de residentes, incentiva ao aparecimento de um sentimento de territorialidade e a uma maior capacidade de controlo dessa área, uma vez que, presumivelmente, os eventuais infractores perceberiam esta atitude por parte dos cidadãos, abstendo-se de praticar ilícitos criminais nessas áreas.

Para este autor, o Defensible Space é um conjunto de estratégias capazes de reestruturar os espaços residenciais das cidades, tornando-os controlados pela comunidade que os partilha. Estas estratégias englobam barreiras simbólicas ou reais, as áreas de influência fortemente definidas e o aumento das oportunidades de vigilância, tudo articulado para criar um espaço capaz de ser controlado pelos seus residentes (Newman, 1996:2).

Newman abordou, ainda, a graduação tipológica do espaço: espaço público, semipúblico e privado, e, segundo este autor, “o espaço torna-se mais defensável se existirem demarcações claras” entre estes tipos de espaços (Fernandes, 2007:44).






Fig. 04 - Esquema da graduação do espaço - privado, semi-privado, semi-público, público - segundo Oscar Newman, fonte: Oscar Newman, 1972.

A inexistência de uma delimitação rígida dos espaços torna-os “impessoais” e “anónimos”, o que leva a uma ausência de vigilância por parte dos residentes que não percepcionam o espaço como sendo seu (Heitor, 2001:8).

O conceito Defensible Space é composto por quatro princípios essenciais, que funcionam individualmente ou em conjunto, para ajudar na criação de um ambiente urbano mais seguro (Fernandes, 2007:44):

a. Territorialidade: capacidades do espaço físico para criar áreas de influência territorial perceptíveis, ou seja, determinadas soluções arquitectónicas podem informar os estranhos de que uma determinada área é privada e controlada por quem ali habita.

b. Vigilância natural: capacidade do ordenamento físico do espaço para proporcionar uma vigilância, sem necessidade de recorrer a meios mecânicos e electrónicos. Isto pode ser conseguido através da construção de edifícios com portas e janelas que permitam aos utilizadores ter uma boa visibilidade do exterior para o interior, e vice-versa, possibilitando a detecção e identificação da presença de estranho. Ou através da correcta configuração dos edifícios, do mobiliário urbano e dos elementos paisagísticos que evite a existência de pontos de refúgio ou de cobertura para potenciais criminosos.

c. Imagem: Capacidade da concepção influenciar na percepção da singularidade do projecto, no isolamento e no estigma. O objectivo do Defensible Space é “transmitir a percepção de que se está num ambiente seguro e não vulnerável, em que existe uma certa solidariedade social entre os residentes e, ao mesmo tempo, evitar o estigma associado aos bairros sociais.

d. Inserção no ambiente (milieu): Exploração da influência da justaposição geográfica de zonas seguras, na segurança de áreas adjacentes. Newman defende que a implementação de bairros sociais em áreas onde o crime é reduzido, e a utilização diversificada do espaço, aumenta a segurança decorrente do aumento da actividade na área.

Embora tenham existido muitas criticas ao conceito Defensible Space, o trabalho de Newman tornou-se de extrema importância ao postular a necessidade de reflexão sobre a concepção e o ordenamento do espaço físico na prevenção do crime, dando ênfase a ideias, tais como, delimitação entre o espaço público e privado e vigilância natural por parte dos residentes e utilizadores do espaço. Newman rejeitava a ideia de “fortaleza urbana” que obriga os residentes a refugiarem-se dentro das suas casas, impedindo o uso e o controlo do espaço e, consequentemente, afastando por completo o sentimento de responsabilidade sobre a área em que habitam.







Fig. 05 - Ray Jeffery: Fonte: www.asc41.com/obituaries/2007obits.htm

3. Modelo CPTED Original (Ray C. Jeffery)Em 1971, Ray Jeffery desenvolve o conceito CPTED, publicando-o na obra Crime Prevention Through Environmental Design, que marcou um importante ponto de viragem no que diz respeito ao modo de pensar acerca do comportamento anti-social e criminoso. Este conceito representou um grande avanço na teoria criminológica e lançou as bases para uma perspectiva única a aplicar ao estudo do crime, a perspectiva de “sistemas integrados”.

Este novo modelo passa a assumir “que os actores criminosos executam as suas decisões com base num processo racional, ainda que muito incipiente, sendo que as suas percepções podem ser manipuladas no sentido de induzir nos mesmos um risco elevado relativamente ao cometimento de um determinado crime. Estas percepções, ao influenciarem o processo de tomada de decisão, poderão levar o potencial criminoso a optar por desistir da acção, se no decurso do seu processo decisório concluir que os potenciais riscos superam os eventuais lucros derivados da acção criminosa” (Fernandes, 2007:51).

Existem, então, dois elementos importantes para a prevenção criminal através da concepção do espaço, o lugar onde ocorre o crime e a pessoa que o comete.
Assim, Jeffery (1990) afirma que podemos impedir ou diminuir o crime alterando o organismo e/ou o ambiente externo. Segundo este novo modelo, a CPTED, as características físicas do ambiente são centrais na facilitação ou inibição da ocorrência de actos criminosos, pelo que a redução da criminalidade pode ser obtida pela gestão e manipulação do ambiente onde os crimes ocorrem, centrando-se na redução das vulnerabilidades e das oportunidades de cometer crimes existentes em certos locais (Fernandes, 2007:51).

4. 2ª Geração da CPTED (Timothy Crowe e Diane Zahm)Inicialmente, o conceito CPTED foi alvo de críticas por apresentar algumas lacunas graves, desancando-se:

a) Exagerada importância dado ao espaço físico em detrimento do factor social, subvalorizando-se o delinquente e a vítima;

b) Centralização na planificação urbana e na concepção arquitectónica, que colocou completamente de parte a manutenção do espaço;

c) Ausência de um trabalho conjunto por parte dos diferentes actores que deveriam participar no processo de concepção e manutenção do espaço urbano.

Todos estes problemas iniciais foram superados por Timmothy Crowe, com a 2ª geração da CPTED. Nesta nova geração, a CPTED foi aperfeiçoada passando, por um lado, a incorporar a dimensão social, de forma a assegurar que o espaço se torne defensible pelos seus residentes, e por outro a preocupar-se com a criação de actividades sociais positivas e diversificadas para encorajar os residentes a apropriarem-se do espaço e a retirar proveito da vigilância natural (Cozens, 2008:437).

