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domingo, dezembro 12, 2010

324 - A Casa dos Sentidos de Sérgio Fazenda Rodrigues - Infohabitar 324

Infohabitar, Ano VI, n.º 324


Brevíssimas palavras iniciais

Edita-se, em seguida, um texto que escrevi como comentário de apresentação ao livro de Sérgio Fazenda Rodrigues, intitulado "A Casa dos Sentidos - Crónicas de Arquitectura", cuja primeira edição se encontra já quase esgotada, mas que poderá ser ainda encontrado nas livrarias. A edição é da arqcoop e os desenhos que se juntam no artigo, que se segue, são apenas alguns daqueles com que o autor abre as suas crónicas.

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho




Fig. 01: a capa de "A Casa dos Sentidos - Crónicas de Arquitectura"

Escreveu Joaquín Arnau que "a soma dos hábitos constitui a habitação" e que "a habitação é a função que propicia e decanta a Arquitectura" ("72 Voces para un Diccionario de Arquitectura Teórica", Celeste Ediciones, 2000). Considera-se, assim, o habitar, provavelmente o tema-base ou central da Arquitectura, mas de uma Arquitectura emocionada.

Esta é uma das perspectivas sobre as quais é possível fazer uma aproximação a este livro de Sérgio fazenda Rodrigues, um livro de um habitante, da casa e da cidade, aliás arquitecto, aliás também alguém que desenha, e que fala sobre esse tema central da Arquitectura que é o habitar, mas exactamente numa perspectiva de habitante, um habitante que marca e é marcado pelos seus entornos, como deve acontecer com todos os habitantes; embora, neste caso, haja que contar com uma sensibilidade e uma base de conhecimentos específicos, que depois acabam por nos ser devolvidos em textos de grande clareza e agradabilidade de leitura; aspecto que considero de grande importância como à frente se explicará.

Nestas áreas da leitura e da interacção com o espaço obrigatoriamente muito amplodo habitar, onde a cidade deve ser uma casa grande e esta uma pequena cidade, não podemos esquecer que, tal como escreveu Christian Norberg-Schulz, "a arquitectura se preocupa com algo mais do que necessidades práticas e economia. Ela trata de significados. Os significados derivam de fenómenos naturais, humanos e espirituais, e são experimentados como ordem e carácter. A arquitectura traduz estes significados em formas espaciais. As formas espaciais em arquitectura não são nem Euclidianas nem Einsteinianas. Em arquitectura as formas espaciais significam lugar, percurso e domínio, isto é, a estrutura concreta do ambiente humano. Por isso a arquitectura não pode ser satisfatoriamente descrita através de conceitos geométricos e semiológicos. A arquitectura deve ser entendida em termos de formas significantes."

E temos assim, aqui, salientada a importância dos múltiplos e ricos sentidos que se podem e devem viver nas casas e cidades bem habitáveis, desde que estas sejam verdadeiras casas de sentidos, de sentimentos e de carácter. E seguindo um ponto de vista complementar há que sublinhar que é tempo de a habitação não ser mais considerada como um bem de consumo que responde a imperativos funcionais, mas, essencialmente, como um bem cultural; pois
o habitar deve deslocar-se, tal como diz Jean Nouvel, “para o domínio dos bens de consumo culturais, domínio para o qual está a evoluir realmente uma parte da sociedade.”
Numa outra perspectiva, de certa forma gémea daquela que foi referida, podemos considerar que habitar melhor casas e cidades marcadas por vizinhanças e sequências de vistas e de espaços estimulantes é uma condição que nos proporcionará, provavelmente, uma relação mais estreita com a expressão artística num sentido amplo, e, como reflexo deste cenário de vida estimulante, muito provavelmente a própria arte urbana, nas suas diversas expressões e presenças bem próximas dos espaços do habitar, é muito provavelmente condição importante para um viver com mais satisfação, com mais sentidos e com mais sentido.

