segunda-feira, maio 03, 2010

296 - Como fazer novos realojamentos e refazer os que foram mal feitos - Infohabitar 296

Infohabitar, Ano VI, n.º 296
Como fazer novos realojamentos e refazer os que foram mal feitos
artigo de António Baptista Coelho


Não podemos ter dúvidas de que toda e qualquer introdução de habitação de interesse social tem de ser encarada como uma oportunidade única, tanto de disponibilização de habitações adequadas aos seus habitantes, como de dinamização do equipamento e da vida urbana do respectivo sítio e sua envolvente.

Salienta-se, assim, e desde já que é vital assegurar uma sistemática simbiose entre introdução de habitação apoiada e de equipamentos urbanos, tanto em novos realojamentos como em acções de regeneração urbana; conclusões associadas a muitos anos de observações e estudos sobre o que se tem feito nessas áreas em Portugal e noutros países europeus.

Nestes estudos refiro uma longa sequência de trabalhos de observação periódica, análise sistemática e estruturação qualitativa residencial em que tive a oportunidade de participar, activamente, como Investigador do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil e que foram acompanhando boa parte das acções de promoção de habitação de interesse social e de realojamento desenvolvidas em Portugal no último quarto de século.

Sobre esta matéria a observação e os estudos têm chegado a conclusões razoavelmente consensuais, salientando-se, por exemplo, e em diversos caminhos temáticos e perfis de actuação específicos, quer um excelente recente trabalho espanhol intitulado, genericamente, "Habitar el Presente", coordenado por José Maria Montaner e Zaida Martínez (Habitar el presente, Vivienda en España: sociedad, ciudad, tecnologia y recursos, Madrid, Ministerio de Vivienda, 2006), quer um óptimo e recente estudo português, que tive a oportunidade de comentar, no ISCTE-IUL em Lisboa, já em Abril de 2010, intitulado “A concepção do espaço público em grandes bairros de realojamento como pressuposto estruturador dos processos de inserção social", desenvolvido por Pedro George, Ricardo Sousa Lopes e Filomena Gerardo e pelos consultores Eduardo Vilaça e Flávio Paiva, quer os dados sobre carências habitacionais em Portugal, apurados no âmbito do Plano Estratégico de Habitação, recentemente coordenado por uma equipa coordenada por Isabel Guerra, Augusto Mateus e Nuno Portas (disponível no site do IHRU), quer, finalmente, o excelente e bem actual Plano Local de Habitação para Lisboa, que foi elaborado e está a começar a ser aplicado sob a coordenação da Arqª e vereadora Helena Roseta (e que julgo estará disponível no site da CML).

Nesta área temática do “melhor fazer” a habitação de interesse social apoiada pelo Estado, e fazê-la melhor para melhor servir os habitantes, melhor utilizar os meios financeiros aí aplicados por todos nós e, simultaneamente, fazer melhor ou refazer melhor certas partes de cidade, é oportuno sintetizar, desde já, que há excelentes exemplos e uma significativa quantidade de “habitação de interesse social”, bem desenvolvida em Portugal nos últimos 25 anos, mas houve, mesmo neste período, excepções muito negativas de desintegração urbanística, conjuntos massivos, tipologias inadequadas, repetição doentia de projectos e má qualidade de desenho; e no período anterior, entre cerca de 1970 e 1984, que separou a promoção das Habitações Económicas – Federação das Caixas de Previdência, da promoção do Instituto Nacional de Habitação, já talvez não se possa falar de excepções, quando nos referimos a esses maus exemplos, mas tais matérias terão de ficar para outros textos.

Serão agora apontados, com brevidade, alguns caminhos a seguir, quer no urgente refazer do realojamento que foi mal feito quer no fazer do realojamento e das várias modalidades de habitação de interesse social que ainda falta fazer, e que em Portugal atingirá, globalmente, um número de habitações ainda muito significativo, e porventura hoje crítico considerando os problemas financeiros com que nos debatemos; e estas são razões suplementares para que não haja falhas qualitativas importantes no que agora se faça, sendo urgente melhorar as metodologias de enquadramento e avaliação do que se considera ser uma boa solução residencial, considerando especificamente as ligações entre qualidade de desenho e satisfação dos moradores, o que tem a ver naturalmente com processos de avaliação pós-ocupação que integrem uma importante faceta qualitativa.

Destacam-se, então, os seguintes aspectos:



Figura 01:

1 - Pensar pequeno e pensar com identidade e qualidade, porque a dimensão da intervenção urbana e habitacional potencia os respectivos aspectos positivos ou negativos.

E esta reflexão também nos pode e deve levar a dar mais atenção arquitectónica às intervenções de realojamento, fomentando uma sua disseminação forte e com boa presença .

E assim há que tratar com grande pormenor e exigência as intervenções com maior dimensão, fazendo-as passar por um crivo exigencial multidisciplinar e muito exigente, desde a escolha dos promotores que coordenem a intervenção, à escolha dos projectistas – por exemplo, apenas aqueles que já tenham feito bem o realojamento ( e em Portugal há 50 anos fez-se isto e para forçar a renovação dos projectistas obrigou-se esses gabinetes a contratarem arquitectos recém-formados) –, e à escolha e garantia da gestão local; e será ainda possível fasear e acompanhar em pormenor as maiores intervenções de forma estratégica. E não nos esqueçamos que em Portugal temos excelentes exemplos de bairros de habitação de interesse social desenvolvidos por cooperativas de habitação económica.


Figura 02:

2 - Não aplicar soluções-tipo, sistematicamente, porque além de se pensar pequeno ou de se pensar maior, mas com grande exigência, há que ter em conta que o bairro tipificado é o pior de tudo; e nesta matéria se o edifício-tipo repetido até à náusea é uma opção extremamente negativa, por ser contrária a quaisquer laços de identidade e apropriação, então o espaço público tipificado e repetido ainda consegue ser pior.

E não tenhamos dúvidas que mesmo o fogo-tipo só é menos negativo, quando há diversidade de tipologias e de variações tipológicas no mesmo conjunto, ou quando a solução doméstica é expressivamente adaptável a diversos usos.

E em toda esta matéria da tipificação habitacional não tenhamos qualquer dúvida que a repetição só é, excepcionalmente, positiva quando a solução arquitectónica tem elevada qualidade e, assim, a repetição não é excessiva ou não é sentida como excessiva.

Figura 03:


3 - Respeitar, aproveitar e enriquecer a história de cada sítio de implantação e a história de cada bairro, conjunto e solução específica; pois é fundamental ter em conta a variedade das histórias urbanas e sociais e das características arquitectónicas e humanas de cada local, seja para a vital fundamentação de cada intervenção – nova ou de reabilitação –, seja aprofundando-se a sua identidade e diversidade citadina em primeiro lugar.

É assim importante a localização urbana, os parâmetros urbanísticos, a variedade funcional, a caracterização integrada da morfologia do edificado e do espaço público, e a análise do seu estado de conservação; mas é igualmente importante considerar o que os habitantes têm a dizer sobre as percepções sobre o habitat, relação entre as interacções sociais e apropriação do espaço, e as ligações entre forma urbana de pormenor e modos de vida – e destaca-se que todos estes aspectos foram devidamente desenvolvidos e considerados no estudo, atrás apontado, coordenado por Pedro George, designado “A concepção do espaço público em grandes bairros de realojamento como pressuposto estruturador dos processos de inserção social".


Figura 04:

4 - Ter como objectivo primário o fazer ou o refazer de uma cidade amigável, direccionada para a necessidade que os idosos, as crianças e os jovens têm de um espaço urbano intensamente amigável e protegido, tendo-se, no entanto, uma atenção extrema à fraquíssima mobilidade dos idosos

Esta é uma matéria verdadeiramente estruturadora das soluções de integração urbana e de vizinhança, que tem de ser servida por aspectos específicos de pormenorização, visibilidade pública, gestão eficaz e policiamento de proximidade. É, portanto, uma matéria que tem de marcar a solução, no seu todo, e naturalmente a escolha de tipos de edifícios mais amigáveis e de fogos mais adaptáveis.