Assim, a 2ª geração CPTED é um modelo que assenta na ideia de que um ordenamento adequado e uma utilização apropriada do espaço podem conduzir a uma redução da incidência criminal, melhorando consequentemente a qualidade de vida e “as suas estratégias desenvolvem soluções compatíveis com uma concepção do espaço físico que atenda às necessidades (físicas, sociais e psicológicas) dos utilizadores desse espaço, bem como às actividades que aí se irão desenvolver e ainda à previsão dos comportamentos dos utilizadores legítimos ou dos potenciais criminosos” (Fernandes, 2007:56).





Fig. 06 - fonte: Daniela Fernandes, 2010

CPTED como abordagem preventiva aplicada ao espaço urbano
As estratégias propostas pela CPTED partem do princípio que o “ambiente urbano pode influenciar o comportamento delituoso de dois modos: fisicamente, proporcionando as condições espaciais onde os indivíduos actuam, e socialmente, promovendo as relações sociais a que os indivíduos respondem” (Heitor, 2007:9). Para a aplicação destas estratégias, orientadas para o planeamento e para a manipulação do espaço, existem quatro princípios cuja observância contribui para a criação de espaços seguros, pois, guiam a análise tanto de lugares inseguros como de futuros projectos e criam recomendações para a concepção do espaço que podem ter efeitos redutores sobre os índices de vitimização e de insegurança.

Estes quatro princípios essenciais em que se baseia a aplicabilidade das estratégias e técnicas da CPTED são:

1. Controlo natural de acessos: visa dissuadir a prática de crimes criando a percepção no delinquente de que corre o risco de ser detectado e ao mesmo tempo visa reduzir a prática de crimes negando o acesso a locais onde os intrusos não são facilmente detectados. Isto pode ser conseguido, por exemplo: canalizando a circulação para determinados locais onde exista uma maior vigilância através da utilização de passeios, portões, iluminação e árvores ou centralizando as áreas de uso comum o mais próximo possível das principais zonas de circulação previstas no projecto.

2. Vigilância natural: a disposição do espaço pode facilitar a possibilidade de ver e ser visto por outros. A boa visibilidade de um lugar aumenta a possibilidade de controlo sobre este pelos seus residentes e utilizadores, e por sua vez diminui a possibilidade de ocorrência de crimes. Os mecanismos de vigilância natural passam pela colocação estratégica de janelas, portas e arvores, pela boa iluminação do espaço e pela promoção de actividades que levem à passagem e frequência de pessoas, maximizando a vigilância.

3. Territorialidade: o sentimento de propriedade pode ser reforçado quando os residentes se identificam com os espaços e quando a configuração do espaço é legível para eles. Um dos elementos que define o espaço como vulnerável é o abandono. Um espaço sem uso e sem ninguém que se preocupe com ele tem geralmente como consequência a sua degradação por falta de controlo social. O reforço territorial emprega elementos de design, tais como, calçadas, paisagens e varandas, que ajudam a distinguir as áreas públicas e privadas, e ajudam consequentemente os residentes e utilizadores a mostrarem sinais de propriedade. Este princípio sugere que o projecto físico pode criar ou ampliar uma esfera de influência territorial e fazer com que potenciais infractores percebam essa influência. O reforço territorial fomenta, então, o sentimento de propriedade dos residentes sobre o seu espaço, contribuindo para uma adequada utilização e manutenção deste, evitando-se que os espaços fiquem degradados e atraentes para actividades ilícitas.

4. Manutenção do espaço novo ou recuperado: é vital para que as estratégias de prevenção sejam sustentáveis. Esta manutenção pode ser feita através de programas municipais, em que as autoridades são incumbidas da limpeza do espaço, ou através da comunidade que se responsabiliza por essa limpeza. É importante incorporar a comunidade no processo de recuperação e de concepção do espaço, através de uma participação activa. Os espaços onde são visíveis sinais de decadência, são notavelmente mais propícios ao crime, induzindo também mais medo. A existência de uma área dominada pelo abandono, independentemente da tipologia arquitectónica usada, é certamente um espaço “indefensible”.





Fig. 07 - Timmothy Crowe, fonte: www.ncpc.gov.sg/icpc2004/speakers.htm

Timmothy Crowe sugere uma série de técnicas CPTED que podem ser aplicadas de forma a melhorar o controlo natural de acessos, a vigilância natural e a territorialidade, entre as quais se destacam (Crowe, 2000:126-127):

- Providenciar uma definição clara das fronteiras para controlar o espaço, ou seja, uma clara transição entre o espaço público e o privado. O objectivo é reforçar o sentimento de territorialidade, podendo ser conseguido através de demarcações físicas ou simbólicas.

- Estabelecer áreas de reunião em locais com vigilância natural, longe da vista de possíveis delinquentes, de modo a diminuir o efeito de atracção;

- Colocar actividades seguras em locais inseguros e actividades inseguras em locais seguros;

- Estabelecer barreiras naturais ao conflito entre actividades;

- Superar a distância e o isolamento através da melhoria das comunicações e de um ordenamento eficiente (exemplo: telefones de emergência, percursos pedestres);

- Melhorar a programação do espaço para estabelecer um controlo efectivo e critico da intensidade da utilização;

- Desenhar o espaço de forma a aumentar a percepção da vigilância natural.

Importa referir que a CPTED é um processo aplicado a nível contextual e local e as suas intervenções ambientais dependem da análise do tipo de espaço, do tipo de pessoas que o utilizam e do tipo de crime. Neste sentido, é importante analisar cuidadosamente cada situação antes de planear e decidir as possíveis intervenções. Cada espaço é um espaço.

Zahm (2007) defende que a resolução do problema específico através da CPTED implica uma série de medidas destinadas a responder a 4 questões:

1. Qual é o problema?

2. Porquê naquele espaço?

3. O que pode ser feito para resolver o problema?

4. Até que ponto as mudanças correspondem à resolução do problema?

Cada uma das questões representa uma fase do método SARA: Scanning (exploração), Analysis (análise), Response (resposta) e Assessment (avaliação). SARA é um método utilizado para identificar e isolar os problemas de segurança e criminalidade. Zahm (2007), nos seus estudos, mostra como se pode resolver o problema específico de um espaço através da CPTED, recorrendo a este método.