Por tudo isto não devemos ter quaisquer dúvidas de que há muito mais num habitar amplo e bem qualificado para além das matérias racionais e funcionais, e está na hora de aprofundarmos e debatermos esse "muito mais" pois, por um lado já se viu onde essa parcialidade funcional na abordagem do habitar nos levou, às tantas cidades e casas sem sentidos e com muito pouco sentido, e porque se há uma altura adequada para avançarmos nestas matérias, é agora neste nosso novo século das cidades, das grandes cidades e de tanto espaço urbano sem sensibilidade, e sem identidade; caso contrário temos e teremos um presente e um futuro muito complicados.

Importa ainda considerar que numa vida actual marcada pela falta de tempo para quase tudo, pela absurda normalização e descaracterização dos espaços domésticos, e pela vivência autista nesses espaços, de costas viradas à convivência urbana, num século que se iniciou sem ideologias e com a ideia de que certas qualidades, como o convívio, a solidariedade e até a própria capacidade poética, seriam meras perdas de tempo sem sentido; e que afinal acorda para problemas de qualidade de vida diária que muitos pensavam serem já fantasmas do passado, é talvez a boa altura de nos determos sobre o que pode ser uma verdadeira qualidade do nosso habitar no dia-a-dia e nos nossos cenários de vida, um habitar que tem de englobar vizinhança e cidade, e que tem de contar com uma expressiva dimensão qualitativa e extensa, profunda e diversificadamente sensível.



Fig. 02: um dos desenhos de Sérgio Fazenda Rodrigues, que acompanham a sua "Casa dos Sentidos"

Mas como tratar estas matérias sem nos especializarmos em tantos temas do saber ou sem nos transformarmos naquilo que Eduardo Cintra Torres definiu, há poucoss dias, no jornal Público (3 Dez 2010) como "tudólogos" - "especialistas em tudo" e que tantas vezes tão pouco sabem?

Temos por um lado de encontrar os “postos avançados” das diversas áreas de conhecimento que estabeleçam contactos privilegiados com as áreas da arquitectura do habitar, e devemos, nós próprios, arquitectos e interessados por estas matérias artísticas, arquitectónicas e urbanas, identificar as temáticas que mais se ligam a uma ampla, rica e sensível satisfação de quem habita, por um lado, e a uma gradual e consistente construção de uma cidade digna e estimulante, procurando, neste caminho, deixar de lado uma nossa eventual formação disciplinar, mais específica ou especializada, e usar, essencialmente, as ferramentas operacionais de que dispomos em termos de leitura aprofundada de espaços e ambientes, colocando-as ao serviço de habitantes e moradores, para daí retirar ideias, apontamentos e caminhos sobre como avançar nessas cidades e casas dos sentidos de todos e que cumpram um sentido comum de grande qualidade cívica e convivial.

Naturalmente, o livro aqui apresentado - "A Casa dos Sentidos - Crónicas de Arquitectura" - é exemplo do bom uso dessas ferramentas de leitura e de divulgação do bom habitar.

Naturalmente que há franjas de actividade que são privilegiadas neste tipo de abordagem, e nelas há que salientar, seja os ficcionistas e jornalistas que trabalham bem nas áreas do habitar casas e cidades, seja os arquitectos que têm algum à-vontade no construir de crónicas e textos sobre esses temas, mas visando um público o mais amplo possível.

O Sérgio Fazenda Rodrigues encontra-se neste último grupo e junta, ainda, a este perfil de divulgador dos aspectos qualitativos do habitar, o sentido da ilustração destas qualidades; matéria que considero ser de grande valia, pois, por um lado, custa-me sempre muito a entender o divórcio entre arquitectar e desenhar, e tenho ainda a certeza que esta aliança corresponde, neste caso a uma relação forte e genuína.

E assim o autor escreve e desenha sobre a arquitectura e o cinema, museus e cidades, portanto memórias vivas; penumbras e fronteiras do olhar, o cheiro das casas e das cidades, toques sedutores, música e arquitectura, o sentido íntimo das escadas dos muros e dos materias, limites, espaços e comportamentos, o sentido do fogo, coisas guardadas, reunião à volta da mesa, o corpo e a arquitectura, cafés habitados, maquetas e presépios, sótãos caves e memórias, e luz e vistas das cidades.