E tenhamos a certeza que se fizermos uma cidade mais amigável teremos de volta uma cidade mais habitada e viva pois são os idosos, as crianças e os jovens quem dá mais vida às vizinhanças e à cidade.


Figura 05:

5 - Assegurar uma integração plena na malha urbana, através de uma forte conexão e permeabilidade urbana das intervenções, estruturada em termos de projecto urbano de pormenor, mas também mediante a previsão de equipamentos conviviais, localizados e escolhidos de modo a que sirvam a cidade e que levem outras pessoas aos bairros e vizinhanças de HIS, e ainda através de um adequado serviço de transportes públicos; medidas estas urbanisticamente integradoras e que desfazem territorialidades excessivas – pois, como referiu há alguns dias o sociólogo Eduardo Vilaça, a hiper identificação pode levar a segregação.


Figura 06:

6 - Promover uma arquitectura urbana e residencial cuja solução global seja socioculturalmente adequada, pois nunca fará qualquer sentido alojar habitantes de barracas em edifícios altos e enormes, e faz sempre todo o sentido privilegiar soluções bem pormenorizadas, sem zonas “mortas”, que não levantem dúvidas sobre quem por elas é responsável, e adequadas a uma eficaz gestão de proximidade.

E importa desenvolver soluções marcadas por uma forte ligação entre exterior e interior, cujos espaços públicos tenham forma, função e gestão bem clarificadas e definidas, e usos bem visíveis para serem naturalmente acompanhados/controlados, sendo vitalizados por equipamentos com verdadeira função cultural, social e convivencial e que nunca criem obstáculos à continuidade urbana, ou estejam afastados dessa continuidade. E nesta matéria é fundamental que o comércio convivial tenha localizações estratégicas, que sirvam os cidadãos em geral, seja os moradores do bairro seja os da envolvente.


Figura 07:

7 - Privilegiar soluções específicas que respeitem e formalizem as escalas que são as mais adequadas para as diversas tipologias de arquitectura urbana, considerando estas tipologias numa união “simbiótica” entre edifícios e respectivas envolventes ou vizinhanças contíguas.

Há que diversificar funcionalmente e em termos de imagens os espaços públicos, como ruas e pracetas; projectando-os com enorme atenção e sensibilidade, pois a cidade nunca se fez de ruas-tipo com pisos térreos contínua e cegamente comerciais, nem de padrões sem fim de pracetas sempre iguais; e, afinal, sempre houve a tendência de existir uma rua principal e uma ou duas praças mais importantes e distintas em cada povoado.


Figura 08:

8 - Reconhecer e usar com coerência e plenitude o papel protagonista do verde urbano: em termos efectivo e afectivo, e tanto nas novas intervenções como nas acções de reabilitação e regeneração; e nestas acções respeitar verdadeiramente o verde urbano como elemento de grande importância caracterizadora e ambiental e não o “tratar”, “simplesmente”, como mais uma especialidade técnica que tem de integrar o projecto e “pronto”.

O verde urbano TEM de ter verdadeira qualidade e estar coerentemente integrado na solução urbana aplicada.


Figura 09:

9 - Atender cuidadosamente à escolha das tipologias de edifícios e de habitações. Nesta matéria a ideia é que uma diversidade tipológica bem fundamentada é essencial e que, por exemplo, no realojamento de pessoas provenientes de barracas e habituadas a um forte contacto com o solo é extremaamente negativa a opção por edifícios com altura elevada e com acessos por elevadores e escadas interiorizadas, pois estas soluções afastam as pessoas do espaço público e isolam-nas umas das outras, obrigando idosos e outros grupos sensíveis a uma verdadeira reclusão nas suas habitações.

E aqui, como quase sempre, os grupos sociais mais sensíveis serão aqueles mais prejudicados: idosos, deficientes, crianças, jovens, mulheres que não trabalham fora de casa, tenderão a ficar prisioneiros das suas pequenas habitações, tantas vezes nelas verdadeiramente entrincheirados e receosos de atravessarem os longos, escuros e pouco ou nada visíveis espaços comuns , que muito provavelmente estão já dominados por grupos de marginais.


Figura 10:

10 - Cuidar de uma adequada pormenorização do edifício e da sua envolvente; e aqui há que referir que é possível e deveria ser obrigatório aplicar neste nível físico uma concepção extremamente cuidada, designadamente, no acabamento dos pisos térreos e dos espaços comuns, na disponibilização de boas condições de segurança e de conforto ambiental e na previsão de adequadas condições de durabilidade e de manutenção, associadas a uma gestão local eficaz e que deve ser promovida logo desde o início da ocupação.

E às vezes é sábio fazer pequenas comparações entre variadas formas de pensar a pormenorização, ou talvez sobre várias formas de encarar uma ética arquitectónica, de desenhar com cuidado e extensão todo o espaço objecto do projecto, mas à sociedade julgo que cabe até o dever de polícia sobre certos tipos de atentados ao bem público e à estima para com o espaço urbano que habitamos e que nos deveria atrair, mas que, por vezes, surge perfeitamente não pormenorizado e desprezado.


Figura 11:

11 - E considerar a adequação sociocultural e humana das tipologias habitacionais, uma matéria que se liga com variados aspectos:

- O podermos estar a fazer soluções domésticas “tipo” muito provavelmente para famílias-tipo que já não são bem aquelas que existem na realidade, e aqui há matérias de composição familiar, de envelhecimento populacional, de misturas funcionais pouco adequadas a novas formas de habitar, de papel dos diversos membros do agregado nessas funções, de existência frequente de mistura entre habitação e trabalho e de adequação a exigências e formas específicas de habitar o espaço doméstico.

- O estarmos a considerar soluções intensamente tipificadas e repetidas, pouco adaptáveis, excessivamente hierarquizadas em termos funcionais e frequentemente marcadas por problemas funcionais e de conforto ambiental, marcadas por uma reduzida espaciosidade, por deficientes condições de conforto ambiental (insolação e luz natural, ventilação, isolamento térmico e insonorização) e por deficientes condições de funcionalidade básica, por exemplo, em termos de reduzidas condições de arrumação, condições estas últimas críticas quando associadas a reduzidas áreas domésticas.

- E a crítica ausência de soluções globalmente adequadas a modos e desejos habitacionais específicos; por exemplo a vontade de um dado habitante continuar a ter um pequeno quintal ou espaço verde a que possa chamar seu, assim como a crítica ausência de soluções domésticas diversificadas e adaptáveis, proporcionando alguma escolha inicial, e expressivamente adaptáveis a diversas formas de usar e apropriar a habitação; e aqui todos sabemos que a rígida hierarquização funcional é um fato de modelo único e que ainda por cima quando o seu tamanho é pequeno só irá servir e ficar bem a um número muito reduzido de famílias e de pessoas.

Nota final: as reflexões acima apontadas devem muito à oportunidade de ter assegurado o comentário técnico global sobre o óptimo e recente estudo intitulado “A concepção do espaço público em grandes bairros de realojamento como pressuposto estruturador dos processos de inserção social", desenvolvido por Pedro George, Ricardo Sousa Lopes e Filomena Gerardo e pelos consultores Eduardo Vilaça e Flávio Paiva; o comentário foi realizado quando da apresentação pública do estudo e algumas das reflexões acima apontadas decorrem directamente quer de aspectos de conteúdo do referido trabalho, quer de matérias suscitadas durante a respectiva sessão de apresentação.

E desde já se salienta o grande interesse que sem dúvida terá a urgente edição em livro do referido estudo, pois é tempo de haver sólidos consensos sobre as problemáticas do realojamento e as conclusões deste trabalho são muito úteis e adequadas nesse sentido.