Tanto no caso de novos projectos de construções, como em projectos de reabilitação é importante que, na fase de análise, seja feita uma avaliação do risco de ocorrência de crimes, proveniente do espaço físico. O risco é entendido como a antecipação das consequências decorrentes da materialização de um conjunto de ameaças, num determinado período de tempo, relativamente a um determinado alvo. Esta avaliação fornece uma indicação tanto da provável magnitude do crime como do provável tipo de crime. A consideração destas dimensões, quantidade e tipo de crime, ajudarão na escolha e na combinação adequada das estratégias CPTED a aplicar.

Surge então a seguinte questão: quem deverá estar envolvido na escolha das estratégias a aplicar ao espaço específico? A CPTED é um processo que integra, ou deverá integrar, diversos participantes na tomada de decisão no que concerne à aplicação de estratégias adequadas a tornar ou criar um espaço seguro. Cada um dos participantes tem uma perspectiva e base única de conhecimento, e é a combinação desse conhecimento que torna a CPTED uma abordagem unificada e eficaz na eliminação ou redução de oportunidades para o crime, num espaço específico.

A experiência internacional mostra que, para alcançar bons resultados é necessária a formação de equipas multidisciplinares capazes de dialogar e trocar conhecimentos para a solução de problemas específicos. Essas equipas deverão ser constituídas por técnicos e especialistas: da arquitectura, do urbanismo, dos domínios da administração local (Câmara Municipal), das Forças de Segurança, das Autoridades de Protecção Civil, bem como pelas comunidades locais, apostando na interdisciplinaridade dos seus membros.

É essencial que as Forças de Segurança locais estejam envolvidas nas iniciativas CPTED, pois estes são capazes de identificar os problemas relacionados com o espaço construído e sabem onde ocorrem os diferentes tipos de crime, facto que não se verifica em Portugal e que não vem previsto na legislação urbanística. Os utilizadores do espaço têm também um papel importante, principalmente ao nível da reestruturação do espaço, pois são pessoas, geralmente, conscientes do tipo de problemas vividos na área onde residem ou trabalham.

Contudo, para que possa existir um trabalho conjunto entre os vários participantes na aplicação de estratégias CPTED, é absolutamente necessário, existir uma formação nesse âmbito. A formação ao nível da CPTED deverá estar presente nos currículos de todos os profissionais, principalmente dos arquitectos, urbanistas, projectistas e elementos policiais, bem como nos programas de formação relacionados com o planeamento, concepção e manutenção, facto que não se verifica nas escolas de arquitectura portuguesas, nem no Instituto Superior de Ciências Policiais e de Segurança Interna.

É imperioso que as entidades que tomam decisões locais se familiarizem com a CPTED, para que as suas decisões não ignorem os princípios de uma concepção adequada. Embora os princípios CPTED possam parecer simples, a sua implementação requer a orientação de especialistas formados na área. Em alguns Países, a Polícia tem um papel fundamental neste sentido, realizando cursos para os responsáveis pela concepção e planeamento urbano, actuando como um órgão técnico responsável pela intervenção CPTED ou como um componente fundamental no âmbito de equipas multidisciplinares.

Diversos países têm adoptado estas estratégias de prevenção criminal criando programas capazes de identificar as condições sociais e físicas que contribuem para o aumento da criminalidade, no sentido de desenvolver acções capazes de modificar as ditas condições. Em muitos casos, como por exemplo na Europa, a CPTED é conhecida por Designing Out Crime (DOC) ou Designing Against Crime (DAC).

As principais tendências de aplicação da CPTED têm origem nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas ao longo dos anos o êxito destas iniciativas começou a propagar-se por diversos países, tais como: Canadá, Holanda e Austrália. Todas estas iniciativas mostram que é fulcral compreender a particularidade da experiência local e do espaço urbano específico que se pretende manipular e que é de vital importância a capacidade técnica das equipas que levam a cabo os processos de aplicação das várias estratégias CPETD, bem como a inclusão da comunidade enquanto elemento transversal a todo o processo.

a) Estados Unidos da América (1)

A experiência da abordagem CPTED Americana, baseada no legado de Jacobs e Newman, focalizou-se na solução de problemas particulares a partir de uma intervenção conjunta, por parte de uma suma de actores importantes para a problemática da segurança em meios urbanos, tais como, a Polícia, o Governo, os Arquitectos, os Projectistas, os Urbanistas e até mesmo a Comunidade. Este trabalho em equipa permitiu implementar projectos baseados na confiança e na articulação de esforços, aumentando a eficácia do controlo e da resolução de problemas criminais e securitários.

Em geral, as principais áreas de intervenção da CPTED, nos Estados Unidos, correspondem à inclusão nas leis e nos planos urbanísticos: da concepção e manutenção do espaço; do desenvolvimento de processos de revisão do ordenamento local; da renovação urbana; e do embelezamento da cidade através da revitalização dos espaços públicos.

b) Canadá (2)

Outro caso interessante é a experiência Canadiana, que tem acumulado conhecimentos e metodologias em matéria de prevenção criminal através da concepção e ordenamento do espaço.

As estratégias CPTED têm sido implementadas, principalmente, pelos diversos departamentos policiais e pelos municípios deste País, sendo de destacar a capacidade inter-institucional existente, que permite convocar e coordenar as diversas entidades que trabalham em torno desta temática, na hora da tomada de decisão.

Um dos principais programas na linha da CPTED é o Safe Cities, que está integrado numa série de políticas de segurança, lideradas pelo Município de Toronto. Este programa aponta para a promoção de mecanismos e instâncias de cooperação entre as várias entidades envolvidas no combate ao fenómeno da violência e do crime, entre as quais se podem destacar: o Governo Central, o Governo Local, a Polícia e a Comunidade, todas com uma participação activa no desenvolvimento de projectos à escala humana e focalizadas para a resolução de necessidades locais.

São objecto das intervenções CPTED diversos tipos de estruturas urbanas, dentro das quais se destacam: as ruas, os bairros, os parques, os transportes, e o comércio/indústria.

c) Europa: Reino Unido e Holanda (3)

Na Europa, o Reino Unido e a Holanda são bons exemplos da aplicação do desenho urbano na prevenção criminal.

No caso do Reino Unido, em 1989, a polícia Britânica apresentou um projecto designado por Secured by design, que actualmente funciona na maioria das polícias de Inglaterra e Gales. Os corpos de polícia britânicos formaram especialistas, conhecidos como Architectural Liaison Officers, cujas funções se podem encontrar num manual publicado pela Home Office, em 1997. Neste manual a Polícia reconhece que o espaço físico pode ter influência significativa no comportamento criminal, uma vez que, o crime se apoia na oportunidade, no anonimato, no acesso fácil e nas vias rápidas de acesso.