O autor ajuda-nos, assim, a encarar o habitar numa renovada e urgente perspectiva: como "objecto mais adequado para experimentar ideias e afirmar conceitos," um pouco como apontou Richard Weston (1):

. como coisa/sítio "entre a realidade e o desejo, entre o corpo e o sonho, entre o possível e o desejado", como pormenorizou Vicente Verdú (2);

. e um habitar que nunca deverá ser apenas o que tantos de nós designam como boas casas, mas realidades também caracterizado "pelo seu «poder espacial» e pelos «aspectos arquitectónicos» que coloca e a que respondem”, tal como sugere Kazuhiro Kojima (3).

E tudo isto se liga a uma afirmação de Leonardo Benevolo e Benno Albretch que não consigo deixar de citar nas minhas últimas intervenções e que sublinha que “os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza.” (4)

Uma afirmação que afinal faz salientar que os bons espaços de habitar têm de aliar aos aspectos básicos de funcionalidade, o desenvolvimento de uma caracterização arquitectónica residencial que os torne de certa forma únicos em termos de imagens e de relações de imagens e em termos de espaços e ambientes e de relações entre espaços e ambientes; casas multisensoriais e casa cheias de sentido! Poderemos concluir.




Fig. 03: outro dos desenhos de Sérgio Fazenda Rodrigues, que acompanham a sua "Casa dos Sentidos"

E, afinal, casas bem distintas daquelas "caixas sobrepostas onde vivem os habitantes da grande cidade" daquelas caixas nas quais "o número da rua e a designação do andar fixam a localização do nosso «buraco convencional»", sem "espaço à volta dela, nem verticalidade...", sem "raiz", todas estas, características daquilo que Gaston Bachelard designou como um "alojamento refugiado num andar" e sem "os princípios fundamentais para distinguir e clarificar os valores da intimidade". (5)

Porque habitar tem de ser, verdadeiramente, sentir, marcar, apropriar e desenvolver um contexto caloroso, exterior e interior, um contexto bem integrado num viver a cidade das proximidades e a cultura expressivamente urbana e diversificada, numa vivência que tem de ser integrada e natural, e em contextos que nos animem através de conjuntos de aspectos que nos falem, em cada sítio, de um habitar “único”, não monótono, não mudo e sempre em relação estreita e dialogante com a cidade. Todos estes, aspectos que são determinantes num habitar multisensorial que verdadeiramente nos entusiasme, porque não deveríamos pedir ao habitar menos que isso: que nos entusiasme! E para tal precisamos de muitas casas dos sentidos!
Notas:
(1) Richard Weston, “A casa no século vinte”, 2002, p.7.
(2) Anatxu Zabalbeascoa, “La casa del arquitecto”, Ed. Gustavo Gili, p.6, 1995.
(3) Kazuhiro Kojima, “What is a «Good House»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, pp. 14 e 16.
(4) Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “As Origens da Arquitectura”, 2002, p.9.
(5) G. Bachelard, "La Poétique de l'Espace", p. 30.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar n.º 324, 12 de Dezembro de 2010

segunda-feira, outubro 05, 2009

266 - Vivências e vivendas II - Infohabitar 266

Infohabitar, Ano V, n.º 266

Vivências e vivendas IIartigo de António Baptista Coelho

Como foi referido no primeiro artigo desta série a ideia de escrever sobre "a vivenda", em termos gerais, mas essencialmente sobre os aspectos de humanização do habitar suscitados pela ideia de "vivenda", decorreu, directamente, de um pequeno e belíssimo artigo de Miguel Esteves Cardoso, intitulado “Vivenda Boa Esperança” e que foi editado no Público. (1)

Lembrei-me, depois, de associar às palavras a editar sobre este assunto, algumas ideias com as quais abri, há poucos anos, um estudo realizado, publicado e disponível no LNEC sobre o título “habitação humanizada” (2), para o qual se poderão dirigir aqueles que queiram aprofundar estas temáticas.