Infohabitar, Ano VI, n.º 296

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Editor: António Baptista Coelho

Edição de José Baptista Coelho

Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 2 de Maio de 2010

domingo, abril 25, 2010

295 - Habitação e Arquitectura III: a Comunicabilidade - Infohabitar 295

Infohabitar, Ano VI, n.º 295

Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial
Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: a Comunicabildade Arquitectónica Residencial


artigo de António Baptista Coelho



Introdução geral

Nas páginas seguintes apontam-se alguns aspectos que têm sido constante e sistematicamente ponderados, na sequência da aplicação dos conceitos ligados aos diversos rumos de qualidade arquitectónica residencial. Não se trata, assim, da sua respectiva e clarificada estruturação, mas apenas da sua ponderação cuidada, considerando os anos de prática de análise, que já decorreram desde a sua formulação inicial.

Sublinha-se que se trata de matérias tão ligadas à concepção residencial e urbana que muitas vezes os bons projectos e os bons projectistas as integram de forma natural, sendo que naturalmente há na realidade uma sua aplicação muito mais comum do que o que pode ser sugerido por uma apresentação sistemática e individualizada como aquela que se faz em seguida, mas este é o único processo que temos de ir conhecendo e aprofundando estas temáticas, que, frequentemente, têm lugar cativo nas boas memórias descritivas dos bons projectos de Arquitectura.

Regista-se, em seguida, o plano editorial previsto no Infohabitar, que, repete-se, será, descontínuo, alternado por outras edições e realizado à medida da elaboração dos respectivos artigos (a bold os temas já editados):

Infohabitar n.º 290 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: Introdução
A matéria da relação e do contacto entre espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 291 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: Acessibilidade - facilidade na aproximação ou no trato e desenvolvimento de continuidades naturais por prolongamentos e múltiplas ligações.
Infohabitar n.º 295 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: Comunicabilidade - a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual.

A matéria da caracterização adequação de espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: Espaciosidade – referida, tanto aos espaços que são extensos e amplos como aos que apresentam desafogo nas suas envolventes.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: Capacidade – que designa e qualifica o âmbito interior (dentro dos limites) ou a aptidão geral, espacial e ambiental, de qualquer elemento residencial.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: Funcionalidade – refrida ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais.

A matéria do conforto espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: Agradabilidade – referida ao desenvolvimento de condições de conforto, bem-estar e comodidade, nos espaços e ambientes residenciais.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII: Durabilidade – qualidade do que dura muito ou, melhor, do que pode durar muito e em excelentes condições de manutenção.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IX: Segurança – o acto ou efeito de tornar seguro, prevenir perigos, (tranquilizar).

A matéria da interacção social e da expressão individual é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X: Convivialidade – referida ao viver em comum, ao ter familiaridade e camaradagem, à entreajuda natural ou sociabilidade entre vizinhos.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XI: Privacidade – referida à intimidade e capacidade de privança oferecida por um dado espaço num dado ambiente.

A matéria da participação, identificação e regulação é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIII: Apropriação – referida à capacidade de identificação, à acção de "tomar de propriedade", tornando próprio e a si adaptado.

A matéria do “aspecto” e da coerência espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIV: Atractividade - a capacidade de dinamizar e polarizar a atenção.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV: Domesticidade – referida à expressão mais pública ou doméstica do carácter residencial.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: Integração – que é a integração ou integridade de um contexto, e de uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação.



Fig. 00: capa da edição do LNEC " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - ITA 8, da Livraria do LNEC, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=52319.php

Salienta-se ser possível aprofundar estas matérias num estudo editado pelo LNEC que contém um desenvolvimento sistemático dos rumos e factores gerais de análise da qualidade arquitectónica residencial, que se devem constituir em objectivos de programa e que correspondem à definição de características funcionais, ambientais, sociais e de aspecto geral a satisfazer para que se atinja um elevado nível de qualidade nos espaços exteriores e interiores do habitat humano.

Sublinha-se, no entanto, que a abordagem que se faz, em seguida, às matérias da comunicabilidade, enquanto qualidade arquitectónica residencial, corresponde ao revisitar do tema, passados cerca de 15 anos do seu primeiro desenvolvimento, e numa perspectiva autónoma e diversificada relativamente a essa primeira abordagem.



Fig. 01

Introdução à comunicabilidade arquitectónica residencial

A comunicabilidade é a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual, concretizando-se, tanto em propostas directas de deslocação, como em ofertas de vistas e de contactos ambientais essencialmente baseados na dimensão visual.

A comunicabilidade corresponde, assim, à ligação, à correspondência ou ao contacto físico ou visual entre espaços, incorporando as interferências - directas ou memorizadas - de aspectos representativos de outros espaços e ambientes contíguos ou próximos.

E desta forma, tal como se tentará apontar nas páginas seguintes, a comunicabilidade é uma qualidade arquitectónica residencial com elevado valor em termos de concepção do projecto e com vital importância na fusão entre edifícios e espaço público citadino.

A comunicabilidade é, com alguma naturalidade, e no que se refere aos espaços urbanos e residenciais, a parceira da acessibilidade, pois boas relações de comunicabilidade ajudam a estruturar as relações de acessibilidade e são elementos-base de caracterização da arquitectura urbana nos seus diversos níveis físicos e relações ambientais.

E podemos dizer que a capacidade de fazer inter-comunicar diversos espaços do habitar, ultrapassa claramente a dimensão, talvez mais física, das respectivas relações de acessibilidade, sendo importante elemento de caracterização das soluções desenvolvidas.

Aspectos estruturadores da comunicabilidade
. Estratégia de relações e contactos físicos, visuais e sonoros; tem a ver com o modo como observamos, e com a caracterização da observação e das posições relativas entre observadores e elementos observados.

. Apoio ao desenvolvimento de base(s) de configurações e de sequências urbanas: através de um vocabulário urbano diversificado; e da estruturação de vistas - desde a vista "livre" à "passagem secreta".

. Desenvolvimento de uma comunicabilidade flexibilizadora de relações espaciais, designadamente, interiores e alternativas, ou de relação interior/exterior.

. Desenvolvimento de relações diversificadas entre espaços designadamente nas relações entre diversos níveis físicos.

. Aprofundamento de uma comunicabilidade enriquecedora e diversificadora dos variados cenários do habitat, designadamente, pelo enriquecimento e qualificação de vistas por "enquadramentos".



Fig. 02

A comunicabilidade, da habitação, à vizinhança e ao bairro
Ao nível da habitação e do edifício habitacional os respectivos vãos (janelas, portas, pisos vazados e outros "intervalos" na massa edificada) asseguram a fruição do exterior nos seus espaços interiores, assim como asseguram, por vezes, a "transparência" condicionada, focalizada e filtrada, em sentido inverso.

A fruição do exterior nos espaços interiores domésticos, para além de aspectos essencialmente ligados ao conforto ambiental (que serão abordados sob um ponto de vista intensamente arquitectónico, quando reflectirmos aqui sobre a agradabilidade e o bem-estar), assume também uma natureza densamente arquitectónica, que se traduz na transparência e "projecção" do exterior residencial - de paisagens amplas, médias ou de grande proximidade (definindo-se distintos e sempre ricos quadros de relação com o exterior) - sobre partes bem escolhidas do interior que habitamos.

A "transparência" condicionada, focalizada e filtrada do interior residencial comum ou doméstico sobre espaços de uso comum ou mesmo sobre as margens dos espaços privados, serve num revelar estratégico e mitigado dos conteúdos residenciais, que pode ser de grande importância na caracterização de uma dada vizinhança e mesmo de um dado bairro; de certa forma enriquece a identidade e o carácter do sítio que habitamos e transporta para o exterior urbano algum do sentido de "casa" e os associados sentidos de abrigo, segurança e apropriação.

A comunicabilidade urbanística desenvolve-se a um outro nível bem distinto, por um lado, fisicamente mais amplo, e, por outro lado, menos palpável da comunicabilidade, mas que se refere e estrutura muitos dos aspectos da imagem urbana pormenorizada, garantindo continuidades estrategicamente "perfuradas" por passagens, enfiamentos de ruas e ruelas que concentram e focam a atenção nos respectivos pontos de remate urbano, sítios de fruição paisagística ampla, como acontece nos miradouros, mas também sítios de forte fruição paisagística por mudança radical da caracterização ambiental, como acontece, numa rua que é rematada ou bordejada por um jardim ou por um parque, ou numa pequena rua sossegada e íntima que, de repente, se abre numa praceta relativamente animada e muito pública.