O Secured by design é um processo de certificação, cujo principal objectivo é dar normatividade à planificação residencial que permita assegurar um espaço com qualidade e segurança. O processo consiste em identificar e modificar os elementos avaliados por um potencial agressor que influenciem na decisão de cometer um crime, combinando elementos situacionais e arquitectónicos, para que desse modo se possa evitar o cometimento de crimes e a percepção do medo.

A entidade responsável pela realização deste processo e pela posterior certificação é a Polícia. São objecto de certificação todas as novas construções ou reconstruções de espaços, os estacionamentos, as estações de comboios, as zonas habitacionais, as áreas de lazer, os bairros e os edifícios em geral. A certificação é feita com base na observação relacionada com os acessos públicos, a vigilância natural e o desenho das vias públicas.

Na Holanda foi implementado o programa Police Label for safe housing, que tem como fim reduzir a delinquência e a percepção do medo através da implementação de uma certificação conferida, como base na ideia de que um espaço deve conter padrões de segurança pertinentes.

Como tal, existe uma série de critérios, à escala micro e macro-urbana, relacionados com a planificação de espaços comuns, os planos de edificação, as estruturas específicas no ambiente residencial (ex.: estacionamento, paragens de transportes públicos, espaços de lazer), a participação e responsabilização dos residentes (principalmente ao nível da manutenção), e com a concepção arquitectónica. A certificação é emitida se o projecto cumprir com os requisitos de avaliação exigidos.

ConclusãoDepois do exposto verifica-se que o conceito CPTED assenta na ideia de que através da concepção, utilização e manutenção se poderá reduzir as oportunidades para a ocorrência de crimes e, consequentemente, mitigar o sentimento de insegurança. Com base em quatro princípios (controlo natural de acessos, vigilância natural, territorialidade e manutenção) as estratégias CPTED deverão ser voltadas para o espaço específico que se pretende manipular, tendo em conta o problema criminal, secutário e social do mesmo. Não existe, portanto, um conjunto pré-definido e generalistas de estratégias a aplicar, caberá a uma equipa multidisciplinar, que inclua “actores” do poder local, da segurança, da arquitectura e do urbanismo, analisar e decidir quais as melhores estratégias a aplicar ao espaço, com vista a solucionar o problema especifico.

No que diz respeito à PSP, actualmente existe por parte desta Polícia um trabalho desenvolvido sobre os potenciais agressores e as vítimas vulneráveis, com o objectivo de prevenir o crime e garantir a segurança. Diariamente, nesta sociedade cada vez mais urbanizada, equipas da investigação criminal desbravam terreno para deter criminosos, patrulhas auto e apeadas policiam as ruas da cidade e elementos dos programas de policiamento de proximidade mantém um contacto próximo com os cidadãos, alguns dos quais já vítimas de crimes. No entanto, embora este trabalho recolha muitos frutos, é importante incluir neste rol de medidas preventivas a manipulação do espaço urbano como um importante factor de influência sobre as oportunidades para as práticas criminais. Muitas vezes o mau ordenamento do espaço até se torna um obstáculo para as próprias Forças de Segurança levarem a cabo a sua missão (preventiva e repressiva).

Assim, defende-se que ao integrar a manipulação do espaço urbano nas políticas governamentais de prevenção, poderá ganhar-se mais um instrumento para o combate ao crime e para o fortalecer do sentimento de segurança geral.

Bibliografia:
• Brantingham, P. J. e P. L. Brantingham (1981), Environmental Criminology. Beverly Hills, Sage Publications.

• Crowe, T. D. (2000), Crime Prevention Through Environmental Design: Applications of Architectural Design and Space Management Concepts. Butterworth – Heinman, Boston.

• Cozens, P. (2008), New Urbanism, Crime and the Suburbs: A Review of the Evidence. In Urban Policy and Research, vol.26, nº4, Amsterdam.

• Fernandes, L.F. (2007), “Jacobs, Newman e C. Ray Jeffery. Contributos para a prevenção da criminalidade”. In Urbanismo Segurança e Lei. Tomo I. Edições Almedina, Coimbra.

• Heitor, Teresa (2001), A Vulnerabilidade do Espaço em Chelas. Uma Abordagem Sintáctica. Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas. Lisboa, Edição da Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação para a Ciência e Tecnologia.

• Heitor, Teresa (2007), Insegurança em meio urbano: o espaço na mediação de
oportunidades delituosas. Revista Psicologia volume XXI, nº2, págs. 31 a 44. Lisboa.

. Jacobs, J. (1961), The Death and Life of Great American Cities. New York, Random House.

• Jeffery, C. R. (1977), Crime Prevention Through Environmental Design. Beverly Hills, Sage Publications.

• Newman, O. (1972), Defensible Space: Crime Prevention Through Urban Design. New York, Macmillan.

• Newman, O. (1996), Creating Defensible Space. Institute for Community Design Analysis, Office of Planning and Development Research (PDR), US Department of Housing and Urban Development (HUD), Washington.

• Valente, M. (2007), Urbanismo Segurança e Lei. Tomo I. Coimbra, Edições Almedina.

• Walsh, E. (1999), Crime Prevention Through Environmental Design. Jornal of housing and community development. Junho/Agosto p:42 a 44.

• Zahm, D. (2007), Using Crime Prevention Through Environmental Design in Problem-Solving. U.S. Department of Justice Office of Community Oriented Policing Services, Washington.

http://www.cpted.cl

Notas:(1) http://www.safecascadia.org/
(2) http://cptedontorio.ca/
(3) http://www.designagainstcrime.com http://www.stichtingvob.nl/

Notas editoriais:(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 334, 20 de Fevereiro de 2011

domingo, fevereiro 13, 2011

333 - Segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte II - Infohabitar 333

Infohabitar, Ano VII, n.º 333

Habitação e Arquitectura IX: a segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte II
António Baptista Coelho

NOTA IMPORTANTE: POR SE TRATAR DE UM ARTIGO COM CERCA DE 18 PÁGINAS FOI DIVIDIDO EM DUAS PARTES E EDITADO NA PASSADA SEMANA E NA PRESENTE EDIÇÃO DO INFOHABITAR, JUNTANDO-SE UM ÍNDICE PARA ORIENTAÇÃO: NO ÍNDICE A BOLD A PARTE DO ARTIGO EDITADA ESTA SEMANA.