Ainda antes de apontar mais algumas ideias sobre os caminhos da observação e da concepção de verdadeiras "vivendas", daquelas que nem têm de ser especialmente caras, inovadoras e "únicas"/exclusivas para nos ampararem e darem força e até alguma alegria no dia-a-dia e ao longo das nossas histórias de vida, quero fazer uma brevíssima referência a um novo livro, recém-editado (o lançamento teve lugar na Sociedade Nacional de Belas Artes em 2 de Outubro de 2009), e que tudo tem a ver com estas matérias. Trata-se da "Casa dos sentidos - crónicas de arquitectura", da autoria do Arq.º Sérgio Fazenda Rodrigues, editado pela ARQCOOP (www.arqcoop.com e atc.publicacoesol.pt), e onde entre diversos textos, agradavelmente intercalados por desenhos, vamos viajando por muitos sítios que marcam a verdadeira vivência que é desejável e possível numa cidade viva e humanizada, daquelas cidades que vão até à casa de cada um e daquelas casas que, por vezes, até estão mesmo no meio da cidade; no seu livro Sérgio Fazenda Rodrigues guia-nos nos olhares, nos usos, nas passagens e nos afectos,entre muitos sítios verdadeiramente citadinos e os espaços sentidos dos habitares mais íntimos, dos "cafés" aos espaços particularizados domésticos. É, portanto, um daqueles livros para ler e reler, ao sabor da vontade e enquanto, desejavelmente, vivenciamos espaços como esses.



Fig. 01

Lembrando, agora, o que aqui se abordou no primeiro artigo desta série sobre "vivências e vivendas", introduziu-se uma proposta de discussão e de aprofundamento de uma ideia considerada fundamental: pensar o habitar como verdadeiro espaço vivencial, como força integradora da vida do homem, como espaço/ambiente naturalmente interactivo e capaz de influenciar positivamente (ou negativamente) o dia-a-dia e os caminhos de vida e os objectivos dos seus habitantes; e note-se, aqui, uma tónica já um pouco mais prospectiva que aponta os meios do habitar como albergando um potencial claramente influenciador de linhas de vida individuais e familiares.

Naturalmente que a ideia do habitar como espaço vivencial e força integradora da vida do homem, marcou directa e indirectamente, pela positiva e pela negativa, toda a história humana desde a revolução neolítica, pois, afinal e tal como afirmou Christian Norberg-Schulz:

“Durante a maior parte da história a cidade foi a civitas , o mundo conhecido e seguro no meio de uma envolvente desconhecida. As suas qualidades primárias são a singularidade e identificabilidade... e dentro da cidade a casa realmente representa a necessidade básica de «estar num dado sítio.» Esta é a função essencial do habitar, e a casa continua a ser o espaço central da existência humana, o sítio onde a criança se desenvolve e começa a conhecer o seu próprio ser e a sua posição no mundo e o lugar do qual o homem parte e ao qual ele retorna.“ (3)

E o habitar num sentido de vivência que atravesse e marque, positivamente, a casa, a vizinhança e a cidade, pode e deve ser motivo de criação e recriação de uma tal caracterização e humanização, pois a cidade tem de ser um enorme, mas sensível e diversificado, espaço de vivências e de vivendas, a tal cidade feita de muitas cidades afectivas e efectivas; um amplo e rico espaço feito de cidades íntimas, mutuamente articuladas, e de cidades públicas, onde o anonimato e uma culta atractividade são qualidades que se harmonizam com segredos só gradualmente conhecidos, e sempre redescobertos, pelos seus mais experimentados habitantes.


Fig. 02

Nestas matérias é de extrema importância a ampla divulgação de textos e de opiniões, de descrições, de relatos e de testemunhos, de sentimentos e de análises, que abordem e comentem estas formas essenciais de poder habitar, com uma máxima qualidade de vida, "vivendas" (habitações amigáveis e estimulantes), vizinhanças (vivendas de proximidade), partes de cidades (cidades/bairros intensamente vivenciados) e cidades centrais. E é igualmente importante que esses textos sejam claros e possam chegar a um máximo de pessoas, muito para além dos "especialistas" nessas áreas e dos muitos que, não sendo especialistas, tenham e sintam ter muito a ver com tais assuntos. É portanto necessário divulgar amplamente a importância que tem, para cada um de nós e para a sociedade local e global, a possibilidade de podermos viver melhor as nossas casas, vizinhanças, partes de cidades e cidades centrais; e neste caminho, como em muitos outros, são fundamentais os exemplos e os "fazedores de opinião".