Nestas matérias importa ainda considerar o papel da comunicabilidade como elemento de coesão visual e/ou física de cada vizinhança residencial, podendo aqui substituir-se, estrategicamente, a comunicabilidade física apenas pela visual, dando-se noções de pertença mais aparentes do que reais, solução esta frequentemente muito útil quando se querem definir espaços visualmente coesos mas fisicamente marcados por algumas reservas ou condicionalismos de usos; e aqui haverá grande interesse nas transparências domésticas que foram referidas acima.

E, depois, há ainda a comunicabilidade considerada como permeabilidade estratégica entre bairros ou conjuntos urbanos significativos, uma condição que tem a ver com o poder-se "passar entre" esses conjuntos e atravessá-los funcional e agradavelmente, sendo impressionados pelas suas características de abertura e coesão específicas, características estas que devem ser potenciadas em determinados sítios de abertura urbana, onde para além de se ter uma interessante leitura dos percursos que aí chegam e que daí partem, se tem uma perspectiva estimulantemente explicativa e eventualmente parcial e atraentemente velada desses mesmos percursos e dos seus canais urbanos; e em tudo isto é essencial um adequado tratamento da comunicabilidade urbana em termos de "imagem urbana" - e nesta matérias é evidente que há sempre que aprender com o tratado de Gordon Cullen.




Fig. 03

Estratégias de comunicabilidade
A comunicabilidade arquitectónica residencial tem a ver não só com a possibilidade real de deslocação entre dois espaços, e portanto, e tal como se sublinhou, com a acessibilidade, mas também: ~

. com os modos como essa deslocação se pode fazer, mais ou menos directamente e com as maiores ou menores interferências e influências humanas e espaciais ou ambientais registadas nessa comunicação - proporcionando-se, por exemplo, a clarificação antecipada de alternativas de acessibilidade entre dois espaços;

. e ainda com a percepção essencialmente visual - directa ou memorizada - de aspectos representativos de outros espaços e ambientes contíguos ou próximos, nas sempre essenciais cadeias e sequências de espaços e de pontos de vista úteis e significantes - por exemplo, as vistas próximas ou paisagísticas entre diversos espaços e ambientes.

A comunicabilidade arquitectónica residencial ao nível urbano: um mundo de relações que é, afinal, matéria de base da concepção

Como já se sugeriu e se tentará desenvolver, em seguida, a comunicabilidade é um aspecto fundamental da concepção arquitectónica, que nas áreas urbanas e residenciais, tem de veicular e servir seja objectivos urbanos, de coesão e convivialidade, seja objectivos residenciais, mais estritos ou delimitados, de sossego, pertença, protecção, privacidade doméstica bem disseminada e agradabilidade em termos de conforto ambiental e visual, designadamente, na relação entre interior e exterior.


E assim e tal como se aponta no próprio título deste texto a comunicalidade baseia-se na construção de um verdadeiro mundo de relações, um mundo que com necessária naturalidade se deve repartir e articular em sub-mundos, mutuamente e reguladamente comunicantes, seja em termos visuais como em termos físicos, chegando-se aqui às matérias e aos elementos responsáveis pela acessibilidade, pois esta é directamente servida pelas relações visuais e, por sua vez, qualifica a comunicabilidade, em conjuntos de sequências urbanas que apenas devem ser entendíveis, numa escala de proximidade e de leitura pedonal, através de verdadeiros "fios de Ariadna", pois só assim existirão espaços urbanos ricos e atraentemente orgânicos, que proporcionem um longamente renovado prazer, quando percorridos e usados em permanência e ao longo de anos - pois só assim saberemos fazer e refazer uma verdadeira cidade, aquela que não se esgota nos seus "mistérios".

Em tudo isto importa ter bem presente que as ligações entre espaços realizam-se, tanto entre interior e exterior (e vice-versa), como entre espaços exteriores com diversas características, ou entre interiores variados; afinal, como afirmou Le Corbusier, "o exterior é sempre um outro interior" e podemos acrescentar, com o devido respeito, que o interior vai sempre variando, estrutural e ambientalmente, na sua ligação com o exterior.

Uma boa comunicabilidade arquitectónica residencial existe embebida nas respectiva relações de acessibilidade, mas tem de "viver" para além de tais percursos objectivos, caracterizando um interior que seja também, parcialmente, um exterior (por exemplo numa zona doméstica junto a um lugar-janela), e um exterior que seja, quase predominantemente, uma espécie de grande interior comum ou semi-público muito amplo e versátil, mas muito amigável, e é importante ter em conta a desejada continuidade deste exterior como elemento vital nessa amigabilidade - um tema bem interessante e que merecerá desenvolvimento noutras oportunidades.

Aprofundando e clarificando tais aspectos podemos sublinhar que a natureza básica da comunicabilidade se fundamenta, exactamente, na resolução do que Rudolf Arnheim refere como uma "contradição paradoxal entre: (i) a mútua exclusividade dos espaços interiores autónomos e contidos entre si e de um mundo exterior igualmente complexo e (ii) a necessária coerência de ambos como parte do meio ambiente humano indivisível"; constatação, esta, que o autor considera justificativa da afirmação de Wolfgang Zucker "de que a construção de um limite que separe o interior do exterior é o acto arquitectónico primevo" (1).

A comunicabilidade nos espaços públicos versus a comunicabilidade nos espaços edificados

A comunicabilidade é uma qualidade fundamental na garantia de coesão entre exteriores - desde as relações com a envolvente às conjugações e sequências de vistas urbanas – e entre exteriores e interiores, construindo, complementar ou paralelamente com a acessibilidade, continuidades e relações físicas e visuais. E é interessante registar que entre exterior e interior, mudam apenas as escalas e as pormenorizações das intervenções.

A comunicabilidade nos espaços públicos

A comunicabilidade suporta a acessibilidade, marca-a visualmente, clarifica e pontua sequências de vistas e aberturas paisagísticas, aproxima-se da respectiva paisagem envolvente mantendo conexões estimulantes com determinadas famílias de espaços públicos, e aproxima-se e eventualmente trespassa o edificado assegurando, também, tais conexões, embora, naturalmente com escalas e pormenorizações coerentes.

A comunicabilidade na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios
Na vizinhança do edifício as relações visuais devem favorecer as sequências de acesso e, eventualmente, enquadramentos e transparências espaciais, que sirvam, quer extensões estratégicas e/ou virtuais dos espaços exteriores sobre os interiores, seja relações inversas, marcadas por enquadramentos estimulantes do exterior de vizinhança a partir do interior do edifício.

Mas para além destes aspectos básicos será aqui, nestes espaços de transição e de limiar que muita da qualificação arquitectónica pormenorizada terá lugar, pois é aqui, por vezes em espaços ricamente ambíguos, que se cativam muitos dos aspectos que irão tornar uma dada vizinhança urbana e residencial "única" e estimulante para quem a habita; mas destas matérias falaremos um pouco mais na parte final deste texto, dedicada aos aspectos da comunicabilidade sobre os quais importa reflectir.

A comunicabilidade nos espaços edificados e nas habitações

Quanto ao edifício bastaria a importância da sua pele (fachadas, empenas, gavetos, etc.) para afirmar o protagonismo arquitectónico da comunicabilidade a este nível.


Há, no entanto, ainda todos os jogos de relações entre interior e exterior, e vice versa, quer mais envolventes, quer mais pontuais e até interiorizados (ex. pátio ajardinado, luz zenital estratégica) que, tanto de forma essencialmente ambiental (num sentido lato e na vertente do conforto), como em articulação com os aspectos das relações interpessoais e interambientais, configuram situações arquitectónicas com enorme interesse para a satisfação habitacional (ex. vistas alternativas e funcionais) e para a riqueza ambiental do habitat humano.