Habitação e Arquitectura IX: a segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte II
Índice1 - Introdução à segurança arquitectónica residencial e urbana
2 - As duas faces da segurança arquitectónica residencial
3 - Aspectos estruturadores da segurança urbana e residencial
4- A segurança, do bairro/cidade, à vizinhança e à habitação
5 - Bases e estratégias da segurança arquitectónica e urbana
5.1 Bom urbanismo, gestão local e polícia de proximidade
5.2 A segurança arquitectónica residencial ao nível urbano: matéria de base da concepção
5.3 Segurança urbana para quem?
6 - A segurança nos espaços públicos (versus) a segurança nos espaços edificados
6.1 Segurança nos espaços públicos: acessibilidades e equipamentos
6.2 A segurança na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios 6.3 A segurança nos edifícios
6.4 A segurança nas habitações
7 - Carácter e importância específica da segurança
8 - Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a segurança arquitectónica residencial

Habitação e Arquitectura IX: a segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte II

6. A segurança nos espaços públicos (versus) a segurança nos espaços edificados
Tanto a segurança física e funcional, como a segurança relacional atravessam os diversos níveis físicos, ficando aquela última à porta dos edifícios, dos fogos e nas suas janelas, locais privilegiados para o natural acompanhamento das actividades exteriores; este parece ser o mais eficaz dispositivo arquitectónico, positivamente "passivo", inibidor de insegurança, relacionando-se, fortemente com adequadas e estratégicas relações de acessibilidade.


6.1 Segurança nos espaços públicos: acessibilidades e equipamentos
Espaços confinados, relações mútuas de visibilidade, animação urbana estratégica, números equilibrados de vizinhos, usos reais nos espaços públicos e uma paisagem nocturna bem estruturada são aspectos que, ligados aos mais inteiramente físicos do equilíbrio entre peões e veículos e de uma verdadeira adequação funcional de percursos e estadias, contribuem para o sossego e a harmonia vicinal e urbana (ao nível das vizinhanças de proximidade e dos próprios edifícios).

Quanto às questões da relação entre segurança e acessibilidade, há que sublinhar que as matérias de insegurança urbana também se ligam a uma certa nova velocidade de vivência da cidade pouco humana e tantas vezes perigosa, que tornou o espaço público citadino muito pouco acolhedor para o peão, cujo espaço tem recuado frente ao do veículo, perdendo-se parte das funções de estadia e de diversas actividades antes aí desempenhadas. E nestas matérias da acessibilidade há que salientar as situações gravíssimas em que vizinhanças e mesmo pequenos bairros estão isolados fisicamente da cidade e, além disto, estão extremamente mal servidos de transportes públicos, criando-se um isolamento crítico, que além de aspecto essencial na ausência de qualidade no habitar, é também factor directo de desenvolvimento da insegurança urbana nesses locais e respectivas envolventes.

Nestas matérias temos que saber que as lojas têm uma influência enorme na segurança, são dos principais agentes de segurança quase com as funções da Polícia de Proximidade, mas aqui o problema é que os PDM obrigam por vezes a um excesso de lojas nos pisos térreos dos edifícios, e depois ficamos, frequentemente, com espaços vazios infindáveis e inseguros, e depois as poucas lojas existentes acabam por fechar devido á insegurança, e consequentemente as respectivas zonas e ruas ficam mais inseguras. Matéria esta que deve ser investida rapidamente, possibilitando-se e regulamentando-se a conversão de lojas em habitações e de habitações em lojas e outros equipamentos; e isto não é nada de novo, são coisas que se fazem no resto da Europa, e já se fez por cá em diversos bairros.

O que aqui se apontou para as lojas, em termos do seu papel de enquadramento e acompanhamento da vida nos espaços públicos, tornando-os mais seguros, deve ser aplicado em todas as previsões de outros equipamentos colectivos, acabando-se, de vez, com a sua previsão segregada, quando não "autista" e até prejudicial para a continuidade urbana, e considerando-os, duplamente, quer como unidades que garantam os respectivos seviços, quer como actores protagonistas na estruturação e vitalização dos espaços públicos e das continuidades urbanas dos seus sítios de implantação, tornando-se, assim, pólos estratégicos da segurança urbana local.





Fig. 07: segurança urbana em vizinhanças bem configuradas e com visibilidade a partir das habitações: um projecto de Carla Baptista e Freddy Ferreira César no Amparo, Funchal.

6.2 A segurança na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifíciosOs espaços públicos contíguos aos edifícios são zonas estratégicas, cujas configurações e cuidados de visibilidade mútua e a partir dos edifícios podem determinar condições de segurança fulcrais para uma intensa fruição do exterior, fruição esta que é, por sua vez, factor suplementar de segurança.

Um aspecto importantíssimo é a questão da altura dos edifícios. Uma pessoa a partir do 5º, ou 6º andar, isola-se do que se passa no espaço público, é como se este deixasse de existir para ela, porque deixa de haver uma relação directa, deixa de haver a relação da voz, deixa de haver a possibilidade de a pessoa falar com alguém, na rua, a partir da sua janela.

Importa ainda referir a barreira crítica que os edifícios altos e/ou com extensos e, por vezes, confusos espaços comuns, constituem, frequentemente, para o uso do espaço público por crianças e idosos, que, tal como se referiu atrás, são os principais vitalizadores do espaço público e que acabam por ficar tantas vezes encarcerados em suas casas; e, no caso dos idosos, frequentemente, numa constante inquietação por poderem ser assaltados, isto quando se geram círculos viciosos de pouco uso e de insegurança no espaço público.

E temos de ter bem presente que os edifícios pertencem à rua, sendo que a rua, nas palavras do famoso arquitecto, e antigo responsável municipal de uma grande cidade brasileira, Jaime Lerner, continua a ser a melhor invenção do homem em termos de vivência da cidade, e, por outro lado, a arquitectura modernista, a boa arquitectura modernista, sem rua também funciona, pois assegura uma relação contínua entre edifícios e espaços exteriores naturalmente controlados, sem zonas mortas, sem zonas não visíveis, e assim tem-se segurança; ao contrário das situações em que o espaço existe por todo o lado, sem forma e sem relação com edifícios, e os espaços estão afastados uns dos outros, e não são atravessados nem usados, ou não são visíveis, e assim a situação de insegurança instala-se e cresce.