Em Portugal, a obra construída e escrita, bem como a própria vida, de Nuno Teotónio Pereira constituem o exemplo claro da importância e da grande oportunidade desta temática da ligação forte entre a Arquitectura e o habitar, entre o desenho e a satisfação de quem vive depois esse "desenho", entre as bases da concepção arquitectónica e um verdadeiro serviço ao homem habitante e à cidade habitada, e, portanto à sociedade. Não é por acaso que o livro de síntese da obra de Nuno Teotónio se intitula “Arquitectura e Cidadania - atelier Nuno Teotónio pereira” (Quimera Editores, 2004, www.quimera-editores.com) e também não é por acaso que em cada um dos seus novos artigos está sempre presente a matéria da humanização do habitar nas suas mais diversas e coerentes formas, visando sempre uma “habitação para a vida.”

No que se refere aos "fazedores de opinião" em Portugal há, felizmente, muitos escritos de gente que não é, profissionalmente, da arquitectura e do habitar, mas que dela fala com grande acuidade, interpretando as fundamentais preocupações de uma vida humanizada. São muitos os escritores, comentadores e cronistas que aqui mereceriam ser nomeados; alguns, infelizmente, já falecidos, mas, naturalmente, bem presentes no seu pensamento. E fazem-se, em seguida, sem qualquer ordem de importância, apenas breves referências às colectâneas de António Pinto Ribeiro (4), a muitos dos livros de Mário de Carvalho, a muitas das extraordinárias “Casas encantadas” de João Bénard da Costa, a muitas das crónicas de Eduardo Prado Coelho, aos inspiradores artigos e textos curtos de Jorge Silva Melo, José Saramago, António Lobo Antunes, José Eduardo Agualusa e Miguel Sousa Tavares; como atrás se disse, entre outros.

Assim se destaca a importância e a riqueza destas verdadeiras pontes entre o sentir as boas casas e as boas cidades, nestes pequenos/grandes textos lidos por muitos, e o urgente caminho de humanização e clara e positiva qualificação do habitar casas e cidades em Portugal. E, assim, através destes textos e de muitas outras colaborações, designadamente de jornalistas, é possível perceber que a preocupação profunda com uma qualidade do habitar verdadeiramente humanizada, afectiva e integrada começa, talvez, a cruzar mais intensa e frequentemente a sociedade (espera-se e deseja-se); o que constitui um sinal de esperança embora apenas e infelizmente um sinal que é urgente intensificar - e bem a propósito regista-se que as crónicas de Sérgio Fazenda Rodrigues (acima referido) se reportam a uma colaboração regular do respectivo autor no jornal "Açoriano Oriental, e nesta linha há toda a oportunidade no sublinhar dos magistrais, embora infelizmente raros, artigos de Nuno Portas na imprensa diária e, naturalmente, da colaboração regular de Arq. Manuel Correia Fernandes no Jornal de Notícias com crónicas extremamente actuais e que ligam matérias da Arquitectura e da Cidadania - e apresentam-se, desde já, sinceras desculpas para com um registo que não se pretendeu exaustivo, mas que mesmo assim esqueceu, sem dúvida, outras "nossos" (em língua portuguesa) artigos e crónicas que estabeleçam conjugações fundamentais entre a Arquitectura e o bem-viver a casa e a cidade, e aqui há, com toda certeza, um excelente manancial, que desconheço, por exemplo, no grande Brasil.


Fig. 03

Considera-se que é, assim, muito importante recolher e suscitar, sempre que possível, quer as opiniões de não arquitectos e de não especialistas do habitar sobre os "mistérios" de uma melhor "vivenda" e de como poderá ser uma cidade melhor vivenciada, quer as opiniões de especialistas nessas matérias, mas vestindo o "fato" de cidadãos bem informados que, "de fora", opinam sobre tais assuntos. Trata-se de uma maneira estratégica de se aprofundarem verdadeiras ligações privilegiadas entre o que se poderá desenhar e os rumos que estruturam a satisfação dos moradores.