Ligado a estes aspectos evidencia-se, assim, o papel da comunicabilidade na conjugação entre o relacionamento visual interior e de conjugação com o exterior, e diversos aspectos da agradabilidade ou conforto ambiental.

As ligações entre espaços fundamentam-se na "territorialidade" ou apropriação, seja individual seja colectiva, dos diversos espaços residenciais, mas com relevo para aqueles mais intimamente ligados às habitações. Não será, por exemplo, por acaso que no "Quality Housing Program", aprovado em 1987 pela "New York City Planning Commission" e citado por Elisabeth Mackintosh (2), se definem limites ao número de fogos por galeria servidos pelo mesmo elevador ou escada (um máximo de 15 fogos), com base na facilidade do "reconhecimento ou identificação vicinal", dos vizinhos e dos estranhos, em cada piso; e teremos, assim, um importante campo de estudos e concepção associado ao desenvolvimento de agrupamentos de habitações em contiguidade, que aliem uma presença unitária muito sóbria e bastante independente, na fruição de cada habitação, com uma imagem global clara, que valha como totalidade, que comunique essa totalidade, em termos de imagem, mas não perdendo uma expressão de grupo de habitações com identidade própria; e as expressões de comunicabilidade do conjunto, de cada grupo de habitações mais próximas, e de cada habitação têm a ver com esse desejável equilíbrio e, infelizmente, são raramente consideradas, aliás, como muitos dos outros aspectos aqui abordados.

E continuando a citar a mesma Elisabeth Mackintosh nas suas referências às exigências desse Programa, muito ligadas à comunicabilidade, teremos que: "os espaços abertos devem ser vedados e visíveis a partir dos espaços comuns integrados no edifício. Escadas e elevadores devem ser visíveis a partir da rua, e as portas dos fogos devem ser colocadas de tal modo que sejam visíveis a partir dos elevadores". Aspectos estes associados ao desenvolvimento de boas condições de segurança, mas que proporcionam, igualmente, as referidas imagens de unidade e individualidade.

Para finalizar a concretização da "ideia" habitacional de comunicabilidade importa ainda salientar a sua aplicação como possibilidade ou capacidade de fazer estender, esporádica ou periodicamente, certos espaços sobre outros, tanto em termos concretos, como por dilatações visuais e aparentes de determinados compartimentos através de outros com os quais comunicam ambientalmente.

Ao nível do interior doméstico todos conhecemos a antiga solução que fazia os compartimentos ligarem-se entre si, sem corredores, ou, quando havia capacidade económica para tal, numa alternativa extremamente versátil aos corredores, e sendo que estes, em última instância, podem crescer em dimensões de modo a constituírem verdadeiros compartimentos alongados e multifuncionais. Esta é uma matéria muito associada a aspectos concretos de acessibilidade mas que assume importância específica em termos de capacidade de espaços contíguos e intercomunicantes, através de vãos mais ou menos amplos e efectivos - desde a pequena porta entre compartimentos à grande gola sempre aberta, passando por opções sempre interessantes de portas e paredes de correr -, poderem assumir, de facto, papéis domésticos distintos, complementares e muito versáteis, numa perspectiva que muito se liga às novas formas de habitar e às matérias da adaptabilidade e que, portanto, será retomada quando se tratar aqui desta qualidade.



Fig.04

Carácter e importância específica da comunicabilidade
O carácter eminentemente visual da comunicabilidade, logo dinâmico e muito personalizado, não pode inibir um seu cuidado tratamento, pois está em jogo desde a imagem da cidade, através da visão serial e por conexões mútuas entre espaço público e espaço edificado – através da pele do edificado -, e ainda a imagem integrada do próprio espaço edificado por relações mútuas entre espaços interiores e entre estes e os vãos de ligação à imagem da cidade e da vizinhança.

A importância da percepção visual na comunicabilidade é explicável por duas ordens de razões:
tanto pelo seu papel no desenvolvimento de posicionamentos relativos entre vários espaços e ambientes e nos consequentes indícios e pólos de orientação assim conseguidos - referidos frequentemente marcação de sedes de actividades e de início e finalização de percursos;
como pelo seu não menos importante papel no desenvolvimento da fruição real e prolongada (através dos diversos espaços do habitat) da integração paisagística e urbana dos vários elementos habitacionais.

Este último aspecto que sublinha o papel da comunicabilidade visual e física na fruição paisagística e urbana dos vários elementos habitacionais é em boa parte responsável pelo estímulo à deslocação e ao (con)viver real na totalidade do habitat, descobrindo-se e redescobrindo-se continuamente os seus territórios e neles, naturalmente, convivendo.

Não será difícil imaginar um espaço urbano, praticamente sem relações de comunicabilidade, "vivendo" em canais bordejados por paredes "cegas", sem janelas e portas, e sem aberturas de ruas, e logo temos um cenário de pesadelo ; uma imagem paradigmática, mas que tem imagens aproximadas em muitas periferias sem qualidade e espaços urbanos residuais.

E talvez seja um pouco mais difícil de imaginar, mas é também muito negativa, a situação oposta de um espaço urbano sem delimitações, em que tudo, ou quase tudo, é abertura e relação; uma imagem que encontra situações parecidas em conjuntos urbanos ditos modernistas, com edifícios altos "dispostos na paisagem", e onde esse espaço sem limites que, teoricamente, teria de ser um grande jardim bem mantido, o que raras vezes acontece, pois fazer um tal jardim não é fácil e custa dinheiro na instalação e na manutenção, acabando por "sobrarem", quase por regra, enormes espaços pouco ou nada pormenorizados e tratados, abandonados, onde, frequentemente, impera a lei da velocidade e do automóvel.



Fig. 05

Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a comunicabilidade arquitectónica residencial

Em termos de reflexão geral apuram-se, para já, os seguintes aspectos.
Considerando as ideias que foram aqui desenvolvidas parece sermos remetidos para uma comunicabilidade muito delimitada à "casca" dos edifícios, às suas fachadas, basicamente planas e percebidas, essencialmente, como frontalidades.

E, no entanto, esta não é uma limitação real, porque "há maneiras do arquitecto mostrar a tridimensionalidade de uma forma ao mesmo tempo que preserva a frontalidade" (3). E os espaços e elementos de comunicabilidade que atravessam ou, por vezes, se apõem a essas fachadas, tais como vãos profundos de portas e janelas, varandas e balcões, arcadas, pisos total ou parcialmente vazados ou perfurados e panos "falsos" de fachada, são todos elementos que acentuam ou sublinham, com clareza e força de expressão, mas de forma efectiva mas subtil, e de variadas maneiras, a leitura do volume edificado, da massa edificada ou dos seus planos constituintes - sempre vários elementos de base que são panos de fundo ou elementos de enquadramento dos vãos que asseguram a comunicabilidade e as relações entre espaços e ambientes, por via da sua respectiva leitura e uso pelos habitantes.

Um "outro" elemento de comunicabilidade, neste caso entre edifício e céu, por vezes esquecido, é o remate superior das edificações, que também contribui para a leitura volumétrica destas e para o seu relacionamento ambiental com a envolvente.

Sobre este assunto Arnheim escreveu que "uma cobertura em bico ou com arestas, para além das suas funções de ordem prática, continua a configuração do edifício para lá do plano frontal, fá-lo penetrar na dimensão de profundidade e ajuda assim a defini-lo aos olhos como um sólido. Os andares recuados provocam mais ou menos o mesmo no caso dos edifícios muito altos" (4).

Afinal, na vertical, a relação entre edifício e céu e entre solo e céu, por intermédio do edifício, é estruturada também pela perspectiva, e nesta assume especial relevo o remate do edifício (transição entre ele e o vazio); esta é a outra dimensão real da profundidade urbana (o reino dos contrastes entre ruas estreitas e quase fechadas, obscuras e íntimas e outras largas, luminosas e arborizadas) (5), porque os remates dos edifícios constituem, naturalmente, o remate da rua em que se integram (6).