6.3 A segurança nos edifícios
Nos espaços edificados há todo um conjunto de preocupações de segurança, de ordem física e/ou funcional, algumas regulamentadas, que visam a ausência de acidentes e sinistros com consequências graves (ex. incêndios, quedas de altura, escorregamento, colisão com vidros, intoxicação com gás, queimaduras em fogões, etc.).

Nesta matéria há situações verdadeiramente inaceitáveis, exemplificadas por tantos casos de escadas forradas a revestimentos que molhados são perigosamente derrapantes, e ocorrências em que a sorte evitou o que poderiam ser desgraças, como no caso em que um vidro de segurança (julga-se) que integrava a guarda de uma varanda (e com cerca de 1,5m por 0,80m), foi arrancado pelo vento (julga-se) da respectiva guarda de varanda de um 3.º ou 4.º andar e acabou espetado, a cutelo, num relvado contíguo; uma situação presenciada pelo autor destas linhas e que é inconcebível.

Como se percebe nem todos os aspectos essenciais que deveriam velar pela nossa segurança residencial no uso corrente dos edifícios estão regulamentados e, por outro lado, há dúvidas básicas relativas à boa vivência arquitectónica dos espaços residenciais, que se podem colocar sobre alguns aspectos que estão regulamentados. Situação, que na nossa opinião, recomendaria uma revisão dos aspectos regulamentares ligados à segurança residencial no uso normal, tendo como objectivo a resolução dos aspectos ainda não cobertos e a eventual unificação e simplificação do corpo regulamentar existente.


Outra vertente da segurança no edificado liga-se à respectiva componente social e tem a ver, basicamente, com a espontânea familiaridade ou o anonimato que se pode gerar num dado edifício e na sua proximidade, designadamente, pelo número de fogos que ele contém (número de vizinhos), pelas características de acessibilidade, comunicabilidade exterior e socialização que se vivem nos seus espaços comuns (ex. escadas com vistas amplas sobre o espaço público, galerias amplas, etc.), e pela possibilidade de relação directa com o exterior, a partir das habitações e, eventualmente, de espaços comuns, por exemplo, através de uma acessibilidade alternativa que duplique os “pontos” de vitalização residencial do espaço público. Para não falar de idênticas funções asseguradas pelos equipamentos que estejam integrados nos pisos térreos dos edifícios.

A altura excessiva dos edifícios, já atrás referida, além de reduzir a escala humana da cidade, aumenta a descontinuidade urbana, pois os edifícios mais altos têm de estar mais afastados entre eles, havendo espaços públicos mais extensos, e reduz drasticamente a capacidade de interacção entre as habitações e o espaço público, abrindo-se caminho à insegurança urbana. E então quando pessoas que viviam precariamente em casas abarracadas de um único piso são realojadas nesses edifícios altos, estão a juntar-se os problemas apontados aos da inadequação com os antigos modos de vida, ligados à terra e à vizinhança; e o resultado será ainda agravado quando há fortes concentrações de pessoas dos mesmos grupos socioculturais.

6.4 A segurança nas habitações
Tal como já se apontou atrás, a segurança no uso normal dos espaços domésticos é matéria que está já devidamente tratada em guias técnicos estarngeiros e internacionais e que se encontra integrada em diversos manuais de apoio ao projecto residencial disponíveis entre nós, com natural destaque para diversas publicações da Livraria do LNEC e designadamente da sua Colecção Informação Técnica Arquitectura (ITA).

Por esta razão não desenvolvemos a temática, referindo apenas os itens de projecto que merecem cuidados acrescidos em termos de segurança no uso normal: portas e janelas, varandas e guardas, pavimentos, cozinhas e casas de banho (zonas húmidas e onde pode haver contacto com produtos tóxicos), escadas e rampas, outras diferenças de nível, equipamentos domésticos, instalações de gaz e eléctrica.

O bem-estar doméstico deve ser servido por uma espaciosidade e organização adequadas, que garantam a privacidade e a diversidade de apropriação no uso da habitação, e que tenham em conta a agradabilidade e a segurança de crianças, idosos e doentes, que são os mais exigentes em termos de condições de uso e de conforto.

Mas é possível aprofundar estes aspectos de segurança mesmo na dimensão doméstica, pois é um aspecto importante, por exemplo, para os habitantes mais sensíveis, como é o caso dos idosos e das crianças que por vezes estão sozinhas em casa, e nesta matéria e a título de exemplo significativo, sublinha-se que a existência de circulações domésticas claramente configuradas e bem estruturadas é, segundo Claude Lamure (1976) (3), um factor de melhoria da sensação de segurança no interior da habitação. Afinal, por exemplo, para os idosos é essencial que o sentimento próprio de segurança também invada benignamente os respectivos e privados mundos domésticos. E estas reflexões podem e devem ser estendidas à configuração pormenorizada dos espaços e equipamentos comuns dos edifícios multifamiliares.




Fig. 08: segurança urbana em vizinhanças bem configuradas e vivas: um recanto convivial do conjunto da Cooperativa Sete Bicas, na Senhora da Hora, Matosinhos, um projecto de Pedro ramalho e Luís Ramalho.

7. Carácter e importância específica da segurançaA segurança é uma qualidade objectiva, em grande parte, no que se liga a aspectos físicos ligados ao uso e ao habitar humano e, naturalmente, aos aspectos regulamentares a eles associados e a riscos de acidente e sinistro. Nesta perspectiva a tendência deverá ser o acentuar das condições de segurança na aproximação ao edificado e depois no seu interior, não esquecendo algumas potenciais "armadilhas" do exterior, em termos de insegurança, fáceis de sanar, quando se sabe o que faz (exemplo, ter cuidado com plantas tóxicas e que produzam alergias).

Mas os aspectos menos objectivos da segurança ganham um peso cada vez maior. Trata-se, afinal, de uma adequada configuração urbana dos edifícios e espaços públicos que lhes estão associados (criando-se sossegadas e protegidas vizinhanças de proximidade), das respectivas tipologias edificadas e das características socioculturais e comportamentais dos seus habitantes, numa mistura complexa que se traduz em maiores ou menores riscos de bem-estar e mesmo de segurança, nos casos positivos porque geradores de fortes, espontâneos e positivos sentimentos de interacção, socialização e identidade, que se traduzem em condições de tranquilidade e amparo mútuo e natural. E sobre estes aspectos houve, entre nós, trabalhos pioneiros e infelizmente pouco divulgados e desenvolvidos, designadamente, por Luís Sozka.