Pois, afinal, não deve haver barreiras, e muito menos barreiras estanques, entre matérias ou facetas da arquitectura do habitar e o seu impacto - leitura e vivência - no viver habitações e cidades vivas, isto desde que essa arquitectura do habitar seja considerada como uma disciplina basicamente humana e humanizadora; que nascida e sempre renascida de fundamentais consensos, apoiados em boas práticas, possa ir criando um sentido de casa comum envolvente e significante: casa comum que envolva casas privadas agradáveis e estimulantes e envolvida por uma "casa comum" citadina também agradável e estimulante - naturalmente em proporções diversas e distintas de agradabilidade e de estímulo.

Um exemplo desta perspectiva integradora, que se defende, entre a concepção do habitar e um verdadeiro serviço à sociedade, está também expresso nos três principais objectivos estatutários do Grupo Habitar (GH) - Associação Portuguesa Para a Promoção da Qualidade Habitacional, uma associação de natureza técnica e científica, que tem sede no LNEC e criada em Janeiro de 2004; citam-se então esses objectivos:

(i) Estudar e discutir o habitar numa visão ampla, multidisciplinar e integrada, numa perspectiva teórico-prática que considere uma visão prospectiva fundamentada sobre o que poderá/deverá ser o espaço habitacional, em Portugal, neste novo século, assegurando-se a análise consistente do que já foi estudado e realizado, numa perspectiva que privilegie os casos português, europeu e da CPLP.

(ii) Tratar o habitar no respeito pelos seus diversos níveis físicos, da célula/fogo aos bairros na cidade, e pelos aspectos ligados quer à constituição de continuidades urbanas vitalizadas e à integração paisagística e ambiental, quer à qualidade de desenho de arquitectura, quer à qualidade construtiva, considerando durabilidade e equilíbrio de custos, quer à satisfação dos moradores e à preparação dos aspectos de gestão, quer às especificidades da habitação apoiada e a custos controlados.

(iii) Promover a nível nacional, o progresso e a difusão dos conhecimentos teórico-práticos sobre o habitar, designadamente, através da observação, do estudo e da discussão das realidades e da problemática habitacional, participar no aprofundamento de uma política habitacional adequada, apoiar iniciativas que contribuam para a resolução dos problemas existentes nos domínios da habitação, do urbanismo residencial, do ambiente urbano habitacional e da construção residencial, e colaborar com organismos e associações congéneres e suscitar a participação portuguesa em programas internacionais, no domínio da habitação, com interesse para o País.

Estas matérias, hoje fundamentais, de procurar, a todo o custo, pontes de compatibilização entre a "moradia" que se desenha e a "moradia" que nos satisfaz, encontram uma outra linha de aprofundamento prático e teórico na constatação da urgente actualidade da relação entre o habitar e a cidade, incluindo-se, aqui, seja os problemas de um habitar, frequentemente, inadequado a velhos e novos usos e desejos de "moradia", seja os problemas de uma cidade em crescimento crítico e que se debate com problemas que nunca conheceu antes.


Fig. 04

Esta relação fica bem evidenciada num texto de Luís Fernández–Galiano, que a seguir se cita, e que constituiu um dos seus excelentes editoriais, na também excelente revista madrilena Arquitectura Viva (nº 97, 2004); editorial intitulado “O problema da habitação tornou-se o problema da cidade.”

“Durante el siglo XX, la transformación urbana provocada por la mecanización de la agricultura y los flujos migratorios del campo a la ciudad suscitó el llamado ‘problema de la vivienda’. Los países pioneros de la industrialización lo conocieron antes, y el hacinamiento insalubre del proletariado urbano fue el telón de fondo de la promesa higienista de la arquitectura moderna, que se alimentó del mismo espíritu regeneracionista y la misma indignación moral que los proyectos del socialismo utópico o las denuncias del marxismo revolucionario en el siglo anterior.
En los primeros compases del XXI, y en el marco del mundo desarrollado, el alojamiento no es ya una preocupación cuantitativa o sanitaria, sino cualitativa y ambiental: garantizadas las dimensiones mínimas, la ventilación eficaz y el soleamiento salutífero, la vivienda contemporánea adolece de mediocridad visual, programas rutinarios y entornos anoréxicos... el resto de la población urbana de Occidente no se enfrenta a dilemas dramáticos en el terreno de la vivienda. La burbuja imobiliaria, es cierto, ha arrojado a los jóvenes a las periferias más inhóspitas, y la creciente fragmentación de los grupos familiares –sumada a la pujanza imparable de la residencia individual – multiplica la demanda de viviendas cada vez más pequeñas.