Sintetizando e tal como refere Alfonso Stochetti (7), "janelas, portas, varandas e terraços não são apenas instrumentos inventados para dar luz e área aos edifícios... servem também aquela relação com a natureza exterior... com a vida, que é a característica principal do nosso planeta."

E, mais à frente, o mesmo autor, depois de enumerar os variados tipos de espaços e elementos de relação entre interior e exterior, ainda vai mais longe, afirmando que as fachadas, onde existem estes elementos, devem ser desenhadas como "uma oferta à cidade e à vida que se desenvolve nos espaços públicos". E neste diálogo com o espaço público as fachadas dos edifícios devem favorecer a perspectiva, porque esta transmite ao edifício a dimensão da profundidade urbana.

Afinal e tal como conclui Arnheim, usando o título que corresponde à parte do seu livro que tem sido aqui citada, trata-se de "tornar visível o edifício".

E, complementarmente, e citando uma excelente obra de Jean-Charles Depaule, nesses espaços abertos na "casca" do edifício os habitantes podem ainda ganhar alguns metros quadrados úteis, "reencontrando na espessura de uma janela ou na profundidade de um balcão o substituto de um lugar a céu aberto, que faz falta, a possibilidade de melhor controlar o calor e a luz interiores, de redefinir territórios e de regular as relações com outrem”(8). E podemos acrescentar que, sendo poucos metros quadrados, são metros quadrados riquíssimos, marcados por uma qualidade vivencial e urbana ou paisagística ímpar, que praticamente tem tudo a ver com a comunicabilidade.

E é ainda Jean-Charles Depaule que nos nega que assim se caminhe para uma lógica da barreira, aproximando-se de uma muito interessante definição de comunicabilidade como um certo modo de definir diferenças, materiais e territórios, portanto "limites", e de negociar relações, portanto "transições" e "limiares" e, afinal, não será a Arquitectura "mais do que um mundo de paredes, um mundo de limiares?" (9)

Considerando o que acabou de ser apontado e tendo em conta que este mundo de limiares se estende dos edifícios e entre os edifícios, qualificando um cenário urbano, feito de muitas cenas, a comunicabilidade é uma qualidade arquitectónica, apenas aparentemente menos objectiva, que está na base dos processos de projecto unificado dos espaços urbanos e edificados.

Esses limiares, desenvolvidos numa rede fina de planos e de espaços, servem tanto de remate e formalização espacial, como de uso directo, pois sempre gostámos de perambular e permanecer nesses espaços neutros, protegidos e estratégicos, espaços de "limbo" onde, de certa forma, estamos, agradavelmente, tanto lá como cá, e, também, naturalmente, porque tais espaços são protagonistas na formalização das sequências de vistas e das vistas mais estáticas que perfuram e dão boa parte do sentido à pele dos edifícios e aos invólucros, tantas vezes transparentes, dos espaços exteriores.

E há que sublinhar que tudo isto, toda esta dinâmica de relações de comunicabilidade, se traduz na conformação de limites, limiares, enquadramentos, charneiras e transições, sempre numa dupla perspectiva de criar demarcações que sirvam de rótulas de ligação e que tenham um adequado carácter de antecipação visual da experiência física ou de surpresa relativa, com escala mais urbana ou mais íntima.

Trata-se assim de dar corpo urbano e, naturalmente, residencial a uma qualidade extremamente arquitectónica ou de concepção, responsável pela transmissão de conteúdos funcionais e ambientais e, em parte, pela relação entre espaços, conjugando-se, privilegiadamente, com os fundamentais aspectos de privacidade e de promoção do convívio, designadamente, através da configuração de limiares, charneiras e transições; afinal um atributo na base da definição dos tão arquitectónicos e vitais sub-níveis físicos da arquitectura urbana.

E não se trata, aqui, de uma qualidade apenas urbana, pois encontra posição privilegiada, tanto na pele exterior do edificado – em jogos de espessura e enquadramento -, como no seu interior em motivadoras conjugações visuais. E, afinal, há grandes projectistas que defendem que o fazer Arquitectura se centra e baseia, essencialmente, na construção de sistemas de relações espaciais ou de um mundo de relações; e assim a comunicabilidade seria ela, em boa parte, a própria arquitectura: uma reflexão que fica lançada.

Em termos dos desenvolvimentos considerados mais interessantes nestas matérias da comunicabilidade urbana e residencial, salientam-se os seguintes temas de estudo.
A relação entre comunicabilidade e segurança é já bem conhecida, mas muito pouco aplicada . É fundamental estruturar a comunicabilidade de acordo com uma adequada estratégia de acessibilidade em segurança. Estratégia esta que deve ser servida pela clara e evidenciada junção ou divisão de espaços e ambientes, adequada e claramente apropriados pelos vários níveis de convívio (grupo de condomínios, condomínio, família).

Aprofundar a aplicação de cuidadosas estratégias de comunicabilidade na concepção, simultânea, de novas ou renovadas tipologias de edifícios residenciais e dos respectivos espaços urbanos contíguos. Será tratar de uma espessa pele edificada que seja também a pele da rua contígua, e, quem sabe, talvez que as actuais estratégias de desenvolvimento de edifícios e de espaços urbanos mais sustentáveis em termos de conforto ambiental possam ganhar com este caminho de concepção, pois é mesmo muito provável que tais "peles" e espaços de limiar e transição sejam muito propícios para se melhorarem as condições térmicas, de ventilação e acústicas interiores e exteriores, com a máxima utlização da energia solar passiva, da ventilação natural e dos fenómenos naturais de aquecimento e arrefecimento das massas de ar - e há aqui muito a lembrar de dispositivos tradicionais e bem usados como os que associam pátios e elementos de ventilação e varandas encerradas por janelas com múltiplos elementos controláveis (por exemplo, os moucharabiés que parece terem sido os percursores das bay-windows e de certa forma dos pequenos "jardins de Inverno" verticais).

E se aliarmos estas estratégias a um amplo proveito espacial arquitectónico nestas franjas de comunicabilidade, teremos resolvido boa parte da questão de integração desses sistemas ao mesmo tempo que ganhamos espaço e qualidade arquitectónica e vivencial. E temos aqui um interessante campo de investigação.

Uma outra questão poderá ter também um interesse específico, trata-se da identificação do tipo de conteúdos a privilegiar quando se comunicam mensagens urbanas e residenciais, e aqui há imediatamente uma matéria que ganha importância e que se refere a haver interesse em se privilegiarem mensagens marcadas pela sobriedade e dignidade, e associadas a ideias razoavelmente partilhadas pelo grande número dos habitantes, evitando-se, assim, quer um uso corrente e frequente de imagens discutíveis, quer um excesso de visibilidade de aspectos demasiado associados à apropriação particularizada de espaços e elementos residenciais por parte de determinadas pessoas. A comunicabilidade urbana e residencial deve privilegiar a comunicação de aspectos de urbanidade consensual e podemos ter aqui, também, um excelente campo de investigação.

Naturalmente, a afirmação de que a Arquitectura é essencialmente um jogo de relações, merecerá, também, adequados e variados desenvolvimentos.


Notas:

(1) Rudolf Arnheim, "A Dinâmica da Forma Arquitectónica", p. 81.
(2) Elisabeth Mackintosh, "Territoriality", em "Housing: symbol, structure, site".
(3) Rudolf Arnheim, "A Dinâmica da Forma Arquitectónica", p. 114.
(4) Rudolf Arnheim, "A Dinâmica da Forma Arquitectónica", p. 115.
(5) Realmente, a largura da rua e as vistas mais ou menos longíquas que sejam possíveis determinam a leitura dos tipos de cobertura escolhidos e assim como um telhado pode ter, com facilidade, uma leitura plana, um terraço pode ter uma leitura de telhado ou só ter leitura clara visto de longe.
(6)De um modo geral, e citando Heidegger por via de Alfonso Stochetti, podemos considerar que “habitar significa estabelecer-se entre o céu e a terra”, assim foi nos primeiros abrigos humanos, assim é hoje em dia.
(7) Alfonso Stochetti, “Spazi per la Vita degli Uomini”, pp. 107 a 114.
(8) Jean-Charles Depaule, "À Travers le Mur", p. 8.
(9) Jean-Charles Depaule, "À Travers le Mur", pp. 11 e 12.