Luís Soczka, num trabalho editado pelo LNEC (já em 1984), referia já então que "vários estudos levam a crer que o sentimento de perda de identidade e o anonimato percebido levam a reacções emocionais negativas na situação de adensamento populacional, constituindo assim um importante factor de stress e um precipitador das respostas agressivas" (4), e este autor defendia que a concentração populacional não é um indicador objectivo, como a densidade habitacional, mas sim um indicador psicológico que resulta, subjectivamente, da percepção da densidade populacional como excessiva. E finalmente, e no mesmo trabalho do LNEC, Soczka apontou as características espaciais que definem e potenciam condições de segurança urbana:

- Orientação e localização fáceis.
- Observação da movimentação dos outros.
- Prevenção dos encontros por "fuga", interdição de acesso ou camuflagem.
- Espaços rectangulares apenas abertos unilateralmente, ou abertos multilateralmente, mas sobrelevados.
- Encerramento espacial bilateral, conjugado com a possibilidade de observações fáceis dentro de um espaço geométrico muito regular, estruturado por eixos perpendiculares entre si.
- Ao nível concreto dos espaços de circulação e de uso comuns, serão de evitar, segundo o citado autor, galerias e zonas muito extensas.

Nestas matérias há, também, que ter em conta que temos de estar com o nosso tempo e poder decidir aceitar eventuais quebras da nossa privacidade (por exemplo, através de vídeo-vigilância), quando esteja em jogo a possibilidade de se poder usar melhor a cidade, o bairro e a vizinhança, portanto numa opção por sairmos, frequentemente, do nosso casulo doméstico; são opções que podem ser colocadas e "votadas", ou referendadas e julga-se que serão sempre preferíveis à clausura doméstica obrigatória e a uma cidade feita de condomínios privativos, espaços rodoviários e centros comerciais encerrados.

Não sabemos o que nos reserva o futuro, mas talvez haja esperança quando os promotores de grandes superfícies comerciais começam a investir no comércio "de bairro", é que não podemos perder a rua como espaço de vivência, mas também não podemos ter todas as ruas com comércio e pracetas supostamente conviviais um pouco por todo o lado, porque nunca funcionarão dessa forma; há, portanto que investir numa análise urbana local e em "fatos à medida" e muito bem desenhados para cada situação específica, e depois "prová-los" e emendá-los no que se ja possível emendar, e ir aprendendo com a experiência.

Quanto ao aspecto mais geral da relação entre segurança/insegurança e saúde no habitar, não será aqui desenvolvida, especificamente, mas tem estado presente neste texto, sendo evidente a relação entre insegurança no habitar e problemas de saúde dos respectivos habitantes; e sobre isto apontam-se alguns aspectos:

A solidão nos altos blocos de apartamentos afecta muito as pessoas que não trabalham fora de casa, e as crianças, que não devem usar sozinhas os elevadores, num isolamento que é crítico, em edifícios muito grandes e em cujas vizinhanças não há condições mínimas de comércio diário

Podermos usar com prazer e em segurança a nossa vizinhança é fundamental para uma vida urbana agradável e para se evitar que as pessoas se isolem, doentiamente, em casa.

Os jardins perto da habitação proporcionam satisfação, bem-estar e um elevado número de vantagens para a saúde física e psíquica, sendo a introdução do verde a única solução capaz de re-humanizar muitos dos nossos espaços urbanos.

E conclui-se esta temática com a referência a um estudo, da Universidade de Michigan, publicado no American Journal of Public Health, que conclui que as pessoas idosas que vivem em bairros segregados e com criminalidade têm mais riscos de ter cancro do que as pessoas de idade e história clínica comparáveis dos bairros mais integrados e seguros. (5)




Fig. 09: segurança urbana em vizinhanças bem configuradas e habitadas: o conjunto projectado por Paula Petiz no Monte Esoinho, Matosinhos.

8. Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a segurança arquitectónica residencialEm termos dos desenvolvimentos considerados mais interessantes nestas matérias da segurança urbana e residencial, salientam-se os seguintes temas de estudo.

Defende-se a urgência de se reconquistarem as cidades como espaços humanizados e de vida, sendo para isso também essencial que os espaços urbanos sejam mais confortáveis, bem arranjados, equipados e limpos. E não tenhamos dúvidas que sítios ruidosos, sujos e vandalizados cooperam activamente no círculo vicioso da insegurança urbana. Uma insegurança urbana que será reduzida, naturalmente, na medida em que mais pessoas usem com intensidade a vizinhança e o bairro. Mas para isso o bairro tem de ter continuidade física e intensidade de usos, em sequências urbanas de proximidade marcadas por equipamentos que estimulem o convívio: do café à mercearia; e que simultanemamente com este papel convivial proporcionam mais segurança pública, seja devido a essa vitalidade urbana, seja pela vigilância natural que desenvolvem nos espaços públicos contíguos.

A rua urbana com natural continuidade constitui o melhor cenário de integração dos equipamentos colectivos, assegurando-lhes dinamização mútua, ritmo e concentração estratégicas e um alongado potencial de ligação com muitas vizinhanças residenciais.

A rua equipada e estruturadora de um tecido urbano com continuidade serve também de ponto de encontro de diversos tipos de habitar e gostos de habitar, aproximando diversos grupos sociais e etários, o que é condição acrescida de animação e de segurança. Mas o que aconteceu, frequentemente, foi a disseminação de blocos habitacionais em espaços exteriores mal definidos, que em vez das velhas esquinas urbanas ocupadas por lojas, têm muitas passagens entre edifícios e por baixo de edifícios, amplas extensões exteriores com usos pouco definidos e por vezes caracterizadas por péssimas condições de manutenção, grandes empenas sem janelas, que proporcionam sítios sem visibilidade sobre o que se passa na rua; e, além de tudo isto, temos frequentemente blocos de grande altura, onde a partir de cerca do 6.º andar praticamente ninguém quer saber do que se passa lá fora.

E nem há justificações económicas válidas para uma tal situação, pois há todo um amplo catálogo de soluções arquitecturas densas, conviviais, bem habitáveis e naturalmente seguras, devido às relações visuais que proporcionam sobre os espaços públicos que rodeiam e aos quais dão forma e carácter; e este catálogo de pequenas ruas, de passagens e impasses, de pátios residenciais, de pracetas e praças urbanas e de variadas misturas de equipamentos e de tipos de edifícios de habitação, estão aí para serem usados, sem ser preciso aplicar, sistematicamente, as soluções de condomínios privados, até porque estas geram envolventes urbanas sem vida e portanto menos seguras.

