quinta-feira, outubro 04, 2012

O JOGO DAS RELAÇÕES URBANAS: ATRAVÉS DAS PAREDES - I - Infohabitar 410


Infohabitar Ano VIII, N.º 410





Breve nota da organização do 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono - 2.º CIHEL: avisam-se os interessados que as fichas de inscrição no Congresso estarão muito em breve disponíveis no site do Congresso para download e serão, também, dentro de poucos dias, enviadas a todos os autores de resumos de comunicações aceites, salientando-se ser fundamental que o envio das comunicações completas seja acompanhado da respectiva inscrição do autor e apresentador.

A Comissão Organizadora do 2.º CIHEL

  (artigo da semana)

O JOGO DAS RELAÇÕES URBANAS:
ATRAVÉS DAS PAREDES - I
(ARTIGO XX DA SÉRIE HABITAR E VIVER MELHOR)

António Baptista Coelho



Inicia-se este artigo com a definição que Claire e Michel Duplay deram de “franja do Edifício": "a zona que o envolve desde o solo, à cobertura, passando pela fachada e o “lugar de expressão construtiva, de adaptação climática e de refúgio do imaginário" (1).

E comenta-se que as matérias do ambiente constituem, aqui, talvez, cerca de um terço da totalidade da matéria, que se desenvolve, igualmente, pela “expressão construtiva” e pelo “refúgio do imaginário” – e sobrarão ainda outras facetas arquitectónicas nesta franja entre interior e exterior, lugar estratégico das relações que são, afinal, a própria matéria-base da Arquitectura.



Fig. 01



Vários grandes projectistas têm insistido em que a Arquitectura é, essencialmente, um jogo de relações; por exemplo, Álvaro Siza referiu-o explicitamente e houve mesmo obras teórico-práticas que foram feitas exactamente nesta perspectiva da abordagem da franja entre edificado e espaço exterior.

Este é o caso do excelente “À Travers le mur”, de Jean-Charles Depaule (2), que trata em boa parte das tipologias associadas à casa urbana árabe, embora em constante relação com soluções europeias, e podemos referir com todas as paredes e tipologias urbanas e residenciais do mundo - embora sob "versões" extremamente diversificadas e ricas.




Fig. 02: E este jogo do "através das paredes" - ou "da parede!" -, também se joga através do verde urbano, por exemplo, e naturalmente através de muitos outros espaços e "dispositivos" de transição e limiar.


E neste jogo do “através das paredes” há muito potencial de satisfação/alegria e, naturalmente, de insatisfação e desgosto/depressão; pois muitos dos ganhos em termos de relações e caracterizações visuais do interior doméstico sobre o exterior público, e vice-versa, se conquistam neste através das paredes, nestes limiares, nestas transições de privacidades e de publicidades, e nestes enquadramentos estratégicos de vistas.

E é ainda neste jogo do “através das paredes” que se apontam e desenvolvem, se desperdiçam, muitas das possíveis vantagens ambientais, designadamente, em termos de estratégias de sombreamento, insolação, ventilação e iluminação natural também se podem ganhar neste ricos limiares arquitectónicos.

Nestas matérias importa ter presente que é, por vezes, pequena a distância/diferença entre uma relação urbana de proximidade, estimulante, humanizada e pitorescamente “escavada” e uma relação urbana concentracionária e, até, por vezes claustrofóbica, e, portanto, há que actuar com todos os cuidados.

Toni Marí Muñoz descreve este jogo da seguinte maneira:

"Dois âmbitos, o privado e o público, que se contrapõem. Dois espaços que se complementam. Dois egos com duas linguagens. Interior, exterior. Privacidade, publicidade. O meu, o de todos. Eu e os outros. O interior que mantém as ilusões frente ao realismo do exterior.... A ilusão de manter incólume a entidade/identidade através da inscrição em todo o lugar doméstico. A escrita do interior que consolida a memória da história pessoal: fotografias, ofertas, a viagem à Grécia, a cómoda da Avó. Memória do eu através das coisas e do afecto das coisas, inscrito na segunda pele, santo dos santos do domicílio particular" (3)



Fig. 03


Neste e jogo e nestas matérias, que são campo inesgotável de arquitecturas e designadamente de domesticidades e urbanidades arquitectónicas parece ser, realmente, muito interessante o duplo conceito proposto por Cullen de "paisagem interior” e de compartimento exterior" (4).

Nesta dupla, mas unificada, ideia parece estar muito do possível conteúdo da domesticidade interior e exterior, numa ideia de mundo de cada um em sua casa e de mundo residencial comum.

Muito do sentido de “casa no mundo”, protegida mas bem relacionada (e por isso melhor protegida), e o sentido de rua ou praceta “nossa”, onde também estamos verdadeiramente em casa, agradavelmente protegidos, identificados e bem próximos dos nosos sítios mais íntimos.

Mas para que tais ideias de projecto e de vida se concretizem é fundamental que elas joguem e bem o jogo arquitectónico das relações, dos limiares, das transições, das marcações; e tal jogo não está, decididamente, ao alcance de maus jogadores.

Notas:

(1) Claire e Michel Duplay, "Methode Ilustrée de Création Architecturale", pp. 138, 139 e 143.


(2) Éditions du Centre Georges Pompidou, Paris, Col. Alors; n.º 9, 1985.

(3) Toni Marí Muñoz, "Vivir en la Ciudad. El Exilio y el Reino", in Habitat, 4, p. 5.

(4) Gordon Cullen, "Paisagem Urbana", p. 30.


Notas editoriais:

(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.

(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.

(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

(iv) Para ser possível a edição de imagens no Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens - é usado o Photobucket; onde, devido ao grande número de imagens, se torna difícil registar as respectivas autorias. Desta forma salienta-se que, caso se pretenda usar essas imagens, se consultem os artigos do Infohabitar onde, sistematicamente, as respectivas autorias são registadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos do Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor abc@lnec.pt


Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Infohabitar, Ano VIII, n.º 410

Sobre o jogo das relações urbanas: através das paredes - I

Editor: António Baptista Coelho

Edição de José Baptista Coelho

Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

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