Infohabitar, Ano VI, n.º 295
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 25 de Abril de 2010

domingo, abril 18, 2010

294 - Dois temas: um novo livro sobre "Desenho Universal Caminhos da Acessibilidade no Brasil"; e o fantástico "sítio" da Rua do Sembrano em Beja - Infohabitar 294

Infohabitar, Ano VI, n.º 294

Dois temas: Desenho Universal Caminhos da Acessibilidade no Brasil (novo livro); e uma reportagem sobre o fantástico "sítio" da Rua do Sembrano, em Beja, uma viagem na História, na Arte e na Técnica

A presente edição do Infohabitar divide-se em duas partes distintas:

. Uma primeira parte em que se faz a divulgação do próximo lançamento, dia 3 de Maio, em São Paulo, na Livraria da Vila-Lorena, de um novo livro sobre Desenho Universal e Acessibilidade, um lançamento que é duplamente importante, pois refere-se a uma temática cada vez mais pertinente e urgente numa sociedade cada vez mais urbana e envelhecida, e porque é realizado por um conjunto de colegas que muito estimamos, Maria Elisabete, Adriana de Almeida Prado e Sheila Ornstein, com um natural destaque, de amizade, para a Prof.ª Sheila Ornstein, que tem sido uma activa participante do nosso Infohabitar desde a sua primeira hora e que é um elemento-chave da intensa cooperação que, cada vez mais, se aprofunda entre o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP).

. E uma segunda parte, com uma reportagem de António Baptista Coelho, sobre a extraordinária intervenção na Rua do Sembrano, em Beja, uma obra de Arquitectura, de Arte e de valorização e divulgação do nosso património histórico que justifica, plenamente, uma deslocação àquela excelente cidade alentejana e que é editada, hoje, no Infohabitar, marcando-se, assim, condignamente, também aqui na nossa revista, o dia 18 de Abril de 2010, que é o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, e que este ano é dedicado ao PATRIMÓNIO RURAL E PAISAGENS CULTURAIS; e a intervenção na Rua do Sembrano parece ser uma interessantíssima valorização de um "sítio" e de uma micro "paisagem cultural", micro na escala física, mas "macro" na viagem histórica que nos proporciona. Salienta-se que a reportagem feita é basicamente de imagens acompanhadas por alguns textos retirados dos excelentes elementos de divulgação que nos foram facultados no local e que são devidamente referidos no artigo.

Lançamento de um novo livro
sobre Desenho Universal e Acessibilidade
Annablume Editora e Livraria da Vila-Lorena
convidam para o lançamento do livro organizado por

Adriana R. de Almeida Prado
Maria Elisabete Lopes
Sheila Walbe Ornstein


Com o título:
"Desenho Universal
Caminhos da acessibilidade no Brasil"

O lançamento terá lugar dia 03 de Maio de 2010, segunda-feira, das 19h às 22h, na Alameda Lorena, nº. 1731 - Jardim Paulista - São Paulo - SP. (11) 3062.1063
Assessoria de imprensa - Nicolau Kietzmann -
nicolau@annablume.com.br
(11) 8273.6669 - (11) 3070.3336 - skype: nkp161



Fig. 01: Capa da nova obra "Desenho Universal Caminhos da acessibilidade no Brasil"
Formato: 16 x 23 cm, 306 páginas
ISBN: 978-85-391-0055-2



Fig. 02:

A nova obra reúne 22 textos de profissionais, pesquisadores e
professores de todo o Brasil
, abordando temas como o ensino e a

pesquisa do Desenho Universal nas escolas de arquitetura, engenharia,
design e a interação de todo e qualquer cidadão-usuário com o desenho
da cidade e sua arquitetura, tendo em vista possíveis limitações
físicas ou cognitivas.

O livro está organizado em quatro capítulos, que, em seguida, se apontam:

. Conceituação e Procedimentos Metodológicos;
. Ambientes para a Moradia e para a Educação;
. Políticas de Acessibilidade: edilícias, urbanísticas, de
transportes e de turismo;

. Gestão no Processo de Projeto.

Salienta-se, ainda, que o livro tem prefácio do Prof. Dr. Wolfgang F.E. Preiser, co-editor do Universal Design Handbook (Mc Graw Hill, 2001), que apresenta, numa perspectiva internacional, a literatura, os principais eventos científicos e aplicações do Desenho Universal em termos de produtos, ambientes urbanos construídos e em uso.

A edição do Infohabitar e o Grupo Habitar enviam às autoras os parabéns por mais esta obra que sem dúvida irá constituir-se em elemento de referência nas urgentes matérias do desenho universal e da acessibilidade no habitar.




Fig. 03: o "sítio" da Rua do Sembrano, em Beja: a não perder

O fantástico "sítio" da Rua do Sembrano, em Beja, uma viagem na História, na Arte e na Técnica: uma reportagem fotográfica.
O "Núcleo Museológico da Rua do Sembrano", em Beja, é uma surpresa extraordinária que se tem quando se passeia nesta cidade alentejana e pretende-se neste pequeno texto contribuir para despertar o interesse do leitor por uma visita totalmente merecida.

Referem-se, em seguida e desde já, os dois excelentes elementos bibliográficos disponibilizados no local, indicando-se as suas iniciais de forma a serem facilmente feitas as referências respectivas nos textos que acompanham algumas das imagens e que foram retirados desses elementos bibliográficos; anota-se ainda que algumas das imagens de expositores, mapas e reconstituições visíveis nas fotografias têm autorias referidas, também, nestes elementos bibliográficos.

"Núcleo Museológico Rua do Sembrano" (iniciais: NMRS): coordenação de Rui Aldegalega e Susana Correia, texto de Susana Correia (com adaptação de textos de Carolina Grilo, José d'Encarnação, Maria da Conceiçao Lopes, Pilar Reis e Santiago Macias) e desenho de Carolina Grilo e Florbela David. A edição é da Câmara Municipal de Beja com colaboração da Direcção Regional de Cultura do Alentejo.

"A Arqueologia na Rede de Água de Beja" (iniciais: ARAB): concepção de Miguel Serra, textos de Miguel Serra, Maria Teresa Ferreira, Joaquim Dias e Sara Almeida, desenhos/reconstituições de José Luís Madeira, mapas de Nuno Ramalho e da Câmara Municipal de Beja, consultores científicos Santiago Macias, Ana Maria Silva e Sofia Wasterlain, apoio museológico de Susana Correia e Rui Aldegalega.



Fig. 04

Desenvolvem-se, agora, alguns comentários sobre o "Núcleo Museológico da Rua do Sembrano", em Beja, a título de notas breves de visita, que acompanham as imagens e que integram pequenas citações dos referidos elementos bibliográficos.

Confessando a ignorância, prévia, sobre a existência deste "sítio" de excelente confluência entre uso da cidade, história, arte e arquitectura, deve referir-se que o objectivo que havia na ida à Rua do Sembrano era "apenas" poder ver um mural de Rogério Ribeiro; e confessa-se, ainda, que a ideia que havia seria a de um "pequeno" mural, mais ou menos integrado numa qualquer operação mais ou menos interessante.



Fig. 05

Afinal, o mural - painel de azulejos - do grande Rogério Ribeiro lá estava, mas bem grande e, naturalmente, de grande qualidade, mas integra-se, e "faz sítio" novo e patrimonial com uma operação que conjuga facetas de recuperação e divulgação patrimonial e histórica, de marcação por nova Arquitectura, e de construção de um espaço urbano renovado e atraente.
E salienta-se que o referido mural se integra, também plenamente e com expressiva dignidade, na temática global da intervenção, numa marcação forte e sensível do tema da água na cidade antiga, tema que marca as ruínas da Rua do Sembrano, pois aqui existiram termas romanas, recriando-se esta temática da água na cidade, matéria que bem sabemos ser essencial na história urbana, "no seu sentido mais amplo e intemporal" - palavras de Rogério Ribeiro citadas em um dos elementos bibliográficos que foram referidos (NMRS).