A partir da mistura entre equipamentos e habitação e entre diversos tipos de edifícios com acessos privativos e directos ao exterior público, com acessos comuns amplos e bem situados e com pequenos quintais e pátios privativos bem marcados e visíveis ou com espaços públicos bem ligados à habitação, é possível ocupar e fazer viver boa parte da envolvente do espaço edificado, tornando grande parte do respectivo exterior público que lhe é contíguo, um espaço mais vivo e mais seguro.

E sublinha-se que é importante ligar, mais fortemente, a habitação à vida urbana, não interpondo entre uma e outra extensos e frequentemente inseguros espaços comuns.

Mas, repete-se, se os edifícios de habitação estiverem isolados e forem tão altos que pouco têm a ver com o que se possa passar à sua volta, se os espaços exteriores não tiverem "princípio meio e fim", escapando-se como manchas de óleo entre esses edifícios, e se os próprios equipamentos funcionarem como elementos que, em vez de darem coesão à cidade, contribuem para a descontinuidade urbana: então não teremos cidade viva e as pessoas vão ficar protegidas nos seus apartamentos, entrando para eles directamente pelas garagens e ligando muito pouco ao que se passa lá fora.

O espaço urbano seguro é, como se tem defendido, o espaço vivo e acolhedor, e é sempre o espaço da continuidade urbana, naturalmente visível e apropriado pela comunidade ou por cada pessoa ou família. E quando pertença da comunidade este espaço tem de ser uma espécie de sala de estar da vizinhança ou mesmo da cidade, um espaço com o qual se deve interagir naturalmente a partir das janelas que o rodeiam, desenvolvendo-se um controlo do espaço público muito natural, pela continuidade do espaço que é criada e pelas atraentes referências urbanas de orientação que povoam esta continuidade urbana, e que são elas próprias estratégicos e vitais elementos de segurança urbana, como é o caso dos acessos às habitações e às lojas.

Quanto às matérias de ligação entre a reabilitação urbana e a segurança pública elas podem ser sintetizadas referindo-se que os aspectos urbanos mal desenvolvidos ou não desenvolvidos, como a excessiva concentração de grupos sociais sensíveis, a utilização de mega-edifícios impossíveis de gerir, o uso de tipologias habitacionais inadequadas, a ausência de equipamentos de vizinhança e conviviais, a deficiente ou ausente continuidade urbana, as acessibilidades citadinas deficientes e a ausência de vizinhanças e espaços exteriores úteis e amigáveis, são aspectos que terão de ser abordados e resolvidos, caso a caso, com especial sensibilidade humana, social e urbana, em sede de um projecto de regeneração urbana com especial qualidade, feito por arquitectos, e informado e acompanhado por um amplo leque de outros técnicos, entre os quais especialistas em segurança pública.

Para terminar aponta-se que, tal como refere Jane Jacobs (1961) (6) “a primeira coisa que deve ficar clara é que a ordem pública não é mantida basicamente pela polícia, sem com isso negar a sua necessidade. É mantida fundamentalmente pela rede intrincada, quase inconsciente, de controles e padrões de comportamento espontâneos… a segunda coisa é que o problema da insegurança não pode ser solucionado pela dispersão das pessoas... Numa rua movimentada consegue-se garantir a segurança; numa rua deserta não… Deve ser nítida a separação entre o espaço público e o espaço privado…; devem existir olhos para a rua…; a calçada deve ter usuários transitando ininterruptamente, para induzir olhos atentos na rua assim como observação da rua a partir dos edifícios... Desde que a rua esteja bem preparada para lidar com estranhos, desde que possua uma demarcação eficaz de áreas privadas e públicas e um suprimento básico de atividades e olhos, quanto mais estranhos houver, mais divertida ela será. Os estranhos são um trunfo enorme … principalmente de noite, quando a segurança é mais necessária.”

E aproveita-se para sublinhar que em tudo o que se refere à segurança urbana é essencial dedicar uma atenção muito cuidadosa aos aspectos da iluminação nocturna, da sua eficácia, durabilidade e adequação da respectiva imagem urbana, considerando, entre outros pormenores, que a tendência da sociedade poderá ser, muito provavelmente, um crescimento gradual e seguro dos horários diversificados num cenário citadino que cada vez mais decorrerá 24 sobre 24 horas; e nesta matéria são importantes os recentes estudos que, sobre esta matéria da iluminação artificial urbana, tem realizado Roger Narboni (1995) (7).

Concluindo esta matéria crucial e com grande reflexos no desenho da arquitectura residencial e urbana, sublinha-se que não se está aqui a defender um urbanismo residencial securitário, mas sim um habitar seguro, uma das condições para um habitar humanizado, pois, tal como é defendido numa obra recente, coordenada por Gérald Billard (2005) (8), há que harmonizar o objectivo securitário no conjunto das transformações que se estão a operar nos modos de vida citadinos, nas relações sociais e com os espaços do habitar, considerando o grande risco para a sociedade que está já bem presente, e que se poderá avolumar criticamente, nas posições extremas e tipificáveis, por um lado, de auto-clasura e, por outro, de “super-vigilância”.

E em toda esta temática é fundamental uma ampla discussão e divulgação das matérias associadas à segurança arquitectónica residencial, com especial atenção a estas "novas" matérias da relação entre a concepção urbanística pormenorizada e a melhoria das condições de segurança.

Notas:(3) Claude Lamure, "Adaptation du logement à la vie familliale”, 1976.
(4) Luís Soczka, "Espaço Urbano e Comportamentos Agressivos - da Etologia à Psicologia Ambiental", 1984.
(5) Ana Gerschenfeld, "No futuro: O cancro como doença social", Público, P2, pg. 3, 11 de Dezembro 2010.
(6) JACOBS, Jane, “Morte e vida das grandes cidades”, trad. Carlos Mendes Rosa, 2001 (1961), pp. 32, 35, 36 e 41.
(7) Roger Narboni, "La Lumière urbaine", 1995.
(8) Gérald Billard, Jacques Chevalier e François Madorée, “Ville fermée, ville surveillée: La sécurisation des espaces résidentiels en France et en Amérique du Nord", 2005.

Notas editoriais:(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
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Edição de José Baptista Coelho
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Infohabitar, Ano VII, n.º 333, 13 de Fevereiro de 2011