Esta hipertrofia amorfa de las ciudades con ‘urbanismo basura’, para formar una Babel horizontal de barrios anónimos y urbanizaciones exánimes – semejantes en su estructura morfológica a metástasis celulares o a cultivos bacterianos –, es el desafío más significativo al que se enfrenta la voluntad política o ciudadana de diseñar una geografía voluntaria que exprese en el paisaje físico la genuina naturaleza del cuerpo social. Es inevitable pensar que, independientemente de nuestros deseos, la degradación formal de la ciudad contemporánea es una fiel representación del deterioro del organismo colectivo:
La vivienda no es hoy un problema que reclame experimentos estéticos o innovaciones estilísticas; es un problema urbano, de la civitas o la polis, es decir, ciudadano y político. Necesitamos más arquitectura; pero, sobre todo, necesitamos más ciudad.”
E é também por esta urgente necessidade de uma cidade mais arquitectada e, simultaneamente, mais habitada, que aqui se defende que a abordagem do habitar e da concepção da "boa-vivenda" é um caminho que tem de seguir, quer percursos mais objectivados e associados a preocupações exigenciais e programáticas, quer percursos que considerem as boas práticas e que visem ambientes marcados pelo homem e especificamente pelo espírito humano.

De certa forma as “tipologias (d)e caracterização dos níveis físicos residenciais”, que integram o livro "Do bairro e da vizinhança à habitação", LNEC, ITA 2, seguidas dos “Rumos e factores de análise da qualidade arquitectónica residencial” (LNEC, ITA 8), livros estes que realizei e editei no LNEC entre 1998 e 2000, baseados no enquadramento disciplinar de António Reis Cabrita - no livro "O Homem e a Casa", editado também no LNEC em 1995 -, integram uma perspectiva que já se aproxima claramente destas matérias da humanização do habitar, contrapondo-se, assim, positiva e complementarmente, a uma aproximação "mais objectiva" da qualidade residencial - via esta também desenvolvida e editada no LNEC, recentemente, através do Programa Habitacional" de João Branco Pedro.

Procura-se, assim, dar corpo efectivo a um aprofundamento qualitativo e abrangente, ligado por um lado à paisagem e, por outro, aos aspectos emocionais, identificadores e socializadores que marcam de facto a vida do homem urbano e que, hoje em dia, numa sociedade repetitiva e globalizadora, estão cada vez mais na ordem do dia, pois uma boa "vivenda", bem integrada numa cidade agradável e viva, será, sem dúvida, fundamental, quer para que o homem aguente todas as pressões a que hoje em dia está submetido, quer para que possa "dar a volta" a tais pressões e possa profundar os aspectos fundamentais da sua humanidade e civilidade.

A nota que se fez sobre diversos livros disponíveis na Livraria do LNEC e que versam exactamente estes assuntos, é que é importante tomar certos estudos como bases estratégicas, para depois se avançar profundamente nestes temas, sem dúvida complexos mas sempre apixonantes, da necessária aliança entre concepção e satisfação residencial, e havendo resultados publicados de estudos específicos, sobre esta temática, feitos no Núcleo de Arquitetura e Urbanismo (NAU) do LNEC, então fará todo o sentido aproveitá-los ao máximo, para se conseguir chegar mais longe nesta área; foi sempre esta a "filosofia" de trabalho do NAU do LNEC, desde Nuno Portas, e por isso aqui se faz esta referência.

Ainda numa perspectiva de divulgar bases de referência nestas matérias, designadamente, no espaço da lusofonia, salientam-se os trabalhos e livros disponíveis na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), sendo urgente e extremamente apelativa a constituição de uma plataforma de divulgação e de apoio a estudos nestas áreas que poderia ter a ver com estas entidades e com outras onde tais preocupações estão, actualmente, em claro desenvolvimento.