Fig. 06

Há que referir que a intervenção na Rua do Sembrano se embebe com atraente naturalidade na continuidade da referida rua, servindo, por um lado, a funcionalidade da protecção, estruturação museológica e divulgação dos achados arqueológicos aí encontrados - e aos quais voltaremos neste texto -, mas fazendo-o de uma forma que mantém o carácter, a escala e a continuidade que marcavam e marcam a respectiva rua, e que proporciona o desenvolvimento de uma continuidade de amplas zonas pedonais bem estruturadas e estruturantes da cidade.

Também é interessante sublinhar, desde já, a sobriedade da intervenção, uma sobriedade que não reduz a sua riqueza arquitectónica global e em termos de pormenorização, e que serve a referida integração urbana e o importante reforço do carácter do "sítio". Um sítio que é agora uma nova totalidade que associa: a rua preexistente; com os novos achados arqueológicos disponibilizados à sociedade e à cidade; com a nova intervenção arquitectónica plena de estratégica neutralidade; e com a nova intervenção artística, o grande mural de azulejos, ele também pleno de uma activa sobriedade, como não podia deixar de ser, por ser obra do grande artista que foi Rogério Ribeiro.



Fig. 07

Dá vontade de dizer que assim vale a pena fazer nova Arquitectura, daquela que marca o nosso tempo, que serve a nossa cultura também por abrigar e divulgar o nosso passado, que dá mais espaço urbano e acrescenta melhor imagem urbana à cidade preexistente, e que tudo isto faz com uma sobriedade cidadã, digna e atraente; o projecto de Arquitectura é do Arq.º Fernando Sequeira Mendes e foi concluído em 2004, julgando-se que a obra estará concluída há cerca um/dois ano(s).

Referindo, agora, alguns aspectos de conteúdo histórico relativos ao "Núcleo Museológico da Rua do Sembrano", em Beja, com referência às iniciais dos dois elementos bibliográficos que nos foram facultados no local e que apontámos no início do texto teremos que:
"A escavação da Rua do Sembrano pôs a descoberto vestígios que se estendem, cronologicamente, desde a Pré-História até à Época Contemporânea." (NMRS)
Os mais antigos remontam "à Idade do Cobre ou Período Calcolítico, no 3.º milénio a.C. ... Deste período foi identificado um troço de robusta muralha de construção em pedra ligada com argila, que delimitava o perímetro do povoado antigo e, no seu interior, dois compartimentos definidos por muros, com pavimento de argila e caliço moídos e com pequenas estruturas de sustentação associadas (buracos de postes), que corresponderão a parte da zona habitacional." (NMRS)



Fig. 08

"A escavação da Rua do Sembrano trouxe novos elementos para a reconstituição de mais um pouco da Beja Romana (Pax Iulia), num lapso de tempo que se terá estendido do século I a.C. ao século IV d.C.. Neste local, à época um dos quarteirões da cidade, foram construídas umas termas, possivelmente de uma habitação privada (domus) ... Esta funcionalidade ter-se-á mantido ao longo do período romano, tendo, porém, as termas passado por diversas fases de construção, reconstrução e reorganização, sendo possível identificar aí diversas fases construtivas, desde o último quartel do século I a.C até finais do século I d.C ou inícios do século II d.C." (NMRS)
E faz-se, aqui, uma pequena nota de reflexão sobre os 400 a 500 anos em que esta casa foi sendo habitada e re-habitada; trata-se de uma dimensão temporal muito interessante.

"Os materiais recolhidos na escavação são extremamente abundantes." (muitos elementos estão atraentemente expostos no próprio local) "Destaca-se o achado de uma lápide com inscrição, que aponta, também, para a existência, neste local ou nas proximidades, de um pequeno templo do século I d.C, dedicado à deusa da fertilidade por uma antiga escrava, de origem africana, Julia Saturnina."(NMRS)



Fig. 09

" Os muros romanos virão, pela sua robustez, a servir de alicerces a habitações que, na Época Moderna ou mesmo já Contemporânea, foram construídas neste local." (NMRS)

" A descoberta dos vestígios arqueológicos data de 1983, quando se iniciou o trabalho de execução de fundações para uma habitação particular... A Câmara Municipal de Beja prontificou-se, então, a adquirir o terreno em causa, efectuando uma permuta com o seu proprietário, para que se garantisse a salvaguarda dos vestígios ... A escavação, efectuada pelo Museu Regional de Beja e pelo Serviço Regional de Arqueologia da Zona Sul do Instituto Português do Património Cultural, decorreu entre 1987 e 1995, tendo sido dada por concluída até à decisão definitiva quanto à utilização daquele espaço, tomada no ano de 2000, quando Beja foi seleccionada como uma das cidades a incluir no Programa Polis." (NMRS)
E não é possível deixar, também aqui, de comentar estarmos em presença do que parece ter sido um processo exemplar, concluído com a oferta à cidade e à sociedade de uma nova "jóia" patrimonial. Ficámos todos mais ricos com o processo e, com certeza, Portugal e as paisagens portuguesas muito ganhariam com a dinamização e replicação de processos deste tipo.



Fig. 10

O Núcleo Museológico da Rua do Sembrano acolhe uma interessante exposição sobre "Arqueologia na Rede de Água de Beja", temática aliás bem evidenciada no referido painel de azulejos de Rogério Ribeiro, citando-se, em seguida, um parágrafo sobre este tema retirado de um dos elementos bibliográficos que nos foram facultados no local e que apontámos no início do texto:



Fig. 11

"Um elemento imprescindível ao bem-estar das populações refere-se à higiene, sendo necessário dotar as cidades de equipamentos que garantam a salubridade. O pragmatismo dos romanos pode ser apreciado nas grandes obras de engenharia que cumpriam essa tarefa, como é o caso da cloaca (sistema de saneamento) escavada na Rua Conde da Boavista (Beja). O seu achado é também crucial para a compreensão da malha urbana de Pax Iulia, uma vez que nas cidades romanas dotadas de esgotos, estes seguem pela orientação das ruas, sendo a sua descoberta nas cidades modernas crucial para revelar o eixo das antigas vias." (ARAB)



Fig. 12:

Faz-se, ainda, uma menção específica para a qualidade dos elementos de design gráfico que enriquecem o núcleo museológico contribuindo para a sua sóbria mas marcada atractividade e para a recriação de um verdadeiro "sítio" de cultura que integra História, Arte, Arquitectura e vivência da cidade de hoje.



Fig. 13: uma imagem do Museu Jorge Vieira

Mais uma vez se deixa o desafio para uma excelente visita, que naturalmente encontrará na excelente cidade de Beja outros motivos de interesse, não podendo deixar de se referir o também extraordinário "sítio" que é o Museu Jorge Vieira, bem perto da Rua do Sembrano e realmente uma "paragem obrigatória para aqueles que pretendem conhecer a obra de um dos mais importantes escultores portugueses do século XX, ponto de partida para uma viagem pelo mundo da arte contemporânea, na cidade de Beja" (texto retirado de um elemento de divulgação do Museu, situado na Rua do Touro n.º 33, horário 3.ª a 6ª das 10 às 12.30h e das 14 às 18.30h, Sábado 10 às 12.30h e das 14 às 18.30h, Domingo das 14 às 18.30h, encerra 2ªs Feiras e feriados, tel. 284311920, museujorgevieira@cm-beja.pt )

E deixa-se um pequeno mapa para ajudar a encontrar O Núcleo da Rua do Sembrano (a vermelho) e o Museu Jorge Vieira (a verde).



Fig. 14

A título de breve comentário final salienta-se o que se julga ser a pertinência das temáticas abordadas neste artigo duplo, considerando-se as múltiplas áreas de actuação do Grupo Habitar.

Infohabitar, Ano VI, n.º 294
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 18 de Abril de 2010