Fig. 05

Com esta perspectiva salientam-se, aqui, ainda e desde já, entre outras entidades cujos trabalhos sem dúvida desconhecerei (e às quais apresento as minhas prévias desculpas pela ausência de referência), os trabalhos e estudos desenvolvidos e editados, em Portugal: no Departamento de Arquitectura e Urbanismo do ISCTE-IUL; no âmbito da formação em Arquitectura e no recente Doutoramento em Arquitectura do Intituto Superior Técnico; e na formação em Arquitectura proporcionada pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

No Brasil devo referir os excelentes estudos desenvolvidos em São Carlos - São Paulo e julgo que igualmente ligados à FAUUSP, os trabalhos realizados na Universidade Federal do Rio de Janeiro e os estudos sobre o bom habitar e a "boa vivenda" desenvolvidos na Universidade Federal de Pernambuco; e aqui também, com certeza fui muito injusto, para com muitos estimados colegas e excelentes grupos de trabalho e instituições, mas fala-se do que se conhece e naturalmente tentarei remediar tal situação à medida que for conhecendo os trabalhos realizados e divulgados nestas áreas por outros centros de estudo da lusofonia.


Fig. 06

O segundo artigo desta série sobre os aspectos de humanização do habitar suscitados pela ideia ampla de "vivenda" termina aqui, mas não antes de se lançar o tema que corresponderá ao terceiro e, para já, último texto da série e que abrirá a porta ao aprofundamento dos significados, formas e relações que desde sempre têm conformado os espaços habitados, assuntos estes estimulantemente desenvolvidos num ainda recente estudo de Simon Unwin (5), e um assunto que, de certa forma se debaterá, entre o facto de estarmos a experimentar, actualmente, uma serena revolução de formas de habitar e de conteúdos vivenciáveis, que estão a marcar e irão estruturar este novo século, e a impossibilidade de habitarmos a ficção ou a realidade virtual, embora esta aí esteja, bem presente no nosso dia-a-dia; pois, afinal, e tal como refere Luís Fernández – Galiano, “os corpos físicos não podem ainda habitar espaços virtuais”:

“Los cuerpos físicos no pueden aún habitar espacios virtuales, por más que las nuevas élites cinéticas aspiren a la misma deslocalización incorpórea de la información o el dinero, permanentemente en tránsito por las redes de un mundo enmadejado de flujos. En los sueños domésticos reside la capacidad de la arquitectura para alimentar la promesa de una vida mejor. Esta promesa, sin embargo, es hoy en buena medida ficticia: las fantasías domiciliadas en la casa están en irónica contradicción con la multiplicación caudalosa de las promociones residenciales que consumen el territorio con su metástasis implacable, devastando a la vez la ilusión de una arcadia campestre y el mito elusivo de la casa individual.” (6)

Notas:(1) Miguel Esteves Cardoso, “Vivenda Boa Esperança”, Jornal Público, 16 de Setembro, 2009.
(2) António Baptista Coelho, Habitação Humanizada – TPI 46, LNEC, Lisboa, Julho de 2006, 577 p., 121 fig; e Habitação Humanizada: Uma apresentação geral – Memória 836, LNEC, Lisboa, 2007, 40 p., 19 fig.
(3) Christian Norberg-Schulz, Meaning in western architecture, Londres, Studio Vista, 1984 (1974), p. 224.
(4) RIBEIRO, António Pinto, Abrigos: condições das cidades e energia da cultura, Lisboa, Edições Cotovia, 2004, 223p.
(5) UNWIN, Simon, Analysing Architecture , 2002, 49p. 1254 vcii http://www.cf.ac.uk/archi/unwins/aawebs/aahome.html (22-10-2004)
(6) Luís Fernández – Galiano, Arquitectura Viva, nº Número 73 DOMICILIOS , El paisaje privado doce casos de casas,I, 2000

Nota editorial: embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Infohabitar, Ano V, n.º 266
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 5 de Outubro de 2009
Edição de José Baptista Coelho
Label: habitação, vivenda, habitação humanizada